Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão.
Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.

Novos partidos, velhas carcaças

Rosália Amorim e Pedro Pinheiro - A haver uma crise política, será provocada pelo PS? Percebi bem?
João Cotrim de Figueiredo - Nunca poderá ser provocada porque o PM é hábil e sabe que quem provoca crises políticas é penalizado, mas pode criar as condições para que essa crise aconteça e seja necessário antecipar eleições. É muito tentador para o PS, tal como nós o conhecemos e como se tem desenvolvido na sociedade portuguesa, presidir um governo numa altura em que haverá muitos fundos para distribuir e uma recuperação económica para gerir.


PS pode provocar crise política. É tentador liderar um governo com fundos e a recuperação para gerir

Pedro Nuno Santos também será apreciador do “Polvo à Ana Gomes?”

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A cidadã que concorreu para ocupar a chefia do Estado, ser a mais alta magistrada da Nação e garantir o regular funcionamento das instituições, a pessoa disposta a ir jurar pela sua honra tudo fazer para que a Constituição da República Portuguesa se cumpra, é o mesmo organismo pensante que – menos de um mês depois – espalha no espaço público a ideia de existir uma espantosa e mirabolante conspiração que envolve o actual Presidente da República, o Governo, a Assembleia da República e todos os magistrados, unidos num pacto secreto para que um grupo de altos criminosos (sem qualquer condenação, alguns sem qualquer acusação ou sequer mero estatuto de arguidos) consiga fugir à Lei através da figura da “prescrição”. Ana Gomes descobriu esta “realidade” não se sabe como, talvez em sonhos ou nas vísceras de um pássaro, e isso chega-lhe (pun intended) para despachar exuberantes e sistemáticas denúncias. É que Ana Gomes não mente, senhora seríssima e incorruptível como ela é, pelo que podemos ter a certeza absoluta de que nos está a contar a “verdade”. Ela olha para o regime, contempla a sociedade e, à excepção de Rui Pinto, só consegue identificar bandidos, ladrões e gatunos.

Como sempre com os caluniadores profissionais, o caso subjectivo é o que menos interessa, até merece respeito antropológico. Se é por serem videirinhos ou maluquinhos que vão por essa via deturpadora e ignóbil é irrelevante para o que mais importa: responsabilizar e criticar quem lhes paga e/ou quem os utiliza. Ver o Correio da Manhã ou o Observador pagar a caluniadores profissionais não justifica o gasto de uma caloria com o assunto, está de acordo com a lógica e a expectativa. Mas se for o Público ou o Expresso, ainda mais grave se for a RTP pela sua missão pública e dinheiros estatais, então devemos expressar uma saudável reacção de indignação pela intolerável antinomia com o que essas entidades alegam representar estatutariamente, o infelizmente risível conceito de “imprensa de referência”, e a prática sectária, sensacionalista, caluniadora e irracionalizante a que se dedicam como negócio, como agenda política, ou com ambos os propósitos.

O que nos leva para Pedro Nuno Santos. Este valente, entretanto caído na armadilha de acreditar na sua própria marca de líder viking para um futuro PS “de esquerda”, não quis perder a oportunidade de aproveitar o desastre que foi a candidatura presidencial de Ana Gomes: Das presidenciais de ontem às lições para o futuro. O “Dirigente do PS. Ministro das Infra-estruturas e da Habitação” utiliza o resultado das presidenciais como caixote de madeira para se elevar e voltar a aparecer fantasiado de candidato a secretário-geral do PS assim que Costa deixar o lugar. A sua finalidade é meritoriamente neutra; ou seja, é lá com ele e com os militantes e simpatizantes do partido. O berbicacho está nos meios de que se serve, os quais passam por esta absurda e nefanda declaração:

Deixámos a tarefa de defesa dos valores do socialismo democrático a Ana Gomes, uma distinta militante do PS que, sem o apoio da nossa organização, corajosamente defendeu quase sozinha a matriz do nosso ideário.

Ora, custa a perceber por onde começar a comentar a puta da frase. Sim, Ana Gomes é uma “distinta militante do PS”, para nosso azar, pois é alguém que, assim que viu haver mercado para tal, geriu a sua carreira partidária fazendo do “combate à corrupção” uma bandeira publicitária que nunca, mas nunca de nunca, gerou qualquer resultado positivo que dê para exibir. Já insinuações, difamações e calúnias há alguidares e paletes delas com a sua assinatura. O que também nunca de nunca alguém ouviu de Ana Gomes foi a defesa “dos valores do socialismo democrático” para além de uma cartilha básica circunscrita ao marketing de ocasião. Isto porque a figura não tem nem tempo, nem energia, nem vocação para se dedicar a esse labor quando é tão mais fácil aparecer na pantalha a urrar irada contra os “corruptos”. Tal currículo faz dos “valores do socialismo democrático” um universo paralelo sem ponto de contacto com o seu. No seu, não há presunção de inocência, processo justo, direitos dos cidadãos, dos arguidos, dos acusados e, pelo balanço da retórica acima pespegada, ainda menos dos condenados. É um universo onde a sua paranóide ou sórdida imaginação espezinha e cospe na Constituição e nos valores nela inscritos em ordem a que se concretize em leis o antídoto contra todas as ditaduras presentes e futuras, a vera matriz de um regime liberal – aquele onde é preferível deixar escapar um criminoso a condenar um inocente. Esta assimetria é uma escolha civilizacional contra os tribalismos e os linchamentos. Contra os tiranos. Contra os pulhas.

Um muito provável futuro primeiro-ministro às costas do PS teve o topete de louvar uma personalidade tóxica e irresponsável como Ana Gomes à custa do “ideário” que reclama para o seu partido. Trata-se de uma aberração ideológica e axiológica, a qual se entende melhor donde vem quando se constata que no seu texto não aparece em parágrafo nenhum a expressão “Estado de direito democrático”. E é esse esquecimento, ou talvez intencional apagamento, que lhe permite mentir a respeito do papel histórico do PS no sistema partidário. A forma como Pedro Nuno Santos descreve o centro político, reduzindo-o à pulsão do poder pelo poder, é mais do que ignorante, é perversa. Pura e simplesmente, não é possível conceptualizar um espectro político definido pelos extremos “esquerda” e “direita” sem, por inerência geométrica, igualmente estabelecer um centro. Ser esse centro foi a opção de Mário Soares, a qual marcou o destino do PS e da democracia portuguesa. Com isto não se impede seja quem for de se definir com sendo de esquerda ou direita, inclusive dos seus extremos. O que está em causa é outra coisa, coisa fundamental para qualquer comunidade: a governação ser, pela própria exigência constitucional que a molda, um exercício que se constitui – ou então se destitui, aqui sem meio termo – como centro político gerador de polaridades e extremos.

O ideário principal do PS, ainda antes ou acima de ser definido pelo posicionamento de esquerda (seja lá o que isso queira dizer a cada liderança, a cada conjuntura), é o de ser um partido da governação; que o mesmo é dizer “ser um bastião do regime na defesa da Constituição e do bem comum.” O ideário do PS, portanto e por tanto, não é, não foi, e não poderá ser representado por quem vai para um debate presidencial sugerir, en passant, que o seu adversário, por acaso também Presidente da República, defende ladrões ou, quiçá, andou mesmo a roubar. Se o Pedro Nuno Santos se revelar apreciador desse tipo de polvo à Ana Gomes, um prato que igualmente o trata como cúmplice do “#branqueamento”, a congestão das suas ambições políticas é certa.

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Bute dar dinheiro à Netflix

Chef’s Table é uma série documental que, alegando estar interessada em comida, serve-nos horas e horas deliciosas a respeito de dois pratos principais: a importância da sorte e da criatividade, e de como ambas são deusas caprichosas e indomáveis.

Cada episódio preocupa-se em contar bem uma história simples, emocional e convencionalmente bonita. Tão convencional que usa sem qualquer vergonha, mas também sem qualquer mau gosto, clichés expositivos e melodramáticos como embrulho ou laçarote. A produção prima por ser esteticamente irrepreensível, em muitos momentos sedutora e até encantadora, sempre ao serviço da narrativa.

O sucesso do conceito e da execução oferece neste momento 38 felizes descobertas, incluindo neste grupo 6 temporadas do formato original, 4 episódios do Chef’s Table: France e 4 episódios do Chef’s Table: BBQ.

Deixo o meu pódio, seguindo o critério do entusiasmo pelos protagonistas:

*** Alain Passard – Chef’s Table: France
** Nancy Silverton – Chef’s Table 3º temporada
* Ivan Orkin – Chef’s Table 3º temporada

Ao ritmo de um episódio por dia, receita para mais de um mês de prazer, este produto televisivo alimenta o espírito a cada toma e deixa-nos doidinhos para ir logo a seguir alimentar o corpo.

Ivermectina e COVID – A caminho da evidência?

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Nota

– Há muitas e muito boas razões para não ver a ivermectina como uma panaceia milagrosa para a prevenção e tratamento da COVID-19. Essas razões poderão estar a explicar o estatuto semiclandestino deste vídeo, o qual existe e não existe oficialmente. Algumas declarações mais inflamadas também poderão ter levado os seus autores a pedirem para que se tirasse destaque à peça, não faço ideia.

– Todavia, a conversa que se registou é de cientistas, reunindo áreas da investigação, prática clínica e farmácia. E estes cientistas, por razões também científicas e por princípios morais e éticos, mesmo civilizacionais, apelam a que se valorizem as evidências já estabelecidas quanto à segurança do medicamento e os resultados entretanto recolhidos com doentes COVID em Portugal (e não só).

– A seu favor, pense-se na altíssima ineficácia dos medicamentos e tratamentos oncológicos quando os doentes estão em fase terminal (por vezes, com 95% ou até 99% de ineficácia) e de como, apesar do devastador custo em sofrimento para os pacientes e suas famílias, e dos gastos financeiros para particulares e/ou Estado, se avança para a sua aplicação como imperativo cego. No caso, a acção da ivermectina em quadro de infecção viral está estabelecida, embora não haja estudos suficientes como tratamento da COVID-19 para que as autoridades de saúde possam usá-lo no Serviço Nacional de Saúde.

– Em suma, é inquestionável o mérito, e urgência, do debate.

Ângela Silva explica

«Marcelo Rebelo de Sousa não vai ceder à pressão dos que lhe pedem um Governo de salvação nacional. Reeleito há apenas 15 dias, o Presidente da República tem ouvido ex-governantes e comentadores a defenderem que o atual Executivo já não serve para gerir a crise e que deve ser o Presidente a impor outra solução governativa. Mas Marcelo, além de avesso a Governos de iniciativa presidencial, entende que compete a António Costa gerir a pandemia e não vai deixar que haja crises políticas que interrompam este ciclo sem que se perspetivem alternativas de poder.

A sua convicção é que só depois das autárquicas de outubro se entrará num novo tempo político, com eventual clarificação das lideranças à direita, nomeadamente no PSD, onde a dúvida é quem levará o partido às legislativas, se será Rui Rio ou um regressado Pedro Passos Coelho. Também por isso, o Presidente quer dar tempo para perceber melhor com que solução diferente do Executivo socialista poderá o país contar.

Sem abrir totalmente o jogo, Marcelo disse o essencial na primeira entrevista que deu após reeleito, a Ricardo Araújo Pereira, na SIC, onde em registo humorístico passou a mensagem para dentro e para fora do Governo. “A minha ideia não é que o Governo caia, é que o Governo responda à crise, que enfrente a pandemia”, afirmou. E deixando claro que a sua relação com o primeiro-ministro “é uma relação institucional que pode ter momentos afetivos, mas não uma relação afetiva que pode ter momentos institucionais”, o Presidente explicou o essencial do seu plano de médio prazo: maior exigência e vigilância com o Governo.»

Ângela Silva

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Invejo a jornalista Ângela Silva. Para além de nunca lhe ter faltado trabalho, como o currículo exibe e se saúda, estabilizou numa função que adivinho descansada e juvenil: ser pé de microfone dos Presidentes da República que sejam de direita. Este destino profissional, por si mesmo, é interessante pois a cada leva direitola na Presidência ela fica com a certeza de ter mais 10 anos de ocupação laboral garantida. Mas o que eleva o interesse para algo já tangente ao fascínio é o talento para reduzir a política nacional a um teatro infantil onde o Presidente da República acumula com ser Presidente dos Conselhos aos Ministros. E daí vermos, quando os ingratos badamecos não aceitam as sábias sugestões belenenses, a nossa jornalista a rapidamente despachar no Expresso o devido responso à criançada, onde ela mostra quem é que realmente manda na choldra. Recomendo vivamente qualquer passagem da sua autoria onde entrem os nomes “Marcelo” e “Costa”, pois as sessões de tautau do primeiro ao segundo são neste especialíssimo tipo de “jornalismo” espectáculo inevitável e mui pedagógico.

No exemplo acima, temos direito a levar com a assombrosa revelação de que Marcelo Rebelo de Sousa é “avesso a Governos de iniciativa presidencial“; ou seja, que não simpatiza, não curte da ideia. Por incalculável sorte nossa, temos de acrescentar, pois calhando o homem achar graça à coisa já a teria há muito posto em acção e repetido as vezes que lhe desse na gana. Para quê estar à espera dos resultados das eleições legislativas, e depois de eventuais e complicadas negociações entre partidos, só para acabar a ter de reunir semanalmente com um primeiro-ministro socialista que está convencido de ter o direito constitucional de formar Governo e governar com plena legitimidade parlamentar e autonomia executiva? Quer-se dizer, para além da perda de tempo e do gasto financeiro, é um absurdo funcional quando comparado com a alternativa que gente iluminada como Villaverde Cabral, Sousa Tavares e Santana Lopes propõem: deixar um só indivíduo tratar do problema e escolher a sua gente, a verdadeira gente séria que sabe muito bem do que os portugueses precisam.

E há mais, estamos perante “jornalismo” que humilha a concorrência pela sua generosidade para connosco, burros do caralho. A Dona Ângela serve a papinha morna e pronta a papar: Marcelo prefere que Costa se esbardalhe todo na pandemia e que, no entretanto, Rui Rio perceba que está na altura de fazer as malas e deixar a sede da Lapa limpa e arejada para receber de novo Pedro Sebastião Coelho, altura em que sim, com Costa esturricado e o PSD pronto para o assalto, o Presidente da República carregará num botão e teremos finalmente um Governo de iniciativa presidencial, prontos. Como é que sabemos ser exactamente assim o autêntico pensamento de Marcelo? A incansável jornalista explica com paciência de santa, lembrando que o Presidente da República escolheu um programa de humor para transmitir o “essencial” acerca do futuro político do País: “em registo humorístico passou a mensagem para dentro e para fora do Governo“. É para este serviço à Grei que Ricardo Araújo Pereira também serve, quando não nos deixa a rebentar de rir com as suas declarações de voto no PCP – isto, dar palco a um Presidente da República que, coitado, sem o baixo patrocínio de um cómico corre agora o risco de ninguém o levar a sério.

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Which conspiracy theory do you believe in?
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Happiness really does come for free
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A liberdade não nasceu da cobardia

Ter acompanhado o processo de destituição de Trump, terminado neste sábado, foi uma das grandes experiências da minha aprendizagem política. Embora o resultado de absolvição fosse garantido desde o início, o inaudito e monstruoso ataque ao Capitólio, somado à impossibilidade de refutar as provas que viessem a ser apresentadas da evidente culpabilidade de Trump, levava ainda a manter uma vela acesa na esperança do milagre.

Não houve milagre. Não houve salvação dos Republicanos. E, do ponto de vista da decência, da segurança e do mero senso comum, fica como uma das datas mais tristes para a história dos EUA. Contudo, foi verdadeiramente inspirador – e em vários momentos comovente – ter assistido à apresentação da acusação pelos Democratas, cujos nomes vou deixar gravados no HTML como homenagem, começando pelo seu primeiro responsável: Jamie Raskin, Diana DeGette, Eric Swalwell, David Cicilline, Madeleine Dean, Joaquin Castro, Ted Lieu, Stacey Plaskett e Joe Neguse. Do lado da defesa, apareceram duas nódoas que encheram o Senado de mentiras, chungaria e absoluta incapacidade de mostrar um único aspecto favorável a Trump.

O acto mais importante de todo o processo, já contando com a histórica votação bipartidária que ainda conseguiu surpreender ao conquistar 7 senadores Republicanos, ocorreu depois dos votos contados e teve Mitch McConnell, líder dos Republicanos no Senado, como protagonista. No seu discurso final, conseguiu o feito de condenar Trump e condenar-se a si próprio. É este o destino da direita decadente, não há outro: a pulhastra tragédia dos cobardes.

Perguntas simples

Posto que Manuel Villaverde Cabral é um dos apoiantes da ideia do «governo de salvação nacional», e dando como garantido que estamos a falar do mesmo Manuel Villaverde Cabral que se apresenta em público com o nome Manuel Villaverde Cabral, como é que Marcelo, ou seja quem for com mais de 6 meses de idade, tem o topete de recusar essa genial e tão simples solução para os problemas do País?

Fátima Bonifácio é, não uma, mas várias anedotas

Empertigada, catastrofista e grandiloquente, esta mulher subiu à tribuna e aí vai disto – tudo raso e viva o Chega! (Hoje, no Público)

Isto (Portugal) é uma choldra. Os comunistas dominam os socialistas. A direita não tem mensagem. Só o Chega nos pode salvar. Só o Ventura, que não está cá com boas maneiras nem falinhas mansas, pode levar a direita clássica e democrática ao poder. Repito – a direita clássica e democrática. Em geral, o Ocidente está estagnado. Em França, não há reformas. Onde estão os grandes pensadores e filósofos europeus? Olhemos para a China. A China, sim! Começamos a ter coisas que copiar desse grande, grande país. (Presumo que não sejam só patentes)

 

Bom, este é o resumo muito resumido da indignação de hoje. Como citações do dia, deixo aqui esta amostra, a que juntei os meu sucintos comentários, que poderão desenvolver ao vosso gosto. Em maiúsculas, apenas para se diferenciarem, porque na verdade estou a rir-me.

 

Quase toda a comunicação social continua dominada pela esquerda, na oposição ou no poder.”[…] “ATÃO” NÃO É???

 

Em 45 anos de democracia, a direita não se conseguiu impor com boas maneiras e falinhas mansas. Vejo no Chega, precisamente pelo alarme que causa, um possível pelotão da frente para abrir caminho a uma direita clássica, democrática e — sobretudo — liberal.”[…] BEM VISTO, PORQUE O VENTURA ATÉ NEM QUER O PODER PARA ELE. AHH OHH!

 

“Grande parte da Europa tornou-se ingovernável. Desde o final da II Grande Guerra até à crise financeira e bancária de 2007-8, os povos têm-se tornado cada vez mais difíceis de contentar. Porém, não se vislumbra nenhum modelo político-social alternativo, nenhuma ideologia de substituição. O que a direita ou a esquerda (salvo o Chega) têm para oferecer é sempre mais do mesmo.”[…] DI-TA-DU-RA! DI-TA-DU-RA! VIVA O VENTURA

 

O “nosso modo de vida” ocidental, de que com toda a razão nos orgulhávamos, está esgotado, mas nós não estamos preparados para abdicar de direitos e privilégios acumulados ao longo de décadas. Mas mais tarde ou mais cedo, e mais cedo do que tarde, teremos de renunciar a alguns deles,”[…] AUS-TE—RI-DA-DE! AUS-TE-RI-DA-DE! VIVA O PASSOS!  E O VENTURA, CLARO!

 

No que muita gente distraída não repara é na flagrante coincidência entre o declínio económico e social da Europa com o afundamento da sua criatividade intelectual e imaginação política. Desaparecidos Bloom, Steiner, Strauss ou Scruton, onde estão os grandes pensadores, os grandes intelectuais do século XXI?”  NA CHINA, FÁTIMA. NA CHINA.

 

Sistema frontal

«Depois de mais de uma hora de reunião, André Ventura e o Presidente do Governo regional faziam ambos uma comunicação lado a lado. De Ventura, surgiu logo a referência à “estupefação e desconforto com as notícias que tinham vindo a lume com a nomeação de familiares no Governo regional dos Açores”. Na sua edição semanal, o Expresso deu hoje conta da existência de várias nomeações para cargos públicos com relações familiares, dentro da orgânica governativa, ou ligadas aos partidos da coligação que suportam o executivo regional.

O líder do Chega, que teve em tempos nas ruas de Lisboa um cartaz onde se lia “Chega de familiares no Governo”, sublinhou que é preciso não repetir erros do passado onde “a presença de familiares no Governo manchou a ação política e descredibilizou a ação governativa”. Ventura diz que tomou como “boa a explicação que foi dada pelo senhor presidente e os objetivos de maior controle desta situação”, voltando a falar na criação, nos próximos meses, do gabinete contra a corrupção, uma das bandeiras do partido.

Sobre o aumento do número de cargos e dos custos no novo executivo açoriano - que, em quatro anos, poderá ser quase 8 milhões de euros mais caro que o anterior - André Ventura também se diz tranquilo. “Haverá uma diminuição não só do número de lugares como de despesa do Governo portanto tomámos como boas as garantias que foram dadas, temos todos as condições para uma solução que se mantenha estável do ponto de vista governativo”, assegura o líder do Chega.

José Manuel Bolieiro também se mostra igualmente agradado com o que encontra do outro lado. “Foi um gosto pessoal e institucional receber André Ventura. Os acordos serão cumpridos na íntegra e em franca e em constante articulação porque há identidade naquelas causas, os partidos políticos não perdem a sua autonomia”, assegura o social democrata.»

Fonte

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No padrão dos crimes mafiosos e dos crimes de violência doméstica há radicais diferenças e perfeitas semelhanças. Como exemplo destas, em ambas as tipologias está em causa cometer a violência secretamente e obrigar as vítimas a uma subjugação de longo prazo. No padrão destes criminosos e no padrão dos políticos populistas da actual direita decadente igualmente encontramos radicais diferenças e perfeitas semelhanças. Os políticos populistas que utilizam uma retórica maniqueísta contra a classe política – portanto, contra a democracia e contra a liberdade – anunciam sem rebuço o seu plano para se comportarem como chefes mafiosos e como agressores domésticos. A linguagem incendiária, insultuosa, revolucionária e delirante que espalham tem um duplo efeito: confunde e imobiliza. Daí o fenómeno Trump. E daí o fenómeno Ventura.

Os criminosos de vocação aprendem, geralmente muito cedo na sua existência, que a enorme maioria da humanidade quer viver em paz e rodeada de boas pessoas. Há nesta enorme maioria uma pulsão para a convivência que nos faz acreditar no que nos dizem. Se não acreditássemos, por automatismo cognitivo, nas mensagens dos outros seria muito difícil criar grupos de humanos para além dos elos genéticos. Aliás, talvez nem a linguagem verbal se tivesse desenvolvido. Falamos porque há vantagens evolutivas em confiarmos uns nos outros, em trocarmos informações, em acumularmos conhecimento e corrigirmos aprendizagens para que melhor consigamos resolver problemas e evitar perigos. É dessa capacidade de sermos comunidade que nasceu e continua a nascer a civilização. Os criminosos sabem disto muito melhor do que nós, os ingénuos.

A vítima de violência doméstica, o mesmo para a vítima de abuso sexual por familiar ou figura de autoridade (professor, médico, religioso, …), é atingida pelo choque psicológico de se saber alvo de um comportamento imprevisto e exteriormente absurdo: aquele indivíduo que era suposto querer-lhe bem, protegê-la, é quem lhe quer mal, quem a ataca. Resulta profunda a desorientação assim causada, levando a um estado de impotência auto-infligida. O criminoso conta com isso, nalguns casos depende desse mecanismo para conservar o seu poder sobre a vítima. A mesmíssima lógica se pôde constatar na ascensão de Trump ao topo do poder político nos EUA. No início da corrida eleitoral para as eleições norte-americanas era apenas tratado como um palhaço, e mesmo durante a sua presidência foi sempre defendido pela direita americana institucional (partido, representantes) e mediática contra todas as evidências, diárias, de se ter deixado entrar na Casa Branca o rei dos mentirosos – um chefe mafioso. Numa outra vertente, a capacidade para confundir jornalistas e cientistas sociais radicava na incredulidade generalizada de que Trump viesse a ser realmente aquilo que ele já mostrava que era. Assim, o dia 6 de Janeiro de 2021 ficará como monumento, para os séculos vindouros, da possibilidade de se deixar o melhor que conseguimos construir juntos, o Estado de direito democrático, nas mãos de um ogre narcísico e sem qualquer escrúpulo. Um reles criminoso, responsável moral e político pelo caos e pelas mortes que abalaram a América e o mundo democrático.

Ventura não é Trump, diz a falange que trabalha para o seu branqueamento. Bolieiro, Rui Rio, Manuela Ferreira Leite, Maria João Avillez, Cavaco, eis algumas das mais distintas figuras da direita “tradicional”, e do regime, que anunciaram querer aproveitar o que Ventura traz para a política portuguesa e está disposto a oferecer-lhes à primeira oportunidade. Como aconteceu nos Açores, literalmente a primeira oportunidade para todos estes jogadores mostrarem as cartas. Por sua vez, Ventura assume ser o João Baptista de Passos Coelho, anunciando para breve o regresso do messias de Massamá e o triunfo do Bem sobre o Mal. Quando diz que a sua missão política está ligada a Fátima e que nunca seria o Presidente de todos os portugueses, Ventura continua a ser apenas o palhaço de quem se espera que largue qualquer aberração para animar a malta. Mas depois, como podemos ler acima, as coisas acontecem. Vão acontecendo. E o plano é o de continuarem a acontecer, de preferência numa escala cada vez maior.

O Chega era contra os “familiares no Governo”, mesmo que esse número fosse irrisório e sem qualquer significado político ou social? Pois facilmente pode deixar de ser, inclusive quando essa familiaridade é à fartazana, basta que haja algo para a troca. Essas coisas resolvem-se numa reunião à porta fechada, omertà. E pronto, está feito. A suposta aversão ao “sistema”, portanto, não passa de um outro tipo de sistema: a frontal violência moral e política que Ventura publicita ser capaz de cometer ao serviço dos chefes.

A vacina russa

Recomendo dois artigos sobre a vacina Sputnik V (o V é de vacina), que os russos anunciaram em meados de 2020, antecipando-se às grandes empresas farmacêuticas ocidentais. O cepticismo, quase escárnio, com que essa notícia foi então recebida nos presunçosos media ocidentais, está agora a ser substituído por um acolhimento mais favorável, mais humilde e mais racional.

O primeiro texto é uma coluna de Luís Delgado na Visão, quase telegráfica, mas cheia de fé na vacina russa: “A Sputnik V é que nos vai safar”. Apenas recomendo essa opinião ou fezada porque é raríssimo os jornalistas portugueses, amestrados para desconfiarem da Rússia e da China, falarem sobre a Sputnik excepto para alimentar as maiores dúvidas. Os correspondentes em Moscovo dos media portugueses (actualmente creio que só há um) não vão, em geral, muito além de falar mal do czar, que é o que se espera deles.

O segundo artigo é um texto muito informativo, diria mesmo suculento, do correspondente em Moscovo da revista The New Yorker, o jornalista americano Joshua Yaffa, O artigo intitula-se “Five-Month Plan” (brincadeira com os planos quinquenais soviéticos) e saiu na New Yorker de 8 de fevereiro. Relata a história, para nós basicamente desconhecida, do épico desenvolvimento da vacina russa em cinco meses. Para esse fim entrevistou cientistas, investidores e gestores e visitou os institutos e laboratórios envolvidos na preparação e testagem da vacina. Yaffa tem um excelente conhecimento da Rússia de hoje e do putinismo, sobre o qual publicou um livro em 2020, Between Two Fires. Um interesse suplementar do artigo é que o jornalista, que não tem qualquer simpatia por Putin, levou a sua  ausência de preconceitos ao ponto de se fazer vacinar com a Sputnik. O médico que o vacinou, sabendo de quem se tratava, ficou tão surpreendido que lhe deu os parabéns e um diploma.

O cabrão e o Cabrita

«Questionado sobre em que ponto está a reestruturação do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), Magina da Silva recusa fazer comentários. Depois das polémicas declarações em que revelou que estava a ser estudada a fusão da PSP com o SEF que deixaram o ministro da Administração Interna zangado, Magina da Silva reconhece que cometeu o "erro" de emitir uma opinião pessoal, o que classifica como um "descuido bondoso".

Para o superintendente-chefe da PSP a relação com o ministro Eduardo Cabrita não ficou beliscada. "Pedi-lhe desculpa quando me apercebi da dimensão da extrapolação que fizeram das minhas palavras, como digo: um descuido bondoso. O senhor ministro percebeu que foi um descuido bondoso e isso não afetou o nosso relacionamento institucional".»

Declarações sobre reestruturação do SEF foram um “erro” e um “descuido bondoso”

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Eduardo Cabrita é, actualmente, o maior ódio de estimação do comentariado. Esta poderia ser razão suficiente para entender mais um Fenómeno do Entroncamento do regime e da sociedade, o silêncio encardido que a pública retractação de Magina da Silva gerou. Nenhum dos que andaram aos berros a pedir a cabeça de Cabrita em Dezembro tugiu ou mugiu. E a explicação não podia ser mais simples: com estas palavras, acima expostas, o diretor nacional da Polícia de Segurança Pública acaba de ir depositar as armas aos pés do ministro. Ministro que o comentariado decretou estar arrumado, morto. Ministro que não só exibe força política como foi granítico na defesa do sentido de Estado na gestão da crise lançada por Marcelo, o que Magina da Silva deixa estabelecido numa declaração à prova de estúpidos. Momento, então, para desopilar com o que fica como chicana hilariante do Daniel Oliveira, o mesmo artista que já tinha sido um dos heróis do desconfinamento para o Natal (luta a recordar outra de antanho, então contra a proibição de fumar em restaurantes): O preço de deixar um cadáver político como ministro + Quem não tem ministro, fica com Magina

Escolho o Daniel como exemplo da inanidade prejudicial do que é o comentariado, salvo as raras excepções, porque não estamos perante um pulha. Este amigo estuda e tem ideais decentes e meritórios, não é apenas um mercenário. Porém, à maneira dos pulhas, deixa-se embriagar pelo poder mediático ao seu dispor, e depois quem paga é a honestidade intelectual. No caso, o que o motiva é a furiosa obsessão em atacar António Costa, cegueira que o levou automaticamente a colaborar com a golpada para tentar que Cabrita e Costa se assustassem e oferecessem mais um ministro para Marcelo e a direita exibirem como troféu de caça. É por isso que ele, como o seu compagnon de route Louçã, dá tanto jeito à agenda do militante nº1 do PSD: inimigo do meu inimigo meu amigo é.

O comentariado é uma fonte tóxica de sectarismo e irracionalidade, a qual se junta à miséria editorial do jornalismo português (salvo as devidas excepções, nenhuma no espaço televisivo). Todavia, e pese a deformação e atrofio do espaço público assim causados, por aí estamos apenas no domínio da política-espectáculo. Só papa disso quem quer, o tempo continua a ser livre para se gastar noutras fontes de sentido ou diversão. O que realmente nos interroga – melhor, nos desafia – no episódio protagonizado por Magina da Silva num certo domingo de Dezembro de 2020 é outra coisa. Uma coisa de arrebimbomalho: temos um Presidente da República que exibe no currículo a função de docente e presidente do Instituto de Ciências Jurídico-Políticas da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa até à sua vitória nas eleições de 2016, e, em concomitância, temos um Chefe de Estado que descaradamente, insolentemente, obscenamente, considera ser seu direito constitucional boicotar a acção governativa através de chantagens e perversões institucionais com vista a obter a demissão de ministros. E que faz o regime, o Governo, o sistema partidário e a sociedade? Aceitam, normalizam, exploram e festejam, conforme os resultados. É como se houvesse uma segunda Constituição guardada num cofre em Belém, ou a servir de calço numa cadeira manca, circulando fotocópias da mesma entre os políticos e os jornalistas para se orientarem face à conduta do inquilino presidencial.

Não, Magina, a culpa não é tua. Percebemos logo, fica descansado. É do cabrão que te enrolou.