Todos os artigos de Penélope

Ursula von der Leyen explica-se sobre “o nosso modo de vida europeu”. E não se explica mal

«L’Union est fondée sur les valeurs de respect de la dignité humaine, de liberté, de démocratie, d’égalité, de l’État de droit, ainsi que de respect des droits de l’homme, y compris des droits des personnes appartenant à des minorités. Ces valeurs sont communes aux États membres dans une société caractérisée par le pluralisme, la non-discrimination, la tolérance, la justice, la solidarité et l’égalité entre les femmes et les hommes ».

Article 2 du traité sur l’Union européenne

Il y a trente ans, en août 1989, deux millions de personnes se sont tenues par la main pour former une « chaîne de la liberté » longue de plus de 600 kilomètres à travers les pays baltes. Les images de cet événement nous rappellent avec force et émotion le chemin parcouru par l’Europe en l’espace d’une génération. Elles démontrent aussi la puissance unificatrice de nos valeurs communes : la liberté, l’égalité, la démocratie et le respect de la dignité humaine. […]

(continuar a ler)

 

Eu penso que qualquer europeu minimamente informado sabe dizer em poucas palavras o que é o fundamental do “modo de vida europeu”.  Não vale, por isso, a pena rir e escarnecer da nova presidente da Comissão quando, à frente da principal instituição europeia, se propõe defender os fundamentos da nossa organização política e social. Mesmo que todos conheçamos exemplos de situações que contradizem o nosso imaginário colectivo, é um facto que há um estilo de vida, instituições, valores, etc., que diferem dos de outras partes do mundo e, mais importante ainda, diferem agora, ao fim de inúmeros conflitos e milhões de mortos, dos da nossa própria Europa de tempos passados de má memória. Não haverá que protegê-los? Claro que sim. Mil vezes sim.

Não me choca, portanto, que Frau Ursula trace esse objectivo, se identificadas devidamente as ameaças actuais que estão implícitas na sua decisão de nomear uma pasta com tal designação. O que já estaria mal era apontar baterias exclusivamente às migrações como principal ameaça. O que não significa admitir que os migrantes tenham carta branca para estabelecerem na Europa mini-estados contrários às leis europeias apenas pelo facto de aqui se instalarem.

Mas a associação exclusiva da dita pasta às migrações foi o que ela fez ao princípio, foi errada, mas, pelos vistos, está agora a ser corrigida. E não corrige mal.

Provocações

You will not fuck with my children’s future. You will not destroy the freedoms my grandfather fought two world wars to defend. Fuck off you over-promoted rubber bath toy. Britain is revolted by you and you little gang of masturbatory prefects.

 

Hugh Grant, no Twitter

 

Boris Johnson decidiu suspender o Parlamento por um mês, numa altura em que o mesmo poderia de alguma forma bloquear a saída sem acordo do Reino Unido da UE, prevista para 31 de Outubro. Esta decisão está a ser ferozmente criticada por muitos políticos e comentadores britânicos, para além de gente dos meios artísticos deveras irada (ver acima), que a classificam de choque, esperteza saloia, brincadeira de mau gosto, golpe e um terminante “morte da democracia”. (O tweet de Hugh Grant tem comentários muito agressivos, o que prova que há também gente com muito ódio aos europeus, inclusivamente pelas baixas causadas nas duas grandes guerras)

 

Ora bem, visto daqui, o circo ia animado há já vários meses e já só faltava mesmo a entrada do elefante na arena. Do elefante ou do palhaço-mor, é o que iremos ver. Um ou outro acaba justamente de entrar. Agora, ou se parte a louça toda de vez, ou se reduz a democracia a cacos, e em frente para o abismo, ou a arena é simplesmente do palhaço exuberante, que faz o seu número, não tem graça e é corrido entre apupos e arremessos de garrafas. Ninguém esperava viver para assistir a isto do outro lado do Canal, penso eu.

 

O desavindo Parlamento, onde se sentam os opositores de Boris (eventualmente em maioria), dispõe apenas de uma semana – desde 3 de Setembro, altura em que reabre após as férias, até 9 – para aprovar uma moção de censura que derrube Johnson e abra caminho a eleições. Mas será isso que quer?

 

Eu devo dizer que, olhando para o que se passou há pouco tempo no Parlamento com a votação do acordo de Theresa May e de todas as outras propostas referentes ao problema da saída, votação dirigida, por entre apelos estridentes e algo patéticos à ordem, pelo seu presidente, John Bercow, a imagem do desnorte parlamentar atingiu um pico inigualável e o descrédito foi total. E pior: não se via um fim para os sucessivos desacordos. De facto, o Parlamento não sabia o que queria. Todas as propostas foram rejeitadas com um maioritário «não». E o problema maior é que nada se alterou.

 

E foi assim que, após a demissão de Theresa May e a eleição intrapartidária de Johnson, e mantendo-se a posição da UE inalterada devido, nomeadamente, ao problema das Irlandas, era tentador para um charlatão como o Boris usar do seu poder máximo e calar o Parlamento dizendo-lhe que é inútil. Era tentador e Boris, que, como um seu à época conterrâneo famoso, resiste a tudo menos à tentação, não resistiu.

 

Não é difícil, por outro lado, concordar que, com aquele Parlamento, não se vai longe na questão da saída da União Europeia. Mas daí até acabar com ele deveria ir um passo de gigante. Pelos vistos, não foi. Não será que “para grandes males grandes remédios”? Estou dividida.

 

Mas enfim, imaginemos que Johnson tem dois gramas de seriedade e três de juízo: dir-se-ia que, perante um claro impasse, nada mais lhe restava do que lançar o grande desafio aos adversários do Brexit: “Não querem sair ou não querem sair sem acordo, têm uma semana para me demitirem.” É um repto, é um jogo. Só não percebo por que razão este homem, se está tão confiante de que representa a vontade da maioria dos britânicos, não convoca eleições já. Se a resposta é que “poder, podia, mas não seria a mesma coisa”, então entrou mesmo o palhaço. É o mais certo. O homem gosta de “show”. Infelizmente, o que já não é tão certo é que não ganhe as eleições. Numa época em que tudo é espectáculo, parece haver gosto por pândegos no poder. Ali, “of all places”, é que me parece assaz inesperado.

 

 

Ó Ana Sá Lopes, não te inibas. O que te impede de chamar ditador fascista ao Costa? (Mas quem é que ainda lê jornais?)

Tenho dificuldade em prestar atenção ao desmiolado comentariado nacional, pago para se excitar a propósito de tudo e de nada, e, ultimamente, com a mania de, através de editoriais em jornais, e com o PSD na lama, se armar em oposição do Governo. Não há pachorra. Temos um governo que governa, que se preocupa com que as contas não derrapem, que dá liberdade suficiente ao chamado “mercado” e liberdade total à livre iniciativa, que se apresentou com convicções e dignidade na Europa, passando a ser olhado com respeito e admiração, que restituiu o orgulho nacional, que pôs a economia a crescer, que está atento aos problemas, que é constituído por pessoas competentes e contidas, que também aprendem e se preparam, enfim, dir-se-ia um governo de luxo. E estas alminhas, sem mais que fazer, que fazem? Resolvem preencher os espaços de que dispõem para delirar.  Tudo bem. Não queiram é ser levados a sério, eles próprios e os jornais onde trabalham.

Mas então o Governo não pode ser criticado, dir-me-ão? Claro que pode. E deve. Em matéria de habitação, de leis agrícolas, de cedências aos parceiros esquerdistas e comunistas, por exemplo, muito haverá para dizer. Mas as críticas devem colar à realidade. Quando toda a gente está ultra-satisfeita com a gestão governamental da greve dos camionistas e desejando o seu fim, esta e outras alminhas – ou porque simpatizam com a extrema-esquerda ou porque representam a direita – insistem em que o que era bom era ter deixado a greve bloquear o país. Apesar de sabermos para quem isso seria bom, conviria que os jornais e os seus editoriais tivessem algum tino e equidistância.

 

Perante a possibilidade real de ficarem indisponíveis os combustíveis nas bombas, ambulâncias e hospitais e os alimentos nos supermercados, jornalistas espertos como a Ana Sá Lopes entendem, e dizem-no sem qualquer noção, ou a soldo, que o Governo não deveria ter tomado medida alguma. Alegadamente para não atentar contra o direito à greve. E, se tomou medidas, é porque Costa se armou em Margaret Thatcher na crise dos mineiros. Isto, para quem não o saiba, é uma patetice sem adjectivação.

 

É que, daí até chamar a Costa o Salvini ou o Orbán atlântico, ou Hitler daqui a uns dias, vai um saltinho. Triste imprensa, em que não há um único articulista que valha a pena ler. E, de facto, eu só os leio de vez em quando para me inteirar do seu estado de saúde. Tipo: “Deixa cá ver como este tem passado“. Até agora, não há melhoras. Reconheço apenas que há picos de febre e pequenas e temporárias acalmias.

Um Ministério Público com raiva? Não queremos isso

Agora Azeredo Lopes foi o criminoso e perverso ministro que protegeu os criminosos.

Realmente, os termos que o Ministério Público decidiu usar para acusar, ou será atacar?, o ex-ministro da Defesa socialista excedem os limites do razoável. Quem lê a notícia, vá lá, os títulos, dos quais o MP é fã incondicional,  fica com a ideia de que o ministro protegeu os ladrões das armas e munições desaparecidas de Tancos, ou seja, tudo fez para que as armas não aparecessem e os ladrões se safassem. Ora, o que parece ter acontecido foi algo muito diferente: a PJ militar (sob a tutela do Ministério da Defesa) desenvolveu diligências para recuperar as armas, e recuperou-as, lembre-se, embora numa operação aparentemente paralela às diligências da PJ e do MP e contra a decisão do MP, uns dias antes, de atribuir à PJ civil a investigação. Azeredo Lopes pode (pode, atenção, não é certo) ter sabido da operação dos militares, assim como da garantia de impunidade para os ladrões contra a devolução das armas, e não a comunicou ao MP. Terá sido este o grande crime. O crime que o MP não lhe perdoa. Apesar da recuperação das armas.

 

Com base nessa hipótese, dizer que o ministro exerceu o cargo de “forma perversa” parece-me um abuso, um carregar emotivo nas cores da gravidade do assunto, muito pouco próprio de uma instituição da qual se espera sangue frio. Houve aparentemente uma guerra de competências entre a PJM e a PJ civil, e o ministro, que tutelava os militares, pode ter-lhes dado preferência e querido acelerar o processo de recuperação do material (lembremos que as pressões eram muitas), descurando as decisões do MP. Daí até ter exercido o cargo com perversidade e premeditação criminosa vai um grande passo.

 

Há um único prisma na apreciação deste assunto que permite criticar o ex-ministro – o facto de ter concentrado as atenções na recuperação do material furtado em vez de nos formalismos. Mas o facto de as armas terem efectivamente aparecido deveria atenuar a raivinha do MP, que poderia cingir-se a acusar o ex-ministro de desrespeito de uma decisão judiciária e excesso de afã, um excesso que, por acaso, o levou a desvendar o mistério, e abster-se de acusações de “perversidade”.

Mas que história, sr. historiador

A bem da higiene mental de muita e boa gente, a grande maioria dos artigos de opinião publicados no blogue com pretensões a jornal que dá pelo nome de Observador não está acessível sem pagamento. É uma bênção. Até porque confesso que a tentação de ir espreitar o que anda a dizer a ainda envergonhada “alt-right” cá do país é grande. Mas não faz bem. É como se eu pudesse ir espreitar o que se passa nas sessões da IURD – não me interessa, são pessoas voluntariamente alucinadas, é com elas, ficarei mal disposta, mas a alienação tem o seu fascínio. E online é fácil.

Fora do Observador, mesmo assim, também pontificam alguns indivíduos que poderiam ser seus agentes. Mas mergulhar ali é uma experiência, ainda que se faça apenas meio mergulho ou um oitavo de mergulho como eu. Aquela diversidade – desde padres que esmiúçam mesmo a sério a virgindade de uma lendária Maria e consideram com respeito os espermatozóides de um espírito, até humoristas espertalhões que descobriram a suposta graça da ignorância e a quem pagam porque há que contrariar a ideia de que o humor é da esquerda, ou “tias” que, de certeza, sabem estar – é altamente convergente na raiva aos socialistas. Quiçá por falta de assinantes de tão preciosos e coerentes conteúdos, resolveram agora ir pregar via rádio e então é só pedidos e links para que os ouçam. Talvez pelos ouvidos e à borla penetrem? Olhem, não. Pela parte que me toca, pelos ouvidos não. Só melodias. Além de que, para o efeito que procuro, chegam-me as três primeiras linhas de cada tese. Por exemplo:

 

Portugal não foi a Grécia graças a Passos Coelho.” Oh my God!

 

Não foram precisas três. Em apenas uma linha, o Rui Ramos, que não atina mesmo, conta-nos que o Passos fez não sei o quê de muito bom, como evitar que fôssemos a Grécia. Este historiador com um claro fraco talento para a actualidade (sei, porque houve um tempo em que não se pagava para o ler), é fã número um de sumidades como o ex-primeiro-ministro e muito amigo e admirador de Fátima Bonifácio e, com estes gostos, pretende ser o ideólogo, o intelectual, o propagandista da autêntica direita. É também do mais retorcido que há. E muito raivoso.

 

Quanto à Grécia actual, olhe, nada disso, dr. Ramos. Foi mesmo por culpa de Passos Coelho que Portugal entrou no clube dos “resgatados”, quando tinha tudo para escapar. Tinha até uma solução alternativa negociada com as instâncias europeias, BCE incluído, que não estavam nada interessadas em mais um fracasso na zona Euro (o segundo tinha sido a Irlanda). O que Passos fez foi algo tão brilhante como ceder à chantagem de Marco António Costa para derrubar o Governo, mandando Portugal para a fossa do resgate, aliás não considerado fossa nenhuma por alguns dos seus apoiantes, antes uma bem-aventurança, sob pena de ser corrido da liderança do partido. Mais: já depois de negociado o resgate e estando ele primeiro-ministro, o homem considerou os termos do dito demasiado brandos e, assumindo que o que andara a dizer na campanha eram puras mentiras, determinou que iria mais longe do que a Troica, cujo programa, disse, estava longe de ser uma cruz que carregava. O objectivo passou a ser afundar completamente o país, afugentar os “preguiçosos”, castigar os que ousaram pedir crédito, mais quem ganhava uns excessivos 1000 euros, fechar os pequenos comércios que eram coisa de falhados, desertificar as estradas, enfim, arrasar a economia e depois, alegadamente, recomeçar de novo com salários de 300 euros por mês, um sinal de enormíssima competitividade.

Ah e tal, mas mesmo assim não fomos três ou quatro vezes ao fundo como a Grécia. Não, um resgate chegou. Mas os pontos de partida eram diferentes. Se não fossem, não teria sequer sido aceite o tal acordo alternativo ao resgate, depois deitado fora.

Três observações quanto ao milagre de São Passos em não nos transformar na Grécia: 1. O que aconteceu à Grécia não foi por falta de cortes nem de sangria. Estes aconteceram e em doses cavalares. Tal e qual Passos fez, e com gosto. O problema foi que a situação era mesmo bem pior, começando por uma dívida externa estratosférica, contas aldrabadas há anos e anos com vista à entrada no clube do euro, péssimo funcionamento do aparelho fiscal, corrupção generalizada e situações de privilégio inteiramente absurdas na função pública e em determinadas classes profissionais. Isto à mistura com alguns preconceitos, claro. 2. O Vítor Gaspar, a grande estrela da primeira metade da legislatura, pisgou-se depois da sangria aos portugueses e veio mais tarde, já repimpado, fazer mea culpa pelos excessos da tal ida além da Troica (ele e outros colegas no FMI), o que prova que talvez o tal não-resgate tivesse sido mais avisado e menos massacrante. 3. A chamada “saída limpa” aconteceu porque o “cãozinho” levou um prémio, um belo osso por bom comportamento, como tinha que ser a bem da exibição de um caso de sucesso, mesmo que o aspecto limpo tenha sido conseguido à custa de deixar para o governo seguinte o problema dos bancos.

 

Enfim. Coisas engraçadas. O que se pode dizer com base numa linha. Parece que as outras versavam sobre como Rui Rio não é capaz de correr com a esquerda como a direita acabou de fazer na Grécia. Dr Ramos, não desespere. Mas com o Passos não vai lá.

Um liberal imaturo e bastante confuso, que só sabe mesmo é dizer mal do Sócrates

Mas não falou do Sócrates. Foi por pouco, mas não. Arriscou fora de pé e deu-se mal. Sem o Sócrates, sem galhofeiros ao lado, é fraquinho.

Reza a doutrina liberal, para abreviar, que cada um trace os objectivos que mais lhe convenham e que os persiga com toda a dose de egoísmo possível. Com isso, continua a doutrina a rezar, inova-se, faz-se mexer a economia, mobilizam-se outras pessoas, criam-se empregos (para os frouxos sem iniciativa), desenvolvem-se países. O Estado, continuamos na reza, deve interferir o mínimo ou nada com a liberdade de cada um, pelo que não cabe aos políticos definir “causas” em que outros acreditem. O indivíduo estabelece as suas próprias causas (geralmente “money, mucho money”) e, se vir utilidade nisso, politicamente, financia e/ou agrega-se em grupos de outros indivíduos que defendam os mesmos interesses.

Pois o nosso grande liberal, que acumula com a função de caluniador/justiceiro/Socrates-paranóico no Público, cujo grupo de interesse teórico não está no poder, leu ao povo, no seu primeiro, e esperemos último, discurso (enquanto comissário para as comemorações do 10 de Junho), um arrazoado pobre e infantiloide, em que, num total absurdo face ao que apregoa, pede aos políticos, os actuais, claro, aqueles de quem ele não gosta, para lhe traçarem os objectivos que ele não sabe definir para si nem para os seus e as causas em que acreditar. Poderia dizer-se que se lê e não se acredita.

“Aquilo que se pede aos políticos, sejam eles de esquerda ou de direita, é que nos deem alguma coisa em que acreditar, que alimentem um sentimento comum de pertença, que ofereçam um objetivo claro à comunidade que lideram”, sustentou.

Bem razão tem o Valupi, aqui em baixo. Esta criatura não é um liberal. É um salazarista saudosista a quem falta a Mocidade Portuguesa.

Ajudemos os “observadores”, a nossa célula adormecida não sei de quê

Os escribas da direita passista evoluíram de bloguistas para uma espécie de jornal digital que pretende perpetuar a memória da “época de ouro” do neoliberalismo experimental português que foi o governo Passos-Gaspar-Troica, uma orgia de sadismo social.

Ora bem, depois do aparecimento de Passos Coelho na campanha para as europeias, supostamente para dinamizar a campanha do Rangel e angariar-lhe mais votos através do seu “prestígio” (ui…!), e depois do rotundo fracasso de tal aparecimento, que figura descobrirão os esgroviados, e órfãos (que uma desgraça nunca vem só), colunistas do Observador para possível encarnação das suas posições políticas numa futura campanha para legislativas?

Nota: o bloqueio da grande maioria dos seus artigos parece-me um grande entrave aos seus intentos, mas eles lá sabem.

Uma piadola com peru do Natal que só tem graça até ao momento em que os ouvintes se dizem “Espera lá, então mas…”

“Amanhã [sexta-feira] teremos o penúltimo ato da peça de teatro, com a votação do travão financeiro. Pedir ao PS que vote a favor de uma cláusula que vise pôr um travão financeiro é a mesma coisa que pedir ao peru para votar a favor do Natal. Por isso, não tenho grandes expectativas”, afirmou”, perante risos da plateia.

 

O homem insiste na palermice e eu repito. Como disse há uns dias num pequeno texto lá mais abaixo, para se votar um travão a uma dada medida seria necessário ter votado a favor dessa medida genericamente. Ou seja, ter-se aprovado uma medida de princípio e, uns artigos depois, aprovar-se também uma condicionante à aplicação dessa medida na prática. Acontece que o PS rejeita a primeira medida – o reconhecimento da contagem do tempo de serviço integral dos professores, não aceitando que figure sequer num diploma.  Seria, por isso, incompreensível, que votasse a favor de uma condicionante a uma medida que rejeitou.

 

Portanto, foi por diferentes razões que PCP e Bloco, de um lado, e PS, do outro, votaram contra o “travão” a que Rio alude.

 

Apesar de saber perfeitamente tudo isto, Rio resolve continuar a charlatanice para pacóvios (pelos vistos, a plateia riu-se). O que se passa é que o PSD é que é o partido que decidiu, neste caso, prometer gastar milhões. Mas, como sabe que, se chegasse ao governo, não poderia cumprir tal promessa, inventa o tal “travão”. A proposta deste travão tem dois objectivos: poder invocá-lo aquando do incumprimento futuro (“desculpem lá, mas não temos condições financeiras, como ficou previsto no diploma X”) e, no imediato, poder fazer este número de charlatanice que consiste em acusar o Governo e o PS de não quererem pôr um travão nas despesas. Despesas que o Governo recusou liminarmente assumir.

 

Será que não se arranja mesmo ninguém menos pateta lá para os lados da direita?

Sr. Dr. Rui Rio, escute aqui

O senhor deu agora mesmo uma entrevista à TVI. Evidentemente não tem a noção da vergonhosa prestação que teve. Olhe-me só para isto: o voto do PS contra a norma-travão não será porque também votou contra o reconhecimento do tempo integral congelado? Faria algum sentido não aceitar a contagem integral e depois aprovar a norma-travão? O sr. é burro ou está a fazer dos outros parvos?

Querem uma ajuda para verem onde está o calculismo, ó tristes?

Na perspectiva da captação de mais votos nas próximas legislativas entre um determinado sector da administração pública, e de encurralar infantilmente o Governo, a direita e a extrema-esquerda pátrias reúnem-se num belo dia em volta de uma mesa e acordam num aumento de despesa permanente para o Estado de 800 milhões de euros anuais. O Governo, que se propôs com seriedade (e tem cumprido) aliar a devolução de rendimentos (e o seu aumento) a um estrito rigor orçamental, reage declarando que, a ser assim, não governa nem mais um dia sem que antes o povo se pronuncie sobre o necessário novo aumento de impostos ou cortes drásticos noutros sectores, como a saúde, que tal medida implica. Óbvio.

Pois bem, esta situação, que ficou à vista de toda a gente tal a clareza com que foi exposta por António Costa, chega ao processador dos descerebrados representantes partidários (a quem faltam espelhos) e do comentariado televisivo de serviço e de lá sai na forma dos seguintes “chouriços”:

  • Calculismo político do Governo ao “abrir agora uma crise”.

  • Há tanto calculismo político do lado da oposição como do lado do Governo. (E o Governo deveria fazer o quê?)

  • Para quê este drama, se o Presidente veta a medida? (Ignoram que o veto é ultrapassável)

  • Para quê esta crise, se o acto eleitoral, de qualquer maneira, já teria lugar daqui a quatro meses?

  • “Hohoho, as contas do Mário Centeno parecem-me erradas, pelo que isto é um acto teatral” (Aguiar Conraria dixit, RTP3 – pensando que um dia será ministro das Finanças). “Mas, atenção, acrescenta – isto é o que eu acho após as duas horas em que pensei no assunto, posso mudar de opinião”.

  • Os pagamentos seriam diferidos (e até incertos), afinal qual é o grande impacto orçamental?

  • Calma! O que aprovámos não é o que parece.

  • O facto de se aprovar o princípio do reconhecimento dos 9 anos não significa que se pague alguma coisa.

  • A direcção do PSD desconhece o documento aprovado.

  • O Governo que se deixe de lamechismos e negoceie mas é.

E já chega, suponho. Este é o resultado de um saltitanço insano de canal em canal. Estou certamente a omitir mais tolices do género destas  proferidas ontem à noite, mas, dada a lista supra, vocês, que só querem o meu bem, compreendem porquê.

Só pergunto é se estas pessoas que abrem a boca para, a propósito de um espectáculo miserável quer da oposição quer dos aliados do Governo, inventarem tacticismos inexistentes, fazerem interpretações esquizofrénicas de reacções provocadas, desvalorizarem argoladas ou simplesmente passarem as culpas alguma vez consideraram a hipótese de ficarem caladas perante o desmascarar das suas próprias indigências. Não é por nada, mas é que nem surpreendidas podem ter ficado.

As conquistas do Mário Nogueira são sempre espectaculares

Agora que finalmente tivemos a segunda edição da coligação negativa, com a aprovação, por toda a oposição, de uma despesa permanente de mais 800 milhões de euros, não vejo que melhor pode o Governo fazer do que demitir-se. Sem hesitações.

Do PCP e do Bloco, no rescaldo dessa demissão, iremos ouvir as justificações habituais: que o défice não importa para nada, há sempre dinheiro, os ricos que paguem, que salvar os bancos é salvar os banqueiros (esses criminosos) e não os milhares de depositantes e de empresas, etc. Mas estes partidos, já sabemos, são contra a Europa, contra os mercados, contra o euro, contra o capitalismo, contra o estabelecimento em geral e sonham ainda com um regime do tipo soviético. Vai ser giro é ver o CDS, o PSD e o Rui Rio, esse europeísta e cúmulo do rigor orçamental, na campanha eleitoral. Acabei de me sentar para assistir. Para já, bravo a todos e todas.

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Catarina, a cínica

Bom dia. A manhã parece marcada por tentativas de criar um ambiente de crise política. Esse ambiente é totalmente artificial. Aqui ficam 4 breves notas:
1. O que foi aprovado ontem no parlamento limita-se a corrigir um DL do governo que desrespeita os OE18 e OE19, que explicitamente previam a contagem integral do tempo de serviço de todas as carreiras especiais da função pública para efeitos de descongelamento (ainda que de forma faseada)
2. A solução encontrada para os professores respeita esse faseamento, não representa qualquer acréscimo de despesa no ano em curso e respeita a autonomia negocial do próximo governo.
3. Nos Açores, onde o PS governa com maioria absoluta, a contagem integral do tempo de serviço já está garantida. Na Madeira também está já garantida. 
4. A única despesa extraordinária e não prevista no OE 2019 com que o governo se deparou é a que decorre do pedido do Novo Banco. São mais 450M€, que o governo já considerou acomodáveis.

Acabei de ver as declarações da líder do Bloco, esta manhã. Como quem acorda e descobre que o Governo vê um problema real nas decisões irresponsáveis de toda a oposição. Surpreendidíssima.

  1. O Governo contesta o primeiro ponto.
  2. A reposição dos montantes correspondentes aos 9 anos e tal com que então não é bem, como dizer, aumento de despesa, porque depende de futuras negociações?? Ó Catarina, isso é ridículo. É o que dizem o PSD e o CDS e são justificações para rir (“Não é verdade que o CDS tenha hoje aprovado o pagamento de tempo integral dos professores. Essa proposta foi chumbada com o nosso voto. Aprovou-se apenas o princípio de que os professores terão direito à contagem integral do tempo congelado mediante negociação com o governo.).
  3. Os governos das ilhas por acaso têm as mesmas obrigações e responsabilidades financeiras do governo central? Ou este por acaso só governa para os professores?

Extrema-esquerda e extrema-direita: onde está o perigo?

A propósito das eleições em Espanha, assistimos à direita em peso a equiparar partidos claramente nazis, fascistas, nacionalistas, xenófobos e socialmente retrógrados (como o VOX) aos partidos da extrema-esquerda (como o Podemos e os nossos dois partidos marxistas). (O Tavares mau, no Público, resolve considerá-los, a ambos os extremos, inofensivos, uns escapes, coisa benéfica até, mas isso, já sabemos, é para branquear e normalizar a extrema-direita, na linha do que fez o Nuno Melo.) Terão razão? Vou escandalizar alguns dizendo que sim e não.

 

Há semelhanças entre os regimes que ambos os extremistas acabariam por impor, se chegassem ao poder e vivêssemos no século passado. Destaco, entre elas, o fim da democracia e da liberdade de expressão. Começando pela ala esquerda, a maioria dos partidos que actualmente na Europa se podem apelidar de extrema-esquerda (e já não são muitos) tem como princípios políticos a estatização da economia e da propriedade, a colectivização, como no comunismo, a rejeição da iniciativa privada, do lucro, enfim, do capitalismo e, no final, e mais importante, da liberdade individual, e usufruem da liberdade democrática que vigora nos países “capitalistas” para apresentarem uma agenda em tudo baseada nesses princípios. É por causa desses princípios alegadamente justos (evidentemente que, quanto à falta de liberdade, uma consequência inevitável, são omissos), cuja aplicação prática já toda a gente viu como termina, que assistimos às reivindicações permanentes e imutáveis do PCP – mais funcionários públicos, sempre mais, mais serviços públicos, mais empresas públicas, enfim, mais Estado, Estado por todo o lado, como em Cuba, onde até o pessoal dos hotéis são funcionários públicos, e contra o capital, sobretudo o grande capital (e o pequeno? O que lhe fariam?), e a iniciativa privada. O Bloco não é diferente – nenhum poder para os proprietários e senhorios, por exemplo, como se a propriedade privada não existisse, ou não devesse existir, uma simpatia clara pelas ocupações, punição (para já, fiscal) dos ricos e de quem ousa querer ganhar dinheiro, enfim, disparates moralistas fundamentalmente religiosos vindos de ateus. Mas o modelo de sociedade de base é o modelo comunista, ironicamente já quase extinto da superfície da Terra.

Por tudo isto, considero serem estes partidos principalmente aberrações, embora reconheça que, acantonados nos sindicatos, possam ainda ter um papel importante na organização das lutas laborais, que sempre existirão, dado o desequilíbrio de forças. Assim, considerar estes partidos como uma ameaça real aos regimes democráticos parece-me totalmente exagerado (e nisso o Tavares lá de cima tem razão). Existem já poucos partidos como estes (na maioria dos casos, enveredaram pelo ambientalismo; noutros casos, uma vez no poder, fazem como o Tsipras – apertam a mão à realidade, mandam o ideário às urtigas) e não se vê que tenham grande futuro, atendendo ao pouco entusiasmo que suscitam nas populações. Os apoios internacionais a estas causas também já escasseiam – a China, um colosso populacional sem instintos bélicos e claramente um país capitalista estatal onde a riqueza privada não provoca ânsias em quem manda desde que não perturbe o sistema vigente e os controlos estabelecidos, não os apoia (penso eu), e a Rússia também já nada tem a dar para o peditório do comunismo. Aliás, aquilo a que assistimos hoje em dia é a uma mudança de aposta: o seu líder, Putin, um ex-polícia convencido de que é um czar, apoia neste momento, em parceria com Steve Bannon, o americano, tudo o que sejam movimentos de extrema-direita, que a crise dos refugiados muçulmanos e africanos fez renascer, ou ainda todo e qualquer movimento que tenha hipóteses de desestabilizar a Europa e o mundo ocidental em geral (revanchismo, inveja), o que não é o caso dos movimentos de extrema-esquerda, cujas fontes de combustível parece terem secado. Digo “parece”.

 

É por isto que a extrema-direita representa na Europa um perigo muito maior. Por cá, nem o PCP nem o Bloco jamais ousarão clamar contra a vinda de refugiados, que, aliás, vêm em número diminuto, se comparado com outros países europeus, ou terão sequer alguma hipótese de governarem com maioria. No entanto, como diria Monsieur de La Palice, cada país europeu tem problemas de índole diferenciada. Na Hungria, governa um ditador que despreza o Estado de direito e não aceita nem um refugiado. Na Polónia, a tendência para a ditadura é patente. Na Áustria, foi eleito um presidente de extrema-direita, avesso a críticas e perguntas incómodas. Na Itália, a chegada, a instalação e o trânsito de milhares de refugiados e migrantes, assim como a crise económica, deram pasto aos populistas do M5E e aos fascistas da Liga do Norte. Estão agora no poder. Evidentemente que não fazem todos os estragos que gostariam de fazer porque ainda estão na União Europeia e precisam dela justamente para fazer face ao problema dos migrantes e porque se afundariam de vez caso abandonassem o euro. Mas lá estão a cumprir o seu papel, com o apoio de Putin para o que der e vier, e para o que já deu. Em França, a populista e protofascista Le Pen, também com o apoio de Putin, com quem se aconselha, tem conseguido votações assustadoras. Neste momento, Macron à parte, existem poucas alternativas à senhora, e até Jean Luc Mélenchon, um comunista, se alia a ela sem quaisquer pruridos. As votações da Frente Nacional e a fragilidade dos partidos tradicionais e europeístas franceses fazem temer que o extremismo de conveniência e conluio russos se instale no coração da Europa, dinamitando o projecto europeu que, apesar dos seus impasses e guinadas, tem sido, há várias décadas, garante de estabilidade, prosperidade e paz (ou não houvesse milhões a quererem vir para cá). No Reino Unido, não digo que o Nigel Farage, esse formidável demagogo, queira impor um regime ditatorial no seu país caso chegue ao poder (um regime xenófobo já com certeza), mas, para já, está a conseguir reunir os despojos do partido conservador e, caso o seu novo partido, o Brexit, consiga mesmo tirar o Reino Unido da União Europeia sem acordo, terá o privilégio de fazer ressurgir o conflito irlandês –  um feito para o qual talvez já tenha dificuldade em arranjar um discurso vitorioso e cativante.

 

Em suma, não é a extrema-esquerda que representa um perigo para a Europa, uma vez que dificilmente chegará ao poder dado o desvio das grandes questões actuais para a percepcionada invasão de migrantes e refugiados (a extrema-esquerda recebê-los-ia a todos) e a degradação da classe média. Já os populistas e demagogos de direita podem não ser apenas uma válvula de escape e muito menos se pode dizer que são benéficos. Em Espanha, onde o problema mais quente é a Catalunha e as autonomias, o VOX provou efectivamente ser mais vozes do que nozes – obteve apenas 10% dos votos. Mas poderá não ser assim em França com a Frente Nacional ou, dentro em breve, na Alemanha.

A fidelidade à direita e a tudo o que tenha “direita” no nome não devia toldar a visão dos, lá está, direitolas. Um termo até carinhoso nos dias que correm. A realidade é que não temos, na Europa, com excepção da Grécia (e olhem o aspecto) qualquer partido dito de extrema-esquerda a ameaçar governar ou a governar.

Uma campanha que é mais um chinfrim da direita sem argumentos

Que se saiba, da chamada polémica das relações familiares neste governo, apenas um caso já de terceira apanha pôde ser equiparado a nepotismo (!!, seria preciso estarmos a falar de elevadas vantagens, mas não me façam rir, tratou-se de um adjunto de um secretário de estado que era seu primo) e, por isso, os seus protagonistas demitiram-se. Dos outros mencionados como escandalosos, ou não tinham nada de escandaloso até há pouco tempo (mais precisamente até este ano, ano de eleições), sendo perfeitamente aceites – casos de Mariana Vieira da Silva e do pai e de Ana Paula Vitorino e Eduardo Cabrita -, e continuarão a não ter, dado que os ditos cujos não se nomearam entre si, foram antes nomeados pelo primeiro-ministro, que não é deles parente, nenhum deles vendo contestada a sua experiência e competência, ou decorrem simplesmente da existência de um chamado círculo de “elites políticas”, que produz gerações de pessoas mais familiarizadas com as questões e a prática políticas, como são os casos de parentes de ex-políticos e ex-governantes, deputados, presidentes e ex-presidentes, de professores universitários, e de cônjuges de pessoas que são ou já foram deputados, governadores civis, etc, etc. Para se ter uma noção do vazio desta causa, convido toda a gente a ver o vídeo que o Observador com tanto júbilo publicou, à falta de um diabo qualquer que afundasse os socialistas, para a direita uma derradeira arma de arremesso, embora uma espécie de pólvora seca que lança enorme poeira, e a que chamou desatinadamente “a grande teia”. Se aquilo é uma teia, pobre aranha. Passa por lá um avião. Nada do que ali é referido é grave. Num país pequeno, pode ser difícil evitar os relacionamentos lá identificados. Isto já foi dito: as pessoas que frequentam os mesmos meios e partilham as mesmas ideias tendem a relacionar-se, a trabalhar juntas e, por vezes, a casar. Mas nem um, unzinho, membro deste governo é familiar de António Costa nem nenhum deles nomeou nenhum familiar directo (salvo a supracitada excepção).

 

Esta falsa problemática não deveria, pois, sequer ser razão para o PSD estar a subir em sondagens e o PS a descer, nomeadamente porque o PSD e o CDS não têm, em matéria de relações familiares em governos seus, uma folha substancialmente diferente. Muito pelo contrário. É pior. Também não têm oposição substantiva nem propostas de governo espectacularmente piramidais e, mesmo que as tivessem, 1) haveriam que fazer soar todos os alertas de vigarice (dado o historial) ou 2) não seriam necessárias. Seriam ideias geniais que qualquer gato escaldado e sobretudo a realidade dispensam.

 

Mas a campanha absolutamente insana e massacrante a que a direita e a comunicação social (passe a redundância) se têm dedicado nos últimos tempos transforma dados totalmente irrelevantes na actual governação em crimes de lesa-pátria, lesa-moralistas e em escandalizadores de papalvos. A verdade é que, no meio de toda esta montagem de pseudo-escândalos, ninguém tem a mínima razão ponderosa para se demitir ou ser demitido. Não há ilegalidade, não há nepotismo. Nada de mais. São os melhores que cada um conhece. Nenhum deles é considerado incompetente ou não habilitado. Aliás, metade dos nomes citados no vídeo nem devia lá estar. Está lá claramente a fazer número.

 

Acontece que a campanha, exagerada e mentirosa, tende a resultar. A direita não vai largar o osso (se a deixarem) e as pessoas vêem e acreditam em demasiada superficialidade nas televisões. Para ajudar, mas também dar um grande tiro no pé, Marcelo entrou na dança (podia lá perder esta?) e quer agora que se proíbam nomeações de primos até ao sexto grau… Primos? Sexto grau??!! Mas quantos primos havia, ó Marcelo? E estaremos a falar de que postos e de que responsáveis por nomeações? Gostarei de saber. Esta pessoa é Presidente ou voltou a ser comentador da TVI? Talvez um pouco mais de calma não fosse má ideia, pois que a seguir vêm as interdições de amigos e depois de conhecidos, de colegas de curso, até se chegar à conclusão de que um governo socialista só pode nomear pessoas da oposição. Mais um bocadinho e um governo socialista não poderá nomear ninguém mesmo, ou seja, será melhor que não governe.

 

Quatro Brexits e um funeral (ou dois)

 

No site da BBC, podemos ler um artigo com um título bem engraçado sobre o mais recente estado da discussão parlamentar do processo de divórcio RU-UE: “Four Brexits and a Divorce“. Inspirando-se no título de um famoso e divertido filme inglês e nas hesitações do seu protagonista, alude, obviamente, à série de propostas ontem postas à votação na Câmara dos Comuns e ao possível desfecho de todo este imbróglio. No entanto, cá para mim, o “funeral” do título original do filme teria toda a razão de se manter. Se não, vejamos. Falecimentos podem ser alguns. A começar, o do próprio Brexit (sempre e ainda uma hipótese). Depois, devido ao enorme esforço que lhe tem custado esta prolongada paródia, Theresa May ainda se esvai um dia destes. Espero que não. Para já, perdeu a voz, mas parece resistir. Outro que pode ter a vida em risco é o “speaker“, que começa a ficar congestionado demais e a não caber na gola. Ainda cai redondo nos Comuns. Outra coisa que pode falecer é o partido conservador, que vai cavando divisões profundas entre os seus membros e com o eleitorado enquanto se diverte, ou o partido trabalhista, cujos grandes princípios e líder poderão acabar enterrados nesta situação tão século XXI pela sua superficialidade (passe a incongruência). Poderá também finar-se a boa reputação do Parlamento britânico. Para muitos europeus, que imaginavam outra coisa que não a balbúrdia, a falta de lugares sentados e as entradas e saídas do “Lobby” para as votações, já se finou e de que maneira. A reputação dos políticos britânicos, a começar por Cameron, está também literalmente, e há muito, pela hora da morte. Finar-se poderá também a própria Grã-Bretanha, se a Irlanda do Norte decidir que prefere a paz à Rainha. Enfim, é muito falecimento em perspectiva para se poder vislumbrar alguma Fénix que dali renasça. Este divórcio nem sequer tem um grande amor em vista.

Disparates populistas de Marcelo

Dá que pensar, embora a violência da conclusão intrigue: caso se repetissem os incêndios de 2017, o Presidente dissolveria o Parlamento. Ou seja, deitaria abaixo o Governo e convocaria novas eleições. Marcelo declarou esta intenção em entrevista à TVI, ontem, num momento em que diz estar a ponderar a sua recandidatura. Nunca saberemos se o fazia ou não. Mas o facto de o afirmar é confrontacional. Segundo ele, os protestos do povo por entre cujo choro andou na altura dirigiam-se de tal maneira ao Governo e ao seu “descolamento da realidade” que não lhe restaria outra solução que não fosse mandá-lo abaixo nos próximos fogos, a acontecerem. Parece que assim vingaria o povo e, a partir daí, não mais haveria tragédias? Que “boutade“. Daquela vez passou, da próxima o Governo não passa? Ó paizinho. Com calma, sim?

 

Isto é ridículo, surpreendente e muito agressivo. Andando também pelo meio do povo naquela época seca e escaldante, ouvi acusações bem diferentes das invocadas. As coincidências dos fogos postos não escaparam a quase ninguém. Não levei, porém, uma câmara nem sou governante. É que não há nada melhor para ouvir dizer mal de quem governa do que andar um presidente, às vezes uma simples câmara de televisão, pelo meio do povo destroçado. De pessoas que não têm culpa nenhuma, de facto, do que aconteceu e nem terras possuem. Mas Marcelo não ignora certamente que quase ninguém nas terras ardidas limpava as matas, que animais como as cabras há muito desapareceram, que ninguém se preocupava com as portas de saída em certos edifícios, ninguém avaliava os locais de construção de habitações em termos de segurança, ninguém respeitava muito a proibição de queimadas, que todos queriam ganhar dinheiro com os eucaliptos, enfim, que já não chovia há sete meses; e muitos dos que protestavam se esqueceram dos cortes nos organismos públicos e em pessoal (incluindo vigilantes florestais e bombeiros) no tempo do governo anterior; no entanto, já que havia palco e presidente, este diz que o povo malhava era no Costa. E muita gente acredita. Marcelo tinha obrigação e a decência de interpretar correctamente situações de aflição e desespero e de ver mais longe, devendo ele próprio, já agora, contribuir para uma maior tomada de consciência das populações e autarquias para as suas próprias responsabilidades. Mas assim não foi e só pode haver uma razão pouco louvável.

 

Alguns dados

 

Segundo o relatório da Comissão Técnica Independente, que Marcelo seguramente leu, 40% dos incêndios de 2017 deveram-se a actos incendiários intencionais, 20% a negligências várias e os restantes 40% a reacendimentos. Escusado será lembrar aqui também, a propósito das dificuldades no combate, o número inusitado de incêndios que se verificaram praticamente em simultâneo, consumindo meios e recursos não multiplicáveis por todo o país, ou os fenómenos atmosféricos até essa data raros que foram responsáveis, pelo menos, por uma das principais tragédias desse fatídico ano, numa determinada estrada. Esses dados deveriam estar sempre presentes antes de alguém decidir mandar para o ar acusações disparatadas e venenosas. Marcelo acusa agora directamente o Governo (na pessoa da ministra da Administração Interna de então) de responsabilidade pelas tragédias ocorridas. Não se percebe onde quer chegar com tal incriminação, numa altura em que até se leram notícias, não sei se falsas, de um possível apoio do PS à sua recandidatura.

 

E já que falo nisso, aproveito para dizer que discordo em absoluto desse apoio. O partido socialista deveria manter-se distante. Se não tem candidato, cale-se. Já bastou o que aconteceu com Cavaco Silva que, no primeiro mandato, pareceu cordial e colaborante, conseguindo seduzir para o voto muitos dos que não apreciavam Manuel Alegre e, mal se apanhou reeleito, desatou a fazer discursos vingativos contra os socialistas e política partidária desenfreada em prol dos seus camaradas de sempre, muito contribuindo para a catástrofe que se seguiu.

 

Marcelo não governa nem governava em 2017 e só isso já o devia fazer conter. Pelo que disse na entrevista, até parece que o Costa não faria nada para evitar novas tragédias decorrentes de incêndios nos anos seguintes se não sentisse a espada de Dâmocles por ele supostamente colocada sobre a sua cabeça. É obviamente mentira. Além de ser uma afirmação antipática de autoridade. Por questões relacionadas com a sua própria reeleição, Marcelo está a optar pela esperteza saloia (pode não ser verdade que fizesse o que diz que faria), pelo distanciamento de vedeta e pelo vale tudo, incluindo o aproveitamento de tragédias que nenhum governo poderia ter evitado.

 

 

Felizes com a lista de seguidores, ó “Observadores”?

Lembram-se do artigo inqualificável da médica Joana Rodrigues, que dizia que as mulheres felizes são as que “casam bem”, ganham menos mas vibram, enquanto “exercem plenamente a maternidade”, com os sucessos e o dinheiro dos maridos e muitas mais genialidades, todo um rol, do género? Pois bem, o artigo não mais foi visto* no siteObservador“, uma espécie de blogue gigante e bem financiado onde se aquartelou toda a direita passista, salazarenta, bafienta, ressabiada, queque, xuxofóbica, veneradora dos mercados ou simplesmente tonta deste país.

Hoje, o “publisher” do dito site, José Manuel Fernandes, vem prestar um esclarecimento, não sobre a retirada/ocultação do artigo, como se esperava, mas sobre a razão da sua publicação, o que já de si dá vontade de rir, porque o que se nota mesmo mesmo é que o artigo sumiu. Bom, mas o JMF vem então avalizar o artigo e ao mesmo tempo distanciar o corpo redactorial do seu blogue do conteúdo do dito artigo, remete para os valores fundadores daquela coisa e invoca a liberdade de opinião. Escusado será dizer que, perante o desaparecimento do artigo, este “esclarecimento” é obviamente abstruso. Pois isso mesmo, mas por outras razões, acharam os devotos seguidores desta trupe, em expressão de opinião na caixa de comentários. Para rir a bom rir, é preciso ir ler. Tudo furioso. J M Fernandes não tinha que esclarecer coisa nenhuma, o Observador está mas é a ficar como o Público (ah, ah), viva a dra. Joana e por aí fora.

Claro! Onde está, de facto, a agressividade da estupidez, hoje em dia tão na moda? Modernidade, dignidade? O que é isso? Alinhem-se lá, meninos, olhem a clientela.

 

*Correcção: o artigo não desapareceu, foi antes remetido desde muito cedo para a secção de Opinião (dia 24), deixando de aparecer na página principal. Por achar que era norma as ligações para os artigos de opinião manterem-se na primeira página uns dias, concluí erradamente que fora suprimido. Não foi. Ficou muito menos visível, mas continua lá. Além disso, em abono do “publisher”, registo que ele próprio pôs no seu Esclarecimento de hoje uma remissão para o dito artigo. Nada disto, porém, me impede de avaliar a clientela fiel daquele blogue, que protestou contra a “moleza” de um esclarecimento daqueles. Os admiradores dos articulistas do Observador gostariam que o JM Fernandes publicasse, destacasse e defendesse o artigo de Joana B Rodrigues. Há gente do tipo “Tea Party” cujas opiniões são bem acolhidas no Observador e há adeptos que se irritam com a dor de consciência do Fernandes. Foi isto que destaquei.

 

 

Não é o país que está sonâmbulo, é o J M Tavares que padece de doença incurável

A crítica política anda nisto: parece que, na falta de outro assunto para atacar um bom governo, a direita ressabiada brande agora a suposta endogamia do actual elenco governativo (ver Observador e uma ou outra ovelha ainda dispersa, uma das quaisFilhinhos do papá – aqui me traz). O mais ridículo disto tudo é o facto de as mesmas pessoas (quatro, uma multidão, portanto) que possuem laços familiares (e nenhum deles com António Costa) e fazem parte do Governo já fazerem parte do mesmíssimo governo desde o princípio da sua formação, há quatro anos. A única diferença, pelos vistos a que fez eruptir a turba, foi a gravíssima transição de Mariana Vieira da Silva do cargo de secretária de Estado para o de ministra da presidência e da modernização administrativa. Claramente, estes comentadores estiveram a dormir até agora, ocupados já não sei com quê, possivelmente o afundamento iminente do país. Grande Mariana. Deve ser mesmo boa.

 

O segundo aspecto ridículo é estes indignados apresentarem-se muito escandalizados pelo facto de um chefe de governo escolher rodear-se de pessoas que conhece bem e considera competentes. Parece que, para eles, o primeiro-ministro deveria rodear-se de pessoas que conhece mal e de cuja competência apenas ouviu falar. Fingem desconhecer a existência de partidos, os quais possuem, por definição, dirigentes e militantes, que se vão conhecendo ao longo do tempo e estabelecendo relações de confiança e definindo funções “sombra”. Com falsa e exagerada preocupação, e à falta de melhor, alegam, por exemplo, que, em determinadas decisões, Ana Paula Vitorino e António Cabrita (o casal, o único) estarão condicionados pelo facto de serem casados. Isto é tanto mais cómico quanto toda a gente sabe que se há coisa que não falta num casal são divergências e discussões. Tenho para mim que esse condicionalismo matrimonial é capaz de ser bastante irrelevante face ao condicionalismo que um chefe de governo, pela autoridade e pelos poderes que tem, exerce sobre qualquer dos seus ministros.

 

Outra coisa que descobriram agora foi que é mais fácil encontrar pessoas com formação superior que sejam filhos de pessoas com formação superior, ou pessoas com formação e apetência políticas que sejam filhos de políticos, do que o seu contrário. Descobriram agora. Por causa da Mariana, note-se. Mas também se diga que descobriram de uma forma algo míope. Por acaso, há vários ministros no Governo, quase todos, se não 90%, que fogem a essa suposta norma, como Pedro Marques ou Pedro Nuno Santos ou ainda Mário Centeno, que, penso eu, nem fazia parte do círculo mais chegado de António Costa e é filho de um bancário e de uma funcionária dos CTT. Era socialista, porém, olha a chatice.

 

Por fim, um chefe de governo rodear-se de pessoas amigas e bem conhecidas não é de todo apanágio do actual executivo. Os amigos de Cavaco (desgraçados) lá estavam todos, para nossa vergonha e tragédia nalguns casos. Os de Passos idem. E que amigos: o Relvas, o Marco António. Adeus a todos, é o que tenho a dizer. Trezentas mil vezes os amigos do Costa e respectiva prole, não é? Quantos filhos tem mesmo o Vieira da Silva?

A teoria muito fresca de que devemos ser governados por pessoas que nada percebem de política, que estejam distantes dos círculos de poder e que venham da Póvoa de Varzim ou da Amareleja sem nunca terem militado em nenhum partido só porque sim é populismo puro, é uma ideia propositadamente falsa, e leva-nos a aberrações que apenas tornam o mundo mais perigoso.

 

O João Miguel Tavares é um caso perdido. Quem o ouviu falar no último Governo Sombra não pôde deixar de constatar, mais uma vez e ainda, o mal que lhe remói as entranhas, apesar de tudo o que lhe resta de são. Pessoas que conheceram, conviveram, cheiraram ou meramente estiveram perto de Sócrates (que, em política, são maioritariamente socialistas) despertam neste homem um ódio irracional. Nem que lhe fuja muitas vezes a boca para a objectividade e por isso se embrulhe em contradições – Tavares diz que gosta de António Costa, diz que o acha competente e diz que os seus ministros são competentes (vão ouvir o último programa, na Póvoa de Varzim) – o trauma “Sócrates” acaba sempre por vir ao de cima. Pelo que, a bem dizer, este homem faz de si mesmo palhaçada constante. Está, de facto, bem enquadrado num programa de humor como o Governo Sombra. Embora dê pena. Neste tema, nem os outros dois o acompanharam e o homem falou, falou e falou e desabafou, desabafou e nós… eh pá, coitado.

Encontrar um marido rico

Directamente do livro de leitura da terceira classe (o do Salazar) e, para uma experiência zombie máxima, aconselho a leitura integral do que a dra. Joana Bento Rodrigues tem para nos dizer no Observador. Eu penso, que, depois disto, até o Alberto Gonçalves é capaz de se pisgar do Observador.

[…]O potencial feminino refere-se a tudo o que, por norma, caracteriza a mulher. Gosta de se arranjar e de se sentir bonita. Gosta de ter a casa arrumada e bem decorada. Gosta de ver ordem à sua volta. Gosta de cuidar e receber e assume, amiúde, muitas das tarefas domésticas, com toda a sua alma, porque considera ser essa, também, a sua função.

O potencial matrimonial reside, precisamente, no amparo e na necessidade de segurança. A mulher gosta de se sentir útil, de ser a retaguarda e de criar a estabilidade familiar, para que o marido possa ser profissionalmente bem sucedido. Esse sucesso é também o seu sucesso! Por norma, não se incomoda em ter menos rendimentos que o marido, até pelo contrário. Gosta, sim, que seja este a obtê-los, sendo para si um motivo de orgulho. Porquê? Porque lhe confere a sensação de protecção e de segurança. Demonstra-lhe que, apesar poder ter uma carreira mais condicionada, pelo facto de assumir o papel de esposa e mãe, a mulher conta com esse suporte e apoio do marido, para que nada falte. Por outro lado, aprecia a ideia de “ter casado bem”, como se fosse este também um ponto de honra. […]

[…]A sabedoria popular bem o diz: “Não se pode ter tudo”! Não espanta, assim, que haja menos mulheres em cargos políticos e em posições de poder. A mulher escolhe-o naturalmente, ao dedicar menos tempo que o homem às causas partidárias e ao estudo da História e da actualidade, enquanto conhecimento necessário para defender e representar uma Nação.[…]