Arquivo da Categoria: Valupi

Do povo e do putedo

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O populismo, na política portuguesa, começou em 2019? Usando o Aspirina B como grupo focal, a primeira vez que se fez referência ao populismo foi logo em Dezembro de 2005, tinha o blogue apenas dias de existência. Vale a pena recuperar a entrada de Luis Rainha e a citação que traz de Louçã: ““O que faz falta em Portugal é abrir a cultura, destruir a ideia de que a criação da mediocridade populista é a cultura de que o povo precisa e de que o povo gosta”. Depois desta estreia, o conceito voltou em 2007 aos escritos e por cá tem acompanhado o devir político nacional. Populista foi sempre a retórica do PCP e do BE, um populismo de esquerda clássico onde se desconfia do Estado de direito democrático, do Parlamento, e se repete a cassete sectária onde o “povo” pertence aos monopolistas de embrulho marxista. E populista começou a ser, exclusivamente, o discurso do PSD e do CDS a partir de 2008, onde o desabamento do seu império bancário e o sentimento de impotência perante Sócrates e a sua equipa levou a direita portuguesa a apostar tudo no moralismo e na judicialização da política, esteios do populismo larvar e inorgânico, mediático. Em 2008, Cavaco lançava – em tandem com o PSD – a estratégia do assassinato de carácter recorrendo à mais universal, básica, chicana: Sócrates era mentiroso. Nasceram os martelos “Falar verdade aos portugueses” e “Política de Verdade”, os quais enterraram a direita portuguesa numa decadência moral e intelectual que só se tem agravado. Foi dessa indigência e putrefacção que vieram o Chega e a Iniciativa Liberal.

A entrada de André Ventura e João Cotrim de Figueiredo na Assembleia da República está a ter um curioso e benéfico efeito no jornalismo político. De repente, passou não só a ser legítimo como urgente denunciar e desconstruir os discursos populistas e demagógicos. No entanto, esses discursos são em tudo variações do que tem sido considerado, validado, por esse mesmo jornalismo político como o normalzinho da Silva “fazer política”. A alteração de atitude e comportamento explica-se facilmente. Estando o jornalismo político dominado pela direita, agora há que defender o PSD e o CDS de clones que ameaçam manter a direita na oposição nos próximos séculos por causa de uma imparável fragmentação e radicalização. Isso significa que se tornou permitido, dentro das redacções do risível “jornalismo de referência”, fazer aquilo que estava vetado no passado. Antes das últimas legislativas, um qualquer passarão ou bronco do PSD e do CDS pôde dizer as maiores barbaridades no Parlamento e no espaço mediático que tal era levado ao colo e protegido pela “imprensa”. Estava tudo bem, contra os socialistas valia tudo. Agora, com os estreantes rivais em chungaria, alto e pára o baile. Saltam exercícios de aplaudida salubridade e apelo à razão e à decência. A pulhice entranhada no PSD e no CDS é para uso exclusivo, eis a lição do jornalismo político português. Afasto deste argumento sobre textos de opinião e reflexão o trabalho jornalístico sobre a tese de doutoramento do Ventura, o qual é uma típica investigação de jornalismo genérico e fundamental.

Como se vê na notícia acima, apenas um exemplo e muito longe de ser o mais grave, o populista André Ventura é uma criação do populista Passos Coelho. O mesmo Passos que em 2010 promovia a ideia de se julgarem e condenarem políticos por razões exclusivamente políticas. O mesmo Passos Coelho, de braço dado com Cavaco Silva, que em 2018 fez campanha para a recondução de Joana Marques Vidal sugerindo que tanto Costa como Marcelo pretendiam ser cúmplices de criminosos.

Talvez o fenómeno a que estamos a assistir na comunicação social, então, também se explique recorrendo às referências metafóricas de Ventura e Passos, isso de terem aparecido as prostitutas baratas no bar de alterne das putas finas.

Inês Ferreira Leite ou Luís Rosa, qual deles defende a liberdade?

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Há uma altura em que três homens estão a falar ao mesmo tempo, por cima uns dos outros, na tentativa de calar a mulher que discursa clara e pujantemente. Que estaria ela a dizer de tão grave para suscitar tão impulsiva, descontrolada e agressiva resposta? Estava a referir evidências que qualquer pessoa decente tem a obrigação de invocar a respeito do que a Justiça tem feito a Sócrates, evidências relativas aos abusos judiciais, exploração mediática e perseguição política; mas só se a intenção for a de avaliar a “Operação Marquês” com honestidade intelectual, claro. Ora, isso os tais homens não suportam dado serem parte da claque que fará tudo o que puder para ver Sócrates condenado – sendo o gozo ainda maior se for condenado por corrupção sem provas pois, nesse cenário, a essência de um julgamento político ficaria exuberantemente inscrita na História como exemplo do poder absoluto da oligarquia portuguesa.

Ao longo das intervenções de Inês Ferreira Leite podemos ver como ela é sistematicamente interrompida com comentários irrelevantes, cuja finalidade é essa mesma de interromper a argumentação e saltar para uma pseudo-conclusão (e sectária, preconceituosa, enviesada) que desvaloriza e esconde o fio condutor do raciocínio da Inês. Todavia, ela responde a cada tentativa com implacável atenção, rapidez e fluidez, recuperando os conteúdos que queria transmitir. Admirável capacidade dialógica.

Não só os homens presentes (4 jornalistas e 1 procurador) foram activos na tentativa de boicote das posições da Inês como não deram o mínimo destaque ao que de mais importante era dito pela jurista. E, de entre as várias declarações que por si só justificariam um debate autónomo (especialmente, a pedagogia sobre o estatuto e papel do Ministério Público), a mais importante foi relativa à falta de fundamento para a detenção de Sócrates. Sobre isto, os dois jornalistas a soldo do militante nº 1 do PSD que dirigiam o programa nem tugiram nem mugiram, minha nossa senhora do Caravaggio.

Como é que se defende a liberdade? Através da perversão do poder policial e dos abusos da Justiça ou pela livre criação de leis que garantam a liberdade para todos – o que implica punir quem ameace a liberdade, a vida e a propriedade? A resposta devia ser óbvia, séculos depois das revoluções liberais que instituíram o Estado de direito democrático como a mais civilizada forma de convivermos social e politicamente uns com os outros, mas em Portugal a “Operação Marquês” permite identificar quem pretende usar as forças policiais e a Justiça para atingir alvos políticos e objectivos comerciais. Luís Rosa, e quem lhe paga, pertence a esse conjunto de poderosos influenciadores do espaço público que está em campanha para a condenação de Sócrates mesmo que não existam provas de ter cometido qualquer acto de corrupção. Luís Rosa concebe-se como um soldado da parte mais forte, aquela que até dispõe de aliados no Ministério Público e nos tribunais fora os restantes impérios de comunicação que espalham diariamente as mesmas mensagens – daí sentirem que podem impunemente violar a Lei e os princípios constitucionais sem correrem o menor risco de sofrerem com isso.

Na “Operação Marquês” está em causa descobrir se um primeiro-ministro em Portugal cometeu crimes de corrupção. Esta suspeita é a mais grave que alguma vez se investigou na Justiça portuguesa, dadas as implicações para o sistema partidário, a governação e o regime. Tudo deve ser exaustivamente apurado, esclarecido e julgado pelos magistrados responsáveis ao longo do processo. Porém, ainda mais importante do que a eventual corrupção de um primeiro-ministro é a eventual corrupção da própria Justiça. A “Operação Marquês” é também uma avaliação dos protagonistas e procedimentos de quem fez a acusação e de quem a julga em tribunal. Os que defendem a liberdade jamais aceitarão que lhes ofereçam a cabeça de um político enquanto lhes roubam a inteligência e a coragem.

Carlos Alexandre, o matador

Operação Marquês. Conselho Superior da Magistratura arquiva processo disciplinar a juiz Carlos Alexandre

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Novo triunfo glorioso para Carlos Alexandre. Com a praça do Conselho da Magistratura lotada pela mais apaixonada e exigente afición jurisprudencial que existe na Grei, Carlos Alexandre voltou a cortar duas orelhas e o rabo à Justiça, saindo em ombros levado pela Cofina e prolongando a ovação de pé que recebe apoteoticamente na indústria da calúnia, na direita decadente e no populismo bronco e encardido.

Este juiz é o nosso grande matador, incomparável, super. Consegue recusar promoções para se manter firme no centro da arena, enfrentando a bandidagem socialista olhos nos olhos antes de lhe espetar com a espada flamejante da santidade de Mação. Consegue ir para a televisão promover a sua excelsa pessoa formada na telescola e na missa e, milagre, arranja espaço para declarar que um certo arguido que lhe foi confiado pelo Estado e pela Constituição não passa de um reles criminoso – estando, então, esse famigerado arguido assim exposto sem piedade nas suas misérias ainda sem sequer ter sido acusado e, três anos depois dessa condenação televisionada em julgado pelo superjuiz, ninguém fazendo a mínima se será condenado em tribunal, e do quê, nos próximos não fazemos puto ideia quantos anos. Agora, tal como a notícia suso relata, consegue despejar por cima de toda a Justiça portuguesa, também em entrevista na TV, uma suspeição apocalíptica que só um ser ungido pelo divino conseguiria urdir e proclamar: Ivo Rosa teria sido escolhido como o magistrado que decide na fase de instrução criminal da “Operação Marquês” através de um falso sorteio, um sorteio manipulado – ou seja, Carlos Alexandre declarou que a instituição que representa e onde ganha a vida (quando também não anda a pedir empréstimos a amigos) é corrupta; que Ivo Rosa era o corrupto da dupla “sorteada”; logo, que todo o regime é corrupto, que o mundo é imundo ó pá, quod erat demonstrandum. Perante estas artísticas e bravíssimas faenas, a nossa Justiça assume que nada pode fazer porque nada consegue ouvir do que o fulano vozeia alto e altaneiro. O matador cortou-lhe as orelhas, à Justiça resta aceitar o seu destino de morte e consolar-se na merecida surdez.

Quando os pulhas, os fanáticos e as alimárias dizem que Carlos Alexandre faz aquilo que mais nenhum juiz conseguiria fazer “no combate à corrupção” e no castigo da malandragem, isso de fingir ser o juiz dos direitos e garantias dos arguidos para efectivamente se comportar como um aliado dos procuradores e da sua (de ambos, juiz e acusação) pulsão justicialista, acabamos por reconhecer a provável veracidade dessa imagem. De facto, talvez mais nenhum juiz a não ser esta ridícula e escandalosa figura aceitasse o obsceno papel de se fantasiar como a espada do catolicismo rural profundo para assim gastar os dias mergulhado na devassa da privacidade dos “senhores e senhoras de Lisboa”. Almas perdidas para o Diabo. Encharcados de vícios, pecados, bacanais.

Talvez. É uma fezada.

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Beating diabetes: is there a role for nutraceuticals?
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How meditation can help you make fewer mistakes
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Reappropriation — by which a group of people reclaims words or artifacts that were previously used in a way disparaging of that group — can tame uncivil discourse
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Gonçalo Ribeiro Telles no Reino da Estupidez

«“A diminuição severa de água da chuva disponível no solo pode resultar na diminuição de disponibilidade de água dos rios e dos aquíferos, o que numa situação limite pode condicionar a quantidade de água disponível para consumo humano e do ecossistema”, alerta Paula Quinteiro, coordenadora do estudo e investigadora do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (CESAM), uma das unidades de investigação da UA.

“Na atualidade já se identifica alguma pressão nos recursos de água verde [água da chuva] sendo que esta pressão irá aumentar significativamente no futuro, dando a indicação de que em algumas situações, e dependendo dos requisitos de água necessários para garantir e maximizar o crescimento de vegetação, devem ser implementadas medidas de gestão/captação e eficiência de consumo dessa água”. Entre as medidas podem, por exemplo, “ser implementados sistemas de recolha de água da chuva por forma a garantir a respetiva disponibilidade para irrigações agrícolas e florestais”.»


Alerta: diminuição de chuva põe em causa ecossistemas

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Não sei, não entendo, qual a razão que o impede ou atrasa pois não frequento o meio partidário, parlamentar e governativo, mas sei, e entendo, que Portugal e Espanha (e também Marrocos e outros países mediterrânicos, quantos mais melhor) se deviam unir na criação de um centro de investigação capaz de liderar mundialmente a descoberta de novas metodologias, tecnologias e políticas em ordem a captar, distribuir e reutilizar a água da chuva no maior volume possível. Esse centro de investigação, com uma ambição tão alta, pede uma escala de investimento sem paralelo com as verbas usuais nas faculdades e institutos universitários. Deveria antes ser algo congénere do Projeto Manhattan e do Programa Apollo, mutatis mutandis. Dada a diversidade climática e meteorológica na Península Ibérica, e especialmente tendo em conta a previsão de vir a ser esta uma das regiões planetárias mais afectadas pelas alterações climáticas e pela ameaça de desertificação, temos todas as razões para começar anteontem a diminuir o impacto desse futuro já presente. Simultaneamente, uma tal iniciativa, onde o papel do Estado ao serviço do bem comum seria levado à sua pontencialidade máxima, ficaria como monumento glorioso para as gerações – para além de unir espanhóis e portugueses numa jangada de vanguarda científica e técnica.

Noutras partes do Globo avança a investigação de ponta a respeito do aproveitamento da água do mar, e não só, através da dessalinização. Também a tal teremos de recorrer, confirmando-se as previsões que os actuais modelos climáticos produzem e a repetição dos anos de seca que se têm registado. Todavia, é para mim escandaloso constatar como este alerta de Paula Quinteiro não gera qualquer sobressalto na opinião publicada, no discurso político, sequer no ecologismo inorgânico.

Esse alheamento exibe um país de ignorantes. Ignorantes em matérias científicas e ignorantes em vivência cívica. É o mesmo país que desprezou a inteligência, a paixão, a missão de Gonçalo Ribeiro Telles, alguém que anda há décadas a falar nesta e noutras questões agora assustadora e urgentemente vitais. Um país que quer ter cães e gatos em casa mas não suportaria ver uma galinha a ser morta para uma canja e que acha que os incêndios, também agravados pelas alterações climáticas em cima da desertificação e abandono rural, é uma cena que o Marcelo vai resolver obrigando os socialistas a demitir ministros.

É com melancolia dolorosa e revoltada, que se transforma em serena força de combate, que podemos assistir a um documento com 46 anos que só ganhou em actualidade com a passagem do tempo; tinha este português de lei 51 primaveras e o Marcelo-padrinho ainda era Presidente do Conselho:

Isto é o da Joana, diz Luís Rosa

Luís Rosa pretende que aconteça a Sócrates o mesmo que foi feito a Leonor Cipriano, condenada sem provas e após tortura policial.

Luís Rosa usa a sua carteira profissional para servir quem fez da “Operação Marquês” um processo de assassinato político.

Independentemente da descoberta se Sócrates é inocente ou culpado, o que uma investigação isenta deveria conseguir estabelecer sem margem para a menor dúvida e com a máxima rapidez, ver o uso da Justiça em cumplicidade com a comunicação social para perseguições políticas é, antes de um golpe de Estado, o mais grave atentado contra o Estado de direito democrático, a República e a liberdade.

Rui Rio e a lama

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Alguém se recorda de ler ou ouvir Rui Rio a insurgir-se furibundo contra o “jornalismo na lama” e contra o “abandalhamento dos mais elementares princípios de relacionamento humano” numa qualquer outra altura ou a propósito de um qualquer outro assunto? Ninguém, nem o próprio. De certezinha absoluta, tal não se encontra no seu canal Twitter e nas suas declarações públicas desde que se tornou candidato a presidente do PSD e até à actualidade. Mas esteve próximo em 2014 – Rui Rio confessa-se “em choque” com a prisão de Sócrates – embora nem aí tenha chegado à ira dos idos de Novembro de 2019. Motivo para a explosão twittada? É ver, ver a parvoeira em questão, e pensar no que isso diz de Rio.

Umas beiçolas à mostra deixam um candidato a primeiro-ministro pronto para defender com a vida os mais elementares princípios de relacionamento humano. Então, como explicar que esse mesmo candidato a primeiro-ministro tenha feito uma campanha eleitoral onde traiu os mais elementares princípios do respeito pelo Estado de direito, da presunção de inocência, da separação de poderes, da ética republicana, da honestidade intelectual e da integridade de carácter? Como explicar que esse mesmíssimo candidato aceite conviver calado com uma indústria da calúnia onde foi buscar munição assim que desistiu de brincar aos políticos decentes e corajosos?

Causticar o jornalismo por causa de um inane exercício de pulhice do Expresso que só rebaixa quem o fez e encher aí a boca com a grandiloquência dos “princípios de relacionamento humano” quando temos uma indústria da calúnia que diariamente amplifica crimes e disfunções de magistrados ao serviço do comércio e da agenda política da oligarquia, que trata como criminosos sem defesa possível cidadãos inocentes até prova em contrário, muitos nem sequer ainda acusados nem se sabendo se alguma vez o serão, que devassa e explora a privacidade até de testemunhas em processos, eis o retrato de um chefe político impotente. Impotente para defender a cidade.

Não admira que o Twitter de Rui Rio seja um espectáculo de amadorismo bacoco e egocentrismo transparente. Ele dá muito mais valor à sua imagem, tal como a concebe no mundo pequenino que habita, do que aos mais elementares princípios da vida em comunidade num Estado de direito democrático. Foi exactamente por isso que resolveu encher de lama as legislativas de 2019.

Lapidar

«[…]

Nisso não se diferencia da política, atividade a que João Vasconcelos também dedicou uma parte da sua vida. Não é possível estabelecer qualquer ligação direta entre o modo como saiu do Governo e a sua morte. Mas, em nome da cínica doutrina que domina as relações entre a política e a justiça em Portugal, bastou a suspeita, uma simples constituição de arguido, para que a experiência política de João Vasconcelos e dois outros colegas terminasse, eles se sentissem compelidos a abandonar os seus lugares no governo e o chefe do dito aceitasse a sua saída, sucumbindo a uma máxima de que à justiça o que é da justiça, que tendo sido boa quando referindo-se à separação de poderes, hoje apenas esconde a cobardia dos políticos face ao frequente conluio em fases processuais precoces entre acusação e media.

A saída de João Vasconcelos do governo merecia ser ensinada em cursos de política e faculdades de direito, porque consuma a inversão total da separação de poderes em que vivemos. O estatuto de arguido, justamente criado para proteger um suspeito, foi aceite como fundamento suficiente por um governo para perda de condições de exercício de funções. Sem cuidar sequer de analisar dos méritos da causa da parte acusadora - e chamo-lhe assim porque já vi o Ministério Público em ação vezes suficientes para saber que não busca a verdade, como magistratura independente, mas a demonstração das suas teses, mesmo que sejam só hipóteses, meras conjeturas ou até raciocínios contaminados por imaginações que mereciam análise de como se formam.


[…]»

Paulo Pedroso

Revolution through evolution

Simple blood test for early detection of breast cancer
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Scientists should have sex and gender on the brain
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Any amount of running linked to significantly lower risk of early death
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Thinking in a foreign language can reduce emotional biases
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What factors predict success?
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Voters agree with polls that favor their candidates
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The truth about misinformation
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Daniel Oliveira, do instinto ao mercado

O “Sem Moderação”, nascido no canal Q e daí tendo também chegado à TSF, é um programa de debate político que estará no fim da tabela quanto a notoriedade e audiências (mas agradecerei ser corrigido, ignorante dos números ao teclar). Será preciso gostar muito de política, mas bué da muito, para lhe dar atenção. Apesar do seu estatuto a raiar a invisibilidade, é possível ficarmos a conhecer melhor este Portugal onde viemos parar na roleta ontológica observando o comportamento dos bípedes implumes que lá se exibem. Dado que o Zeitgeist arrasta esses protagonistas para contumazes automutilações cívicas e éticas quando botam faladura sobre Sócrates, a observação é rica de aprendizagens. Como na última emissão.

Ausente Pedro Delgado Alves, os restantes companheiros quiseram voltar a sentir a excitação da caçada pela enésima vez; posto que não se esgota o vício com a repetição do disparo, só aumenta, como sabe o caçador. Eles não têm dúvidas: Sócrates deixou de ser uma pessoa, nunca teve nem terá família e amigos, perdeu o direito a ser condenado de acordo com a Lei apenas e só se existirem provas julgadas em tribunal. Transformou-se no bode expiatório do regime e cada um quer reclamar um pedaço do seu corpo abatido. Sócrates é presa de montaria. Daí, a baba caudalosa a escorrer das favolas, os rostos hieráticos ou ferozes, as vozes esganiçadas e o palavrório soberbo.

Este frenesim significa – porque só assim se explica a energia que convoca e por ele se espalha no éter intersubjectivo – que cada um dos caçadores socráticos vivencia o processo judicial e respectivas peripécias da “Operação Marquês” como a continuação da luta política, da agonia inerente à conquista ou perda do poder. Logo, ter-se prendido um cidadão para ser investigado, ter estado preso por suspeitas entretanto desaparecidas do processo, ter a sua privacidade devassada e achincalhada mediaticamente, e assistir a violações grosseiras dos deveres de magistrados e do juiz que supostamente seria o garante dos seus direitos, isto – mais a práxis criminosa à solta no Ministério Público e na comunicação social – se aceita, se explora, se celebra porque faz parte do arsenal necessário ao combate a um inimigo formidável contra quem vale tudo. Até vale despachar convicções de culpabilidade ao mesmo tempo que se reconhece não ter aparecido até hoje qualquer nexo factual com um qualquer crime de corrupção, que é para a fajardice destes três tristes trastes ser ainda mais cínica e debochada.

José Eduardo Martins é sócio na Abreu Advogados, o mesmo escritório onde Paulo Teixeira Pinto e Marques Mendes são consultores. Francisco Mendes da Silva é advogado sénior na Morais Leitão, o mesmo escritório onde Lobo Xavier é sócio. O primeiro é militante do PSD, o segundo do CDS. Sonham com cargos políticos dirigentes e governativos, o comentariado poderá ser escadote ou atalho. Perceber, entender e compreender as motivações de ambos para usarem a sua competência académica e profissional em ordem a se constituírem oficiosamente como coadjuvantes do Ministério Público e das polícias não gasta meia caloria. O linchamento de Sócrates é para eles uma extasiante festa. Mas como dar sentido ao papel do Daniel Oliveira na cegada? O suposto representante da esquerda naquela Troika justicialista, o qual se concebe como modelo de integridade intelectual e cívica enquanto artista da política-espectáculo, estava feliz da vida por poder juntar-se aos outros dois colegas de corricão. E trazia munição grossa: “parece-me haver matéria clara, sólida, para acusação de branqueamento e fuga ao fisco” + “José Sócrates é corrupto, o dinheiro que gastou veio da corrupção”. Estas afirmações peremptórias, pela boca de um pulha, seriam sempre dignas de nota tamanha a sua estupidez e indecência. Vindo de quem se vende (literalmente) como paladino da inteligência e da decência é de arrebimbomalho.

Achar que algum tribunal irá condenar um réu por branqueamento de capitais sem, concomitantemente, estabelecer que o dinheiro em causa resultou de um ilícito é a vanguardista jurisprudência elaborada pelo magnífico pensador Daniel Oliveira. Vou atribuir à influência do Dr. Martins, o qual fez uma caótica declaração inicial no programa cujo singular objectivo foi o de promover a redução dos direitos e garantias dos cidadãos perante a Justiça, a himalaica calinada. Achar que se pode agitar a bandeira da convicção de culpabilidade num caso onde estabelecer a posse do dinheiro é fulcral, e onde ainda nem sequer o principal acusado a esse respeito se pôde defender nesta fase, Carlos Santos Silva, já não remete para a estupidez. Aqui estamos realmente no vórtex da indecência, onde uma figura pública que ganha muito dinheiro como opinador não hesita em desprezar o Estado de direito democrático e as mais básicas noções de respeito pelos direitos de pessoas inocentes até prova em contrário devidamente transitada em julgado – ou seja, o Sr. Oliveira está-se a cagar para o que venha a ser apresentado pela defesa de Carlos Santos Silva, registe-se para memória futura.

O pior, infelizmente, nem é esta exibição de crassa ignorância e violência persecutória cruenta por parte do risonho Daniel sem vestígios de humanidade para gastar com o miserável Sócrates. O pior é ver como o nosso valente esquerdista alinha com os métodos de levar para o despique político as escutas policiais, a obscenidade da exploração deturpada, agendada, sensacionalista, torpe da privacidade do alvo e de quem mais se apanhar no seu círculo de relações íntimas. Na sua fúria de atingir Sócrates por onde puder, anula-se a separação de poderes e mergulha-se de cabeça na judicialização da política, como se fosse normal poder espiar adversários políticos por atacado e deixar a “gente séria” da Justiça escolher aqueles que serão expostos nas suas vergonhas ocultas. Vê-lo a cuspir-se de satisfação por ter conseguido descobrir que Sócrates gastou uns trocos aqui e ali em banalidades cuja soma nos deixa perante um valor ridículo (as férias, os jantares, os fatos, os hotéis, com que se atiça a inveja mais reles da populaça, a inveja de todos nós pobretanas, inveja submissa e reverente à gargalhada olímpica da oligarquia), tendo à sua frente dois colegas da indústria da calúnia que se passeiam nos corredores alcatifados onde a real história da corrupção e tráfico de influências à portuguesa está silenciada desde o Plistoceno e com a qual se poderia levantar uma torre de capas de jornal que daria a volta à Lua, faz de Daniel Oliveira um animal social que só pretende adaptar-se ao grupo onde come a ração. A coragem de defender a cidade pode esperar para quando – e só se – acontecer o mesmo a alguém de quem ele goste ou alguém que lhe possa dar alguma coisa em troca.

É instintivo. E é o mercado.

Sócrates? O Zé Manel explica

Excluindo o próprio e os seus advogados, não se conhece uma única figura pública que defenda Sócrates em relação às acusações judiciais de que é alvo. Não se conhece uma única figura pública que julgue moralmente aceitável o seu passado financeiro privado descoberto pela “Operação Marquês”. Não se conhece uma única figura pública que antecipe qualquer futuro político, sequer profissional, para Sócrates. Apesar de se encontrar num efectivo estado de desgraça, sem prazo conhecido para acabar e com alta probabilidade de ainda vermos aumentar a duração e magnitude da mesma, é diariamente perseguido, atacado, linchado pela turbamulta e pelos algozes que a atiçam. Não existe maior homenagem ao seu carisma político do que este fenómeno de continuar a deixar raivosa e apavorada a direita decadente depois da colossal violência policial e mediática já exercida sobre ele.

José Manuel Fernandes representa paradigmaticamente a direita do poder pelo poder, a qual actua como braço armado da oligarquia (não a oligarquia de que fala o Rui Ramos assanhada e retoricamente, antes a oligarquia que paga ao Rui Ramos em numerário e abundantemente). O Zé Manel não aguentaria 24 horas na arena política, dado ser falho das condições intelectuais mínimas para liderar partidos e projectos de interesse comunitário, pelo que fez a sua carreira de pulha na comunicação social. Nela teve sucesso e, no início de 2007, esteve à beira de ter grande sucesso pois seria um dos beneficiários da eventual compra da PT pela Sonae ao acumular a direcção do Público com a posição de administrador no grupo accionista. A OPA falhou e de imediato, um ou dois dias depois, o jornal da família Azevedo iniciou uma campanha negra contra Sócrates – a qual tem durado ininterruptamente até hoje. Dificilmente esse pasquim conseguirá ultrapassar o nível de subversão constitucional e indecência cívica atingido na “Inventona da Belém”, quando a 1 mês do início da campanha eleitoral para as legislativas de 2009 o nosso admirável Zé Manel foi cúmplice activo e interessado de uma espantosa e sórdida golpada lançada pela Casa Civil da Presidência da República com vista a perverter os resultados eleitorais, a qual chegou a eleições com o apoio declarado do Presidente da República de então. Será este Zé uma figura com credibilidade, ou que fosse módica vergonha na cara, para fustigar supostas mentiras e supostos mentirosos?

Aqui o temos agarrado à sua paixão – Sócrates: mentir não custa, basta ter esse hábito – e tudo o que despeja é útil para se tirar a fotografia à pulsão assassina que o anima e à vingança em curso:

– Começa por se queixar de Ivo Rosa ter dificultado o acesso aos interrogatórios a Sócrates mas depois fala das suas declarações ao juiz como se as tivesse ouvido na íntegra e presencialmente.

– Pinta Sócrates como mentiroso mas não identifica qualquer das aludidas e copiosas mentiras de forma objectiva e factual.

– Goza com a quantidade de dinheiro gasto por Sócrates em diferentes situações e circunstâncias para o difamar, promovendo o sofisma de serem os seus gastos anómalos e ilícitos só por serem inalcançáveis para os rendimentos do português médio. Nada contextualiza nem justifica, esgota-se no sarcasmo o chiste.

– Acha impossível que exista um “cofre” (material, metafórico?) na posse da mãe de Sócrates com dinheiro vindo de uma herança. Contudo, apenas possui como informação a respeito desse tema o que acabou de ser espalhado em violação do sigilo judicial e está a apagar a ideia, com décadas, de realmente ter existido tal herança.

– Descreve Sócrates como o político mais bem preparado que conheceu, com domínio absoluto sobre os temas que discutia em público. Não se interroga se tal perfil é conforme à imagem de corrupto incontrolado que promove na comunicação social há anos.

– Descreve Sócrates como “grande actor”. Na aparência, está a sugerir que é hipócrita, mentiroso. No fundo, está a deixar-lhe outro elogio, pois não há política sem teatro, sem actores, sem palco, sem assistência.

– Regozija-se por o “animal feroz” estar “ferido”, contudo ainda não está morto, daí continuar a ser “perigoso”. O exemplo que dá do “perigo” é delicioso de perfídia.

– Para combater o suposto “risco de populismo” que uns ingleses antevêem caso se leve Sócrates a tribunal, o Zé Manel considera que os bifes não percebem nada do que se está a passar. E explica: “os portugueses já têm bem consciente que houve corrupção, gestão danosa e que muita gente enriqueceu com custos pesados para o País, sobre isso não há dúvidas”, portanto, “Sócrates tem mesmo de se sentar no banco dos réus para se fazer justiça” – ou seja, o julgamento de Sócrates já foi feito nos esgotos a céu aberto, tendo sido declarado culpado pela corrupção de tudo e de todos, estando só a faltar a formalidade de cumprir com a burocracia num tribunal disponível para ser despachado na ramona até ao calaboiço.

O Zé Manel não tem disponibilidade mental, nem estofo moral, para tentar descobrir se o dinheiro usado por Sócrates veio da corrupção, da mãe ou do amigo. Para ele é exactamente igual ao litro, e quanto menos se falar disso melhor. O processo resume-se a cumprir com um julgamento que é, primeiro e acima de tudo, político. E, sendo político, não há perdão nem misericórdia. Não há justiça, é matar ou morrer. Daí a desumanização extrema a que se entrega, encharcado de adrenalina e dopamina no antegozo de ver as labaredas a devorarem a sua némesis.

Bestas quadradas

Ser (muito bem) pago para estar num canal televisivo a despejar opiniões é um raro privilégio, ainda mais raro e de mais alto privilégio quando do programa em causa saiu um primeiro-ministro. A pose, os maneirismos, na “Circulatura do Quadrado” transportam-nos para um microsenado onde os participantes cultivam uma gravitas de estufa. Não sei se a influência que alcançam iguala aquela onde se embrulham na vaidade respectiva, mas sei que representam tipos socialmente influentes na comunidade que somos.

Lobo Xavier é a voz da oligarquia económico-política, actuando literalmente como advogado dos interesses de quem tem o poder financeiro e estrutural (empresas, advogados, institutos de educação, a Igreja Católica, e, claro, os órgãos de comunicação e partidos da direita que servem os mesmos interesses). Pacheco Pereira é um parasita do sistema político que usa ao serviço da sua remuneração mensal e da fantasia ego-melancólica com que se vê ao espelho. E Jorge Coelho não é nada, por nada conseguirmos fixar das banalidades que lhe enchem as intervenções.

Ora, num caso com as ondas de choque e espectacularidade da “Operação Marquês”, um verdadeiro caso de regime aconteça o que acontecer, o que estes protagonistas mediáticos digam no espaço público ganha conotações que ultrapassam inevitavelmente o âmbito das suas individualidades. Vejamos dois significativos exemplos do programa de 30 de Outubro.

Pacheco Pereira - Eu não quero participar nesta onda de hipocrisia do "alegadamente" culpado. A minha convicção é a de que é culpado. Pelo que eu conheço. Pelas declarações que ele fez. Pelo que eu conheço das mentiras compulsivas que eu conheço directamente. As declarações dele, eu não preciso de mais nada para ter esta convicção.

Eis um argumento ad hominem na sua pureza. Esta pessoa declara outra merecedora de uma pesadíssima pena de prisão a partir de uma convicção estritamente subjectiva a respeito da imagem construída no passado e não a partir dos factos na berlinda no processo judicial presente, convicção essa formada a partir da interpretação de afirmações avulsas sem qualquer assunção de culpabilidade criminal – isto é, Sócrates sempre negou ter cometido crimes de corrupção, o que de arrasto equivale a negar o branqueamento de capitais. Que leva o Pacheco a querer ser visto, ou a não se importar com tal, como alguém que despreza o Estado de direito e qualquer noção de Justiça? Qual a motivação que o faz passar por potencial e horrendo criminoso, posto que foi contra tiranos que faziam justiça pelas próprias mãos que a Civilização – na sua essência – se criou e tem vindo a desenvolver-se?

Há várias hipóteses possíveis, obviamente, optando por iluminar esta: o Pacheco é profundamente ignorante. A sua ignorância não está no recurso automático aos universais mecanismos de diabolização, onde um adversário se pinta como inimigo desumanizado, os quais explicam a repetição maníaca do assassinato simbólico de Sócrates que faz desde 2009. De cada vez que repete a acusação, o bibliotecário da Marmeleira está a reactualizar o confronto político em que foi derrotado pelo Engenheiro, servindo-lhe o ressentimento e o rancor como combustível inesgotável para o desforço. A sua ignorância está na incapacidade para ser crítico de si próprio, e essa incapacidade nasce de ser ignorante nos terrenos da psicologia.

O Pacheco largaria gargalhadas soberbas perante a sugestão de ser ignorante a respeito da psicologia, ele que se considera um especialista na natureza humana, dando caudalosas e semanais provas disso mesmo quando explica enfastiado a história contemporânea do rectângulo aos leitores e telespectadores não tão afortunados como ele em leituras e experiência de vida. Porém, se, por milagre, algum dia fosse confrontado com uma pergunta a respeito de Fritz Heider, dobrado contra singelo como ficaria à nora. Igual resultado para a tentativa de descobrir o que conhece a respeito do conceito de “enviesamento correspondente” ou “erro fundamental de atribuição” e para as teorias da Atribuição Causal e das inferências espontâneas de traços. E não há enigma nenhum nesta previsão, basta reconhecer que o Pacheco não discursa como um filósofo ou cientista (leia-se “investigador”), antes como um moralista. Todo o moralista é uma besta que prefere o egocentrismo à curiosidade. Todo o moralista é, tem de ser, profundamente ignorante.

Outro galo canta, em harmonia, pelo bico de Lobo Xavier. Vejamos:

Lobo Xavier - [quando Pacheco realçava a fragilidade da acusação] Mas é muita matéria, é muita matéria. Esteja descansado, Pacheco Pereira, esteja descansado...

Lobo Xavier - [para Jorge Coelho, o qual realçava a gravidade da situação caso não existam provas de corrupção contra Sócrates] Não se aflija, não se aflija, não se aflija...

Este passarão não se contém, não resiste a pavonear-se com o poder que usufrui ocultamente. Aqui aparece a garantir que Sócrates vai mesmo ser condenado, de uma forma que salvará a “Operação Marquês” de qualquer suspeita de manipulação política. E prevê que vamos ter muitos anos de processo. Não custa a descodificar a mensagem. Lobo Xavier está a profetizar que, na eventualidade de Ivo Rosa ilibar Sócrates ou apenas o mandar para tribunal pela acusação fiscal, o Ministério Público irá recorrer e, nas instâncias seguintes, Sócrates será triturado por juízes sem as manias garantistas desse que actualmente está com a coisa nas mãos. Daí o seu júbilo ao referir a quantidade de pontas por onde se pegar e dar a Sócrates o tratamento que o regime precisa que seja dado. O tratamento que já foi dado a Armando Vara e que correu tão bem.