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Laurinda e Marcelo entram um bar…

Nós vemo-los e queremos demiti-los. Não sabemos é como fazê-lo.

Não sendo nem um nem outro estreantes na asneira, hoje foi um dia particularmente falhado para estas duas pessoas. Um desastre total.

Uma quer um desfile de pobrezinhos no centro de Lisboa e, depois da votação (imagino eu) sobre quem mais parecia mesmo mesmo pobre,  um piquenique no parque Eduardo VII, provavelmente com direito a champanhe para os vencedores. E mais não me ocorre dizer.

O outro diz que até foram poucas as crianças abusadas pelos padres, apenas quatrocentas, isto depois de ter telefonado, uns dias antes, ao bispo Ornelas avisando-o de que estava a ser investigado por encobrimento, uma atitude que pode configurar um crime.

Laurinda Alves não tem a noção de muitas coisas fundamentais, como a dignidade das pessoas, e Marcelo fala e viaja de mais, não lhe estando a fazer bem nenhum, nem a nós, e muito menos aos objectos das suas tiradas, estas duas actividades, particularmente intensas nos últimos tempos.

Esperar alguma seriedade do Montenegro é tempo perdido, senhores

Luís Montenegro não governa e possivelmente nunca governará, mas exigir-se-ia alguma seriedade do líder da oposição, não importa que sorria muito, quando se trata de assegurar a continuidade de projectos de grande impacto e grande importância para uma boa parte do país e para a sua imagem internacional.

Um dia o PSD governará. No entretanto, o seu actual líder não quer discutir, muito menos acordar com o Governo nenhuma localização para o novo aeroporto. Não é difícil perceber porquê. Primeiro, porque não tem a mínima ideia nem quer arriscar uma (e para disfarçar diz que o Governo é que tem que decidir; é verdade e espero que seja o que fará se Montenegro assim o preferir) e, segundo, porque, deste modo, pode dizer mal de qualquer solução adoptada (para todos os efeitos, o homem candidatou-se a líder do PSD para dizer mal, mais mal do que Rio, recordemos). Embora seja visível que o fará (dizer mal da solução) com grande lata. E risco.

Posto isto, que já se sabia à partida, penso que não adianta perder mais tempo.

A oportunidade foi dada, como devia ser, mas claramente está a ser rejeitada. Depois destas palavras de Montenegro, parece-me inútil qualquer reunião para discutir, ainda que minimamente, o assunto. Ora vejam:

“Eu quero ser muito claro: O PSD é um partido responsável, é um partido que entende que estas obras estratégicas, estruturantes, devem merecer um consenso tão alargado quanto possível, mas não vamos inverter os papéis”, declarou, esclarecendo: “Quem tem de governar é o Governo, nós cá vamos fazer oposição responsável, como digo, mas oposição”.

“Não vamos decidir na vez do Governo. Quando nós estivermos na posição de decidir é porque somos Governo, não é porque somos oposição”, afirmou o líder social-democrata, à margem da visita às barracas que representam as 54 freguesias da Região Autónoma da Madeira.

Montenegro disse que o novo aeroporto de Lisboa é uma obra que, em sete anos, “o Partido Socialista não conseguiu colocar no terreno”, mas que “nos últimos tempos tem sido alvo de uma tentativa de encostar a responsabilidade de decidir para o PSD”.

 

Fonte: Público

Então “devem merecer um consenso alargado” ou não? Que troca-tintas são estas?

O aeroporto

Para tornar Lisboa uma cidade agradável para se respirar, trabalhar, viver, dormir e conversar, o aeroporto que a serve (e ao resto do país) não pode sujeitá-la à tortura sonora que diariamente sofre, por muito prático que seja para os lisboetas aterrarem a dois passos de casa. Quem já tenha estado na  Biblioteca Nacional, por exemplo, esperando estudar com algum sossego, sabe do que falo. Mas não é apenas a zona do Campo Grande a afectada. Eu diria que 70% da cidade não sabe o que é viver sem ruído aéreo constante e muito próximo. A pandemia, embora por motivos dramáticos e com imagens de ir às lágrimas, deu-nos um cheirinho do quão agradável a vida na cidade poderia ser com mais silêncio e menos perigo.

Mas enfim, os aviões levantaram voo outra vez, felizmente para quem precisa e para quem gosta de mais mundo, e o esgotamento da capacidade do aeroporto Humberto Delgado tornou-se aflitivo. Agora, das duas uma: ou se contrói um aeroporto complementar de média dimensão (ideia do Montijo) para aliviar o congestionamento em Lisboa, e nesse caso nada muda a nível do ruído e dos riscos, já que a diminuição do movimento na capital será insignificante; ou se constrói um novo aeroporto de raiz, fora da capital, com o objectivo de libertar de vez a cidade dos malefícios de um aeroporto ultra movimentado localizado no seu centro.

 

Sou uma perfeita leiga em matérias de engenharia, mas basta-me espreitar pelo Google para perceber que o Montijo apenas poderá ser um aeroporto de recurso e até provisório. Porque a área disponível fica comprimida entre a terra do Montijo e o rio Tejo (nenhum deles jamais sairá dali) e porque a subida do nível das águas poderá a médio prazo inviabilizar a pista (já de si irremediavelmente limitada). Portanto, se se quer mesmo libertar a capital, aproveitando para dar uma utilidade ecológica aos terrenos do actual aeroporto, e construir um aeroporto grande, moderno e definitivo, não me parece que haja outra solução que não Alcochete.

A questão de utilizar ainda o Montijo durante algum tempo parece-me não fazer muito sentido quando o objectivo maior já está definido, a menos que haja compromissos com a Vinci, assumidos no tempo do Passos, que a isso obriguem. Seria lamentável e outra perda de tempo. A juntar à do Montenegro.

Agora a sério: Montenegro vai dizer o quê sobre o novo aeroporto?

Depois de, não há muitos dias, ter afirmado que o Governo era incompetente por não tomar uma decisão nesta matéria e, em vez disso, esperar que seja o PSD a dar-lhe a solução (ver aqui), vejo muito difícil o cenário de Montenegro se sentar a conversar seriamente com vista a um acordo de longo prazo, mesmo que Marcelo aparentemente o exija.

Neste momento, e atendendo a que o objetivo mais urgente do novo líder do PSD (declarado na campanha) é fazer uma oposição “como deve ser”, estridente, demolidora, certamente superficial e trauliteira, e em tudo diferente (na sua cabeça) da de Rui Rio, o mais provável seria continuar a chamar o Governo de incompetente por não decidir o aeroporto e recusar qualquer conversação. É que começar o mandato a ter que se sentar à mesa para definir um acordo duradouro com o Governo não favorece de todo os seus propósitos. Penso que o Montenegro ainda mal começou e já está “entalado”. Se se sentar à mesa, estará a engolir o que disse e a assumir uma postura adulta, vá. Se não se sentar e mantiver a atitude de “não ter que dar a solução” (que o mesmo é dizer que não faz a mínima ideia), estará a dar imensa razão a Pedro Nuno Santos, que o levou a sério quando o ouviu alhear-se do problema e avançou com uma decisão, e a dar carta branca a António Costa para decidir (o que já decidiu, claro). Aguardemos, que vai ser giro.

Mais um papa, não, obrigada

António Guterres, antes da reunião com dirigentes russos:

There are “different interpretations about what is happening in Ukraine” but that does “not limit the possibility to have a very serious dialogue to minimise the suffering of people“.

 

UN Secretary-General Antonio Guterres called for a ceasefire “as soon as possible“.

 

Se era para ir à Rússia dizer que se deve minimizar o sofrimento das pessoas, que o cessar-fogo deve ocorrer “logo que possível” e que aceita duas interpretações da guerra, teria vantagem em não ter saído de Nova Iorque. Porque o facto de não ter ainda dito nada de útil até hoje e de nada ter feito justifica-se, percebe-se agora, pelo seu mais do que lamentável pensamento sobre o que se passa. Calado, se calhar, estava melhor.

Têm razão os ucranianos quando dizem que Guterres devia ter começado por ir visitar os locais dos morticínios.

Franceses, atinem!

O que acontece quando as alternativas democráticas à esquerda e à direita desaparecem? Olhando para a França, a resposta parece-me clara: os extremos políticos ganham força. Tem sido por essa razão, aliás, que, em Portugal, se tem evitado a todo o custo a constituição de governos “centrão”, ou seja, com PS e PSD coligados.

Nunca Mélanchon, um esquerdista, cuja opinião em relação a Putin* é ambivalente, esteve tão perto de passar à segunda volta e nunca Marine le Pen, uma populista de extrema-direita, amiga e devedora de Putin*, conseguiu tantos votos na segunda volta das presidenciais.

(*Mas o que vem aqui fazer o Putin, perguntarão de imediato alguns; senhores, o homem e a sua máfia têm tentáculos em todo o lado hoje em dia e, sobretudo desde o caso Trump, passaram a ser um importante dado a ter em conta em qualquer eleição no Ocidente)

 

Emmanuel Macron soube tirar proveito, em 2017, do descrédito dos dois grandes partidos tradicionais, o Republicano, por culpa de Sarkozy e outros, como Fillon, e depois o Partido Socialista, de François Hollande, um político medíocre. Ambos estes partidos se afundaram quase completamente desde então, obtendo um número risível de votos. Como se percebe, a responsabilidade directa deste descalabro não é de Macron, a quem muitos acusam de forma simplista de “eucalipto”, como se um eucalipto se plantasse a si próprio. Mas é um facto que Macron governa naquela espécie de centro pragmático supra-partidário que pouco se preocupa com classificações de centro-direita, centro apenas ou ainda ultra-liberalismo, o que nada ajuda ao reerguer dos dois antigos maiores partidos. E, objectivamente, os resultados da governação Macron não são maus: a França cresce a bom ritmo, apesar da pandemia e das agitações e intenções dos coletes amarelos, o desemprego está muito baixo e até a subida recente do custo de vida, cuja responsabilidade a oposição lhe atribui, é exclusivamente devida a factores externos e comuns a quase todo o mundo, como a crise energética ou os problemas na China, além de, previsivelmente, a guerra. Lembremos que os franceses se atrevem a protestar contra o fim da idade da reforma aos 60 anos. Vivem num país de luxo, portanto. O descontentamento de que se fala (excepto com a imigração muçulmana) ultrapassa muito a nossa compreensão.

 

Mas enfim, e continuando, não sei se será possível reconstituir os dois partidos tradicionais alternantes em França até Emmanuel Macron terminar o mandato, em 2027, ou se haverá na calha algum sucessor do mesmo tipo capaz de cativar os franceses, ou ainda se, na conjuntura actual, partidos como os Republicanos e os Socialistas têm sequer cabimento, mesmo que tivessem líderes competentes e carismáticos. Penso que ninguém sabe. Sabemos, e isso foi uma descoberta assustadora desde Trump, que a Rússia apoia e financia todo e qualquer partido que, no Ocidente, possa provocar o caos, enfraquecer as democracias e destruir a União Europeia, e que dispõe de “hackers” muito activos que invadem as redes sociais de lixo influente. E sabemos que, enquanto o complexado Putin e muitos dos seus generais forem vivos, essa ingerência continuará.

A França tem, pois, cinco anos para se informar e pensar no que quer, e os partidos democráticos têm exactamente o mesmo tempo para combater a onda gigante de populismo e descredibilização que surge do Leste. Pode ser que não seja assim tão difícil. Talvez a guerra na Ucrânia seja bastante decisiva.

Com que olhar veremos o PCP neste 25 de Abril?

Perante as posições assumidas pelo PCP sobre o conflito na Ucrânia, para sintetizar, completamente cruéis, é ou não legítimo pensarmos que a luta dos comunistas durante a ditadura salazarista mais não visava do que a substituição de uma ditadura por outra, ao estilo soviético, e de modo algum, em tempo algum, a instauração de uma democracia livre e aberta, de tipo ocidental?

 

Caiu-lhes finalmente a máscara com que jogavam o jogo democrático. Não aos meus olhos, claro, como saberá quem me tem lido. Mas, a partir de agora, muito poucos olharão para os dirigentes e os militantes do PCP como genuínos defensores dos “direitos dos trabalhadores e do povo” (apesar de estes pouco lhes ligarem) e sinceros democratas. Não passam de agitadores, a soldo agora da Rússia. E, ironia ou não, ridículo ou não, o único ponto em comum entre a doutrina comunista e o regime oligárquico-capitalista-militarista de Vladimir Putin (que nunca denunciam) é mesmo o seu carácter repressivo e ditatorial. Totalmente repressivo e totalmente ditatorial. Além de assumidamente imperialista. Penso que estamos conversados e que o destino do PCP não será finalmente diferente do dos partidos comunistas da restante Europa – uma irrelevância total, quando não uma inexistência. Ao mesmo tempo, será um alívio, que aqui chega tarde.

 

Não me admiraria, pois, que, se tiverem a lata de desfilar no 25 de Abril (e vão ter), fossem apupados e bem apupados. Ainda mais quando a actual líder da bancada parlamentar dos comunistas, Paula Santos, se vem arvorar, indignada com Zelensky, em proprietária da nossa famosa e querida efeméride. Com que cara se apresentarão em defesa “das liberdades” conquistadas em 74?

Madraças por todo o lado, mas este é que não limpa a cabeça

Em artigo publicado hoje no Público, João Miguel Tavares acusa o ISCTE de ser uma “madraça do PS” e, apesar de classificar essa afirmação como uma provocação, subscreve-a com base na estatística. Ora, poderia aqui responder-se de várias maneiras, a primeira das quais, mais imediata, seria apontar como este indivíduo não desiste, nem desistirá jamais, da perseguição ao PS (razão pela qual lhe foi oferecido este espaço no jornal da SONAE, suspeita-se), ainda que com argumentos absurdos, com base apenas no ódio, como se fosse um escândalo a existência de escolas de pensamento democrático variadas – que não são madraças nenhumas – ou como se apenas fossem legítimos os reitores conotados com a direita. Mas há um comentador do artigo, no próprio jornal, que faz o trabalho por mim. Por isso, é só ler.

JS_VNB

Experiente

E agora espera-se que JMT aplique a mesma grelha analítica à Universidade Católica a fim de desvendar em que percentagem se divide a influência do PSD e da Opus Dei, para além da da hierarquia católica. E que repita o exercício com a Faculdade de Direito de Lisboa e com outras destacadas escolas do E. Superior mais conhecidas por formarem uma fatia substancial do pessoal político. Só assim será sério e escapará à suspeita de troll anti-PS (já não é só anti-Sócrates). De caminho poderá alargar o âmbito geográfico desta preciosa contribuição e avaliar as ligações das Universidades de Oxford e de Cambridge aos Conservadores e aos Liberais britânicos! Isto se quiser ser sério… e deixar de se mostrar uma criança que descobre, escandalizada, as realidades deste mundo.

A última página do Público foi de meia má a muito pior

Não defendo a censura às opiniões alheias. E não, não introduzo aqui um “mas”. Digo apenas que qualquer pessoa que escreve publicamente deve saber que pode ser criticada (e já agora o jornal que a contrata). Cada um fará das críticas o que entender, evidentemente. Por mim, aqui e agora, e à minha reduzidíssima escala, não posso deixar de ser crítica.

A senhora Carmo Afonso, recentemente contratada para fazer alternância com o João Miguel Tavares na ultima página do jornal em substituição do Rui Tavares, tem provado ser um bocadinho confusa, na minha opinião, claro está, e mais ainda quando decidiu pronunciar-se sobre a guerra na Ucrânia. Já antes lhe notara falta de noção (pensei que fosse bloquista), embora ostentando um estilo blasé a que se podia achar graça. Agora, tudo indica que o estilo foi o suficiente, isso e talvez o ser mulher, para passar ao destaque. O que ninguém, sobretudo nem ela, estava à espera era que entretanto o senhor Putin decidisse invadir o país vizinho, e vizinho da Europa, e bombardeá-lo sem dó nem piedade, alegando que a Ucrânia é a Rússia, e portanto é dele, e com isso obrigasse todo o comentariado, Carmo incluída, a abordar o tema. Hélas. Um desastre. E pouco original, já agora. O PCP debita os mesmos pontos de vista incompreensíveis (e o Putin acusa o Ocidente nos mesmos termos). Diz-se pela paz, mas não diz como. Com algum esforço, lá condena a invasão, mas ah e tal o Ocidente e o seu passado, ou  então “será que é um delito querer pensar”? Em suma, para a  resolução desta tragédia, o contributo é zero, abaixo de zero e, na prática, só favorece e desculpabiliza o tirano.

 

Ainda hoje, por exemplo, insistindo, a senhora disserta a propósito indo buscar a guerra do Iraque, cumprindo de rigor o “whataboutismo”, e invoca a votação da ONU sobre a condenação do Putin para concluir que os cento e quarenta e tal países que condenaram expressamente a invasão não são nada de mais, se olharmos aos que se abstiveram, como foi o caso da maior parte dos países africanos (em muito menor número, mas, segundo ela, significativamente populosos, e que raio de apontamento). E diz mais, exagerando claramente. Diz que isso prova que há quem no mundo prefira o Putin e a sua autocracia com capitalismo selvagem à “proposta democrática ocidental”. Pois bem, nem sei que diga. Ao escrever isto, quer dizer o quê? Que há que venerar os africanos que se abstiveram, esses grandes democratas (que compram e querem continuar a comprar armas à Rússia ou que querem manter os seus regimes autocráticos?) Que esse dado sobre a votação na ONU a faz pensar e relativizar a violência do regime do Putin e o seu imperialismo, já que tem tantos apoiantes? Que para o Putin ter tantos apoiantes (não sei como chega a tal conclusão) é porque alguma coisa de muito mau o Ocidente tem? Não sei. Haja quem saiba, sinceramente. E eles nem sequer votaram contra. Limitaram-se a abster-se. Enfim.

Mas fiquem-se com este maravilhoso excerto da prosa de hoje:

«Perdemos a credibilidade quando decidimos não ser íntegros e inteiros.

É fundamental sermos melhores do que isto. A democracia em que vivemos, cheia de falhas, é mesmo a melhor alternativa para quem nos observa e toma partido. A proposta ocidental, e sobretudo a europeia, é melhor do que a russa ou a chinesa. De tanto a querermos exacerbar, damos de nós mesmo a pior imagem possível. Os verdadeiros defensores das democracias ocidentais são os que estão dispostos a assumir as suas falhas do passado e não as repetir no presente. Quem apoiou a invasão do Iraque não defendeu, como apregoava, as democracias ocidentais; foi apenas o cangalheiro do seu bom nome. Fizeram mais por essas democracias os que se opuseram e denunciaram o embuste.»

 

Meu deus. Porque fala esta mulher da guerra do Iraque e das falhas das nossas democracias? No caso em apreço, terá sido por acaso o Ocidente a invadir a Ucrânia? Dir-se-ia que sim. E o caso do Iraque? O enquadramento de que ela tanto gosta prescinde do 11 de setembro de 2001 porquê? Um acontecimento que deixou muitos países ocidentais desorientados, sem saberem bem o que fazer ou onde encontrar o ninho das víboras.  No entanto, a maioria dos países ocidentais e também a sua população (que, nas democracias, conta) foi contra a invasão do Iraque. A tal ponto que os governantes responsáveis na altura não mais tiveram lugar em cargos políticos. Não havia armas de destruição maciça. Esse argumento foi um embuste. Agora o embuste é a alegada nazificação da Ucrânia. O facto de a esmagadora maioria do Ocidente, populações e governantes, se opor e denunciar este embuste passou imediatamente a ser irrelevante. Estranho. Por uma vez, todo o Ocidente é contra! Contra o facto de um ditador usar esse argumento para invadir. Somos contra! E somos tão contra que somos capazes de ajudar o país invadido, a seu pedido – implorado alto e bom som para toda a gente ouvir, a livrar-se do agressor. Porque não há uma palavra contra o agressor? Contra o regime que dirige e quer impor nem que seja à bomba? Um regime que ela própria reconhece ser muito pior do que o democrático.

Que culpa tem o mundo ocidental nesta infame invasão? Será culpado de ter ouvido o que os ucranianos gostariam de ser?

Ninguém no Ocidente nem na Ucrânia quis esta guerra, mas os ucranianos querem o seu país e querem que seja democrático. Têm esse direito. O que pessoas como a nova colunista do Público lhes dizem é que não podem nem sequer deviam querer.

Uma grave contradição + quem quer sair da NATO?

  1. Vladimir Putin apoia, por princípio e com tropas, a maioria russa na bacia do Don que quer autonomia e independência em relação à Ucrânia. Em contraste, a maioria ucraniana que quer independência em relação à Rússia é brindada com uma invasão, mortes e ameaça de extinção. Isto é muito lindo.
  2. Com tanto país a querer aderir à NATO, desde a Finlândia até à Geórgia, prolongando-se ao Azerbaijão e ao Cazaquistão, um dia destes quem quererá sair serão os Estados Unidos. É uma responsabilidade com a qual não estariam a contar. Digo eu. É mentira, espero que não, pois seria sinal de que um chalupa como o Trump voltou, mas a ideia é divertida.

O que ganha Putin com a invasão da Ucrânia?

Começa por ganhar a Ucrânia propriamente dita, e não apenas a região do Donbass, pelo menos por uns tempos, que podem abranger, pelo menos, os anos que restam de vida ao ditador. Com enorme repressão, é certo, assassinatos, mas nada que ele já não tenha imposto e não pratique noutros lados, para não falar na própria Rússia.

Estabelece um exemplo para outras repúblicas que ainda controla e que ousem sonhar com outras alianças e outra forma de vida.

Alarga a sua área de influência militar, instalando mais armamento mais perto da Europa e da Turquia.

Ocupa as empresas russas com a reconstrução da Ucrânia.

Tudo isto o homem ganha, caso viva. Não é pouco. Irá, pois, até ao fim, não tenhamos ilusões.

Quanto ao que perde: perde rublos, perde mercados, perde homens, mas que interessa?, eventualmente perde estabilidade interna (difícil, porque trata de garantir que a população russa nem saiba o que se passa). Se controlar estas perdas, sobrevive. Se puder manter o poderio militar, sobrevive. Ele e o seu regime.

No meio disto, ficam os ucranianos, que resistirão, como não podem deixar de resistir, mas que acabarão vencidos. Nós sabemos que eles sabem que estão a lutar para uma derrota. Uma que vale a pena para eles, mas uma derrota, que só não o seria, ou não os deixaria tão sós, se a guerra se internacionalizasse ou se o governo russo mudasse (e mesmo assim).

 

Nota: Tudo isto é suficientemente triste, trágico e angustiante para se poder gastar um minuto que seja a ouvir ou ler os “relativistas”, “comparativistas”, anti-natistas, sonhadores irrealistas, vulgo empatas, e demais agentes nem sei bem de quê que por aqui pululam. Por mim, ficarão a falar sozinhos. Cortar-lhes o pio é também uma hipótese, à boa maneira do russo, cujas políticas censórias  nem um lamento lhes arranca, quanto mais uma discordância.

Sim, abelha (2)

Ai a vontade oculta de ilegalizar o PCP. Só faltava esta, ó Tadeu.

Se o Putin invadisse Portugal, o PCP seria o primeiro a combatê-lo. E combatê-lo-ia como mais ninguém aqui em Portugal. É o que diz o Pedro Tadeu, hoje, no Diário de Notícias. Queiram, por favor, passar um bom momento. Como o Putin invadiu a Ucrânia, o PCP vota contra moções de apoio aos ucranianos e de condenação da invasão no Parlamento Europeu e emite comunicados contra a NATO em que mal condena a Rússia! E o Pedro indigna-se ao longo de sucessivos parágrafos com o ódio que estas atitudes suscitam. Boa, Pedro!

 

Para rir a bom rir é o parágrafo em que diz que esta guerra é uma “guerra entre facções do capitalismo” e que são os seus (dele) críticos a confundir a Rússia com a extinta União Soviética! Quão formatadas, mas retorcidas, podem estar as cabeças dos comunistas? Jesus.

Sim, abelhas

O Kremlin acusa os Estados Unidos e a NATO de serem os instigadores da insubordinação “separatista” ucraniana ao acenarem (com a ajuda da CIA) com uma possível adesão da Ucrânia àquela organização. Verdade ou não (e quem começou o quê?), facto é que os ucranianos (representados pela maioria que os governa) não são entusiastas das condições que vêm associadas à garantia de segurança que lhes é dada pelos russos, como a falta de liberdade e independência, e, sim, desejam imenso pertencer à NATO (e à UE). Desejam.

Sucede que os ucranianos vivem há anos numa relação de violência doméstica psicológica e física crescente com a Rússia. Governos fantoches, governos não fantoches, respeito de fronteiras, que fronteiras, respeito de minorias ou acantonamento de minorias, etc. Num desfecho trágico, acabam a levar com bombas para aprenderem a controlar os desejos. Suspeito que o desejo morra com quem morre, fatalmente, mas não morra com quem vive. E muitos vão viver.

Mas o Governo russo não só não quer a Ucrânia na NATO (não estava nas perspectivas mais próximas desta) como também quer que os países europeus vizinhos da Rússia saiam da NATO, anulando o que chama a “expansão para leste” ocorrida nos últimos anos, que ameaça (segundo o Kremlin) a sua segurança. Ora, é difícil alterar a geografia. A Europa é, e sempre será, vizinha da Rússia. Durante muitos séculos, pouca ou nenhuma animosidade mútua existiu, pelo contrário. Hoje, e depois de peripécias históricas várias, dramas e experiências políticas radicais e muita miséria, a Rússia encontra-se demasiado bem armada e nuclearizada, considera o Ocidente e a Europa um inimigo, uma ameaça e… infelizmente não mudou de sítio. Vista de cá, continua a ser nossa vizinha. Os vizinhos, por definição, habitam dos dois lados de uma fronteira. Pode a Estónia, por exemplo, exigir que a Rússia desloque o seu arsenal bélico para a Sibéria? Não pode, sem provocar um ataque de riso junto ao Moskva. E, no entanto, a Estónia, a Letónia e a Finlândia ali estão, esta à mercê.

Desproteger estes países europeus militarmente é nem mais nem menos do que colocá-los numa situação de vulnerabilidade semelhante à da Ucrânia. Jamais o aceitarão, muito menos agora.

Por isso, o Sergei Lavrov faria melhor em ir dar banho ao cão em vez de se pôr com exigências patéticas de recuo da NATO enquanto ameaça usar os “nukes”. Sei que é absurdo dizer isto, mas, se a Ucrânia já pertencesse à NATO, não teria sido invadida. Simples. Quão mau teria sido esse facto? Nada mau. Nem para a Rússia, que pouparia milhares de homens e rublos e continuaria a poder usufruir do Mar Negro, pois não deixa de ter costa para ele, e, se tivesse juízo, a fazer bom comércio e bons negócios com a Ucrânia.

Quanto à “ameaça que a NATO representa”, trata-se de pura estratégia de propaganda e dominação. A NATO não tem qualquer interesse em atacar a Rússia. Nem interesse nem veleidade. Já o contrário não se pode de todo afirmar. Ao recuo da NATO seguir-se-ia a exigência de extinção da NATO, isto sempre sob a ameaça da guerra nuclear. Diria que temos um problema.

Ucrânia: porque quererão os ucranianos desvincular-se da Rússia?

Estão tão bem assim! Tontos.

 

O PCP e outros alucinados que tais fariam melhor se deixassem de vez o extraordinário argumento de que o pobre e injustiçado Putin viu a NATO aproximar-se (perigosamente) das suas fronteiras nos últimos anos e não teve outro remédio se não ocupar a Ucrânia (quão ridículo) e, em vez disso, respondessem à pergunta lá em cima, no título.

 

O vínculo com a Rússia e a submissão aos seus ditames garante alguma espécie de prosperidade aos países seus vizinhos? Não muita e sempre condicionada por maus motivos. Têm esses países uma alternativa melhor e igualmente próxima? Economicamente mais promissora, além de mais livre, pacífica e democrática? Têm e eles sabem que têm. Então, que tal calarem-se, gente?

 

Dizer, como também dizem, que toda a instabilidade na Ucrânia se deve tão só e apenas à ingerência dos ocidentais, que visam minar o poderio da Rússia, como se tudo se passasse bem no reino dos governos fantoches e da russificação persistente de territórios, é uma tentativa de pôr uma venda nos olhos de milhões de ucranianos e passarem-lhes um atestado de demência. Ora, é evidente que os ucranianos não são cegos nem dementes. Também não são nazis (como pretende Putin, valendo-se do facto de, em 1942, muitos ucranianos terem saudado a chegada dos nazis, tal era a raiva a Stalin, que, uma década antes, matara à fome milhões de camponeses). Também os nazis não levaram nada de bom à Ucrânia, nem deixaram boas recordações. A maioria dos ucranianos, e do mundo, sabe disso. Não esquece.

 

E, por falar em “ver”, olhando para os países do antigo Pacto de Varsóvia que entretanto aderiram à União Europeia, o desenvolvimento tem sido notório. Têm paz, bem-estar, liberdade e democracia. Podendo haver um ou outro caso de governantes com sérios tiques de ditadores, possivelmente ainda não libertos das ideias e maneiras totalitárias e controladoras dos comunistas que os subjugaram, o panorama geral é de modernidade e prosperidade. No mínimo, de melhoria, não de retrocesso. Aliás, os próprios, na sua esmagadora maioria, execram a Rússia, a do Putin, e sentiram necessidade de se proteger pedindo a adesão à NATO.

 

Por que razão não quereria a Ucrânia fazer parte deste clube? E, já agora, será mau fazer parte do clube? Honestamente, não.

O anacronismo tem remédio, sabem?

Ouvi as declarações de João Oliveira, do PCP, e de Pedro Filipe Soares, do Bloco, à saída da conferência de líderes parlamentares. Então agora queriam um novo orçamento? Quer-se dizer, andaram a implicar com o que foi proposto porque não sei quê “não resolve os grandes problemas do país”, ou, na versão do Bloco, “ignora as nossas nove exigências” ou “acaba em cativações”, chumbaram uma proposta ineditamente generosa que até respondia a uma parte razoável das respectivas pretensões, sabiam que a consequência desse chumbo seria a marcação de eleições e agora defendem, parece que aflitos, que não, que há outras alternativas, inclusivamente “um novo orçamento”? Deixem-me rir. Um novo orçamento redigido por quem, por eles?

 

Sabem o que é que eu acho? Acho que foi dada uma oportunidade de ouro em 2015 a estes partidos para se deixarem de “apartheids” autoinfligidos e virem ver como governar é um assunto sério que vai muito para além de respostas a manifestações de rua e a greves e a ir tirar dinheiro aos ricos para dar aos pobres, em que se joga em diversos tabuleiros e em que há que ter em conta que a esmagadora maioria dos portugueses não vota nem no Bloco nem no PCP por alguma razão. Mas não aguentaram. Provavelmente não aguentaram o que viram. O PCP, porque não é isso que quer ver  – um governo a ter que decidir matérias que não só aumentos salariais – ou porque luta contra a morte e vê bodes expiatórios para a sua doença em todo o lado (por exemplo no PS, em eleições autárquicas) e o Bloco, porque a passagem à idade adulta, aquela em que se podem assumir funções governativas, por vezes não é linear, consiste em avanços e recuos. Assustam-se e vão pensar melhor. Mas hão-de voltar.

Não, meus senhores, não estou a querer dizer que o PS vos fez um favor em 2015. Foi uma oportunidade, que em boa hora surgiu, e que teve como feliz consequência tirar do poder a tropa fandanga do Passos Coelho mais a sua fúria neoliberalizante e a sua desumanidade. Agora receio bem que prefiram recuar, mais encolhidos, para os respectivos cantos enquanto sonham com o dia em que vencerão umas eleições. Boa sorte. Mas deviam pensar.

 

Por exemplo, nisto. O PCP, porque não se reestrutura e começa por mudar de nome para, por exemplo, Partido Antifascista, querendo satisfazer os militantes históricos e combater a direita, como diz ser seu objectivo, ou Partido Sindicalista, porque não? Talvez ainda haja sindicatos (nomeadamente da função pública) durante alguns anos. Ao Bloco, que se dedique a criar empresas produtivas, por outras palavras, que faça qualquer coisinha de útil, para ter noção de que a esmagadora maioria das pessoas tem de fazer dinheiro de alguma maneira, sendo essa actividade que dá emprego e produz receitas para o Estado, e que essa esmagadora maioria não é nem estudante sonhador, nem professor universitário com ordenado garantido e experimentador de teorias em teses de doutoramento, nem saudosista do movimento hippie, nem actor pouco conhecido. Entretanto, vão dar banho ao cão. Aí está outra coisa útil para fazerem.

Mas por que perdeu o Medina?

Lisboa está linda: a beira-rio finalmente fruível, da foz do Trancão até Algés, jardins e praças renovados, bairros reabilitados, jovens (e não só) e turistas felizes com as esplanadas, com a facilidade das Giras e afins, com os subsídios à compra de bicicletas e população agradada com o apoio camarário na recente crise pandémica. Um bom trabalho e com agenda para fazer melhor ainda.

Mas então por que razão Medina não ganhou estas eleições? A meu ver, não foi por uma, mas por quatro razões:

 

  1. As ciclovias. Parece mentira, mas não é. O traçado de algumas ciclovias desassossega muitos lisboetas. Por exemplo, ciclovias nos passeios. As ciclovias devem ser ou espaços próprios devidamente isolados, ou uma reserva de estrada, até porque passam lá veículos (velocípedes) com alguma velocidade. Ora, se uma ciclovia ocupa parte de um passeio, esse passeio, onde o cidadão se encontra, por definição, a salvo dos carros, deixa de ser um lugar tranquilo. Acontece no Lumiar, onde uma ciclovia passa no passeio mesmo em frente a um centro de saúde, um supermercado, um banco. Imaginam as pessoas a saírem desses sítios meio distraídas contando apenas com os semáforos da estrada e ai…, que estão a pisar uma pista para bicicletas, se é que já não levaram com uma? Outras ciclovias, embora na estrada, passam ao lado de carros estacionados (Defensores de Chaves). Como se abre a porta desses carros sem stress? Como é que os táxis largam os passageiros sem obstruir a ciclovia? Por mim, agradeço a construção de ciclovias, uso muitas vezes, mas há que reconhecer que, em muitos casos, não estão bem feitas e perturbam demasiado. Nem todos os lisboetas são jovens e/ou desportivos, mas os que não o são gostam de sair à rua.
  2. A coligação com o Livre não foi uma ideia feliz. O Livre ficou recentemente associado a Joacine Katar Moreira, o desastre que se conhece enquanto deputada, que foi escolha do Rui Tavares, e uma pessoa que, tudo indica, gostaria de deitar abaixo todos os monumentos e obras de arte de Lisboa que lembrem as descobertas. O próprio Rui Tavares não me parece muito contrário a assunções de culpa pelo nosso passado “infame”, indemnizações e por aí fora. Penso que esta associação não agrada a muita e boa gente. A não ser isso, também a ideia de Medina estar a dar um tacho ao Rui Tavares à borla (dada a insignificância desse partido) também não é brilhante.
  3. A gestão do caso “embaixada da Rússia”. Muito má. Medina ficou claramente “à rasca”, quando não tinha que ficar. Por um lado, o caso não tinha a gravidade que os seus opositores quiseram que tivesse e depois mostrou demasiada insegurança. E alguma imaturidade.
  4. Os votos daquelas pessoas que acharam que o Medina já ia ganhar (ainda por cima perante a indigência da campanha do Moedas) e resolveram votar no mais bonito – o João Ferreira. É verdade. Conheço quem.

Não espero nada de Moedas. Possivelmente, como diz o Valupi, será mais uma fraude da direita que não irá acabar bem. Não me parece sequer minimamente preparado para esta função e ele próprio deve estar surpreendido e em pânico. Mas cá estaremos para apreciar. Foi pena. Os pequenos erros e fraquezas, mesmo no meio de um trabalho a todos os títulos meritório, por vezes pagam-se caro.

Afeganistão: muito pouco a acrescentar a isto

 

Não foi aqui referido, mas ouvi também que os Talibans souberam infiltrar-se lentamente no exército afegão, conseguindo assim mais facilmente a tal desistência de lutar, de que está a ser acusado agora. Deve ser verdade. Mas, tenho para mim que isto ainda não acabou. Até porque não é preciso ocupar países para lhes financiar as taras ou para os utilizar para guerras indirectas.

 

Nota: Quanto ao vídeo, recomendo que seja visto até ao fim. Nos primeiros minutos, o homem cede ao escândalo barato.