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Portugal a liderar no número de testes ao covid-19

Portugal lidera, a nível mundial, no número de testes ao covid-19 realizados por milhão de habitantes. 

Exceptuam-se os micro-estados como San Marino, Luxemburgo, Malta, Islândia, etc., etc.

Ver lista mais completa aqui, onde só a Estónia (1,3 milhões de habitantes), aparece um pouco à nossa frente.

Sobre isto não tenho visto nem ouvido nenhum comentário nos nossos merdia. De facto, isto não serve para por na primeira página do Expresso ou do Público, pois não?

O telefonema de Marcelo ao enfermeiro Luís

Na imprensa e nas redes sociais li bastantes comentários críticos sobre o destaque dado em Portugal, nomeadamente pelo presidente Marcelo, ao enfermeiro Luís Pitarma, que serviu de anjo de cabeceira a Boris Johnson nos cuidados intensivos. O telefonema de Marcelo ao enfermeiro, cumprimentando-o pelos elogios que recebeu do chefe do governo britânico, teria sido revelador de “provincianismo bacoco”, segundo uma dama que escreve num jornal de Lisboa. Outra opinante de igual calibre lembrou os heróicos enfermeiros portugueses que nos nossos hospitais arriscam todos os dias a sua vida, mas aos quais “Marcelo não telefonou”. A maioria destes críticos expressou a ideia de que o enfermeiro Luís não fez nada de especial ou até que “não fez mais do que a sua obrigação”. Daí denunciarem como “pacóvio” o cumprimento telefónico feito por Marcelo ao enfermeiro nosso conterrâneo. Note-se que esta gente tanto louva o pessoal hospitalar por estar a “arriscar a sua vida” como acha que ele “não faz mais do que a sua obrigação”.

É óbvio que as bicadas de que Marcelo foi alvo neste caso procedem de gente ressabiada com a sua actuação como presidente desde 2015. Mas o que esses e outros críticos (por sinal provincianos e pacóvios) não referem e até escondem é a importância que teve a referência elogiosa feita por Boris Johnson aos enfermeiros imigrantes. Os milhares de portugueses, enfermeiros ou não, que trabalham no Reino Unido, que receiam perder o emprego e que são muitas vezes alvo de hostilidade xenófoba sentiram bem a importância desse reconhecimento público feito com invulgar pormenor e enorme destaque. Creio que isso não terá também escapado a Marcelo, que de provinciano não tem nada.

Na imprensa inglesa e internacional também surgiram denúncias de “hipocrisia” pelos elogios de Boris aos enfermeiros imigrantes que cuidaram dele ou por ter chamado “tesouro nacional” ao NHS que agora lhe salvou a vida. Lembram esses críticos a campanha de demonização dos imigrantes, coadjuvada pelo mesmo Boris, com o fim de promover o seu Brexit. Lembram também os esforços do Partido Conservador durante os últimos dez anos para desmantelar o NHS, mediante brutais cortes orçamentais feitos com a concordância e o voto do mesmo Boris. Cortes que, aliás, terão provocado, segundo a imprensa reporta, o regresso de milhares de enfermeiros estrangeiros do Reino Unido para a Europa após o Brexit.

Os elogios de Boris aos trabalhadores imigrantes e ao NHS, que foram visivelmente pensados e planeados pelo governante, parecem-me menos uma hipocrisia do que um reconhecimento. Será talvez um arrependimento tardio e muito para inglês ver, mas que não deixa de o ser. As suas declarações foram ouvidas e lidas por muitos milhões e ficaram registadas. O susto que Boris apanhou e que os ingleses continuam a apanhar obriga ainda mais o primeiro-ministro a cumprir com a sua promessa de desviar para o NHS os 350 milhões de libras semanais que, antes do Brexit, alegadamente iam para a Europa. Cá estaremos para ver.

O acordar de um vírus adormecido

Um teste ao vírus salazarista deu positivo num membro da recém-eleita comissão executiva do CDS. Deve ser um vírus duma estirpe particularmente resistente, tendo sobrevivido aparentemente inactivo e silencioso desde 1974. Estava talvez adormecido, à espera do momento ideal para aparecer.

Com efeito, não há registo de que um dirigente do partido fundado por Freitas do Amaral e Adelino Amaro da Costa tenha alguma vez cantado loas a Salazar, elogiado a PIDE como “a melhor polícia do mundo” e negado que ela torturou presos políticos. Também nunca se tinha imaginado que um dirigente do CDS pudesse alguma vez chamar “agiota de judeus” a Aristides Sousa Mendes.

Perante a recente revelação dessas e outras afirmações “ofensivas da memória democrática do CDS”, o ex-drigente centrista António Pires de Lima tinha exigido uma posição clara do recém-eleito presidente Francisco Rodrigues dos Santos, vulgo Chicão. Mas este não estava para aí virado. A comissão executiva a que preside veio em coro defender o autor das tais afirmações, Abel Matos Santos, com o argumento de que ele entretanto já se tinha “distanciado do rótulo ignóbil que lhe quiseram colar”. Note-se que o “rótulo ignóbil” em questão não era o de defensor de Salazar e da PIDE, pois Matos Santos apenas se demarcou publicamente do anti-semitismo  e só o fez depois de a comunidade israelita de Lisboa lhe ter caído em cima.

A comissão executiva do CDS sustentou que esta questão apenas surgiu para prejudicar o CDS, pois se tinham ido buscar “afirmações antigas” de Matos Santos, “algumas com mais de 10 anos”. Ora a boca do “agiota de judeus” foi realmente publicada no facebook do indivíduo em 2012 e nenhuma das outras afirmações em causa tinha mais de 10 anos, tendo algumas apenas 4 ou 5 anos, quando o indivíduo já pertencia a outro órgão dirigente do CDS. Respigo dos jornais:

  • “Viva Salazar! E ele vive mesmo! Façam o que fizerem, mudem o nome da ponte que ele fez, apaguem nomes de ruas, mintam sobre ele, façam o que fizerem, nunca conseguirão apagar a sua memória e o seu vasto legado! Foi, sem dúvida alguma, um dos maiores e melhores portugueses de sempre!” – Facebook, 27 de Julho de 2015.
  • A PIDE era “uma das melhores polícias do mundo”, que só provocaria problemas “aos comunistas e àqueles que atentavam contra a segurança do Estado” e “muito bem” – 27 de Julho de 2015.
  • “Quais torturas?” (ainda sobre as práticas da PIDE) – 27 de Julho de 2015.
  • “Mas o que comemoram eles? Háaa, já sei, é a Liberdade… A liberdade de abortar, de mudar de sexo de manhã e à tarde, de usar crianças de modo egoísta para satisfação de ideologias e projectos pessoais… (…) É isto tudo que hoje se comemora em Portugal! Um país outrora pluricontinental e plurirracial, hoje pluriendividado!” (a propósito do “dia de lavagem cerebral”) – 25 de Abril de 2016.
  • “A questão é: Era preciso uma Revolução? O país crescia mais de seis pontos percentuais por ano, a guerra do Ultramar estava ganha, havia emprego e estabilidade, Portugal era reconhecido internacionalmente, tudo estava calmo!” – Abril de 2010.

O Chicão nada fez para afastar este salazarista confesso da comissão executiva ou distanciar-se dele, apesar de o conhecer bem pessoalmente. Como o tinha metido na comissão executiva, não quis confessar e provar que tinha feito asneira. Ainda assim, Matos Santos teve o bom senso de demitir-se de dirigente, livrando o CDS do rótulo ignóbil que ele próprio lhe estava a colar. O vírus é que se calhar ainda por lá ficou…

De sócia a “cleptocrata”

Numa coluna mui discreta da página 24 do Público de ontem, 28 de janeiro, é revelado que o novo presidente do conselho de administração da NOS é o sr. Ângelo Paupério, o qual já era também presidente executivo da Sonaecom e presidente da administração do jornal da casa, Público de seu nome.

A NOS é maioritariamente controlada pelo grupo Sonae e por Isabel dos Santos através da holding Zopt, detida em partes iguais pelo dito grupo e pela senhora cujo nome anda agora muito badalado. A senhora dos Santos, que de repente se viu acusada de horrendos crimes financeiros, está a tentar desfazer-se das participações que tinha no Euro Bic e na Efacec. Não se fala é dos 50% da Zopt que pertencem a Isabel dos Santos. É um não-assunto. A NOS paga muita publicidade e com a Sonae não se brinca, de modo que está tudo caladinho.

Mas o grupo Sonae está muito “preocupado”, a acreditar nas últimas três linhas da coluna do Público. Realmente, a Sonae deitou-se com Isabel dos Santos na Zopt, mas agora arrisca-se a não saber com quem vai acordar, o que não é nada bom para a saúde da chafarica. Para já, a Sonae abifou a presidência do conselho de administração da NOS, depois da demissão do anterior presidente e dos vogais que representavam Isabel dos Santos. Nada mau, por enquanto, para o clan Azevedo. Assim a justiça portuguesa saiba proceder de acordo com os interesses da Sonae e tudo poderá correr ainda melhor.

O que o Público tem escrito e vai escrever sobre Isabel dos Santos tem passado e passará primeiro, como é óbvio, pelo crivo dos interesses da Sonae. O máximo que até agora deixaram passar sobre a futura ex-sócia da Zopt foram aquelas bacoquices que a desbocada Bonifácia largou lá há dias, acusando o “socialismo” angolano de “cleptocracia”. Ou seja, acusando a senhora Isabel dos Santos, ainda sócia da Sonae, de ladra… e de socialista!

O ideal para a Bonifácia e também para o director do jornaleco era que Isabel dos Santos, em lugar de ser sócia do clan Azevedo, tivesse qualquer coisa em comum com José Sócrates ou mesmo com António Costa, sei lá. Essa conversa do socialismo foi um nice try, mas é muito fraquinha. Vou continuar a seguir com muito interesse a cobertura que o Público está a fazer do caso Isabel dos Santos e da NOS.

O delírio negro de Montenegro

Segundo afirmações de Luís Montenegro registadas pelos jornais, “estamos todos mais pobres” desde que a direita foi afastada do poder em 2015, altura em que, como se pode concluir, Portugal estaria mais próspero, com mais crescimento, menos desemprego e menos impostos. A “estagnação” é o que caracteriza hoje a situação do país, segundo o quadro negro que Montenegro traçou aos seus apoiantes numa festa de Natal em Ourém.

Por isso, seria necessária “uma verdadeira alternativa de governo a este comunismo e socialismo que governam o país” (sic).

A “excessiva dependência da visão comunista e bloquista da sociedade, principal orientação do PS português” (sic) é a responsável pela “situação dramática” (sic) que hoje se vive em Portugal, segundo Montenegro.

Como é evidente, Rui Rio não constitui, para ele, uma “verdadeira alternativa” à orientação comunista-bloquista do governo socialista. Na visão de Montenegro, a liderança de Rio tem contemporizado com o comunismo-bloquismo que domina o governo de Costa.

O pretendente ao trono laranja vai continuar neste registo delirante e paranóico até às directas de janeiro e ao congresso de fevereiro de 2020, altura em que se vai decidir quem toma as rédeas do que resta do PSD. Se Rui Rio vencer, Montenegro poderá exilar-se no Chega, que certamente não deixará de franquear as portas a uma alma gémea de Ventura. Mas se Montenegro derrubar Rio, o Chega já não terá razões para continuar a existir e Ventura poderá regressar triunfalmente ao partido onde se formou como político. Montenegro a caminho do Chega ou Ventura de regresso ao PSD? — eis a questão.

Notícias da campanha

O ambiente na direita é soturno. Está tudo rendido e resignado. Rui Rio já admitiu que se tiver 20% não fica a liderar o partido. Cristas previu que as eleições podem dar dois terços à esquerda. Todos agitam freneticamente o espantalho da maioria absoluta do PS, como se a única dúvida fosse o tamanho do prémio a conceder a António Costa.

A direita não fica tranquila quando Costa diz que não pede a maioria, mas busca a melhor votação possível, como qualquer partido. A única coisa que podia consolar a direita era que Costa aconselhasse os eleitores a dispersar cristãmente os seus votos.

A Iniciativa Liberal reclama a entrega da RTP e da CGD à mão invisível, a descida do IRS dos ricos para a taxa dos que ganham pouco acima do salário mínimo e a entrega de cheques ensino para financiar os colégios particulares. O drama é que a Iniciativa Liberal diz alto o que o PSD e o CDS no fundo pensam, mas não ousam propor. Depois da aposta forte em outdoors imaginativos, vai ser duro para a Iniciativa Liberal constatar que pagou do bolso dela a publicidade às ideias íntimas do PSD e do CDS.

O inconsolável Santana, do alto dos seus 1,5%, berra por uma nova Constituição, a aprovar certamente por maioria simples numa reunião de copos em sua casa.

Os zulus do conselheiro Acácio

O fulano que foi posto a discursar no 10 de Junho resolveu definitivamente, há semanas, um problema que vinha atormentando a ciência desde tempos imemoriais. E fê-lo com uma frase impante de sabedoria acaciana: “Sim, há culturas que são superioras a outras.”

Prova? Ele deu duas, ambas curiosamente pela negativa: “Não foi um zulu a escrever Romeu e Julieta nem foi em Portugal que o iPhone foi inventado”. Ficámos esclarecidos. Estás perdoada, Bonifácio, agora te compreendemos.

Entretanto, António Guerreiro, que se debruçou há dias sobre essa mesma frase, deu ao seu autor uma sova que ele não esquecerá tão cedo.

Mas a frase do fulano não foi ainda analisada no respeitante à dualidade de critérios que nela se constata. J. M. Tavares diz que Romeu e Julieta não foi escrito por um zulu (alguém do povo ou etnia zulu), mas diz que o iPhone não foi inventado em Portugal (o país assim chamado). Deste modo, o fulano exclui que um zulu qualquer pudesse ter escrito a tal obra, mesmo que hipoteticamente tivesse sido educado em Londres no séc. XVI – um anacronismo, porque o clã zulu, da etnia bantu, só foi fundado no séc. XVIII. Em compensação, o fulano não exclui que um português a trabalhar fora do seu país pudesse inventar o tal iPhone, já que o problema não é com os portugueses como povo, mas com o país Portugal, onde é fatalmente escassa a “cultura” geradora de telefones. Uma espécie de Zululândia…

Apesar de, numa atitude de fingida humildade, J. M. Tavares colocar aparentemente o país Portugal a par com o povo zulu na classe das culturas inferiores, ele não diz nem nunca diria que um português seria incapaz de escrever Romeu e Julieta, nem até de inventar o iPhone. Segundo alega, o atraso cultural e económico do país Portugal é que impede quem nele vive de revelar o seu génio. Como diria o seu saudoso amigo Passos, a “zona de conforto” é que lixa o genial portuga. Já o zulu, coitado, por mais que nasça na África do Sul, se eduque em Oxford ou trabalhe em Silicon Valley, será sempre e só um zulu. E até já o era no tempo de Shakespeare, quando ainda não havia zulus.

Os malefícios da Bonifácio

Há uma semana, a senhora Bonifácio deu à estampa uma arenga odiosa, eivada de preconceitos, generalizações abusivas, estereótipos, asneiras, patacoadas e imbecilidades. Isso a pretexto de se opor a uma proposta de quotas para minorias étnicas, ideia certamente saída, segundo ela, de uma desprezível “cabeça de esquerda”.

Não é um texto directa e abertamente racista, porque a Bonifácio não sustenta ideias de superioridade/inferioridade propriamente racial, isto é, fundada em argumentos biológicos ou sociobiológicos relacionados com a raça. Sustenta, em compensação, ideias de suposta superioridade/inferioridade moral, cultural, religiosa ou civilizacional e faz isso de um modo  infamante para várias minorias étnicas e (ou) religiosas portuguesas, o que equivale a fazer considerações racistas, pois aplica estereótipos ofensivos a etnias. É, portanto, um texto rotulável de discurso de ódio, não porque incite directamente à violência ou à discriminação contra as ditas minorias, mas porque se esforça por dar delas uma imagem globalmente detestável. Retrata-as por atacado como violentas, racialmente preconceituosas e religiosamente intolerantes, o que não fica muito longe dum incitamento à retaliação contra tais comportamentos. Naturalmente, a senhora Bonifácio terá de prestar contas à justiça pelo discurso de ódio que publicou.

Uma das maiores imbecilidades sustentadas pela Bonifácio tem a ver com a sua defesa do que chama Cristandade e que arvora em critério superior da civilização, da qual exclui africanos, ciganos e as “tribos muçulmanas”. Todos estes possuiriam, segundo ela, “códigos de honra, crenças, cultos e liturgias próprios”, opostos não só aos da tal Cristandade como também aos direitos universais proclamados pela “Grande Revolução Francesa”. Lembrei-me logo da numerosa tropa de ultra-conservadores e reaccionários que nos últimos séculos condenaram a dita revolução, opondo-lhe precisamente a “civilização cristã” – uma expressão que também tinha lugar cativo no discurso de Salazar e outros fascistóides. Mas isto são minudências.

A verdade é que o cristianismo, mesmo quando não se importava com o esclavagismo e até nos piores dias da católica Inquisição, nunca professou a exclusão de qualquer raça ou etnia do seu objectivo de proselitismo e universal salvação das almas, antes tentou sempre assimilá-las (a bem ou a mal, não vem agora ao caso) à sua fé e aos seus valores. A assimilabilidade de todo o ser humano à fé (cristã) e a igualdade das almas perante Deus (este um postulado que não é só cristão) são mesmo dois princípios básicos da religião cristã. Mas a Bonifácio prefere ao conceito de cristianismo o arcaizante conceito de Cristandade, a evocar os tempos em que não se admitia outra crença, muito menos a descrença. A evocar também os tempos da “Igreja imperial”, bem como as cruzadas, a jihad cristã. Nos tempos do Concílio do Vaticano II tinha-se proclamado, por esse motivo, o fim da era da “Igreja de Cristandade”. Julgo que não foi por acaso que a Bonifácio recorreu ao preciso termo Cristandade – ainda que o possa ter feito de modo pouco consciente, dada a multiforme ignorância que patenteia na sua arenga.

Suspeito que a senhora nem cristã é. Aparentemente ela engloba ateus e agnósticos (pelo menos 15% da actual população portuguesa) no seu movediço conceito de Cristandade. Quem ela de certeza inclui nesse conceito é a numerosa canalha de racistas que por aí pululam, hoje como ontem, muitos dos quais se dizem “cristãos”.

Eleitoralismo troca-tintas

A última gaffe de Rio é citada em vários jornais e televisões. Acusou Costa de ter tomado uma medida eleitoralista, discriminatória e excessiva (ao mesmo tempo!) por pretender dar um dia inteiro de folga aos funcionários públicos para acompanharem os filhos no primeiro dia de aulas. Rio nem se deu ao trabalho de ler a medida que criticava e trocou “até três horas” por “um dia inteiro“. É parecido não é?

O que ninguém disse é que Rio é tão pouco eleitoralista que decidiu logo aparecer num vídeo de propaganda eleitoral a dizer que vai propor que se melhore a medida “discriminatória” do governo alargando-a a todos os trabalhadores portugueses. Palhaçada total!

A fase xexé da luta de classes

O xexé desbocado Arnaldo Matos, fundador do inolvidável MRPP, descobriu recentemente o Twitter. Imitando Trump, outro xexé desbocado que fala às massas sem intermediário, Matos está a utilizar diariamente o tuíter (sua grafia) para chegar aos “operários” em directo e sem filtro. Já tem três mil e tal seguidores, entre eles possivelmente uns 9 ou 10 operários, dos quais 1 ou 2 no activo.

Embora os seus milhares de seguidores representem apenas 5% da votação nacional do MRPP em 2015 (sob a liderança de Garcia Pereira, odiado pelo Matos), o facto parece ter impressionado vivamente o Expresso, que hoje lhe dedica uma reportagem de seis páginas da Revista. A falta de assunto é terrível…

Ultrapassando muito o citado desbocado americano, Matos insulta os políticos de quem não gosta de burros (Azeredo Lopes), sacanas (Moscovici) e até cães danados (Marcelo).

Legendando uma fotografia com António Costa, Catarina Martins e Jerónimo de Sousa, o carroceiro Matos exclama: “Então isto não é tudo um putedo?”

O actual secretário-geral da ONU é para Matos “um lacaio dos imperialistas e um homem de mão de Donald Trump”. Li bem: Guterres homem de mão de Trump.

A António Costa o carroceiro chama “o monhé” e diz que tem o direito de lhe chamar tudo, e não só monhé, porque “na luta de classes há uma fase em que se chega ao ódio”.

Arnaldo Matos já declarou no Twitter a sua gratidão ao “inteligente” jornalista do Expresso pelo “notável estudo sobre a minha conta tuíter”.  Mas estará este cara de ananás podre tão xexé que nem percebeu que os seus tuítes só são lidos por gozo? O próprio jornalista o diz, acrescentando que ninguém leva aquilo a sério, mas o Matos ainda não deve ter lido tudo.

Parece que Salazar dava na veia

Foi há dias lançado o livro A Queda de Salazar, de José Pedro Castanheira e mais dois jornalistas. O lançamento foi na residência oficial do primeiro-ministro, em S. Bento, a antiga casa do Botas, que agora de vez em quando se abre ao público. Casa à cunha, para ouvir, entre outras, uma singular revelação: Salazar injectou-se durante mais de vinte anos com uma droga, havendo motivos fortes para pensar que era um opiáceo fabricado na Alemanha chamado Eucodal. Diz-se que era a droga preferida do Hitler. Era tipo morfina, mas “melhor”: dava euforia, bem-estar, autoestima e era “altamente viciante”. A princípio era comprada cá, depois vinha secretamente de Paris, enviada pelo embaixador. Nos anos 1960, já mais dependente, Salazar injectava-se dia sim dia não. No total, entre 1944 e 1968, Salazar injectou-se 1211 vezes, contadas nas agendas em que anotava tudo.

O opositor secreto de Passos Coelho

Quem acreditar nas memórias de Cavaco, fica agora a saber que ele se terá oposto às políticas do governo de Passos Coelho – a descida da TSU, os cortes dos vencimentos e o roubo dos 13º e 14º meses dos funcionários públicos (salvaguardando, porém, os rendimentos do capital), a forma como a política de austeridade foi aplicada pelo governo (sem equidade nem justiça social), a estratégia de comunicação do governo no anúncio dessa política de austeridade (quase parecendo “ter prazer em anunciar medidas negativas”), a extinção dos governos civis, a “falta de coragem para enfrentar as clientelas do PSD e do CDS” (que terá servido de pretexto à extinção dos governos civis), etc., etc.

Terá Cavaco afinal militado secretamente na oposição?

Mas porque não usou ele a sua voz para criticar as políticas daquele governo de que diz ter discordado – já não digo do mesmo modo como torpedeou sonoramente o governo de Sócrates, mas ao menos com uns puxõezinhos de orelhas amistosos? No seu silêncio público, Cavaco foi inteiramente cúmplice do governo de Passos Coelho, que agora diz ter criticado e admoestado nos bastidores. Compreende-se que queira reescrever a história, mas é preciso ter muita lata!

Neste novo volume das suas memórias, Cavaco critica também Passos Coelho pela sua “inexperiência governativa” e ignorância em matéria macroeconómica. Critica Paulo Portas pelos seus humores irresponsáveis. Diz ter ficado espantado com a nomeação de Relvas como ministro-adjunto, pelo que não ficou muito surpreendido quando ele teve de sair (vergonhosamente) do governo. Revela que Passos Coelho e Paulo Portas atiravam um para o outro a batata quente de nomear um ministro das Finanças para suceder a Vítor Gaspar. E adianta, em primeira mão, que Passos Coelho ameaçou demitir-se três vezes!

Não está mal, não senhor! Ao lado da sólida “geringonça”, o governo de Passos Coelho mais parece ter sido uma caranguejola ferrugenta sempre a cair em pane.

Cavaco diz ter declarado a Passos Coelho e Portas, após o episódio da demissão irrevogável: “No futuro, serei menos condescendente em relação a desentendimentos no seio da coligação que ponham em causa a estabilidade política.” Ai que medo! Certamente cortava-lhes a semanada e proibia-lhes as idas à discoteca.

Podemos perguntar-nos porque relata Cavaco estes desaires, erros e insucessos do governo que ele apoiou publicamente até ao fim – e que quis mesmo reeditar em Outubro de 2015, sabendo de antemão da falta de apoio no novo parlamento. Uma explicação plausível para estas confissões é que, perante o êxito ulterior da “geringonça”, de que ele desconfiava mortalmente e que chegou a pensar em evitar mediante um governo de iniciativa presidencial, Cavaco prefere agora apontar os erros Passos Coelho e Portas a ter, logicamente, de reconhecer o bom desempenho de António Costa. A mensagem que quer passar é esta: se a geringonça da esquerda triunfou, não foi por mérito próprio, foi por culpa da caranguejola da direita… Ele bem avisou Passos e Portas, mas não foi ouvido! Espera-se ansiosamente a reacção dos visados.

Entretanto, Marcelo garantiu hoje que jamais comentará as memórias de Cavaco. Perde, assim, uma excelente oportunidade para dar um show e divertir o país.

Uma questão de pilas

João Ribas, o director do Museu de Serralves que se demitiu por alegada censura à exposição de Mapplethorpe, foi ontem ouvido pelos deputados da nação na comissão parlamentar de Cultura da Assembleia da República. A magna questão que mobilizou este órgão de soberania durante várias horas era a de saber se várias fotografias com pilas, presumivelmente erectas ou enfiadamente explícitas, tinham ou não sido retiradas ou desviadas da dita exposição, e por quem. Uma das pilas em causa seria talvez esta, mas não há a certeza, porque Ribas não acompanhou as suas declarações com imagens das peças alegadamente censuradas, talvez para não ferir a sensibilidade dos deputados menores de idade. Estaremos perante um novo e gravíssimo caso de (auto)censura?

Ribas evidenciou nesta história sumamente ridícula a sua enorme presunção e o seu evidente autoritarismo. O director do museu era ele, o curador da exposição era também ele, por isso ninguém mais tinha de meter a pila, perdão, o bedelho na arrumação das peças nas salas de Serralves. Ribas é que sabe o que pode e deve ser exposto, e como, num museu público visitado por gente de todas as idades, porque viveu muitos anos nos states e até comissariou exposições em galerias de Nova Iorque. Além do mais, Ribas é capaz de falar durante horas sem dizer rigorosamente peva. Veja-se como o gajo debita este charabiá pretensioso e intragável numa simples entrevista. Leia-se, entre outras, a resposta hiperconfusa à singela pergunta “Como é que a política se insinua no mundo da arte, hoje em dia, e vice-versa?”

Ofendido com a administração da Fundação de Serralves sabe-se lá por que insondáveis razões, Ribas optou visivelmente por tentar juntar ao seu currículo a glória de se ter demitido em protesto contra uma “censura” ao sagrado Mapplethorpe. Quando se souber disto nos states, o seu prestígio pessoal vai crescer e florescer, espera ele. Sejam quais forem as conclusões da ociosa comissão parlamentar de Cultura da Assembleia da República, o Ribas vai explorar a imagem (falsa) de defensor da liberdade e de S. Mapplethorpe até ao fim dos seus dias. Que o ature quem puder e gostar.

“Austeridade dissimulada”

Desde o 25 de Abril, nunca a direita conseguiu apresentar orçamentos tão equilibrados como os de 2018 e 2019, apesar de alguns governos de direita até terem podido contar com melhores conjunturas económicas e maior crescimento do que os actuais.

Contudo, faça o governo socialista o que fizer em matéria de finanças, os tenores da direita e, às vezes, do PCP e do Bloco, arranjam sempre uma acusação. Se o governo abrir os cordões à bolsa, concedendo aumentos de salários e pensões, é “despesismo”, uma cedência irresponsável aos aliados de esquerda. Se isso acontecer a menos de um ano de eleições, é também “eleitoralismo”, rumo ao aumento da dívida e à bancarrota.

Se o governo persistir no equilíbrio orçamental, concedendo alguns aumentos, investindo em infraestruturas sociais, diminuindo a dívida pública e apostando no zero de déficit em 2019, pela primeira vez em 45 anos, então a direita berra que é “austeridade dissimulada” – como hoje voltou a dizer um pateta qualquer do CDS. Têm mesmo que acrescentar o adjectivo, porque austeridade descarada e ruinosa foi a deles e toda a gente que a sofreu a conhece.

Ora os déficits orçamentais e a dívida não aumentam só por via da despesa pública. Podem aumentar se a receita diminuir. O que a direita agora reivindica para 2019 é que se baixem os impostos sobre os rendimentos e sobre os combustíveis. Como a direita diz que é pelo equilíbrio orçamental, embora nunca o tenha conseguido, concluiu-se que a satisfação das reivindicações actuais da direita se deveria fazer à custa dos aumentos dos vencimentos e pensões, à custa dos investimentos na saúde, educação e transportes, etc. Não o dizem assim claramente, porque seria impopular, mas é exactamente isso o que dissimuladamente querem – a menos que dissimuladamente desejem a continuidade dos déficits e o aumento da dívida, o que também nunca dirão.

Quem são os dissimulados, afinal?

Toma lá e embrulha

Cavaco – Sou levado a pensar que esta decisão política de não recondução de Joana Marques Vidal é talvez a mais estranha tomada no mandato do governo que geralmente é reconhecido como geringonça.

Marcelo – O presidente Cavaco Silva, no fundo, disse que era a mais estranha decisão do meu mandato. Todos sabemos que quem nomeia as procuradoras-gerais da República são os presidentes, não são os governos. Portanto, a nomeação da procuradora-geral da República foi minha e de mais ninguém. Perante isso, tenho sempre o mesmo comportamento: entendo que, desde que exerço estas funções, não devo comentar nem ex-presidentes, nem amanhã, quando o deixar de o ser, futuros presidentes, por uma questão de cortesia e de sentido de Estado, e não me vou afastar dessa orientação.

Registe-se e arquive-se.

Mistérios de Tancos

O caso de Tancos, pelo que se vai sabendo, tem bastantes ingredientes do clássico conflito entre polícias civis e militares. A tropa não gosta da justiça civil e considera-a intrometida em matérias reguladas pelo Código de Justiça Militar; a polícia civil e os órgãos que a tutelam desconfiam da corporação militar, imaginando que ela cerra fileiras para proteger os seus ou para ficar impune. Em consequência, civis e militares não passam informações uns aos outros e até se pregam partidas.

No caso vertente, o DCIAP tinha sido informado pela PJ, “vários meses antes” do roubo de Tancos, de que “estava a ser preparado um assalto a instalações militares no distrito de Leiria”, mas não só o DCIAP e a PJ não comunicaram esse facto às Forças Armadas e à PJM como parece que até o tentaram ocultar destas, segundo afirmou um antigo subdirector da PJM, o coronel Vítor Gil Prata, no site Operacional em 12 de Novembro de 2017, hoje citado no Público online, mas não no jornal de papel. Trata-se de uma acusação gravíssima, embora pouca atenção tenha despertado entre os fãs políticos do Ministério Público e da santa Joana Vidal.

A PJM, por seu turno, depois da casa roubada, decidiu fazer as coisas à sua maneira, sem passar cartão à PJ. As armas roubadas acabaram por aparecer graças à PJM, mas não o ladrão, que obviamente não actuou sozinho. A PJ e o DCIAP deitaram agora a mão ao ladrão e parecem ter concluído que houve conluio dos militares com o ladrão para este entregar as armas e escapar à justiça. Vai daí, a PJ e o DCIAP prenderam o director da PJM e outros militares, lançando sobre a instituição uma nuvem de suspeitas graves, ainda não bem especificadas. Falta apurar exactamente o que é que a PJM fez para recuperar o armamento, se agiu de modo legal ou ilegal e porque é que o ladrão só agora foi preso, quando há muito que era conhecido da PJM… se não também da PJ e do DCIAP.

Entretanto, o MP/DCIAP deveria ter respondido, mas não respondeu à gravíssima acusação feita por Vítor Gil Prata em Novembro de 2017. Ora, se detiveram o director da PJM, não seria também caso para mandar prender algum alto responsável do Ministério Público, sob suspeita de ter deliberadamente ocultado dos militares informações sobre o assalto iminente a uma unidade militar? Não seria mesmo caso para a procuradora-geral da República ser ouvida? Não haverá, aliás, no caso de Tancos também o habitual dedinho conspirativo do MP? Nada me admiraria!

Como é que os referidos conflitos entre civis e militares se resolvem ou previnem? Aqui têm certamente de entrar o governo e o parlamento, legislando para impor colaboração entre a justiça militar e a justiça civil. Uma solução, a fusão da PJM na PJ, foi avançada há anos por um ministro da Justiça, António Costa. Não sei se a solução era boa, mas a sua proposta foi, como é hábito, ignorada e nada mais se fez.

Para além do clássico conflito entre polícias civis e militares, no caso de Tancos meteu-se também a política, por obra da oposição de direita e da sua obsessão patológica de politizar a justiça e judicializar a política, apontando em tudo o que vai acontecendo a culpa criminosa do governo. Nunca souberam bem explicar porquê, mas logo após a notícia do roubo de Tancos os habituais vocalistas da direita começaram a exigir a cabeça do ministro da Defesa (Rui Rio é quase única excepção nesse coro). Também querem a demissão do chefe de Estado Maior do Exército, o que significa que a direita quer tomar partido no referido conflito corporativo, a saber, pelos polícias civis contra os militares – o que é mais uma imbecilidade épica desta direita desnorteada.

Sócrates e o PS

José Sócrates declarou que o PS “foi cúmplice de todos os abusos” que sofreu por parte da justiça. Não deu mais esclarecimentos sobre a cumplicidade dos socialistas. Ora ser cúmplice significa, no caso em apreço, participar moral ou materialmente em delitos ou abusos criminosos. A acusação é grave, mas, pelo seu carácter genérico e aparentemente emocional, não parece ter outra consequência, senão a de involuntariamente contribuir para ilibar o PS de António Costa de qualquer possível acusação de intromissão na justiça a favor de Sócrates – acusação que estava obviamente implícita na histérica encenação produzida pela direita em torno da sucessão de Joana Vidal.

Algumas perguntas me ocorrem, porém.

– Será que Sócrates exige que o PS, António Costa ou o governo interfiram no processo judicial, advogando a sua causa, censurando a actuação do MP e dando assim a imagem de um partido, um primeiro-ministro e um governo que não se conformam com a independência do poder judicial?

– Será que o político experimentado José Sócrates ignora que é essa a ratoeira que o bando que congeminou a Operação Marquês estende agora a António Costa, ao PS e ao actual governo?

– Será que Sócrates ignora que o dito bando espera impacientemente que lhe seja oferecido o mínimo pretexto para tentar envolver António Costa e os dirigentes e governantes socialistas na Operação Marquês, salpicá-los de suspeitas de conivência e corrupção, fazer deles coacusados, colocá-los sob vigilância pidesca, etc.?

Não parto do pressuposto de que Sócrates se deva deixar imolar em benefício da causa socialista ou do governo. Desejo que ele prove em tribunal a sua inocência, denunciando todas as tramóias que a Operação Marquês, a nova PIDE e a comunicação social de direita lhe armaram. Nesse combate pessoal, mas em que não está inteiramente só, José Sócrates deveria estar ciente de que a pior ajuda que poderia ter neste momento seria precisamente qualquer tipo de “apoio” do governo de António Costa ou do PS.