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Jornalistas, parte do problema

Anselmo Crespo, alguém que não conheço pessoalmente e de quem nunca ninguém me contou fosse o que fosse relativo à sua vida pública e/ou privada, deve ser um excelente e notável ser humano. Pelo menos, é essa a ideia com que se fica ao dar crédito às palavras que dois excelentes e notáveis seres humanos, o Pedro Adão e Silva e o Pedro Marques Lopes, lhe deixaram na emissão de despedida do “Bloco Central” (31 jul 2020), antes desse jornalista ir para a TVI. Os Pedros têm direito à sua opinião mas nem tudo na sua opinião pode ser considerado edível. Falo dos ditirâmbicos elogios à faceta de “jornalista” do indivíduo, algo que não custa a entender ser uma manifestação de afecto nascida do convívio profissional (pelo menos) e do momento celebratório dessa intimidade assim estabelecida, na ocasião de um fim de ciclo e de uma despedida. Certo, e tudo bem. Mas à mesma não se admite, foda-se caralho, que se diga do Anselmo Crespo que ele é uma “grande perda para a TSF”, que se tem uma “profunda admiração pelo seu trabalho como jornalista”, e que ele é um “jornalista extraordinário”. Porque mentir é feio e porque há limites para a hipocrisia, mesmo quando ela é ritualista e bem-intencionada, caso se pretenda manter módica integridade moral. Acontece que a figura é insuportável de cagança, burrice e foleirismo gongórico como jornalista. As suas aberturas do “Bloco Central”, onde servia uma mistela de nacos populistas contra a classe política com tentativas de engraçadismo inanes que causavam vergonha alheia, deixavam invariavelmente um enjoo mental tão denso que tornava merecedor de uma quinta com 500 hectares no Céu continuar a ouvir o resto do programa. Mil vezes melhor a sobriedade e laissez-faire do Paulo Tavares e um milhão de vezes melhor a acutilância e profissionalismo da Judith Menezes e Sousa no mesmo papel. Quanto à qualidade do cromo como autor de “opinião” na imprensa escrita, nada irei aqui dizer porque tenho o genuíno receio de partir o teclado e o monitor com o entusiasmo que a matéria me desperta.

Pois este amigo foi escolhido, ou se calhar ofereceu-se, para ir dizer das boas à Diana Andringa a propósito da carta aberta onde se critica a cobertura informativa da pandemia na RTP, SIC e TVI. O que ficou gravado dá a ouvir um ressabiado corporativo e sensacionalista a pôr à prova, com o seu primarismo e má-fé, a paciência, educação e generosidade de uma senhora jornalista. O bate-boca não alterou em nada de nada a imagem que tinha do Crespo mas deixou-me a lamentar, com dor cívica, que Andringa esteja na reforma em vez de estar a dirigir e formar jornalistas com o seu saber de experiência e decência feito.

As televisões e a pandemia: bom ou mau jornalismo?

Entretanto, isto que o Pedro Tadeu relata é de arrebimbomalho. Ao mesmo tempo, não suscita qualquer surpresa. Há uma indústria da calúnia, com as suas vedetas, os seus amanuenses e os seus agentes secretos. Qual é o espanto?

O jornalismo sobre a covid-19 é corrupto?

30 Moedas

O entusiamo desesperado com o regresso de Carlos Moedas à competição política é a exacta manifestação do desespero acabrunhado que Rui Rio espalhou na direita portuguesa. O bom povo do PSD está cercado pelos decadentes raivosos, a “brigada antisocrática” que vive das glórias judiciais do passismo e sonha com o regresso do ditador troikano e joanamarquesvidalino, e pelos broncos furiosos, massa disforme de infelizes comandada pela invenção do Pedro para conquistar Loures à esquerdalha e que não passa de um movimento tachista. Naturalmente, ver este PSD aliado do Chega a poder exibir em palco um tipo que cumpre os mínimos da decência moral e da higiene ideológica provoca uma fortíssima comoção de alívio e esperança no laranjal. Mas esperança em quê?

Neste momento, a única esperança é a de que Moedas perca contra Medina simulando ter dado “luta” – ou seja, que no melhor cenário o resultado continue a ser uma derrota mas sem humilhar o candidato e o seu eleitorado. Porque isso já seria uma vitória, tamanho o deserto de liderança em que a direita portuguesa se perdeu após longos anos a apostar as fichas todas na baixa política, no golpismo e na concepção da política como a conquista do poder pelo poder. Daí não haver na sua elite nem sombra de uma ideia para o País que seja apresentável. O profundamente doloroso fiasco de Rio, o qual desceu até Lisboa com um plano que consistia apenas em estar convencido de que lhe bastava ficar a olhar para o calendário, e que depois na sua indelével e inenarrável estupidez acabou a servir de capacho a Ventura, exauriu a energia anímica daqueles que acreditaram na promessa de trazer o PSD para o centro, para o Estado de direito e para o interesse nacional.

Ora, na política como na guerra há sempre uma fortíssima probabilidade de acontecerem surpresas. Moedas poderá surgir com um discurso inovador e ambicioso que o coloque como candidato a Presidente do PSD e tal ser catalisador para um aggiornamento de toda a direita, com a eventual consequência de também se tornar competitivo para lutar taco a taco com o PS em Lisboa. Tal não é impossível mas igualmente não parece possível. Isto por causa da realidade, a qual tem a sua força. Primeiro, ninguém conhece de Moedas qualquer contributo para o renovo intelectual, ideológico ou que fosse meramente moral da direita portuguesa. A sua imagem é muito mais a de um tecnocrata, a de um animal de gabinete e corredores alcatifados, do que a de um comandante de cidadãos, pessoas e eleitores. Depois, o seu período de fama nasceu à pala dos idos de Março de 2011, ele foi uma figura importante de um Governo sustentado numa campanha eleitoral absolutamente mentirosa. E Governo que só existiu porque a direita preferiu afundar Portugal numa crise que teria sido evitada na sua gravidade colossal caso o PSD de Passos Coelho tivesse colocado o patriotismo acima da ganância cínica e cega. Finalmente, do outro lado está Medina, um nome que se fortaleceu politicamente a cada ano de gestão autárquica por estar associado à transformação da cidade numa das capitais mundiais do turismo de qualidade. Tal crescimento trouxe problemas e muito dinheiro para muita gente, incluindo para as juntas de freguesia. O balanço ainda não parece desfavorável a um igualmente candidato a secretário-geral do Partido Socialista, chegue essa ocasião quando chegar. Medina, já teve tempo para o deixar impresso na sua marca, é um político que mostra ter uma dimensão ética capaz de resistir à pulsão da chicana e do tribalismo – precisamente o tipo de líder que ajuda as comunidades a prosperar.

Para irmos ao âmago do seu valor como putativo presidente de Lisboa ou do PSD, basta que algum jornalista peça ao Carlos para nos explicar em 2021 o que disse a 24 de Março de 2011 como “dirigente do gabinete de estudos” do PSD – “Com as reformas que o PSD vai implementar, eu digo-lhe que ainda vão subir o ‘rating’, não sei se nos próximos 6 meses, se nos próximos 12 meses” – em ordem a que a honestidade intelectual de que faça alarde fique exposta nas suas vergonhas. Nem 30 Moedas chegariam para apagar o passado de um partido que traiu o seu mais valioso compromisso com a República: defender os mais pobres, contribuir para o bem comum, sacrificar os interesses sectários para salvar a saúde, a dignidade e a liberdade do maior número de nós. Et por cause

E o Sócrates, pá?

Sousa de Pinto, nascido na Cedofeita em 1955 e registado como um recém-nascido na freguesia de São João da Pesqueira, é um militante do Partido Socialista que foi, há cinco décadas, infiltrado secretamente em França com identidade falsa para conseguir praticar a corrupção ao mais alto nível do Estado. Estamos a falar de Sarkozy, claro, que acaba de ser condenado a três anos de prisão (mas em que dois ficam suspensos, o outro será em casa com pulseira electrónica, e o processo ainda não transitou em julgado pelo que continua inocente e a poder recorrer).

Esta notícia deixou a pulharia excitadíssima, como é natural e se recomenda, pois dá para falar no Sócrates. Atão, e o Sócrates, quando é que volta para Évora donde nunca devia ter saído? Interrogação que se irá fazer ao longo deste e dos próximos dias. É que já cansa de tanto esperar pelo desfecho da instrução, todos concordamos. Um atraso inexplicável quando a Cofina provou centenas ou milhares de vezes que estamos perante o Alves dos Reis das decorações de apartamentos parisienses – o facínora atreveu-se a escolher os azulejos para uma certa casa após indecisão do seu amigo e registado proprietário da mesma, e isso é um crime hediondo que não pode ficar sem o mais exemplar castigo.

Porém, convém recordar à pulharia que nós fomos muito mais avant-gardianos dos que os franciús pois tratámos logo de meter na pildra o nosso apaixonante corrupto sem esperar pela chatice do Estado de direito e suas manhas para safar a bandidagem, como Ana Gomes e João Miguel Tavares estão sempre a tentar explicar aos brutos na sua missão pedagógica em prol do regresso da justiça popular. Algo que, pelos vistos, nem sequer irá acontecer ao socialista Sarkozy ainda que se confirme definitivamente a actual condenação. Como disse uma das mais adoradas coqueluches da Grei, Ricardo Araújo Pereira, aqueles 10 meses na choça já ninguém os tira do lombo do Sócrates (mesmo, ou sobretudo, se acabar ilibado do crime de corrupção, gritava e gargalhava o subtexto do genial piadista).

Se o sorteio que deu a Ivo Rosa a instrução criminal da Operação Marquês não tivesse sido falsificado, como a gente séria e os portugueses de bem o sabem de ginjeira, o resultado seria inevitavelmente outro e Carlos Alexandre teria despachado a coisa em metade ou menos dos 10 dias previstos na lei para se anunciar a decisão após o final do debate instrutório. Era só o tempo que levaria a carimbar todas as páginas do processo com a frase “Meta-se este cabrão no calaboiço e atire-se fora a chave.”

Revolution through evolution

Men obstructed from entering female-dominated occupations
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Buffalo State College Communications Professor Talks Teaching, Engaging with Students
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Estado da direita: nevoeiro e borrasca

Passos Coelho regressa a 25 de março

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Passos em voltas. Ex-primeiro-ministro não quer rumores sobre regresso político e cancela participação num fórum

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Parece que o político mais preparado, o líder mais forte, a mais convincente e inspiradora promessa para voltar ao poleiro que a direita portuguesa consegue encontrar dá pelo nome de Pedro Manuel Mamede Passos Coelho, um jovem de 56 anos que actualmente dá aulas de não sei quê não sei onde, e que é o nosso melhor especialista no milagre da multiplicação de técnicos de aeroporto para o que seriam dezenas ou centenas de aeroportos na Região Centro, um craque sem rival neste planeta (e não só neste, há seres noutros mundos que conhecem a história e que já confirmaram não terem nos seus sistemas solares quem lhe faça sombra na matéria). A seu favor tem o registo de ter criado, formado e lançado um político extraordinário chamado André Ventura, também um valiosíssimo talento da direita portuguesa e fulano muito amigo de mandar portugueses emigrarem (sinal inequívoco de ter aprendido com zelo as lições do mestre).

Acontece que não está fácil. O nevoeiro é instável e volúvel. Pelo que este fascinante político – de tão boa memória pelo seu patriotismo e pela melhoria de vida que a classe média e os pobres lhe devem – está na fase de ter de dizer às crianças que lhe acendem velas e beijam os pés: “Acham que me apetece voltar a aturar os estróinas e os madraços que andam a comprar televisores, fazer férias com a família e a jantar fora acima das suas possibilidades? Pensam que tenho algum gosto em lidar com esses piegas a chafurdar na sua zona de conforto? Isso é um disparate.

Novos partidos, velhas carcaças

Rosália Amorim e Pedro Pinheiro - A haver uma crise política, será provocada pelo PS? Percebi bem?
João Cotrim de Figueiredo - Nunca poderá ser provocada porque o PM é hábil e sabe que quem provoca crises políticas é penalizado, mas pode criar as condições para que essa crise aconteça e seja necessário antecipar eleições. É muito tentador para o PS, tal como nós o conhecemos e como se tem desenvolvido na sociedade portuguesa, presidir um governo numa altura em que haverá muitos fundos para distribuir e uma recuperação económica para gerir.


PS pode provocar crise política. É tentador liderar um governo com fundos e a recuperação para gerir

Pedro Nuno Santos também será apreciador do “Polvo à Ana Gomes?”

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A cidadã que concorreu para ocupar a chefia do Estado, ser a mais alta magistrada da Nação e garantir o regular funcionamento das instituições, a pessoa disposta a ir jurar pela sua honra tudo fazer para que a Constituição da República Portuguesa se cumpra, é o mesmo organismo pensante que – menos de um mês depois – espalha no espaço público a ideia de existir uma espantosa e mirabolante conspiração que envolve o actual Presidente da República, o Governo, a Assembleia da República e todos os magistrados, unidos num pacto secreto para que um grupo de altos criminosos (sem qualquer condenação, alguns sem qualquer acusação ou sequer mero estatuto de arguidos) consiga fugir à Lei através da figura da “prescrição”. Ana Gomes descobriu esta “realidade” não se sabe como, talvez em sonhos ou nas vísceras de um pássaro, e isso chega-lhe (pun intended) para despachar exuberantes e sistemáticas denúncias. É que Ana Gomes não mente, senhora seríssima e incorruptível como ela é, pelo que podemos ter a certeza absoluta de que nos está a contar a “verdade”. Ela olha para o regime, contempla a sociedade e, à excepção de Rui Pinto, só consegue identificar bandidos, ladrões e gatunos.

Como sempre com os caluniadores profissionais, o caso subjectivo é o que menos interessa, até merece respeito antropológico. Se é por serem videirinhos ou maluquinhos que vão por essa via deturpadora e ignóbil é irrelevante para o que mais importa: responsabilizar e criticar quem lhes paga e/ou quem os utiliza. Ver o Correio da Manhã ou o Observador pagar a caluniadores profissionais não justifica o gasto de uma caloria com o assunto, está de acordo com a lógica e a expectativa. Mas se for o Público ou o Expresso, ainda mais grave se for a RTP pela sua missão pública e dinheiros estatais, então devemos expressar uma saudável reacção de indignação pela intolerável antinomia com o que essas entidades alegam representar estatutariamente, o infelizmente risível conceito de “imprensa de referência”, e a prática sectária, sensacionalista, caluniadora e irracionalizante a que se dedicam como negócio, como agenda política, ou com ambos os propósitos.

O que nos leva para Pedro Nuno Santos. Este valente, entretanto caído na armadilha de acreditar na sua própria marca de líder viking para um futuro PS “de esquerda”, não quis perder a oportunidade de aproveitar o desastre que foi a candidatura presidencial de Ana Gomes: Das presidenciais de ontem às lições para o futuro. O “Dirigente do PS. Ministro das Infra-estruturas e da Habitação” utiliza o resultado das presidenciais como caixote de madeira para se elevar e voltar a aparecer fantasiado de candidato a secretário-geral do PS assim que Costa deixar o lugar. A sua finalidade é meritoriamente neutra; ou seja, é lá com ele e com os militantes e simpatizantes do partido. O berbicacho está nos meios de que se serve, os quais passam por esta absurda e nefanda declaração:

Deixámos a tarefa de defesa dos valores do socialismo democrático a Ana Gomes, uma distinta militante do PS que, sem o apoio da nossa organização, corajosamente defendeu quase sozinha a matriz do nosso ideário.

Ora, custa a perceber por onde começar a comentar a puta da frase. Sim, Ana Gomes é uma “distinta militante do PS”, para nosso azar, pois é alguém que, assim que viu haver mercado para tal, geriu a sua carreira partidária fazendo do “combate à corrupção” uma bandeira publicitária que nunca, mas nunca de nunca, gerou qualquer resultado positivo que dê para exibir. Já insinuações, difamações e calúnias há alguidares e paletes delas com a sua assinatura. O que também nunca de nunca alguém ouviu de Ana Gomes foi a defesa “dos valores do socialismo democrático” para além de uma cartilha básica circunscrita ao marketing de ocasião. Isto porque a figura não tem nem tempo, nem energia, nem vocação para se dedicar a esse labor quando é tão mais fácil aparecer na pantalha a urrar irada contra os “corruptos”. Tal currículo faz dos “valores do socialismo democrático” um universo paralelo sem ponto de contacto com o seu. No seu, não há presunção de inocência, processo justo, direitos dos cidadãos, dos arguidos, dos acusados e, pelo balanço da retórica acima pespegada, ainda menos dos condenados. É um universo onde a sua paranóide ou sórdida imaginação espezinha e cospe na Constituição e nos valores nela inscritos em ordem a que se concretize em leis o antídoto contra todas as ditaduras presentes e futuras, a vera matriz de um regime liberal – aquele onde é preferível deixar escapar um criminoso a condenar um inocente. Esta assimetria é uma escolha civilizacional contra os tribalismos e os linchamentos. Contra os tiranos. Contra os pulhas.

Um muito provável futuro primeiro-ministro às costas do PS teve o topete de louvar uma personalidade tóxica e irresponsável como Ana Gomes à custa do “ideário” que reclama para o seu partido. Trata-se de uma aberração ideológica e axiológica, a qual se entende melhor donde vem quando se constata que no seu texto não aparece em parágrafo nenhum a expressão “Estado de direito democrático”. E é esse esquecimento, ou talvez intencional apagamento, que lhe permite mentir a respeito do papel histórico do PS no sistema partidário. A forma como Pedro Nuno Santos descreve o centro político, reduzindo-o à pulsão do poder pelo poder, é mais do que ignorante, é perversa. Pura e simplesmente, não é possível conceptualizar um espectro político definido pelos extremos “esquerda” e “direita” sem, por inerência geométrica, igualmente estabelecer um centro. Ser esse centro foi a opção de Mário Soares, a qual marcou o destino do PS e da democracia portuguesa. Com isto não se impede seja quem for de se definir com sendo de esquerda ou direita, inclusive dos seus extremos. O que está em causa é outra coisa, coisa fundamental para qualquer comunidade: a governação ser, pela própria exigência constitucional que a molda, um exercício que se constitui – ou então se destitui, aqui sem meio termo – como centro político gerador de polaridades e extremos.

O ideário principal do PS, ainda antes ou acima de ser definido pelo posicionamento de esquerda (seja lá o que isso queira dizer a cada liderança, a cada conjuntura), é o de ser um partido da governação; que o mesmo é dizer “ser um bastião do regime na defesa da Constituição e do bem comum.” O ideário do PS, portanto e por tanto, não é, não foi, e não poderá ser representado por quem vai para um debate presidencial sugerir, en passant, que o seu adversário, por acaso também Presidente da República, defende ladrões ou, quiçá, andou mesmo a roubar. Se o Pedro Nuno Santos se revelar apreciador desse tipo de polvo à Ana Gomes, um prato que igualmente o trata como cúmplice do “#branqueamento”, a congestão das suas ambições políticas é certa.

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Bute dar dinheiro à Netflix

Chef’s Table é uma série documental que, alegando estar interessada em comida, serve-nos horas e horas deliciosas a respeito de dois pratos principais: a importância da sorte e da criatividade, e de como ambas são deusas caprichosas e indomáveis.

Cada episódio preocupa-se em contar bem uma história simples, emocional e convencionalmente bonita. Tão convencional que usa sem qualquer vergonha, mas também sem qualquer mau gosto, clichés expositivos e melodramáticos como embrulho ou laçarote. A produção prima por ser esteticamente irrepreensível, em muitos momentos sedutora e até encantadora, sempre ao serviço da narrativa.

O sucesso do conceito e da execução oferece neste momento 38 felizes descobertas, incluindo neste grupo 6 temporadas do formato original, 4 episódios do Chef’s Table: France e 4 episódios do Chef’s Table: BBQ.

Deixo o meu pódio, seguindo o critério do entusiasmo pelos protagonistas:

*** Alain Passard – Chef’s Table: France
** Nancy Silverton – Chef’s Table 3º temporada
* Ivan Orkin – Chef’s Table 3º temporada

Ao ritmo de um episódio por dia, receita para mais de um mês de prazer, este produto televisivo alimenta o espírito a cada toma e deixa-nos doidinhos para ir logo a seguir alimentar o corpo.

Ivermectina e COVID – A caminho da evidência?

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Nota

– Há muitas e muito boas razões para não ver a ivermectina como uma panaceia milagrosa para a prevenção e tratamento da COVID-19. Essas razões poderão estar a explicar o estatuto semiclandestino deste vídeo, o qual existe e não existe oficialmente. Algumas declarações mais inflamadas também poderão ter levado os seus autores a pedirem para que se tirasse destaque à peça, não faço ideia.

– Todavia, a conversa que se registou é de cientistas, reunindo áreas da investigação, prática clínica e farmácia. E estes cientistas, por razões também científicas e por princípios morais e éticos, mesmo civilizacionais, apelam a que se valorizem as evidências já estabelecidas quanto à segurança do medicamento e os resultados entretanto recolhidos com doentes COVID em Portugal (e não só).

– A seu favor, pense-se na altíssima ineficácia dos medicamentos e tratamentos oncológicos quando os doentes estão em fase terminal (por vezes, com 95% ou até 99% de ineficácia) e de como, apesar do devastador custo em sofrimento para os pacientes e suas famílias, e dos gastos financeiros para particulares e/ou Estado, se avança para a sua aplicação como imperativo cego. No caso, a acção da ivermectina em quadro de infecção viral está estabelecida, embora não haja estudos suficientes como tratamento da COVID-19 para que as autoridades de saúde possam usá-lo no Serviço Nacional de Saúde.

– Em suma, é inquestionável o mérito, e urgência, do debate.

Ângela Silva explica

«Marcelo Rebelo de Sousa não vai ceder à pressão dos que lhe pedem um Governo de salvação nacional. Reeleito há apenas 15 dias, o Presidente da República tem ouvido ex-governantes e comentadores a defenderem que o atual Executivo já não serve para gerir a crise e que deve ser o Presidente a impor outra solução governativa. Mas Marcelo, além de avesso a Governos de iniciativa presidencial, entende que compete a António Costa gerir a pandemia e não vai deixar que haja crises políticas que interrompam este ciclo sem que se perspetivem alternativas de poder.

A sua convicção é que só depois das autárquicas de outubro se entrará num novo tempo político, com eventual clarificação das lideranças à direita, nomeadamente no PSD, onde a dúvida é quem levará o partido às legislativas, se será Rui Rio ou um regressado Pedro Passos Coelho. Também por isso, o Presidente quer dar tempo para perceber melhor com que solução diferente do Executivo socialista poderá o país contar.

Sem abrir totalmente o jogo, Marcelo disse o essencial na primeira entrevista que deu após reeleito, a Ricardo Araújo Pereira, na SIC, onde em registo humorístico passou a mensagem para dentro e para fora do Governo. “A minha ideia não é que o Governo caia, é que o Governo responda à crise, que enfrente a pandemia”, afirmou. E deixando claro que a sua relação com o primeiro-ministro “é uma relação institucional que pode ter momentos afetivos, mas não uma relação afetiva que pode ter momentos institucionais”, o Presidente explicou o essencial do seu plano de médio prazo: maior exigência e vigilância com o Governo.»

Ângela Silva

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Invejo a jornalista Ângela Silva. Para além de nunca lhe ter faltado trabalho, como o currículo exibe e se saúda, estabilizou numa função que adivinho descansada e juvenil: ser pé de microfone dos Presidentes da República que sejam de direita. Este destino profissional, por si mesmo, é interessante pois a cada leva direitola na Presidência ela fica com a certeza de ter mais 10 anos de ocupação laboral garantida. Mas o que eleva o interesse para algo já tangente ao fascínio é o talento para reduzir a política nacional a um teatro infantil onde o Presidente da República acumula com ser Presidente dos Conselhos aos Ministros. E daí vermos, quando os ingratos badamecos não aceitam as sábias sugestões belenenses, a nossa jornalista a rapidamente despachar no Expresso o devido responso à criançada, onde ela mostra quem é que realmente manda na choldra. Recomendo vivamente qualquer passagem da sua autoria onde entrem os nomes “Marcelo” e “Costa”, pois as sessões de tautau do primeiro ao segundo são neste especialíssimo tipo de “jornalismo” espectáculo inevitável e mui pedagógico.

No exemplo acima, temos direito a levar com a assombrosa revelação de que Marcelo Rebelo de Sousa é “avesso a Governos de iniciativa presidencial“; ou seja, que não simpatiza, não curte da ideia. Por incalculável sorte nossa, temos de acrescentar, pois calhando o homem achar graça à coisa já a teria há muito posto em acção e repetido as vezes que lhe desse na gana. Para quê estar à espera dos resultados das eleições legislativas, e depois de eventuais e complicadas negociações entre partidos, só para acabar a ter de reunir semanalmente com um primeiro-ministro socialista que está convencido de ter o direito constitucional de formar Governo e governar com plena legitimidade parlamentar e autonomia executiva? Quer-se dizer, para além da perda de tempo e do gasto financeiro, é um absurdo funcional quando comparado com a alternativa que gente iluminada como Villaverde Cabral, Sousa Tavares e Santana Lopes propõem: deixar um só indivíduo tratar do problema e escolher a sua gente, a verdadeira gente séria que sabe muito bem do que os portugueses precisam.

E há mais, estamos perante “jornalismo” que humilha a concorrência pela sua generosidade para connosco, burros do caralho. A Dona Ângela serve a papinha morna e pronta a papar: Marcelo prefere que Costa se esbardalhe todo na pandemia e que, no entretanto, Rui Rio perceba que está na altura de fazer as malas e deixar a sede da Lapa limpa e arejada para receber de novo Pedro Sebastião Coelho, altura em que sim, com Costa esturricado e o PSD pronto para o assalto, o Presidente da República carregará num botão e teremos finalmente um Governo de iniciativa presidencial, prontos. Como é que sabemos ser exactamente assim o autêntico pensamento de Marcelo? A incansável jornalista explica com paciência de santa, lembrando que o Presidente da República escolheu um programa de humor para transmitir o “essencial” acerca do futuro político do País: “em registo humorístico passou a mensagem para dentro e para fora do Governo“. É para este serviço à Grei que Ricardo Araújo Pereira também serve, quando não nos deixa a rebentar de rir com as suas declarações de voto no PCP – isto, dar palco a um Presidente da República que, coitado, sem o baixo patrocínio de um cómico corre agora o risco de ninguém o levar a sério.