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Coisas do Carvalho

Preparemo-nos, então. Vêm aí muitas palavras grandiloquentes, muitas intervenções inflamadas, muitas denúncias, muitas indignações sinceras ou nem tanto, mas quando todo o processo acabar, o sistema que se apropriou da Caixa terá ganho tempo para deixar tudo na mesma. Escrevia esta segunda-feira João Miguel Tavares que um dos maiores problemas do país é “a incapacidade de aprender com os erros cometidos”, o que sendo uma absoluta verdade merece o devido contexto: o país não aprende porque não há grande coisa a aprender.

Depois das palavras e das palavras e das palavras, os gestores que usaram a Caixa com negligência e dolo para satisfazer projectos políticos e pessoais nesses tempos nefastos da era Sócrates e os que se serviram dessa farra hão-de continuar por aí como se nada tivessem feito, como se nada devessem à justiça e ao bem-comum.

Sem que se ponha em causa o mérito da CPI e a boa vontade dos deputados e dos partidos que a propõem, a verdade é que acabará por repetir nomes concretos, dívidas precisas e manobras conhecidas sem que nada mais aconteça. A Caixa de hoje nada tem a ver com a desse passado obscuro, como o país de hoje se libertou da corte de políticos, banqueiros e ditos empresários que deram ao pobre capitalismo português um toque de nepotismo e cleptocracia.

Mas, não nos iludamos. Feridas como a da Caixa não se curam com discursos. Mas, com a alçada da lei para lá dos prazos da prescrição, pouco nos resta. Para lá da memória, da indignação e de uma CPI fora de prazo.


Manuel, 30 de Janeiro

Muito mais do que um ajuste de contas, exigiam-se conclusões que nos permitissem fazer um juízo ético sobre esses anos conspícuos e sobre os personagens que os protagonizaram. A exigência que os deputados colocaram nos trabalhos, com destaque para a inevitável Mariana Mortágua, mas sem colocar o mérito de todos os outros em questão, obriga a uma óbvia conclusão: ainda bem que a CPI existiu.

A utilidade de inquéritos destes é a de munir a opinião pública com ferramentas de pressão suficientes para se evitar no futuro a repetição do festim de dinheiro fácil e da complacência das entidades que deviam zelar pelo interesse colectivo – o Governo como dono da Caixa e o Banco de Portugal como regulador do sistema financeiro.

É expectável que a matéria apurada na CPI reforce agora a viabilidade de processos judiciais aos autores dessa história ruinosa. A CPI ajudou-nos a perceber esses mecanismos e a revelar a facilidade com que o deslumbramento provinciano da corte lisboeta transforma personagens de opereta, como Joe Berardo, em investidores encartados e doutores em finanças. Prestou um bom serviço ao país.


Carvalho, 16 de Julho

*_*

Manuel Carvalho, um dos maiores craques em ética e deontologia jornalística que este rectângulo à beira-mar abandonado já pôde observar em acção, não é só alguém que tem direito a mudar de opinião a cada seis meses. Ele é muito mais do que apenas um especialista em política manifestamente baralhado, muitíssimo mais. Acontece estarmos perante o director de um “jornal de referência” que cita um caluniador profissional para nos ajudar a perceber como as coisas é. Veja-se a profundidade, a originalidade, o alcance do pensamento convocado: «Escrevia esta segunda-feira João Miguel Tavares que um dos maiores problemas do país é “a incapacidade de aprender com os erros cometidos“». Tomem e embrulhem, seus trastes da política e das elites. Aqui está quem vos topa e não perdoa.

O magnífico Carvalho é também um fulano que se entusiasma facilmente com “uma era dominada pela irresponsabilidade, pela negligência e pelo amiguismo das relações cortesãs alimentado pelo poder do dinheiro, esses anos conspícuos do festim de dinheiro fácil e da complacência das entidades que deviam zelar pelo interesse colectivo, onde o formalismo da lei serviu para ocultar a falta de probidade, de devoção ao interesse público ou de determinação para lutar contra a corrente desses dias insensatos em que uma oligarquia política e financeira tentou tomar de assalto o país com o dinheiro fácil que saía da Caixa para encher de deslumbramento a corte lisboeta“. É isto que ele conclui quando se põe a matutar no assunto. Infelizmente, não teve tempo para deixar uma qualquer informação factual, objectiva, à prova de dúvida, para sustentar o cenário de falência do Estado e saque onde a sua retórica do Bolhão se sente em casa.

Se há algo que podemos concluir a partir das suas conclusões é que este senhor desconhece o que foi dito na II Comissão Parlamentar de Inquérito à Recapitalização da Caixa Geral de Depósitos e à Gestão do Banco pelos auditados. Desconhece intencionalmente, daí recusar-se a fazer referências onde seja possível haver contraditório. Basta-lhe a versão preliminar onde a politização dos trabalhos é o único critério que fica consensualmente transparente. Daí os alvos no final do inquérito serem exactamente os mesmos que eram agitados no início: Santos Ferreira, Vara e Constâncio [portanto, Sócrates]. Tudo o resto, todos os testemunhos que pulverizaram essa chicana obsessiva, foi apagado por quem agora utiliza mais um exercício onde se provou a normalidade e licitude dos processos na CGD para fazer a propaganda exactamente do contrário.

Inventar notícias falsas, atacar a honra de ex-governadores do BdP e ex-administradores bancários, e ainda de actuais colaboradores do jornal de que se é director, ser rancorosamente sectário e festejar a possibilidade de ver alvos políticos a serem constituídos arguidos, isto é obscenamente do Carvalho.

Lapidar

A promiscuidade que nunca existiu

Em Portugal tornou-se famosa a frase “você sabe que eu sei que...”. Por aqui não levou a lado nenhum, mas quem acompanhe o trabalho de Glenn Greenwald desde investigações anteriores sabe que ele costuma saber o que está a dizer. E o que está a mostrar é que há pecado original na abordagem da justiça brasileira a Lula. Um pecado original de promiscuidade entre acusação e juiz, que no Brasil atinge padrões chocantes que nunca atingiria em Portugal, quando o juiz de instrução é também o juiz de julgamento, mas que está longe de ser um exclusivo do nosso país-irmão. Na minha experiência com a justiça criminal portuguesa nunca percebi porque o juiz imparcial entrava na sala pela mesma porta da acusação, porque tinham gabinetes em zonas conjuntas ou porque claramente se tratavam como iguais e acima dos advogados dos arguidos. A igualdade de armas entre acusação e defesa é um elemento fundamental da justiça em tribunal. Com o que já ouvimos do caso Lula no Brasil e neste caso é uma anedota. Nunca, ninguém investigou a intimidade entre juizes e ministério público em Portugal. Portanto, entre nós, tal como o fascismo, a promiscuidade entre magistrados judiciais e magistrados do ministério público nunca existiu.


Paulo Pedroso

Revolution through evolution

Teens ‘Mocked’ by Their Parents Are at Greater Risk for Bullying, Victimization
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Facial Plastic Surgery in Men Enhances Perception of Attractiveness, Trustworthiness
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Psychiatric diagnosis ‘scientifically meaningless’
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Goats can distinguish emotions from the calls of other goats
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The brain’s pathways to imagination may hold the key to altruistic behavior
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Making sense of morality: FSU researchers advance the study of ethical decision-making
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Even in Svelte Adults, Cutting About 300 Calories Daily Protects the Heart
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A mais velha pulhice do mundo

Pode haver racismo sem raças à mistura, ou sob outras capas terminológicas mas com iguais processos cognitivos discriminatórios e práxis persecutória? Luís Rosa, um “jornalista” pago pelos accionistas do Observador para morder as canelas ao PS e a qualquer socialista que consiga apanhar com as suas favolas raivosas, prova que sim.

Num texto de princípios de Junho que não provocou o mais leve estremecer de asas nas borboletas do nosso comentariado nem nos passarões do sistema partidário – É óbvio que o PS não quer lutar contra a corrupção – este talibã faz algo que nunca tinha visto ser feito com igual clareza e à-vontade na comunicação social profissional:

– Diz que os dirigentes e militantes do PS, desde 1975, pretendem dominar politicamente o Ministério Público.
– Diz que o Ministério Público tem sido, e é na actualidade, a entidade política que impede o PS de usurpar o poder durante longas décadas.
– Diz que os actuais dirigentes socialistas (portanto, António Costa e companhia) estão a tentar acabar com a luta contra a corrupção por causa da “Operação Marquês”, de Armando Vara, de Manuel Pinho e de uns autarcas socialistas constituídos arguidos há umas semanas.
– Diz que Isabel Moreira representa o que o PS todo pensa e quer para o Ministério Público (logo, que um texto de opinião da Isabel vale mais do que as políticas do actual Governo e as propostas da actual ministra da Justiça, para não falar no grupo parlamentar socialista).
– Diz que Isabel Moreira quer que o Ministério Público regresse ao modelo que tinha durante o Estado Novo.
– Diz que Isabel Moreira, posto que se atreve a dizer o que pensa em público, deve ser convocada pela procuradora Lígia Salbany para prestar declarações no processo que investiga as PPP da responsabilidade dos Governos socráticos – sugerindo ainda a linha de interrogatório a fazer-se, a qual remete para Paulo Campos e Sócrates.

Não vale a pena gastar caracteres com a magnitude paranóide exibida, com a imbecilidade fanática e fétida, o que mais importa concentra-se no pedido público para que Isabel Moreira seja constituída arguida num processo judicial aberto há anos única e exclusivamente por ter assumido uma posição política que o sr. Rosa considera inaceitável. Este pedido vem de um admirador e promotor de Sérgio Moro, alguém a quem pediu pessoalmente para abrir um processo judicial internacional onde juntasse Lula, Sócrates e o esqueleto de Chávez. Entender como é que o talibã chega a este ponto, ao ponto de publicitar o seu racismo onde pretende a capitulação ou genocídio da “raça PS”, é não só relevante como urgente.

Num certo sentido, e daí a popularidade larvar desse racismo em que tropeçamos na rua e até nos recantos da nossa animalidade subjectiva, o processo resulta directamente da nossa capacidade de abstracção, motivada e dinamizada pelo nosso instinto de sobrevivência. Na filosofia usam-se dois palavrões que tornam transparente as construções discriminatórias: reificar e hipostasiar. Com o primeiro verbo, reduzimos o alvo a um conjunto de aspectos materializados (a cor da pele ou um texto). Com o segundo, atribuímos realidade exterior a uma entidade mental (“os ciganos são ladrões” ou “os socialistas querem mexicanizar Portugal desde 1975”). Aqui chegado, quem vê nos indivíduos de um certo grupo apenas a concepção que abstractamente projecta neles está pronto para agir em coerência. Por exemplo, se os indivíduos com pele mais escura (ou mais clara, ou mais assim ou assado) são “naturalmente” propensos para o gamanço ou a preguiça, segue-se que seria contrário ao instinto de sobrevivência e à pulsão etnocêntrica estar a dar-lhes emprego, lutar pelos seus direitos sociais, confiar-lhes a guarda dos filhos ou sequer permanecer no mesmo passeio calhando eles virem na nossa direcção. Se a polícia for mais activa contra um certo grupo que “toda a gente sabe” que “não presta”, isso é fonte de “segurança”. Se “eles” levarem umas tareias da polícia ao arrepio dos seus direitos civis, isso é óptimo, é o que eles merecem e deviam era levar mais. Se existe um certo partido que anda há 40 anos a tentar acabar com a democracia e a liberdade para poder corromper tudo e todos, segue-se que a carteira de jornalista e um órgão de comunicação social devem ser usados para tal denúncia e ainda para conseguir meter na prisão tão perigosos bandidos. Aliás, basta que sejam enjaulados no Ministério Público como arguidos para ficarem com a reputação destruída, a carreira política provavelmente acabada e levarem com anos e anos de humilhações e devassa. O povão, devidamente instruído e acirrado pelos profissionais da calúnia, sabe perfeitamente bem que esses “corruptos” não estariam a ser investigados se fossem “gente séria”. Logo, perseguir e atacar quem se concebe como ameaçador e desprezível é tão-só o “bom senso” a agir, a “coragem” de pedir cárcere para aqueles cujas opiniões não se toleram.

O racismo, qualquer forma de racismo, é uma operação cognitiva onde se desumaniza aquele a quem se quer fazer mal. Depois de desumanizados, justifica-se o mal que se faz dizendo que eles o merecem por não serem humanos, por serem monstros que nos ameaçam. Eis uma das mais velhas pulhices do mundo.

Serviço público – Edição especial

2019 – Menos Reformas, Melhores Políticas

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É disto que precisamos para ligar cidadãos e poder político, a participação pedagógica dos académicos no espaço público com produção intelectual a partir dos seus métodos e instrumentos disciplinares. Num país onde não existe imprensa, e onde os jornalistas políticos que cumprem o código deontológico e procuram um ideal de objectividade e isenção são raros ou estão abafados por direcções decadentes, este labor do IPPS-ISCTE requalifica o debate político em Portugal.

A frente da calúnia

Janeiro de 2010. Um deputado do PSD, chamado José Pacheco Pereira, recebe da Cofina uma quantia em dinheiro (não revelada) para/por dizer num órgão de comunicação social que “empregados do governo, e às vezes mais acima” escreviam anonimamente em blogues para insultar e caluniar os adversários políticos. Chamou à coisa: A Frente da Calúnia

Como nos três exemplos de blogues dessa frente caluniosa constava o Aspirina B, e como eu lia diariamente os restantes, Câmara Corporativa e Jugular, fiquei de imediato a saber que o deputado era não só mentiroso como ainda por cima mentia a troco de dinheiro e notoriedade. Para além de não existir qualquer empregado do Governo a escrever anonimamente no Aspirina B, muito menos o tal ou tais “mais acima”, igualmente não se publicavam calúnias nos três blogues acusados. Insultos, sim, à fartazana, pelo menos neste pardieiro. E também factos, e argumentação da boa com base nos mesmos e nas legítimas convicções de pessoas, nos outros dois blogues que cultivavam a democracia e a liberdade.

O deputado promovia em público uma conspiração que começava logo por se assumir como hipótese imbecil e delirante: os blogues tinham audiências residuais, incapazes de sequer terem influência na votação para uma junta de freguesia, sendo consumidos por públicos já politizados que iam à procura de redundância informativa e divertimento – ou de fantasmas e alvos para a agressividade tribal e identitária. Os blogues eram meia gota de água no oceano mediático dominado pelo Correio da Manhã e Sábado, Sol, Público do Zé Manel, Expresso do Monteiro, TVI do casal Moniz, SIC do Balsemão, do Crespo, do José Gomes Ferreira, do mano Costa, RTP da Judite de Sousa e do José Rodrigues dos Santos, DN do Marcelino e saco de passistas na redacção, TSF do Baldaia e seus editoriais, jornal i do Martim Avillez, e ainda o grupo Rádio Renascença (ofereçamos um desconto ao Pacheco, omitindo os restantes blogues direitolas com visualizações superiores e, esses sim, com torrenciais calúnias). Porém, o deputado dava a três blogues – que respeitavam e celebravam a ética republicana – uma importância decisiva que o impelia ao combate mais desvairado. Compreende-se sem dificuldade porquê, o horizonte da comunicação social estava coberto a toda a extensão pelos impérios mediáticos profissionais da direita, a dominar a paisagem sem concorrência. Valia tudo a partir dessa superioridade táctica imbatível no campo de batalha posto que a ideia não era a de respeitar a deontologia nem a módica decência. Desde a criação da maravilhosa bandeira da “asfixia democrática” até aos rasgados elogios para a campanha negra de Moura Guedes na TVI, na qual o especialista do “Ponto Contraponto” via um admirável exercício do “jornalismo livre”, a direita da baixa política pôs a carne toda no grelhador. Que restava ao Pacheco para além de fustigar o alinhamento das notícias na RTP? A que se poderia agarrar quando largava o cronómetro com que descobria terem dado dois segundos a mais a uma notícia sobre o PS comparada com a notícia do PSD no telejornal da hora de almoço? A luz ao fundo do seu túnel cognitivo e moral vinha de três minúsculos blogues onde encontrava injecções diárias, horárias, de dopamina e adrenalina – para além de servirem na perfeição para continuar a meter dinheiro no bolso a enganar os pategos. Bastava que os pusesse debaixo da sua lente de aumento grotesco da realidade para que os três mosquitos parecessem um exército de Godzillas acabado de chegar ao Terreiro do Paço. Absorvendo guloso os boatos que o laranjal decadente lhe despejava nos ouvidos, usava-os para se mascarar de especialista em contra-terrorismo político. A este deputado que tinha muitos e raros livros em casa ninguém enganava, os badamecos que serviam o mefistofélico Sócrates iam ser perseguidos pela implacável espada flamejante do Anjo da Marmeleira. A sua obsessão por Sócrates precisava de tangibilidade para suportar o fascínio que o consumia, daí a necessidade de projectar nos irrelevantes blogues uma pura fantasia quixotesca.

Janeiro de 2010. Pacheco Pereira é deputado depois de ter sido o braço-direito de Manuela Ferreira Leite na campanha para as legislativas de 2009. Usa a revista Sábado para caluniar o Governo e autores de blogues acusando-os da prática em que se lança desenfreado. Não fica como ironia sórdida, é mesmo tristeza à solta na cidade. Uma personalidade com tanto poder mediático e político, com contributos intelectuais valiosos no campo da investigação histórica, a exibir-se como um ranhoso, um pulha. Só que o deputado vinha de ter feito muito pior meses antes, e muito pior se preparava para fazer dentro de meses. Vinha de se ter tornado no mais vocal dos que tinham reduzido a política ao assassinato de carácter e ao envenenamento do espaço público com paranóias assustadoras. O Pacheco foi cúmplice da operação de espionagem política feita a coberto do “Face Oculta”, cúmplice do ataque a Pinto Monteiro e Noronha do Nascimento que não cederam à golpada montada pelo irmão Vidal, cúmplice da “Inventona de Belém”. Espalhou, e ajudou a espalhar, a torpe acusação de que o Governo socialista estava a usar os serviços secretos para fins políticos, que estava a dominar a banca, que ia dominar a comunicação social. Foi com recurso a esta pressão maníaca em que Sócrates era concebido como “monstrum horrendum, informe, ingens” que se convenceu Cavaco a alinhar no caso mais grave de violação dos deveres de um Presidente da República de que há memória em democracia. Eis o que o Pacheco andava a dizer, louco de raiva, nesses dias de histórica infâmia:

«Eu compreendo que o Presidente da República, até pelas coisas graves que tem certamente para dizer face aos ataques que lhe têm sido dirigidos, não queira falar em período eleitoral. O que diria perturbaria e muito o período eleitoral. Mas temo que só depois das eleições é que se vá saber demasiadas coisas sobre esta governação e sobre o Primeiro-ministro. E temo que isso seja um fardo muito difícil de gerir, ganhe quem ganhar as eleições. Seja no caso Freeport, seja na questão da eventual espionagem aos seus opositores, seja no ataque à TVI e ao Público, seja nos múltiplos negócios que estão por esclarecer, da OPA da Sonae à crise do BCP e à interferência da CGD, seja no caso BPN e nos nunca esclarecidos movimentos do dinheiro da Segurança Social, seja na tentativa de compra da PT da Media Capital e etc,. etc. Um etc. demasiado grande.»

Fonte

Em cima da ida às urnas nas eleições legislativas de 2009, com a golpada presidencial a descoberto, o general de Ferreira Leite vai para a frente das câmaras, vai para o meio dos ecrãs, berrar que Sócrates é um super-criminoso que está protegido pelo “período eleitoral”. É o que o safa, explica sem se rir e sem corar, senão Cavaco viria dizer das boas, contar tudo, restabelecer a lei e a ordem, lançar pelos ares “as coisas graves que tem certamente para dizer“; certamente, de certeza certezinha. Azar do caralho isto das eleições. Vamos ter de esperar mais uns dias para limparmos a Nação do mal, garantiu o Pacheco aos eleitores com menos de 10 anos de idade. Só que depois das eleições não tivemos direito a essa catarse prometida, foi outro o programa das festas. Apareceu-nos um Cavaco a reconhecer que a “Inventona de Belém” tinha corrido mal e que havia de ter paciência. Melhores dias viriam, era uma questão de aguentar por nova oportunidade pois o método tinha sido validado. Era possível difamar um Governo a partir do Palácio de Belém, caluniar um primeiro-ministro em funções por obra e graça da Casa Civil, interferir em dois actos eleitorais com a chancela do Presidente da República e nada acontecer aos mandantes e executantes do crime, ficava demonstrado. Ali estava ele, o responsável máximo pelo irregular funcionamento das instituições, de pé em frente a uma multidão de jornalistas para provar isso mesmo.

Janeiro de 2010. Quatro meses depois, o deputado José Pacheco Pereira irá enfiar-se numa saleta da Assembleia da República para ler transcrições de escutas. Escutas que não tinham valor judicial mas que um juiz considerou terem valor político. Atente-se: escutas captadas ilegalmente, as quais não iriam ser usadas em tribunal por não serem prova ou indício de qualquer crime, foram entregues ao Parlamento para nele se violar a lei, a Constituição e os princípios fundamentais do Estado de direito. Dois deputados aceitaram ficar com essa nódoa indelével no currículo. Um deles, declarou nada ter encontrado que justificasse posterior acção de si próprio como deputado ou acção do seu partido, o PCP. O outro, declarou que o conteúdo das escutas era “avassalador”. No entanto, também nada mais fez a respeito nem explicou em que se baseou para a colorida adjectivação. O revanchismo e voyeurismo do Pacheco foram satisfeitos, é só isso que sabemos. Lambuzou-se celerado e cobarde na violência de usar o aparelho policial e judicial – mais o seu estatuto de deputado – para violentar a privacidade de dois cidadãos e, a partir daí, explorar o inaudito deboche como fonte de novas calúnias quando quisesse e como lhe apetecesse pelos anos afora.

Junho de 2019. O Sindicato dos Magistrados do Ministério Público organiza uma conferência onde junta Joana Marques Vidal a Eduardo Dâmaso, José Gomes Ferreira e João Miguel Tavares para se falar de “corrupção”. O SMMP não é conhecido por publicar estudos próprios ou de terceiros acerca da corrupção em Portugal ou na Antárctica. Ninguém faz ideia do que o SMMP realmente possui como informação a respeito do fenómeno. O mesmo, aliás, para cada um dos participantes na “conferência”, câmaras de vácuo quando se trata de obter dados fiáveis sobre as “redes de corrupção e compadrio“, sobre a “epidemia que grassa pela sociedade portuguesa“. Contudo, é inegável estarmos perante figuras gradas do “combate à corrupção”. Podemos até dizer que todas, em mais do que um sentido e modos, têm construído as suas carreiras e fama à conta da “corrupção”. Mas qual, se é também corrente o queixume deste grupo e seus clones acerca do baixíssimo número de prisioneiros condenados por corrupção? Dita a lógica, e o consumo da sua obra publicada, que a “corrupção” em causa seja aquela atribuída a inocentes, cidadãos que ainda não foram condenados por tal, nem se pode prever se alguma vez o serão mesmo que estejam actualmente acusados. Acontece que chegar à fase de acusação e depois ter o aborrecimento de esperar pelo julgamento em tribunal e ainda ver as defesas dos acusados a tentarem isso mesmo, defender quem foi acusado, é um processo demasiado moroso, e inclusive cruel, para quem vê cair na conta bancária os meritórios e abundantes frutos do “combate à corrupção”. Pelo que a “corrupção” é um maná que precisa de ser colhido logo pela fresca, assim que lhes dá o cheiro. Veja-se o que se faz por rotina na Cofina, trabalho aproveitado pelos parceiros de luta: recebem-se informações divulgadas criminosamente por agentes da Justiça e publica-se criminosamente a versão dos procuradores como se fossem factos provados em tribunal. Nenhuma autoridade em Portugal sequer gasta uma caloria a tentar impedir, ou sancionar, esta prática que vira do avesso o código deontológico do jornalista. É a Justiça instantânea de que o povo gosta, tudo mastigado pelos “jornalistas” e onde os alvos são políticos, ou amigos de políticos, triturados pelo sensacionalismo e pelas mentiras até deles nada mais restar do que uma papa infecta servida às alimárias carentes de “poderosos apanhados e castigados” nos jornais e na TV para continuarem dia após dia alienados e impotentes.

O SMMP chamou a Cofina, o grupo Impresa e o Público, nas pessoas dos seus mais notáveis caluniadores profissionais, para fazer um comício e uma parada militar. A estrela do evento foi uma ex-procuradora-geral da República que tem direito a culto de personalidade nesses meios de comunicação, que aceitou ser comissária política de um Governo e de um Presidente da República, que permitiu na PGR abusos da Justiça num processo de cariz político sem paralelo na História portuguesa, que protege a prática de crimes de violação do segredo de justiça no Ministério Público, que não respeita a sua actual responsabilidade no Tribunal Constitucional ao fazer declarações que comprometem a sua isenção e credibilidade, que se tem multiplicado em exibições de ambição política. Ocasião, portanto, para o Pacheco denunciar o obsceno processo de judicialização da política e de politização da Justiça em curso com um entusiasmo, se não superior, pelo menos equivalente ao que manifestou no combate aos tais três miseráveis blogues? Nada disso, ó santa ingenuidade. O senhor não pode morder na mão que o alimenta. A verdadeira frente da calúnia é uma indústria que dá muito dinheiro a muita gente. E que talvez venha a dar verdadeiro poder político a alguns santos de pau oco.

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People’s motivations bias how they gather information
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Social status matters, even to infants between 10 and 16 months old
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Reminding children of their many identities can lead to better problem-solving and more flexible thinking
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Promising approach: Prevent diabetes with intermittent fasting
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Milk and dairy products can help prevent chronic disease
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Intentions are the key to making sense of our everyday morality
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Even today, we want our heroes to know right from wrong
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Coisas do Carvalho

Manuel Carvalho está feliz da vida porque viu mais um dos seus alvos a ser enjaulado no Ministério Público – Como explicar o “inexplicável” a Azeredo Lopes – o que lhe permitiu citar-se a si próprio, o desporto favorito dos caluniadores profissionais. O seu entusiasmo está todo investido no tiro ao ex-ministro da Defesa, saber quem roubou e quem fez e deixou fazer realmente o quê em Tancos, do magala ao general, não é a sua praia. Eis, exacta e sistemicamente, o filme do BPN, CGD e BCP quando a direita ocupa o palco e manda foguetes, as manobras de diversão contra quem se limitou a tentar resolver problemas que não causou nem podia ter evitado.

Conseguir celebrar o estatuto de arguido de Azeredo Lopes sem fazer uma singela referência às declarações do tenente-general António Martins Pereira, do coronel Luís Vieira e do Comandante Supremo das Forças Armadas é um feito digno do director que inventou escabrosas e dementes mentiras sobre Vítor Constâncio e o Banco de Portugal. Falar de Tancos apagando a inerente, complexa e incontornável distância institucional entre o Governo e o Exército para assim assumir raivosamente a posição de adversário político fingindo que se está a fazer algo remotamente congénere do jornalismo fica bem a um título que, pelas próprias palavras de Vicente Jorge Silva, assumiu o destino de pasquim.

Não se ter demitido, nem ter sido demitido, depois de mandar publicar que «Constâncio autorizou Berardo a ir levantar 350 milhões à Caixa / Banco de Portugal aprovou investimento de Berardo no BCP com crédito tóxico da Caixa / Ex-governador disse no Parlamento que não sabia de nada» é que fica como inenarrável ópera-bufa para a história da imprensa em Portugal.

Isto é lindo

«Filipa Roseta, escolhida por Rui Rio para ser cabeça de lista pelo PSD em Lisboa nas legislativas de outubro, acusou o Governo de estar a adjudicar 1400 milhões de euros diretamente a construtoras à margem da lei. [...] Filipa Roseta elencou por isso o combate à corrupção como uma das prioridades da sua candidatura. E acusou o Governo de estar a “recuperar as políticas socráticas de adjudicação direta de dinheiros públicos”. “É a mesma política de adjudicação da Parque Escolar. E sobre José Sócrates, avançou: “Só estou nesta aventura por causa dele. Porque cheguei a um momento em que achei que ele era mau demais para ser verdade”.»


Fonte

Jurisprudência do “Governo Sombra”

No último Governo Sombra – ou, como a minha vizinha do 4º andar o rebaptizou, no “Vai Pela Sombra” – tivemos direito a considerandos jurisprudenciais de três personalidades públicas de altíssima influência social e política. As ideias que nos deixaram merecem a nossa melhor atenção:

RAP - [...] Agora acendeu-se a luz, a gente vê as baratas e pode pôr-lhes um pé em cima. [...] É ou não é melhor que haja gente a ser investigada, julgada e até presa? E todos dissemos "É!". E, pelos vistos, o PS e o PSD disseram "Olha que não é, a gente gostava mais como era antigamente..."

RAP - Não tenho nada contra garantias, tenho qualquer coisa contra excesso de garantias.

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PM - [...] Não se faz justiça é quando se tem a sensação, como se teve durante demasiados anos em Portugal, que os casos a certa altura não chegavam mais longe porque o Ministério Público - não sei se por instruções directas, maquinações indirectas, não vou fazer juízos de intenção quanto a isso - mas é um facto: os processos não seguiam e passaram a seguir.

PM - Nós sabemos duas coisas. E essas duas coisas não provam nada, mas nenhuma delas contribui para um ambiente saudável. Sabemos que Ivo Rosa tende a discordar do Ministério Público no seu historial, e portanto nós temos aqui a ideia de que ele vai querer desfazer coisas, nomeadamente coisas feitas por Carlos Alexandre. E a segunda coisa foi José Sócrates ter-se manifestado satisfeito com este juiz de instrução.

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JMT - Atenção, no caso Sócrates sou completamente clubista. Espero que o senhor vá a julgamento, e seja condenado e vá para a prisão.

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Ricardo Araújo Pereira, genial humorista e lesado do BES, acha que os “corruptos” não se distinguem das nojentas baratas, uma peste que deve ser esmagada pelo implacável pé de um Estado policial. A partir desta ideia, soltou o seu entusiasmo com a visão de prisões cheias de “corruptos” a esbracejar como (lá está, o senhor é mesmo genial) baratas tontas e sem garantias. As garantias são uma chatice, explica este reputado jurisconsulto fedorento, porque atrasam o espezinhamento desses seres minúsculos, asquerosos e destituídos de direitos fundamentais que ele encontra amiúde – já devidamente investigados, julgados e prontos para entrega em Évora – nas capas da Cofina et alia. A estupenda novidade que teve a generosidade de partilhar connosco no programa foi a revelação de que PS e PSD são partidos que defendem criminosos e que atacam magistrados e polícias – ou talvez não sejam, mas este génio também não está preocupado porque mete ao bolso a mesma sacada de euros em qualquer dos casos.

Pedro Mexia, um dos mais brilhantes intelectuais do coiso e tal por causa disto e daquilo, explicou aos telespectadores e radiouvintes que a Justiça é uma sensação. Por exemplo, ele sente que certos processos envolvendo um certo cidadão, que ao tempo era primeiro-ministro, não chegaram a tribunal por instruções directas à mistura com maquinações indirectas; deixando esta ideia apenas como sorridente sugestão para entreter o povoléu dado não ser avisado ir além da pulhice sonsa, para mais tendo em conta que o senhor é formado em Direito pela Católica e adquiriu uma vaga noção do que é uma calúnia e suas potenciais consequências. A mesma elevação deontológica e rigor jurídico no trato do perigoso Ivo Rosa, alguém que o Mexia afiança que “tende a discordar do Ministério Público” e que “vai querer desfazer coisas feitas por Carlos Alexandre“. Poderia o probo Mexia ter dito que Ivo Rosa tende a defender a Lei com o máximo rigor e que é precisamente por causa disso que tem contrariado certos abusos do Ministério Público, ao contrário de Carlos Alexandre que não só validou todos os abusos dos procuradores como ainda se ofereceu publicamente para os aumentar e agravar? Poderia o honesto Mexia ter dito que Sócrates se manifestou satisfeito não por ter Ivo Rosa como juiz mas por estar, finalmente, sujeito às decisões de um juiz íntegro? Poder podia, como brilhante intelectual que é, mas não seria a mesma coisa – isto é, não seria o assassinato de carácter que executou em público a troco daquilo com que se compram os melões.

João Miguel Tavares, um dos mais notáveis portugueses vivos ou mortos ou por nascer, elevado à categoria de estribeiro-mor do marcelismo como fruto meritório de um talento olímpico para despachar calúnias a troco do belo dinheirinho e à ferocidade canina exibida durante a Grande Guerra Socrática, anunciou à Grei que se está a cagar para o Ivo Rosa, para as provas que o Rosário Teixeira andou com tanto custo a recolher e a inventar, para os tribunais, para o Estado de direito e até para o 10 de Junho. Apenas lhe interessa uma coisa, de resto tão simples que tem toda a razão para estar irritado com a demora: que Sócrates vá para a prisão por uns bons anos, o máximo que der para arranjar; mas sem despertar suspeitas no TEDH, cuidado com isso para não dar chatice. O modo como o seu sonho lindo será realizado é irrelevante, até pedindo para não ser maçado com os pormenores processuais. Esta adorável concepção do Direito, da Justiça e do aparelho de Estado vem de um ilustre “liberal” que tem ubíqua presença na comunicação social e que se concebe como salvador do regime actualmente ameaçado pela democracia e pelo Estado de direito, de caminho ainda conseguindo regenerar a direita portuguesa abraçado ao Rui Ramos e ao Zé Manel. Espíritos curiosos gostariam de conhecer a tradição liberal que defende a ideia de meter na prisão quem não gramamos, ou quem aqueles que nos pagam não gramam, mas não adianta procurar em canhenhos poeirentos. Trata-se de uma tradição original, uma nova filosofia política nascida da inteligência, cultura e decência do notável João Miguel.

Estas Três Graças (ou Três Caretas, na mitologia da Golegã) surgem semanalmente abraçadas e dançarinas na TV e na rádio. Espalham uma harmonia encantadora, desvairadamente popular, borguista. Consiste na propaganda de ser o Artigo 2º da Constituição da República Portuguesa uma aberração que ou está a mais ou tem de levar uma grande volta. E há quem lhes pague, e tanto, para amplificarem os discursos do ódio político e fazerem coro com aqueles que desprezam a liberdade.

Revolution through evolution

Hunger, impulsivity, childhood trauma, and drinking contribute to intimate partner violence
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Para além de um escândalo, estamos perante um projecto político

«A ex-procuradora-geral da República afirmou esta sexta-feira, em declarações à Rádio Renascença, que existem em Portugal redes de compadrio e corrupção nas áreas da contratação pública. “Há efetivamente algumas redes que capturaram o Estado e que utilizam o aparelho do Estado para a prática de atos ilícitos e, felizmente, algumas estão a ser combatidas, mas outras continuam a fazer isso e há até outras que começam”, disse.

Aos microfones da Renascença, no programa Em Nome da Lei, Joana Marques Vidal disse que a realidade mostra que há uma disseminação desse tipo de práticas “em vários organismos de vários ministérios, autarquias e serviços diretos ou indiretos do Estado”.

Já em 2015, numa entrevista ao Público e RR, a então procuradora-geral da República recém-empossada tinha dito: “Há uma rede que utiliza o aparelho de Estado” para corrupção. Se fosse hoje, diz, só mudaria uma parte da afirmação: punha no plural e não no singular. Ou seja, “há redes que utilizam o aparelho do Estado para corrupção”.

Ainda assim, Joana Marques Vidal, que terminou recentemente o seu mandato, tendo sido substituída por Lucília Gago, nega que tenha uma visão catastrófica sobre a corrupção em Portugal. “Eu não tenho essa ideia de que toda a gente é corrupta e que todas as autarquias são corruptas e que todos os políticos são corruptos. Não tenho nada essa ideia. Sou, aliás, uma defensora de que os partidos são um elemento essencial da democracia. Poderemos depois discutir se deviam estar mais abertos ou menos abertos, autorregenerem-se, não serem tão complacentes com certos tipos de atividades, mas isso é outro tipo de discussão”, disse.»


Fonte

“Assalto ao BCP” para totós

Indivíduos com responsabilidades no Parlamento, no Conselho de Estado e na “imprensa de referência”, inclusive no PS, têm feito repetidas declarações públicas onde garantem ter ocorrido um “assalto” ao BCP orquestrado por Sócrates com a cumplicidade de Teixeira dos Santos, Armando Vara, Carlos Santos Ferreira, Joe Berardo e Vítor Constâncio. Há versões onde se junta Ricardo Salgado ao bando, mas todas as variantes se fundamentam nas mesmas suspeitas contra Sócrates que ao tempo, 2007, logo apareceram mediatizadas. Quem propala esta tese igualmente pede a intervenção do Ministério Público e as respectivas condenações em tribunal que profetizam ser inevitáveis dadas as “evidências”. Será verdade? Será que existiram mesmo Doze anos de mentira como o poeta-Guerreiro detalha em delírio calunioso e abraçado a uma série de inacreditáveis mentiras do Público? Será que a Constituição, o Estado de direito, o sistema político, o poder dos magistrados e os poderes fácticos foram suspensos entre 12 de Março de 2005 e 21 de junho de 2011?

A narrativa do “Assalto ao BCP” tem uma origem que brilha ofuscante: Jardim Gonçalves. Recentemente, na Assembleia da República, Filipe Pinhal reproduziu-a, tendo sido de imediato amplificada e explorada por políticos e impérios mediáticos direitolas. Podemos ter a certeza de que o relatório final da II Comissão Parlamentar de Inquérito à Recapitalização da Caixa Geral de Depósitos e à Gestão do Banco a vai incluir como suspeita para a eternidade ondulando ao vento pois o PSD e o CDS não admitem que se acabe com esse maná de chicana contra os socialistas. Para quem tenha acompanhado as sessões dessa comissão, ficou patente que a narrativa não causa amargos de boca à esquerda, bem pelo contrário. Todos os partidos, talvez sem surpresa, mostram ter algo a ganhar com a permanência no espaço público de uma grotesca deformação da realidade. E há quem chame a isto “fazer política”, para a tragédia ser vexante.

O filme do “assalto” implica criar uma cenário de ficção, uma ilha algures no meio de um vasto oceano por identificar. Nesse reino, existiu uma pessoa muito má com algum poder (um primeiro-ministro) que colocava homens de mão em lugares-chave (num banco público) com a finalidade de obter o poder supremo (o “domínio da banca” e da “comunicação social”, pelo menos) para assim se perpetuar como tirano até ao fim dos seus dias (ou para obter uma fortuna colossal, tanto faz e vai dar ao mesmo). Onde é que já vimos isto? Em milhares de filmes, séries, livros. Gostamos desse tipo de historieta porque é básica e promete um final feliz onde o mau da fita é combatido, derrubado e castigado pelos bons. Não temos de nos esforçar para validar as informações, analisar os factos, entender as intencionalidades e filtrar as coincidências. Podemos descontrair quando temos tempo e pachorra para sermos enganados. O segredo da nossa adesão está na simplicidade diegética, a redução à caricatura das personagens e suas acções. É essa abstracção que permite ir desligando as capacidades cognitivas até mergulharmos na crença onírica de estarmos perante seres fantásticos com alguma realidade, alguma verdade. Quando a ficção é boa, um filme, uma série ou um livro fazem-nos sonhar – de olhos bem abertos. Quando é péssima, também – se precisarmos de adormecer. O nosso cérebro consome histórias maravilhosas e terríveis desde a criação da linguagem pela mesma razão que o nosso corpo consome alimentos: para que o organismo tenha energia e assimile substâncias para decompor, distribuir e voltar a reorganizar. No caso das histórias, cada um as decompõe de acordo com a sua idiossincrasia e volta a reorganizá-las de acordo com a sua circunstância. É por isso que o mesmo livro ou filme pode, ao ser consumido repetidas vezes ao longo do nosso crescimento e finitude, oferecer diferentes sentidos, diferentes interpretações, diferentes lições e experiências subjectivas de acordo com as possibilidades – e necessidades – neurológicas e psicológicas da situação que for a nossa aquando da assimilação de mais um “Era uma vez”. A ficção, seja de autoria vígil ou de autoria biológica no sono, consiste numa única fórmula estrutural: colocar-nos perante um problema (um ou mais desafios) e dar-nos a solução ou deixar-nos à procura dela (um final fechado ou aberto, unívoco ou equívoco). É por isso que precisamos de narrativas para além do pão nosso de cada dia, pois a vida em nós quer triunfar sobre a morte seja onde e como for; por exemplo, lá onde o pensamento mágico tem mais força do que a gravidade e o deus ex machina e guionista faz milagres no final de cada acto ou episódio.

Teixeira dos Santos disse que a ideia de escolher Santos Ferreira e Vara para a CGD foi dele, apesar dos avisos de Sócrates – mas isso não vem ao caso. Os empréstimos da CGD envolviam dezenas de técnicos e especialistas de diferentes áreas da Caixa desde o começo de cada processo até ao seu desfecho e eram aprovados colegialmente por 5 ou 6 administradores após extensa discussão – mas isso não vem ao caso. Celeste Cardona, então ex-ministra da Justiça pelo CDS, era colega de Vara e tinha o pelouro dos serviços jurídicos na administração de Santos Ferreira; ou seja, era ela a responsável pelas condições legais dos contratos de empréstimo, e a senhora foi para a comissão de inquérito falar desse tempo com orgulho – mas isso não vem ao caso. Empréstimos para comprar acções eram, e são, prática corrente na banca mundial; sendo que o valor concedido a Berardo em nada de nada era significativo para os capitais da CGD e parecia um bom negócio à luz das cotações e perspectivas de subida à época – mas isso não vem ao caso. O contrato obrigava Berardo a dar como garantias acções do BCP que já detinha, mais as que viesse a comprar (entre 9 entidades possíveis, não era só para o BCP) e ainda o espólio artístico da Fundação Berardo que valia mais do que o empréstimo – mas isso não vem ao caso. José de Matos presidiu à reunião no BdP, em Agosto de 2007, onde foi aprovado o pedido de Berardo para uma participação qualificada superior a 5%; se essa reunião foi fundamental para que o “Assalto ao BCP” ocorresse, como explicar que Passos Coelho tenha colocado o mesmo José de Matos como presidente da CGD em 2011? – mas isso não vem ao caso. Pedro Duarte Neves, responsável pela supervisão no BdP à época, declarou que não viu nada de errado na ida de Santos Ferreira e Vara para o BCP; este mesmo ex-vice-governador do Banco de Portugal teve o seu mandato renovado já com Passos Coelho como primeiro-ministro – mas isso não vem ao caso. Santos Ferreira e Armando Vara foram para o BCP por escolha de 97% dos votos do capital accionista presente na assembleia geral; o que significa que as acções de Berardo adquiridas com o empréstimo da CGD foram irrelevantes para essa escolha – mas isso não vem ao caso. Paulo Macedo foi vice-presidente de Santos Ferreira no BCP, logo terá sido a segunda figura mais importante no “assalto”, o mesmo Paulo Macedo que viria a ser ministro de Passos – mas isso não vem ao caso. Paula Teixeira da Cruz, essa mesmo, Filipe de Botton e Alexandre Relvas, muito próximos de Cavaco Silva, António Mexia, ex-governante com Durão Barroso, e Alexandre Soares dos Santos estiveram ao lado de Berardo durante e depois do “assalto” – mas isso não vem ao caso. Cavaco Silva promulgou o decreto-lei que criou a Fundação de Arte Moderna – Colecção Berardo, o tal negócio que se diz ter sido feito por Sócrates para vir a usar Berardo no “assalto”, o mesmo Cavaco que em momento algum dos seus dois mandatos se quis meter publicamente neste assunto por ele não ter ponta legal, sequer racional, por onde se pegar – mas isso não vem ao caso. Quando mais de 70% dos accionistas do BCP escolheram Santos Ferreira e Vara para tentarem salvar o banco a situação era de caos com a descoberta de que Jardim Gonçalves, ex-líbris da mais aristocrática elite financeira e católica em Portugal, era um escroque e um incompetente – mas isso não vem ao caso. Não há notícia de que a presença de Santos Ferreira e de Armando Vara no BCP tenha, fosse de que forma fosse, servido para dar a Sócrates algum tipo de benefício político, fosse ele qual fosse – mas isso não vem ao caso.

Na ilha onde se deu o “Assalto ao BCP” não havia Presidente da República, polícia, Ministério Público, tribunais, Assembleia da República, partidos para além do PS, imprensa livre, Conselho Superior do Ministério Público, Conselho Superior da Magistratura, Estado de direito. Nem sequer havia, pasme-se, algum heróico sindicato de procuradores ou de juízes capaz de levar as “evidências” do “assalto” à bófia. Era um Estado de fantochada, todos sabiam o que se estava a passar, todos viam as “evidências”, mas ninguém podia fazer nada. Sócrates, telepaticamente, controlava ministros, administradores de bancos, o governador do Banco de Portugal e demais vice-governadores, a nata financeira portuguesa, até a madame que viria anos depois a ser a inventora do “fim da impunidade” e implacável perseguidora de socráticos, e não esquecendo o Rei de Espanha usado para varrer uma brilhante e corajosa jornalista, assim reza a teoria da conspiração já com direito a série na RTP. Eis a navalha de Occam transformada num alguidar. Obviamente, eram “evidências” a mais para se conseguir montar uma golpada judicial. Era estupidez, paranóia e alucinações a mais até para fanáticos e pulhas. Pelo que se foi por outro caminho, o da caldeirada de enguias à moda de Aveiro. A hecatombe do poder bancário da direita – onde BPN, BPP e BCP se afundaram em ilegalidades e as lideranças foram dizimadas – no meio da tempestade económica mundial obrigava a recuperar o poder governativo para conter os danos e salvar as jóias. Recuperá-lo a todo o custo e por todos os meios – especialmente, os ilícitos. A dimensão e gravidade da crise, o desespero e o pânico inauditos, levou a direita a fazer o que nunca antes tinha feito depois do 25 de Abril, mas que conhecia de ginjeira como saudosa memória. Jardim Gonçalves iria ter a sua vingança, Cavaco iria ter a sua vingança. O perfeito alvo para todos os ódios, o bode expiatório para todos os males, a manobra de diversão que permitia ocultar tudo o que a “gente séria” tinha abarbatado graças ao cavaquismo, era um político que não tinha medo da oligarquia, que parecia imbatível nas urnas, que apresentava um projecto para o País que dava resultados em crescendo – só interrompidos pela maior crise económica mundial em 80 anos. Nasceu o “Face Oculta”, um plano de espionagem de um primeiro-ministro em funções através de um seu amigo e companheiro político que igualmente se pretendia queimar em auto-de-fé, salgando o seu trajecto profissional e destruindo o seu bom nome. Nesta violenta caça aos “inimigos”, o aparelho de Justiça foi usado verticalmente para assassinatos políticos, tendo-se chegado à ignomínia de condenar um cidadão à pena máxima com prisão efectiva num suposto crime onde nem sequer se obtiveram provas para justificar uma pena suspensa. A mesma lógica – acima, abaixo e ao lado da Lei – na “Operação Marquês”, um processo concebido para ser em si mesmo uma condenação; daí se ter devassado, exposto e prendido vários cidadãos sem se saber porquê mas sabendo-se perfeitamente para quê. Alguma vez se fará o levantamento e exposição dos crimes e irregularidades cometidos por agentes da Justiça e jornalistas sob o pretexto de se estar a “combater a corrupção”? Não, jamais, é a resposta – se continuar a não existir no País uma única força política que pretenda fazer da Justiça um santuário dos direitos, das garantias, da liberdade.

O “Assalto ao BCP” foi criado, e é agitado, pelos mesmos que andam desde 2004 a usar polícias, magistrados e jornalistas para tentar obter pela Justiça o que não conseguem pelo voto. Aqueles para quem a política não passa de um assalto à cidade.

Perguntas simples

Se Marcelo quer delegar a simbólica da Pátria em caluniadores profissionais e oferecer o Ministério Público à direita dos casos e das golpadas, julgando-se muito esperto por estar a cavalgar o populismo larvar e mediático ao mesmo tempo que serve os seus amigos e clientelas, não existirá ninguém na comunidade que em 2021 represente aqueles para quem a Justiça não pode ser uma peça num jogo de xadrez sem regras?

Joana Marques Vidal diz que PS e PSD querem cometer crimes

«Joana Marques Vidal lançou fortes críticas às propostas de alteração da composição do Conselho Superior do Ministério Público (CSMP). Durante um jantar/debate, organizado esta segunda-feira pela Comissão Justiça e Paz de Coimbra e pela Associação Cristã de Empresários e Gestores, a ex-procuradora-Geral da República considerou que as mudanças na estrutura do CSMP propostas pelo PS e PSD podem pôr em causa a autonomia do Ministério Público.

“Se o Ministério Público não tiver autonomia face aos outros poderes do Estado, como vem, aliás, na Constituição, não consegue ter autonomia para levar a julgamento quem devia levar”, declarou Marques Vidal, considerando que se quer “dominar o Ministério Público porque se quer dominar os tribunais e os juízes”. “É uma pescadinha de rabo na boca, está tudo ligado”, acrescentou nas declarações transmitidas pela SIC Notícias.

Na opinião de Marques Vidal, o conjunto de propostas é “altamente preocupante” porque põe “em causa a autonomia”. “A composição do conselho tem de ser discutida partindo do pressuposto de que a sua composição não pode mudar de forma a que haja uma interferência em processos concretos. Senão, temos a possibilidade de ter o poder executivo ou outro a interferir nos processos. Isso não pode ser nunca”, afirmou.»


Fonte