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Uma espécie de Quim Barreiros da política

Talvez por falta de outro assunto, por estes dias, aconteceu ouvirem-se algumas críticas ao Presidente a propósito das suas férias. Não se percebe muito bem porquê, afinal não fez nada que não seja comum fazer durante o ano inteiro: andar com jornalistas e câmaras atrás para todo o lado, falar acerca de tudo e de nada, ser filmado em calções a mergulhar ali e acolá, nomeadamente, em visitas de Estado. Tudo normal. Só se a estranheza foi vê-lo ao volante, mas mesmo isso não foi inédito.

Seja como for, levou a que alguns comentadores se pronunciassem. Destaco o Pedro Adão e Silva que chama a atenção para os riscos que o sucessor de Marcelo poderá correr, graças a este novo estilo presidencial, mas não sem antes elogiar “a sua capacidade de aproximar as pessoas da coisa pública”. Parece que é este o grande legado de Marcelo. E são com certeza muitos os que concordam.

Mas, na prática, no que se traduz essa alegada aproximação? Será que as pessoas passaram a interessar-se mais por política? Num tempo em que tudo deve ser sustentado por números e factos, há dados que revelem, por exemplo, que o número de leitores de jornais aumentou? Subiram as audiências das entrevistas e debates políticos? Será que, graças a Marcelo, a abstenção vai diminuir nos próximos actos eleitorais?

Se calhar, para que tal acontecesse seria preciso mais do que a febre das selfies e os de milhões beijos e abraços. Assim, o que se vê é uma espécie de artista (de gosto duvidoso, diga-se) que nem nas férias deixa de tudo fazer para aumentar o seu número de fãs.

Alguém sabe?

O ano lectivo já vai adiantado, estou aqui com umas dúvidas, quando é que o Professor Passos vai começar a abrilhantar a vida dos seus pupilos?

E o pin, é desta que se livra daquela lapela ou, pelo contrário, vai também ele iniciar novas funções, desta vez como útil distracção na sala de aula?

 

 

Marcelo, um católico 2.0

Espanta-me a falta de curiosidade dos nossos jornalistas. De todos os que costumam seguir o nosso Presidente para todo o lado, aparentemente, nem um se lembrou de lhe perguntar o que pensa acerca do conselho do cardeal patriarca aos católicos recasados. Mas espanta-me ainda mais que o próprio não se tenha pronunciado de livre vontade. É que para além de ser católico, tudo indica que não só concorda como pratica os ensinamentos de D. Manuel Clemente.

Depois de uma semana a ser brindado com mimos de toda a espécie, aposto que o cardeal não se teria importado de receber um pouco do afecto que o seu amigo tem para dar e vender a toda a gente.

Coisas que me intrigam

O Ministério Público decidiu arquivar o processo que resolveu instaurar ao Ministro das Finanças. Muito bem. Mas estou aqui com uma dúvida: o que está previsto na Lei relativamente ao material entretanto recolhido pelos Magistrados da 9.ª secção do Departamento de Investigação e Ação Penal nos computadores, mesas, gavetas e, muito provavelmente, atrás dos vasos espalhados por todo o Ministério das Finanças? Lembrar que o referido Ministério se relaciona com todos os outros e com toda a certeza com inúmeras entidades públicas e privadas, nacionais e internacionais.

A Lei prevê que se destruam os documentos ou que se arquivem? Na segunda hipótese (e também na primeira), pode a Procuradora-Geral da República garantir que não acabam por ir parar à redacção do Correio da Manhã? Que o mais certo é encarregar-se de os esmiuçar e decidir que certidões vale a pena extrair e escarrapachar nas suas primeiras páginas para gáudio dos restantes pasquins.

Nunca ouviram falar em infecções hospitalares?

Uma coisa é ver o Hugo Soares, cuja única especialidade é a de usar vítimas mortais como arma de arremesso político, a culpar o Estado pelo surto de Legionella. Outra coisa é ver os jornalistas a mostrarem a sua ignorância em relação às infecções hospitalares. O Paulo Tavares, por exemplo, que até critica o PSD por estar a “cavalgar o momento”, faz igual ou pior. Para este jornalista, é incompreensível que os cidadãos que procuram tratamentos de rotina num hospital público acabem infectados com uma bactéria potencialmente mortal. Compreende-se, ainda por cima, como revela aos leitores, esteve há dias com o filho num grande hospital público. Aparentemente, o que o choca é que este surto tenha surgido num hospital, como se nunca tivesse ouvido falar em infecções hospitalares. Mas elas existem, são um gravíssimo problema, são causadas por inúmeras bactérias, algumas resistentes aos antibióticos, e são responsáveis por milhares de mortes por ano. Em 2013, por dia, 12 pessoas morreram com infecções hospitalares. Um número sete vezes superior ao das vítimas de acidentes de viação. Não se percebe, portanto, por que raio os jornalistas só se preocupam com a Legionella.

Mas se é para provar que, mais uma vez, o Governo está a falhar, façam-no em grande. Ponham-se à porta dos hospitais e abram os noticiários diariamente com o número de vítimas e o nome das bactérias responsáveis pelas infecções. De caminho, chamam a atenção para um problema que é global e cuja resolução, nada fácil, depende de todos. E talvez deixem de pensar que sem Legionella os hospitais são locais seguros para levarmos os nossos filhos.

A direita não sai do seu velho ciclo

Para desespero da direita, ainda não foi desta que Bloco e PCP roeram a corda do Orçamento. O resultado das Autárquicas alimentou-lhes a esperança da vinda do tão esperado novo ciclo, como não aconteceu, alguns atacam o documento agora aprovado, enquanto outros usam como única arma de arremesso político a tragédia dos incêndios. E há ainda os que misturam tudo como faz o Pedro Marques Lopes, esta semana, na sua crónica no DN.

Diz ele que “o Orçamento do Estado para 2018 é uma espécie de documento de “depois logo se vê”.” Confesso que demorei um bocadinho, mas acabei por concordar. Afinal, há aqui uma diferença, os orçamentos da direita eram mais do tipo “vê-se logo”. Via-se logo que eram inconstitucionais, via-se logo que as contas estavam aldrabadas e que seriam necessários vários orçamentos rectificativos e, sobretudo, via-se logo que o País continuaria a marcar passo. Mas fiquei a pensar e o “depois logo se vê” deve ter sido inspirado na campanha dos candidatos à liderança do PSD. É que, tirando o campeonato dos afectos, não se lhes conhece ideia alguma para o futuro do País. Aliás, “depois logo se vê” podia ser o lema do velho ciclo da direita. Adiante.

Mais abaixo, o Pedro Marques Lopes, informa-nos que “a grande questão é que este Orçamento revela o labirinto sem saída desta solução governativa”, e que “o Orçamento grita isso, está bem à vista que os entendimentos em aspectos fulcrais para o país são impossíveis com esta solução governativa”. Até aqui, os aspectos fulcrais para o País têm sido o défice, a dívida, o crescimento da economia, o desemprego, etc.. Como esses aspectos estão bem encaminhados, e o Orçamento assim o prova, no entender de PML, e se calhar bem, os aspectos fulcrais passaram a ser “as mudanças na Segurança Social, prioridades para o investimento público, reformas no ordenamento do território, acordos para reformar a Justiça, entre outros.” E que os mesmos “são impossíveis de obter no quadro da geringonça.” Não sei se é impossível o Governo realizar essas reformas com o apoio do BE e do PCP, mas sei, e o PML também, que sem o acordo do PSD, pelo menos, são reformas com muito pouco alcance. Ou seja, não são reformas, são apenas umas medidas que o governo seguinte revogará assim que tiver oportunidade.

O que me leva ao tal labirinto. Ao contrário do que diz o PML, os labirintos normalmente têm uma saída e o PS, o BE e o PCP têm conseguido encontrá-la. Já no PSD não se movem num labirinto, isso implica percorrer caminhos, sendo que alguns até os poderiam levar ao entendimento com a esquerda para os tais aspectos fulcrais. Movem-se em campo aberto, mas, tendo em conta as coisas sem nexo que gritam, devem andar todos de olhos vendados.

O Trump não faria pior

Os cientistas alertam há anos para o facto de a Península Ibérica ser, na Europa, a região onde os efeitos das alterações climáticas se farão sentir em primeiro lugar e com maior intensidade. Ora perante a situação que o País atravessa, em termos climatéricos, seria de esperar que se iniciasse um debate sério sobre esta problemática. Mas não, parece que o que está a acontecer ainda não é suficiente. É verdade que ninguém nega as alterações climáticas, mas são frequentemente desvalorizadas. Se o assunto em discussão for o da seca prolongada que afecta todo o País, relaciona-se o fenómeno com as alterações climáticas, mas se o tema for o da tragédia dos incêndios, consequência directa da seca, aí é quase proibido fazer essa relação e quem o fizer corre o risco de ser acusado de estar simplesmente a desvalorizar a incompetência do Governo. Aliás, só falta vir um Hugo Soares qualquer garantir que a culpa da seca e das sucessivas ondas de calor é dos malvados dos socialistas, em conluio com os comunistas e bloquistas, que com a sua lendária sede de poder sugam a humidade do ar e impedem a chuva de cair.

O que vale é que temos um Presidente da República cujo nome não é Trump, nunca ninguém o ouviu negar as alterações climáticas. Mas quantas vezes o ouvimos alertar para o problema? E se esta não é uma boa altura para chamar a atenção para um dos desafios mais complicados que o País terá de enfrentar, não sei qual será. Parece que o compromisso que tem com os portugueses tem limitações e a prioridade é vigiar o Governo e não largar as zonas afectadas pelos incêndios. Mas e as vítimas que estão à espera de o serem? Pode Marcelo garantir que com a fiscalização que fará à actuação do Governo a tragédia não se repetirá? E se as previsões de mais um Inverno seco se confirmarem, quantas aldeias correm o risco de serem as próximas a arder? E que tal parar em algumas dessas aldeias e usar a sua popularidade, poder e vontade de mandar para chamar a atenção para este problema, apontar o que está mal e alertar as populações para o que também têm de fazer sob pena de nada servirem as medidas do Governo, deste ou de outro? Isso é que era! E no fim até podia prometer voltar para os cobrir de beijos e abraços.

Os sms do Centeno devem ser mesmo suculentos

Que a direita, e a comunicação social, já agora, não esteja muito interessada em discutir os números revelados pelo INE, relativos ao crescimento da economia, ou às previsões de Bruxelas, percebe-se. São números muito chatinhos para quem dizia que só havia um caminho para nos levar a bom porto.

Mas e o novo aeroporto? Então o Governo quer avançar com essa obra e a direita só quer saber dos sms do Centeno? Mas isso não era uma daquelas loucuras do Sócrates, uma obra megalómana e totalmente desnecessária?

O que diria Jesus Cristo?

Esta visita papal, agendada para Maio, intriga-me. Portugal deve ser um dos países mais católicos do Mundo, contudo o papa Francisco embirrou que só visitará Fátima, só quer ver a Senhora. É estranho, pelo menos para mim, que aquele que diz representar Deus na Terra só queira visitar uma… estátua. No fundo, está a borrifar-se para todas as outras senhoras e senhores que, não podendo estar em Fátima nesse dia, gostariam de o ver em Lisboa, por exemplo. E muitos não podem porque os preços pedidos por um quarto em Fátima por esses dias são, como dizer, obscenos.

Quando visitei Fátima pela primeira vez fiquei chocada. Aquilo parecia mais uma feira do que um local sagrado. Se calhar, o negócio tem estado fraquito e esta visita é só para dar-lhe um empurrãozinho.

Mas isto sou eu que não sou nada católica.

Abençoado Trump

Imagine-se o que seria por essa imprensa fora se o PS estivesse, nesta altura do campeonato, sem candidato à maior Câmara do País? E não se percebe, afinal, e até nova contagem, o PSD continua a ser o maior partido. É perguntarem-lhes.

Ainda bem que o Trump existe e que todos os santos dias mantém ocupadíssimos todos os jornalistas e comentadores. Mas, por este andar, ainda chegamos ao dia das eleições autárquicas e ninguém dá pela falta do tal candidato do PSD.

De “geringonça” a “BFF” à velocidade de Portas

Portas é um político muito inteligente. É uma frase que se ouve há anos, vá lá saber-se porquê. Seja como for, o próprio convenceu-se disso mesmo. Só isso explica que fale para os deputados no Parlamento, e para todos nós, como se estivesse a falar para criancinhas num qualquer infantário. Fala pausadamente como se o que diz fosse de difícil compreensão embora, na verdade, não esteja a dizer absolutamente nada. É isto a famosa inteligência. Isto e mandar umas bocas que os jornalistas não se cansam de repetir. É que, para além de inteligente, é muito divertido.

Hoje, por exemplo, saiu-se com os Best Friends Forever, referindo-se a Costa, Catarina e Jerónimo. Foi giro, e é apenas isto que fica do que disse. Mas confuso, nem parece dele…

Então, não era a fragilidade dos acordos, fruto de ódios antigos e actuais entre os partidos de esquerda, um dos principais problemas apontados pela direita ao novo Governo? Não foi também por isso que Portas apelidou o novo Governo de “geringonça”? Afinal, não há ódio algum, o que há é amizade. E como melhores amigos que são, e para sempre, não esquecer, os líderes da esquerda, se calhar, assinaram mesmo acordos sólidos e duradouros. Parece que o novo Governo tem futuro. Garantia de Portas, o inteligente.

Só há uma forma de testar o acordo da esquerda

A direita não se cansa de repetir que o acordo da esquerda não presta. Que é fraquinho. Que não é sequer um acordo. Que não passa de uns papelitos mal amanhados que os líderes dos partidos assinaram talvez por não terem mais o que fazer naquele dia. O que não deixa de ter piada. Mas, afinal, o que seria, no entender da direita, um bom acordo? Sequer existe, nas suas cabeças, tal possibilidade? Claro que não. Por isso, não se percebe por que razão não querem provar que têm razão. E só há uma forma de isso acontecer: Cavaco dar posse ao Governo do PS.

Se, tal como afirmam, o acordo não garantir um Governo estável, não têm com o que se preocupar, nem precisam de fazer a triste figura de sugerir revisões da Constituição para que haja novas eleições, já que estas serão inevitáveis independentemente de quem ganhe as Presidenciais. Novas eleições essas que, após o fracasso do Governo do PS, a direita ganharia com a tão desejada maioria. Com o bónus de a esquerda ficar arredada do poder nos próximos anos e de tão cedo não se voltar a ouvir falar de acordos. Só vantagens, portanto.

Contudo, a direita prefere tudo menos provar que tem razão. Porque será?

Quanto é que já nos custou a “tradição”?

Quem ouve os apelos da direita para que se respeite a tradição de viabilizar governos minoritários, e ande distraído, até pode pensar que essa tradição tem sido benéfica para o País. Mas vejamos, se o PS respeitasse a tradição, e “assumisse as suas responsabilidades”, deixaria passar o programa e o Orçamento da coligação de direita. Mas, se se mantivesse fiel à tradição, a partir daí poderia abrir fogo ao governo e fazer-lhe a vida num inferno. Manda a tradição que a oposição mantenha os governos minoritários a cozer em lume forte até achar que é chegada a altura de os derrubar. Normalmente o inferno dura dois anos e os governos caiem.

E o que é que o País tem a ganhar com isto? Nada. Perde tempo que não tem para fazer as reformas que todos dizem ser urgentes e os senhores da União Europeia, que a direita tanto preza, ficam ainda com mais argumentos para nos acusarem de tudo e mais alguma coisa e, claro, para nos aplicarem os respectivos castigos. Mas nada disto impede a direita de se agarrar às tradições. A esta e a uma outra que seguem religiosamente, que consiste em esquecer as consequências de anos e anos de governos minoritários, frágeis e impossibilitados de governar plenamente, e culpar os socialistas por todos os males que já nos aconteceram mais os que ainda estão para vir.

O que fará a direita na oposição?

Nos últimos dias, os comentadores espalhados por tudo o que é órgão de comunicação social têm estado entretidos a analisar todos os cenários possíveis e impossíveis relativos ao futuro do PS. E não há cenário em que o PS não tenha um fim trágico. Pouco importa se vira à esquerda ou à direita, o que interessa é que o António Costa está a levar o partido para o abismo.

Percebe-se que dediquem todo o tempo de antena de que dispõem ao PS e que, apesar dos mais recentes acontecimentos, não discorram muito acerca do futuro da direita. Não deve ser fácil, para estas mentes brilhantes, imaginar um cenário em que o futuro da direita passe, por exemplo, por liderar… a oposição. Mas, se calhar, é melhor começarem a dedicar uns minutinhos a esse desagradável assunto.

Confesso que tenho muita curiosidade acerca do que farão o PSD e o CDS na oposição, com ou sem Passos e Portas. Sabemos que são partidos de gente séria que só pensa no que é melhor para o futuro do País. Mas será que voltam à conversa que tinham antes das eleições de 2011, que isto só lá vai com cortes nas gorduras e que há limites para os sacrifícios exigidos a este pobre povo? Ou, pelo contrário, coerentes como toda a gente sabe que são, vão berrar por mais austeridade, mais cortes de pensões e salários e, enfim, tudo o que for necessário para que não se desperdice o esforço feito nos últimos 4 anos? Talvez em breve nos esclareçam as dúvidas.

Durão Barroso, um grande respeitador da vontade dos eleitores

Em entrevista ao Económico, Durão Barroso saiu-se com esta: “eleitores do PS não votaram para um governo com PCP e Bloco”. É preciso não ter um pingo de vergonha na cara. De todos os que agora mandam palpites acerca das intenções dos eleitores do PS, Durão Barroso deveria ser o último a pronunciar-se.

Aparentemente, já não se lembra do que se passou em 2002. Mas há quem se lembre que foi o ano em que os eleitores do PSD votaram nele para primeiro-ministro. Foi essa a vontade dos eleitores. E o que fez ele perante essa vontade e quais foram os “custos” para Portugal? Já ninguém se lembra, muito menos a jornalista que o entrevistou.

Acabou o recreio. Começou o teatro

Durante a campanha, o PS foi o alvo a abater, tanto para esquerda como para a direita. Para a direita, os socialistas são todos iguais, um bando de irresponsáveis e corruptos que se chegassem de novo ao poder davam cabo disto tudo outra vez. Para a esquerda, a desculpa para os ataques era o facto de o PS ser igual à direita, ou pior, muito pior. Ironia das ironias, o PS perde as eleições e é solicitado por todos para formar governo.

Não digo que as campanhas sirvam para andarem todos aos beijos e abraços, mas podiam ter-se evitado algumas das tristes figuras que agora se veem obrigados a fazer. Apetece perguntar, a bloquistas e comunistas, se até conhecerem o resultado das eleições nunca se tinham apercebido das diferenças entre o PS e a direita, e se finalmente querem assumir responsabilidades governativas, por que raio não vão bater à porta da direita que ganhou as eleições?

Quanto à direita, incluindo o inquilino de Belém, o descaramento é tanto, que querem dar lições ao PS. Lições de responsabilidade, de compromisso, de diálogo e de tudo o que for necessário para garantir a estabilidade que tanto prezam. E não há ninguém que lhes atire à cara que sentido de responsabilidade era, por exemplo, terem apresentado e defendido o programa que, cobardemente, esconderam. E que continua escondido. Sabemos apenas que querem reformar a segurança social. Será que o que querem negociar com o PS é esta reforma e um cheque em branco?

Farto de programas eleitorais? Vota no Guião

Muitos têm sido os erros apontados à campanha do PS, mas talvez o principal tenha sido a elaboração de um programa eleitoral. As pessoas estão fartas de programas e de debates de ideias, do que gostam agora é de guiões. Por toda a comunicação social, os comentadores não se cansam de elogiar esta nova modalidade de campanha, o que se compreende. Afinal, ao contrário do programa do PS, o guião da direita é muito flexível, pode sofrer alterações todos os dias, ou mesmo a qualquer hora. Foi de facto muito bem pensado e é o mais adequado para promover um candidato com o arcaboiço intelectual de Passos Coelho, um candidato cuja principal habilidade é dar tiros nos próprios pés. Note-se que nem os seus mais acérrimos defensores lhe gabam a inteligência. Logo, nada como ter o guionista sempre de prevenção e preparado para introduzir alterações ao guião. E tem havido muitas. Recorde-se que, no guião original, Passos só tinha autorização para falar de Sócrates e do Syriza, e onde é que isso já vai? O que vale é que os comentadores têm gostado de todas as versões, mesmo que impliquem mentiras descaradas e contradições constantes, se está no guião é de aplaudir. A verdade é que até agora ainda não apareceu nada que o guião não tenha resolvido. Hoje, por exemplo, os jornais revelam que Maria Luís Albuquerque manipulou as contas do BPN com o objectivo de favorecer as contas do Governo. Nada a temer. O guionista já está a trabalhar no assunto e logo à noite as sondagens e todos os comentadores confirmarão que, mais uma vez, o guião não falhou.

Com toda a certeza, a direita viabilizará um orçamento socialista, ou não?

Passos e Portas estão chocados por António Costa ter afirmado, pasme-se, que não viabilizará o orçamento da direita caso esta vença as eleições. Repetem em coro que “quem diz que vota contra o orçamento, está a votar contra Portugal”.

Deduz-se, portanto, que, em nome da estabilidade que tanto apregoam e pondo sempre Portugal à frente, Passos e Portas estão disponíveis para viabilizar um orçamento socialista, caso seja necessário. Só não se percebe por que raio ainda não o anunciaram, alto e bom som, por onde têm passado. Mas ainda vão a tempo.

Há uma citação em falta

A campanha tem estado animada com a questão da vinda da Troika. Não há dia em que os jornais não publiquem citações ou cartas na tentativa de provar quem é que afinal a chamou. Até parece que o ano de 2011 foi há 400 anos e que já não há ninguém vivo que possa testemunhar o que realmente se passou. Mas não foi, e quem não estiver completamente desprovido de memória e seja minimamente honesto não precisa de citações para saber quem ansiava pela vinda da Troika, e porquê, e quem tudo fez para a evitar.

Mas já que a campanha se transformou numa espécie de guerra de citações, por que esperam os jornais para publicarem umas frases de Passos, de Portas ou de Cavaco, ditas na altura, já não digo a repudiarem, a alertarem para os riscos e consequências do pedido de resgate. A ser verdade o que dizem agora, não deve ser difícil. Vá lá, só uma.