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Governo Fantoche

Não tenho acesso aos números das audiências dos programas televisivos de comentário político (se alguém tiver, é mandar, faxavor), apenas sei que quem comenta em canal aberto tem muito mais espectadores do que nos canais por cabo. Por exemplo, Marques Mendes e Paulo Portas têm acesso a multidões inacessíveis para os seus pares dos canais apenas de notícias no cabo. Noutro e recentíssimo exemplo, a passagem do “Governo Sombra” da TVI24 para a SIC terá resultado numa multiplicação por 8 da audiência, calculando-se terem captado 360 mil espectadores para a primeira emissão no novo poiso.

O que igualmente oferece poucas dúvidas é a vantagem de mascarar como humorístico ou independente, partidariamente neutro, um espaço que depois servirá para típicos comentários – e ataques – políticos. Enquanto um político interventivo no espaço público vê a sua influência condicionada e limitada pela militância partidária ou representação institucional, quem se apresente na arena política apenas como representante de si próprio tem plena maleabilidade para oportunas e oportunistas mudanças de opinião sem que o seu estatuto de comentador “genuinamente livre” fique afectado. Todavia, esta plasticidade opinativa tem como contrapartida ser a manifestação de uma inutilidade legislativa e governativa. Quem faz da política apenas um exercício retórico não puxa carroça executiva, não assume responsabilidades institucionais na República, torna-se é um profissional do espectáculo – e exibe o programa de encher o bolso como primeira e última ideologia.

Os três artistas que protagonizam o “Governo Sombra” dividem-se na forma como desenham publicamente o seu papel político. João Miguel Tavares é aquele que se projecta como superior e decisivo juiz moral da classe política, e do regime, enquanto Pedro Mexia e Ricardo Araújo Pereira desvalorizam e menorizam essa influência e preferem mascarar-se de comediantes. Na verdade, na prática, cada um deles é uma vedeta política para além de vedeta mediática. O Ricardo chegou a usar os Gato Fedorento para atacar o PNR quando ainda era mais esquerdista do que rico, e desde que atribuiu a Sócrates a perda do seu dinheiro no BES que se tornou numa coqueluche da direita fanática e bronca (o mesmo fenómeno ocorrendo com mais dois fedorentos). O Pedro participou na elaboração do fantástico programa eleitoral com que o CDS obteve em 2019 o maravilhoso resultado de 4,25% dos votos, por pouco não sendo ultrapassado pelo PAN. E o João Miguel tem sido usado por diversos políticos de diversos quadrantes para diversos fins, chegando ao cúmulo de ter recebido honras de Estado por tal e para tal, o que o deixa extasiante de jactância e proveito pecuniário.

A mistura entre política e espectáculo é neste grupo uma perfeita e imunda mistela. Daí a inevitável hipocrisia e sonsaria com que se retratam:

«Chegam à casa de um fundador do PSD, e antigo primeiro-ministro [Francisco Pinto Balsemão], e cujo diretor-geral de informação é meio-irmão do primeiro-ministro António Costa. Isso não vos condiciona?
R.A.P. — Sabe, não temos Deus nem amos. O programa é, na melhor das hipóteses, uma conversa de café sofisticada. Ninguém aqui tem uma agenda ou está a fazer algum favor.
J.M.T. — Temos uma coisa especial neste programa: ninguém faz contas de cabeça. Ninguém está a pensar no que pode obter, em quem é que vai influenciar. Simplesmente dizemos aquilo que achamos. Isso é muito raro de encontrar.» <- Fonte

O caluniador profissional acha “muito raro de encontrar” quem diga aquilo que acha. E ficamos nós também sem achar o que lhe dizer, pois pode ser doença e não se deve gozar. O mais provável, sem arriscar muito, é ser deslumbramento narcísico e essa pulsão populista básica em que se mercadeja como vox populi para perseguir certos alvos políticos de quem lhe paga. Quanto ao brilhante humorista, ao se permitir desbundar com o patego apregoando uma delirante – e ostensivamente insultuosa – pureza política no “Governo Sombra”, este marmanjão está, na melhor das hipóteses, a exibir uma gula política cada vez mais sofisticada.

Precisamos de recorrer à outra metade da trupe para encontrar um diagnóstico involuntariamente curial, logo seguido de obsceno spin:

C.V.M. — Em relação ao “Governo Sombra”, no Twitter há alguma acidez. É curioso, porque era muito consensual, mas as coisas mudaram no período de Passos Coelho.
P.M. — Hoje ninguém é consensual, com esta coisa do ofendidismo. Tudo o que dizemos pode ofender alguém.

Carlos Vaz Marques usa o Twitter como barómetro e é objectivo na análise. O período de Passos Coelho alterou a percepção e inerentes reacções na opinião pública. Terá então mudado alguma coisa na substância, no posicionamento, do “Governo Sombra” pois não consta que o fenómeno tenha nascido por obra e graça do “homem invulgar”. O que foi? O sr. Marques nada nos diz a respeito, claro. Nem nunca dirá, ou só quando escrever as memórias.

Pedro Mexia chuta para canto e simula ser um calhau com dois olhos que não faz ideia do que o Sr. Marques estava a falar. Acontece que este nosso poeta é um autêntico pedreiro no que toca à repetição dos tropos sectários com que ataca o PS, daí apagar imediatamente da fotografia o tal Passos Coelho quinto elemento gasoso do programa. O problema passa a ser uma coisa a que chama “ofendidismo” e que só existe na sua poética manhosa.

O “Governo Sombra” é um grande sucesso mediático, a equipa que o faz merece legítimos parabéns por isso. Depende do talento do Ricardo Araújo Pereira, sem o qual teria sido outra coisa, e é absolutamente banal e bondoso no seu conceito: usar diferentes registos de humor para fazer crítica política e social despretensiosa de largo espectro. Há público, e muito, para essa descontracção e foi no plano do divertimento que o programa captou a sua crescente popularidade ao longo dos anos. E depois veio Passos Coelho, de facto – isto é, depois veio Sócrates e a maior caçada que o regime fez a um cidadão em democracia. Uma caçada que envolveu directamente um primeiro-ministro, uma ministra da Justiça, um Presidente da República e uma procuradora-geral da República. Uma caçada onde os protagonistas do programa quiseram voluntariamente tomar parte, passando a explorar e amplificar os crimes e linchamentos ocorridos na Justiça e nos órgão de comunicação social engajados. Ver o Ricardo, o Pedro e o Carlos (o outro não conta, como assumido pulha que é) a usarem violações da privacidade para fazerem deturpações canalhas, assim validando os propósitos da judicialização da política e promovendo o pior do sensacionalismo, é vexante para a comunidade que somos. Isso, amiguinhos e palhaços, deixou de ter graça.

O Sr. Araújo encerra a entrevista ao Expresso aqui citada com um eufemismo: “Vai ser a mesma fantochada. Essa garantia podemos dar.” Não temos qualquer dificuldade em acreditar nas suas palavras. Que estamos perante fantoches é evidente, lá está, desde o período de Passos Coelho.

A coragem republicana que a imprensa portuguesa nem sequer cita

Primeiro pensei que Carlos Alexandre queria ouvir António Costa na instrução do processo de Tancos, destituindo-o da proteção do cargo de Primeiro-Ministro, como que colocando-o neste processo como um cidadão comum e não como alguém que teve ou não teve acesso a algum conhecimento relevante sobre ocaso no exercício de funções públicas e colocando-o perante um juiz de instrução que tem do seu exercício da função uma concepção que está longe de ser institucionalista.
Pensei que Carlos Alexandre queria que essa audição fosse feita em condições que permitissem - nunca se saberia por culpa de quem, porque isso nunca é apurado - uma fuga de informação, uma divulgação seletiva de perguntas e respostas que lhe preenchessem o ego, o fizessem sentir o homem do dia. Dados os seus antecedentes, quiçá o momento em que chamaria à testemunha Senhor António ou pelo menos apareceria no Correio da Manhã um interrogatório à testemunha que lhe permitisse fazer o que a acusação entendeu não fazer.
Nesse quadro, a negativa que recebeu do Conselho de Estado acautelou a dignidade quer da instrução do processo, quer do recato em que o juiz deve intervir, quer ainda a dignidade da função de Primeiro-Ministro. Foi uma rotunda recusa da justiça-espetáculo e da perversa coligação entre magistraturas populistas e jornalistas sensacionalistas que corrói as instituições democráticas e a própria justiça.
Lendo o artigo do Público sobre a insistência de Carlos Alexandre mudei de opinião. Ele nunca quis ouvir a testemunha António Costa. Quer apenas produzir o ruído que lhe permita aparecer nas notícias como o justiceiro a quem os poderosos negaram os meios de ação. Se o seu primeiro pedido era desafiante, o segundo é meramente político-mediático e visa, no limite, negar a Azeredo Lopes a possibilidade de beneficiar da testemunha que indicou, fazendo do juíz no mais típico género populista a vítima dos poderosos. No fundo, este segundo pedido do juíz é um ataque às condições de defesa de um arguido e um gesto cem por cento político destinado ao espaço público.
As magistraturas auto regulam-se. Se permitem, toleram ou encorajam este tipo de atuação é algo que não é irrelevante.
Mas a opinião pública que não denuncie este tipo de atitude é cúmplice da hipocrisia - e talvez receio - com que no espaço público se fala de justiça e política. Bem sei que o próprio António Costa adora repetir a frase “à justiça o que é da justiça, à política o que é da política” em contextos em que pretende proteger-se pessoalmente de um juízo crítico sobre a justiça que também lhe compete como Primeiro-Ministro, líder partidário e deputado eleito. Mas desta vez é ele a vítima da tentativa de fazer política em nome da justiça. Este gesto de Carlos Alexandre não é um desafio ao Conselho de Estado, é uma provocação à separação de poderes e, se resultar na inviabilização do testemunho de António Costa nas condições que a lei permite, um ataque ao direito de defesa de um arguido.
Depois disto só continuará a pensar ingenuamente a relação entre certos agentes da justiça e a política quem quiser. E nunca esqueçam que para o mundo piorar basta os bons ficarem silenciosos.


Paulo Pedroso

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Nota

A única referência que encontrei a este texto em qualquer órgão de comunicação social (ignoro se foi referido em programas radiofónicos e televisivos), se bem interpreto, está num editorial raivoso do Dâmaso do dia 16, onde se lê:

«Para eleitores que toda uma vida votaram à esquerda mas se recusam a ser tratados como carneiros, chega a ser insultuosa a forma como esse PS agregado em Sócrates, mas também em Ferro Rodrigues, como Paulo Pedroso e outros, tentam fazer tiro ao boneco contra o juiz Carlos Alexandre.» <- Fonte

Este general da Cofina repete a cassete de ser Carlos Alexandre o herói da luta contra o mal socrático, a ameaça socialista. E consegue a proeza de juntar Ferro Rodrigues e Paulo Pedroso nos seus alvos a abater. Vindo de quem ganha muito dinheiro à custa de crimes e indecências, alguém que usa a carteira de jornalista para fazer baixa política e conspurcar o espaço público ao serviço de uma agenda política decadente, também aqui se aplica o repto com que o texto acima termina.

Revolution through evolution

Women in leadership positions face more sexual harassment
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Having less sex linked to earlier menopause
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The ‘male-services’ hypothesis
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How coworkers impact the value of your skills
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Walnuts may be good for the gut and help promote heart health
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The way you dance is unique, and computers can tell it’s you
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African grey parrots spontaneously ‘lend a wing’
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A derrota de Rui Rio

O PSD é o partido mais divertido em Portugal. Voltou a acontecer com estas eleições internas onde o passismo foi derrotado apesar da soberba pressão mediática a seu favor (entretanto, a Impresa meteu os cães no canil, o que valeu a Balsemão um especial agradecimento nesta noite). Quem humilhou a falange passista é um autêntico bimbo político, para a gozação – e a lição – ser ainda maior.

Mas a lição, que não vai servir aos derrotados, interessa à ciência política e à sociologia. Os resultados mostram que a maioria do partido não se identifica com o fanatismo, sectarismo e estratégia do ódio de jovens turcos e velhos do Restelo. Isto lembra o ambiente vivido no PSD quando Passos chegou a presidente, em que existia uma expectativa de abandono do cavaquismo, então representado por Ferreira Leite, Aguiar-Branco e Paulo Rangel. Desejava-se um Sócrates laranja, literalmente, e Passos era quem mais se aproximava do referente pelo visual arejado na comparação, e ainda pela promessa de não estar, nem vir a ficar, no bolso do Aníbal. Depois, viu-se que o PSD subia nas sondagens de cada vez que o PSD permitia ao PS continuar a governar, especialmente para a aprovação do Orçamento de 2011, significando que o eleitorado do PS e do PSD, na sua enorme maioria, queria exactamente o mesmo para o País. Quer inteligência na moderação, moderação no antagonismo, porque esta massa, colectivamente apesar das inúmeras disparidades individuais, procura a segurança como valor supremo da escolha política. Eis o real, estrutural, centrão.

Infelizmente, Rui Rio é um líder fraco. Está apaixonado por si próprio e já não parece que se venha a livrar dessa adolescência em tempo útil. O seu discurso e comportamento não é credível, bastando recordar a campanha que fez para as legislativas para sabermos que a sua palavra não vale nada. O que disse sobre o afastamento entre os cidadãos e os partidos, e a solução que apresentou às três pancadas, é hilariante. E trágico. Porque a tragédia da democracia não está na multiplicidade de candidatos ou na inépcia dos que votam – está sempre, sempre, sempre nos líderes. O afastamento entre os cidadãos e os partidos até poderá ser um sinal de saúde e maturidade democrática, ter um pantomineiro a mandar na barraca é que nos deixa à beira da tragédia.

A propósito de um preso político em Portugal

Liberdade condicional

A liberdade condicional não é um instrumento de tortura psicológica: não deve nem pode servir para forçar uma confissão ou encenar um arrependimento. O relevo da não confissão ou da falta de arrependimento já foi sopesado na concreta aplicação da medida da pena. Surpreende, pois, que seja um argumento para negar a concessão dessa liberdade a quem sempre negou a prática do crime pelo qual foi condenado.


A.R.

Ao menos, que servissem para uma matrícula gira

Vêm aí novas matrículas para as viaturas, levando a que nos automóveis se passe do modelo 00-AA-00 para o AA-00-AA. Isto significa que a duplicação dos símbolos alfabéticos passa a permitir as mais variadas conjugações que serão lidas isoladamente como vocábulos. De imediato fica evidente que nunca veremos em circulação estas matrículas e respectivas séries numéricas: PU-00-TA, CO-00-NA, FO-00-DA, FO-00-DE e FO-00-DI. Por outro lado, talvez permitam a ZE-69-TO e a TO-69-ZE com potencial valor comercial por si mesmas entre a rapaziada antónia da night – ou as românticas EU-00-TU e TU-00-EU e as LU-00-XO e GU-00-RU para todos os géneros e estilos de vida aspiracionais.

O decreto-lei da nova regulamentação indica isso mesmo, lendo-se “Importa referir que através deste novo modelo de chapas de matrícula será possível estabilizar o processo de produção de matrículas durante um longo período, sendo possível estimar como tempo máximo possível de utilização do modelo AA-00-AA cerca de 74 anos, o qual, ainda que venha ser reduzido, nomeadamente pela não utilização de combinações que possam formar palavras ou siglas que se entenda dever evitar, terá uma duração de utilização previsível de 45 anos.” O que não encontrei, pelo menos na minha leitura diagonal do documento, foi a explicitação a respeito de quem, e como, exercerá a autoridade semântica. É que há muitos casos que merecem debate nacional.

Vejamos alguns que ainda parecem consensuais:
SEXO
MAMA
RABO
PILA
ANAL
TUSA
ISIS
SIDA

Mas que dizer de:
COCO
XIXI
ROTO
BICO
TESO
TOTO
ICAR?

Ou de:
METE
TIRA
CUCU
IRRA
FOGE
ARRE
LAVA
LEVA
NABO?

Não pretendo gastar as opções – as quais ultrapassam a língua portuguesa, pois igualmente nunca veremos uma FU-00-CK em circulação ou estacionada – pretendo é que a GR-00-EI se envolva na discussão de um assunto inquestionavelmente mais ponderoso de consequências sociais do que o merecidamente paupérrimo e indigno espectáculo oferecido pelo PSD e CDS chegados a 2020. Dois partidos que nem para criar matrículas servem.

A sabedoria do marechal

Francisco Louçã deixou no Expresso o plano estratégico que o BE deve seguir na primeira metade da legislatura: Um pavio curto não alumia. O conselho (ordem?) é para usar pavios longos, contendo o impulso para dinamitar à pressa a relação com o PS e afastando a pulsão de atacar o PCP à bomba. Há tempo para tudo, como ensinam Louçã e o Eclesiastes, e este é o da espera. Esperar para ver e esperar na promessa de virem tempos melhores. Por exemplo, quando Centeno sair do palácio e o rei voltar a precisar dos camponeses e marinheiros da “esquerda grande” para cumprir a profecia, fazer nascer a abundância sem fim e a paz entre o leão e o cordeiro.

Trata-se, pragmaticamente, de um exercício pedagógico em que expõe as razões principais para escolher a via da passividade, condição de qualquer processo negocial. Negoceia-se para evitar o combate ou lhe pôr fim. Negoceia-se apenas quando se baixam as armas; com elas levantadas só há chantagem, emboscadas ou duelos. É assim, assim será até ao fim das eras. Em concomitância, trata-se de um atestado de vida do acordo entre as esquerdas parlamentares – novel de 4 anos e pouco no regime em vias de fazer 46. Louçã defende um futuro onde mais do mesmo, entalando os seus entre o PS e o PCP, será garantia de boas novidades. Para tal, há que ir desenvolvendo entre os bloquistas uma cultura estratégica da maturidade, feita de resistência e controlo emocional para que a luz da inteligência permita aos generais ver todo o campo da batalha e não só a zona da primeira escaramuça. Sábias e clássicas palavras.

Claro, podemos de imediato lembrar que quem assim fala ostenta no seu currículo exactamente o oposto gravado a ferro e fogo. Quando teve mais 100 mil votos do que o PCP, e esteve a 30 e tal mil de ultrapassar o CDS e ficar como a terceira força política no Parlamento, em 2009, Louçã apareceu em êxtase a garantir que os amanhãs que cantam já se ouviam ainda o Sol não tinha nascido. Era ele o vencedor da noite, o David que tinha acertado com os professores e seus familiares em cheio no monstro socialista, aquele que tinha tirado a primeira e única maioria ao PS e deixado Sócrates por terra a sangrar, sem se poder defender do próximo e fatal golpe. E assim foi, ninguém se deve esquecer. Menos de dois anos depois da alvorada que vinha mudar a esquerda portuguesa para sempre, lá vimos o grande Louçã a usar os votos de 2009 para ajudar Passos, Relvas, Portas e o FMI a receberem numa bandeja de prata um pobre e atarantado país. Cumpriu o seu sonho mais húmido, deu realmente cabo do PS. Quanto aos danos colaterais, nunca até hoje por eles se responsabilizou, nunca pediu desculpa pelo tamanho do pavio usado ao serviço da pior direita que conhecemos em democracia.

O exemplo de Louçã é optimista apesar da desgraça de que é cúmplice. Significa que podemos ter fundada esperança na aprendizagem dos cérebros humanos. E dá razão a Agostinho de Hipona, o qual considerava que o pecado original ou tinha sido o fruto da estupidez ou do orgulho. No fundo, uma concupiscência. Desvairos de uma juventude então com 54 aninhos.

Alta depressão

No princípio do ano passado, finalmente alguém fez as contas à filiação partidária do comentariado em Portugal. O resultado não pode ter surpreendido vivalma, pois basta consumir a comunicação social nacional para ter empiricamente feito a mesma contagem há décadas. A existir motivo para reparo ele está na modéstia com que se objectiva a diferença entre direita e esquerda. A influência dos comentadores isolados é apenas uma parte, e menor, do sistema onde estes actuam; o qual condiciona editorialmente quase toda a informação que se produz profissionalmente – a escolha das notícias, o tratamento enviesado, o seu alinhamento e as figuras que as comentam, factores que a entrar na aludida contabilidade pintariam um quadro onde a direita tem sido esmagadoramente dominante no condicionamento da opinião pública desde que o Público deu início à perseguição a Sócrates e ao PS para se vingar da OPA falhada à PT. Até a informação da RTP tem estado na mão da direita, como os nomes de Judite Sousa, José Rodrigues dos Santos, Vítor Gonçalves e João Adelino Faria, entre outros, deixam patente. E precisamente por causa deste domínio ubíquo foi possível manter durante anos a campanha canalha da “asfixia democrática”, onde dezenas de órgãos e comentadores agitaram o fantasma de um demencial plano onde os socráticos iriam ter um grupo de comunicação social ao serviço do Diabo. Um grupo como a direita tem vários, nem mais nem menos, e com os quais actua com agenda política. O País vota à esquerda, e cada vez mais, mas a imprensa tem estado na sua enorme maioria a remar para a direita.

A introdução acima para chegarmos a um Expresso da Meia-Noite de Dezembro. O tema foi o “balanço do ano político”, um balanço dado todo na mesma direcção pois nos cinco intervenientes no programa era possível identificar cinco apoiantes do PSD e da direita em geral. Miguel Pinheiro e Vítor Matos são dois furiosos caçadores de socráticos, Graça Franco representa o braço político da Igreja Católica e Anselmo Crespo participou na campanha para a renovação do mandato de Joana Marques Vidal. A embrulhar esta fina flor do entulho sectário, o mano Costa e a sua inteligência sobre-humana ao serviço do militante Nº 1 do PSD. Quem ingerir a laranjada poderá ficar na posse de preciosas informações. Pois parece, garante o colégio de sábios ali reunido, que Rui Rio só se aguentou nas legislativas porque se agarrou a Tancos com o desespero dos afogados, e que Sócrates é o papão que impede o PS de ter maiorias. Donde, a receita parece simples: mesmo que a decadência intelectual e moral seja o que define a direita portuguesa após a traição e fuga de Barroso, ter jornais, rádios e televisões na mão permite salvar os dedos que vão ficando cada vez mais longe dos anéis.

Como ilustração deste estado de agonia em que os direitolas se encontram, o mesmo Vítor Matos assina dois prantos que merecem ser lidos por espíritos dados à curiosidade antropológica: Um partido bipolar. A vitória de um derrotado e a derrota da ausência + E se Marcelo não se recandidatasse?…. Tratando-se da Impresa, órgão oficial do Marcelismo e fiel soldado do combate contra a esquerda, podemos presumir que até em Belém se mergulhou na depressão.

Revolution through evolution

Highlighting women’s achievements makes them want to be the boss, research shows
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‘She’ goes missing from presidential language
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Common Indian Fruit Shows Promise as a Cancer Fighter
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Lonely in a crowd: Overcoming loneliness with acceptance and wisdom
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Indeterminist physics for an open world
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Volunteer Tourism Can Aid Disaster Recovery
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8 Ways to Make 2020 Your Best Year Ever
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Adolfo Mesquita Nunes é estúpido?

Neste universo e universos vizinhos, entrados em 2020, só há duas consciências que se lembrem do que Adolfo Mesquita Nunes disse na TSF no dia 19 de Dezembro do ano passado – e que deixou como título Teríamos passado pela troika se o PS acreditasse mesmo nas contas certas? – o autor e eu.

O argumento displicentemente apresentado começa por um número de revista, isso de vermos um fulano que integrou o tal Governo que teve de fazer 8 Orçamentos rectificativos em 4 anos a acusar quem nunca recorreu a tal avaria de fabricar números intencionalmente falsos. O primeiro parágrafo é de gargalhada, pois, mas quando chegamos ao fim do segundo já temos a dúvida instalada: o tipo está na reinação ou é estúpido?

Segue-se uma juliana de clichés, distorções e banalidades até aterrarmos na cassete de que ter “contas públicas saudáveis” significa ter o Estado a dar lucro ou a não ter dívida, a tal falácia para borrego mastigar onde se equipara a economia doméstica e empresarial com a economia de um Estado. Mesquita Nunes diz que os socialistas são do piorio porque andaram para aí a defender que “as pessoas não são números”; o que, descreveu a 600 km/h, tem como grande chatice causar défices e estes corresponderem a um efectivo empenho social. A sua pressa em saltar por cima dos factos e da lógica justificava-se por uma homérica questão que nos queria deixar antes de irmos às azevias e ao bacalhau, na ponderação da qual o articulista gastou certamente alguns minutos ou segundos (é uma hipótese, embora admita que não tenha chegado a 1 segundo):

«Mais vale tarde do que nunca, mas justifica-se perguntar: o que teria sido Portugal se os socialistas se tivessem empenhado nesse princípio, o que teria sido a economia portuguesa, o que teria sido a mobilidade social, o que teriam sido as oportunidades dos portugueses, se os socialistas, que nos governaram na maioria dos anos das últimas duas décadas, tivessem adotado esse princípio?»

O princípio defendido na ocasião, recorde-se, é o de ter excedentes orçamentais a cada ano. É exactamente isto que o senhor Nunes está a acusar o PS de não ter atingido nas décadas anteriores. Algo que ele seria incapaz de explicar como teria sido possível, ou com que consequências. Algo não só absurdo no campo do exercício governativo como irracional dadas as circunstâncias históricas, e seus contextos económicos e sociais, de Portugal. Coisa, enfim, sumamente demagógica. Ou absolutamente estúpida.

Adolfo Mesquita Nunes vem de manifestar admirável coragem política ao ter assumido a sua homossexualidade, algo muito mais difícil de fazer à direita do que à esquerda, e especialmente delicado no CDS. Anos antes, tinha deixado uma exuberante prova de força política ao ter defendido publicamente a despenalização do aborto e ao ter votado a favor do casamento entre pessoas do mesmo género. À volta desta postura genuinamente liberal, surge mediaticamente com uma pose civilizada e com laivos sofisticados na disputa verbal, acumulando a passagem pelo Governo de Passos Coelho onde deixou imagem de competência. Tendo em conta os seus 42 anos, é automaticamente uma das mais fortes esperanças para o renovo e crescimento do CDS – isto é, parece uma pessoa decente e inteligente, o suficiente para operar uma revolução cultural no que tem sido aquele partido após Adriano Moreira, Freitas do Amaral, Narana Coissoró e Lucas Pires. Então, raios, como é que se permite discursar como um imbecil? Será porque é só para imbecis que comunica, achando não ter alternativa embora não acredite no que diz? Ou será que as aparências iludem e estamos mesmo perante um estúpido?

A resposta é dado no próprio texto, assim:

«Não basta vir fazer de responsável, dizendo com candura e lógica aquilo que, durante anos, o PS abjurou. É preciso não esquecer que o país se viu resgatado depois de um défice superior a 10%, sem dinheiro para pagar salários nem pensões, condenando o país a um duríssimo ajustamento.

O que o país sofreu durante o período de ajustamento teria sido muito diferente, ou nem sequer teria existido, se o PS levasse a sério o que agora quer tornar seu património: as contas saudáveis. Estaríamos hoje muito melhor. Não estamos, porque o PS descobriu tarde que era positivo ter contas saudáveis.»

É mentira que em Abril de 2011 o Estado português não tivesse dinheiro para pagar salários e pensões. Este Adolfo sabe disso há quase 9 anos. É desonesto isolar Portugal da conjuntura mundial e europeia em 2011 para culpar um Governo (qualquer que ele fosse) por uma medida de emergência. É pulhice falar do resgate sem falar do chumbo do plano que o teria evitado, plano que tinha o apoio da Europa e para a aprovação do qual Merkel e Durão Barroso (!!) fizeram infrutífera pressão. É triste, é indecente, é cobarde acusar o PS pela entrada da Troika e pelas opções que o Governo PSD/CDS de que fez parte escolheu fazer livremente – e a coberto da invasão estrangeira – por subserviência internacional, fanatismo ideológico, revanchismo partidário e gula individual.

Compreende-se, e o regime finge que não vê, como a colossal violência das decisões de Passos e Portas nos idos de Março de 2011 condiciona para todo o sempre o destino dos políticos que herdam esse legado sem que tenham o carisma de denunciá-lo. Adolfo Mesquita Nunes pareceria estúpido se o fizesse, se tivesse o bem comum como valor axial, pois de imediato seria linchado pela turbamulta do ódio tribal e político. O preço a pagar, até magnanimidade e bravura em contrário, é o de ficar como mais um estúpido na funesta história da direita decadente.

Manela com estratégia vencedora, 11 anos depois

Manuela Ferreira Leite – […] Eu devo dizer que aquilo que mais me preocupou, que mais me espantou, é como é que foi possível que um primeiro-ministro ao falar do País, e ao falar do futuro do País, não pronunciou uma única vez a palavra que definia aquilo que é o problema do País. Como é que isso foi possível?…

Ana Lourenço – As pequenas e médias empresas?

Manuela Ferreira Leite – Não! O problema do País é o endividamento do País. Ele nunca pronunciou essa palavra. E, portanto, o Primeiro-Ministro consegue uma coisa absolutamente extraordinária que é falar da situação actual do País, perspectivar o País para a frente, sem falar neste ponto que é essencial. Ou seja, não tem como problema… como é… o problema do País. E, portanto, não vai nunca conseguir fazer crescer o País, só vai conseguir fazê-lo empobrecer, como de resto tem acontecido.


Junho – 2009

*|*

“Eu não me esqueço que no tempo anterior, no chamado tempo da antiga senhora, o orçamento sempre esteve equilibrado, só que o povo estava na miséria.”

Para Manuela Ferreira Leite, o caminho traduzido na proposta do Governo é “totalmente errado” porque faz da redução do défice ou do objectivo do superávite o seu único objectivo, sem olhar às consequências.

“Não me dizem nada os números, um orçamento define-se pela política que ele traduz e pelos objectivos de política que tem.”


Janeiro – 2020

*_*

Em 2008, quando a Grande Recessão começou, o endividamento estava nos 70% do PIB. No final de 2009, em pleno afundanço económico mundial, ficou nos 83,6%. Em 2019, depois de 6 anos de crescimento da economia, está nos 120%.

Em 2008 e 2009, o Governo português teve menos receita de impostos, por causa do arrefecimento económico, e teve mais despesas sociais, por causa da redução da actividade económica e das falências que aumentaram o desemprego. Ao tempo, foi política europeia comum introduzir capital na economia, através dos Estados pois os bancos estavam igualmente a precisar dessa ajuda estatal, de forma a tentar que a recessão mundial não se transformasse num depressão em tudo igual, ou ainda pior, à ocorrida no século XX.

Em 2008 e 2009, com Ferreira Leite a presidir ao PSD, nunca a direita portuguesa se referiu ao problema das dívidas soberanas que iria rebentar pela Grécia no início de 2010. Ignoravam por completo a situação e suas consequências. Daí terem feito uma campanha que apostava tudo no moralismo, no assassinato de carácter, nas campanhas negras e nas golpadas mediático-judiciais.

[pausa para um café]

Obviamente, a Manela tem razão em 2020. Ter contas equilibradas e o povo na miséria não se deseja a ninguém. Só que essa cassete salazarista tem sido tocada na direita decadente desde Cavaco, o segundo professor de Finanças que conseguia meter as contas do galinheiro na ordem, de acordo com o subtexto no seu marketing político. Foi nesse mesmíssimo território que Ferreira Leite foi posicionada para contrastar com os “perdulários” socialistas nos idos de 2009, viciados em gastar dinheiro no Estado e nas questões sociais à custa dos magníficos empresários e sua fantástica capacidade de criar riqueza nos países sem contágio dessas ideias marxistas. E foi ainda aí que Passos Coelho e Portas, com o chumbo do PEC IV e o ir além da Troika, embrulharam a sua política de terra queimada para um assalto ao poder aonde o preço seria sempre o afundanço de Portugal e um maremoto de desgraças individuais e colectivas. As profecias, em 2015, sobre a impossibilidade de o PS governar com o apoio do PCP e do BE mantinham a idiota e torpe convicção de não haver alternativa à austeridade salvífica pela mão de ferro dos direitolas. Rui Rio andou décadas a cultivar essa imagem de “alemão”, fanático das contas certas.

Costa e Centeno, em aliança parlamentar com a esquerda, provaram a inanidade da retórica soberba e alucinada destes últimos 30 anos de sucessivos líderes do PSD e comentadores engajados, muitos a partir das direcções de órgãos de comunicação social. O desnorte, o desamparo, o desespero, é total. Sem poderem carimbar os socialistas como estroinas, e calhando alguém no Parlamento obrigar o Ministério Público e os juízes justiceiros a cumprirem a Constituição, que lhes resta?

Pelos vistos, isto que a Manela aqui mostra. A continuação do vale tudo, passando até a valer ter um discurso que, caso o tivesse assumido em 2009, lhe poderia ter dado uma vitória eleitoral num situação em que o interesse nacional era exactamente esse: esquecer o endividamento e lembrar-se das pessoas. Assim tivesse menos pulhice na táctica e módica decência na estratégia.

Trump, um talibã na Casa Branca

Valupi, porque não perguntar que legitimidade tem o presidente de um país, mesmo do mais poderoso do mundo, de, por sua vontade e iniciativa, mandar matar quem quer que seja, do seu ou de outro país? Julgo que nenhuma. Mas aconteceu este mês, e todos os dirigentes políticos de todos os países, que eu saiba, perante tal acto, ou fizeram declarações de circunstância, ou assobiaram para o ar, ou encolheram os ombros. Nenhum o classificou de assassinato. E foi um assassinato confesso, transmitido nas redes sociais. O que era ou quem era vítima não justifica a prepotência do acto. O que é e quem é o autor do acto explica o medo dos responsáveis políticos.


Manojas

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Concordo com o nosso amigo Manojas e recomendo o consumo de How To Avoid Swallowing War Propaganda + Soleimani attack: What does international law say?

Porém, contudo e todavia, muito acima dessa absolutamente legítima e altamente relevante problemática dos assassinatos por ordem estatal (de que Obama usufruiu, por exemplo, ao arrepio do Estado de direito ou nas suas zonas cinzentas e esconsas) coloco as declarações de Trump, via Twitter, onde ameaça destruir monumentos e locais de valor cultural no Irão.

Começando pelo que vem primeiro: destruir a cultura, qualquer cultura, qualquer manifestação de cultura, é destruir parte da civilização, tentar destruir a humanidade. Foi esse sentimento de horror que, recentemente em termos históricos, sentimos quando os talibãs destruíram os Budas de Bamiyan no Afeganistão, em 2001, e quando o “Estado Islâmico” destruiu não se sabe quantos objectos de valor histórico no Iraque e na Síria, entre 2006 e 2017 (e voltará a destruir e saquear em qualquer oportunidade futura que se apresente aos que continuarem a usar essa bandeira).

É o mesmo sentimento de horror que se pode sentir ao descobrir como o cristianismo e a cristandade causaram a destruição e desaparecimento de inúmeros objectos, incontáveis memórias e saberes, que foram sendo criados e desenvolvidos ao longo de milhares de anos em vários continentes. O mesmo desespero, quase raiva num outrora agora, que se abate sobre quem ainda sonha com os tesouros da Biblioteca de Alexandria devorados pelo fogo.

E passando logo para o que fica a marcar o século, a presidência de Trump não tem paralelo com nenhuma outra anterior até onde a memória e o estudo alcançam. A sua eleição estabeleceu um novo paradigma eleitoral em que os critérios analíticos até então vigentes na ciência política e no comentário jornalístico implodiram ou foram terraplanados. Para a minha ignorância e para muito boa gente com reputação internacional como especialista nas cenas, ter assistido à sua achincalhação de John McCain, um herói de guerra norte-americano consensual e símbolo máximo dos valores republicanos tradicionais enquanto Trump fugiu do serviço militar por ser rico e por ser cobarde, levou-me a ter a crença inabalável de que o ataque ad hominem, só por isso entre o tanto que parecia eleitoralmente suicida, chegaria para o impedir de ganhar sequer a nomeação pelo Partido Republicano, quanto mais a nação americana. Tanto para aprender sobre a natureza humana, portanto.

Uma das mais sólidas democracias planetárias está sob uma inaudita ameaça. Se os generais norte-americanos cumprirem uma ordem presidencial para a destruição intencional de um objecto ou local com valor cultural isso será equivalente, no plano da lógica, ao Holocausto. Não temos outro comparativo. Corresponderia à falência dos EUA como país defensor desse povo inscrito na abertura da sua Constituição. E, a ocorrer, tal não significaria que o problema estava na ideia de democracia e respectivos ideais democráticos perfilhados desde 1789, o problema voltaria a ser constitucional. Seria necessário introduzir mais uma emenda, desta vez a exigir um exame étnico a todos os candidatos presidenciais de forma a impedir que se volte a ter um talibã na Casa Branca.

Para quê ideias quando se tem músculo?

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Que têm em comum estas duas bocas e respectivas cabeças? O PSD, a Católica e Passos Coelho, para começar. E um repetido e impante à-vontade para difamar as instituições democráticas e emporcalhar o espaço público. Não é uma coincidência.

Miguel Morgado faz o sebastianismo de Joana Marques Vidal enquanto trata o actual primeiro-ministro e o actual Presidente da República como cúmplices dos crimes de corrupção – portanto, como criminosos. Indiferente ao absurdo e delírio de fazer depender de um único indivíduo o combate contra a corrupção, o que o motiva na aberração cognitiva é o acto de assinalar a sua disponibilidade para ser agente de violência política. Com ele a mandar nisto, haverá xerifes implacáveis que vão disparar primeiro contra a bandidagem socialista e tratar da papelada a seguir.

Francisco Almeida Leite junta Marcelo Rebelo de Sousa e Pinto Balsemão, mais os respectivos nomes que se podem associar institucional e profissionalmente a cada uma das duas magnas figuras, no Campo Pequeno da sua demente pesporrência e esvazia os carregadores da Gatling. De acordo com o que tecla, o Expresso e a SIC têm um plano secreto (mas que ele topou e resolveu partilhar com a gente séria) que passa por usar Louçã em ataques contra o único juiz que nos pode salvar dos corruptos. Nem o vinho nem outro tipo de drogas explicam tamanha estupidez.

Não é uma coincidência que duas figuras tão próximas de Passos Coelho estejam agarradas à judicialização da política e à politização da Justiça como se a política se reduzisse ao poder para condenar adversários. Passos é o herói destes decadentes porque conseguiu colocar uma comissária política na Procuradoria-Geral da República, e essa magistrada permitiu que se detivesse e prendesse o ícone supremo do ódio político, Sócrates, sem provas para tal e deixando o Ministério Público cometer variegadas irregularidades – e até crimes – antes, durante e depois da caçada. Na verdade, quando se usa a Justiça para perseguir e abater adversários políticos a caçada nunca acaba. O simbolismo de arrastar o corpo do inimigo pelo chão tem um fascínio arcano e deixa em êxtase a tribo triunfante. Pretende-se espalhar o terror nos alvos restantes, transmitir que se é invencível.

Não existe qualquer órgão de comunicação social, nem um, onde se trate com isenção, cidadania e decência a “Operação Marquês”. Não existe qualquer figura pública, uma única que fosse, capaz de apresentar uma análise objectiva do que tem ocorrido na Justiça, no sistema partidário, na Presidência da República e na imprensa a respeito do que está a ser feito a Sócrates. Quem o poderia assumir e apresentar inibe-se porque a neutralidade é impossível quando todo o ecossistema mediático está tomado por sectários ou pós-traumatizados. Restam fogachos de coragem e decência, de que Miguel Sousa Tavares, Garcia Pereira e Pedro Marques Lopes são exemplos que saltam alto na memória.

Passos Coelho e Joana Marques Vidal, com a bênção e munição de Cavaco, representam o futuro de uma direita que desistiu de fingir precisar de ter ideias. Estes ferozes caçadores de socráticos passam agora o tempo a lamentar-se de ter perdido o músculo.