Esquerda de masoquistas by Nik

Há uma esquerda, que não se limita aos partidos de Louçã e Jerónimo, tendo também os seus representantes no PS, noutras agremiações e entre muita gente sem simpatia partidária, que sofre, sempre sofreu, de uma idealite aguda, agravada de uma profunda incompreensão do que é a política hoje, do que ela foi ontem e será amanhã.

É uma gente que, mesmo nascida depois da ditadura salazarista, só gosta de estar na oposição, indefinidamente, para sempre. Para eles a acção política é só o protesto, a denúncia, a defesa, a resistência a um estado de coisas inaceitável. Preferem deitar ao lixo os seus votos, ou não votar de todo, a interrogar-se seriamente sobre a validade dos seus próprios ideais, supostamente belos e nobres. Ideais que se confrontam permanentemente com uma realidade que não compreendem e recusam. Têm a sensação que está tudo sempre a piorar, desde o começo dos tempos.


A realidade não está de acordo com os seus belos e nobres ideais. Acham que a corrupção é generalizada e que todos os governantes, sejam quais forem, só querem é governar-se, conluiados com tenebrosas forças ocultas. Vivem num estado de paranóia, desconfiança, rejeição e indignação permanentes. Os governos, para eles, estão sempre a atacar as pessoas, os trabalhadores, o emprego, a economia, os direitos, as liberdades, a cultura, o património nacional e todas as conquistas míticas de uma era dourada que nunca existiu. Para eles, a política resume-se a isto: o governo a atacar, o povo a resistir. Numa coisa esta esquerda está de perfeito acordo com a direita: é a direita que deve governar o país, para a esquerda poder fazer oposição.

É uma esquerda de masoquistas, gostam de sofrer e gemer. Queixam-se e rebelam-se contra as forças da reacção, contra o poderes visíveis e ocultos, mas ficariam órfãos e desorientados se essas pérfidas entidades desaparecessem, pois então não poderiam queixar-se ou lutar contra elas.

Soares, a muito custo, descobriu para a esquerda portuguesa a vontade de estar no poder e de governar, realizar, reformar, construir. Descobriu que tirar o governo à direita era possível. Que revolução na velha cultura política da esquerda em Portugal! Só por isso Soares ficaria para a história. Claro que ele foi, e ainda é, odiado pela esquerda masoquista e paranóica.

Sócrates recebeu, desenvolveu e modernizou a herança de Soares, aumentando-lhe enormemente a eficácia e a capacidade reformista. Conquistou, além disso, uma maioria absoluta, que lhe permitiu governar quatro anos sem ter que ceder no essencial dos seus objectivos reformistas. Outra revolução! Um governo de esquerda, afinal, não tem de negociar todos os dias as condições de uma precária estabilidade governativa, não tem que trocar queijos limianos por orçamentos nem que perguntar ao sr. Carvalho da Silva se aceita a legislação aprovada pelo governo e pelo parlamento. Só por isso Sócrates já entrou para a história. Claro que ele é odiado pela tal esquerda velha, herdeira do complexo de oposição do salazarismo.

Nik

17 thoughts on “Esquerda de masoquistas by Nik”

  1. A idiotice de certos veneradores aumenta proporcionalmente ao desespero e inversamente proporcional ao tempo que nos separa de Outubro. Porque será?

  2. Claudia: Piss off.

    NIK,

    Escreves como um professor, Nik, mas saiu cagada, e da alta!

    Deixo a todos os gajos da esquerda e da direita que deitas abaixo – e não são poucos porque só deixas de fora a clique e a claque do adorável Sócrates- a enfandonha tarefa de te cilindrarem. Eu fico a apreciar o fogo de vista, com o chapéu de chuva aberto.

  3. Intrépido mas altamente revelador. Não se questionam se o homem fosse assim tão reles e monstruoso como ainda mantém e, estou certa que manterá, uma maioria?
    O povo reclama, reclama mas no fundo sabe reconhecer o valor. Nem que seja por falta de alternativa em valores.

  4. Concordo com o texto e acho uma reflexão importante, cujo valor ultrapassa o âmbito das eleições que se aproximam.

    O problema esta longe de ser novo e, no fundo, sempre existiu. Não sei mesmo se esse problema não é o que define a esquerda. De facto, o principal problema da esquerda, e também a sua principal riqueza, é ser capaz de mudar a realidade.

    Ha muita gente a quem isto doi. E nem sempre esta gente esta no extremo onde pensamos encontra-la…

    Bom texto.

  5. Aspirina Genérico,
    Tinha deixado aqui um comentário que não viu a publicação. Que aconteceu? Morreu por falta de aspirina suficiente? O mesmo de que se queixam quanto ao arastão cabeça de burro?
    Sintetizando:
    Totalmente de acordo com o texto com um senão no que diz respeito a votos deitados ao lixo. Muito bem pensante daqui faz cálculos minuciosos onde votar e depois sai asneira da grossa, como votar Alegre e depois ficar triste por tal. Votar com base em rebuscados jogos de raciocínios e argumentos de imaginação servem, quase invariavelmente, para nada. São também votos para o lixo, não é verdade Vapupi?

  6. Adolfo, não temos nenhum comentário teu retido, nem se censuram comentários por aqui. Portanto, a explicação será outra.

    Quanto ao “Vapupi”, não sei quem é esse amigo, mas olha que foi o Nik quem escreveu o texto.

  7. nik,
    bom texto, escusado dizer que outra coisa não se esperava. Mas também um texto onde a opinião se veste aqui e ali de verdade, falseando um nadita as conclusões que o vão construindo, em pescadinha de raciocínio. A haver onde bicar, seria por aqui, mas num beijo necessidade. Chapeau, no geral.

  8. caro Valupi,
    O “Vapupi” foi um erro involuntário de escrita à pressa, não foi para tirar qualquer efeito simbólico-critico-literário da troca, garanto.
    Contudo, o comentário sobre os votos atirados ao lixo eram precisamente para Valupi, que percebeu e respondeu. Vi que era post do Nik, mas todos sabemos que a alma-máter do Aspirina B é o Valupi. E a referência dos votos-lixo aplicam-se que nem uma luva a quem votou Alegre. Agora o homem vai ao caixote a todo momento buscá-los e esgrime com eles, qual espadachim guardião de mais de um milhão de espadas cruzadas.

  9. Adolfo, eu também percebi que podia ser erro de teclado, mas foi só para assinalar. Quanto ao comentário perdido, não te cheguei a dizer que temos passado por alguns problemas técnicos, pelo que pode ter sido isso que esteja na origem do problema.

    Sobre os votos perdidos, voltaria a votar Alegre se voltasse ao passado. Felizmente, ninguém volta ao passado. O que o homem faz é problema só dele, e de quem o atura (ou com ele se encanta, pois).

  10. Votos para o lixo foi só maneira de dizer voto inútil, que às vezes é muito útil a quem ri por último, não a quem o recebe. Não estava a pensar em ninguém em particular, muito menos em Alegre.

    O que eu exprimi neste comentário que o Val transformou em post é algo que sinto há muitos anos sobre um largo sector da esquerda portuguesa – esquerda em que sempre me incluí, ainda que na bordinha. A única esquerda que eu vi com verdadeira tusa para governar o país antes de Sócrates foi o PCP, mas que preferia fazê-lo sem eleições, encostado aos militares. Mesmo Soares, lutou pelo poder como um leão, mas, chegado lá, tinha o tal problema eréctil.

    Muito pessoal de esquerda não gosta de estar no poder, faz-lhe impressão mandar. Prefere que mandem os outros para depois poder protestar. É doença.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.