Todos os artigos de Penélope

“Campanha orquestrada”. A entrevista da PGR foi fácil. A sua demissão também devia ser fácil

Afinal não custou muito à senhora Procuradora-Geral ir à televisão responder a perguntas. Eis o contexto que justificou esta maçada.

Desde 2019 (tomou posse em Outubro de 2018) que não há notícias sobre as actividades da instituição a que preside, apesar do aumento do número de assessores de imprensa de que entendeu rodear-se, conforme fez questão de assinalar no início desta entrevista, sabe-se lá porquê, pois ninguém notou qualquer afã ou empenho comunicacional da parte do Ministério Público nestes seis anos*, pelo contrário. Não há contas prestadas sobre coisa nenhuma. (Esta dos assessores foi uma primeira argolada, que podia ter sido mais explorada.)

O relatório referente a 2023, que, a pedido do Parlamento, vai ser enfim apresentado, não está sequer feito, obrigando a um pedido de adiamento da comparência perante os deputados. Vergonhoso. (Onde estão os outros, pergunto eu.)

O acompanhamento de processos, sobretudo os mais mediáticos e políticos e com consequências graves no funcionamento da democracia, não foi actividade a que a senhora PGR se tenha dedicado por aí além nestes anos, confissão da própria, “dada a extensão e a minúcia” dos mesmos e a “impossibilidade humana” de tudo conhecer. Palavras da própria. (Qual extensão e qual minúcia no caso Influencer?). Já suspeitávamos do alheamento, mas está errado.

Não se vislumbrando, pois, na actividade de Lucília Gago qualquer indício de transparência, competência ou responsabilidade, foi preciso uma inédita queda de governo por via judicial (por outras palavras, um golpe) e que um coro de vozes indignadas se viesse manifestar contra o silêncio da senhora procuradora-geral para finalmente esta se dignar a falar em público. Estão em causa abusos, absurdos e ilegalidades/crimes do Ministério Público. Não é coisa pouca.

E aqui chegámos. À cadeira televisiva. Lucília Gago falou, mas poderia perfeitamente ter continuado calada. Se não compreende o alarido, realmente terá pouco a dizer. E pouco disse. Viu-se que estava melhor sossegada. Como defesa, acusa quem a tirou do sossego de orquestrar uma campanha. Exceptuando umas greves de funcionários judiciais numa altura menos própria, considera que está tudo impecável no Ministério Público, mais uma vez não compreende “o alarido”.

Confirmou, porém, aos nossos olhos, a incompetência, a ignorância, o desconhecimento da vida política e a perversidade do MP de que todos já suspeitávamos. Os processos não se fecham porque pode sempre surgir qualquer coisa. Uma vez suspeito, eternamente suspeito. É o lema deste Ministério Público. E nunca erra. Está apenas e para todo o sempre à espera de um dado novo. O direito das pessoas à liberdade e ao bom nome não colhe para este MP e para os juízes que caucionam os seus abusos.

Um governo cai por suspeitas canhestras do MP e parágrafos ilegais e precipitados, cidadãos são presos dias e dias infindáveis para depois serem soltos sem qualquer acusação grave, ministros são escutados durante anos, numa devassa total da vida privada, para no fim se pescarem dois almoços oferecidos, ordenam-se fugas de informação venenosas programadas para prejudicar alvos políticos em determinadas alturas políticas, mas tudo no MP está perfeito! A leveza com que esta mulher atropela pessoas é inacreditável.

Com esta postura, a entrevista não a fez suar. A roupinha preservou-se. Lucília Gago não esteve sequer sentada numa cadeira, ela pairou. Problemas não existem. Vítimas da incompetência ou da politização dos procuradores, o que é isso? Existe, sim, uma campanha.

Dona Lucília, a senhora está no ar. E, uma vez aí, pode ir mais depressa para casa. Não é que os problemas do MP fiquem resolvidos com isso, porque a incompetência e os vícios são muitos, mas ter à frente do MP alguém com autoridade, isenção e conhecimentos (da lei e da vida) e que dê a cara já não era mau. Porquê esperar três meses?

——————————-

*Diz que consultou os assessores para escrever o famoso parágrafo

Rosário Teixeira está tão metido nas más práticas do MP que não tem noção e é esse o problema da instituição

Fui ouvir a entrevista que o procurador deu à SIC Notícias em defesa do Ministério Público. Confrangedora, digo-vos. Imaginam uma pessoa a justificar o injustificável? É ele. Várias passagens bradam aos céus (como a que refere o facto de António Costa não ser suspeito, ponto, ignorando tudo o resto que aconteceu justamente por causa da suspeita) e várias outras apontar-lhe-iam o inferno directamente e já, tal a indiferença com que trata a vida das pessoas. Por volta do minuto 11 reconhece que as provas com que o MP avança para a acusação podem nalguns casos ser frágeis e facilmente desfeitas pelas defesas ou pelas instâncias superiores, mas pronto, é o que é. É a Justiça a funcionar e há que voltar atrás e “repensar”, ou seja, continuar a vasculhar, devassar e escutar até a prova ser sólida (!). O facto de o mal estar feito, e por vezes irremediavelmente, e nunca chegar a haver fundamento para a acusação é coisa que não o preocupa um segundo. Mesmo que o suspense dure anos.

Este senhor entende que o Ministério Público pode e deve, por exemplo, andar a acompanhar e a vigiar as démarches de um governo para a concretização de investimentos só porque sim. Há negócio, há um governo, há marosca. Escute-se, pois. E se as pessoas são honestas, se apenas se deparam com obstáculos que exigem o estudo de soluções legais ou alterações legítimas de legislação face a interesse público maior? Não interessa. Discutem as leis, são suspeitos. Se forem dentro, vão, que é para aprenderem a não ganharem eleições (o PS, claro) ou a não quererem investir em Portugal. Nada disto foi dito na entrevista, mas pode facilmente deduzir-se. E se o governo durar quatro anos e os processos de investimento também, então escuta-se quatro anos, só interrompendo quando os protagonistas fizerem pausa ou forem de férias. Isto sim, foi dito. Neste particular, ainda tem a distinta lata de desculpar-se com o facto de as escutas não serem contínuas, porque às vezes os processos estão parados… Ufa, que alívio!

E quanto às escutas da vida privada e de tudo o que não tem a ver com os processos, mas que vem por arrasto? Ah e tal, diz ele, a lei prevê que se expurguem do processo. Só que, entretanto, já alguém andou a escutar a vida íntima e privada de outros e ficou a saber de assuntos que de todo não lhe dizem respeito e a dispor da possibilidade de usar esses dados como e quando bem entende. Isto importa ao procurador? Nada. Absolutamente nada. Rosário Teixeira diz isto com tamanho à-vontade que a nós só nos resta desejar que alguém faça alguma coisa e depressa para pôr fim a este estado de coisas.

Quanto aos megaprocessos, a justificação é que são complexos porque a realidade é complexa e os procuradores não podem focar-se numa árvore para deixarem de ver a floresta. Problema (não equacionado na entrevista, que até foi bem conduzida): e se a floresta for uma invenção deles? E se 15 anos de conjecturas arruinarem a vida de um cidadão? Não interessa. Há que aceitar (isto foi dito).

 

Em suma, Rosário Teixeira acha que está tudo bem na instituição onde trabalha. Se achasse que alguma coisa estava mal, tinha a oportunidade de o dizer. Para ele, está tudo tão bem que até o próximo procurador deve vir de dentro do Ministério Público. Não sei quem tem em mente (já que ele próprio se exclui), mas a ideia deve ser que estas boas práticas não se percam.  Possivelmente treme só de pensar que as ilegalidades e os abusos podem acabar.

“Pôr ordem na casa” parece-me uma expressão demasiado branda para definir o que é preciso fazer com o Ministério Público.

E eu pergunto: qual o objectivo, Mariana?

Se a Mariana Mortágua pensa que massacrar actualmente os nossos antepassados e nós próprios (suponho que ela também)  com as alusões ao tráfico transatlântico de escravos negros de há uns séculos leva a que, neste momento, se elimine o racismo em Portugal, está redondamente enganada. O resultado pode ser o contrário, tal o absurdo da culpabilização. Os portugueses não atravessaram os mares com o objectivo primeiro de ir torturar pessoas livres e de outras cores. Aliás, passaram-se séculos até se aventurarem pelo interior de África. Eram os próprios africanos que utilizavam pessoas já escravizadas como moeda de troca comercial. O erro não pode estar só nuns (a menos que se considere superior o estado de desenvolvimento dos europeus à época – e os europeus mais responsáveis, e inferior o dos africanos, o que é sempre discutível, dependendo da perspectiva, e nunca jamais admitido pelos movimentos de extrema-esquerda).

Nós também não somos os nossos antepassados. E as pessoas de cor de que se rodeia a Mariana para proferir estas acusações também não vão ganhar mais respeito com estas declarações, pois será legítimo perguntar-lhes por que razão elas ou os seus pais vieram então viver para o reino dos opressores e por que razão quem ficou em África e escapou ao tráfico não só não deixou de ser escravo à mão de negros como, não sendo escravo, não ficou melhor do que quem foi levado para o Brasil nem deixou de morrer por maus tratos, tendo ficado. Tudo isto e muito mais inconveniências que costuma retorquir quem gosta de prolongar estas discussões improdutivas. Foi um episódio negro da história europeia que felizmente terminou. Mas não em todo o mundo, facto de que a Mariana não fala. Na Arábia Saudita a escravatura ainda era legal em 1962 e consta que há países onde ainda se pratica, nomeadamente a Mauritânia, a Índia, a China, a Rússia, etc.

Se a Mariana pensa que os portugueses de há uns séculos não fizeram absolutamente nada de valoroso de que nós, os seus descendentes, nos devamos orgulhar e que tudo se resume à brutalidade do tráfico transatlântico ou à exploração da mão de obra negra nas colónias por racismo, só revela desrespeito pela memória, a ambição, os sonhos e o sacrifício de tantos, desdém pela imagem que o resto do mundo tem de nós, um profundo desconhecimento da história dos europeus, ou mais exactamente de todos os povos, todos eles com pessoas escravizadas numa altura ou noutra da sua história, e, mais grave, desejo de provocar reacções perigosas dos candidatos a autocratas que pululam um pouco por todo o mundo nos tempos que correm, esses sim racistas, reacções eventualmente percepcionadas como justificadas e compreendidas dado o exagero e o despropósito da culpabilização.

Se pensa que os portugueses foram os “fundadores” do racismo é ainda mais ignorante e, dada a vergonha que tem de ser descendente de tão maléfico povo, talvez fosse mais coerente mudar de nacionalidade de uma vez por todas e tornar-se palestiniana ou iraniana, correndo embora o risco de ser apedrejada por imoralidade.

xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx

Nota: Se este meu post puder ser atribuído a alguém do Chega, fiquem a saber que eu penso o seguinte: muito do acolhimento que movimentos nacionalistas e xenófobos como o Chega lamentavelmente obtêm na sociedade deve-se ao completo exagero e ao radicalismo dos movimentos esquerdistas em matéria de revisão da História, de desprezo pelo passado e de culpabilização extemporânea e absurda do “homem branco”. Continuem assim que eles agradecem.

E delação premiada dentro do Ministério Público, não calhava bem?

A coisa não vai lá com discursos, críticas nos jornais ou grupos dos 50. Quatro anos de escutas a um governante sem indícios graves que as justificassem e sem que nada de criminoso se apurasse, nem em três, nem em seis, nem em doze meses, nem em 48!, é ilegalidade suficiente para qualquer pessoa exigir que alguém na hierarquia do Ministério Público ou da magistratura judicial seja exemplarmente punido. As escutas estariam para durar indefinidamente, enquanto João Galamba tivesse cargos políticos. Inacreditável. Uma vida profissional destruída por pura perseguição política, usando a Justiça.

Acusações graves e ordens de prisão preventiva a um autarca e a empresários pelo facto de negociarem a instalação de infraestruturas para uma actividade importante de milhões.

A inserção de um parágrafo assassino num comunicado (mais uma vez lançando suspeitas sem fundamento sobre um primeiro-ministro sem qualquer historial de desonestidade nos inúmeros cargos públicos que já desempenhou), que levou à queda de um governo legítimo e com maioria absoluta.

Também a recente divulgação de escutas sem qualquer outro interesse senão prejudicar o mesmo António Costa na sua ambição europeia, pela mera percepção e o mero alarde público e jornalístico, é um acto político que nada tem que ver com a administração da Justiça.

Os procuradores e os juízes não são pagos para fazerem guerrilha política e, se o fazem, devem ser obrigados a abandonar a profissão após cumprimento de pena.

Verifico que todos os partidos políticos, com excepção da seita do Chega, estão de acordo em considerar o comportamento do Ministério Público e do ou dos juízes inaceitável num Estado de direito democrático. Alguma coisa tem que ser feita, portanto, dado o escândalo em que se transformou a relação da Justiça com os políticos (sobretudo do PS) e a impunidade total com que os magistrados violam as leis.

Assim, eu pergunto: por que carga de água não se identificam os procuradores que pediram autorização vezes sem conta para escutar João Galamba e o ou os juízes que, igual número de vezes, autorizaram tais escutas e não são questionados em sede judicial? Por que razão ninguém pergunta à senhora Procuradora-Geral se teve conhecimento ou encorajou/consentiu estes abusos? Estará o Ministério Público de tal maneira minado que, de alto a baixo, não se aproveita ninguém, estando todos em conluio?

E pergunto ainda mais: se querem tanto a delação premiada para a corrupção político-económica, porque não começar a aplicá-la já dentro de casa? Reparem como estou a ser optimista ao achar que há lá dentro quem discorde dos abusos ou se queira arrepender.

O assunto é sério. Os salazaristas do Observador acham que é inadmissível comparar tudo isto com as práticas da PIDE (Helena Matos, ainda hoje ouvida no rádio do carro). E, claro, estão confortáveis com a divulgação de todas as escutas e elementos processuais que prejudiquem os seus adversários políticos (José Manuel Fernandes). Mas o facto é que estamos perante perseguições políticas. É certo que não se prendem pessoas por contestação a um regime estabelecido, mas arruína-se-lhes a reputação e a vida por terem orientações e perspectivas dos actos políticos diferentes das deles e dos seus amigos. Excepção feita à tortura física (e vontade não falta a alguns), vai dar ao mesmo. Se calhar ainda é pior, porque a PIDE teria e teve um fim, enquanto este estado de coisas, com que a democracia compactua por medo, não parece ter solução. Ainda menos quando o Presidente da República não só foi o instigador da perseguição, como também tem telhados de vidro devido ao caso das gémeas.

A ONU de Guterres e os talibãs

Segundo notícia do Guardian, para uma conferência das Nações Unidas sobre o Afeganistão, em Doha, os talibãs puseram como condição a não participação de mulheres afegãs e a não inclusão na agenda dos respectivos direitos. Se esta conferência se realizar nestes termos, é uma vergonha.

Notícia do Guardian

Aceitar que haja um país no qual os homens tratam as mulheres como prisioneiras para consumo privado e para assegurar descendência é uma traição às mães, consortes e filhas dos representantes do resto do mundo, que, a meu ver, deveriam recusar-se a participar. Guterres muito mal.

Ainda menos se compreende quando nos é lembrado que o próprio Guterres recusou condições semelhantes no início deste ano. (The Taliban did not participate in UN talks earlier this year, with the UN chief António Guterres saying at the time that the group presented a set of conditions for its participation that “denied us the right to talk to other representatives of the Afghan society” and were “not acceptable”.) Se nada mudou, porquê esta aceitação?

 

Friso de machões de tal maneira inseguros que impõem, pela força, uma vida de clausura e ignorância às mulheres.

O beato Marcelo não vem a público defender Lacerda Sales e oferecer-se para arcar com as culpas porquê?

Acho verdadeiramente escandaloso que Marcelo, tão, mas tão católico, não mexa uma palha para defender o antigo secretário de Estado da Saúde no caso das gémeas, agora que este foi constituído arguido. É que, se não fosse Marcelo a ordenar diligências junto do Santa Maria, pondo os médicos de sobreaviso para uma cunha, e a enviar, como quem não quer a coisa, mas a enviar, o pedido do filho para o Governo, ninguém no Governo se veria obrigado, por respeito, a receber o filho Nuno e a torpedear os canais legais. Dizer que Marcelo Rebelo de Sousa é indecente é muito pouco. Biltre é mesmo o termo, se nada fizer.

E, já agora, por que razão as buscas não foram à fonte do processo, o palácio de Belém?

Perguntas incómodas para uma certa esquerda

A Espanha, a Noruega e a Irlanda, entre outros, estão no seu direito de reconhecer o Estado da Palestina. Entendem, provavelmente, que é um incentivo para os palestinianos de boa vontade, digamos assim, e até para os de má vontade.  Mais, penso até ter ouvido Pedro Sanchez a dizer que as fronteiras entre esse Estado e o Estado de Israel seriam as de 1967. Muito bem. Mas. Mas. Se o Hamas e o Hezbollah continuarem a existir e a serem financiados pelo Irão e não quiserem aceitar a existência de um tal Estado Palestiniano, pois isso implicaria a existência de um Estado de Israel, de que serve o reconhecimento? Sanchez também advoga a existência de uma ligação terrestre entre Gaza e a Cisjordânia. Sabemos o que o Irão pensa disso? Sabemos mas não queremos saber?

Apesar de tudo indicar que esses movimentos radicais ficam satisfeitos com o reconhecimento da Palestina por outros países, não seria mais determinante dizerem “OK, vamos conversar nessa base”. Porque não o fazem?

É ou não é praticamente impossível iniciar conversações de paz se uma ou ambas as partes não aceitam a existência da outra ? (há muito judeu fanático e arrogante em Israel, embora na minha modesta opinião esses possam ser silenciados; há fanáticos dos dois lados, embora uns usem mais as facas e os explosivos do que outros).

 atenção do Ventura: os alemães, esses turcos

Venho aqui lembrar ao Ventura, que declarou na Assembleia que os turcos não gostam de trabalhar (dados?), e aos seus fãs o tempo que demorou a construir o novo aeroporto de Berlim. Planeamento alemão, executores alemães.

The Airport finally received its operational licence in May 2020, and opened for commercial traffic on 31 October 2020, 14 years after construction started and 29 years after official planning was begun.”

Wikipedia

Nota: Isto não tem nada que ver com os planos anunciados para o nosso novo aeroporto. Por cá, trabalhamos bem e depressa.

Presumo é que, dentro dos ideais nacionalistas do Chega, deveríamos ter declarado guerra aos neerlandeses quando um seu ministro declarou que os portugueses eram mais mulheres e vinho.

Assim, talvez não fosse mau prepararem-se para a retaliação dos “turcos”.  Eventualmente dos que vivam cá. Porquê? Porque o mundo para a extrema-direita é assim.

Uma guerra permanente e agressões másculas a povos, cores e hábitos que não os deles.

O padrinho

Quem melhor do que um (ex-)comentador televisivo do PSD, actual Presidente da República mas cuja pele de comentador nunca largou, para sugerir a Montenegro, o primeiro-ministro que só com as manigâncias de Marcelo aqui chegou, um jovem comentador televisivo, activo defensor do PSD na estação oficial deste partido, para encabeçar a lista de candidatos ao Parlamento Europeu? Ninguém melhor.

 

Qualquer pessoa constata que Luís Montenegro fala muito pouco e que, surpresa, surpresa, há poucos “segredos” a saírem para a comunicação social. Não me admira. Possivelmente, Montenegro não sabe o que anda a fazer. Quando fala a sério, diz asneiras, como a chico-espertice de fazer passar por medida sua a baixa do IRS já em vigor desde Janeiro, ou revela ignorância sobre as matérias de que fala, como foi o caso, entre outros, da garantia de diminuição do IRS para pessoas que dele já estavam isentas. Por isso, como não sabe nada de nada, o Marcelo que o lá pôs dá-lhe as orientações. Agora, o Bugalho? Um pagamento tão flagrante?

Esperar sentados que Marcelo demita a Procuradora-Geral

Penso que são, para efeitos práticos, uma perda de tempo os apelos e os pedidos para que o Presidente demita Lucília Gago. Esses apelos e pedidos apenas valem como demonstração da indignação de uma parte substancial dos cidadãos adultos e informados. Só por isso não devem ficar por dizer. Mas o facto é que Marcelo ficou totalmente “confortável”, como agora se diz, com a abertura do processo Influencer e a menção de António Costa, que acabou por levar à queda do Governo, a eleições e a um novo Governo, desta vez do PSD, o partido de Marcelo (Cavaco, Maria João Avillez, Manuela Ferreira Leite, Relvas e companhia). Iria demitir a Procuradora porquê, quando tudo indica que a cumplicidade entre os dois neste golpe bem sucedido foi total?

Lucília Gago, por sua vez, poderia tomar a iniciativa de se demitir, depois do enxovalho a que tem sido sujeito ultimamente o Ministério Público que dirige. Mas também não irá fazê-lo. Prefere, como a própria disse, “prosseguir as investigações”, insistindo na ideia de marosca, num misto de orgulho bacoco e guerra institucional, uma tentativa de defender o indefensável, que é a honra perdida da sua instituição, mal dirigida e a causar graves danos à democracia. Nada disto importa para a senhora Procuradora.

 

De maneiras que o Ministério Público, para já, pode fazer o que quer e lhe apetece sem prestar contas a ninguém. Pode continuar a arruinar as vidas dos políticos e alguns excelentes investimentos com suspeições e acusações sem qualquer fundamento, porque os senhores procuradores são absolutamente intocáveis e livres de gastarem o dinheiro dos contribuintes em todas as fantasias que entenderem. O Presidente, entretanto, apoia. Apoia ou corre o risco de ser constituído arguido no processo das gémeas.

Mas alegremo-nos porque tudo pode ficar ainda pior: se, como se suspeita, existem simpatias pelo Chega dentro da instituição e o objectivo de criar a percepção de corrupção dos políticos que têm governado o país for o que move as perseguições insanas, o conluio com os media e o que dita o método especulativo de acusação a que assistimos, e se isso convier ao Presidente e a alguns partidos que espreitam, então há um forte risco de se instalar por cá uma ditadura apoiada por uma parte importante da Justiça, pelas polícias, pelos militares e pelos frequentadores de tabernas por esse país fora.

Como evitá-lo? Parece difícil. O Presidente devia ter-se já demitido por causa da cunha de 4 milhões de euros. Contactou o hospital, mandou para o Governo o pedido do filho, a cunha está clara demais. Com a cumplicidade da Procuradora espera passar entre os pingos da chuva. Mas a sua demissão seria um primeiro passo no sentido da decência. Depois dele, a Procuradora. E aqui estou eu também a dizer inutilidades.

“Oh, era só uma!”: integração dos imigrantes e outro assunto

Ontem aconteceu-me estar num parque infantil, na Quinta das Conchas, em Lisboa, onde me deparei com uma família, de aparência muçulmana, com duas crianças pequenas, cujo elemento feminino adulto se apresentava completamente tapado da cabeça aos pés, apenas deixando à vista os olhos. Uma espécie de burka cobria aquele vulto de mulher. Fazia um calor abafado e, como já adivinharam, as duas miúdas, ao contrário da mãe, envergavam vestidos frescos: pernas, braços e cabelos à solta. O homem igualmente à fresca.

Não gostei do que vi. Não estando nós em época de carnaval, aquela mulher anda a ser escondida de quem e porquê? Se a razão é ser adulta, porque não anda igualmente o homem com o corpo escondido?

-“Incomodam-te? Que tens tu a ver com o que cada um veste? As freiras católicas também não usam um hábito? O Ventura não diz que é o quarto pastorinho de Fátima? E não anda à solta?”

Estou a ouvir. O Ventura é chanfrado e vende banha da cobra (agora no Parlamento) e as freiras, para começar, não se reproduzem. Por alguma maluqueira qualquer, resolveram sublimar as suas características e os seus instintos sexuais (e nem quero saber se é mesmo assim. Portanto, adiante, porque nos seus colégios a maioria dos professores e professoras até são da sociedade civil, muitos deles até sem religião). Mas estas são perguntas que constituem um “peditório” para o qual já dei há muito tempo, pelo menos desde a polémica do “burkini”. Há uma razão, para mim inaceitável no mundo livre e igualitário em que felizmente vivemos, para o porte deste traje: nas sociedades de onde vêm, as mulheres não são consideradas seres pensantes, com personalidade própria, mas reduzem-se a objectos sexuais e máquinas reprodutoras, além de serem propriedade dos machos – pais, irmãos, maridos. Só estes as podem ver como são, sem máscaras e sem terem de sufocar de calor para saírem com os filhos. Permitir que tais valores arcaicos e aviltantes sejam não só exibidos neste lado do mundo como, mais grave ainda, sejam transmitidos aos filhos é aceitar uma barreira de tamanho monumental à integração daquelas crianças na sociedade portuguesa.

Assim, tenho outras perguntas algo diferentes para fazer:

  1. Esta indumentária é legal em Portugal? Em muitos países é proibida.
  2. A senhora passou assim no controlo aeroportuário? Não teve que mostrar a cara?
  3. O SEF ou o seu equivalente actual deu a este casal alguma informação sobre o país para onde se mudaram e os direitos das mulheres?
  4. Que educação e que conflitos vão ter aquelas crianças quando frequentarem uma escola “ocidental” e já tiverem atingido a puberdade, altura em que as mulheres muçulmanas de meios fundamentalistas passam a não poder mostrar o corpo em público, não vá algum macho animalesco menos controlado perder-se por ver braços, pernas e cabelos de uma fêmea?
  5. Vamos permitir guetos onde as crianças, não tarda muito, e para evitar choques, passam a frequentar escolas corânicas por vontade dos pais? E isso leva-nos aonde? Não estamos fartos de ver filmes, a bem dizer reportagens, sobre essa problemática em países europeus, como a França ou o Reino Unido, e os malefícios desse fechar de olhos? Não se pergunta a essas pessoas o que querem fazer (e se querem) quanto à integração dos filhos na nova sociedade?

 

“Olha agora! Ela pode gostar de andar assim!” Ah, pois claro, ela quer mesmo andar assim. Só as pobres das iranianas é que andam a morrer por coisa nenhuma. Que idiotas.

 

Outro assunto

 

Ouvi o Ventura hoje a dizer que foi por pressões insuportáveis que a Justiça veio agora ilibar todos os suspeitos, arguidos, etc., do caso Influencer, incluindo António Costa. Para ele, sem qualquer dúvida, são todos corruptos.

Este indivíduo não anda a ultrapassar as marcas? Não merecia, pelo menos, que lhe instaurassem um processo a sério? Ou terá ele as costas quentes no próprio Ministério Público e por isso insulta, insinua, acusa e condena como se fosse um direito seu? Divino, quem sabe.

Não adianta chamar ao Ventura um cancro, mas é o que ele é. Dali não vem nada de bom. Nem bom, nem bondoso, nem solidário, nem conciliador, nem razoável, nem racional, nem nada. Só posições nojentas, oportunismo e ódio.

 

Quão infantil é ir pescar algumas medidas nos programas das oposições e chamar a isso diálogo?

Não se espera nenhum golpe de génio de Montenegro e seus ministros para conseguirem governar apenas com menos de um terço dos votos dos eleitores. Mas este expediente de pesca à linha nos programas dos outros sem qualquer conversa ou negociação dá alguma vontade de rir e acaba por surpreender, não pela genialidade, mas pela chamada “esperteza saloia”. Haverá mais como esta, não tenho dúvidas.

 

Montenegro não fala em público desde a tomada de posse, não quer falar. Quer “passar de fininho” com a sua minoria e pôr os seus propagandistas a passarem a mensagem de que o trabalho é mais importante do que a conversa. Que agora é o sossego, o ambiente limpo, como já ouvi alguns dizer. Outra interpretação dirá que Montenegro não está à vontade nem tem capacidade para responder às perguntas dos jornalistas, que serão mais do que muitas, legítimas e necessárias.

Mais tarde ou mais cedo, terá que haver declarações públicas, discussões públicas. Na apresentação do programa de governo hoje na Assembleia iremos ver se a forma bizarra de “diálogo” encontrada sobrevive. Esta ou qualquer outra.

Dia da mulher: não brindo às rancorosas, velhacas e inqualificáveis

A covid para este Governo foi uma benesse, foi uma desculpa para nada fazer, foi a possibilidade de poder ajudar quem efetivamente nessas alturas teve necessidade de apoios – e que qualquer Governo com certeza que o faria, um Governo do PSD também o faria”, sustentou.

covid-19 deu ao PS no Governo “a oportunidade de receber da União Europeia um montante de recursos de tal forma volumoso”, os fundos do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), “e que ele tem desbaratado, não para investimentos para futura alteração do país, mas para muitas vezes pagar aquelas benesses que anda a distribuir para manter as pessoas ligadas ao Governo”, acusou.

De acordo com Manuela Ferreira Leite, “a inflação foi outra benesse que lhes caiu em cima”, porque “não só é uma desculpa para várias coisas que nada têm a ver com a inflação, como abriram os seus cofres e foi só entrar dinheiro”.

“Coitado do Montenegro. Só ralações com as individualidades que o vêm apoiar publicamente…”

Frases semelhantes às do título acima têm sido ditas por alguns comentadores, como o Pedro Marques Lopes, ou até o Rui Tavares, que optou por chamar a Montenegro “ingénuo” (ingénuo não será o Tavares?). Isto a propósito de intervenções na campanha da AD, como a de Pedro Passos Coelho, Gonçalo da Câmara Pereira, Paulo Núncio, Durão Barroso ou Eduardo Oliveira e Sousa (ex-líder da CAP e cabeça de lista da AD por Santarém), todas elas assumidamente radicais e assustadoras, mesmo do tipo imperdoáveis em democracias avançadas. Um insurgiu-se contra o excesso de imigrantes atiçando ódios e instintos persecutórios adormecidos, à moda do Ventura, aproveitando para repetir o quão inevitável será uma aliança com o Chega (uma forma de ameaça ao próprio Montenegro); outro não abre a boca a não ser para dizer asneiras, pelo que volta convenientemente a fechá-la; o terceiro quer obrigar as mulheres com menos meios económicos a voltarem aos abortos clandestinos, quando não à prisão (as ricas têm médicos amigos); o Durão fala mal do país dos últimos anos, como se tivesse sido um primeiro-ministro excepcional (!) e com imeeenso prestígio, quando todos sabemos o pouco e mal que fez por cá e o pouco e muito mal ou irrelevante que fez na Comissão Europeia (como prémio por ter sido o anfitrião da cimeira das Lajes) só para depois ganhar um tacho na Goldman Sachs; por fim, o último resolveu falar em distribuir armas aos agricultores, totalmente ao estilo violento e belicoso do Chega.

Pois para esses comentadores cheios de boa vontade, Luís Montenegro, com as aparições e as declarações desses personagens, pode estar a prejudicar os seus louváveis propósitos sociais-democratas e moderados inadvertidamente, por suposta surpresa (para o PML) ou por não saber como são e o que pensam as pessoas que convida e acreditar que são boas pessoas e moderadas (Rui Tavares).

Que dizer disto? Que Luís Montenegro não sabe quem convida para a campanha? Mas ele conhece-os todos e bem! Que não sabe o que vão dizer? Isso não é possível. Que não sabe inclusive que estão a falar em nome da AD e não a título individual, circunstância em que ele, Montenegro, se pode arrogar dizer que discorda?

É óbvio que não é nada disso. A ideia pode ser roubar votos ao Chega “roubando-lhe” a linguagem, por um lado, e, por outro, marcar o carácter “moderado” de Montenegro ao distanciar-se de algumas declarações. Mas Montenegro, nesse caso, só pode estar de acordo com esta estratégia. E o facto é que a tem seguido: uns vêm com discursos que apelam a punições, à violência e à intolerância e logo vem ele acalmar os ânimos como se fosse um social-democrata de gema, dando a entender que se trata de excessos próprios da campanha.

 

Pois para mim, desculpem o meu “francês”, isso é “bullshit”. Tudo estudado. Quem Montenegro terá, no dia 11, se ganhar, para formar um governo serão essas pessoas e não outras. Os ministros serão essas pessoas e não outras. A sua aparência de moderado, dialogante e centrista é estratégia de campanha. Mas, como dizia o outro “se convive com patos, ouve os patos, ri-se do que riem os patos, já falou à pato durante vários anos, vai escolher rodear-se de patos… então é um pato!”.

Geringonça 2.0 seria uma hipótese. Mas o PS deve visar uma maioria folgada

Na antiga Geringonça, começo pelo PCP: em 2015, quando se constituiu a Geringonça, ainda a guerra da Ucrânia, nos moldes violentos e declarados em que hoje se processa, estava longe. Nos últimos anos, o Partido Comunista Português perdeu não só um líder carismático, mas também prestígio, adeptos e votantes a um ritmo nunca visto, chegando a um ponto em que, se obtiver 3% no dia 10 de Março poderá dar-se por contente. Assim, os deputados que conseguir eleger serão parca ajuda para a eventual tentativa de Pedro Nuno Santos (PNS) de constituir uma maioria para governar, caso não a consiga sozinho. Para já não falar nas desavenças que haveria na prossecução da política externa, possivelmente insusceptível de deixar de fora desta vez.

Quanto ao Bloco: na minha modesta opinião, a Mariana Mortágua não conseguirá conquistar mais votantes. É demasiado sinistra, arrogante, castigadora e ultrapassada. Manterá a votação que o Bloco teve nas últimas eleições ou perderá mesmo eleitores em relação aos conseguidos por Catarina Martins, apesar de tudo uma pessoa mais empática. Além disso, o Bloco desfez a Geringonça em 2021 ao chumbar o orçamento. Por que razão haveria o eleitor de acreditar que a quer reeditar? E para quê? Para evitar a direita? Mas quando lhe convém (pensam eles e pensam mal), alia-se a ela!

O Bloco não é nada neste momento a não ser uma memória de interrogatórios tipo Stasi pela boca da Mariana nas comissões de inquérito. Odeiam, e de chicote na mão, os “ricos” (conceito muito abrangente) e isso, como programa para um país, é mau. Acresce que a maioria absoluta de António Costa muito se deveu ao repúdio generalizado da partilha de programa com estes dois partidos, em especial o Bloco, e à convicção de que António Costa valia mais do que todos eles. Reeditar essa partilha para o PS conseguir governar poderá ser a única opção para deter a direita, e nesse caso, força com isso, mas tenho para mim que os eleitores não sentem tantas saudades da Geringonça quantas PNS já quis dar a entender. Só se for uma nova Geringonça, melhorada, com o Livre, um partido assumidamente europeísta.

O PNS não é o António Costa, claro está, nem possui a experiência e os conhecimentos da política, e a boa aura, e longa, que ele possui. Mas tem muitas outras qualidades. É mais decidido, mais prático, e menos “institucional”, o que não é necessariamente negativo. Tenho a certeza de que, se a crise com Marcelo, desde o seu começo logo a seguir às eleições de 2022, se tivesse passado com ele, jamais PNS continuaria com os salamaleques e o respeito, e o silêncio, por vezes incompreensíveis, que Costa fez questão de continuar a exibir. Também não sei se, suspeitasse o Ministério Público dele sem razão, manteria a frieza e a contenção de Costa. Para o bem e para o mal, Pedro Nuno parece-me mais genuíno e directo. Esta diferença pode jogar a seu favor neste momento, a par dos bons resultados da governação socialista.

Para tirar partido dela, PNS faria bem em não ligar às sondagens. As da Católica, infelizmente as mais divulgadas, porque são publicitadas na RTP, têm claramente por objectivo animar as hostes da direita e influenciar o voto. Bastante ridículas, vendo-se os detalhes técnicos. Pode ser que consigam; à falta de melhor, a direita recorre aos conhecimentos que tem, ou seja, mete cunhas. Mas as sondagens falham e já falharam clamorosamente nas últimas eleições em Portugal. Falharam nas autárquicas em Lisboa e falharam nas nacionais em 2022. Além do mais, há outras sondagens com resultados diferentes. Portanto, coragem. Está tudo em aberto.

Sei que os ventos podem estar a soprar, ao fim de oito anos, a favor da direita, mas o principal adversário, o Montenegro, é um líder objectivamente tão fraco, na iminência mesmo de ser substituído a curto prazo, tão contraditório, tão ignorante, que me parece quase inacreditável vir a ser primeiro-ministro. Ventos haverá, pois, mas trazem mau cheiro, más memórias e péssimas companhias (Ventura) e isso não é impossível de contrariar. A esquerda pode bem apresentar uma melhor alternativa.

É incompetência, são ataques de justicialismo, é demasiado tempo livre ou a Justiça está definitivamente politizada?

As discrepâncias enormes que existem entre o que o Ministério Público e o juiz que autoriza as buscas vêem em determinados processos e o que os juizes de instrução vêem são capazes de deixar uns milhões de nós perplexos. A mim deixam. E também indignada com a falta de esclarecimentos.

Podemos ter explicações claras sobre o que está, ou o que pelos vistos não está, em causa na Madeira ou é muita maçada? A malta da Madeira, os seus dirigentes, andam em esquemas para enriquecerem ou não?

E, já agora, se não é muita maçada também, já lá vão quatro meses desde que nos disseram, através de um comunicado, que o nome de António Costa era referido em telefonemas. Ainda não sabem se era mesmo ele e, se sim, que crime é que o envolvia? Quatro meses!

Os sonhos do Ventura e da sua tropa

Presidirem a um regime militarizado é um deles. Para quê? Para terem poder e se perpetuarem nele. À boa maneira dos ditadores da América Latina, mas também do Trump, do Putin e de dezenas de regimes em África. Vão ter sorte? Acho que não, nenhuma. Montenegro decidiu dar um bom contributo para que tal não aconteça. Fez bem, embora, vinda de quem vem, essa estratégia ainda tenha que provar a sua solidez e resistência.

As propostas musculadas do Ventura, como a de confiscar os bens aos “corruptos” (e suas famílias, atenção) ainda antes de serem julgados e condenados, como ontem deu a entender ao mencionar o Salgado e o Manuel Pinho (mas estranhamente não o Miguel Albuquerque nem o Pedro Calado, da Madeira), e apesar de tal já estar previsto na lei para os condenados (não os bens de familiares), inserem-se no quadro populista punitivo, vingativo, autoritário e de desprezo pelo Estado de direito que é também o sonho de muitos polícias insatisfeitos com a Justiça ou que nunca acolheram bem as críticas (por vezes injustas, há que dizê-lo) que lhes são feitas sobre o uso exagerado da força e as práticas racistas. O mesmo vale para as propostas de castração química, de expulsão de imigrantes em massa, de caça às comunidades étnicas ou religiosas, de perseguição ou abate de opositores, etc. Como tudo está supostamente mal e Portugal é um país de bandidos à solta, botas cardadas e armas e tudo se resolve, até as urgências. Acontece que o Ventura quer é poder e tachos e viu nas forças policiais uma preciosa muleta. Espero que nem todos os efectivos das polícias sejam tão primários.

Ventura é um charlatão, mas da má espécie. Não é a primeira vez que o ouço dizer, como ontem, que o Governo caiu por corrupção, quando nenhum dos arguidos ou dos investigados na operação Influencer está sequer indiciado por benefícios ou vantagens pessoais em negócios e quando ele sabe perfeitamente o quão infundamentado é todo o processo. Nem o famoso dinheiro em livros era proveniente de corrupção. Ele faz afirmações destas e não é desmentido. Não o é pelos moderadores e muito menos pelo Montenegro, evidentemente, nem por nenhum outro líder partidário, aos quais convém que digam o pior possível do Governo cessante. Corrupção para trás e corrupção para a frente, mais os 20 000 milhões de euros da corrupção que promete recuperar e nem uma palavra para todos aqueles seus apoiantes, pequenos empresários, que são capazes de se queixar do SNS e da burocracia mas são os grandes actores da economia paralela, a que foge ao fisco. Vai persegui-los também? Claro que não.

O que Ventura jamais dirá é que os polícias já recebem subsídios de risco e outras retribuições e que, não tendo o Governo continuado em funções pelos restantes anos previstos, graças à prestimosa ajuda do Presidente da República, se tornou impossível negociar qualquer reivindicação de aumento permanente. O que não quer dizer que não fosse acontecer.

Por tudo isto e muito mais, nomeadamente a boçalidade e a falta de nível, a ordinarice mesmo, dos elementos do Chega, fez bem o Montenegro em recusar o diálogo ou acordos com tal gente. É um bom começo para tornar esse partido irrelevante, ou pelo menos para lhe moderar o entusiasmo. Resta saber se o povo votante não está ao nível dos répteis e extasiado com as prestações televisivas do charlatão, se o vento de Março não fará Montenegro mudar de posição ou se uma rajada mais forte não o chutará para fora da liderança do PSD. Eis outro sonho do Ventura.

PS Açores não viabiliza governo regional e faz bem. A direita deve parar com as fitas

E com jogadas idiotas também. Até porque não enganam ninguém.

Subitamente o Chega já não interessa ao PSD dos Açores para formar o governo regional. Subitamente querem fazer crer que o partido tem peçonha. Toda uma cena, porque Montenegro, no continente, foi forçado (quase in extremis) a rejeitar entendimentos com esse partido se ganhar as eleições nacionais sem maioria, e uma opção contrária nos Açores deixaria a sua reputação na lama. E assim a direita quer o apoio do PS para esse estratégia. E se fossem lamber sabão? O Chega é ao mesmo tempo uma criação e uma excrescência do PSD. Já lá estava em evolução, mas Passos Coelho deu um empurrão ao Ventura. O PS nada tem a ver com isso e é seu dever absoluto de sempre posicionar-se como alternativa ao PSD, sob pena de reforçar o partido do biltre como grande partido da oposição. Isto devia ser claro para toda a gente. É até claro para a direita, só que esta opta por acusações idiotas como se o PS tivesse a obrigação de ajudar o PSD a afastar o Chega, com o qual já se entendeu quando se tratou de afastar o PS maioritário. O súbito repúdio não é sentido, é estratégia.

Imaginemos então que o entendimento do PS com a AD nos Açores implicaria um acordo parlamentar ou mesmo uma partilha de cargos governativos. Em que posição ficaria o Chega? É isso, acertaram: na posição de maior partido da oposição. Bingo! Depois seria só transpor a receita para o nível nacional. O Ventura ia agradecer com 100 km de joelhos até Fátima.