Arquivo da Categoria: Valupi

Revolution through evolution

How women and men forgive infidelity
.
Negotiating with Your Kids
.
Lithium in drinking water linked with lower suicide rates
.
Human sperm roll like ‘playful otters’ as they swim, study finds, contradicting centuries-old beliefs
.
Survey results: Having a higher purpose promotes happiness, lowers stress
.
Psychology of Masking: Why Some People Don’t Cover Up
.
Laughter acts as a stress buffer – and even smiling helps
.
Continuar a lerRevolution through evolution

Lapidar

Rui Rio, o homem sério

__

NOTAS

– Esta entrevista de Rui Rio na RTP está a ser reduzida à declaração que abre a porta para um qualquer tipo de futura aliança política do PSD com André Ventura e/ou o Chega. Justifica-se a hipertrofia daqueles poucos segundos de paleio pois estamos perante um abalo fundacional num partido nascido com o 25 de Abril, somos as testemunhas perplexas de uma traição que lhe saiu inconscientemente do bestunto pela força cega e burra do egocentrismo que o consome – e que agora tanto os seus chocados apoiantes como os seus oportunistas detractores estão inevitavelmente a transformar num terramoto.

Porém, o resto da entrevista igualmente merece atenção. Porque é um desastre, para o qual o Vítor Gonçalves contribuiu com genuína vocação. Fica-se com a ideia de que Rio está em mutação acelerada para iniciar uma carreira de humorista no dia a seguir às próximas eleições legislativas, ou talvez logo na própria noite eleitoral ao tomar conhecimento dos resultados. A sua constante preocupação em se colocar às cavalitas de si próprio é um espectáculo que realmente tem piada (da primeira vez em que tropeçamos nele) mas que devia alertar as pessoas que lhe são mais próximas, família e amigos, para a necessidade de elaborarem um plano do foro psicoterapêutico para ajudá-lo ao longo da fase seguinte da sua vida.

– Rio respondeu ao alvoroço refugiando-se em tábuas e culpando quem lhe fez a pergunta. Foi por causa dela que ele teve de dizer algo que, explica agora, não era o que queria ter dito calhando não lhe terem feito essa tal pergunta. Pelo que o seu destino político de curto prazo está neste momento nas mãos dos jornalistas. Se mantiverem o assunto na agenda o homem não aguenta porque só tem duas opções: ou começa a justificar como é que vai ter como parceiros aqueles que não se revêem na defesa dos direitos humanos e no Estado de direito ou acaba por reconhecer que não domina por completo o que lhe sai da boca, especialmente em matérias onde é aconselhado ter algum gasto cognitivo para não assustar as pessoas.

Entretanto, o palhaço que ao lado de Passos já tinha prometido que Loures ia deixar de ser a “prostituta barata de Lisboa” virou-se agora contra a “dama de honor do Governo socialista”, a qual também se chama Rui Rio. Há aqui um padrão. Este Ventura sabe coisas que nós desconhecemos e parece bem focado no intento de dificultar a vida a certas senhoras. Não contente, convidou o presidente do PSD para aparecer numa próxima reunião domingueira onde se vai andar de braço estendido a saudar este e aquele. Moral do episódio: Rio conseguiu, com uma singular resposta numa entrevista aparvalhada, que Ventura ganhasse altura e força para o tratar como um farrapo, ao pontapé – e mais alcançou promover uma manifestação do Chega de repente transformada na acção de um potencial aliado do PSD que se está a fazer de difícil. Uma jovem força política que finge fugir, gaiata e namoradeira, do respeitável senhor de idade. A dimensão grotesca da coisa merece umas centenas de teses de mestrado e doutoramento.

– Esta é a direita decadente no seu esplendor. Passos Coelho foi buscar Ventura precisamente para ensaiar em Loures uma retórica abertamente racista e xenófoba sob a chancela do PSD. Caso tivesse sucesso, Passos seria elogiado pela ousadia da estratégia e a fórmula poderia ser repetida em demografias e eleitorados semelhantes. Ao tempo, toda a comunicação social foi cúmplice da operação, em grande parte por esta estar na sua quase totalidade na mão accionista e editorial da direita. Por isso não houve qualquer escândalo em ver o patrocínio do partido fundado por Sá Carneiro a uma figura abjecta em todos os aspectos que tenham a ver com a política e a cidadania, como é este cada vez mais histriónico e debochado demagogo de taberna.

Ventura é o corolário de 15 anos em que a direita partidária portuguesa desistiu de competir no plano das visões e projectos políticos e passou a querer ganhar o poder através das campanhas negras e das golpadas judiciais, preferindo a política da terra queimada ao interesse nacional e ao bem comum. Reconhecendo-se politicamente inferior a Sócrates e ao PS, temendo que Sócrates superasse Cavaco em longevidade governativa e daí saltasse para a Presidência, desesperando com o desabar do seu império bancário, agarraram-se à pulsão assassina de quererem aprisionar – no mínimo, destruir e afundar nos tribunais durante anos e anos – os de outra forma invencíveis adversários políticos.

Agora o génio está fora da garrafa. A tradição de defesa intransigente do Estado de direito, que tanto os conservadores como os liberais na direita sempre defenderam modernamente como fundamento sagrado da vida em comunidade, perdeu-se e não se vê ninguém capaz de a recuperar. Ninguém. Não o Rui Rio que prometeu recuperar para o partido a dignidade de acabar com a judicialização da política e que, acossado e cobarde, nela mergulhou na campanha eleitoral de 2019. Nem sequer Marcelo Rebelo de Sousa, que há uns tempos recebia Ventura no palácio de Belém e o tratava com condescendência e paternalismo, esperando domar o animal com chazadas na poltrona e bacalhaus na varanda. O retrato é de derrelicção, não se vislumbra quem possa, a partir desse terreno onde o Estado de direito democrático suporta e supera todas as divergências, vir a refundar a direita portuguesa de forma a que possa regressar à cidade da decência, da coragem e da liberdade.

Francisco Assis, francamente

Graças ao Público, de rajada o PS foi transformado no camarote da dupla Statler e Waldorf. No dia 25, Sérgio Sousa Pinto revelou à deliciada Ana Sá Lopes que isto da política é uma maçada e que o PS é uma piolheira. Tal como aconteceu ao Pacheco, também este cavalheiro ganhou alergia ao circuito da carne assada. Se lhe continuarem a dar uma cadeira no Parlamento, mas nas filas de cima, e umas colunas no Expresso para desanuviar, isso será uma felicidade olímpica onde se poderá dedicar sossegado e altivo a ler os clássicos, a varejar nos pós-modernos e a epater les burgessos com bojardas como essa de lançar Francisco Assis como potencial candidato a secretário-geral dos socialistas quando Costa saltar para outras cavalgadas. No dia 26, o convocado Assis surgiu embalado a ultrapassar o camarada Sérgio pela direita. Afundando-se no regaço de Maria João Avillez, esta operática figura lembrou-se de reescrever duas histórias: a do País e a sua.

Avillez, assumindo às escâncaras o papel de mandatária do regresso de Passos à liderança do PSD, teve um momento inigualável na carreira pois conseguiu levar um socialista com o percurso e protagonismo do recém-eleito presidente do Conselho Económico e Social a deixar para a posteridade o seguinte:

MJA - Concluindo, aceitou falar de Pedro Passos Coelho. Em duas palavras, quem é?
FA - Convicção e determinação, o que não é negativo. Tem méritos e tem defeitos. Usei o "intransigente" mas não significa sectarismo - é a personalidade dele. Não nego nenhuma das divergências que tive com ele, em muitas áreas, mas acho francamente que o País lhe deve alguma coisa. Pela forma como governou naquele contexto, sempre com a mesma serenidade e seriedade e absolutamente convicto que estava a servir o País. É uma personalidade que deveria ser respeitada e valorizada.
MJA - Não é?
FAC - Deveria ser muito mais.

Termina assim um exercício onde uma suposta jornalista faz uma suposta entrevista a um suposto socialista. Mas, a quem calhar ler o resultado, aterra-se no meio de uma operação de campanha onde Passos Coelho é apresentado e legitimado como o salvador da Pátria que, incompreendido e escorraçado pelos malvados esquerdalhos depois do seu sacrifício heróico entre 2011 e 2015, vive hoje solitário e orante numa escura floresta ou longínquo deserto (talvez nos dois locais ao mesmo tempo, visto estarmos a falar de um ser que já não toca com os pés na terra). Assis não só papou isto tudo como vinha preparado para se juntar à festa. Os trechos seguintes são inenarráveis de sabujice, santificação em curso e puro delírio:

FA - Aquilo que talvez mais aprecie na sua figura: foi um homem que pensou que era possível estabelecer com o País uma relação, não com base no discurso da ilusão, ou até de um discurso de esperança vã - que muitas vezes se faz - mas apresentando ao País aquilo que sabia serem sérias dificuldades. E nunca as trocando pela oferta de um caminho fácil. Há um amigo meu - uma personalidade interessante do País - que me dizia, aqui há tempos, que o Passos Coelho foi dos poucos políticos que o tratou como um adulto, os outros têm tendência para o tratar como uma criança. O que ele queria dizer é que os políticos têm tendência para produzir discursos encantatórios, correndo o risco de gerar a grande desilusão. Passos Coelho não se preocupou muito com isso. Fez o discurso das dificuldades e dos problemas. [...] Deliberadamente não semeou esperanças vãs e, hoje conhecendo-o um pouco melhor - a vida levou a que isso ocorresse nos últimos anos - acho que não é capaz, até por uma questão de reserva interior, de produzir esse tipo de discursos. Esteve sempre mais preocupado em explicar às pessoas as dificuldades reais do País, em vez de as adocicar. [...] Do que não tenho dúvidas é que agiu com uma grande seriedade, ocupando-se em libertar o País da situação em que estava, em vez de passar o tempo a criticar o Governo anterior... Nunca fez isso. E hoje é um homem praticamente em silêncio. São características um bocadinho incomuns na política que fazem dele uma personalidade especial na nossa vida política. [...] Passos Coelho é portador de um passado que lhe permite imaginar um futuro.

Que cagada é esta? Que vendaval de “factos alternativos” é este? Que monumental bebedeira apagou da sua cabeça a responsabilidade de Passos no chumbo do PEC IV, na campanha eleitoral mentirosa como nunca se tinha visto em democracia que se seguiu, na fúria destruidora e fanática do “ir além da Troika”, nos ataques ao Tribunal Constitucional, no desprezo com que provocou sofrimentos e misérias em milhões de portugueses só para o FMI ver e lhe dar medalhas de bom comportamento, na politização da Justiça e judicialização da política com que perseguiu e castigou companheiros de Francisco Assis, na constante e maníaca diabolização de Sócrates e dos seus Governos logo a partir do começo de 2012, na entrega de Portugal a preço de saldo ao domínio estrangeiro para poder aparecer com o retrato da “saída limpa”, no aproveitamento de um problema na liderança no BES para uma vingança pessoal que causou um cataclismo financeiro e social, e na forma como se preparava para continuar com a demência selvagem da “austeridade salvífica” caso continuasse a governar?

A internet está cheia de recordações que ilustram como Francisco Assis começou a desvairar a partir da derrota contra Seguro em 2011. De lá para cá, as suas contradições só se têm vindo a agravar, os seus erros de análise sobre a situação política com Costa a governar atingindo o paroxismo da estupidez, chegando a este grau prodigioso que a entrevista ilustra. Pelo que vou só deixar três exemplos da flexibilidade mental, e moral, de quem talvez devesse pensar seriamente em mudar de partido:

Francisco Assis vê na política do PSD práticas do Estado Novo2014

Assis acusa Passos Coelho de praticar política «trágica»2014

“Não pode haver compromissos com esta direita extremista”2015

Assis, francamente, não tens mesmo a noção?

Muitas questões são assim

«[…] o que esta carta faz, ao afirmar que há menos liberdade discursiva e de debate hoje, é fazer de conta que antes não havia grupos inteiros de pessoas “canceladas”, sem direito a voz ou a sequer se autonomearem, e que esse cancelamento, derivado de estruturas relacionais de poder que se perpetuam, não continua a subsistir.»

Embora falar de “cancel culture”, então

Fernanda Câncio tem razão nesta leitura da carta A Letter on Justice and Open Debate porque a omissão que aponta permite-lhe considerar que tal não é inocente, antes merecendo ser denunciado na sua positividade: os autores estarão a ser cúmplices de “cancelamentos” passados e presentes no acto mesmo de protestarem contra o fenómeno posto que não se enquadram nesse contexto retrospectivo e comparativo no manifesto publicado. Esta razão que invoca e desenvolve nasce do seu activismo incansável na defesa de minorias e direitos humanos, do seu combate admirável no espaço mediático, e ao sol e à chuva, promovendo a participação cívica contra as mais graves formas de discriminação.

Contudo, não tem a razão toda – nem a melhor razão. Os autores da carta visada estão focados noutra problemática que é absolutamente legítima. Existe, realmente, um crescente (medido anedoticamente, caso faltem as estatísticas) activismo iliberal nas instituições académicas em diferentes partes do mundo que começou há vários anos e se espalha para outras esferas sociais; talvez como consequência do frenesim emocional introduzido pela invasão das comunicações digitais nas gerações que cada vez mais cedo constroem a sua sociabilidade nelas e a partir delas, à mistura com uma generalizada e profunda iliteracia política. O imediatismo, fragmentação e impulsividade das trocas digitais escritas radicaliza e afunila a cognição, levando a essa cultura de permanente, epidérmica e inconsequente indignação. Desabando as grandes estruturas políticas e suas narrativas com que se fez a travessia ideológica dos séculos XIX e XX, a necessidade de imersão na cidade leva à mobilização contra as “impurezas”, as nódoas na camisa não passarão. Ora, tal é nefasto, pouco importando a sua boa intenção original, porque colide com os valores que têm guiado todas as batalhas do passado que a Fernanda Câncio está a convocar na sua crítica. Ceder ao maniqueísmo em nome da protecção daqueles que são suas vítimas ao longo da História corresponde a um atrofio científico e intelectual. Ou seja, assinar a tal carta em nada de nadinha de nada impede que se durma o sono dos justos relativamente ao que mais importa na dignificação de todos os seres humanos sem excepção e no compromisso de continuar a dar o melhor de si nesse ideal. Porque é de liberdade que se fala, é a liberdade que nos une contra o poder opressivo de ontem, hoje e amanhã.

Pelo que há muitas questões assim. Onde quem está no mesmo lado da barricada fica costas com costas.

Gente séria – e que sabe fazer contas – é outra coisa

"O que no passado tivemos e que não deveria voltar a repetir-se, e não vai voltar a repetir-se, é serem os contribuintes a serem chamados à responsabilidade por problemas que não foram criados pelos contribuintes, por isso é natural que sejam os accionistas e a dívida subordinada, nos termos da nova legislação, a responsabilizarem-se pelas perdas que venham a ocorrer".

"[A solução] é aquela que oferece, seguramente, maiores garantias de que os contribuintes portugueses não serão chamados a suportar as perdas que, neste caso, respeitam pelo menos a má gestão que foi exercida pelo BES".

Passos Coelho

"A solução de financiamento encontrada – um empréstimo do Tesouro ao Fundo de Resolução a ser reembolsado pela venda da nova instituição e pelo sistema bancário – salvaguarda o erário público".

"Os contribuintes não terão de suportar os custos relacionados com a decisão tomada hoje. A nova instituição será detida integralmente pelo Fundo de Resolução".

"Aconteça o que acontecer ao Novo Banco, [o Estado] não vai ser chamado a pagar eventuais prejuízos. Isso tem de ficar muito, muito claro".

Maria Luís Albuquerque

"A medida de resolução [para o BES] agora decidida pelo Banco de Portugal, e em contraste com outras soluções que foram adoptadas no passado, não terá qualquer custo para o erário público, nem para os contribuintes".

Carlos Costa

"A autoridade de supervisão, entre as alternativas que se colocavam, escolheu aquela que melhor servia o interesse nacional e que não trazia ónus para o contribuinte".

Cavaco Silva

__

Fonte

Revolution through evolution

When it comes to happiness, what’s love got to do with it?
.
Even if you want to, you can’t ignore how people look or sound
.
Simple Strategies to Increase Positive Emotion Skills
.
Plato was right: Earth is made, on average, of cubes
.
Health and happiness depend on each other
.
If relaxed too soon, physical distancing measures might have been all for naught
.
Which is more creative, the arts or the sciences?
.
Continuar a lerRevolution through evolution

Jornalismo que não merece a jorna

Eis a sinopse do programa “O Outro Lado“, da RTP 3:

«Programa semanal de debate sobre os principais assuntos nacionais e internacionais, feito por alguns dos mais destacados nomes da nova geração de comentadores portugueses.
Um debate que terá também acompanhamento em direto, através das redes sociais, um programa que conta com a participação dos espectadores.
Coordenado e apresentado por João Adelino Faria, com Pedro Adão e Silva e José Eduardo Martins.»

Sim, o nome de Ana Drago não aparece. Noutro lugar, tropeçamos numa sinopse alternativa:

«Debate sobre a atualidade com Rui Tavares, Pedro Adão e Silva e José Eduardo Martins. Moderação de João Adelino Faria.

O OUTRO LADO
Um programa com uma nova geração que gosta de política, mas que não se deixou "triturar" pelas máquinas partidárias.
Três personalidades com sentido crítico, que pensam e falam livremente.
Três militantes da blogosfera que vão estar muito activos nas redes sociais, mesmo durante o programa.»

Sim, continua a aparecer o nome Rui Tavares. E, incrivelmente, esses erros factuais, e esses desleixos, e essa desconsideração, não são o que mais importa nos textos deixados aos deus-dará do universo digital de um canal público. É o conteúdo intencional dos mesmos que merece atenção, pedindo a pergunta: para quem estão a falar? Aparentemente, é para as “redes sociais”, prometendo-se uma interactividade autoral que, afinal, se resume à leitura pelo jornalista presente de alguns textos publicados no Twitter, escolhidos a correr pelo automatismo do seu gosto. Quanto à léria de estarmos perante “alguns dos mais destacados nomes da nova geração de comentadores portugueses” e de uma geração que “não se deixou “triturar” pelas máquinas partidárias“, para além do ranço anti-partidos e antidemocracia, só consegue transmitir a certeza de que ainda ninguém na produção do programa deu pela presença do José Eduardo Martins em estúdio.

Mas vamos ao jornalista de serviço, João Adelino Faria. Ele corresponde ao perfil típico de quem acha que ser jornalista consiste em aproveitar a difusão mediática paga pelo seu empregador para começar a despachar opiniões, as suas. Calhando estar num programa de jornalismo de opinião, essa pulsão toma-o de assalto e, sem variação, semanalmente entra em picanços com os comentadores vedetas que, aparentemente, alguém na estação convidou e contratou por, aparentemente, terem opiniões de alta qualidade. Assim não pensa, exactamente, o nosso Faria, sendo useiro e vezeiro no bate-boca com Pedro Adão e Silva. O que isso diz do jornalista não fica como um dos maiores enigmas da História, apenas se regista que há mais um felizardo na TV do suposto “serviço público” que é pago para ser sectário ao serviço da direita a seu bel-prazer. Contudo, também aqui não estamos perante o maior prejuízo que este simulacro de jornalista provoca no público.

Na edição de 21 de Julho, a partir do minuto 22, contemplamos a leitura dos contributos enviados pelos bravos das “redes sociais”, a que se segue um resumo da problemática em causa e o lançamento de questões para um comentador, no caso o Pedro. O João Adelino juntou-se ao coro daqueles que tinha seleccionado e, ao construir a questão em debate consequente, mandou ao interlocutor uma interrogação encharcada no seu próprio entendimento da realidade. Ora, do outro lado estava um verdadeiro cientista, tranquilamente uma das mais proveitosas e decentes cabeças a “produzir opinião”, e isso mais uma vez se provou de forma espectacular: o professor do ISCTE não deixou escapar um dos sofismas lidos pelo jornalista, o qual remetia para uma notícia do JN cujo título e conteúdo era falacioso, e tratou de explicar o que estava realmente em causa nessa peça “jornalística”. Ou seja, o comentador residente fez o que o jornalista armado em comentador não só não foi capaz de fazer como até estava interessado em evitar que se fizesse de modo a prolongar, expandir e aumentar o erro de percepção na origem das opiniões que tinha destacado nas feéricas “redes sociais”.

Só há duas causas para o fenómeno. Ou temos um jornalista que procura enganar a audiência, ou temos um jornalista que ignora o que se passa à sua volta e não tenciona abandonar o seu estado de ignorância. Seja lá qual for a causa, o que se passa com esta figura ilustra o fim da linha onde se encontra o jornalismo em todo o Mundo. O modelo da imprensa escrita, que vinha do século XVIII e XIX, começou a ficar obsoleto com a rádio e com a televisão. Nos anos 90 levou a machadada final com a Internet, mas já estava moribundo, apenas ainda não tinha sido avisado. Agora, o próprio jornalismo televisivo já não consegue puxar carroça pois a fragmentação imparável da atenção torna irrelevante o que acontece neste ou naquele ecrã noticioso. Mas a solução para esta crise inaudita na imprensa não virá, seguramente, de deixarmos os jornalistas rivalizarem com os comentadores. Precisamente ao contrário, isso tem sido fatal pois reduz a credibilidade – leia-se, a utilidade para a inteligência – dos meios de comunicação social.

O jornalismo do futuro tem de aspirar a ser o jornalismo do passado. Essa curiosidade primeira, literalmente humilde, pela realidade e por aqueles que lhe dão sentido. Não precisamos do jornalismo para se substituir aos políticos, aos filósofos e aos moralistas. Precisamos tão-somente que o jornalismo se concentre na diminuição da estupidez reinante.

Quem tramou Armando Vara? Nós todos (Ep12)

Onde Moura Guedes pede pena máxima (25 anos) para Armando Vara:

Onde Ricardo Costa, em tandem com Moura Guedes, se congratula com o estado de excepção que enfiou Vara na cadeia – e sem provas – apenas para se dar um exemplo (a vingança exemplar, um clássico da oligarquia):

Onde um actual conselheiro de Estado declara que se formou no PS uma rede criminosa que agiu impunemente durante mais de 20 anos (apanha Soares como Presidente da República e Guterres como primeiro-ministro), liderada por Sócrates, Vara e Santos Silva (o tal, não o outro, mas também este, e tantos, e todos):

É da natureza humana sermos natural e humanamente ambivalentes. Implacáveis com as falhas dos estranhos, somos tolerantes, condescendentes, cúmplices com as falhas dos nossos em sangue, tribo ou relação contingente. De quem não gostamos, dizemos que as suas más acções revelam a sua substância, e que as suas boas acções são apenas acidentes. De quem gostamos, dizemos que as suas boas acções revelam a sua substância, e que as suas más acções são apenas acidentes. Quem feio ama bonito lhe parece. Relativizamos automaticamente, por instinto de sobrevivência, os valores, os códigos, a responsabilidade. Se formos apanhados a errar, atribuímos o nosso erro às circunstâncias; cada um é o maior especialista no Universo a respeito das suas circunstâncias, somos mestres na ciência de encontrar desculpas. Se apanharmos o outro a errar, atribuímos o erro ao seu carácter; à maldade ou à fraqueza, não aceitamos que se desculpe com as circunstâncias, castigamos o seu fracasso no projecto que lhe impomos e não pediu: ser perfeito – pelo critério da nossa conveniência. É demasiado fácil, demasiado humano, após escolhermos o nosso interesse individual à custa da decência e do altruísmo ou mera generosidade, encontrar excelentes razões post mortem para convivermos em simbiose com um canalha oportunista que tem poder sobre os nossos afectos e a nossa vontade. Que é o nosso afecto e a nossa vontade.

A cultura da oligarquia domina este saber. Ensinam-se os príncipes desde o berço a verem o mundo como ele é quando se olha do alto: uma paisagem onde a humanidade está muito ao longe e é muito pequenina. Lá fora há fome, há lobos que se atacam uns aos outros. Alguns disfarçam-se de cordeiros para entrarem nos palácios e nos castelos. Pelo que os príncipes têm de aprender o mais cedo possível a arte da desconfiança e da traição. O primeiro a trair será o vencedor. Mas nunca mais poderá descansar depois da primeira violência contra a concorrência pois o que está em baixo tenta imparavelmente chegar ao topo e expulsar os velhos senhores para entregar as riquezas aos novos, os lobos mais fortes, ou mais astuciosos. O mundo concebido pela oligarquia é um Inferno donde apenas se pode escapar fugindo para o alto, onde não há chamas nem calor diabólico, e aí chegados levantar muros inexpugnáveis. Daí o príncipe igualmente aprender a arte da dissimulação, da prestidigitação, onde o seu rosto e as suas palavras apontam para norte enquanto as suas mãos assaltam e assassinam a sul. O príncipe completa a sua educação quando lhe mostram que a natureza humana é previsivelmente ambivalente – isto é, que toda a pessoa tem o seu preço (as excepções servindo apenas para confirmar a regra). Este modelo onde o mais forte faz as leis pode durar intacto milhares e milhares de anos. Assim foi. Até que numa região do Planeta que desfrutava de muito sol ao longo do ano, banhada por um mar que misturava rapidamente tradições e saberes heteróclitos, habitada por indivíduos cada vez mais curiosos a respeito da diversidade dos seres e das existências, a oligarquia agrária começou a ser substituída pela democracia-cidade. Na democracia, a força é transportada para a Lei, para as constituições, para os princípios liberais como oposição a qualquer forma de despotismo e autoritarismo. Daí a figura do Estado de direito se constituir como a matriz das democracias, obrigando a que as desigualdades sociais, até individuais, sejam ao mesmo tempo niveladas e protegidas de acordo com o bem comum. É um processo que tem tido longas interrupções e que não está acabado. Para muitos, por péssimas e excelentes razões, o processo ainda mal começou.

Este texto encerra uma série sobre a ida de Armando Vara à Assembleia da República nos idos de Junho de 2019 e do que me foi dado descobrir na gravação audiovisual da sessão. Corresponde à experiência mais profunda que já tive a respeito da qualidade democrática e republicana do regime por causa da competência política e jurídica de quem o interrogava; e por causa do grau de exposição com que Vara chegou a uma sala do Parlamento, presidiário no “Face Oculta” e acusado na “Operação Marquês”, e do tipo de exposição a que se propôs, a tudo respondendo com factos e detalhes dentro dos limites da sua memória e situação judicial. Sendo a segunda vez que era ouvido pelos deputados sobre as mesmas matérias relativas à CGD, e depois de mais de 5 horas frente a quem tinha tido acesso à informação interna do banco solicitada e que agora brincava aos carrascos para imprensa ver, se Vara fosse um bilionésimo do que a indústria da calúnia e o ódio político pintou de si tal teria de aparecer. Tal espectáculo seria imperdível pela mesma lógica com que Vara tinha sido apanhado, torturado e exposto como troféu. Foi essa a minha motivação primeira para assistir não só à sua audição como às restantes 39 sessões da II Comissão Parlamentar de Inquérito à Recapitalização da Caixa Geral de Depósitos e à Gestão do Banco. Quantos portugueses fizeram o mesmo? Quantos jornalistas? Quantos jornalistas especialistas em política? Quantos magistrados? Quantos deputados? Não o tendo feito, nem sequer esta singular audição de Vara estão em condições de avaliar.

Podíamos apenas recorrer a Marcelo Rebelo de Sousa para mergulharmos até ao fundo do que mais importa a respeito de Armando Vara, preso sem provas numa condenação inaudita por ser um socialista amigo de um outro político socialista que igualmente se quer destruir na Justiça e prender como exemplo e ameaça. Marcelo, então comentador, vendeu a condenação de Vara alegando que era, em simultâneo, anormal e normal. Anormal, pelo lado em que a pena era altíssima, nunca antes vista, tenda em conta o valor pecuniário suposto. Normal, pelo lado em que ele dormia melhor: se os juízes tinham decidido assim, eles lá teriam as suas razões e não valia a pena pensar mais no assunto. O resultado composto desta dupla interpretação transmite às audiências a seguinte mensagem: “Eu, brilhante professor de Direito, sei muito bem o que fizeram ao Vara, daí estar a chamar a atenção para isso mesmo de forma a que o gozo seja ainda maior.” Quando voltou a tocar no assunto, já Presidente da República, colou-se à pulharia e celebrou a prisão desse cidadão. Portanto, a desbunda com a judicialização da política e os linchamentos mediáticos e judiciais é, numa das mais consideradas figuras vivas da Nação no campo do Direito e da política, superior à defesa do Estado de direito democrático. Donde, não poder espantar, não causar a mais suave brisa de surpresa, vermos profissionais da indústria da calúnia, como aqueles que aparecem nos vídeos acima, a despejarem todo o arsenal de calúnias e ódio para cima de Vara, de Sócrates e do PS. O regime não só permite essas práticas como as premeia.

Entretanto, sabemos o que aconteceu com Carlos Alexandre no caso Tancos, o que aconteceu a Miguel Macedo no caso Vistos Gold, o que aconteceu com Carlos Alexandre e Mexia no caso EDP e o que aconteceu na “imprensa de referência” ao sair a acusação no caso BES. A direita política e mediática sempre embrulhou com furor a condenação de Vara e a detenção, devassa e acusação a Sócrates num movimento de purificação que estaria a ocorrer na Justiça portuguesa depois de anos e anos de corrupção socialista ao mais alto nível, chegando PSD e CDS a acusarem um procurador-geral da República e um presidente do Supremo de terem impedido – em cima de umas eleições legislativas – “legítimas” investigações a um primeiro-ministro em funções. A regeneração teria começado com os Vidal em Aveiro e continuava com os Vidal em Lisboa, tendo sido necessário afundar o País na Troika para que finalmente se fosse além do sonho de Sá Carneiro: uma Maioria, um Governo, um Presidente + uma Procuradora-geral da República. Em Julho de 2020, já não dá para continuar a dizer que a condenação de Vara corresponde a uma vaga de santidade nas magistraturas pois ele continua a ser o primeiro e único cidadão preso por tráfico de influências; sendo que os mesmos que agitaram essa patranha davam-se à perfídia de reclamar conhecerem de ginjeira quem cometia esse tão pervasivo, ubíquo, crime. Ou seja, se Vara foi preso por tal sem sequer precisarem de provas, então, se fosse verdadeira a retórica populista usada para esconder a violência política, a esta hora Vara teria centenas ou milhares de colegas de cárcere. Não só tal não se viu como vimos caluniadores profissionais a contradizerem o que antes propagandearam. De repente, o Ministério Público parece que faz acusações sem fundamento, e isso é chato calhando a um tipo porreiraço como o Miguel ex-ministro de Passos. De repente, o superjuiz Carlos Alexandre talvez tenha um bocadinho de pancada, e isso é chato calhando a um passarão com tantos amigos na oligarquia como o António Mexia. De repente, parece que Salgado é um monstro do crime mas que isso era uma coisa que metia muito pouca gente ao barulho, mal apanha a família. De repente, o governador do Banco de Portugal era um herói que fez o que podia contra Salgado, e não um patife como o outro governador do Banco de Portugal, esse socialista, cúmplice de Vara, de Sócrates e de um certo “assalto ao BCP” que só existiu como parangona lucrativa e arma de arremesso pelos decadentes. Isto é, de repente passou a ser possível ter uma opinião negativamente crítica sobre a acção dos agentes da Justiça sem que por tal se corra o risco de passar por socrático. Passou a ser possível defender protagonistas de um escândalo que poderá ter causado onze mil milhões de euros de prejuízo ao sabor das amizades e das agendas políticas. Mas, acima e antes de tudo, de repente ficou na ribalta a ambivalência com que se faz política, jornalismo e opinião profissional mesmo em relação à dimensão mais melindrosa da vida em comunidade, a Justiça. Quem se permite ser contraditório e antinómico consoante os alvos na berlinda, finge que habita na cidade mas vive rapace na selva.

Finalmente, podemos recorrer ao Ricardo Araújo Pereira para completarmos o retrato do regime e de quem nele controla e molda o espaço público. Como se pode ver ou rever aqui, o humorista usou as declarações de Vara de forma fragmentária e descontextualizada. A justificação aparente é a de que elas permitem fazer humor por algo intrínsecamente engraçado, permitem entreter audiências de programas de comédia, dar a rir ou sorrir com as pilhérias que os artistas de serviço acrescentem. Mas porquê ter reservado o gozo apenas para Vara e ter excluído os deputados? Como justificar o protagonismo dado a um só individuo nessa ocasião? A explicação é política. O Ricardo não queria usar a política para fazer humor, quis usar o humor para fazer política. E serve-se de um humor primário, infantilóide, porque o objectivo é prolongar o linchamento de Vara sem ser preciso esforço nem técnica. Quem se ri comunga com o artista da sentença, estamos perante alguém que é tal qual aquilo que dizem que é, se não fosse o querido Ricardo não estaria a chamar-lhe bandido. Consequentemente, as gargalhadas saem como balas de fuzilamento à ordem do “cómico”. O “cómico” fica satisfeito e saciado, há sempre mercado para caluniar e humilhar Vara. Os patrões e colegas da indústria da calúnia adoram a “comédia” e adoram o “cómico”.

O último vídeo que apresento nesta série é o da declaração inicial de Vara, prévia às perguntas dos deputados. O apelo que faz à Assembleia da República para que se repense o sistema prisional do ponto de vista da reinserção dos presos foi retomado nas suas últimas palavras (Ep11), e a antecipação de as suas declarações não irem convencer quem não queria ser convencido provou ser uma robusta e serena afirmação de carácter. Entre o Armando Vara dilacerado nos tribunais e impérios mediáticos da direita, igualmente assassinado pela esquerda e parte do PS, e o Armando Vara que tem oportunidade para se apresentar, dar a conhecer e justificar há uma distância que só pode ser percorrida por aqueles que tenham alergia a serem tratados como borregos.

Para a história da calúnia em Portugal – Pacheco Pereira

«Se há defeito de carácter que infelizmente se repete em Portugal, vez após vez, sem culpa nem remorso, é a adulação dos poderosos seguida pelo seu escárnio público quando deixam de ser poderosos. Todos os que tinham a cerviz bem dobrada, a boca bem calada, a vénia pronta, o tom untuoso, a mão estendida para o pequeno ou grande favor, o silêncio oportunista, correm para a imensa fila, de pedras na mão, para abjurar o anterior senhor. Já vi isto muitas vezes. Já escrevi isto muitas vezes. Suspeito de que não será a última.

Um caso exemplar foi Sócrates, em que se contava pelos dedos de uma mão aqueles que percebiam bem de mais o que ele estava a fazer e a multidão de sicofantas e aproveitadores que lhe servia de barreira contra tudo aquilo que o podia afectar. Alguns desses foram depois profissionais do atirar da pedra, muitos na política, a começar pelo PSD, e muitos na comunicação social. Mas o vento virou e foram logo para a fila do arremesso. O remake actual desta conduta cívica exemplar passa-se hoje com Ricardo Salgado e o BES, só que com a gravidade de esquecimentos e fugas à responsabilidade que nos custaram milhares de milhões de euros e, diferentemente do caso Sócrates, este passa-se na alta finança e não na baixa política.»


Pacheco

🤡

O caluniador profissional de maior sucesso em Portugal, actualmente, é o João Miguel Tavares. A partir de um singular texto ranhoso, em 2009, saiu-lhe a sorte grande de ter Sócrates a esgotar todos os recursos judiciais alegando difamação. Tal procura de reparação judicial acabou em insucesso – e com a agravante irónica de ter criado uma vedeta da indústria da calúnia. Pouco depois, o caluniador trocava o DN pela Cofina, desta vindo a ser contratado pela Sonae para fazer exactamente o mesmo: perseguir Sócrates e o PS através do emporcalhamento do espaço público num modelo de negócio onde se procuram atrair fanáticos e broncos ao click. Pelo meio, aproveitou a boleia do Ricardo Araújo Pereira para se mostrar disponível para todo o serviço à clientela que lhe paga. Seguiu-se a sua utilização por um primeiro-ministro que até aceita obrigar crianças a serem carne para o canhão do caluniador desde que isso o purifique no mercado eleitoral. E culminou com a sua utilização por um Presidente que concebe as solenidades da República como uma extensão do calendário das festas em Cascais e no Guincho, sempre com muita animação e pirraça para mostrar aos pés-descalços quem manda na barraca. Este percurso mercenário onde se cruza a indigência moral do arrivista e o cinismo soberbo dos príncipes encontra-se soterrado na memória colectiva, à maneira daquelas vergonhas de família tão escandalosas que se tornam um tabu que gangrena o respeito próprio.

Porém, o caluniador profissional mais importante em Portugal é o Pacheco Pereira. Enquanto no primeiro caso lidamos com um ser eticamente indigente que acredita estar não só a enriquecer sem gastar uma caloria como a falar para um país onde as suas platitudes ignóbeis são o olhinho na terra de cegos, já com o marmeleiro temos um investigador que vai deixar obra válida no campo da historiografia e bibliofilia. O primeiro suporta-se sem esperança de conversão à decência, ao segundo pode-se pedir responsabilidades. Não existe é quem o queira fazer, daí o Pacheco acabar por ter um mundo interior análogo em distorções narcísicas ao do caluniador seu companheiro de vocação e rival no proveito pecuniário e social. Ambos fizeram de Sócrates a galinha das atoardas de ouro e ambos se concebem como heróis que viram o que mais ninguém viu, fizeram o que mais ninguém fez. Ou quase ninguém, nisso também se imitando ao reconhecerem terem tido a companhia de apenas mais uns dois ou três bravos. Ambos desfilam agora, como se pode ler exemplarmente na versão acima, reclamando os louros pelas campanhas contra os bárbaros e exibindo o cobiçado e mítico grande chefe dos godos amarrado a um toro com as carnes laceradas. Mas do que nos está realmente a falar o Pacheco, inclusive abdicando de sofisticação narrativa pela depressiva obrigatoriedade de tarefeiro a ter de despachar mais uma encomenda com data para sair e, especialmente, pelo cansaço dos seus 71 anos a virar frangos?

Quem ler o texto “Os três macacos sábios” integralmente não vai ficar a saber quem foram “aqueles que percebiam bem de mais o que ele [Sócrates] estava a fazer“, não vai ficar a saber quem foram os “sicofantas e aproveitadores“, não vai ficar a saber quem foram os “profissionais do atirar da pedra, muitos na política, a começar pelo PSD, e muitos na comunicação social“. Não vai sequer ter o mínimo vestígio do que é que foi feito por este Sócrates alvo de tanto ódio. O Pacheco nada explica, não dá nomes, não gasta caracteres com factos. Basta-lhe o vox populi moldado pela indústria da calúnia para disparar contra o Diabo, tratando da legião que o serviu através da escola Octávio Machado: “Vocês sabem de quem estou a falar, e se não sabem é porque são uns merdas que andam a ver passar os comboios”. O propósito é o de se conceber como o narrador omnisciente dos pecados e pecadilhos dos bastidores do regime mas sem que alguma vez tal pretensão possa ser testada recorrendo ao contraditório posto que não é possível identificar de quem fala e do que fala exacta ou vagamente.

Esta pose cagona já seria vexante para a comunidade que somos dado o protagonismo mediático de que dispõe há décadas e a carência que temos de intelectuais que cultivem a honestidade da dita. Contudo, algo mais putrefacto ocupa os refolhos da pícara figura. Continuando com o texto na berlinda, um mal amanhado e superficial relambório de maus fígados contra o meio onde ganha o pão, tropeçamos nisto:

«As pessoas comuns não fazem a ideia da enorme quantidade de informação que o círculo de confiança da elite portuguesa – quem, na verdade, manda no país – obtém quase como respira. Circulando de conselhos de administração para lugares políticos, de escritórios de advocacia de negócios para consultoras financeiras, ou pura e simplesmente falando com os seus pares dentro desse círculo de confiança, tudo o que é relevante lhes chega aos ouvidos.»

É um naco de prosa suculento. A começar pelo paternalismo das “pessoas comuns“, passando pela banalidade do suposto segredo que foge aos simples, e acabando no pindérico desvelamento da eminência parda carimbada como “círculo de confiança da elite portuguesa“. Podemos, então, pegar nestas palavrinhas para um exercício de engenharia reversa. Se é desse modo poderoso e oculto que as coisas se passam, prega Pacheco aos comuns, então como é que só dois caluniadores profissionais conseguiram topar com o que Sócrates andava a fazer nas barbas daqueles a quem “tudo o que é relevante lhes chega aos ouvidos“? Faz isto algum sentido? Não será infinitamente mais provável que essa elite tivesse os motivos e os meios para destruir Sócrates caso este resistisse à sua agenda ou meramente lhe pisasse os calos? Ou Sócrates era mais forte do que a elite portuguesa no seu conjunto, e tão mais inteligente que lhe trocou as voltas? Somos tentados a acreditar na segunda hipótese, conhecendo a história de imbecilidade das elites nacionais ao longo dos séculos, só que não dá, pá. A contradição não é só cabeçuda, também tem gigantes orelhas de burro. É preciso manter milhões de pessoas num estado de estupidificação colectiva para que tantos ganhem assim a vida, trabalhando para que o óbvio seja substituído pelo assombroso através do deslaçamento lógico entre as partes e o apagamento do que não confirmar a diabolização.

Mas o pior do pior neste caluniador profissional não diz respeito à sua paixão funesta por Sócrates, paixão de tantos a quem mais nada nem ninguém entusiasma. O pior do pior é vir semana sim, semana sim, duas vezes por semana pelo menos, anunciar seráfico ou iracundo que é a reserva moral da Nação quando ninguém lhe ouviu qualquer denúncia temporã contra o tal senhor Salgado que se propõe agora explicar com gravuras ao Zé Povinho. Quando o Pacheco da inteligência panóptica foi um notável cúmplice activo do cavaquismo e do Cavaquistão, era de corrupção sem igual, sem contabilidade e sem castigo.

Revolution through evolution

Playtime with dad may improve children’s self-control
.
Road verges could be havens for pollinators
.
Our itch to share helps spread COVID-19 misinformation
.
Study shows humans are optimists for most of life
.
Researchers find the worst reason to give a gift
.
What Numbers Can — and Can’t— Tell Us About the Pandemic
.
Study links attraction to ‘tyrannical’ leaders to dysfunctional family dynamics
.
Continuar a lerRevolution through evolution

O discípulo agradece ao mestre

Os apelos ao ostracismo de Ventura são bem intencionados, e, seguindo a sabedoria popular, de imediato devem ser despachados para o Inferno. O problema para a democracia, se algum, que este palhaço configura não tem qualquer relação com a sua notoriedade – antes, e só, com a ausência de exposição. Para ser exposto, basta começar a olhar. Por exemplo, na sua conta de Twitter aparece o número 33. Corresponde às contas que segue na mesma rede. Destas, 15 são de entidades colectivas de comunicação ligados ao jornalismo e à política. Nas restantes 18, 6 são de ilustres desconhecidos, com ou sem relação directa com o Chega. E nas 12 finais, encontramos Trump, Bolsonaro, Boris Johnson, Farage, Salvini, Ivanka Trump, Flavio Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro, Nuno Melo, Rui Rio, Paulo Sande e Pedro Pestana Bastos. Isto é uma pançada de material para levar Ventura a mostrar do que é feito.

No canal YouTube do Chega, o festival do culto de personalidade atinge a completa alucinação feirante. Eis uma amostra dos títulos:

1º Debate Quinzenal - Ventura arrasa Costa - 13NOV2019 / André Ventura ARRASA Governo - Parte 3 / André Ventura arrasa politica de transportes da esquerda! / André Ventura arrasa Governo e BE sobre racismo! / André Ventura ARRASA Sá Fernandes do LIVRE / André Ventura ARRASA saúde e é insultado pelo BLOCO! / André Ventura ridiculariza PS sobre portagens na A28! / André Ventura ARRASA definitivamente incoerência do Bloco de Esquerda! / André Ventura arrasa PS sobre educação especial! / André Ventura volta a ARRASAR esquerda parlamentar / André Ventura. Discurso histórico no 25 de Abril! / André Ventura ridiculariza Ministro Eduardo Cabrita! / André Ventura atira-se a deputado do PS nos apoios às pequenas empresas / André Ventura arrasa novamente Catarina Martins / André Ventura ARRASA deputados com prisão perpétua / André Ventura aperta Centeno / ASSEMBLEIA TENTA CALAR CHEGA!!! / Ventura arrasa Costa com máscaras inválidas! / André Ventura atira TANCOS à cara do Partido Socialista! / André Ventura malha no Bloco de Esquerda sobre Madeira e Açores / 💣 💥 André Ventura faz declaração mais EXPLOSIVA de sempre e ARRASA todos os partidos! / Ventura volta a DESFAZER o Bloco. Só o CHEGA quer combater a CORRUPÇÃO! / CHEGA arrasa HIPOCRISIA do PS sobre os enfermeiros / CHEGA arrasa esquerda parlamentar sobre a TAP e pede plano sério / André Ventura ENCOSTA Pedro Nuno Santos à parede / André Ventura ARRASA todos os partidos na defesa dos polícias! / Bloco não aprende e volta a levar CARGA de André Ventura / CHEGA defende Joana Marques Vidal para conselho de transparência no parlamento

Não é lindão? Ventura arrasa tudo e todos. O que não admira. Quem nasce da fibra do Passos, e é fã da santa Joana, tem realmente o carácter indicado para dar cabo desta bandidagem toda. Nas suas fantasias alarves, estes infelizes arrasam com a Assembleia da República, com o Estado de direito e com a democracia várias vezes ao dia. Não merecem ser desprezados, mereciam era que Portugal tivesse imprensa para que os pudéssemos ver como eles realmente são: