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Basta um para sermos todos

A economia parou mas não está parada. O capitalismo também é viral. Há zonas onde reina o caos e surgem despedimentos e falências. E há sectores que fazem exactamente o mesmo que antes faziam para um mercado igual em tamanho e ritmo de consumo – há até outras fileiras que devem ao coronavírus um aumento colossal nos preços, ou no tamanho da clientela, ou ambos. Que recrutam. Qualquer investidor, accionista, administrador, gestor que não tenha perdido a ligação entre os neurónios está já agarrado ao calendário e a tomar decisões para os próximos dois meses, seis meses, um ano, dois anos. É que as assustadoras e desvairadas dúvidas causadas pela pandemia, mais a tragédia de saúde pública que está a ocorrer e irá aumentar ao ritmo da progressão da infecção pela vastíssima maioria da população planetária, tudo isto mergulhado no espectro de uma depressão económica à moda de 29, ainda assim permitem o consolo maior que se pode oferecer a um decisor: a inevitabilidade do fim do ciclo de destruição; naquele que será sempre um curtíssimo, imediato, prazo na escala histórica.

Não é crível que no pós-covid os Estados e seus eleitorados queiram fazer o que os cientistas pedem há décadas para acudir à emergência climática – vai ser preciso um susto igual, um sofrimento parecido ou maior – mas podemos já antecipar uma certeza absoluta: a digitalização das sociedades acaba de dar um salto gigante como nenhum outro conhecido neste domínio. Literalmente de um dia para o outro, de uma semana para a outra no máximo, incontáveis milhões descobriram as vantagens de fazer compras pela Internet e pagarem com o telemóvel em loja. A necessidade aguça o empenho, pun intended, e estão criadas as condições para desenvolver estruturas de distribuição de bens com ganhos para os particulares e para as empresas. A ideia de pegar no carro para se levar uma ou duas pessoas até uma superfície comercial poderá ficar obsoleta, ou folclórica, ou escandalosa, ou excêntrica também de um dia para o outro. O dinheiro poupado em combustível, a diminuição da pegada ecológica, o aumento de tempo disponível para os cidadãos e a capacidade de aumentar a eficiência dos agentes económicos, eis alguns dos elementos a incluir na equação dos benefícios.

A obsessão alarmista, sensacionalista, catastrofista mesmo quando começa bem intencionada acaba por ficar tóxica. Contagia em primeiro lugar a comunicação social e depois aumenta a nossa confusão, o nosso medo. Há outras notícias para dar. Por exemplo, esta: nunca teríamos chegado a nascer se aqueles cujos genes transportamos em fatal aleatoriedade tivessem desistido de continuar a procurar soluções nessas outras infindas crises em que ao seu lado os restantes soçobravam face às ameaças. Somos a mais improvável das manifestações da vida, o animal onde a realidade se espanta consigo própria.

Basta um vírus para começar uma pandemia. Basta a inteligência em cada um para acabar com ela.

Vamos lá a saber

Com duas semanas de experiência, vamos a um balanço: faz sentido ter os supermercados com horários reduzidos?

No Mercado Abastecedor da Região de Lisboa o horário de venda foi alargado com a finalidade de evitar concentrações de compradores. Desde o início da crise que me parece dever ser essa a lógica para os consumidores finais, vendo como protectora uma eventual extensão até à meia-noite, ou mais, do horário de fecho. Porém, optou-se pela lógica inversa por razões talvez adequadas mas cuja necessidade me escapa.

Numa situação em que está em causa apenas um período limitado de no máximo dois meses para os actuais constrangimentos de emergência (é a minha previsão ignorante), as probabilidades de sucesso na redução dos efeitos da epidemia na saúde e na economia justificam não só medidas aparentemente fáceis de tomar como esta da diluição dos agrupamentos dentro dos espaços comerciais como ainda um crescimento gigante da oferta de serviços de entrega em casa.

Num quadro ideal, e sem dúvida impossível de realizar no imediato, nem sequer precisaríamos de sair para ir às compras. As frotas de entrega seriam de veículos movidos a electricidade e estaríamos a proteger-nos e a descarbonizarmos ao máximo o modo de vida em simultâneo. Já para não falar que assim se evitariam por completo os açambarcamentos e o pânico e carências que causam.

Broken Arrow

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A crise global provocada pelo coronavírus só encontra paralelo, nas suas dimensões económicas e sociais, com as duas Grandes Guerras do século XX. Daí o conceito de “guerra” ser uma imediata referência de contextualização para a gravidade da situação, dá sentido tangível à ameaça. Porém, como estamos a ver e só vamos no começo do processo, esta crise consegue ser ainda muito mais ampla na geografia dos seus efeitos ao não poupar literalmente nenhum continente, nenhum país, nenhuma cidade e, fatalmente, nenhum agregado humano. É só uma questão de tempo. Tempo medido em semanas, desde o registo do primeiro caso até à declaração de um qualquer tipo de estado de emergência pelas autoridades políticas respectivas.

Esta guerra tem três linhas da frente. A primeira é a do tratamento dos infectados que desenvolvem complicações graves e desviam recursos humanos e logísticos dos já sobrecarregados e/ou carentes serviços de saúde. Aqui, como vemos horrorizados em Itália e veremos em muitos e muitos outros países, a Convenção de Genebra está invertida. O inimigo ataca preferencialmente os médicos, os enfermeiros, os hospitais, os assistentes sociais de qualquer tipo que estejam em acção. Quão mais civil mais apetecível como alvo. A segunda é a economia, a qual se afunda a pique ao se interromper a vida social obrigando as populações a meses de clausura doméstica. Aqui o inimigo é convencional, pois em todas as guerras se tenta destruir a estrutura económica do adversário. A resposta dos Estados e das sociedades, a reconstrução, vai exigir respostas historicamente originais. Finalmente, mas não least, a terceira linha da frente corresponde à linha dos olhos daquele com quem comunicamos. Pode ser um familiar, amigo, colega, vizinho ou estranho. Estar no seu campo de visão corresponde a estar em comunicação. E a estar em combate pedagógico, o qual começa em nós, no mais íntimo de cada um: a vontade. A tal vontade que é sempre expressão da biologia, depois da antropologia, a seguir da psicologia e sociologia, e só por último da ética. Daí a pulsão inicial para não gastarmos recursos com ameaças distantes no espaço, no tempo e na tribo. A pulsão que desperta o pensamento mágico onde nos cobrimos de superstições mesmo que não saibamos terem esse nome nos dicionários e nos tratados de saúde mental. A pulsão de servirmos, adorarmos, o nosso incontornável e lógico egocentrismo.

A ética pode ser vista como a dimensão onde a vontade cumpre a resposta a esta pergunta: por quem sou responsável? Isto é, à luz implacável da consciência de mim, sozinho perante o absurdo e a glória de me saber vivo, que me pertence absolutamente? Não o corpo, muito menos o mundo. Só posso reclamar como meu, ontologicamente original, o que consiga fazer com esse corpo recebido nesse mundo. O meu corpo é o suporte, ou o lugar, de uma corrente de consciência no espaço e no tempo onde exerço influência sobre o mundo. Posso deixar que uma borboleta bata as asas no parapeito da minha janela e ficar tranquilo à espera do que tal acontecimento vai provocar nos boletins meteorológicos da China. Ou posso dizer a alguém para não sair à rua ou para se manter fisicamente distante mesmo que precise de sair à rua, e continuar a olhar para a China à espera dos boletins de saúde. Ser ético quando por causa de mim há quem fique em risco de adoecer e morrer parece tarefa fácil. E esse é o mais ardiloso plano do inimigo.

Antropomorfizar o vírus não tem nada a ver com a metáfora e seus modos. Antes, estamos no domínio da metonímia, onde o referente semântico tem relação directa, íntima, com o termo usado num outro contexto alternativo. O contexto da reacção ao coronavírus que nos invade os corpos e as comunidades é o de uma guerra não só pela evidência das consequências pelas quais a humanidade colectivamente está a passar; também, e ainda mais profundamente, pela necessidade de disciplina militar para reduzir ao máximo a severidade das investidas inimigas e a extensão dos combates. A disciplina é uma preciosa virtude quando defende o que mais importa – como todos os dias de todos os dias se sabe acontecer na actividade de médicos e enfermeiros, para só dar o exemplo mais consensual.

Na terra onde se inventou a democracia deixou-se na mão, nas lanças, dos cidadãos a responsabilidade de defenderem a liberdade. Defenderem em batalha. A disciplina guerreira não é incompatível com a liberdade – precisamente ao contrário para quem colocar a ética como bem mais valioso do que o egoísmo rapace e irresponsável.

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National Poll: Many parents delay talking to kids about inappropriate touching
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Not finding new goals post-retirement associated with greater cognitive decline
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Pets can protect against suicide in older people
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The Lancet: Study details first known person-to-person transmission of new coronavirus in the USA
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Facts versus fiction – breaking down COVID-19 myths
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Tips to Cope with the COVID-19 Pandemic
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Pandemic Panic
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Estamos a viver o mais belo momento da civilização desde sempre

Nunca se tinha visto, sem origem bélica, os mais ricos países do mundo moderno, científico e tecnológico a interromperem súbita e drasticamente a sua vida social e económica. A causa é uma doença que se estima ter à volta de 2 a 3% de mortalidade, talvez menos no final das contas. Uma doença que para a enorme maioria se tratará como uma vulgar gripe ou até nem chegará a causar sintomas debilitantes.

Ou seja, 97% não são mais importantes do que 3%. Os novos não são mais importantes do que os velhos. Os mais fortes, mais saudáveis, são menos valiosos do que os mais fracos, os mais doentes.

É economicamente catastrófico, claro. E é lindo.

Basta pensar

Depende da máscara e para quê. A da fotografia, como todos devem saber, é uma máscara cirúrgica. Ou seja, para os cirurgiões, num bloco completamente esterilizado, não expelirem eles próprios qualquer microorganismo, uma gotícula que seja e na maior parte dos casos com o corpo do paciente aberto, directamente para o organismo do paciente. E no fim lixo. Portanto nem de longe nem de perto foram concebidas para impedir inspirar o que quer que seja. Mas da maneira que eu as tenho visto usar pelas ruas em Lisboa, algumas quase castanhas, garantem de certeza aos utilizadores que nunca vão inspirar o vírus sozinho. Mas com algumas bacteriazinhas deve ser muito mais saboroso. Até já as vi guardar nos bolsos para depois voltar a colocá-las. Como julgo que já escrevi noutro espaço, nem consigo imaginar maior foco de infecção que andar a reutilizar este tipo de máscaras. E qualquer pessoa com cérebro que já tenha manuseado este tipo de mascaras percebe logo o que acabei de escrever. E por falar em manusear, outra atitude inteligente que tenho visto é a forma como retiram ou colocam as máscaras. Sempre pelos elásticos? Nem pensar. Mas também há realmente máscaras feitas para respirar. Ou para não inspirar partículas como os pintores na construção civil. Vulgo 3M. Mas como julgo que já corre campanha na RTP, só devem usar máscaras pessoas com alguns sintomas, no sentido de protegerem terceiros, de qualquer gotícula expelida. E nunca terceiros sem qualquer sintoma. Da minha parte, nem quero imaginar os problemas que vêm por aí do mau uso das máscaras. Infecções bacterianas, do foro respiratório e não só. E o uso das luvas por tudo e por nada não é menos curioso. Ainda ontem vi não sei quantas senhoras na rua com luvas de lavar a loiça, vários números acima, todas enrugadas. Que mais tarde ou mais cedo também passam pela cara. Basta pensar qual das superfícies será mais fácil desinfectar. As mãos lisas ou…. Só alguns dos efeitos secundários do pânico mais perigosos.


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Oferta do nosso amigo P

 

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Knowing more about a virus threat may not satisfy you
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Toxic Masculinity Is Unsafe… for Men
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Healthier and happier without Facebook
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How communication about environmental issues can bridge the political divide
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Using LinkedIn Could Hinder People’s Ability to Find a Job
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Feeling Recognized at Work May Reduce the Risk of Burnout
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Study reveals positive connection between nature experiences and happiness
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A guerra é aqui e agora

Estamos em guerra. Mas não consta que o vírus tenha poder de fogo para destruir as nossas casas, fábricas, armazéns, estradas e pontes, meios de transporte, redes de comunicações, aeroportos e portos. Pode é destruir os nossos hospitais, clínicas, postos de saúde e serviços de enfermagem ao torná-los insuficientes para as necessidades de todos – como está a acontecer em partes de Itália e talvez venha a acontecer em partes de Espanha.

O mesmo na economia. O vírus causa despesa pública e prejuízos particulares, neste momento impossíveis de contabilizar e prever na sua extensão por ser impossível prever a evolução do próprio vírus à medida que coloniza todo o planeta onde há humanos. Mas a economia continua activa, os trabalhadores vão continuar a trabalhar onde for mais seguro consoante as profissões, sendo que o teletrabalho gera poupanças nas empresas, e os consumidores vão continuar a consumir pese ser em modelos diferentes e adaptados às alterações nas circunstâncias ao longo da crise e às aprendizagens sociais e individuais correspondentes, o que pode ainda criar mais e novos empregos. Parte dos danos financeiros gerados pela pandemia terá uma solução política. Porque o dinheiro é uma abstracção na sua origem. O dinheiro é uma hipóstase da confiança em sociedade.

Esta crise está a gerar mortes e piadas, medo e inovações, aproveitamentos canalhas e exemplos de liderança. Como todas as grandes crises. E, como sempre e para sempre, há uma escolha possível pela inteligência e pela coragem a fazer aqui e agora – quando vai ser tão fácil, e cada vez mais ao longo do desgaste crescente nas semanas e meses pela frente, cair na animalidade e na barbárie. A guerra é essa.

Estado de guerra

A actual crise de saúde por causa do coronavírus gera mortes directas mas também pode causar mortes e doenças indirectas ao diminuir os recursos terapêuticos para doentes presentes e futuros de outras patologias, os quais ficarão privados da assistência adequada, uns, e que serão vítimas do crescimento das falhas aleatórias e limitações sistémicas, outros. Tal é não só inevitável como acaba por ser bondoso face à escala do perigo que nos ameaça: uma infecção potencialmente letal que progride de modo fulminante, ameaçando interromper a produção e serviços em todos os países de todos os continentes, e quase ao mesmo tempo. Ter uma reacção de pânico corresponde, neste caso, à manifestação de se estar lúcido. A essência da vida em comunidade está ameaçada, qualquer outro ser humano é uma potencial ameaça para cada um de nós e para os nossos mais próximos.

Há muitas e radicais diferenças, mas também alguns paralelos, com a crise económica de 2008. Então, quem estava no topo da pirâmide social sabia que iria ter uma qualquer diminuição do património, menos dinheiro e quiçá menos propriedades e bens. Uma privação de riqueza que poderia ser fonte de muita angústia e pesar durante alguns anos mas que em nada ameaçava a segurança e a qualidade da vida quotidiana. Para os ricos, para a classe média alta, as casas continuariam confortáveis e giras, os carros luxuosos, os médicos do melhor, os putos a passarem os dias nas escolas e universidades de elite, as férias se não ali então aqui, os trapos sempre estilosos e ostensivos. Era logo abaixo que começava a crise crítica, a qual implicava abdicar daquilo que fazia com que a vidinha fosse remediada e sempre no arame. A classe média e média baixa passava a contar tostões como o pé descalço, a fazer a mala e partir, mergulhadas num poço sem fundo de problemas de finanças, de saúde e de tragédias relacionais. Ainda hoje ninguém fez o cálculo em doenças e mortes que se possam explicar com a decisão tomada pela Assembleia da República no dia 23 de Março de 2011. Nem se fará, pois esse dia uniu direita e esquerda numa escolha irracional cuja única lógica foi a da política da terra queimada, um suicídio partidário que entregou o País a um grupo de fanáticos que fizeram uma campanha eleitoral mentirosa e que governaram com cegueira e ódio. Porém, nessa crise a produção estava apenas economicamente condicionada, localmente mas não internacionalmente, e os serviços continuavam ao dispor, embora com acesso mais dificultado pela “austeridade salvífica”. Já na crise do coronavírus, em poucas semanas podemos ficar sem acesso aos cuidados e recursos mais variados, num efeito acumulado resultante do fecho de locais de utilidade pública, do fecho de locais de trabalho por doença de funcionários, proprietários ou utilizadores e do açambarcamento de produtos vitais pelos fenómenos do medo e do egoísmo. Inicia-se uma cascata de alarme que provoca transtornos graves na população como um colectivo, um ecossistema sociológico com rupturas funcionais, e transtornos graves a nível individual, enquanto entidades psicológicas sujeitas a disfunções patológicas em quadros de pressão social. Somando todos os seus prejuízos, ainda assim a Grande Recessão de 2008-2012 não tem comparação com o grau e tipologia da actual ameaça.

Todavia, há lições à disposição vindas de qualquer crise recente ou de antanho, é ler Tucídides. No caso português, convém recordar que algumas vozes, raríssimas, alertaram para as consequências de se colocar o poder pelo poder à frente do interesse nacional, do bem comum, do cívico e concreto amor ao próximo: Um texto escrito nas vésperas da golpada que nos arruinou. O texto é cristalino acerca da dinâmica política que estava à vista de todos e que, mesmo assim, não impediu o desastre colectivo. Em 2020, estamos numa simetria onde a lógica que nos pode salvar comunitariamente é exactamente a oposta: acelerar e radicalizar em vez de adiar e atenuar. Isto porque o vírus tem na velocidade da sua propagação a raiz mesma do seu fim. Quebrando-se a transmissão, a ameaça desaparece em poucas semanas ou dias. Nisso, é incomensuravelmente mais controlável do que uma depressão ou recessão económicas globais. Claro, diz quem sabe, o vírus ele próprio já se inscreveu no nosso futuro e dias com mais segurança e recursos virão para lidar com ele pelas décadas fora. Com esse e com os outros que inevitavelmente vão aparecer. Por agora, o momento é o de ir buscar o melhor de nós e juntarmo-nos a quem faça o mesmo para mútua protecção. Estamos em guerra.

O problema não está nele, está em quem lhe paga

As crises graves geram comportamentos extraordinários. É uma resposta simultaneamente atípica e típica dos organismos perante a gravidade das ameaças. Mas para certos seres as crises graves não passam da oportunidade de repetirem e intensificarem um comportamento ordinário. É o caso com um certo pasquim onde escreve um certo caluniador profissional. Ontem, esse ser vendeu um texto no tal antro a manifestar-se esperançado na possibilidade de se atingir politicamente António Costa por causa da epidemia do coronavírus. A sua esperança vinha apoiada numa diabólica profecia de um certo político que o caluniador profissional promove messianicamente. Um certo político que igualmente se aproveitou de uma crise extraordinariamente grave para obter ganhos políticos que geraram consequências devastadoras após ter afundado Portugal para subir ao poder.

A partir daqui, podemos sem dificuldade entrar no processo cognitivo e sistema emocional do calunidador profissional. Ele tomou o partido do vírus, o qual vê como aliado, como a entidade que vai resgatar a profecia diabólica do seu ídolo e provar que ambos, caluniador e ídolo, tinham razão, sempre tiveram razão: Costa não presta, é apenas um traste “que teve imensa sorte nos últimos quatros anos” (sick). Bastará este “abalozinho” para o derrubar. Daí ser inevitável que o caluniador profissional passe a festejar como adepto cada novo caso de infecção, cada novo salto no número dos suspeitos, cada morte. A morte será especialmente bem-vinda, tal como aconteceu em Pedrógão. Com mortes, muitas e muitas, com velhinhos a caírem por todo o lado, será a consagração suprema do exercício desiderativo. O caluniador esfrega as mãos de contente, as coisas estão a ir no sentido da sua ânsia. E talvez já se imagine, depois de pela mesma causalidade moral ter recebido honras de Estado sendo presidente de um feriado nacionalista, a entrar na Sociedade de Geografia como sócio honorário ainda antes do Natal.

É uma pena, uma lástima, Bárbara Reis não ter disponibilidade para gastar 10% da implacável atenção que dá ao perigosíssimo Ventura, 1% que fosse, com este senhor que recebe do mesmo patrão. Afinal, não consta que a pulhice tenha chegado à Grei com a entrada na Assembleia da República da luminosa e vocal estrela que Passos Coelho escolheu e preparou para tentar sacar Loures aos esquerdalhos e amigos de ciganos. A explicação, sabemo-lo, é sórdida. É que um deles é político – enquanto o outro, para além de colega de pasquinagem, se limita a fazer política.

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Men and Women Live Longer in Countries with Higher Gender Parity
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For anxious spouses, a baby may be a rival
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Bees recognize that six is more than four
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Caffeine boosts problem-solving ability but not creativity, study indicates
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Unwanted behavior in dogs is common, with great variance between breeds
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Computer science professor developing app to help people with intellectual disabilities report abuse
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Don’t blame the messenger – unless it’s all stats and no story
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A Operação Marquês vista pelo senso comum de uma pessoa da rua

Algures em 2013 ou na primeira metade de 2014, algures na Procuradoria-Geral da República, Joana Marques Vidal reuniu com Rosário Teixeira. Estava na hora de tomar uma decisão inaudita na história da Justiça em Portugal: iam prender um ex-primeiro-ministro? Sabiam que dependia deles. Sabiam que o único juíz então em funções no Tribunal Central de Investigação Criminal alinharia com toda e qualquer pretensão do Ministério Público. Sabiam que o regime estava na mão de um poder político que não só aprovaria como desejava apaixonadamente a prisão do seu inimigo nº 1. Sabiam que dispunham de órgãos de comunicação social, de jornalistas directores e editores, de comentadores influentes, de uma turbamulta a salivar por linchamentos e autos-de-fé, com um inesgotável arsenal de violência assassina pronto a ser esvaziado em cima do alvo. Pelo que ali, naquela sala, a sós, se iria decidir parte fundamental do futuro do País.

De um lado tinham um conjunto de indícios suficiente para avançarem com a constituição de arguidos, do outro tinham o factual desconhecimento sobre a existência de ilegalidades com relevância suficiente para o impacto político e social que seria inevitável ao se tornar pública a investigação. Essa dupla faceta, a qual no campo judicial não só aconselharia como obrigaria a especiais cautelas, permitia fazer uma total gestão política do processo. Quando e como avançar, se avançar fosse a decisão, dependia unicamente das duas pessoas ali reunidas face a face no mais secreto segredo de Justiça. Podiam continuar a recolher informações até chegarem à eventual primeira prova de corrupção ou desistirem caso não a encontrassem depois de vasculharem o suficiente? Podiam. Podiam chamar Sócrates a prestar declarações deixando-o sair com a leveza de um termo de identidade e residência, quiçá a proibição de contactar fulano e beltrano, e o peso esmagador de se anunciar estar a ser formalmente investigado por crimes gravíssimos? Podiam. Podiam deter um Sócrates a aterrar na Portela e fazer desse acontecimento um espectáculo mediático como não há equivalente na memória viva mas depois não pedirem a sua prisão preventiva por evidente falta de matéria probatória? Não podiam.

A decisão que a santa Joana e o implacável Rosário tomaram implicou seguir uma lógica unicamente política. Sócrates iria ser preso, era agora ou nunca, mas no tempo certo para o que à agenda da direita interessava. Preso como castigo da oligarquia, como prémio supremo a ser oferecido numa bandeja pela procuradora-geral da República ao poder que a nomeou para isso mesmo: perseguir inimigos políticos. E preso também para ser investigado, embora acabasse por ser indiferente se a corrupção viria ou não a ser provada. Alguma coisa se iria encontrar, muita “sujidade” privada prontinha a despachar para o sensacionalismo e para a indústria da calúnia. Uma indústria que seria de uma importância estratégica para condicionar todo o aparelho judicial que viesse a intervir nas diferentes fases processuais e miríade de casos conexos, tanto os levantados pela acusação como pela defesa. A verdadeira condenação de Sócrates começava antes do começo, quando se usou a Operação Marquês, então ainda oculta, para tentar influenciar as eleições no PS entre um Seguro alinhado com a direita e um Costa que se queria pintar como socrático. E continuava todos os dias, todas as horas, em que um inocente até prova em contrário passava a ser tratado como criminoso pelas autoridades, pelo sistema partidário e pela sociedade – sem ninguém se preocupar, antes festejando selvaticamente, com a provada impossibilidade, após 53 mil páginas e 13,5 milhões de ficheiros informáticos a fundamentarem a acusação, de se provar tão-só um singelo crime de corrupção para a amostra que tivesse sido cometido pelo cidadão José Sócrates Carvalho Pinto de Sousa.

As declarações de Rosário Teixeira, no debate instrutório do processo Operação Marquês, ficam como a síntese das sínteses do que esteve na origem deste colossal exercício de violência política:

«"Como se aceita que um ex primeiro-ministro receba empréstimos de alguém que é administrador de uma empresa que trabalha e tem negócios para o Estado", questionou ainda o procurador.

Para o magistrado do MP, o que se viu ao longo deste processo "foram várias situações que merecem reparo para o senso comum das pessoas da rua" questionando: "como pode ser compreendido que haja um acionista e uma empresa que pague ao administrador da própria sociedade por fora".

Segundo Rosário Teixeira, "há explicações que justificam que se leve a julgamento os arguidos sob pena de haver uma rutura dos cidadãos na justiça".»
Fonte

O embrulho é estritamente moral, dirige-se a luz para o que é legalmente irrelevante. A caixa embrulhada é feita de cartão populista, apelando ao “senso comum das pessoas da rua” para que elas legitimem uma acusação de sarjeta. E o conteúdo é cristalinamente o julgamento político de ex-governantes e de um partido político e suas políticas, da sua competência. A Operação Marquês concretizou com o recurso a dezenas ou centenas de agentes da Justiça essa lenga-lenga odiosa e odienta da criminalização dos socialistas; repetida desde 2007 pelos dirigentes políticos do PSD e CDS, a que se juntou rancoroso e golpista Cavaco Silva a partir de 2008. Daí se ter montado numa sala confortável da Procuradoria-Geral da República, algures em 2013 ou 2014, um megaprocesso onde se enfiou Salgado e Vara de forma a não deixar qualquer pedregulho da calçada com dúvidas sobre o que está politicamente em causa. O impante e ostensivo momento de glória da direita decadente na era democrática, a suprema manifestação da sua força nesta exibição em parada, acorrentado e chicoteado, do chefe bárbaro que só venceram à traição. Provas de crime? A vingança sabe melhor sem elas.