Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão.
Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.

De que ano é o teu socratismo? Talvez te safes ou então estás feito, anunciou a suprema autoridade na matéria

JMT – […] E o pior que tudo é que esteve ligado ao PS na pior altura em que podia estar ligado ao PS, que foi durante o consulado de José Sócrates. Para mim, o tempo socrático é para mim um tempo prova do algodão. Prova de algodão para quem foi colunista nessa altura e também para quem tinha alguma espécie de actividade política nessa altura. Eu sou muito pouco tolerante para quem era socrático em 2009. Eu consigo compreender os socráticos de 2005, 2006, 2007. Assim com muita vontade talvez consiga nos de 2008. Aos de 2009 eu já não perdoo. Há três tipos de atitudes para as pessoas que estavam no espaço público naquela altura, que eram: combatiam José Sócrates, não queriam saber, ou então apoiavam José Sócrates activamente - e Pedro Adão e Silva foi desses. Aquelas pessoas que almoçavam com os Joãos Galambas, que almoçavam com os Miguel Abrantes, e todos eles que criaram aquela atmosfera dos tempos das Câmaras Corporativas, em que Portugal, nos seus tempos democráticos, esteve ameaçado nas suas liberdades como nunca desde os tempos do PREC. E é bom repetir isto: Portugal, na altura de José Sócrates, esteve ameaçado nas suas liberdades como não aconteceu desde os tempos do PREC. E, portanto, quem colaborou activamente nisso não pode ser...

CVMDeve ser banido da vida pública?

JMTNão, não tem de ser banido da vida pública. E pode continuar a comentar. Não pode é ser comissário das comemorações dos 50 anos do 25 de Abril. Não pode.

Governo Sombra – 11 de Junho 21

Segundo o eleito de Marcelo para honrar e elevar o 10 de Junho em 2019 – e dessa altura falar à Nação para que ela bebesse palavras de sabedoria a respeito de Portugal, das Comunidades e de Camões – quem foi colunista entre 2005 e 2011 e apoiou Sócrates, ou quem exerceu algum tipo de função com ligações ao Partido Socialista ou ao Governo nesse período, está agora limitado nos seus direitos cívicos e políticos. Por exemplo, o exemplo acima dado, não pode ser comissário das comemorações dos 50 anos do 25 de Abril. Se quisermos outro exemplo, o fulano já o deu a respeito de Domingos Farinho, tendo usado a influência mediática de que dispõe para tentar (repetidamente) que ele fosse despedido da FDUL. De certeza certezinha, este canónico “liberal” terá muitos outros exemplos para dar, tantos quantos as centenas de milhares de casos abarcados pelo seu critério. Basta lembrar que nas eleições legislativas de 2011 votaram no PS 1.568.168 indivíduos. Donde, temos aqui 1.568.168 retintos apoiantes de José Sócrates, condição agravada por então já terem passado dois anos sobre 2009, altura em que o João Miguel começou a despachar ordens de linchamento sem parar. Se cada um destes párias estiver curioso a respeito do castigo que o Torquemada de Portalegre gostaria de lhe aplicar, tem bom remédio: vá ter com ele, exponha a gravidade do seu socratismo e aguarde pela pancada.

Rivalizando em honestidade intelectual e sanidade mental com a temática anterior é a temática congénere de Portugal ter estado ameaçado nas suas liberdades “como nunca desde os tempos do PREC” por causa de José Sócrates. E de que forma tal perigo tamanho nos ameaçou? Felizmente, o autor da corajosa denúncia igualmente revela pormenores secretos desses tempos terríveis. Informações espantosas a que, de certeza certezinha, muito poucos jornalistas e magistrados da PGR tiveram ainda acesso. Foi assim, conta: algumas pessoas reuniam-se para almoçar com “os Joãos Galambas” e/ou com “os Miguel Abrantes“, e depois, talvez recorrendo a tecnologias extraterrestres ou à alquimia, “todos eles“, grupo onde se encontra o perigoso Pedro Adão e Silva, criavam “aquela atmosfera dos tempos das Câmaras Corporativas“. Ora, isto de criar atmosferas, metendo-se câmaras ao barulho, é das coisas que mais danos provoca nas liberdades. A tal atmosfera suga as liberdades para dentro das tais câmaras corporativas, e depois as liberdades, coitadas, já não conseguem sair. Ficam por lá a pão e água, a definhar.

Não temos qualquer razão para duvidar da bondade e seriedade com que estas declarações foram feitas. O famosíssimo e importantíssimo “jornalista” só está a querer o melhor para Portugal e para os portugueses. Aliás, até devíamos iniciar um movimento para levar Marcelo a atribuir-lhe o Grande-Colar da Antiga e Muito Nobre Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito pelo que ele conseguiu fazer em 2017. Lembremo-nos: a 12 de Maio desse ano, manhã cedo, foi deixar quatro filhos de tenra idade ao cuidado de um bando de facínoras que apoiou abertamente José Sócrates em 2009 e anos seguintes, chegando vários deles ao ponto de terem ido a Évora em romaria prestar vassalagem ao tirano. Este tipo de heroísmo exibido pelo mais valente dos caçadores de socráticos, arrisco-me a dizer, não se voltará a testemunhar na nossa História. Porque não está ao alcance das pessoas normais.

Abrantes, Pereiras e Tavares

A polémica com a nomeação de Pedro Adão e Silva vem de uma peça do Porto Canal que tem tanto de inusitado (não se conhece outro caso de ataque político a outrance com origem nesse meio de comunicação) como de alarve: Editorial – Pedro Adão e Silva – comissário das comemorações dos 50 anos do 25 de Abril. A canalhice dedica parte generosa da sua duração a pintar o alvo como “socrático”, assim apagando a veemente e sistemática denúncia que o Pedro fez da conduta moral de Sócrates desde que este foi detido e admitiu ter uma relação com o dinheiro na sua posse que era causa para suspeitas legítimas de ilícitos. E chega ao ponto de ir buscar o blogue Câmara Corporativa como combustível da associação. Noutras réplicas deste modus faciendi onde tropecei, casos da Joana Amaral Dias e do João Miguel Tavares, a munição mais grossa continua a ser o carimbo “socrático” e igualmente se traz o Corporações à liça no exercício de tentar macular o Pedro. Significa isto que os caluniadores profissionais exploram a contaminação por proximidade no passado e valorizam como difamação poderosa qualquer ligação a esse blogue e/ou ao seu autor (que assinava com o pseudónimo “Miguel Abrantes”). Mas como é que um simples blogue – um blogue, foda-se caralho! – ganhou tal fascínio na pulharia? Há neste fenómeno algo que raia o mistério mas só até nos recordarmos que foi o Pacheco Pereira o principal responsável por uma diabolização que em 2021, a caminho dos seis anos depois de o CC ter acabado, continua a atrair tratantes e videirinhos.

É preciso recordar. Quando o CC começa a ser visita diária obrigatória para os direitolas da comunicação social e dos gabinetes políticos, algures em 2008, isso coincide com a vitória de Manuela Ferreira Leite no PSD (assim adiando a chegada do especialista em aeródromos). Tal tem duas consequências que se ligam directamente com o CC: (i) Cavaco inicia uma oposição aberta e desvairada ao Governo de Sócrates, a qual dará origem a sórdidas golpadas mediático-judiciais nunca antes vistas em democracia; (ii) Pacheco Pereira sobe a conselheiro-mor da Manela e alinha com o vale tudo cavaquista. Ora, eis a paisagem mediática ao tempo: Correio da Manhã e Sábado, Sol, Público do Zé Manel, Expresso do Monteiro, TVI do casal Moniz, SIC do Balsemão, do Crespo, do José Gomes Ferreira, do mano Costa, RTP da Judite de Sousa e do José Rodrigues dos Santos, DN do Marcelino e saco de passistas na redacção, TSF do Baldaia e seus editoriais, jornal i do Martim Avillez, e ainda o grupo Rádio Renascença. Fica de fora o JN e a imprensa regional, mas nem aqui se encontrava um alvo que permitisse complementar o que já se estava a fazer desde 2007 com os “casos” do primeiro-ministro, início da vingança da Sonae por Sócrates ter resistido à tentativa de tráfico de influência exercida directa e pessoalmente por Paulo Azevedo na OPA da PT. A direita dominava (como continua a dominar) todo o espaço mediático sem sequer se vislumbrar um oásis de apoio editorial socialista. Ter aparecido um blogue que conseguia desmontar as mentiras e manigâncias do PSD, CDS e sua legião de jornalistas, para mais tendo um autor que preferia usar um pseudónimo, era simultaneamente uma fonte de ódio e de êxtase. Ódio, porque se viam expostos como os reais trastes que eram (e são). Êxtase, porque a situação era perfeita para lançar as mais estouvadas teorias da conspiração. E foi exactamente o que o Pacheco Pereira consagrou, recebendo dinheiro da Cofina por tal, quando publicou A Frente da Calúnia. Só pelo que deixou assim no espaço público (embora haja toneladas de fruta podre igual lançada por si antes e depois deste condensado de alucinações), por vir de alguém com o seu trajecto e com a responsabilidade política de então (era deputado), merece a camisola amarela dos caluniadores profissionais em Portugal – o CC continua com acesso público aos seus conteúdos, desafio qualquer um a ir lá buscar uma calúnia.

A situação parece ao alcance do entendimento de um bebé acabado de nascer. Se lhe pedíssemos para comparar o poder de influência política, social e eleitoral dos meios de comunicação social profissionais nas mãos da direita com o de um blogue lido por uns poucochinhos de carolas da blogosfera política, metade deles da direita e a outra metade de uma esquerda já com o seu voto cristalizado, o bebé desataria num choro desesperado, como é natural. E por dentro ficaria a pensar “Minha nossa senhora do Caravaggio, vim parar ao planeta dos taralhoucos!”. Porém, a diabolização do CC realmente pressupõe haver uma massa relevante de taralhoucos à disposição de figuras como o Pacheco Pereira, a Joana Amaral Dias, o João Miguel Tavares e as alimárias do Porto Canal que se prestaram ao infame serviço de tentar assassinar o carácter do Pedro Adão e Silva. Este registo importa como retrato da comunidade que somos, e especialmente importa por causa do que estamos a ver na escaramuça entre o JMT e o PP. É que podemos ler isto num desses episódios:

«[...] havia falsificações, fake news, com a publicação pela Legião Portuguesa e pela PIDE de documentos falsos, disfarçados de verdadeiros. Era uma prática muito comum, que abrangia panfletos com assinaturas falsas, exemplares falsos de jornais clandestinos e cartazes com imagens manipuladas, de que os que aqui reproduzo são meros exemplos. Desde Salazar, mentindo publicamente sobre o assassinato de Delgado, ao legionário da esquina, a falsidade era o corrente. A falsidade, a calúnia e a difamação como instrumento de ataque aos opositores.

Dos exemplares que reproduzo acima um é particularmente repulsivo, a “biografia” de Mário Sottomayor Cardia. Cardia é acusado de roubar dinheiro nos vestiários da Cidade Universitária para ir cear ao restaurante Mónaco, de onde saía embriagado, e de ter sido protegido pela PIDE por ter participado num atentado à bomba. Tenho a certeza, mas tenho mesmo a certeza, que haverá quem leia isto hoje e pense: “Se calhar era mesmo verdade.” Hoje, em 2021, porque quando este papel imundo foi feito quem o lia percebia que a PIDE ou a Legião estava a fazer o seu trabalho sujo. Do modo como as coisas estão, era mais inócuo lê-lo em 1969 do que hoje.»

Pacheco PereiraA indústria de falsificações do Estado Novo

O nosso Pacheco viveu no Estado Novo como adulto, estudou o que foi o salazarismo, tem na sua extraordinária biblioteca os calhamaços essenciais sobre o que é o fascismo. Ele sabe o que é estar privado da liberdade, não ter direitos cívicos e políticos e sofrer a violência do Estado. Só por esta dimensão existencial, passando a viver num regime de Estado de direito democrático, qualquer alusão que fizesse a “mentiras”, “falsidades”, “difamações” e “calúnias” teria sempre de ser contextualizada pela comparação com o que no regime anterior se fazia e cuja citação do seu artigo que trago ilustra e dá exemplo. Acontece que ele traiu esse dever de consciência, essa deontologia de historiador e cidadão, ao se apaixonar por Sócrates e fazer desse transe um duelo que o arrastou para a ignomínia. Não só Sócrates (ou algum governante de governos socialistas) nunca atentou contra qualquer valor democrático, bem ao contrário, como vimos o Pacheco a mentir, a lançar falsidades, a recorrer a difamações e a cair na calúnia. Porquê? Porque havia algo para ganhar em cima da mesa, ele queria provar a sua virilidade como guerreiro, um papel onde descobria a cada embate com Sócrates que não lhe chegava aos calcanhares em talento político. Daí só ter encontrado um sossego resignado quando, usando e abusando do seu cargo de deputado, se fechou numa saleta da Assembleia da República para ler sôfrego e febril as escutas aos telefonemas entre Sócrates e Vara. Saiu desconcertado para a frente das câmaras a dizer que tinha encontrado muitos crimes mas que não iria fazer nada a respeito. E com esse número voyeurístico, finalmente, encontrou um pouco de alívio para o seu sentimento de inferioridade.

Com o João Miguel Tavares também há algo para ganhar na sua perseguição a Sócrates e ao PS mas com este profissional da calúnia é apenas dinheiro o que está em cima da mesa, ele não quer sujar as mãos na porca da política que depende do Zé Povinho e dos votos. Por dinheiro, pelo encanto babado de meter o Ricardo Araújo Pereira em sua casa para mostrar aos filhos quão famoso é o papá, está disposto a fazer qualquer coisa; como branquear o Estado Novo, conviver com fachos e promover o Ventura para tentar dar a Passos mais uma rodada para ir além da Troika. Todavia, este Tavares é tão-só um arrivista, não tem um passado que valha a pena conhecer nem uma obra que valha a pena conservar. É por estas antagónicas biografias que, quando ambos recorrem à mesma decadência para atingirem os seus fins, um deles tem desculpa por lhe ter calhado o destino de ser um asco ambulante, e o outro não tem perdão por ter usado a liberdade para empeçonhar a liberdade.

Sérgio Sousa Pinto, um príncipe da Cagadócia

Nesta edição de A Lei da Bolha, Sérgio Sousa Pinto estava a pontapear a Carta Portuguesa dos Direitos Humanos na Era Digital (começa ao minuto 22:30) quando lhe perguntaram o seguinte:

FCSTu és deputado do PS. Foi o PS o principal proponente desta lei. Foi com os votos a favor do PS, essencialmente, que esta lei foi aprovada. E estava lá também o teu voto. Por que é que votaste a favor de uma coisa sobre a qual tens estas críticas?

SSPPorque não conhecia. Não vi. Não conhecia.

O homem admite ter votado à maluca. Chega a lançar a suspeita, como reles sonso, de ter sido enganado. Resultado: deixa a farfalhuda suspeita de não estarmos perante uma anomalia bizarra na sua conduta, antes perante um paradigma. O que será, a acontecer, algo perfeitamente de acordo com a postura dandy que cultiva, exalando desprezo pela política e pelos políticos de cada vez que abre a boca. Como é que este nefelibata vai encontrar tempo e pachorra para se informar sobre as votações em que participa, quando participa, se é tão mais interessante fingir que é fã de Hölderlin? Santa ingenuidade.

E depois falou a Isabel Moreira. Por sorte, estava lá a Isabel. Para grande sorte dos que preferem a inteligência e a coragem à verborreia demagógica e sensacionalista. Porque ela de imediato, com implacável rigor, coloca no seu lugar de voluntária e militante estupidez deturpadora tanto os jornalistas, como os comentadores e, especialmente, o próprio Sérgio que vota de costas, olhos fechados e mãos a tapar os ouvidos. Tudo o que ela diz é não só útil para se entender o que está em causa na tal carta como altamente valioso para se contemplar a quantidade de trabalho parlamentar e a qualidade democrática que está na origem da lei. É do fundamental labor de legislar que fala, esse trabalho que sustém e molda a nossa comunidade de acordo com os princípios constitucionais e para dar as melhores soluções aos nossos problemas quotidianos. Um trabalho da mais preciosa responsabilidade e complexidade, o qual depois acaba invariavelmente achincalhado nestes espaços de “opinião” transversais a toda a paisagem mediática. Espaços de sistemática perversão da própria soberania só para alimentar a política-espectáculo e o cortejo de bonzos que nela enche os bolsos e a vaidade.

Repare-se ainda na forma como o Sérgio tenta arrastar a Isabel para um bate-boca de taberna e como ela o ignora olimpicamente (o mesmo tendo feito a igual pulsão do jornalista logo desde o começo do programa). Não admira que esta infeliz e ridícula figura prefira conviver com André Ventura, só porque lhe ofereceram palco para se ouvir a si próprio e receber aplausos de serôdios e neo-fachos, e se recuse a criticar a normalização do Chega pelo PSD. Ele esperava vir a ser um dos reis do PS quando liderava a JS, nos finais de 90. 20 anos depois, arrastando-se enfastiado e cínico pelos corredores do regime, já só quer usufruir das prebendas e sinecuras próprias de um genuíno príncipe da Cagadócia.

Revolution through evolution

Persistent Stereotypes Falsely Link Women’s Self-Esteem to Their Sex Lives
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‘Disagreeable’ married men who shirk domestic responsibilities earn more at work, study shows
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Women’s mental health has higher association with dietary factors
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Study finds novel evidence that dreams reflect multiple memories, anticipate future events
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Rudeness leads to anchoring, including in medical diagnoses
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Findings suggest that consuming mangos, honey and spices could bring important health benefits
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New Research Shows Link Between Politics, Boredom and Breaking Public-Health Rules
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Continuar a lerRevolution through evolution

Esclareçam-me, que esta polémica dos dados parece-me um bocado estúpida

Numa interpretação benigna, talvez por ter uma importância relativa, a questão da comunicação de informações sobre os promotores de uma manifestação à embaixada da Rússia em Portugal não foi notícia quando chegou ao conhecimento dos jornalistas em Janeiro. Talvez. De facto, como considerar grave que uma lei obrigue à comunicação dessas informações ao Estado visado (através da sua embaixada), quando no dia seguinte essas mesmas pessoas se vão apresentar em público, de cara destapada e prontas a serem filmadas, fotografadas, identificadas, e a gritarem ao que vêm? Qual a diferença em termos práticos? Essas pessoas constam com certeza dos registos do consulado da Rússia.

 

Claro que do que acabo de dizer não se deve deduzir que eu concordo com a transmissão de dados sobre a morada e o nome das pessoas que promovem uma manifestação à embaixada do país contra cujo governo as mesmas protestam. Acho que não deve fazer-se nem é necessário fazer-se, mas também acho que de certo modo é irrelevante. Possivelmente, a ideia inicial da lei era informar o alvo do protesto sobre quem o organiza e por que motivo, quando e aonde, até por uma questão de prevenção e de “preparedness”. Não sei. Parece-me também que uma forma de comunicação é uma questão de cortesia diplomática mínima. Se alguém se quisesse manifestar em Amesterdão ou Haia contra o governo português, eu agradecia, enquanto embaixadora, que me informassem de quem são e o que querem (além do local e da hora), não? Sem necessariamente exigir que a Câmara local me desse os nomes e moradas dos organizadores, claro, mas enfim, se se tratasse de uma organização não clandestina ou ilegal, porque não?

É ou não verdade que, hoje em dia, a partir de qualquer fotografia ou imagem é possível saber quem é a pessoa e onde mora, principalmente se essa pessoa provier de um país com registos, com embaixadas com registo dos cidadãos cá residentes, etc.? Ora, que se saiba, os russos que agora se queixam não vivem cá ilegalmente. A sua identificação não é difícil, se as autoridades russas assim o pretenderem. E todos sabemos de como são competentes nessa matéria. Mas, mais uma vez, nada disto obsta a que seja um erro transmitir informações pessoais só porque sim. Mas consta que, depois de um protesto da activista russa que continua a viver pacificamente em Portugal e não se incomodou nada de falar ao Expresso, isso foi corrigido. Agora, que estejamos perante um crime da maior gravidade, não. Poupem-nos aos vossos calores.

 

Por isso, as ou os activistas que agora dizem que vão para tribunal e mais não sei o quê por causa de uma grave violação dos dados pessoais estão claramente a exagerar e a aproveitar a suposta indignação dos opositores a Medina para ganharem dinheiro. É pena, porque eu até acho que se deve protestar contra o regime de Putin e que é preciso alguma coragem para o fazer. Mais lá na Rússia do que neste cantinho soalheiro à beira-mar, diga-se. Passaram-se cinco meses e ninguém foi envenenado nem levado à força para a Rússia. E podemos ter a certeza de que, se tal tragédia acontecesse, não seria porque os serviços da Câmara de Lisboa comunicaram os nomes dos promotores da manifestação à embaixada da Rússia em Lisboa. Sejamos realistas. Uma manifestação é o contrário de uma descida à clandestinidade.

 

Voltando lá acima. Disse “talvez” no primeiro parágrafo, porque pode dar-se o caso de os jornalistas em causa, ao serviço da direita, terem achado que tinham em mãos um enorme furo jornalístico-político e terem decidido deixar a questão de pousio até melhor altura, digamos que mais próximo das eleições autárquicas, para, aí sim, a apresentarem como grande bomba, ajudando a pobre campanha do Moedas a dinamitar a do Medina. Afinal, os jornais que lançaram a notícia pseudo-escandalosa são declaradamente da direita – o Expresso e o blogue noticioso Observador. Se foi isso, não lhes correu lá muito bem, quanto mais não seja porque, um dia volvido apenas, e o próprio Moedas já se encarregava de mostrar a sua falta de nível, de jeito e de pruridos ao querer fazer-se passar por convidado no fórum TSF quando fora ele próprio a inscrever-se, como outros, para falar, qual “troll”. Ridículo. Se a ideia era promoverem esta coisa, melhor abortarem qualquer plano. Já. O ridículo do homem arrasta todos os seus promotores.

 

Moedas tem sido muito menos do que se imaginava

Moedas vai tirar alguma vantagem eleitoral do caso da partilha de dados pela CML? Não vejo como. A questão da segurança dos cidadãos é altamente relevante, em várias dimensões políticas e cívicas, mas, para além de entrar no esquecimento muito em breve e deixar Medina moralmente intacto, não tem em si mesma tracção popular para alterar votos no eleitorado socialista nem conta para qualquer mecanismo de inibição no eleitorado não socialista que está agradado com a pessoa e a obra de Medina (como as sondagens mostram).

Outro corvo crocitaria se Moedas tivesse aproveitado a ocasião para mostrar talento político. Para tal, teria de surpreender a malta – até chocar os seus generais, tenentes e broncos de serviço – apresentando-se como estadista. E, como estadista, poderia mesmo mostrar solidariedade para com o actual presidente da Câmara de Lisboa, a quem ele reconheceria total inocência no campo das intenções à volta desta infeliz anomalia da lei, ou da sua interpretação, ou do arbítrio dos serviços, ou de tudo à mistura. Caso fosse por este caminho, Moedas chamaria a atenção da sociedade e gerava uma expectativa positiva no eleitorado susceptível de vir a acreditar nas suas promessas e dar-lhe o voto.

Não foi. Surgiu banal, oportunista, eleitoralista, hipócrita. Agradou aos seus generais, tenentes e broncos de serviço, claro. Mas foi ignorado por aqueles que acham ser a política um concurso de boas ideias para a cidade, não uma rixa entre facções suburbanas (pun intended). Para cúmulo, o lapsus linguae no Fórum TSF exibe um candidato que se permite ser gozado como patareco. Alguém lhe devia tentar explicar que nada do que tem visto a direita portuguesa fazer após Sá Carneiro, Lucas Pires, Adriano Moreira e Freitas do Amaral (seres que parecem mitológicos comparados com a actual direita decadente) é exemplo para arrepiar caminho e surgir competitivo no páreo com Medina. Por outro lado, se continuar a representar um papel para que não tem jeito, antecipam-se novos momentos desopilantes. Ficaremos sempre a ganhar.

Rui Rio, do banho de ética à banhada tétrica

🛀🪠

Rui Rio desceu à Capital convencidíssimo de que o PSD estava tão mal que, com ele no leme, só poderia melhorar. Enganou-se. Porque embora não esteja pior do que com algum passista ou cavaquista a empestar o laranjal, o seu PSD continua no fundo do poço entretido a escavar o solo por baixo dos pés. Está apenas um bocado mais ao lado dos fanáticos da austeridade salvífica e dos profissionais do golpismo, quanto ao estado de decadência é exactamente o mesmo. Um caso em que as paralelas se tocam, se entrelaçam e começam a produzir vexantes nós cegos.

Analisemos a degradante estupidez acima exposta com o nome e busto de Rui Rio:

– Obsessão parola e paranóide com o comentariado.
– Deturpação sectária da paisagem mediática, dominada pelas diferentes direitas e sem qualquer espaço editorial que se possa identificar com o PS. É que nem a RTP escapa ao monopólio direitola.
– Concepção da vida partidária como farsa cívica sustentada na baixa política e no proselitismo de aluguer.
– Ataque ao carácter de Pedro Adão e Silva.
– Lançamento de calúnia que atinge um número indeterminado de cidadãos.
– Apelo ao populismo da inveja asinina e odienta.

Isto vem do homem que encheu a boca com o sermão do “banho de ética”. O banho que ele prometeu, que anunciou estar em condições de dar ao PSD e, por arrasto, a toda a classe política e à sociedade, é agora um charco imundo onde chapinha e gorgoleja cada vez mais desesperado, cada vez mais fétido.

Rui Rio já se considerou a si próprio no remoto passado como um “extraterrestre na política portuguesa” e o “político do Norte que não percebe nada disto”. Nunca exercícios de duvidosa auto-ironia se revelaram tão proféticos.

Contra a pulharia, pensar, falar

O “Dilema” é um segmento do espaço noticioso “Noite 24”, na TVI24, onde alguns convidados discutem um assunto do dia durante 25 minutos. Nesta quarta-feira, André Coelho Lima (pelo PSD), Pedro Delgado Alves (pelo PS) e Joana Amaral Dias (com o estatuto de “comentadora TVI”) foram os protagonistas de uma simulação de debate acerca do tema “As nomeações do PS”.

No final do vídeo, exactamente nos últimos 13 segundos, podemos ver a jornalista Sara Pinto a rir-se com os risonhos Joana e André. E vemos o Pedro a desinfectar as mãos com uma expressão séria e recolhida, talvez até crispada, sem olhar para o trio que galhofava. O motivo imediato da risota nasceu do atropelo da Joana ao André, impedindo este de falar na sua vez e ficando o senhor sem tempo para uma última intervenção. Mas havia mais e bem mais fundos motivos para os folguedos de satisfação nestas três figuras.

Quem viu, ou for ver, pode comprovar: a ex-bloquista boicota a suposta finalidade da rubrica ao impedir o Pedro de completar, ou sequer começar, os seus argumentos. A forma como o faz, de acordo com a caricatura em que se tornou nos últimos anos para ocupar um lugar na indústria da calúnia e do populismo mediático, é abjecta até à agonia, uma mistela de chungaria mentirosa com soberba incontinente. Porém, todavia, contudo, essa dimensão teatral da sua persona mercenária reduz-se à irrelevância quando comparada com o efeito conseguido junto das audiências. Esse efeito consiste no triunfo da irracionalidade violenta e persecutória. A essência mesma de um monstro, portanto.

Daí o riso final. Porque há vantagens nessa irracionalidade e nessa violência para certos agentes. Vantagens para o opositor político do Pedro, agradado com a má-fé e sujidade que diminuiu a eficácia do discurso da concorrência. Vantagens para a jornalista, que serve um patrão interessado na política-espectáculo, para quem o espaço público pode e deve ser envenenado desde que haja uma miragem de lucro nisso. E vantagens para a artista, a “comentadora TVI”, que fornece ao mercado um produto com muita e poderosa clientela. Veja-se em quantos palcos tem actuado aquela que já foi uma das mais queridas estrelas de Louçã e da sua auroral “esquerda grande”.

Este tipo de programas onde se permite fazer da chicana e da protérvia armas de arremesso, como o Pedro chega a conseguir formular debaixo da intoxicação emocional lançada para o confundir e inibir, atenta contra a democracia ao provocar repulsa pela política e pelos políticos. O que em muitos, bem-intencionados, leva a uma reacção higiénica em que se pede distância de figuras como Joana Amaral Dias, André Ventura e quejandos. Para mim, tal desiderato não pode ser mais errado. Do que precisamos é de expor os demagogos, os populistas e os pulhas na sua miséria intelectual e moral. Fazê-lo de modo implacável, em nome da República e como serviço de auto-defesa e pedagogia comunitárias. Infelizmente, não existe um único espaço mediático onde tal possa acontecer. Porque pede tempo, porque exige coragem. Tempo para desmontar, rebater, expor, relacionar, apresentar. Coragem para subir às muralhas da cidade quando esta está cercada e em vias de ceder.

“Está tudo na Net”, descobriu o Zé Gomes


[a partir do minuto 12]

🚀

José Gomes Ferreira, director-adjunto de informação da SIC, encontrou provas de Marte ter zonas verdes e azuis, algumas idênticas às que vemos na Terra. Ele também sabe terem os países que mandam sondas a Marte combinado ocultar dos terráqueos estes dados a respeito do enganadoramente chamado “Planeta Vermelho”. Os piores nesta interplanetária cabala são os americanos, os quais pintam obsessivamente de tons castanhos e alaranjados todas as fotos de Marte para disfarçar pedaços verdes e azuis. Os europeus parecem mais desleixados na matéria, se bem entendi as explicações do famosíssimo jornalista.

O que no episódio importa não é o fulano e a sua epistemologia digitalóide. Declaro que não o acho maluco, nem parvo, antes notavelmente bem preparado para utilizar um navegador de Internet sem se magoar a si ou a terceiros, e, portanto, muitíssimo bem informado acerca do que se pode ir buscar à Net. O que importa no episódio é a SIC. A SIC paga-lhe, deu-lhe um cargo de direcção, permite-lhe usufruir do tempo de antena que quiser para lançar no espaço público outras ideias deste calibre, realismo e supina inteligência. O Zé Gomes usa a sua invejável acutilância para investigar o tenebroso fenómeno de estarmos rodeados por marcianos a mando do Estado, do PS e da Maçonaria (embora não necessariamente por esta ordem). Tem dedicado a maior parte da sua vida adulta a alertar-nos para tal. Devemos agradecer ao tio Balsemão pelo privilégio de ainda haver alguém com coragem para esse homérico combate.

Tudo isto que eu estou a dizer não saiu da minha cabeça“, revela ao minuto 24. Acreditamos sem dificuldade, Zé Gomes. É bem possível que a tua cabeça seja apenas um local de passagem das mais desvairadas e arrebimbomalhantes ideias da Net. Vou até mais longe: no dia em que algo consiga sair da tua cabeça, ou o mundo estará para acabar ou já haverá socialistas em Marte a lançar parcerias público-privadas (tanto nas zonas verdes como nas azuis, pois os cabrões não perdoam).

Concerteza, Dr. Rui Rio

Já não ia ao Twitter de Rui Rio, esse espaço de primorosa stand-down comedy, há uns meses. Algo me buzinou para lá voltar, na certeza de com certeza valer a pena. E assim foi, não falha. São três exemplos de rajada. Eis como o chefe da oposição, brilhante economista e distinto ex-aluno do Colégio Alemão do Porto, consolida a genial estratégia eleitoral de se expor sem decoro, sem noção e sem gramática:

Revolution through evolution

Revealed: men and women do think and act differently
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Brain activity reveals when white lies are selfish
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People who eat a healthy diet including whole fruits may be less likely to develop diabetes
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People who regularly consume milk have a lower risk of heart disease
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Kids who sleep with their pet still get a good night’s rest
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Culture drives human evolution more than genetics
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Conservatives more susceptible to believing falsehoods
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