Arquivo da Categoria: aspirinas

Citações de ESTACA

OS SEGREDOS DA CAROCHINHA

Nos meus tempos de rapaz, grande parte da minha curiosidade era dominada pelo desejo de explorar os currículos extra-escolares e os segredos dos homens de calo, de migas e azeitonas, suor mal pago, muita ganga e pouca missa. Alguns desses homens roçavam os quarenta anos de esperança no futuro e outros a velhice desanimada e descrente, mas todos devidamente educados nos Institutos de Tropeção-de-Baixo e Trambolhão-de-Cima. Essa gente boa e inocente nunca, nunca enjeitava uma oportunidade para me “abrir” os olhos e revelar-me os seus segredos. O serviço era gratuito, sem maldades estudadas — algo que me beneficiava, mas nem sempre, como vim a saber mais tarde. Nunca havia falta de pregadores auto-nomeados, graves e peremptórios nas declarações das suas crenças, politizados, mentalizados, devidamente endoutrinados e generosamente distribuídos pelo mapa da Aldeia Grande de Sordovelhas, a minha terra natal.

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Jornalistas by Nik

Eu acho que os jornalistas que andam a molhar a sopa no “caso Freeport” e a armar manigâncias contra determinados políticos deveriam também ser submetidos ao mesmo “inevitável escrutínio” (expressão de Vasco Pulido Valente, há dias, no Púbico) a que o PM tem vindo a ser sujeito. Ou há moralidade ou comem todos, diz o povo.

O “quarto poder”, justamente porque é um poder, e cada vez mais reconhecido como tal, não se pode furtar à devassa a que se julga no direito de submeter os governantes. Os leitores e telespectadores esperam e julgam ter no jornalista um intermediário, uma espécie de representante ou procurador, através do qual as perguntas dos cidadãos ao poder político são respondidas. O jornalista não pode nem deve, pelo seu comportamento como profissional, quebrar essa relação de confiança que há entre ele e o público anónimo. Ninguém em seu perfeito juízo confia a função de seu intermediário, procurador ou representante ao primeiro imbecil que aparecer. Ninguém, devidamente informado, quer comprar um carro em segunda mão a um burlão.

Assim, deveríamos ter direito a conhecer mais sobre a classe jornalística — sobretudo sobre os directores de informação e outros tenores da imprensa, rádio e televisão — do que aquilo que geralmente conhecemos, que é zero, ou perto disso.

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Com os índios

Meu amigo

Do antes guardo a memória do menino assustado, num banco da já extinta Esquadra do Campo Grande , esperando que o fossem buscar por ter cometido o hediondo crime de jogar à bola na via pública (logo eu que sempre fui um pé de chumbo). O constante desfilar dos namorados, a caminho do mesmo banco, acompanhados de um diligente cívico, por se beijarem em público. O ingresso tão precoce no mundo do trabalho. O British Bar onde não entrava uma senhora. O exílio num país claustrofóbico que era o meu.

Do dia lembro-me de, antes de ter subido a rampa da RTP, me ter sido perguntado se estava com os índios ou com os cowboys. Respondi:-Naturalmente com os índios!

Do pós, assaltam-me as memórias. Um mau poema, que felizmente já não sei onde pára, exaltando a liberdade, introduzido à socapa no berço da minha primeira filha, recentemente nascida. O vórtice da discussão política tendo D. Pedro IV como patrono. As pulhices, as traições, as esperanças, o ano de 1981, os que ficaram pelo caminho. O palmilhar dos caminhos da Universidade coisa até aí impensável para uma pessoa oriunda do meu estrato social.

Pouso o olhar nas minhas filhas e orgulho-me do que vejo. Desvio-o para as minhas netas e acredito que é possível. Da mesa cá do fundo, sob o olhar tutelar do José Cardoso Pires e de um relógio que subverte o tempo, caro Val, recordo a minha geração, a tua, a que virá. Mas uma coisa te asseguro se me fizeres a mesma pergunta que me fizeram, faz hoje trinta e cinco anos, respondo-te: – Naturalmente com os índios!

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Oferta do nosso amigo jafonso, celebrando o 25 de Abril.

Do fundo da toca

Sócrates foi convincente e reforçou a ideia, mesmo em cidadãos que não são PS, de que é um grande político e o político de que Portugal precisa ― e ele é, seguramente, a última oportunidade para que isto venha a ter saída, enquanto país.

A não percepção disto, em nome da luta partidária, pura e dura, é um erro terrível, até porque quem o pratica não entende que se abriram as portas para o bota-abaixo total. A luta de interesses é enorme, o que está em jogo não é, por parte dos maiores críticos e urdidores de intrigas, o bem-estar do país mas sim a defesa, desesperada, dos muitos e muitos milhões que vão (estão indo) à vida.

Não se compreende a “surdez” perante coisas tão absurdas como um Joaquim Coimbra a dizer que achava que BI (de Banco Insular) queria dizer bilhete de identidade ― em plena Comissão da Assembleia da República, meus senhores! e sabendo que estava a ser filmado… ― que outro interveniente no processo diga da fuga de documentos em contentor na véspera da busca da PJ, and so on and on… E que não se veja nenhum órgão de CS a “investigar”, que não surjam fugas de informação, quebras de segredo de justiça, que Marcelo não largue uma palavra que seja sobre a matéria, que a Guedes não entre na matéria no seu “reputado” jornal de 6ª feira…mas que se continue, obtusivamente, a caça ao homem na figura do 1º Ministro…

Estamos num momento decisivo da nossa história ― em que, ou damos um passo em frente, ou nos deixamos ficar enredados na treta, num país da União Europeia onde presidentes de Câmara escolhem o 25 de Abril para inaugurar praças em homenagem a Salazar… E, em nome da razão, não vejo outra figura que seja capaz de levar isto avante que não seja José Sócrates. Por muito que não me agradem alguns tiques do senhor.

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Oferta do nosso amigo j.coelho

Esquerda de masoquistas by Nik

Há uma esquerda, que não se limita aos partidos de Louçã e Jerónimo, tendo também os seus representantes no PS, noutras agremiações e entre muita gente sem simpatia partidária, que sofre, sempre sofreu, de uma idealite aguda, agravada de uma profunda incompreensão do que é a política hoje, do que ela foi ontem e será amanhã.

É uma gente que, mesmo nascida depois da ditadura salazarista, só gosta de estar na oposição, indefinidamente, para sempre. Para eles a acção política é só o protesto, a denúncia, a defesa, a resistência a um estado de coisas inaceitável. Preferem deitar ao lixo os seus votos, ou não votar de todo, a interrogar-se seriamente sobre a validade dos seus próprios ideais, supostamente belos e nobres. Ideais que se confrontam permanentemente com uma realidade que não compreendem e recusam. Têm a sensação que está tudo sempre a piorar, desde o começo dos tempos.

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O Dia Nacional dos Centros Históricos no Porto

Ou como a burocracia mata um dia de lazer

Desde a semana passada que eu aguardava este dia: o dia de ter, para mim, todo o centro histórico de borla. Então não era o que estava escrito nos cartazes? Entradas gratuitas na Sé, na Igreja de S. Francisco, no Palácio da Bolsa; bebidas e petiscos a 1 euro nas mais diversas tascas da Ribeira. Querem melhor? Haveria um balão quente largado nos Aliados e um cruzeiro grátis no Douro. Eu não pedia tanto! Contentar-me-ia com o Palácio da Bolsa, que nunca tive a ocasião de visitar, e as bebidas e petiscos a 1 euro.

Convidei uma amiga de fora: Anda daí, vamo-nos divertir. Lá veio ela, com a tralha toda, quero ver a Sé! Antes de entrarmos na Sé, comemos umas pataniscas espinhosas com sabor a Porto Antigo. Tentei um desconto por causa das espinhas. Mandaram-me bugiar.

Entrámos na Sé. Momento solene, silêncio mórbido, respirações retidas, tosses rebeldes. Virei-me para a minha amiga: Já está tudo visto. Vamos embora. Persistente, não, vamos ao claustro, quero ver. Íamos a entrar e a recepcionista: Ei! Os bilhetes? Detive-me, estarrecida, e a minha amiga replicou: Então hoje não é o Dia Nacional dos Centros Históricos? É preciso pagar? A matrona antipática, numa falsa e fingida compaixão, expôs o trâmite misterioso, subjacente a toda esta organização mafio-turística: Têm que ir ao posto de turismo dos Aliados levantar os vouchers. Voucher, no meu imaginário verbal, remete incontornavelmente para vache e comecei a apreciar a recepcionista pelo seu lado bovino.

Armada em chica-esperta, discursei: O Porto tem três postos de turismo, portanto, se temos de ir para a Ribeira, vamos ao posto da Ribeira.

Descemos as ruas pedregulhosas, tortuosas; umas cheiravam a esgoto; outras, a urina. Avistámos o Palácio da Bolsa e entrámos no posto de turismo da Ribeira: Vouchers? Aqui não. Só nos Aliados. Têm que ir aos Aliados. Neste ponto dramático da situação, sobressaltou-me o lado caprino das recepcionistas. E a minha imaginação verbal corrompe o adjectivo caprino remetendo-o para a lamúria romântica Capri, c’est fini!

O meu dia nacional dos centros históricos acabou em tremoços e finos na Ribeira, tripas à moda do Porto no Ora Viva, uns chás marroquinos do caraças, umas inalações fantasmagóricas com sabor a cereja e umas músicas rock and roll, com Undercover Dj’s no Mercedes. Discuti com a minha amiga por ela me sair a literatura anglo-saxónica toda e berrei-lhe um J’emmerde les anglais et les américains!

Acordei hoje de manhã, perguntando-me o que teria feito de histórico ontem à noite.

Cláudia

Afonsinas

O nosso amigo jafonso teve a amabilidade de nos enviar um bilhete onde dá conta das suas mais recentes peripécias.

Amigo Valupi duas palavras, embora atrasadas, sobre o teu post. Regressei ontem de Fátima onde fui em excursão organizada pelo centro dos reformados rezar por alguns frequentadores aí da farmácia. A D.Rosa confidenciou-me em voz baixa, já que estava acompanhada pela neta Cátia Vanessa, que para além do Magalhães ser o assassino da leitura entre os jovens, segundo o companheiro Barreto, ele seria também o principal responsável pela proliferação da diabetes, da incontinência urinária e das doenças da próstata. Vou tentar conferir nos sítios do costume do P.P.P. (1) e do I.D.O. (2), porque se é verdade eles já o sabem com toda a certeza.

Passando a um registo menos sério devo dizer que o facto a que te referes não é dos mais felizes. Todavia também devo considerar que a reacção dos mesmos está na linha do habitual. O que é que esperavas? O episódio do Provedor de Justiça, as reacções de prima dona do “beto” Alegre, as elocubrações tácticas dos irmãos do costume, na tentativa de posicionar um candidato que, segundo eles se oponha ao Sr. Silva, vão conseguir a reeleição do pior Presidente da República após o 25 de Abril e logo o que em condições de normal sanidade mental da esquerda seria possível derrotar. Penso que para além das inevitáveis dificuldades pelas quais a crise nos vai obrigar a passar, ela demonstra também a incapacidade congénita de nos agregarmos em torno de um objectivo comum.

Quanto ao resto, depois de almoço, vou tomar café ao sítio do costume e deixar ao Silva do B.B. umas pagelas com a inscrição “Em Fátima rezei por ti” dedicadas a alguns frequentadores aqui da farmácia, desde que devidamente identificados. Sabes que a caminho de Lisboa, talvez já iluminado pela oração, tive a sensação que o cavaquismo nunca existiu.

1) Patético Pacheco Pereira
2) Inenarrável Daniel Oliveira

Don Duarte nos Infernos

Cheguei à hora pontual, as batidas vasculares superando os toques dos sinos da Igreja de São Francisco. O encontro fora um desastre.
Ela. Na imobilidade do fóssil, no grito silencioso, no alto da sua maturidade, filmava-me em câmara lenta, perscrutinando detalhes ofensivos, pormenores insultuosos. Ele. Imóvel, protegido por óculos sombrios, aguardava. As portas do Inferno abriram de par em par.
Ambos bebericavam um café sumido, desviando olhares, empedernidos na ignorância duma presença absurda. Agressiva e determinada, pedi um sumo de laranja, um pão com manteiga e um pingo.
Observei-lhe a cara de emplastro, caiada como um claustro na Primavera, as mãos ressequidas, o olho baço, os lábios insuficientes para o bâton, o corpo magro, apagado, sem atractivos, a lividez de um Outono latente, prenunciando o desgaste final.
A verdade, inimiga da máscara libertina, dançava sobre o tampo da mesa, rindo-se do desconforto de Don Duarte. A verdade queimava o ar de enxofre, prendendo Don Duarte em estalidos de mentira, na clareza e evidência dos crimes disseminados, na procura da mulher inconcebível.
Descortinei-lhe os olhos infernais, na combustão pesada do ódio contido, e a frieza dos gestos mortais nas mãos enlameadas de um húmus perdido. Os significantes convergiram no alcance da verdade e Don Duarte prostrou por terra, fugindo do espelho oferecido.

Cláudia

Alta cena, alta bronca

No Dia dos Namorados, o Duarte meteu-me os cornos. É que nem na Sexta-feira, dia 13, o dia me correra tão mal. No telemóvel dele, descobri uma “Coelhinha” (eu era a “Menina Linda”). A Coelhinha dizia assim: “Amor, vens hoje a casa almoçar?”. Sem ele ver, tirei o número da coelha, esperando o meu momento de glória: o da vingança.
No primeiro bar da Ribeira, fui à casa de banho. A minha vontade de mijar era muita, mas nem me lembrei de o fazer. Peguei no meu telemóvel (já passava da 1h da manhã) e telefonei. Tocou. Ninguém atendeu. Então escrevi: “Sou a namorada do Duarte. Agradecia que atendesse.” A coelha respondeu-me: “E eu sou a Senhoria do Duarte. Não tenho nenhum assunto a tratar com a Senhora.”
A Coelhinha, a senhoria dele?
O gajo, após ter levado com a minha crise de ciúmes e berros e palavrões à mistura, levou com mais:
-Então a senhoria? Convém graxar a senhoria, não convém? Umas facilidades e tal.
O Duarte, que entrara numa de mutismo tenso pouco habitual, lançou-me o olhar de Lúcifer, a besta das chamas.

Desde ontem não sei nada dele, mas ganhei uma amiga: a Coelhinha que se chama Diana.

Cláudia

Agradecimento

Eu costumo agradecer quando me oferecem algo. Todos os dias, ouvimos Bom dia, Obrigado, Desculpe, Com licença. E mesmo aqueles que não agradecem, por orgulho, por complexo, lá no fundo, agradecem, nem que isso se note após em actos. Há também os ingratos. A ingratidão. Contudo, como um dia, ouvira a determinada pessoa: Nunca te arrependas do bem que fazes.
Esta introdução, para quê? Para agradecer a influência positiva, fulcral, que o João Pedro da Costa teve sobre mim, ao indicar-me o caminho das traduções.
Esquecera-me das palavras e até da verdade que as próprias pedras teriam uma vida para além das leis imutáveis que nos querem impor. Esquecera-me de mim.
Portanto, fica aqui a minha gratidão para com o meu ex-colega da Faculdade e ex-blogueiro do Aspirina B.

Cláudia Rodrigues

NAMOREI UM TERRORISTA

Entendido em leis, perito em informática, poliglota, avesso à carne de porco e às bebidas alcoólicas, Mohammed nunca perdia uma oração às Sextas-feiras. No dia em que me conheceu, amaldiçoou Jesus Cristo e toda a cristandade. Eu não fazia parte dos planos.
Sou uma ocidental, mas não uso decotes pronunciados, desavergonhados. Não sou de falar alto, de mascar uma chiclete sem pudor. Enfim, cativei o “crânio” das traduções mais hieroglificamente orientais e da informática sem segredos.
Não sei se era vontade de Alá, mas ele não me tocava em parte alguma: só depois do casamento. O que eu sofria, Meu Deus. Travou-se então uma luta entre a cristã pouco católica que eu era com o mais íntegro dos muçulmanos.
Ofendendo os preceitos de Maomé, cedeu-me. Se era o que eu queria… Impus a regra mais básica numa situação dessas: o preservativo. Ao abrir a caixa, tremia pelo pecado que cometia: preservativos. Nunca na vida dele tinha usado semelhante coisa. Eu estava a pô-lo maluco.
Mohammed partiu para o acto como quem vai entrar num campo de batalha. Rompeu atabalhoadamente, esguichou duas ou três vezes e ficou hirto pela ignomínia cometida. Eu fiquei aquém da expectativa e concluí que mais me valia ficar pelos ocidentais.
Neste momento, encontra-se na Itália, perseguindo objectivos mais nobres do que a satisfação sexual de uma mulher na cama.

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Oferta da nossa amiga Cláudia, um ficção cheia de realidade.

Salazarofilia

Só consigo estar no Governo porque nunca saio da rotina. Como poderia aguentar estes anos a ganhar eleições, ir ao Parlamento responder a perguntas, correr a inaugurar?

Senhor Doutor Salazar

(citado em As Máscaras de Salazar, de Fernando Dacosta)

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Oferta da nossa amiga Cláudia para a inauguração oficial de 2009.

TI’ SILVINA

Da nossa amiga Cláudia, recebemos esta bela oferta:

Ti’ Silvina. Era assim que a nomeavam. Na voz da minha madrinha, havia censura, um cariz tabu numa qualquer tentativa de abordagem da minha parte. Era-me defendido indagar. Havia sol, luz e flores. Porque ofuscar o horizonte com perguntas tão inapropriadas para a minha idade?
O que havia de mal na Ti’ Silvina? Que teria ela feito para que a minha madrinha, tão racional, a quisesse afastar da esfera do real?
Ti’ Silvina trazia sempre um chapéu de palha espampanante de abas largas e laços coloridos. Ria, bebia, dançava, e confidenciava-me que os moços se apaixonavam por ela. Ti’ Silvina tinha 64 anos.

Todos os dias, via-a caminhar para a caixa do correio. Ti’ Silvina era analfabeta. Todos os dias, esperava uma carta do Primeiro Ministro.

Um dia em que decidiu não falar sobre o Governo, pois este continuava cerrado num silêncio de sepulcro, revelara-me que tinha uma colecção de bonecas de todos os tamanhos, expostas em cima da cama. Esperei que ela me dissesse que me ofereceria uma ou que teria uma em particular guardada só para mim, mas seguiu caminho, orgulhosa, altiva, a cantarolar uma ária popular.

Na festa da padroeira, apareceu feliz. Dançava com frenesi. Quantas saias traria ela naquela noite? O bâton carmesim invadia para além da linha natural dos lábios ressequidos e cerzidos, patenteando a figura triste do palhaço ou da boneca maltratada. John encontrava-se a meu lado. Soou no ar:
– It’s so sad.
Onde via ele tristeza numa pessoa daquela idade, com mais vida e alegria do que um qualquer seu conterrâneo? Com 64 anos, acreditava no amor e procurava em bailes e festas a pessoa que a faria feliz. Nunca tinha visto a Ti’ Silvina chorar. Era forte como a Serra de Montemuro, forte como a geada das manhãs de Inverno, forte como os madrugadores das labutas do bronze.

Um dia em que tudo parecia perfeito e o sol brilhava, a luz se expandia e as flores sorriam, atrevi-me:
– Maman, porque é que a Ti’ Silvina é assim?
Notei o primeiro impulso, movimento de repulsa. A rejeição. Porém, conformou-se, acalmou. Inalou o ar apaziguador daquela tarde amena e recebi as palavras de minha mãe:
– Ela não teve sorte. Perdeu o marido e o filho em África. Foi a partir daí que ela ficou assim.
Imaginar que ela teria sido uma mulher como as outras, comungando das mesmas preocupações, azedumes e contentamentos, afigurou-se-me monstruoso, terrível, o golpe que a transformara. Minha mãe prosseguia e através da névoa criada pelo meu cérebro eu distinguia:
– Passa a vida a escrever aos ministros a pedir os corpos que ficaram em África. O mais certo é terem desaparecido. Ela não sabe escrever, mas pede a quem sabe. Nunca obteve resposta. Já lá vão 20 anos.