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A qual destes dois pedirias ajuda num enrascanço?

Abaixo estão as declarações de Armando Vara à saída da prisão de Évora. Atente-se na racionalidade, objectividade, civismo, lhaneza e sentido de Estado das suas declarações, para as quais apela a que se faça uma verificação em confronto com os factos:

Armando Vara vê saída antecipada como recuo da justiça e diz-se “ilibado”

Compara-se com este número de Manuela Moura Guedes, na SIC, onde acusa Vara de ser o responsável pela recapitalização da CGD em quatro mil milhões de euros, mais o que aconteceu no BCP (não explicita a que se refere), e em que apela à condenação de Vara a 25 anos de cadeia:

Manuela Moura Guedes: “Armando Vara é uma personagem sinistra”

Não é possível terem os dois razão, certo? Preferir a diabolização insana da caluniadora profissional paga pela SIC pode fazer-se sem ser preciso gastar uma caloria a pensar. Aliás, pensar no que diz prejudica o espectáculo que serve ao povoléu. Arriscamo-nos a uma dupla congestão, estomacal e cerebral. Preferir mais um lancinante testemunho de defesa da sua honra e bom nome deixado por Vara só é tragável com recurso às capacidades intelectivas de que formos dotados. E, mesmo aplicando na potência máxima a nossa inteligência, não é garantido que se consiga vencer a pressão de grupo que já condenou o alvo há muitos anos e que continua a linchá-lo no tabloidismo, no editorialismo e nos espaços de opinião mais consumidos em Portugal.

Como os antigos sabiam e ensinaram, a justiça não deve ficar nas mãos dos estúpidos nem dos crápulas.

Nada abala a nossa cobardia

«a Operação Marquês - um tema recorrente nas minhas crónicas - é demasiado importante pelos abalos que pode provocar na democracia, seja na confiança na política, seja na eficácia da justiça.»

Ricardo Costa, Março de 2021

O mano Costa reclama ser um dos maiores especialistas vivos na Operação Marquês. Não só não custa a acreditar como é o seu dever. Lembremos que foi dele a decisão de emitir na SIC interrogatórios produzidos nos estúdios televisivos do Ministério Público. Porque esses interrogatórios tinham algum conteúdo informativo ou noticioso que justificasse o deboche deontológico e a violência mediática sobre os alvos e suas famílias? Não, pá, abre a pestana.

Em Março, nas vésperas da decisão instrutória de Ivo Rosa sobre a Operação Marquês, este génio da análise política quis apostar no preto e no vermelho. Como Ivo Rosa não é dado à copofonia com jornalistas e políticos, o mano Costa não fazia ideia, a um mês de distância, do que iria sair daquela cabeça. Achou que seria uma de duas coisas: a validação das supostas provas de corrupção por um segundo juiz que se iria finalmente elogiar ou a desilusão de aparecer o longamente difamado juiz maluco interessado tão-somente em cumprir a Lei. Mas, mesmo neste último cenário, tal apenas poria em causa a “eficácia” da justiça; isto é, continuava a deixar Sócrates como culpado de corrupção, criava era o aborrecimento de, apesar de se ter concedido tantos recursos e tanto tempo para revirarem as pedras da calçada, o Rosário Teixeira e o Carlos Alexandre acabarem o serviço sem conseguirem montar um caso blindado contra a inteligência, decência e coragem dos Ivos Rosas. É que o tema da “eficácia” da justiça é matéria predilecta do mano Costa. Por exemplo, aquando da condenação de Armando Vara num processo onde não se conseguiu provar directamente qualquer ilegalidade, o craque apareceu ao lado da Manuela Moura Guedes para celebrar a “eficácia” sublime da justiça com esse fulano. Pela primeira vez na história da justiça portuguesa, alguém condenado por tráfico de influência ia ser sujeito a prisão efectiva sem sequer ter sido consumado qualquer tráfico de influência nem se ter encontrado qualquer pagamento do sucateiro no seu bolso. Isto sim, é eficácia de aplaudir e mandar as cartolas ao ar.

Ora, em Outubro de 2021, que é feito dos abalos na democracia causados pelo mais importante processo judicial em Portugal? A publicação de O Recurso, em três lances – a narrativa, o acórdão e o “erro” permite medir o pulso a essa febre. No texto, Sócrates demonstra – pela enésima vez – que os “senhores procuradores” fizeram da Operação Marquês uma coutada onde se divertem a aplicar um Código Penal que eles próprios vão inventando conforme as necessidades de ocasião. Esta denúncia, de facto, está à altura do prometido abalo na democracia. Pelo que, no mínimo, o que se esperava era que a imprensa, o jornalismo de opinião, o comentariado, os sindicatos, as ordens e até os partidos políticos botassem faladura a respeito. Fosse para problematizar as questões em causa ou para achincalhar o autor, como irreversível culpado que é haja ou não provas. Pois o contrário foi o que se registou. Absoluto silêncio, nem sequer meio editorial por desfastio. O ostracismo a funcionar com uma eficácia digna dos encómios do mano Costa.

Algumas personalidades públicas, muito poucas, reclamaram ter lido as 4 mil páginas da acusação a Sócrates e restantes arguidos. A expressão frequentemente usada neste grupo rarefeito nem era a de já terem lido mas a de “estarem a ler”, de “terem chegado a meio”. Altamente significativo foi constatar que inclusive entre os jornalistas retintamente fanáticos dedicados ao processo, como os do Expresso e do Observador, jamais se ouviu ou leu deles algo que pudesse ser exibido como o fumo a sair do cano que chegasse para alguém intelectualmente honesto se render e juntar-se ao linchamento. Como reconheceu o mano Costa, por não ter alternativa ou por distracção, a Operação Marquês está montada em cima de “saltos lógicos e sem recurso a prova direta que juntam as várias pontas do processo“. O mesmo é dizer que estamos perante uma ficção. Uma ficção vitoriosa pois a Operação Marquês é um histórico sucesso para a oligarquia, independentemente do que venha a ser o desfecho final na Justiça. Os alvos estão política, social e financeiramente destruídos ou fortemente inibidos na sua liberdade. A lição foi dada, qualquer sofrimento que ainda possa ser infligido é néctar melífluo para os verdugos.

Quem tiver a curiosidade de ir ao texto do Código Penal para entender o que está em causa no “erro do Ministério Público” a respeito da troca do “artigo 17 pelo 16 da Lei 34/87”, a que Sócrates acrescenta relevantes informações contextuais, vai ficar cara a cara com o “mecanismo” que os “senhores procuradores” montaram para ousarem o que jamais tinha antes sido feito em Portugal: uma gigantesca operação de lawfare, só possível de ser lançada ao se ter a cumplicidade de todos os órgãos de soberania, de todo o sistema partidário e ainda da sociedade. É que nunca houve provas de corrupção, nem podia haver. Se houvesse, era o próprio PS que teria de ser posto no banco dos réus.

A indústria da calúnia depende da cultura da calúnia

Como não existe imprensa em Portugal, nenhum jornalista irá perguntar a Cavaco a que órgãos se referia com estas palavras: “subserviência de parte da comunicação social à lógica do Governo“. Estará a pensar em rádios locais, blogues ou nalgum jornal de escola secundária? Mistério. Onde não há mistério é na reacção que o seu artigo causou. Louçã fez um exacto resumo do fenómeno:

"Ei-lo agora regressado à liça para exigir nada menos do que uma nova liderança para o seu partido (e para o país, pois só a direita merece conduzir Portugal, como nos recorda), cansado de uma “oposição política débil e sem rumo”. O problema é que ninguém gostou disto: os riistas preferem ignorar a bofetada, os rangelistas querem tudo menos evocar esse passado cavaquista que já não dá votos, no Largo do Caldas não há vagar para estas coisas, a extrema-direita tem mais que fazer com a re-re-re-reentronização do chefe, no centro ouve-se o insulto, na esquerda não é prosa popular."

Ouçam o grito amordaçado de Cavaco Silva

Resumo exacto mas incompleto. O que lhe está a faltar de essencial é o que igualmente não se vislumbra em nenhuma outra opinião que tenha encontrado a respeito, um módico sentimento de nojo ou de alarme. Refiro-me à passagem em que Cavaco lança aquilo que só pode ser lido como calúnia tal como o Código Penal a define: “São muitos os portugueses que têm medo de criticar o Governo. Receiam ser prejudicados na sua vida pessoal, profissional ou empresarial, incluindo de familiares, medo de perderem o emprego ou de serem injustamente excluídos de oportunidades de realização pessoal ou de negócios.

Na minha ingenuidade, fico banzo com a ausência de qualquer resposta a este ataque, seja por parte dos visados ou de qualquer outra entidade ou cidadão com acesso aos meios de comunicação social que igualmente se sintam patrioticamente atingidos, dado o estatuto do acusador e a gravidade da acusação. É, literalmente, o vale tudo como norma de intervenção política. Eis-nos perante um exercício de diabolização não só do Governo mas igualmente de todos os restantes órgãos de soberania. Crimes escabrosos, próprios de uma tirania, são cometidos amiúde, às claras, e só Cavaco teve coragem para os denunciar numa folha de jornal. E ficamos calados após se lançar, com foguetes, a barbaridade na “imprensa de referência”?

Há método no delírio, contudo. A diabolização dos socialistas por Cavaco, como lembra Ascenso Simões (que espantosamente foge de afrontar a calúnia), começou no Verão de 2008 a respeito dos Açores, no que ficou como uma das mais bizarras comunicações presidenciais de que há memória; e, acrescento eu, tal estratégia de terra queimada foi sempre em crescendo, passando pelo Face Oculta (espionagem a um primeiro-ministro em funções, sem autorização legal para as escutas), pela Inventona de Belém, pelo afundanço do País na Troika, e culminando na Operação Marquês pela mão de Joana Marques Vidal. Desde há 13 anos, sem interrupção, que Cavaco e a direita, salvo raras e individuais excepções, decidiram fazer o que pudessem para criminalizar socialistas e o PS. Em Outubro de 2021, o plano cavaquista continua o mesmo, vindo de um rancor fétido que já não irá desaparecer enquanto viver, só irá piorar.

Não se poder encontrar uma singular voz com relevância política, social, cívica ou meramente mediática que afronte em nome da Cidade quem tanto lhe quer mal é uma, mais uma, siderante prova de sermos cúmplices da pulharia.

O “fim da impunidade” continua a proporcionar espectáculos assombrosos

Um juiz, que não se chama Ivo Rosa, disse o seguinte num tribunal:

«"Os senhores vão ser todos absolvidos porque não há prova. Olhando para a acusação, como ela está estruturada, a mesma não tinha sentido. Não tem suporte nenhum e custa-me, porque há aqui senhores que se limitaram a dizer: concordo com o parecer."»

A cena passa-se no Tribunal Judicial da Comarca do Porto, a 8 do corrente. Um dos réus que acaba de ouvir a novidade é uma figura grada do PSD. O juiz, depois de se declarar “perplexo” e de carimbar o Ministério Público com o ferrete da “desonestidade intelectual”, continua:

«"Agostinho Branquinho recebeu 225 mil euros mais 10 mil euros, em 2007. E pagou, dois anos depois, 235 mil euros em 2009. Não foi em 2014, quando começa o inquérito. Foi em 2009, seis anos antes do inquérito. Ou os arguidos têm uma grande capacidade de adivinhação, ou, dizer o contrário, não faz sentido nenhum. Tratou-se de um empréstimo de um amigo que foi pago", salientou o presidente do coletivo de juízes.»

Ora, ‘bamos’ lá à continha. Temos uma “acusação do MP sem provas” + “um juiz sem papas na língua” + “um político importante falsamente acusado de crimes económicos” + “um político importante que recebe um avultado empréstimo de um amigo” = silenciamento mediático, indiferença política. Quem quiser encontrar reacções a este episódio terá mais sorte se vier falar com a minha vizinha do 4º andar do que se for procurar em artigos e programas de opinião ou andar a vasculhar editoriais. “No pasa nada“, “circular, circular”, dizem os cromos que determinam a agenda das indignações diárias e semanais.

Dá muito jeito, um jeitaço, controlar a comunicação social e seus efeitos sociológicos e políticos. Como vemos neste caso, onde se abafou mais um dos frutos podres do “fim da impunidade” dado este inquérito ter começado sob a regência da fabulosa Joana Marques Vidal. E entende-se sem esforço a censura colectiva à notoriedade e à potencial reflexão sobre o escândalo, pois quando se utiliza a Justiça para abater adversários políticos, quando há vinganças em curso e a continuação de ganhos eleitorais no horizonte resultantes delas, a última coisa que se quer é deixar passar a imagem de que os procuradores-xerifes são humanos, e que alguns até cometem erros inacreditáveis por razões (ou falta delas) lá deles.

Somos todos cúmplices desta farsa onde um núcleo principal da Justiça é uma arma de arremesso política nas mãos da direita e de vulgares criminosos. E em que o Estado de direito não se cumpre plenamente como guardião dos direitos, da liberdade e da paz na comunidade.

Revolution through evolution

Study examines what makes adult children cut ties with parents
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The ‘natural’ look often requires more time and effort than you think
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Sense of purpose associated with better memory
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Massage doesn’t just make muscles feel better, it makes them heal faster and stronger
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Clean air matters for a healthy brain
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Exceptional learning capacities revealed in some gifted dogs
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In a negotiation, how tough should your first offer be?
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Dominguice

O que é ser racional? Há uma primeira resposta que nos leva para Aristóteles e para o Organon. Nesse conjunto de tratados, encontramos uma descrição filosófica do que se considera a lógica aristotélica ou o “raciocínio lógico”. Aristóteles ensina que um raciocínio lógico produz um conhecimento lógico, a conclusão do silogismo. O facto de ser “lógico” resulta de se poder demonstrar “matematicamente” a sua “racionalidade”; isto é, a sua “lógica”. Neste plano de abstracção, a racionalidade define-se graças a um sistema simbólico fechado na linguagem. Por sua vez, aqui a linguagem limita-se a ser a capacidade de ligar termos numa estrutura de juízos, concepção “científica” com mais de dois mil anos que continua a suportar e inspirar novas construções filosóficas e matemáticas de vanguarda. E há uma segunda resposta que nos leva para os sentidos, para a biologia e para o instinto de sobrevivência e reprodução; ou seja, para a evolução de todos os organismos. Por aqui, a racionalidade humana apenas se distingue da racionalidade animal, vegetal e bacteriana quanto ao volume e tipologia da informação disponível em cada indivíduo e quanto à autoconsciência (que se acredita ser uma característica exclusivamente humana até prova em contrário). Em comum, a identificação da racionalidade com a cognição, nos organismos que suportem actividade mental, e com a informação (característica da Natureza que pode ser igualmente usada para descrever e analisar a constituição das forças físicas que deram origem e moldam o Universo). É racional tudo o que nasça de um, e leve a um, qualquer tipo de organização – donde, a racionalidade é ordem, a irracionalidade é desordem.

O parágrafo anterior será absolutamente inútil para resumir o que seja a racionalidade humana sem esta adenda: nós usamos a própria racionalidade para boicotar a racionalidade própria.

O PS domina a comunicação social, acabou com a democracia e persegue os portugueses de bem, descobriu Cavaco após ter visto filmes policiais

«São muitos os portugueses que têm medo de criticar o Governo. Receiam ser prejudicados na sua vida pessoal, profissional ou empresarial, incluindo de familiares, medo de perderem o emprego ou de serem injustamente excluídos de oportunidades de realização pessoal ou de negócios.

[...]

O silenciamento tem também explicação na subserviência de parte da comunicação social à lógica do Governo, à sua propaganda e desinformação, num claro afastamento dos princípios de independência e de verdade que a devem nortear, o que tem sido publicamente denunciado por conhecedores do sector.

[...]

No passado mês de março, falando numa sessão partidária, lembrei um conjunto de notícias amplamente divulgadas pela comunicação social que nos deixavam uma certa ideia de que o país se encontrava numa situação de “democracia amordaçada”, o que não excluía alguns gritos de alarme que se ouviam. Filmes policiais têm mostrado como uma pessoa amordaçada consegue emitir gritos de socorro.»


Empobrecimento e silenciamento

Rangel+Melo=Ranheta&Facada

Parece que o “novo ciclo” da direita, que Marcelo anda obsessiva e obscenamente a promover (contra o que foi o juramento nas duas tomadas de posse como Presidente da República deste insigne estadista), pode levar à troca do Chicão pelo Nuno Melo e do Rio pelo Paulo Rangel.

A ser assim, Rangel e Melo vão-se atropelar e confundir no bota-abaixo, no populismo, no catastrofismo, na calúnia, na decadência. Porquê? Por duas fatais razões que se alimentam uma à outra: têm alergia à decência e vão tentar ultrapassar por baixo o seu adversário principal, o cocó do Ventura que quer continuar a sangrar o PSD e o CDS.

Ocasião para os eleitores do PCP e do BE pedirem inteligência dialéctica aos seus dirigentes. Se for preciso, ofereçam aos respectivos líderes textos do Marx com notas explicativas, pois suspeito que já os perderam faz tempo ou que nunca chegaram a entender as ideias do tal senhor.

Nas muralhas da cidade

Fuga de João Rendeiro: “Não é preciso alterar a lei”, defende advogado Paulo Saragoça da Matta

NOTA

Embora o PS seja o pilar mais importante do regime, por ser o partido que melhor defende os princípios da Constituição e as promessas de Abril, não voto nos socialistas para o Parlamento (à excepção de 2011, conjuntura extraordinária) por causa do tema da Justiça. Acho inadmissível que nem neste partido seja possível encontrar respostas à pergunta “como tornar mais rápido o trabalho dos tribunais?” E não considero que a área penal seja a que carece de rapidez com maior urgência, antes, tal como nesta intervenção refere Paulo Saragoça da Matta, as primeiras soluções deveriam ir para as áreas tributária e civil. Porque, pese a violência da demora num processo judicial penal, especialmente para as vítimas dos crimes e para os inocentes que sejam acusados, os danos económicos, sociais, psicológicos e até culturais dos atrasos nas restantes dimensões da Justiça são avassaladores.

Realce ainda para a estocada final onde este advogado aponta ao populismo e à indústria da calúnia que enche os bolsos e a vaidade a tantas vedetas da TV. Infelizmente, não nomeando os alvos, o seu golpe não foi fatal, apenas deixou um arranhão invisível naqueles que se sabem atingidos.

Moedas, a funcionar como aldrabão desde 2011

«"Creio que me subestimaram", diz Carlos Moedas "Acredito que as pessoas querem figuras diferentes na política e eu sou essa mudança. Não sou de golpes baixos, ataco o conteúdo e as ideias dos meus adversários”, disse o social-democrata em entrevista ao El País.

Na entrevista, Carlos Moedas ainda foi confrontado com o seu passado como membro do governo de Passos Coelho. “Nenhum outro governo teria feito diferente”, defendeu o futuro presidente da câmara de Lisboa. "Não havia alternativa, não tínhamos dinheiro para pagar aos funcionários ou aos professores. Sabíamos que seríamos impopulares, mas não tivemos escolha, entrámos no programa da troika e saímos. Isso deu-nos a oportunidade de crescer, que foi o que aconteceu quando chegou outro governo ”, acrescenta Carlos Moedas.»

Moedas, 2021, idos de Outubro

«Segundo Carlos Moedas, que é um dos principais conselheiros do presidente do PSD, Pedro Passos Coelho, os mercados "olham para uma nova equipa de gestão como uma boa notícia", porque "há muito tempo não dão credibilidade ao Governo português".

No seu entender, "assim que os mercados incorporem a informação de que o PSD vai respeitar as metas do défice, e fará tudo o que for necessário para que se cumpram essas metas, até porque foi o PSD que sempre anda atrás do Governo para cortar, essas agências voltarão a dar credibilidade a Portugal".

“Com as reformas que o PSD vai implementar, eu digo-lhe que ainda vão subir o ‘rating’, não sei se nos próximos 6 meses, se nos próximos 12 meses.”»

Moedas, 2011, idos de Março

Estado da República

«A precipitação no anúncio da exoneração por parte do governo, neste caso o Ministério da Defesa, levou a que o Presidente chamasse a Belém o primeiro-ministro para uma reunião que foi percecionada pela opinião pública como uma espécie de "puxão de orelhas". Marcelo Rebelo de Sousa não se ficou. Mostrou quem manda, ou seja, quem é o chefe supremo das Forças Armadas. Não só foi um ato de coragem política, como soube ler nas entrelinhas todo o mal-estar que a saída antecipada do almirante Mendes Calado estava a provocar entre os militares. A saída já estaria acordada, bem como o nome de Gouveia e Melo sinalizado para o cargo, mas no timing definido. Sem mudar as regras do jogo a meio da partida. Marcelo é implacável perante situações deste tipo. Institucionalista por natureza, colocou o respeito e o dever perante as instituições militares onde deveriam sempre ter estado, no topo das prioridades.

No meio de tanta guerra política, egos e protagonismos, táticas e jogos de poder, parece-me que o mais importante é discutir o que é realmente melhor para as Forças Armadas e, já agora, não permitir que, depois de tanto esforço na task force, a imagem e a credibilidade de Gouveia e Melo saia beliscada de tudo isto. Contrariando Maquiavel, nem todos os fins justificam os meios.»

Rosália Amorim

O estado da República pode medir-se por qualquer ponto de vista à escolha do freguês. Neste excerto acima, um editorial, tropeçamos num conjunto de palavras absurdo, mentiroso e, acima e antes de tudo, infantilóide. Resume-se o discurso chaleiro a esta expressão: Marcelo “mostrou quem manda“.

Se formos para a rua contar quem consegue dizer como é que Rosália Amorim ganha a vida, teremos de acumular 999 “não faço ideia porque não sei quem seja” até chegarmos a um “é directora de um jornal de referência, fundado em 1864”. Trago o seu exemplo porque ele representa o conjunto dos órgãos de comunicação social portugueses enquanto agentes políticos ao serviço de quem paga as contas. Obviamente, ninguém encomendou o panegírico de Marcelo à senhora, a coisa não funciona assim. Ela pensou nisto pela sua própria cabeça, incluindo a parte em que acha que foi o Presidente a chamar o primeiro-ministro para o puxão de orelhas. Não, a coisa funciona ao contrário: é por esta Rosália ser dada à sabujice a favor de Marcelo e quejandos que foi escolhida para o cargo que ocupa e onde a deixam despachar copiosos editoriais que são hipnóticos monumentos à vacuidade.

Dir-se-ia que a infeliz personagem e a sua produção intelectual em nada se relacionam com o estado da República. Discordo. Quando se atinge este nível de indigência à frente do DN, fazendo aberta e imbecil propaganda ao presidencialismo do regime, a República fica com mais um franco-atirador a disparar contra a sede da liberdade e da democracia: a sua Assembleia.

Serviço público

Está de parabéns a Marisa Matias, e o Observador, por dar este testemunho tão importante no combate ao estigma da doença mental.

Como nota lateral, foi fácil perceber que a Marisa estava diminuída no ânimo durante a campanha eleitoral, mas era impossível só por esse aspecto exterior e redutor chegar a um diagnóstico de patologia mental. Daí a complexidade e melindre, a começar para os próprios e próximos, desta dimensão da nossa saúde.

Revolution through evolution

Spouses really are together in sickness and in health suggests new study
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Science backs nature as key to children’s health
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Paradigm shift in treatment of type 2 diabetes to focus on weight loss
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Dental care: The best, worst and unproven tools to care for your teeth
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Higher intakes of dairy fat were not associated with an increased risk of death
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Children who eat more fruit and veggies have better mental health
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Study finds people enjoy deep conversations with strangers
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Dominguice

A abstenção é a causa principal para a surpreendente derrota de Medina em Lisboa, se começarmos por ser apenas descritivos. O voto em Moedas foi igual ao da direita em eleições passadas, somando os partidos coligados, enquanto o incumbente viu desaparecerem 25 mil votos. Quer dizer que a direita não cresceu, o PS é que mirrou. A partir daqui, dois automatismos preenchem os espaços de opinião: (i) usar a abstenção e seu efeito em Lisboa para lhe impor uma intencionalidade laranja (no caso, a de ser prova do falhanço executivo dos socialistas no governo da Câmara e do País e sinal do “novo ciclo”), (ii) e fazer da abstenção um monstro inofensivo e familiar, pois a cada acto eleitoral o monstro é fonte de alarme, e esse alarme é fonte de indiferença até para os alarmistas. Alguns destes, no delírio de acharem que têm coisas para dizer que valham o tempo que demora a ouvi-las, não perdem a oportunidade para meter a cassete do “voto obrigatório”, um castigo que gostariam de ver aplicado sem piedade a esses milhões de madraços que preferem ficar em casa ou andarem a passear em vez de irem meter um voto branco ou nulo nas urnas.

A falta de imaginação é característica fatal do nosso comentariado. Daí não se ter falado num outro sentido possível para a abstenção em Lisboa: ser uma manifestação de agrado com Medina e um efeito da confiança desses cidadãos no regime democrático. Para a primeira possibilidade, temos o conjunto de todas as sondagens anteriores à votação que mostravam isso mesmo. Para a segunda, temos as estatísticas internacionais que mostram ser inevitável o aumento da abstenção à medida que as democracias vão ficando consolidadas, previsíveis, fiáveis. Não é, para uma fatia muito larga dos abstencionistas, por recusarem a democracia ou ela lhes ser indiferente que não votam, precisamente ao contrário: identificam-se tanto com os valores democráticos, e confiam tanto nos representantes políticos, que deixaram de se preocupar com assuntos para os quais não têm interesse ou disponibilidade cognitiva suficiente na ocasião. Se juntarmos a este quadro a evidência de que é preferível não ter votos nascidos da ignorância, do fanatismo ou da doença mental, antes da informação, da inteligência e da reflexão, quase que acabamos como qualquer cientista político desde Platão – a fazer figas para que a abstenção seja cada vez maior.

Exactissimamente

«As declarações de Rui Rio na noite eleitoral são, em si mesmas, a confissão da sua fragilidade. Mais do que falar para o país, luta contra os opositores internos. Sem ideias ou propostas, é apenas um homem zangado. Sorte sua que, a altas horas da madrugada, poucos tenham assistido.

Quanto ao PCP, apesar de ter reduzido a votação e as câmaras conquistadas, consolida-se como terceiro partido do panorama autárquico, mantendo importantes municípios a sul do Tejo.

Já o Bloco de Esquerda, pese embora os seus já 22 anos de história, dispõe ainda de uma fraca implantação autárquica. Está, por isso, mais sujeito às lógicas nacionais e poderá ter sido prejudicado por se ter aliado à direita no voto contra o Orçamento do Estado. Espera-se agora uma reflexão, necessária para que seja possível voltar a contribuir para uma governação à esquerda.

Note-se ainda que a extrema-direita ficou longe dos seus objetivos. Mantém-se um partido unipessoal, com uma legião devota de seguidores, mas sem a menor capacidade para apresentar propostas ou candidatos credíveis. Que ainda assim consiga obter resultados relevantes em alguns municípios é sintoma de problemas que os partidos democráticos têm de saber encarar. Mas, ao contrário da extrema-direita, devem fazê-lo com soluções justas e inclusivas.

Nesse sentido, seria bom que o PSD se mantivesse fiel ao seu legado democrático e não lançasse achas para a fogueira dos extremismos. Primeiro criou André Ventura, depois legitimou o seu partido com o acordo nos Açores, e agora, em troco de um punhado de votos, escolheu uma sósia política de Ventura para a Amadora.

Rui Rio precisava de sobreviver a estas eleições. Seria bom que não o tivesse feito à custa dos valores.»


152 câmaras

Terá Ivo Rosa vindo de Alpha Centauri?

A interpretação das provas recolhidas na Operação Marquês gerou duas posições radicalmente diferentes, a da acusação e a do juiz de instrução. A diferença é tão grande, foi tão longa e exaustivamente ponderada por ambas as partes, resulta tão monumentalmente consequente, que não se explica por um acaso estatístico resultante de variações cognitivas nos decisores.

Quem quiser dar sentido ao abismo judicial que constitui a Operação Marquês desde o seu início terá de abandonar a hermenêutica do Direito e olhar para o tabuleiro do jogo na sua totalidade. Nessa contemplação, a Operação Marquês surge como um processo político logo em Julho de 2014, quando ainda nem sequer havia arguidos constituídos nem se conhecia a sua denominação – e é um processo político em 2013, quiçá mesmo em 2012, quando uma procuradora-geral da República escolhida por um certo Presidente da República e um certo primeiro-ministro dá luz verde para montar a caçada ao alvo supremo da direita. Depois, a Operação Marquês é explorada mediática e politicamente pelo calendário escolhido para a detenção de Sócrates (em cima do congresso socialista que entronizava Costa e abria um ano eleitoral), pelo plano de o prender preventivamente numa cadeia pelo máximo de tempo possível, e pelos crimes cometidos pelos procuradores do processo e, muito provavelmente, pelo juiz Carlos Alexandre. Vou repetir: houve crimes cometidos pelos procuradores do processo e, muito provavelmente, pelo juiz Carlos Alexandre. Crimes, ilegalidades e abusos da lei. Basta lembrar que a violação do segredo de justiça é crime. Tudo isto está documentado, nada disto foi investigado. Quanto a Ivo Rosa, o assassinato de carácter de que é alvo não consegue associar-lhe qualquer crime, sequer ilegalidades, pois os ataques são dirigidos ao seu respeito escrupuloso pela Constituição e pelos direitos das defesas (como, de resto, é sua obrigação e finalidade). Quando leu o resumo da decisão instrutória sobre a Operação Marquês gastou 3 horas a fundamentar e detalhar a incompetência, má-fé e intencionalidade conventicular do Ministério Público naquele processo. O que disse foi à prova de estúpidos.

O regime, a sociedade e a comunidade alinharam com o sensacionalismo, com o tribalismo, com o ódio. Aprovaram o auto-de-fé, juntaram-se ao linchamento. Nesse sentido, a Operação Marquês foi um inaudito e histórico sucesso da oligarquia portuguesa. Mas não é, nunca foi, uma investigação onde se quisesse proteger os direitos dos arguidos e dos acusados, sequer das testemunhas, e onde se quisesse descobrir a verdade. O próximo juiz, ou conjunto de juízes, que se pronunciar sobre o caso irá revelar quão grave é a anomia da Grei ou, em alternativa, se há esperança de Ivo Rosa não ser um extraterrestre.

O “novo ciclo” não precisa de ideias, só de idiotas

A grande ironia das autárquicas consiste em a “reconquista” (ahahahahah) do PSD ter enterrado ainda mais a direita. É que estava tudo montado para a defenestração de Rio. Se tal acontecesse com algo parecido aos resultados de 2017, os impérios mediáticos do laranjal diriam que a causa estava na fraqueza irremediável de Rio e na malignidade de Costa, o qual tinha andado a prometer milhões ao povoléu assim comprando os votos. Se tal acontecesse com resultados um bocadinho melhores do que 2017, o discurso seria a da fraqueza irremediável de Rio e o azar de Moedas ter sofrido os efeitos da demagogia do primeiro-ministro. Como os resultados aparentam ser bem melhores do que os de 2017 (embora continuem a ser uma estrondosa derrota), e caiu do céu a coroa de glória da vitória em Lisboa, a converseta é a de estarmos perante um “novo ciclo”. Problema: esse “novo ciclo” em caso algum pode ser protagonizado por Rio mas, entretanto, quem avançar contra ele agora arrisca a queimar-se, existindo o temor de o homem se aguentar até às próximas legislativas. Problema ainda maior: Moedas anunciou que “fez história” pelo simples facto de a lotaria eleitoral lhe ter dado a vitória, o que permite antecipar que o resto da sua passagem pela Câmara de Lisboa já pertencerá a outro campeonato, o das historietas e anedotas que irão nascer da sua impotência.

A direita portuguesa beneficia do domínio a toda a extensão da paisagem mediática, vendo-se os editorialistas e jornalistas “de referência” num esforço constante para projectarem negatividades no PS e Governo e para apoiarem os seus amigos e favoritos, mais os favoritos e amigos de quem paga as contas nesses órgãos de comunicação social (excepção para a RTP, em que somos todos nós a pagar essas contas para as vedetas da estação brincarem ao sectarismo). Só assim se explica a decadência, a obscenidade, de vermos Marcelo a alimentar um putativo “novo ciclo” onde políticos que não conseguem ter uma única ideia que valha a pena discutir vão finalmente conseguir substituir outros políticos cuja dedicação à causa pública e cujo cuidado com a comunidade foram, são e serão sistematicamente achincalhados e emporcalhados.