Lembretes

– Se a oposição não apresenta projectos e programas alternativos aos do Governo e PS, tal não se deve a qualquer dificuldade no acesso aos meios de comunicação, bem pelo contrário. TVI, SIC, Público, Sol, Expresso e Correio da Manhã, pelo menos, assumiram uma desbragada postura anti-Governo. No outro lado, a oposição aparece a comunicar na RTP, TSF, DN e JN constantemente, entre tantos outros meios, fora os próprios. A explicação, obviamente, é outra: a oposição não tem projectos nem alternativas. Contudo, caso se reclame ser a anterior conclusão não mais do que rasteira propaganda, então terá de se admitir que essas ideias não ganharam favor, nem sequer curiosidade, apesar das circunstâncias extraordinariamente adversas para Sócrates e Governo. Choose your poison.


– O caso Freeport, para lá dos prejuízos que já causou e ainda virá a causar, trouxe dois inusitados benefícios. O primeiro consistiu na confirmação de Sócrates como um político capacitado para a resistência às teorias da conspiração numa escala, e com meios, como nunca se tinha visto em Portugal. É uma qualidade rara, de que Portugal não tem sequer memória recente. Precisamos muito de esclarecer as suspeitas que se abateram sobre a sua pessoa, de modo a saber o que se poderá fazer com essa virtus. Se o pior cenário se confirmar, e Sócrates for o que os pulhas desejam que seja, para nada servirá essa qualidade, pois a sua carreira estará acabada. Se as autoridades conseguirem desfazer cabalmente as histórias negras, talvez se possa fazer História.

O segundo benefício consiste na erradicação do tabu que tem protegido o marasmo e perversão da Justiça. Para lá da complexidade do problema, o tal que é só o mais decisivo para o nosso futuro, importa assinalar que estamos agora, e finalmente, a falar das disfunções legais e processuais do sistema de Justiça com cada vez maior clareza. Este transporte da questão para o espaço público equivale à dobragem do Bojador. Aquele que tem sido um meio oligárquico e secretista, por excelência, está a ceder perante o escândalo da sua ineficiência e ineficácia. Quer dizer que algo de fundamental poderá vir a acontecer: o reencontro do Povo com a sua vontade de ser comunidade. Mas, para tão magno desfecho, os partidos terão de assumir essa responsabilidade. Ainda nenhum ― nenhum! ― anunciou esse compromisso com o País. Estamos perante o segredo de polichinelo das patologias do regime.

– Helena Roseta é um notável exemplo dos efeitos do conflito geracional ― ainda por analisar e reflectir ― que se instalou na política portuguesa desde 2005. E, para o entender, temos de reconhecer que Sócrates começou por modernizar logo o que tinha mais à mão: primeiro, a sua equipa de combate, a qual trouxe novos conhecimentos e metodologias; depois, o PS, o qual era um partido fragmentado em clãs ao tempo; e, por último, o Governo, que tem mantido coreácea coesão e lealdade, apesar do tudo e mais alguma coisa por que tem passado na legislatura. A 1ª parte plano foi escrupulosamente seguida e o seu sucesso é notável, a pedir estudo de caso. Nessa lógica, a modernização do País, a finalidade suprema, viria a seguir como natural consequência. E foi isso mesmo que se tentou, com resultados mistos.

Do que não se poderá acusar o Governo, porém, é de falta de direcção e empenho, pois por aí há unanimidade na constatação do mérito. O que lhe tolheu o movimento foi a má-fé, mesmo irresponsabilidade, da oposição a atiçar a inércia e reacção dos que se assustaram com as mudanças no horizonte. De repente, a velocidade e força com que se pretendia reformar uma sociedade enquistada em diferentes modalidades de salazarismo começou a ser vista como uma ameaça. As acusações abandonaram o léxico ideológico e barricaram-se nos epítetos da arrogância e quejandos, prova de que o conflito político estava a atingir o psiquismo profundo dos agentes sociais.

É neste plano que a recente entrevista de Helena Roseta aparece como um TAC do generation gap socrático. Virá um tempo, em vida ou postumamente, em que a Helena será incensada, louvada e celebrada como merece. Como o todo da sua vida justifica, exibe, demonstra, comprova, realiza. É uma excelente portuguesa, é mulher, é um exemplo de civismo e civilização. Contudo, porém, todavia, esse tempo ainda não chegou. Porquê? Porque o seu discurso é absolutamente inútil, não se encontrando nele possibilidade de resgate de qualquer semente de solução para qualquer um dos problemas existentes, ou até dos problemas concebíveis. O que expressa é pasto de infernos, tão-só as vagas e imbecilizantes boas intenções de quem acredita que a utopia é um estado de alma colectivo.

O fenómeno da revolta de algumas figuras socialistas, ou independentes de centro e esquerda, contra a novidade que Sócrates introduziu no estilo e dinâmica da governação, e chefia do partido, é quase risível. Estes deveriam estar a ser aqueles que melhor conseguiriam compreender a vantagem de ter um líder com as características reformistas de Sócrates a governar com maioria absoluta. Mas não, precisamente ao contrário. E ainda pior: o discurso desta gente, destas excelentes pessoas repletas de medalhas por bom comportamento democrático, é um deserto de ideias, uma feira das vaidades, um pátio de prisão.

– 2009 já só tem 9 meses para dar cabo desta merda toda.

15 thoughts on “Lembretes”

  1. Já chega de vitimização

    SIC
    Expresso
    Correio da Manhã

    Foram sempre tendenciosos no apoio a Sócrates agora são maus porque falam de freeport é engraçado esta dança das cadeiras

  2. V de vir, raiz de virtus e de vector? Além de Valupi, claro. Também tu cedeste à irresistível tentação de ser apenas uma mordaz letrinha…

    olha que espertos lá: os bancos pagam ao Estado para poderem dar bónus aos gestores, bem apanhado,

  3. Temos dois exministros do PS e um em exercício de funções a serem pagos pela TVI 24 para fazerem o papel de comentadores
    Pina Moura
    Correia de Campos
    Augusto Santos Silva
    É a “dinâmica da governação”

  4. olho, o problema não está em falarem do Freeport. Esse caso tem de ser falado, obrigatoriamente, e muito mal estaríamos se não fosse assim. Trata-se é do alimento para os ataques à honra de Sócrates, e tantos outros governantes presentes e passados. Isso que, por exemplo, um Mário Crespo faz, e já para não falar da TVI, é indigno. Atinge-nos a todos.
    __

    z, queria resolver a repetição do nome “Valupi” por baixo dos postais. Ensaiei com “V” e não apreciei o resultado. Vai agora com “Val”, pode ser que fique.

    Já agora, há dias fizeste referência ao facto de te ter nomeado em minúscula quando o fazia usualmente em maiúscula. Teve graça o teu reparo, pois foi só então que reparei que, de facto, o z que usas é minúsculo. Quer dizer que algures no tempo terei percebido que era grafia maiúscula e ficou assim. Quer também dizer que o meu critério é o de reproduzir as opções que cada um apresenta no seu pseudónimo (mesmo que homónimo).

  5. eu sei, fazes de espelho (a menos de umas variações discretas), então pelos visto o V foi transiente, e o meu z é x mais iy.

    mesmo inteligente a jogada de para os gestores se pagarem grossos prémios terem primeiro de pagar ao Estado, lá nos EUA, e cá?

  6. Há uma esquerda, que não se limita aos partidos de Louçã e Jerónimo, tendo também os seus representantes no PS, noutras agremiações e entre muita gente sem simpatia partidária, que sofre, sempre sofreu, de uma idealite aguda, agravada de uma profunda incompreensão do que é a política hoje, do que ela foi ontem e será amanhã.

    É uma gente que, mesmo nascida depois da ditadura salazarista, só gosta de estar na oposição, indefinidamente, para sempre. Para eles a acção política é só o protesto, a denúncia, a defesa, a resistência a um estado de coisas inaceitável. Preferem deitar ao lixo os seus votos, ou não votar de todo, a interrogar-se seriamente sobre a validade dos seus próprios ideais, supostamente belos e nobres. Ideais que se confrontam permanentemente com uma realidade que não compreendem e recusam. Têm a sensação que está tudo sempre a piorar, desde o começo dos tempos.

    A realidade não está de acordo com os seus belos e nobres ideais. Acham que a corrupção é generalizada e que todos os governantes, sejam quais forem, só querem é governar-se, conluiados com tenebrosas forças ocultas. Vivem num estado de paranóia, desconfiança, rejeição e indignação permanentes. Os governos, para eles, estão sempre a atacar as pessoas, os trabalhadores, o emprego, a economia, os direitos, as liberdades, a cultura, o património nacional e todas as conquistas míticas de uma era dourada que nunca existiu. Para eles, a política resume-se a isto: o governo a atacar, o povo a resistir. Numa coisa esta esquerda está de perfeito acordo com a direita: é a direita que deve governar o país, para a esquerda poder fazer oposição.

    É uma esquerda de masoquistas, gostam de sofrer e gemer. Queixam-se e rebelam-se contra as forças da reacção, contra o poderes visíveis e ocultos, mas ficariam órfãos e desorientados se essas pérfidas entidades desaparecessem, pois então não poderiam queixar-se ou lutar contra elas.

    Soares, a muito custo, descobriu para a esquerda portuguesa a vontade de estar no poder e de governar, realizar, reformar, construir. Descobriu que tirar o governo à direita era possível. Que revolução na velha cultura política da esquerda em Portugal! Só por isso Soares ficaria para a história. Claro que ele foi, e ainda é, odiado pela esquerda masoquista e paranóica.

    Sócrates recebeu, desenvolveu e modernizou a herança de Soares, aumentando-lhe enormemente a eficácia e a capacidade reformista. Conquistou, além disso, uma maioria absoluta, que lhe permitiu governar quatro anos sem ter que ceder no essencial dos seus objectivos reformistas. Outra revolução! Um governo de esquerda, afinal, não tem de negociar todos os dias as condições de uma precária estabilidade governativa, não tem que trocar queijos limianos por orçamentos nem que perguntar ao sr. Carvalho da Silva se aceita a legislação aprovada pelo governo e pelo parlamento. Só por isso Sócrates já entrou para a história. Claro que ele é odiado pela tal esquerda velha, herdeira do complexo de oposição do salazarismo.

  7. Oh pá ! então o socras resistiu a uma teoria da conspiração criada por ele próprio? Grande mérito , sim senhor . Só faltaria que a criação lhe fugisse das mãos , tipo Frankenstein ·.

  8. Meu caro Valupi as questões de honra e verdade tratam-se nos tribunais, quanto à comunicação social ela não pode só servir os desígnios de quem manda, em todo o mundo sempre foi e será assim, por muito menos demitiram-se Ministros da Grã-Bretanha, só neste País à beira mar plantado é que se procede ao contrário.

  9. Mas sejamos claros

    Só a questão da sua licenciatura é o bastante para me deixar de sobreaviso, basta ler os papéis do homem, é que é inaceitável e vergonhoso o que lá aparece, mas que raio de forma de tirar o curso. Mas isto é um País de bananas? Eu pintava-me de preto e saia fininho de cena , mas a ambição é grande
    Quando ao freeport não especulo, prefiro aguardar, mas que a coisa cheira mal lá isso cheira.
    Mas há mais casos:
    Banca
    Apito Dourado
    Casa Pia
    e tantos mais

  10. Apesar de não me reconhecer reconheco-lhe o mérito de colocar as coisas de forma inteligente só é pena que mal orientado, o futuro dirá

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