Vinte Linhas 336

«Salão Portugal» de Vítor Serpa

São 15 viagens à infância do autor: «O meu mundo era Lisboa; o meu país, Belém; a minha aldeia, a Travessa da Memória». Esta infância, tempo no qual não há preço nem para os beijos nem para as lágrimas, tem uma geografia: «A fronteira sul era o Tejo, a norte era a Ajuda, a leste era a Boa-Hora, a poente o Restelo. Os meninos que lá viviam não brincavam connosco nem faziam trocas dos bonecos da bola». Cromos entre o «não tenho» e o «fica para a troca»: «o Ramin, o Falé, o Rita, o Paz, o Rocha». Nesta infância há diferenças entre dona e senhora: «a mulher do peixe, varina velha e cansada, não se chamava dona mas senhora». Aprende-se o primeiro amor (Leila) que veio com o circo Filadélfia, chamava-se Dores e desapareceu numa manhã de nevoeiro. Aprende-se o segundo amor (Sissi) no Salão Portugal: «Na minha frente a deslumbrante visão da Romy Schneider, haveríamos de andar de mão dada». A Escola Primária («os heróis da Pátria eram vizinhos de Deus») faz a ponte para a memória do atentado contra D. José: «Saíra o rei por amor. Outros terão saído por ódio. Tudo acabou em cinzas e sal». Da montra da D. Vitória onde Cochise, Zorro, Silver, Jim Clarck, Buda e a Senhora de Fátima vivem em fantasia, a narrativa salta para a verdade da viúva de 26 anos com o marido morto em Tete que, farta de ser chamada «gaja, mulherzinha e reles» se lança à linha do comboio deixando um bilhete: «Amar-te-ei sempre. Ainda mais na morte do que na vida. Laura» No tempo definido («operários presos pela PIDE, crianças internadas com tuberculose») o registo dual do texto oscila entre a vida («o Matateu foi para o Atlético») e a morte: «Que orgulho pode uma mãe ter pela morte de um filho? Só porque militares fardados lhe chegaram à porta e lhe dizem que o filho morreu pela Pátria?» Entre a vida e a morte, fica o lugar do sonho: «Era a Baixa de Lisboa. As mulheres, elegantes. Os homens, ricos. Os carros, luminosos. As montras, apetecíveis».

(Editora: Dom Quixote, Capa: Henrique Cayatte, Fotos: André Alves e Horace Bristol)

5 thoughts on “Vinte Linhas 336”

  1. E era a Escola 151 ali no Bairro de Alvalade. A “Estância de Madeira” onde jogavam os magos do S.L.B.. Para norte, como vizinhos, estavam o Carlos Gomes, o Vasques, o Travassos, o Caldeira e outros tantos que ía ver jogar pela mão do meu pai. A sul era o Chiado e a Escola Veiga Beirão.
    Vou ler! É um dever de quem começou a soletrar as primeiras letras na “BOLA” e de quem viu pela primeira vez o mundo na escrita do Carlos Pinhão, do Aurélio Márcio, do Cartlos Pinhão e do Homero Serpa. Meu Deus além de reformado estou velho!

  2. Escrevi agora mesmo o email cujo texto transcrevo abaixo e que enviei já para todos os meus amigos e familiares, acerca desse post:
    “Muito do que se diz no texto abaixo – e isto é só uma pequena amostra por certo – tem muito a ver com a minha própria infância, passada paredes meias da infância do autor do livro, pois nasci ali à Rua da Praia do Bom Sucesso(ou Travessa do Arco da Torre, de Belém, agora nem eu sei, porque estas ruas se cruzam e a minha casa dava para as duas).
    A frase “o Matateu foi para o Atlético”, faz-me ressoar intensamente na minha memória, lembranças do futebol dessa época dos anos 50, que eu vivi intensamente, como sócio e até como iniciado nos juvenis do Belenenses quando o Riera era seu treinador, ali no campo das Salésias, à Junqueira, campo substituído depois pelo actual estádio do Restelo!!!
    Enfim… lembranças que me põem em sobressalto!?!?!?”

  3. JCF

    Adoro a Romy Schneider- Sissi!!!!! Quando andares de mãos dadas com ela avisa. Assim andamos os 3…LOL

    beijo

  4. Não fui eu mas sim o autor do livro – eu fiz uma transcrição apenas. Vítor Serpa não é JCF. Ameixas não são abrunhos. Nada de confusões.

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