Todos os artigos de Júlio

Ana Gomes e José Sócrates

Em declarações hoje ao jornal da Sonae, Ana Gomes diz, comentando as declarações de Fernando Medina anteontem na televisão:

Só tenho pena que não haja mais vozes do PS, eleitos do PS, a dizer aquilo, em particular os seus responsáveis máximos. E a tirar consequências políticas daquilo que se sabe, independentemente do que a Justiça venha a apurar. Não se pode deixar de tirar consequência políticas, sabendo que um primeiro-ministro do PS “mercadejou” o cargo, que se aproveitou do cargo para tirar vantagens pessoais. […] Aquela linha do “À Justiça o que é da Justiça, à política o que é da política”, que tem sido utilizado por António Costa, não é mais aceitável, sobretudo a partir do momento que já não é só o Ministério Público, é também o juiz de instrução, que vem dizer que aquele indivíduo foi corrupto.

Antes de mais, Ana Gomes mente. O juiz de instrução Ivo Rosa não declarou que Sócrates “foi corrupto”, nem podia ter dito tal coisa, porque foi apenas chamado a decidir as matérias sobre as quais Sócrates deveria ser levado a julgamento.

Ana Gomes recusa distinguir acusações de factos provados em tribunal. Pior, ela sustenta que sobre Sócrates há algo que “se sabe, independentemente do que a Justiça venha a apurar” (sic). Ela já se tinha comportado assim em outras fases do processo, atentando desinibidamente contra a presunção de inocência do inquirido, do arguido, do acusado e agora do pronunciado. Ana Gomes não se atrapalha com as garantias do Estado de Direito, niquices inventadas para chatear nobres jornalistas e honestos políticos.

Que Ana Gomes emporcalhe a sua conduta com os mesmos tiques “justiceiros” do jornalismo tabloide, da extrema-direita populista ou do seu velho MRPP, é lá com ela. Fernando Medina fez algo de parcialmente semelhante, colando-se oportunisticamente às sentenças condenatórias de Sócrates emitidas na praça pública. A diferença, porém, é que Medina, por razões obviamente eleitoralistas, fê-lo a título pessoal, sem se atrever a fazer recomendações ou exigências sobre o que deveria ser a “linha” do seu partido ou do governo a tal respeito.

Ao contrário de Medina, Ana Gomes exige expressamente que o primeiro-ministro e líder do PS deixe de respeitar e defender a delimitação do que pertence à justiça e do que pertence à política. Ana Gomes acha mesmo “inaceitável” que António Costa continue a recusar a intromissão da política nos meandros da justiça e vice-versa. A fulana deseja, visivelmente, que o primeiro-ministro e dirigente do seu partido se acanalhe como ela, dando como provadas acusações não julgadas e alinhando com julgamentos na praça pública.

Curiosamente, José Sócrates, numa atitude simétrica da de Ana Gomes, tem vindo a vituperar o seu partido por não o ter defendido, ou seja, por não se ter intrometido no seu processo judicial. Denotando também uma surpreendente falta de senso político, o ex-governante socialista recusa ver a armadilha que tal intromissão representaria para António Costa, o seu partido e o seu governo. Uma armadilha em que a direita e toda a comunicação social adoraria ver Costa meter ambos os pés, para do mega-processo a Sócrates poderem fazer finalmente o ansiado giga-processo ao PS, ao governo, a Costa e, no fundo, à esquerda. Foi também para esse fim – e Sócrates deveria sabê-lo melhor do que ninguém – que em 2014 foi fabricada a Operação Marquês.

Entre Ana Gomes e José Sócrates, espero que António Costa persista intransigentemente na defesa do Estado de Direito.

O fim de um monstro

Faz hoje exactamente 200 anos que a Inquisição foi abolida por uma lei aprovada por unanimidade no primeiro parlamento do liberalismo (31 de março de 1821). O Santo Ofício da Inquisição, que durou quase três séculos, foi a maior fábrica de opressão, fanatismo, intolerância, tortura, morte, perseguição, roubo, confisco, delação, preconceito, conformismo, submissão, atraso, ignorância e compressão do pensamento da história de Portugal.

A Inquisição foi também um tribunal corrupto, que inventou os processos arbitrários, esmagando os direitos dos réus. Alguns desses processos deixaram saudades em certos juízes que ainda por aí vegetam.

Na Assembleia da República, Ferro Rodrigues lembrou esta manhã a data histórica. No Público de hoje, Esther Mucznik assinalou a data. A TSF também evocou a data, entrevistando o historiador da Inquisição José Pedro Paiva (vale a pena ouvir).

Estou curioso do que vão dizer, ou calar, os nossos “liberais” de hoje, muitos deles apenas reaccionários disfarçados, como a Bonifácia e os seus colegas.

Portugal recordista

Quando há três semanas, a 6 de março, o democrata amordaçado de Boliqueime acusou Portugal da “vergonha” de ser “recordista” da pandemia, já o país saíra há muito do pico da segunda quinzena de janeiro. O patifório pensa au ralenti. Mas agora que Portugal já é há três semanas o país europeu com menos casos novos de Covid-19 por habitante, será que vai retirar o que disse ou elogiar o SNS?

Uma ova! Soube-lhe tão bem o pico da pandemia em janeiro! Filas de ambulâncias à porta dos hospitais, oh maravilhosa visão orgástica! Era a prova de que o gajo desesperadamente precisava para enxovalhar a maldita geringonça, que tinha dado cabo do SNS com “decisões erradas”.

Estava-lhe atravessado desde 2016 o êxito do governo. A última estocada foi o excedente orçamental em 2019 – verdadeira vergonha para um gajo que governou 10 anos com uma conjuntura ultra favorável e nunca conseguiu equilibrar as contas. No passado dia 6 de março só lhe faltou dizer (mas insinuou!) que o surto pandémico de janeiro foi o preço que Portugal pagou pelo excedente orçamental.

Agora a prova do “recordista” foi pelo cano abaixo. E até o tremendo défice de 2020 saiu curto, oh miséria de um corno! Resta ao democrata amordaçado esperar pela estação dos incêndios, alguma inundaçãozeca ou quiçá um terramoto, para sair novamente da cova e voltar a botar asneira.

Amor secreto secretamente correspondido

Toda a gente conhece “Take Five” do quarteto de Dave Brubeck. O homem do saxofone, Paul Desmond, foi o autor dessa faixa do álbum Time Out, de 1959, que muitos garantem ser o disco de jazz mais vendido de todos os tempos.

Anos antes, no verão de 1954, o quarteto de Brubeck tocava no club de jazz Basin Street, em Manhattan. Todas as noites, a certa hora, Desmond olhava o relógio e pedia um intervalo. Saía e corria três quarteirões até à porta do teatro onde se representava uma peça com Audrey Hepburn. O saxofonista ficava ali a fumar o seu cigarro até a estrela sair e entrar numa limusine. Contentava-se com aqueles segundos em que a via de perto, mas nunca ousaria dirigir-lhe a palavra. Nesse ano, em que a actriz ganhou um Oscar, Desmond compôs uma música dedicada à sua secreta paixão, pouco secretamente intitulada “Audrey”, incluída no álbum Brubeck Time.

O vício de fumar matou o divorciado Desmond aos 53 anos, em 1977, sem nunca ter falado a Audrey Hepburn e ignorando se ela alguma vez ouvira a sua música.

Quando a actriz morreu, em 1993, um ex-marido pediu a Brubeck que o seu quarteto tocasse “Audrey” numa cerimónia realizada na sede da ONU em homenagem à actriz, que fora embaixadora da boa vontade da UNICEF. Brubeck sabia da antiga paixão de Desmond por Audrey, mas admirou-se com o pedido, pois não fazia ideia que o casal conhecia a composição. O ex-marido explicou-lhe que todas as noites antes de se deitar Audrey ouvia aquela música e que também costumava ouvi-la com auscultadores quando passeava no jardim. Chamava-lhe “my song”.

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Esta história foi revelada por Doug Ramsay em Take Five: The Public and Private Lives de Paul Desmond (2005),  contada pelo mesmo aqui (2015) e posta em banda desenhada por Paul Rogers na revista The New Yorker de 8 de fevereiro de 2021.

A vacina russa

Recomendo dois artigos sobre a vacina Sputnik V (o V é de vacina), que os russos anunciaram em meados de 2020, antecipando-se às grandes empresas farmacêuticas ocidentais. O cepticismo, quase escárnio, com que essa notícia foi então recebida nos presunçosos media ocidentais, está agora a ser substituído por um acolhimento mais favorável, mais humilde e mais racional.

O primeiro texto é uma coluna de Luís Delgado na Visão, quase telegráfica, mas cheia de fé na vacina russa: “A Sputnik V é que nos vai safar”. Apenas recomendo essa opinião ou fezada porque é raríssimo os jornalistas portugueses, amestrados para desconfiarem da Rússia e da China, falarem sobre a Sputnik excepto para alimentar as maiores dúvidas. Os correspondentes em Moscovo dos media portugueses (actualmente creio que só há um) não vão, em geral, muito além de falar mal do czar, que é o que se espera deles.

O segundo artigo é um texto muito informativo, diria mesmo suculento, do correspondente em Moscovo da revista The New Yorker, o jornalista americano Joshua Yaffa, O artigo intitula-se “Five-Month Plan” (brincadeira com os planos quinquenais soviéticos) e saiu na New Yorker de 8 de fevereiro. Relata a história, para nós basicamente desconhecida, do épico desenvolvimento da vacina russa em cinco meses. Para esse fim entrevistou cientistas, investidores e gestores e visitou os institutos e laboratórios envolvidos na preparação e testagem da vacina. Yaffa tem um excelente conhecimento da Rússia de hoje e do putinismo, sobre o qual publicou um livro em 2020, Between Two Fires. Um interesse suplementar do artigo é que o jornalista, que não tem qualquer simpatia por Putin, levou a sua  ausência de preconceitos ao ponto de se fazer vacinar com a Sputnik. O médico que o vacinou, sabendo de quem se tratava, ficou tão surpreendido que lhe deu os parabéns e um diploma.

Porque não há locutores ou apresentadores negros na TV portuguesa?

Muito mais do que mil manifs de rua ou inflamados discursos “anti-racistas”, vale a análise séria dos fenómenos do preconceito racial e, sobretudo, das práticas quotidianas de discriminação racial em Portugal, pondo com rigor o dedo na ferida e apresentando, com serenidade e inteligência, propostas de reformas viáveis e realistas. O racismo propriamente dito também existe em Portugal, mas, para combater as suas principais expressões, que são principalmente casos de polícia, temos a lei penal e a Constituição.

Um dos casos mais patentes de preconceito e discriminação racial é, em Portugal como numa nação tão multirracial como o Brasil, a invisibilidade dos afro-descendentes na comunicação audio-visual, muito especialmente na informação, programas de debate e talk-shows. Ora a televisão é (ou podia ser) um dos meios mais eficientes, se não o mais eficiente, do combate ao preconceito e à discriminação racial.

Ao contrário de um país dito “racista” como os EUA, os canais de televisão portugueses (e brasileiros), públicos ou privados, não têm locutores de notícias, comentadores, entrevistadores ou pivôs de talk-shows negros, nem sequer apresentadores de programas de entretenimento, desporto ou meteorologia, salvo raríssimas excepções. A RTP 2, que quase ninguém vê, apresenta de longe em longe filmes de realizadores africanos e acha cumprida a sua missão. Se quisermos ver negros que não sejam atletas, futebolistas ou músicos nos canais de televisão de grande público, a solução é ver a CNN, o 60 Minutes da CBS, filmes americanos, séries americanas, inglesas, francesas ou escandinavas, telejornais franceses ou até alemães. Até a NHK japonesa e a CGTN chinesa têm apresentadores negros.

A RTP África, onde predominam os profissionais portugueses brancos, é um curiosíssimo canal onde alguns jornalistas afro-descendentes também podem fazer trabalhos destinados… aos africanos dos PALOPs (ia quase a dizer: aos povos das colónias). Na RTP 1, 2 e 3, que eu saiba, não há jornalistas negros a fazer programas para portugueses (brancos ou negros) e sobre a realidade portuguesa (negra ou branca). Como se esses jornalistas — se é que os há por lá — não fossem também portugueses e não tivessem legitimidade para trabalhar e falar sobre a sociedade, a política ou a cultura portuguesa. O preconceito consciente ou inconsciente está aqui presente em toda a sua força.

A situação em Portugal nas últimas décadas melhorou quase exclusivamente em alguns programas de entretenimento, com a participação de actores e outros profissionais afro-descendentes. Até no tempo do Estado Novo havia um locutor de notícias da RTP que era negro. Dir-se-á que era propaganda conveniente no tempo da guerra colonial, mas depois do 25 de Abril os locutores negros simplesmente desapareceram da televisão. Interessante efeito da descolonização!

Tudo isto e muito mais é exposto numa tese de mestrado apresentada há dez meses no ISCTE por Helena Patrícia Vicente, “Presença e percepções dos profissionais negros nos programas de informação e entretenimento na televisão portuguesa”, baseada numa investigação que abrange o período 1992-2017 e que se pode ler aqui. Faz o diagnóstico e apresenta propostas e estratégias para uma mudança. Não me lembro, na minha inocência, de a autora ter sido entrevistada por nenhum canal da televisão portuguesa sobre o tema da sua tese…

Portugal a liderar no número de testes ao covid-19

Portugal lidera, a nível mundial, no número de testes ao covid-19 realizados por milhão de habitantes. 

Exceptuam-se os micro-estados como San Marino, Luxemburgo, Malta, Islândia, etc., etc.

Ver lista mais completa aqui, onde só a Estónia (1,3 milhões de habitantes), aparece um pouco à nossa frente.

Sobre isto não tenho visto nem ouvido nenhum comentário nos nossos merdia. De facto, isto não serve para por na primeira página do Expresso ou do Público, pois não?

O telefonema de Marcelo ao enfermeiro Luís

Na imprensa e nas redes sociais li bastantes comentários críticos sobre o destaque dado em Portugal, nomeadamente pelo presidente Marcelo, ao enfermeiro Luís Pitarma, que serviu de anjo de cabeceira a Boris Johnson nos cuidados intensivos. O telefonema de Marcelo ao enfermeiro, cumprimentando-o pelos elogios que recebeu do chefe do governo britânico, teria sido revelador de “provincianismo bacoco”, segundo uma dama que escreve num jornal de Lisboa. Outra opinante de igual calibre lembrou os heróicos enfermeiros portugueses que nos nossos hospitais arriscam todos os dias a sua vida, mas aos quais “Marcelo não telefonou”. A maioria destes críticos expressou a ideia de que o enfermeiro Luís não fez nada de especial ou até que “não fez mais do que a sua obrigação”. Daí denunciarem como “pacóvio” o cumprimento telefónico feito por Marcelo ao enfermeiro nosso conterrâneo. Note-se que esta gente tanto louva o pessoal hospitalar por estar a “arriscar a sua vida” como acha que ele “não faz mais do que a sua obrigação”.

É óbvio que as bicadas de que Marcelo foi alvo neste caso procedem de gente ressabiada com a sua actuação como presidente desde 2015. Mas o que esses e outros críticos (por sinal provincianos e pacóvios) não referem e até escondem é a importância que teve a referência elogiosa feita por Boris Johnson aos enfermeiros imigrantes. Os milhares de portugueses, enfermeiros ou não, que trabalham no Reino Unido, que receiam perder o emprego e que são muitas vezes alvo de hostilidade xenófoba sentiram bem a importância desse reconhecimento público feito com invulgar pormenor e enorme destaque. Creio que isso não terá também escapado a Marcelo, que de provinciano não tem nada.

Na imprensa inglesa e internacional também surgiram denúncias de “hipocrisia” pelos elogios de Boris aos enfermeiros imigrantes que cuidaram dele ou por ter chamado “tesouro nacional” ao NHS que agora lhe salvou a vida. Lembram esses críticos a campanha de demonização dos imigrantes, coadjuvada pelo mesmo Boris, com o fim de promover o seu Brexit. Lembram também os esforços do Partido Conservador durante os últimos dez anos para desmantelar o NHS, mediante brutais cortes orçamentais feitos com a concordância e o voto do mesmo Boris. Cortes que, aliás, terão provocado, segundo a imprensa reporta, o regresso de milhares de enfermeiros estrangeiros do Reino Unido para a Europa após o Brexit.

Os elogios de Boris aos trabalhadores imigrantes e ao NHS, que foram visivelmente pensados e planeados pelo governante, parecem-me menos uma hipocrisia do que um reconhecimento. Será talvez um arrependimento tardio e muito para inglês ver, mas que não deixa de o ser. As suas declarações foram ouvidas e lidas por muitos milhões e ficaram registadas. O susto que Boris apanhou e que os ingleses continuam a apanhar obriga ainda mais o primeiro-ministro a cumprir com a sua promessa de desviar para o NHS os 350 milhões de libras semanais que, antes do Brexit, alegadamente iam para a Europa. Cá estaremos para ver.

O acordar de um vírus adormecido

Um teste ao vírus salazarista deu positivo num membro da recém-eleita comissão executiva do CDS. Deve ser um vírus duma estirpe particularmente resistente, tendo sobrevivido aparentemente inactivo e silencioso desde 1974. Estava talvez adormecido, à espera do momento ideal para aparecer.

Com efeito, não há registo de que um dirigente do partido fundado por Freitas do Amaral e Adelino Amaro da Costa tenha alguma vez cantado loas a Salazar, elogiado a PIDE como “a melhor polícia do mundo” e negado que ela torturou presos políticos. Também nunca se tinha imaginado que um dirigente do CDS pudesse alguma vez chamar “agiota de judeus” a Aristides Sousa Mendes.

Perante a recente revelação dessas e outras afirmações “ofensivas da memória democrática do CDS”, o ex-drigente centrista António Pires de Lima tinha exigido uma posição clara do recém-eleito presidente Francisco Rodrigues dos Santos, vulgo Chicão. Mas este não estava para aí virado. A comissão executiva a que preside veio em coro defender o autor das tais afirmações, Abel Matos Santos, com o argumento de que ele entretanto já se tinha “distanciado do rótulo ignóbil que lhe quiseram colar”. Note-se que o “rótulo ignóbil” em questão não era o de defensor de Salazar e da PIDE, pois Matos Santos apenas se demarcou publicamente do anti-semitismo  e só o fez depois de a comunidade israelita de Lisboa lhe ter caído em cima.

A comissão executiva do CDS sustentou que esta questão apenas surgiu para prejudicar o CDS, pois se tinham ido buscar “afirmações antigas” de Matos Santos, “algumas com mais de 10 anos”. Ora a boca do “agiota de judeus” foi realmente publicada no facebook do indivíduo em 2012 e nenhuma das outras afirmações em causa tinha mais de 10 anos, tendo algumas apenas 4 ou 5 anos, quando o indivíduo já pertencia a outro órgão dirigente do CDS. Respigo dos jornais:

  • “Viva Salazar! E ele vive mesmo! Façam o que fizerem, mudem o nome da ponte que ele fez, apaguem nomes de ruas, mintam sobre ele, façam o que fizerem, nunca conseguirão apagar a sua memória e o seu vasto legado! Foi, sem dúvida alguma, um dos maiores e melhores portugueses de sempre!” – Facebook, 27 de Julho de 2015.
  • A PIDE era “uma das melhores polícias do mundo”, que só provocaria problemas “aos comunistas e àqueles que atentavam contra a segurança do Estado” e “muito bem” – 27 de Julho de 2015.
  • “Quais torturas?” (ainda sobre as práticas da PIDE) – 27 de Julho de 2015.
  • “Mas o que comemoram eles? Háaa, já sei, é a Liberdade… A liberdade de abortar, de mudar de sexo de manhã e à tarde, de usar crianças de modo egoísta para satisfação de ideologias e projectos pessoais… (…) É isto tudo que hoje se comemora em Portugal! Um país outrora pluricontinental e plurirracial, hoje pluriendividado!” (a propósito do “dia de lavagem cerebral”) – 25 de Abril de 2016.
  • “A questão é: Era preciso uma Revolução? O país crescia mais de seis pontos percentuais por ano, a guerra do Ultramar estava ganha, havia emprego e estabilidade, Portugal era reconhecido internacionalmente, tudo estava calmo!” – Abril de 2010.

O Chicão nada fez para afastar este salazarista confesso da comissão executiva ou distanciar-se dele, apesar de o conhecer bem pessoalmente. Como o tinha metido na comissão executiva, não quis confessar e provar que tinha feito asneira. Ainda assim, Matos Santos teve o bom senso de demitir-se de dirigente, livrando o CDS do rótulo ignóbil que ele próprio lhe estava a colar. O vírus é que se calhar ainda por lá ficou…

De sócia a “cleptocrata”

Numa coluna mui discreta da página 24 do Público de ontem, 28 de janeiro, é revelado que o novo presidente do conselho de administração da NOS é o sr. Ângelo Paupério, o qual já era também presidente executivo da Sonaecom e presidente da administração do jornal da casa, Público de seu nome.

A NOS é maioritariamente controlada pelo grupo Sonae e por Isabel dos Santos através da holding Zopt, detida em partes iguais pelo dito grupo e pela senhora cujo nome anda agora muito badalado. A senhora dos Santos, que de repente se viu acusada de horrendos crimes financeiros, está a tentar desfazer-se das participações que tinha no Euro Bic e na Efacec. Não se fala é dos 50% da Zopt que pertencem a Isabel dos Santos. É um não-assunto. A NOS paga muita publicidade e com a Sonae não se brinca, de modo que está tudo caladinho.

Mas o grupo Sonae está muito “preocupado”, a acreditar nas últimas três linhas da coluna do Público. Realmente, a Sonae deitou-se com Isabel dos Santos na Zopt, mas agora arrisca-se a não saber com quem vai acordar, o que não é nada bom para a saúde da chafarica. Para já, a Sonae abifou a presidência do conselho de administração da NOS, depois da demissão do anterior presidente e dos vogais que representavam Isabel dos Santos. Nada mau, por enquanto, para o clan Azevedo. Assim a justiça portuguesa saiba proceder de acordo com os interesses da Sonae e tudo poderá correr ainda melhor.

O que o Público tem escrito e vai escrever sobre Isabel dos Santos tem passado e passará primeiro, como é óbvio, pelo crivo dos interesses da Sonae. O máximo que até agora deixaram passar sobre a futura ex-sócia da Zopt foram aquelas bacoquices que a desbocada Bonifácia largou lá há dias, acusando o “socialismo” angolano de “cleptocracia”. Ou seja, acusando a senhora Isabel dos Santos, ainda sócia da Sonae, de ladra… e de socialista!

O ideal para a Bonifácia e também para o director do jornaleco era que Isabel dos Santos, em lugar de ser sócia do clan Azevedo, tivesse qualquer coisa em comum com José Sócrates ou mesmo com António Costa, sei lá. Essa conversa do socialismo foi um nice try, mas é muito fraquinha. Vou continuar a seguir com muito interesse a cobertura que o Público está a fazer do caso Isabel dos Santos e da NOS.

O delírio negro de Montenegro

Segundo afirmações de Luís Montenegro registadas pelos jornais, “estamos todos mais pobres” desde que a direita foi afastada do poder em 2015, altura em que, como se pode concluir, Portugal estaria mais próspero, com mais crescimento, menos desemprego e menos impostos. A “estagnação” é o que caracteriza hoje a situação do país, segundo o quadro negro que Montenegro traçou aos seus apoiantes numa festa de Natal em Ourém.

Por isso, seria necessária “uma verdadeira alternativa de governo a este comunismo e socialismo que governam o país” (sic).

A “excessiva dependência da visão comunista e bloquista da sociedade, principal orientação do PS português” (sic) é a responsável pela “situação dramática” (sic) que hoje se vive em Portugal, segundo Montenegro.

Como é evidente, Rui Rio não constitui, para ele, uma “verdadeira alternativa” à orientação comunista-bloquista do governo socialista. Na visão de Montenegro, a liderança de Rio tem contemporizado com o comunismo-bloquismo que domina o governo de Costa.

O pretendente ao trono laranja vai continuar neste registo delirante e paranóico até às directas de janeiro e ao congresso de fevereiro de 2020, altura em que se vai decidir quem toma as rédeas do que resta do PSD. Se Rui Rio vencer, Montenegro poderá exilar-se no Chega, que certamente não deixará de franquear as portas a uma alma gémea de Ventura. Mas se Montenegro derrubar Rio, o Chega já não terá razões para continuar a existir e Ventura poderá regressar triunfalmente ao partido onde se formou como político. Montenegro a caminho do Chega ou Ventura de regresso ao PSD? — eis a questão.

Notícias da campanha

O ambiente na direita é soturno. Está tudo rendido e resignado. Rui Rio já admitiu que se tiver 20% não fica a liderar o partido. Cristas previu que as eleições podem dar dois terços à esquerda. Todos agitam freneticamente o espantalho da maioria absoluta do PS, como se a única dúvida fosse o tamanho do prémio a conceder a António Costa.

A direita não fica tranquila quando Costa diz que não pede a maioria, mas busca a melhor votação possível, como qualquer partido. A única coisa que podia consolar a direita era que Costa aconselhasse os eleitores a dispersar cristãmente os seus votos.

A Iniciativa Liberal reclama a entrega da RTP e da CGD à mão invisível, a descida do IRS dos ricos para a taxa dos que ganham pouco acima do salário mínimo e a entrega de cheques ensino para financiar os colégios particulares. O drama é que a Iniciativa Liberal diz alto o que o PSD e o CDS no fundo pensam, mas não ousam propor. Depois da aposta forte em outdoors imaginativos, vai ser duro para a Iniciativa Liberal constatar que pagou do bolso dela a publicidade às ideias íntimas do PSD e do CDS.

O inconsolável Santana, do alto dos seus 1,5%, berra por uma nova Constituição, a aprovar certamente por maioria simples numa reunião de copos em sua casa.

Os zulus do conselheiro Acácio

O fulano que foi posto a discursar no 10 de Junho resolveu definitivamente, há semanas, um problema que vinha atormentando a ciência desde tempos imemoriais. E fê-lo com uma frase impante de sabedoria acaciana: “Sim, há culturas que são superioras a outras.”

Prova? Ele deu duas, ambas curiosamente pela negativa: “Não foi um zulu a escrever Romeu e Julieta nem foi em Portugal que o iPhone foi inventado”. Ficámos esclarecidos. Estás perdoada, Bonifácio, agora te compreendemos.

Entretanto, António Guerreiro, que se debruçou há dias sobre essa mesma frase, deu ao seu autor uma sova que ele não esquecerá tão cedo.

Mas a frase do fulano não foi ainda analisada no respeitante à dualidade de critérios que nela se constata. J. M. Tavares diz que Romeu e Julieta não foi escrito por um zulu (alguém do povo ou etnia zulu), mas diz que o iPhone não foi inventado em Portugal (o país assim chamado). Deste modo, o fulano exclui que um zulu qualquer pudesse ter escrito a tal obra, mesmo que hipoteticamente tivesse sido educado em Londres no séc. XVI – um anacronismo, porque o clã zulu, da etnia bantu, só foi fundado no séc. XVIII. Em compensação, o fulano não exclui que um português a trabalhar fora do seu país pudesse inventar o tal iPhone, já que o problema não é com os portugueses como povo, mas com o país Portugal, onde é fatalmente escassa a “cultura” geradora de telefones. Uma espécie de Zululândia…

Apesar de, numa atitude de fingida humildade, J. M. Tavares colocar aparentemente o país Portugal a par com o povo zulu na classe das culturas inferiores, ele não diz nem nunca diria que um português seria incapaz de escrever Romeu e Julieta, nem até de inventar o iPhone. Segundo alega, o atraso cultural e económico do país Portugal é que impede quem nele vive de revelar o seu génio. Como diria o seu saudoso amigo Passos, a “zona de conforto” é que lixa o genial portuga. Já o zulu, coitado, por mais que nasça na África do Sul, se eduque em Oxford ou trabalhe em Silicon Valley, será sempre e só um zulu. E até já o era no tempo de Shakespeare, quando ainda não havia zulus.

Os malefícios da Bonifácio

Há uma semana, a senhora Bonifácio deu à estampa uma arenga odiosa, eivada de preconceitos, generalizações abusivas, estereótipos, asneiras, patacoadas e imbecilidades. Isso a pretexto de se opor a uma proposta de quotas para minorias étnicas, ideia certamente saída, segundo ela, de uma desprezível “cabeça de esquerda”.

Não é um texto directa e abertamente racista, porque a Bonifácio não sustenta ideias de superioridade/inferioridade propriamente racial, isto é, fundada em argumentos biológicos ou sociobiológicos relacionados com a raça. Sustenta, em compensação, ideias de suposta superioridade/inferioridade moral, cultural, religiosa ou civilizacional e faz isso de um modo  infamante para várias minorias étnicas e (ou) religiosas portuguesas, o que equivale a fazer considerações racistas, pois aplica estereótipos ofensivos a etnias. É, portanto, um texto rotulável de discurso de ódio, não porque incite directamente à violência ou à discriminação contra as ditas minorias, mas porque se esforça por dar delas uma imagem globalmente detestável. Retrata-as por atacado como violentas, racialmente preconceituosas e religiosamente intolerantes, o que não fica muito longe dum incitamento à retaliação contra tais comportamentos. Naturalmente, a senhora Bonifácio terá de prestar contas à justiça pelo discurso de ódio que publicou.

Uma das maiores imbecilidades sustentadas pela Bonifácio tem a ver com a sua defesa do que chama Cristandade e que arvora em critério superior da civilização, da qual exclui africanos, ciganos e as “tribos muçulmanas”. Todos estes possuiriam, segundo ela, “códigos de honra, crenças, cultos e liturgias próprios”, opostos não só aos da tal Cristandade como também aos direitos universais proclamados pela “Grande Revolução Francesa”. Lembrei-me logo da numerosa tropa de ultra-conservadores e reaccionários que nos últimos séculos condenaram a dita revolução, opondo-lhe precisamente a “civilização cristã” – uma expressão que também tinha lugar cativo no discurso de Salazar e outros fascistóides. Mas isto são minudências.

A verdade é que o cristianismo, mesmo quando não se importava com o esclavagismo e até nos piores dias da católica Inquisição, nunca professou a exclusão de qualquer raça ou etnia do seu objectivo de proselitismo e universal salvação das almas, antes tentou sempre assimilá-las (a bem ou a mal, não vem agora ao caso) à sua fé e aos seus valores. A assimilabilidade de todo o ser humano à fé (cristã) e a igualdade das almas perante Deus (este um postulado que não é só cristão) são mesmo dois princípios básicos da religião cristã. Mas a Bonifácio prefere ao conceito de cristianismo o arcaizante conceito de Cristandade, a evocar os tempos em que não se admitia outra crença, muito menos a descrença. A evocar também os tempos da “Igreja imperial”, bem como as cruzadas, a jihad cristã. Nos tempos do Concílio do Vaticano II tinha-se proclamado, por esse motivo, o fim da era da “Igreja de Cristandade”. Julgo que não foi por acaso que a Bonifácio recorreu ao preciso termo Cristandade – ainda que o possa ter feito de modo pouco consciente, dada a multiforme ignorância que patenteia na sua arenga.

Suspeito que a senhora nem cristã é. Aparentemente ela engloba ateus e agnósticos (pelo menos 15% da actual população portuguesa) no seu movediço conceito de Cristandade. Quem ela de certeza inclui nesse conceito é a numerosa canalha de racistas que por aí pululam, hoje como ontem, muitos dos quais se dizem “cristãos”.

Eleitoralismo troca-tintas

A última gaffe de Rio é citada em vários jornais e televisões. Acusou Costa de ter tomado uma medida eleitoralista, discriminatória e excessiva (ao mesmo tempo!) por pretender dar um dia inteiro de folga aos funcionários públicos para acompanharem os filhos no primeiro dia de aulas. Rio nem se deu ao trabalho de ler a medida que criticava e trocou “até três horas” por “um dia inteiro“. É parecido não é?

O que ninguém disse é que Rio é tão pouco eleitoralista que decidiu logo aparecer num vídeo de propaganda eleitoral a dizer que vai propor que se melhore a medida “discriminatória” do governo alargando-a a todos os trabalhadores portugueses. Palhaçada total!

A fase xexé da luta de classes

O xexé desbocado Arnaldo Matos, fundador do inolvidável MRPP, descobriu recentemente o Twitter. Imitando Trump, outro xexé desbocado que fala às massas sem intermediário, Matos está a utilizar diariamente o tuíter (sua grafia) para chegar aos “operários” em directo e sem filtro. Já tem três mil e tal seguidores, entre eles possivelmente uns 9 ou 10 operários, dos quais 1 ou 2 no activo.

Embora os seus milhares de seguidores representem apenas 5% da votação nacional do MRPP em 2015 (sob a liderança de Garcia Pereira, odiado pelo Matos), o facto parece ter impressionado vivamente o Expresso, que hoje lhe dedica uma reportagem de seis páginas da Revista. A falta de assunto é terrível…

Ultrapassando muito o citado desbocado americano, Matos insulta os políticos de quem não gosta de burros (Azeredo Lopes), sacanas (Moscovici) e até cães danados (Marcelo).

Legendando uma fotografia com António Costa, Catarina Martins e Jerónimo de Sousa, o carroceiro Matos exclama: “Então isto não é tudo um putedo?”

O actual secretário-geral da ONU é para Matos “um lacaio dos imperialistas e um homem de mão de Donald Trump”. Li bem: Guterres homem de mão de Trump.

A António Costa o carroceiro chama “o monhé” e diz que tem o direito de lhe chamar tudo, e não só monhé, porque “na luta de classes há uma fase em que se chega ao ódio”.

Arnaldo Matos já declarou no Twitter a sua gratidão ao “inteligente” jornalista do Expresso pelo “notável estudo sobre a minha conta tuíter”.  Mas estará este cara de ananás podre tão xexé que nem percebeu que os seus tuítes só são lidos por gozo? O próprio jornalista o diz, acrescentando que ninguém leva aquilo a sério, mas o Matos ainda não deve ter lido tudo.

Parece que Salazar dava na veia

Foi há dias lançado o livro A Queda de Salazar, de José Pedro Castanheira e mais dois jornalistas. O lançamento foi na residência oficial do primeiro-ministro, em S. Bento, a antiga casa do Botas, que agora de vez em quando se abre ao público. Casa à cunha, para ouvir, entre outras, uma singular revelação: Salazar injectou-se durante mais de vinte anos com uma droga, havendo motivos fortes para pensar que era um opiáceo fabricado na Alemanha chamado Eucodal. Diz-se que era a droga preferida do Hitler. Era tipo morfina, mas “melhor”: dava euforia, bem-estar, autoestima e era “altamente viciante”. A princípio era comprada cá, depois vinha secretamente de Paris, enviada pelo embaixador. Nos anos 1960, já mais dependente, Salazar injectava-se dia sim dia não. No total, entre 1944 e 1968, Salazar injectou-se 1211 vezes, contadas nas agendas em que anotava tudo.