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Pedro Mexia, homem da cultura mas não do cultivo

«Há uns meses, consultando o arquivo Eduardo Lourenço para organizar uma antologia temática que sairá em breve, fiquei impressionado com “a vida do espírito” que aqueles papéis documentam. Uma divisão inteira da Biblioteca Nacional com centenas de pastas de correspondência, fotografias, fotocópias, recortes de imprensa, manuscritos e dactiloscritos, ínfimas agendas totalmente preenchidas de anotações, lembretes, aforismos, esboços, diários, pequenos ensaios. Um espólio atento, interrogativo, inquieto, a gaveta igual à obra, a obra igual ao homem.

O Prof. Eduardo Lourenço ensinou-nos o que ficou nos livros, o que fica dos livros. Mas com o seu exemplo aprendemos que é possível que a inteligência não degrade as virtudes antigas, como aquela comum decência que, segundo Camus, vem antes de qualquer ideia abstracta, por mais que essas ideias nos confortem e nos transformem.»


Pedro Mexia

🎓

Transmite imediata simpatia, ou então ausência de antipatia. Os seus modos contidos, sóbrios, estão em perfeita harmonia com o berço aristocrático e o estatuto de intelectual. E como intelectual tímido, armado em dandy que não aceita armar-se em dandy, move-se nos corredores alcatifados da elite ocupando diversos cargos de alto prestígio; de que o menor não é ser o actual consultor para a cultura da Casa Civil do Presidência da República. Trata-se, pois, de um rapaz que não deixará ninguém ficar mal se o levarmos a uma reunião de família ou aparecermos ao seu lado num foyer, numa vernissage ou numa sessão da Cinemateca.

Embora também tenha molhado os pés na política partidária em regime salta-pocinhas (por exemplo, ajudou em 2019 a Dra. Assunção Cristas a terminar mais cedo a sua carreira política), ninguém saberia quem era o fulano para além dos maluquinhos que lêem, vêem e ouvem as secções de cultura na comunicação social não fora a sua presença no elenco do “Governo Sombra”. Foi lá parar depois de recusar continuar no “Eixo do Mal”, para onde tinha ido a pensar que a função consistia só em mostrar erudição avulsa e em doses homeopáticas. Assim que percebeu que se esperava dele trabalho político e energias bélicas para fazer frente à esquerdalha, saltou logo fora. Já o “Governo Sombra” tinha o irresistível apelo de não ter essa exigência, antes prometendo ser uma infantilóide sátira aos programas de comentário político para públicos que queriam rir com o famoso Ricardo fedorento. “É mesmo aqui que eu quero estar, é disto que a minha carreira precisa, risota e vedetismo para polvilhar por cima do árduo e solitário caminho de subir aos cumes da “vida do espírito” e daí contemplar os abismos da existência”, pensou o ensaísta e poeta Mexia quando lhe disseram que havia bom dinheiro para lhe pagar e tudo.

Feita a introdução, vamos às interrogações. Como é que uma inteligência brilhante, a sua, que consegue relacionar as “virtudes antigas” (sejam elas quais forem, que há para todos os gostos) com a “comum decência” em Camus (seja lá o que isso for, desconfiando que nunca o apanharemos a explanar), aceita passar por hipócrita no acto mesmo de homenagear quem alega ser seu mestre exemplar? É que este melro não é apenas um leitor de livros difíceis (difíceis para o vulgo ignaro, claro) escritos por antiquíssimos gregos e romanos, ele também se licenciou em Direito. E se há algo que podemos legitimamente acalentar a respeito dessa gente que passa anos a estudar as leis é que, no final do processo, o diploma signifique que conseguiram adquirir algumas luzes, por mais fracas e à beira de se apagar em que se encontrem, acerca do que seja um Estado de direito democrático. Será pedir muito?

Ora, o que Mexia faz no “Governo Sombra” é algo que jamais Eduardo Lourenço aceitaria fazer, podemos começar por concordar. Isto porque não há memória de alguma vez se ter visto Eduardo Lourenço a ter em público um qualquer comportamento, dito ou gesto que se possa associar ao conceito de indecência na sua elástica semântica. Acontece que não estamos perante um caso único, uma ave rara, pois seria possível reunir milhares, até milhões, de outros portugueses, cidadãos, seres humanos, que igualmente passaram os seus dias comportando-se decentemente e esperando que os outros lhes correspondessem com uma comum decência que não precisa da caução de Camus nem de uma genealogia da moral.

Sim, pá, despachar eulogias faz-se na boa mas tu sabes, e melhor do que nós, que o espantado e trágico Eduardo Lourenço jamais teria dito isto que se segue, nem que lhe prometessem fortunas, tronos e impérios:

«Acho que, a partir do momento em que elas estão no espaço público [as escutas a Sócrates], parece estranho fingir que elas não estão. Houve uma pessoa qualquer que se levantou num programa de televisão para não comentar escutas. Isso não faz sentido, pois apesar de tudo estão no espaço público, acho um preciosismo. Tudo isto é divertido, tudo isto nos ajuda a formar uma convicção; que neste caso percebe-se qual é... Qualquer pessoa que a ouça, não é? Quando ouves aquilo, quase só mesmo o círculo mais próximo dele é que não fica com aquela convicção.»

Sabes, não sabes? Ou estarás a precisar de reler o Camus, desta vez com um explicador ao lado?

Variações em mete dó maior

Começa a semana com isto

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James Fadiman é, sem margem para dúvidas, o maior bacano presentemente de visita a este planeta. Já aqui o trouxe e volto à carga porque esta conversa com um ilustre anónimo nos dá a ver a sua capacidade de atenção e o cuidado com que alimenta a auto-estima de um aprendiz em terapias psicadélicas.

A sua humildade, generosidade, inteligência, experiência, sapiência, humor, abertura à alteridade, são uma trip para as melhores partes do que somos.

A oração, que acontece logo ao princípio, é imperdível e revela o essencial da sua pessoa.

Revolution through evolution

Women and Minorities Value, Perceive, and Experience Professionalism Differently than Their Peers
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Cocoa flavanols boost brain oxygenation, cognition in healthy adults
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Why experiences are better gifts for older children
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The healing power of rituals: The psychological benefit of putting up holiday décor early
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Memories of past events retain remarkable fidelity even as we age
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A growth mindset of interest can spark innovative thinking
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Dogmatic people seek less information even when uncertain
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Do contágio

Ninguém estava preocupado com o Congresso do PCP por questões relativas à pandemia. O verdadeiro problema, como as palavras de Jerónimo de Sousa consagraram no discurso de encerramento, é outro: o PCP deixou de ser sectário. Isto é um problema para a direita, por estabelecer um polo para uma governação à esquerda com o PS que deixou de ser apenas reactivo, como em 2015, e que passa a ser estratégico, no que pode ser visto como autenticamente revolucionário para a identidade da Soeiro Pereira Gomes; e é um problema para a esquerda, porque deixa o BE isolado no seu calculismo megalómano que não augura noites eleitorais sorridentes, a avaliar pela reacção que a recusa em chegar a acordo com o PS para o OE do próximo ano gerou entre os seus apoiantes (a maior parte do eleitorado do BE veio do PS, não do PCP – e um ex-comunista dá com muito maior facilidade o seu voto ao PS do que ao BE, e isso nunca irá mudar).

À série


Baron noir_Eric Benzekri-Jean-Baptiste Delafon (1ª e 2ª temporadas)_2016-18-20

Já passou na RTP e encontra-se na HBO. Está cheia de méritos. E, sendo o que parece, não parece o que é.

Começando pelos defeitos, há demasiada vaidade dos autores. Eles caem no exibicionismo de quererem obsessivamente mostrarem-se mestres da táctica política, levando a que haja diálogos excessivos na exposição narrativa e na extensão temporal das cenas, por um lado, e ainda diálogos que empapam algumas personagens numa mistela onde elas perdem distinção por se fazerem iguais câmaras de eco da voz dos argumentistas, por outro. O resultado pode ser frequentemente um estado de confusão para o espectador médio, por não conseguirmos assimilar tanta informação de rajada.

E saltando logo para as virtudes, dizer que estamos perante mais um curso de política através de uma excelente obra de ficção televisiva, o qual complementa na perfeição o que já terá sido aprendido com outras séries, de The West Wing ao Borgen, passando pelo House of Cards. O conceito simula ser sobre o lado obscuro, secreto, maquiavélico e até ilegal da práxis política onde quer que ocorra – daí o título, o qual em mercados de língua inglesa passou a Republican Gangsters. Só que essa sugestão não segue os caminhos patológicos e criminosos do casal Underwood, seres demoníacos, antes nos dá a ver a realista “realidade da política”.

A inventada realidade do Baron Noir é o que há de mais parecido com a realidade que preenche o fluxo noticioso real, para nossa surpresa e sentimento de descoberta, de reconhecimento. Tirando a mudança de alguns nomes, as linhas narrativas são exactos análogos de acontecimentos, personalidades, entidades e situações relativas à actualidade política francesa. A Europa também fica muito bem no retrato, aparecendo como cenário de fundo que, pela raridade do seu tratamento ficcionado, ganha um precioso valor pedagógico para ajudar públicos incultos a iniciarem-se na literacia política europeia acerca das suas instituições e dos seus agentes. Este olhar transnacional, unificado pela existência política de uma Europa enquanto projecto comum (também motivo de ódio de outros), faz-nos muita falta em ordem a finalmente assumirmos, para o bem e para o mal, sermos cidadãos europeus com um especial poder cívico e político daí decorrente. Como ilustração anedótica desta dimensão da série, assinale-se que até o nosso Bloco de Esquerda tem direito a uma piadola enrolada com o Podemos. Donde, a colagem às histórias da História é que fica como a verdadeira chave interpretativa para o onírico mundo onde os autores são deuses e as personagens seres trágicos, condenadas a elipses e epílogos para cumprimento de contratos e calendários.

O que nos é dado ver, com uma qualidade de produção e realização que nos garante logo de entrada confiança e conforto diegéticos, diz respeito à fatal ambiguidade do exercício do poder político, ambiguidade tão mais lancinante e dilacerante quão mais elevados forem os ideais fonte da identidade. Assim, a personagem Philippe Rickwaert leva-nos para um espaço de intimidade onde convivemos com um genuíno socialista a ter de transgredir face à lei para manter vivo o sonho de poder cumprir a sua missão: unir a esquerda contra a extrema-direita, primeiro, e ter a esquerda a governar à esquerda, por fim. O arco narrativo, que parece ter ficado pendurado num final de terceira temporada que não esgotou o potencial da personagem, conduz Rickwaert para o confronto com o populismo do tempo, saindo vencedor e herói da racionalidade construtiva contra a impulsividade destruidora. Ligando as extremidades, aquele que ao começo parecia ser apenas um manipulador sem escrúpulos e um monstro egóico acaba como arquitecto, engenheiro e mestre-de-obras da arte de sermos cidade.

Há muitos paralelos com a política portuguesa, do presente e do passado. Do passado no presente. E ainda do presente ameaçado pelo futuro. Quem for de esquerda, especialmente os de cepa romântica, vai desfrutar com mais intensidade e largueza, quiçá com notas de nostalgia, das mãos sujas de liberdade do inesquecível Philippe Rickwaert – vindo à luz no corpo e instinto do magnífico Kad Merad.

Como é que chegámos aqui? Ficando e calando

Como é que chegámos aqui? Aqui onde a direita partidária se foi prostrar aos pés de um partido com um solitário deputado, deputado esse que defende em público a violação de direitos humanos e o aprisionamento de democratas. Aqui onde um caluniador profissional sem leituras nem pensamento é tratado como a intelligentsia da actual direita, o ponta-de-lança da normalização mediática do tal deputado abjecto e seu partido aberrante.

André Ventura e João Miguel Tavares partilham a mesma visão sobre o regime: está podre, corroído pela corrupção. Ambos repetem que toda a classe política, da Assembleia da República à Presidência da República, passando igualmente pelos Governos sucessivos, é cúmplice na criação e aprovação de leis cuja finalidade suprema não é o interesse nacional, tão-somente a impunidade para se continuar a roubar sem ser possível aos raros polícias, procuradores e juízes que resistem imaculados apanharem a bandidagem e dar-lhe a sova que merece. Ambos são igualmente sósias na esperança messiânica de que Passos regresse para resgatar a Grei das mãos dos socialistas diabólicos e inaugurar um novo regime que irá durar mil anos sem casos de corrupção, pois finalmente a Justiça vai obrigar os criminosos socialistas a provarem a sua inocência caso pretendam sair dos calabouços (pista: não vai ser nada fácil dado que o mal está-lhes entranhado na pele e consegue ver-se nos olhos a brilharem de maldade quando os corruptos ficam às escuras).

Inacreditavelmente, o presidente da comissão das comemorações do 10 de Junho de 2019, vedeta incensada pelo director de um “jornal de referência” que o cita sem parar, nunca é interrogado sobre as fontes do seu conhecimento acerca dos males que nos afligem. Rui Tavares, em A imaculada conceção do fascismo inconcebível, ensaia ao de leve esse exercício, mesmo assim já marcando uma radical diferença face à classe jornalística e comentarista circundante. Nem Tavares nem Ventura precisam de qualquer dado, número, facto para despacharem caudalosas lengalengas sobre o Apocalipse que precede a entrada no Paraíso (se o tal Passos coiso e tal, bem entendido). Basta-lhes a indústria da calúnia dominada pela direita e sua imparável produção sensacionalista, método que deu a ambos o prémio de terem visto um primeiro-ministro, um Presidente da República e um líder da oposição a irem ter com eles com o rabo a abanar.

Considerar João Miguel Tavares um liberal, ele que faz claque pelos que cometem crimes na Justiça e que treme de êxtase com a ideia de se reduzirem os direitos individuais face ao Estado (mas só para se apanhar e castigar os seus alvos, depois pode-se voltar logo ao Estado de direito democrático, claro), é não apenas estúpido perante o que vende em público, é lunático. Considerar André Ventura de direita, ele que poderia ocupar qualquer quadrante ideológico do populismo exactamente com os mesmos objectivos imorais, inumanos e subversivos, é não apenas lunático perante o seu oportunismo rapace, faz de nós estúpidos.

Nós não chegámos aqui. Este aqui tem estado connosco desde 2004. Chama-se decadência da direita e, por terem declarado guerra à decência com meios de condicionamento da opinião pública nunca antes usados em democracia, conseguiram arrastar a esquerda para uma forma de cumplicidade que explica o actual triunfo dos pulhas e suas pulhices. Se ficamos banzos com o festival de irracionalidade criminosa que Trump está a dar ao mundo, não ficarmos atónitos com a facilidade com que André Ventura e João Miguel Tavares nos tratam como borregos é em si mesmo um crime de lesa inteligência e contra o respeito próprio.

Foi vingança de Hugo Chavez

Chavez derrotou Trump, garantiu a equipa jurídica criada para tentar manter o pato Donald na Casa Branca apesar de ter perdido as eleições. Creio que devemos acreditar nessa teoria da transpiração nascida na cabeça de Rudy Giuliani (ou assim ficará na lenda). Ter morrido em 2013 não parece razão suficiente para que Chavez aceitasse continuar quieto a comer alface pela raiz enquanto Trump ficaria à solta mais 4 anos a reinventar a democracia e a espalhar felicidade pelo Planeta. Pelo que lá despachou da cova umas manigâncias bolivarianas das dele e conseguiu gamar os votos ao coitado do Trump que nada pôde fazer para impedir a roubalheira.

Loucura? Naaaa… Circo. Folclore. TV. Loucura é achar que a melhor forma de encontrar soluções imediatas para os problemas de todos – missão impossível – seja entregar o poder a quem nunca nada mostrou ter feito pelo bem comum. Loucura é deixar que aldrabões encartados só tenham de nos tratar como acéfalos para usarem em seu proveito a nossa liberdade.

Oratória, alquimia da comunidade

[...]
É, acima de tudo, natural que nove meses de pandemia pareçam uma eternidade para os Portugueses.
E se é verdade que estamos todos no mesmo barco e todos sofremos, há uns que sofrem na 1ª classe, outros na 2ª, outros na 3ª, outros nos porões. Tudo a lembrar que quem mais sofre mais deverá ser apoiado.
Quer isto dizer que vamos renunciar a resistir mais uns meses?
Quer isto dizer que vamos agora baixar os braços, ou porque a pandemia é imprevisível, ou porque vem o pior quando se esperava o menos mau, ou porque aqueles que com ela lidam, nos quais me conto na primeira linha, não correspondem ao que deles se espera e espera-se legitimamente muito?
Não. Não vamos renunciar, nem baixar os braços.
Vamos fazer o que sempre fizemos em quase nove séculos de História. Aguentar pestes, combater guerras, perder e recuperar independências. Não desistindo e tendo de refazer vidas, às vezes, a milhares de quilómetros de distância, partindo e chegando, sem nada, uma mão à frente, outra atrás.
Foi assim que, no passado, nós Portugueses, superámos as piores horas.
Mais unidos do que divididos. Esperando para além de todos os desesperos. Confiando para além de todas as descrenças. Fazendo o futuro a partir de um presente incerto, inseguro, para tantos quase impossível.
Mas nunca desistindo de o fazer!
Nunca desistimos de Portugal!

Mensagem do Presidente da República ao País sobre a renovação do segundo estado de emergência – Palácio de Belém, 20 de novembro de 2020

🇵🇹

Marcelo Rebelo de Sousa não ficou conhecido, nas décadas anteriores à sua entrada no Palácio de Belém, como líder político carismático nem como tribuno tremendo, inspirador ou inesquecível. A sua notoriedade, fama e marca vieram do cruzamento entre a sua influência como jurisconsulto da oligarquia e a sua influência como estrela mediática, esta em crescendo a reforçar e superar aquela. Um estrelato que começou pela chicana no jornalismo político, mesmo que fosse à moda de Cascais e com patine de um outro Marcello. Chicana que nunca abandonou, como pudemos assistir no discurso em que decapitou Constança Urbano de Sousa e na entrega do 10 de Junho a um caluniador profissional que alimenta o populismo.

Em 2017, jurou que o seu mandato ficaria inapelavelmente ligado aos incêndios desse ano e à forma como o Governo iria reagir aos mesmos nos anos seguintes. Foi uma solene jura de sangue, o dos mortos que reclamou como património político. Três anos depois, nas vésperas de entrarmos em campanha eleitoral para as presidenciais em Janeiro próximo, onde está sequer uma vaga memória desses acidentes trágicos de então nos cálculos e discursos para este contexto actual? Em lado algum, a pandemia veio mostrar como Marcelo foi não só precipitado, e não só imprudente, e não só ridículo, outrossim antipatriota ao ter explorado acontecimentos cuja causalidade era impossível de evitar e cujas consequências (especialmente, no número de mortos em Pedrógão) eram impossíveis de prever. Marcelo não só quis oferecer à direita o prémio de ferir e ameaçar o Governo com a dissolução da Assembleia da República como intencionalmente usou os fogos para se promover como Rex católico, fantasia a que não resiste por razões que Freud explicaria entre duas baforadas num charuto (atenção: alguns charutos são apenas isso, charutos).

Agora, com quatro mil mortos directos por causa de um vírus (ainda nem sequer entrámos no Inverno), as contas públicas e a economia a somar prejuízos crescentes, e uma potencial avalanche de disfunções sistémicas na saúde dos portugueses para os próximos anos, que pensará de si próprio e de nós? Como correlacionar os desastres passados aos presentes à luz da retórica e do oportunismo já gastos? Em Fevereiro deste ano, a dias de se registar o primeiro caso de infecção pelo coronavírus em território nacional, o nosso beijoqueiro-mor ainda se deixava abraçar pela multidão. Em Março, desapareceu do mapa e barricou-se em casa própria. Em Abril, garantia que esse era o mês crucial para sairmos do confinamento e regressarmos a uma qualquer normalidade. Em Setembro, revelou que esperava cem casos por dia ao chegarmos a esse mês. Ou seja, apesar de receber as melhores e mais exaustivas informações e de reunir amiúde com os variegados especialistas de topo, o homem é humano. E, como os restantes humanos em toda a parte do Mundo, anda a apanhar bonés e a ver passar o comboio interminável das vítimas da pandemia. O que imaginou como dez anos de “Show e Tour Marcelo”, antes de escrever as memórias e fazer as pazes com o Criador, está a revelar-se uma Via Crucis onde a sua passada vai ficando mais vacilante sob o peso da realidade.

Na passagem citada acima, com que terminou a sua comunicação a um país outra vez no mesmo ano à beira de um ataque de pânico, o que ouvimos é um solilóquio. Fica como confissão do seu diálogo consigo próprio, pedindo desculpas e procurando forças no passado mitologizado dos “nove séculos de História” onde, para nosso abandono e confusão, não há ninguém, afinal. Não há nomes, ditos e feitos, corpos, terra ou mar, sequer datas – isto é, não há histórias. Há tão-só abstracções despachadas a correr e com imaginário de pechisbeque, pensadas e escritas com uma mão à frente, outra atrás a fazer figas.

“Nunca desistimos de Portugal”, como clímax narrativo e depois de ter enfiado esse Portugal numa casca de noz à deriva no oceano tempestuoso, é uma convocação tecnicamente depressiva. Para além de nos aprisionar na contemplação impotente do que já passou sem ter deixado exemplo ou lição, nada nos dá de útil para o presente. Nem alimento, nem instrumento, nem mapa, nem senha. Marcelo não tinha sapiência nem ânimo para nos entregar através das suas palavras. Apenas nos trouxe medo e desespero envergonhados, os quais quis partilhar pois é isso que se faz na era das “redes sociais”.

Pelo que daqui lhe faço um apelo: mesmo que se saiba sem vocação para general, inclusive por essa mesmíssima razão, gaste uns trocos do orçamento da Presidência com alguém que tenha umas luzes de oratória. Nove séculos de História também nos deram alguns talentos nessa arte, consta, pelo que deve contratar para lhe escrever os discursos quem tenha as leituras e o verbo capaz de nos aquecer o coração, desembaciar a inteligência e soltar a coragem.

Revolution through evolution

Frequent, rapid testing could cripple COVID-19 within weeks, study shows
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Hyperbaric oxygen treatment: Clinical trial reverses two biological processes associated with aging in human cells
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Vitamin D supplements may reduce risk of developing advanced cancer
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Actively speaking two languages protects against cognitive decline
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Could Robots for Sex, Friendship Improve Our Aging Society?
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Making the Best Decision: Math Shows Diverse Thinkers Equal Better Results
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US election results: Why Trump increased support among non-whites
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O povo merece os melhores

Pacheco Pereira e a corrupção faxcista

Continuando a análise à entrevista que Miguel Sousa Tavares fez a Ventura, que a Penélope já iniciou com acutilância, vou-me focar apenas no papel do jornalismo pois do entrevistado não veio qualquer novidade face ao que já sabemos da sua retórica e da sua estratégia. É o jornalismo, ali representado por aquele jornalista, que surge como o mais importante problema político na forma como os Estados de direito democrático convivem com os populismos.

No caso, o jornalista escolhido para lidar com Ventura deixou-nos envergonhados, perplexos. O problema não foi só, nem especialmente, o de não se ter preparado. O problema é a certeza de que se tivesse estado 6 meses em estágio e em estudo obsessivo para a ocasião o resultado seria igual. Isto porque, num certo sentido fundamental, não é preciso preparação alguma especial ou geral para entrevistar o Ventura e outros populistas análogos. Basta que se queira mesmo fazer a entrevista – isto é, dar a ver o que está ali à nossa frente, o que está nas palavras ditas e caladas, o que está no mundo interior de quem se quer expor guloso e fátuo na miragem do poder fácil, imediato, pulsional.

O famoso Miguel não queria fazer uma entrevista, queria dizer coisas sem interesse nenhum, e mesmo essas lhe saíram em registo trôpego. Mas será ele o pior representante da sua classe profissional? De todo. É um desafio insano tentar identificar um jornalista que seja exemplar na recusa de ceder ao populismo mediático – calma, existem! Na maior parte dos casos, os jornalistas portugueses “de referência”, com lugar cativo na imprensa escrita e na TV, tornaram-se desde 2007 cúmplices activos, sistemáticos, entusiasmados de uma degradação dos laços comunitários entre os cidadãos e o Estado em nome de uma alegada missão de fiscalização do poder político e suas falhas no campo moral ou suspeitas de ilegalidade. Porque o combate político à direita a tal levou numa mistura de óbvio aproveitamento da vantagem posicional (as direitas dominam os órgãos de comunicação social privados e foram sempre tendo vedetas de altíssima influência na RTP) e porque o populismo de direita como zeitgeist emana directamente do tabloidismo e já vinha a ganhar balanço desde o princípio do milénio. Com a crise de 2008, o “vale tudo” do poder pelo poder foi assumido como arma política legítima por partidos até aí institucionais e onde se cultivava e respeitava sacramente o sentido de Estado. Em Portugal, é canja ir buscar mensagens populistas antipolíticos (logo, contra a democracia e o Estado de direito) às intervenções e opções de Cavaco, Ferreira Leite, Passos e Portas.

Porém, contudo e sempre, Sócrates. O pânico sentido pela direita com a maioria absoluta do PS em 2005, o carisma do animal que prometia superar a longevidade das maiorias de Cavaco, à mistura com o desespero e caos da perda do império bancário constituído pelo BPN, BCP e BPP nessa legislatura, levaram a que se utilizasse a Justiça para campanhas negras e golpadas sucessivas. O papel da comunicação social dominada pela direita, que viria a crescer com o aparecimento do i e do Observador, foi o de caucionar e explorar a judicialização da política e a politização da Justiça. Ainda hoje, por inexistência de projecto e ausência de liderança, a direita tem nesse aparato bélico e dissoluto a sua mais potente arma para desgastar e ferir o PS. André Ventura é uma criação desta decadência, tendo sido necessário um Passos Coelho irresponsável e indecente para que se libertasse no sistema político o vírus que acaba de infectar Rui Rio.

Sousa Tavares, filho de advogado e com experiência profissional como advogado, reagiu ao ataque de Ventura a Paulo Pedroso de uma forma que validou a calúnia lançada num estúdio da TVI à sua frente. Porquê? Por que caralho se deixa um caluniador profissional caluniar à sua vontade no que é suposto ser um espaço de jornalismo com jornalistas presentes? Num outro estúdio da TVI podemos entender melhor a lógica do fenómeno. Eis o que o Pacheco Pereira largou, nesta quarta-feira, dirigido a Ana Catarina Mendes, também ela uma vítima da indústria da calúnia e do ódio político:

«Essa usura da democracia alguém lha deu [a Ventura], alguém a criou. E nisso o PS e o PSD têm uma grande responsabilidade, porque não combateram devidamente a corrupção, permitiram que carreiras corruptas se passassem no seu seio quando toda a gente sabia que eram corruptas e as pessoas tinham a carreira toda a ponto de chegarem a primeiro-ministro. Porque isso é um ónus que o PS não se livra, o de ter um primeiro-ministro em tribunal acusado de corrupção. Disso não se livra. [...] E os grandes partidos abriram o caminho ao Chega, e abriram o caminho para estas coisas, ao permitirem pessoas corruptas, que toda a gente sabia que eram corruptas... Ó Ana Catarina, o Sócrates não nasceu ontem... Desde a história das marquises que aquela carreira era toda... A gente dava um pontapé num caso qualquer, no Freeport, em qualquer caso, e apareciam elementos suficientes para que um partido sério não promovesse, e para que um dirigente político sério e preocupado com a corrupção não promovesse. E a verdade é que não só promoveu como participou no Governo, como ajudou a chegar a ministro e depois a primeiro-ministro, e o mesmo acontece no passado e no presente. E isso é válido também para o PSD, porque eu no PSD conheci dirigentes partidários, alguns estão agora na cadeia, que chegavam às reuniões das secções seis meses antes, diziam cobras e lagartos, e ofereciam "ai, você precisa de um fax?", na altura ainda era fax, e "pegue lá" e entregavam um rolo de notas. Toda a gente sabia isso, e, no entanto, ganhavam eleições. E isto é o ónus. É muito fácil criticar o Chega mas isto é o ónus que deu gasolina ao Chega.»

Ora, vamos lá à continha. Estamos perante uma cassete mas isso em nada lhe retira importância, bem ao contrário. O Pacheco volta a repetir, pela enójima vez, que não precisa da Lei, das investigações pelas autoridades competentes, das provas validadas por magistrados, do processo justo, das defesas, da Constituição, para descobrir quem é corrupto dentro do grupo de cidadãos que chegaram ao topo da hierarquia do PS e do PSD. De caminho postula que não há campanhas negras, assassinatos de carácter, calúnias e golpadas por obra e graça da direita em Portugal. O seu método para farejar corruptos é outro, muito mais célere e barato, bifurcando-se entre o “toda a gente sabe” e o “eu estava lá”. Para o “toda a gente sabe” o alvo é invariavelmente Sócrates, jamais Cavaco, Dias Loureiro, Miguel Relvas, Isaltino Morais ou sequer Oliveira e Costa, entre tanta rapaziada disponível para engrossar a lista. Desta gente não há notícia pachequiana de toda a gente saber seja o que for, o que não invalida que alguns saibam umas coisas e outros saibam outras, mas sobre isso o Pacheco não adianta mais pormenores – logo ele que sabe tudo, azar o nosso. Quanto ao “eu estava lá”, período em que era um superior operacional do Cavaquistão e em que igualmente não há notícia de se ter visto o Pacheco a entrar na Procuradoria-Geral da República para acabar com a corrupção em que tropeçava diariamente, ficamos a saber que isto dos corruptos laranjas é mais é faxes. E que mal vem ao mundo por se oferecer tecnologias com esse grau de fiabilidade às secções do PSD? É uma problemática em que ficamos a matutar por uns segundos antes de voltarmos ao “toda a gente sabe” sobre o tal Sócrates, que é o que nos enche de gozo.

O ódio é uma paixão mais fervorosa do que o amor. O Pacheco irá levar para a cova a sua tara por se saber patético, como político, na comparação com Sócrates. Mas igualmente leva o consolo de lhe ter cuspido em cima milhares de vezes. Acontece que, como se pode ler nesta passagem citada, ele igualmente cospe em cima de Mário Soares, António Guterres, Almeida Santos, António Costa e, por estar ali à sua frente, em Ana Catarina Mendes. Todos eles, e todos os outros lá no PS, sabiam que Sócrates era corrupto e ajudaram-no. Logo, são todos corruptos, num qualquer grau e tipologia, declara num estúdio da TVI com um jornalista presente. Jornalista que não o interroga, não o chama à responsabilidade, antes valida as calúnias bolçadas em descontrolo emocional.

O Pacheco ganhou, e ganha, muito e bom dinheiro a mentir. João Miguel Tavares seguiu-lhe as pisadas, apurou-lhe a fórmula, e não ambiciona outra coisa. Ventura igualmente mente na esperança de ganhar o seu. Não há nada de estranho nisso. Estranho, ao ponto de ser vexante ou circense, é ver marmanjos com a carteira de jornalista a darem o nome e a cara para que caluniadores profissionais tenham sucesso.