Todos os artigos de guida

A direita boazinha

Foram várias as pessoas que, nos últimos dias, vi duvidarem das contas públicas que o novo Governo herdará. O primeiro que vi duvidar descaradamente da existência de um excedente orçamental foi Pinto Luz, actual vice-presidente do PSD. O último foi Braga de Macedo, ontem, no Tudo é Economia, esse brilhante ministro das Finanças de Cavaco, que tantas saudades nos deixou, a dizer que isso das contas certas… enfim, logo se verá.  Pelo meio, vários comentadores e jornalistas a deixarem no ar a mesma dúvida.

Estas pessoas não estão apenas a denegrir o Governo de António Costa, estão a pôr em causa várias instituições nacionais e estrangeiras que fiscalizam as contas públicas.

Depois questionamos por que razão um partido populista como o Chega teve o resultado que teve nestas eleições. Porque será? Culpa destas personalidades da direita boazinha é que não é!

Deixem o Montenegro em paz, coitado

É mais do que previsível que o tema central do debate, de logo à noite, será o dos cenários pós-eleitorais. Pois, mas o que importa saber não será discutido, que é saber quem será o próximo líder do PSD. Isto porque só no caso de a AD conseguir uma maioria sem o Chega é que Montenegro permanecerá à frente do PSD. Sucede que este cenário é altamente improvável. E em qualquer dos outros o mais certo é que o partido o substitua muito rapidamente.

Ao recusar-se a falar de cenários pós-eleitorais, que vinculariam o partido, Montenegro revela que sabe bem que o seu papel nesta campanha é o de ser o palhaço de serviço, algo que aparentemente não o incomoda.

Significa que, no dia 10 de Março, os eleitores que votarem na AD estarão na realidade a passar um cheque em branco à direita, Marcelo incluído.

 

Lágrimas de crocodilo

No Eixo do Mal, de ontem, o Daniel Oliveira afirmou, muito condoído com o que se está a passar na Justiça, que os comentadores deviam fazer uma “reflexão colectiva” sobre a forma como os casos judiciais têm sido tratados na comunicação social. Se não fosse trágico daria para rir. Ele e os colegas passaram o programa a repetir o que Sócrates anda a denunciar, há anos, relativamente à actuação do Ministério Público e do juiz Carlos Alexandre, em conluio com a comunicação social. Sucede que para estes isentos comentadores, na Operação Marquês, o Ministério Público e o famoso juiz fizeram tudo bem. Lá vão dizendo que não havia necessidade da detenção no aeroporto e de o terem prendido para investigar, mas nenhum deles tem dúvidas de que é culpado, não precisam do julgamento para nadinha e a presunção de inocência não se aplica a esta pessoa. E nem dão pela triste figura que fazem.

No caso das suspeitas de corrupção na Madeira, não hesitam, o Ministério Público esteve mal e o juiz de instrução esteve bem. Mas se o arguido se chamar Sócrates e o juiz for Ivo Rosa a coisa muda de figura e de que maneira. Que raio estará a impedir o Daniel Oliveira de reflectir sobre esta flagrante contradição?

Temos os comentadores mais isentos da galáxia!

Longe de mim duvidar do rigor e da isenção com que os comentadores analisam os debates. E só mentes perversas podem pensar que as notas que atribuem aos líderes dos partidos são dadas antes mesmo dos debates acontecerem.

Ainda assim, o meu palpite é que nos debates, de logo à noite, entre o Montenegro e o Paulo Raimundo, o Ricardo Costa, que escolho por me parecer de uma isenção à prova de bala, vai dar 8 ao Montenegro e 3 ao Raimundo. Já no debate entre Pedro Nuno Santos e Inês Sousa Real, 5 para o PNS e 8 para a Inês.

Quanto às avaliações dos restantes comentadores, não é nada fácil, mas aceitam-se apostas.

Nem o mundo da Barbie é tão fácil de governar como o da IL

Os comentadores estão encantados com a prestação do Rui Rocha nos debates. Tendo em conta a forma como o avaliam, estão satisfeitíssimos com as suas explicações relativamente à forma como pretende executar o seu programa eleitoral. Tira daqui, põe acolá, tudo simples e fácil.  O problema é o que fica por explicar. Dois exemplos:

Diz esta competentíssima pessoa que vai aumentar a produtividade. Seria de esperar que enumerasse algumas das causas que estão na origem deste problema. Que explicasse como as vai eliminar e quanto é que isso custará. Mas não. Esta medida executa-se por decreto.

Garante que vai reduzir o prazo dos licenciamentos. Como? Não explica. E se calhar é coisa para não sair barata. A menos que pense que os técnicos das câmaras municipais e de outras instituições envolvidas nos processos de licenciamento aceitem de bom grado trabalhar o dobro ou o triplo e que ainda lhe agradeçam no fim.

As questões para as quais não tem qualquer resposta nem sequer lhe são colocadas. Assim, de facto, vai continuar a encantar o comentariado.

Ventura, o cobarde

Não fosse alguém andar distraído, Ventura esclareceu ontem, no debate com a líder do PAN, que apoia a luta dos agricultores. Ou seja, este fanfarrãozeco de feira, que tem como bandeira principal o ódio aos imigrantes, diz que apoia quem os contrata.

Os imigrantes não vêm para cá para irritarem a chungaria. Vêm porque há empresários, dos mais variados sectores de actividade, que os contratam e que deles dependem para continuarem a actividade. Mais, estes empresários afirmam que são necessários muitos mais imigrantes.  Ora, alguém ouviu alguma vez o corajoso e carismático líder do Chega vociferar contra estes empresários?

Uma vez que apoia a luta dos agricultores, por que raio não passa por um ajuntamento de tractores e aproveita para evangelizar os seus donos? Avisar que com ele a mandar os imigrantes são para esquecer. Que pode abrir umas excepções mas apenas para imigrantes que falem português fluentemente. Que nem pensem em islamizar a agricultura!

Pagava para ver isto.

O crescimento do Chega, nos Açores, também se deve à má governação?

Para a direita, a culpa do crescimento do Chega é exclusivamente do PS. São os descontentes com a governação socialista que têm feito crescer a extrema-direita.

Claro que com esta lógica estão a passar um atestado de incompetência a si próprios, mas como ninguém lhes pergunta por que razão esses descontentes decidem não votar PSD, pode ser que ninguém repare.

Ora, nos Açores, o Chega foi o partido que mais cresceu. Tudo indica que na Madeira o cenário é idêntico. Que explicação tem a direita para o crescimento do Chega nestas regiões? Má governação?

A Direita já pode dormir descansada, o 25 de Abril é nosso e só nosso!

Para o líder do PSD é “inaceitável” que um chefe de Estado estrangeiro discurse, na Assembleia da República, na sessão solene do 25 de Abril. Parece que é uma coisa só nossa, estrangeiro não entra. Pois, devia ser ao contrário. Todos os anos, devia ser convidado um chefe de Estado estrangeiro para discursar nas comemorações do 25 de Abril. Qual é o problema de se juntarem à nossa celebração os representantes de outros povos? Povos esses que inspiraram os que tanto lutaram pela nossa Liberdade. Ou foi o nosso Povo sozinho que inventou a Democracia?

Tratando-se do Presidente brasileiro, a recusa da Direita é ainda mais absurda. Só em dois anos, 2020 e 2021, mais de 100 mil brasileiros adquiriram a nacionalidade portuguesa. Aquilo a que o Montenegro chama povo também os inclui. Muito provavelmente, muitos desses brasileiros votaram e ajudaram a eleger os deputados que nos representam, incluindo os dos partidos de Direita. Será que são bons para votar mas para celebrar o 25 de Abril têm de ficar à porta? É que Lula da Silva também os representa.

O impacto ambiental da construção civil não é para aqui chamado?!

Se as casas desabitadas, em Portugal, estivessem todas juntas, estaríamos perante uma cidade enorme, com capacidade para alojar um quarto da população portuguesa. A questão que me ocorre é a seguinte: mesmo que não estivéssemos a viver uma crise habitacional, seria ambientalmente sustentável a manutenção desta autêntica cidade fantasma? A direita acha que os proprietários não só têm o direito de a manter tal como está, como pedem mais construção nova. Ou seja, os proprietários têm o direito de a ampliar se assim o desejarem.

Vivo numa zona, como tantas outras, cheia de crateras gigantes devido à extracção de areia e pedra. E estes recursos são só uma pequeníssima parte da matéria-prima necessária para construção da tal cidade fantasma. Basta pensar na quantidade de metais, de betão, de madeira, de plástico, de tintas, e de mais um sem fim de materiais. Mais toda a maquinaria usada para a extracção, transformação e transporte de todos estes materiais. Quantas pedreiras, minas, florestas, indústrias altamente poluentes, alimentam a construção civil? Qual é o impacto ambiental de tudo isto? Para a Direita, deve ser zero.

Já é penoso ver a minha serra, e tantas outras, a desaparecer, mesmo que a finalidade seja construir cidades para as pessoas habitarem. Mas saber que também é para construir edifícios que não passam de mais um investimento, dos respectivos proprietários, é revoltante!

Em resumo, o lucro do investimento em imobiliário é dos proprietários, o prejuízo ambiental associado fica por nossa conta. E, para a Direita, assim é que está bem.

Sua Excelência manda e a matilha obedece

Muito provavelmente por pensarem que Sua Excelência ainda não estava satisfeito com a demissão de mais uma governante, em directo nas televisões, ontem, os jornalistas decidiram fazer marcação cerrada à ministra da Agricultura, ao ponto de não saírem da porta do seu ministério. Na sua ignorância, e porque não leem o que ensina a Ângela Silva, no Expresso, pensaram que Sua Excelência iria querer a cabeça de mais esta governante. Pensaram mal. Sua Excelência decidiu usar o travão. À noite, reuniu a matilha à sua volta e mandou desmobilizar. Hoje já ninguém quer saber do paradeiro da ministra. É que sua Excelência sabe que se esticar demasiado a corda, a mesma pode partir. Até a desmesurada paciência de António Costa deve ter um limite. Que aconteceria se o primeiro-ministro concluísse que não tem condições para continuar a exercer o cargo?

Ora, Sua Excelência ficaria com uma batata escaldante nas mãos. E sabe que podem continuar a despachar atestados de estupidez aos portugueses pela escolha que fizeram nas últimas eleições, porque basta ver, por exemplo, o debate da moção de censura para não se ter dúvidas acerca de quem ganharia as próximas, fosse quem fosse o líder do PS. E sabe também que contra isto a sua matilha nada pode fazer.

Incompetência absoluta

O presidente de uma empresa privada de fornecimento de energia decidiu dar uma entrevista. E porquê? Porque tinha notícias bombásticas para dar aos contribuintes. Não apenas aos clientes da sua empresa, mas a todos os contribuintes. Naturalmente, o Governo decide intervir, desmentindo o presidente da tal empresa. Empresas concorrentes desta fazem exactamente o mesmo e desmentem publicamente as tais notícias bombásticas. Até a empresa que o senhor lidera decide enviar uma carta aos clientes a desmenti-lo.

Entretanto, ficámos a saber que o líder do maior partido da oposição tem muitas dúvidas quanto à solução que Portugal e Espanha encontraram para limitar os preços da energia na Península Ibérica. E está no seu direito. Mas se é assim, porque esperou até agora? Porque não apresentou na altura em que o acordo estava a ser negociado uma solução alternativa, uma que não penalizasse os contribuintes, no futuro? Só reparou no problema depois de ter visto a tal entrevista bombástica?

Se calhar, é porque está muito ocupado a magicar frases como: “Costa confunde maioria absoluta com poder absoluto”. Como se vê é uma frase muito original, daquelas que ninguém estava à espera. Realmente, o PSD parece outro. Só com esta frase deve ter mudado o sentido de voto de milhares de eleitores. O PS que se cuide.

As crises já não são o que eram

O líder do PSD não se cansa de repetir que temos um Governo cansado, desnorteado, sem ideias, que não apoia as empresas nem as famílias. Garante que vamos a caminho de mais uma gravíssima crise económica e social, que é, segundo ele, a especialidade dos governos socialistas. E sabe do que fala porque está muito próximo das pessoas.

Não sei o que lhe têm dito os empresários, mas, entretanto, meio país ficou escandalizado com os lucros de algumas empresas.

Se com um Governo tão incompetente apresentam estes resultados, quanto lucrariam estas empresas se o país fosse governado pelo competentíssimo Montenegro? O dobro, o triplo? É uma pena se não aproveitar a oportunidade para nos esclarecer.

Vingegaard e Pogacar, sois grandes, gigantes!

Para quem não sabe, estas pessoas são dois dos melhores ciclistas que este Planeta já viu e estiveram ambos no Tour de France, que terminou ontem em Paris. Oficialmente, um ficou em primeiro e o outro em segundo, repetindo, aliás, o que já se tinha verificado no Tour de 2021. Mas, na verdade, a ordem é indiferente. Ganharam ambos! Os fãs, para além do espectáculo que é vê-los subir e descer os Alpes e os Pirinéus, puderam assistir a uma maravilhosa lição de desportivismo, respeito mútuo e decência. Para quem acha que o dinheiro tudo e todos corrompe, estes miúdos provam que não tem de ser assim. Os prémios para quem vence etapas, e a prova, são avultados, contudo isso não os impede de esperar um pelo outro em caso de queda, apesar de liderarem equipas diferentes. Tão bom!

Fazem-nos sonhar. Como seria a nossa vida se os outros líderes, das mais variadas áreas, lhes seguissem o exemplo?

Mais putinistas que o Putin

A guerra dura há mais de dois meses. Indiferentes às suas consequências devastadoras, aparentemente, nada comove os putinistas, que para todas as atrocidades encontram desculpa. As imagens da destruição das cidades são manipuladas e pura propaganda dos ucranianos. Como se os mísseis russos carregassem flores e borboletas e as imagens que a comunicação social deveria estar a passar era a de uma Ucrânia mais bonita a cada dia de guerra que passa. Depois vem o Putin gabar-se dos seus feitos e confirmar a destruição de alvos no país invadido. Nada que atrapalhe os nossos putinistas. Se há baixas entre os civis, a culpa é dos ucranianos que têm armamento nas cidades e usam a população como escudo. Ora, a guerra trava-se onde os civis vivem, queriam que os ucranianos se defendessem estendendo passadeiras vermelhas para os russos entrarem? 

Os putinistas até podem admitir a existência de baixas entre os civis, mas nem um é uma vítima inocente. Os putinistas olham para os ucranianos e só vêem nazis. Assim como o Ventura só vê bandidos quando olha para negros, ciganos ou imigrantes. Para os putinistas, os ucranianos são o povo mais politizado do mundo. Todos, incluindo as crianças, são especialistas em geopolítica, estando mais do que a par das tramóias dos americanos, das intenções da NATO e de outras trafulhices levadas a cabo pelos países ocidentais. Portanto, todos se puseram a jeito, conscientes do risco que corriam. Só se perdem as que caem ao lado. Não sei como não acusam o Governo de estar a colocar-nos a todos em perigo ao permitir a vinda de milhares desses nazis para o nosso país. 

Os putinistas travam ainda uma luta sem tréguas contra quem se indigna com esta barbaridade. Sempre munidos das citações dos seus ídolos, seres superiores detentores da verdade absoluta, acusam quem não os acompanha de serem uma cambada de hipócritas que nunca se indignaram contra outras barbaridades, passadas e presentes. Ainda que tivessem toda a razão, já houve no passado coisas que não indignavam quase ninguém, que eram a normalidade, e passaram a indignar a maioria. Prova de que a Civilização evolui. E não há putinista que a consiga travar!

O homem que fala claro

Rui Rio, não vá alguém ainda não ter percebido, tem passado os debates a garantir aos parceiros da Direita que o que está escrito no programa do PSD não é para levar a sério. Tem repetido em todos os debates que o programa só é válido “em determinadas condições”. E fica absolutamente claro que é ele quem determinará se há ou não condições para executar o que anda a prometer.

No debate com o líder da Iniciativa Liberal sacou do lápis e prometeu fazer aparecer milhares de milhões com uma clareza nunca antes vista. O que já não me pareceu tão claro foi o que disse a respeito do futuro de empresas como a RTP ou a CGD. Começou por elogiar a gestão e garantir que não serão privatizadas. Mas… se começarem a dar prejuízo lá terá de as privatizar. Claro que ninguém lhe perguntou como poderão essas empresas começar a dar prejuízo durante a sua governação e é pena.

Então, com os incompetentes dos socialistas a governar há seis anos, dois dos quais passados a gerir uma crise sem precedentes, essas empresas estão bem e recomendam-se, mas admite que com um governo de direita liderado por si, o economista mais sério e competente que este rectângulo já viu, apoiado pelos génios da finança do CDS, IL e Chega, poderão criar-se condições que levem essas empresas de novo à ruína?!

Isto não será clareza a mais?

Quem é que a Catarina Martins escolhe para liderar o PS?

De que se estaria a falar hoje em todos os órgãos de comunicação social se António Costa tivesse dito ontem que a Catarina Martins é o obstáculo que impede PS e Bloco de chegarem a um qualquer acordo? Quão horrorizados ficariam os bloquistas, e não só, com uma ingerência deste calibre? Quantas vezes repetiriam que tal frase era a prova provada de que Costa é um ditador que até nos partidos da oposição quer mandar, e que deve ser impedido por todos os meios de governar com maioria absoluta por ser um perigo para a democracia? Pois.

Antes das autárquicas vem a época de incêndios

Rui Rio, que seguramente não tem um espelho em casa, defendeu que com um governo fragilizado em funções quem perde é o país. A remodelação, diz, devia acontecer “o quanto antes”, logo, antes das autárquicas marcadas para 26 de setembro.

Ora, vamos imaginar que o primeiro-ministro faz a vontade ao líder da oposição e substitui o ministro da Administração Interna a poucas semanas da época crítica de incêndios. Que dirá o Rui Rio, e todos os que como ele estão cheios de pressa para ver o Governo remodelado, se nas próximas semanas forem os incêndios, em vez da pandemia, a abrir os telejornais? Será que continua a defender que o melhor para o País foi a substituição, nesta altura, do ministro da tutela? Ou, pelo contrário, virá lembrar que não é no meio das batalhas que se mudam os generais?

Só falta a direita defender o ensino à distância para sempre

A falta de atenção dos alunos nas salas de aula é talvez a queixa mais recorrente dos professores, desde sempre. Vamos imaginar que no ensino presencial os alunos podiam usar os telemóveis para fazerem o que quisessem, que diriam os mesmos professores e quão produtivas seriam essas aulas? É exactamente isto que se passa com o ensino à distância, caso a direita ainda não tenha reparado. E afecta tanto os alunos do privado como os do público, os mais e os menos desfavorecidos. E tem piada ser a mesma direita que há uns anos dizia que dar computadores aos alunos era um desperdício porque só iriam utilizá-los para jogos e outros entretenimentos.

Por este andar, ainda veremos o Rui Rio criticar a tal proibição do uso de telemóveis em sala de aula, impedindo assim os alunos de acompanharem e de se divertirem com a sua incansável luta contra as sondagens, no Twitter, por ser mais uma medida totalitária de perfil marxista.

Democracia celular

As eleições nos Estados Unidos estão a animar os que estão cansados da democracia. O director do Público, por exemplo, está tão cansado que não está para procurar outras causas para o que se passou e está a passar naquele país, para ele a culpa é da falta de saúde da democracia. Mas quando aponta como causas para a doença da democracia “a desigualdade extrema” e “o empobrecimento das classes trabalhadoras”, aposto que não está a pensar apenas na democracia americana. Parece-me que está a querer dizer que a democracia não serve para resolver os problemas da Humanidade.

O que ele talvez não saiba é que as suas próprias células se calhar discordam. Como toda a gente sabe, as células nascem, vivem e morrem. Provavelmente, se fôssemos nós a decidir o que fazer a uma célula que deixou de cumprir as suas funções, a sua eliminação seria automática. Contudo, no complexo e altamente sofisticado mundo das células a coisa nem sempre se passa assim. Em determinadas circunstâncias, a célula em causa emite sinais químicos à vizinhança a dar conta do seu estado, ainda assim a sua eliminação só ocorre quando a maioria das células vizinhas “vota” nesse sentido. A democracia em todo o seu esplendor! Mas também aqui o sistema não é perfeito. De vez em quando surgem células que se cansam das regras da comunidade. Comportam-se de forma totalmente egoísta, esquecem o bem comum e trabalham exclusivamente para si próprias. Chama-se tumor e todos sabemos como é que pode acabar. Há cientistas que dizem que são sistemas extremamente inteligentes. Não concordo. Quão mais eficientes mais depressa se aproximam do seu próprio fim, não me parece lá muito inteligente. E podemos questionar porque é que os organismos não adoptam outro sistema. Um que não permita o surgimento de agrupamentos celulares hostis? Porque o processo que permite que surjam – mutações que ocorrem aquando da divisão celular – é o mesmo que permite que as espécies evoluam e se adaptem a novos ambientes. É o que nos trouxe a todos até aqui.

Portanto, quem pensa que a democracia é chão que já deu uvas, um sistema passageiro e ineficaz inventado por quem não tinha mais o que fazer, talvez possa sugerir um sistema alternativo à velhinha Natureza. Força nisso!