Todos os artigos de Valupi

Dominguice

Em que idade se deixa de aprender? Aprender é distinto de acumular conhecimento. Um especialista numa coisa qualquer pode assimilar novas informações todo o santo dia, a toda a hora, e não passar por nenhum processo de aprendizagem. Vai tão-só colecionando confirmações dos preconceitos e vieses que o moldam cognitivamente. Simetricamente, um bronco pode de repente dar por si sem nada para fazer, assustando-se perante o vazio existencial, e esse momento corresponder à mais importante lição para o seu futuro. Descobre que a realidade, no fundo como à superfície, é feita de um nada túmido.

Se aprender for apenas para crianças e jovens, aprender faz-nos ser jovens e crianças.

Cristianologia

O homem já tem mais dinheiro do que aquele que será capaz de gastar. Quando arrumar as chuteiras, continuará a acumular rendimentos multimilionários com negócios actuais e futuros. Se lhe der para ser treinador, e tiver algum talento nessa função, voltará a ganhar centenas de milhões com o futebol ao longo de décadas de renovada fama mundial. Provavelmente, os recordes que obteve não serão superados neste século. Recordes obtidos contra os melhores profissionais da sua geração, não em jogos de solteiros e casados nas praias da Caparica. Por que caralho fica piurso quando é substituído estando em final de carreira?

Acontece que ele sabe o que qualquer treinador estúpido o suficiente para o substituir sem ser por lesão nunca saberá. Sabe que vale por 4 jogadores, pelo que a equipa fica invariavelmente pior sem ele. Cristiano prende os defesas contrários, mete a bola no fundo das redes, cria situações de golo para os colegas e enche o campo com uma indomável vontade de vencer. Sempre? Não, bruto, apenas quando calha — mas isso chega e sobra para o que está em causa. Ele justifica que se veja o espectáculo porque ele é espectacular mesmo quando não o é. O futebol profissional não é um trabalho produtivo, não é uma actividade de descoberta científica, não é uma expressão artística, não é um serviço público. É uma liturgia onde reina o pensamento mágico e se cobiça o êxtase.

Assim, o homem fica furibundo quando o tiram do relvado pela mais compassiva das razões: permitir que os coxos na bancada, e os toscos agarrados aos ecrãs, desfrutem de mais uns minutos em que se sonham outros.

Oposição da boa, isto sim

"Isto é um Governo trapalhão e é um Governo de trapalhadas, que não está a inspirar confiança", afirmou Luís Montenegro perante cerca de 600 militantes que participaram num jantar naquele concelho do distrito de Viana do Castelo.

Luís Montenegro lembrou que "havia um primeiro-ministro que, por acaso, é o que está hoje em funções, que há uns anos dizia, quando o acusavam de ter feito uma geringonça, que era uma geringonça, mas funcionava".

"Agora é maioria, mas reina a anarquia. É maioria, mas os ministros dizem, uns, uma coisa, outros, outra coisa. É maioria, mas o primeiro-ministro é desautorizado por membros do Governo. É maioria e são substituídos secretários de Estado que criticaram o ministro. O primeiro-ministro dizia o contrário do que dizia o ministro, o Governo decidiu, exatamente o que os secretários de Estado diziam e afinal de contas quem sai são os secretários de Estado e o ministro continua. Isto é uma confusão que ninguém percebe".


Fonte

Marcelo, é realmente muito simples

«Questionado pelos jornalistas sobre uma notícia do jornal Sol que refere que Portugal vai ser colocado na lista negra do Qatar, o chefe de Estado afirmou que "uma coisa é aquilo que é uma especulação, outra coisa é a realidade".

"A realidade é muito simples, há um relacionamento diplomático, económico, forte que veio do passado, que não impede que haja pontos de vista diversos, sobre matérias importantes".»

Fonte

Não falha, o que Marcelo acha “muito simples” está associado a uma manifestação da sua incapacidade para exercer as funções de Presidente da República. No caso, trata-se de mais um espantoso episódio de erros crassos na gestão política de uma situação que pedia sentido de Estado.

Atente-se na alucinante sequência: quis passear até ao Qatar por sua alta recreação, disse que a temática dos direitos humanos não era coisa que o impedisse de ir à bola e estar a conviver com a rapaziada, atribuiu a Sócrates e Cavaco a culpa da sua viagem, fez uma cegada no Qatar para meia dúzia de monos só para passar na TV que falou dos direitos humanos algures naquela terra, e conseguiu abrir uma crise diplomática com o Qatar que levou Santos Silva a ser o bombeiro de serviço.

Há sinais de se estar perante um problema psicológico, quiçá de saúde. O Expresso, que é um altifalante de Belém, pela primeira vez atacou Marcelo, no que parece ter sido uma encomenda de alguém na Casa Civil sem outro recurso para conter os danos. E uma novel vedeta do comentariado direitola coloca a hipótese de haver uma renúncia ao mandato. Este não é o usual ressentimento contra Marcelo da direita passista e pulha, isto são sirenes de alarme perante as evidências.

Ora, se o caso for clínico, azar. Acontece a todos. E deve-se fazer o melhor para o interesse nacional. A alternativa é o caso ser moral, o que acabaria por ser ainda mais danoso para o bem comum. A coisa, pois, é muito grave e muito simples.

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Dominguice

Quem é que teria apostado numa vitória da Arábia Saudita, selecção que ocupa a 51ª posição na classificação da FIFA, contra a Argentina, 3ª selecção mundial e vinda de conquistar a Copa América no ano passado? Mas imaginemos que havia um maluco que apostava algo valioso nesse resultado impossível. E que vamos falar com ele ao intervalo, dizendo-lhe “Podes recuar na aposta. A Argentina está a ganhar, tem uma equipa cheia de vedetas que jogam nas melhores equipa internacionais, tem o Messi, e a Arábia Saudita só tem jogadores desconhecidos que jogam na Arábia Saudita, parece uma equipa de amadores. Aceitas desistir?”. Enquanto o maluco ficava pensativo, prestes a resignar-se à bondade oferecida, fazíamos nova proposta: “Que tal trocares essa aposta por outra onde a Alemanha está a ganhar ao intervalo, também por um golo marcado de grande penalidade, e no fim ganha o Japão?” Ao que o maluco, indignado, responderia “Mas vocês pensam que eu sou maluco?!”.

Não sabemos se o maluco realmente desistiu da sua aposta ao intervalo, vendo a Argentina a 45 minutos de despachar um grupo de coxos. Sabemos é que o futebol pode iluminar a essência de existir. Isso de o destino ser uma questão de sorte.

Viva Ronaldo!

Deixei de ligar ao jogador Cristiano Ronaldo em 2003, quando saiu do Sporting. Nos 18 anos seguintes apenas registei das suas façanhas o que calhava aparecer-me à frente. 18 anos em que também cortei relações afectivas com o próprio Sporting, um clube com uma maioria de sócios que considerou Bruno de Carvalho merecedor de inscrever o seu nome junto dos de João Rocha, Amado de Freitas e José Roquette, para dar exemplos da minha predilecção. Sim, a lista também regista os pícaros Jorge Gonçalves e Sousa Sintra, e uma inanidade de apelido Bettencourt, entre outras figuras de duvidoso calibre cívico e/ou profissional, mal tal só reforça o argumento relativo à repulsa pelo populista patarata.

Tudo mudou no Verão de 2021, captando o meu interesse as peripécias de Ronaldo ao sair da Juventus para assinar contrato com o Manchester City. Ao se decidir à última hora pelo regresso ao Manchester United, supostamente em resultado do apelo de Alex Ferguson que lhe disse ser uma facada no seu coração vê-lo no City, fiquei agarrado ao romantismo da situação. Pela primeira vez quis ver um jogo do MU em directo, o primeiro de todos os outros a que assisti devotamente até ao último de Ronaldo, há umas semanas, no clube onde se tornou uma estrela internacional. E esse primeiro jogo da era Ronaldo II, em vários sentidos, corresponde ao momento mais feliz do ciclo terminado há dias. A equipa viria a revelar-se uma valente merda, não tendo ganhado nenhum troféu na época passado nem conseguido entrar na Champions. Dois treinadores foram para o galheiro pelo caminho, e o terceiro conseguiu correr com Ronaldo do MU. Do êxtase ao pesadelo, uma velha história.

Para lá da contagiante paixão dos adeptos no estádio, o que mais me impressionou no seu jogo inaugural da época passada foram os relatos dos jornalistas ingleses a darem conta de que a cidade estava transfigurada pela antecipação do regresso de Ronaldo ao MU. Diziam que há muitos anos não se sentia tamanha agitação e energia nas ruas e nas gentes de Manchester a propósito de um evento desportivo, parecia uma véspera de Natal. Esse relato foi para mim a descoberta da dimensão planetária da marca Cristiano Ronaldo, fenómeno de que estava alheado pelo desprezo na minha atenção a que votava a sua carreira e o futebol em geral. Sim, o futebol profissional é completamente irrelevante quando comparado com qualquer questão de relevância social e política, todavia o futebol profissional tem evidente relevância social e política. Porque milhares de milhões de pessoas dedicam parte relevante dos seus recursos temporais e pecuniários a desfrutar dessa indústria de entretenimento e desse mecanismo identitário. É simples, é lógico.

Ronaldo tem sido uma das celebridades mais conhecidas, adoradas, invejadas e detestadas entre 8 mil milhões de seres humanos. É algo absolutamente extraordinário na sua relação com o país onde calhou nascer, culturalmente avesso aos seus traços de personalidade. Parte do romantismo do seu regresso ao Manchester United vinha do sentimento de filiação, o sonho de recomeçar donde se partiu há muito. Outra parte está ligada com a inevitabilidade do seu declínio físico, quiçá também mental. Os seus detractores apressam-se a declarar o seu funeral a cada jogo em que não marca ou em que não marque o suficiente – no fundo, ironicamente, atribuindo-lhe o superpoder de conseguir vencer sozinho quaisquer 11 adversários à sua volta. E um dia acabarão por ter toda a razão, fatalmente. Resta saber se os deuses concordam com a sua azia ou se, como eu, são agora adeptos do Ronaldo Futebol Clube. E estão dispostos a dar-lhe(-nos) mais uma ou duas épocas de sorte&glória.

A descobrir num Campeonato do Mundo das arábias.

Pináculo do “argumentum ad Socraterum”

Marcelo recorda que Cavaco e Sócrates estavam no poder quando Mundial foi aprovado

Na sequência de anteriores declarações que causaram espanto pela sua estultícia, dada a tarimba e predicados da figura e o seu papel institucional em questão, Marcelo saiu-se com esta imbecilidade: “O Qatar não respeita os direitos humanos […] mas, enfim, esqueçamos isto.” Como diz que disse? Esquecer, é mesmo esse o verbo que colhe usar?

E depois da bacorada, tal como aconteceu no branqueamento das suspeitas de abusos sexuais na Igreja Católica, tratou a comunidade como um aglomerado de calhaus. Não tendo mais nada à mão a que se agarrar, foi parar a Sócrates, a fonte de todo mal no universo. Donde, segue a lógica, a culpa de Marcelo querer ir ao Qatar é de Sócrates, principalmente, e de Cavaco, um bocadinho.

É a definição mesma da decadência moral, o vale tudo para não assumir as suas responsabilidades.

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Dominguice

O meu primo disse-me “Aqui ninguém se entende.” Aqui era ali, para os lados de acolá. Só muito mais tarde consegui compreender o que tinha ouvido. Que era isto: “Ninguém se entende.” Nem ali, a terra dele, nem em nenhures. Nem nas terras dos outros nem nas casas dos mesmos. Nem ontem nem amanhã. A discórdia é o estado natural da política e da sociabilidade. Daí ser preciso recorrer à violência máxima – como as calúnias e campanhas sujas que destroem a reputação, saúde e o futuro dos alvos, ou os assassinatos de opositores e as ditaduras policiais – para tentar reduzir a discórdia à expressão mínima. Apenas para que ela rebente, vingativa ou revolucionária, mais tarde. Inevitavelmente.

A democracia é para heróis. Dos mais valentes, mais belos. Aqueles que estão apaixonados pela alteridade.

Estado da direita: Santana exemplar

Quando Pedro Santana Lopes surge como arauto da decência e do respeito pelas instituições, ou até mesmo como paladino da coesão e integridade da República, sabemos que a decadência da direita há muito que bateu no fundo. E não tem parado de escavar.

Sim, este Pedro, que agora apregoa um nobilíssimo “não gosto de coisas à traição“, foi o mesmo que em 2005 encomendou no Brasil uma campanha negra para lançar o boato de Sócrates ser homossexual, campanha essa que era como a cereja no cimo da outra já a correr sobre o Freeport, lançada esta por elementos do PSD e CDS em trama com agentes da autoridade.

As cãs trazem a sabedoria e a santa amnésia.

Putinismo canino

«“Tenho um amigo de infância e a determinada altura — miúdos de seis, sete anos — ele tinha um cachorrinho. Então a brincadeira que se montou, que era uma coisa completamente absurda, era três crianças que à vez atiçavam o cão. Atiçavam o cão, quando o cão vinha para morder gritavam e o cão, coitado, baixava... A brincadeira era assim. Esse meu amigo, que era o dono do cão, quando foi a vez dele de fazer esse movimento de atiçar o cão, o cão deu-lhe 20 e tal dentadas. Ao dono! E a pergunta é: a culpa é do cão? O cão é culpado desse acto?”, elaborou Paulo Raimundo.»


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