Citações de ESTACA

OS SEGREDOS DA CAROCHINHA

Nos meus tempos de rapaz, grande parte da minha curiosidade era dominada pelo desejo de explorar os currículos extra-escolares e os segredos dos homens de calo, de migas e azeitonas, suor mal pago, muita ganga e pouca missa. Alguns desses homens roçavam os quarenta anos de esperança no futuro e outros a velhice desanimada e descrente, mas todos devidamente educados nos Institutos de Tropeção-de-Baixo e Trambolhão-de-Cima. Essa gente boa e inocente nunca, nunca enjeitava uma oportunidade para me “abrir” os olhos e revelar-me os seus segredos. O serviço era gratuito, sem maldades estudadas — algo que me beneficiava, mas nem sempre, como vim a saber mais tarde. Nunca havia falta de pregadores auto-nomeados, graves e peremptórios nas declarações das suas crenças, politizados, mentalizados, devidamente endoutrinados e generosamente distribuídos pelo mapa da Aldeia Grande de Sordovelhas, a minha terra natal.


Não me levou uma vida inteira de vinte e tantos anos para compreender a relativa inutilidade dessa aprendizagem, desse recolher de opiniões entre gente enganada ou mal informada. Já nesse tempo, mesmo em criança, e por cá tem ficado a enfeitar os anos, a dúvida era uma das dores de cabeça que mais me incomodava, e foi a partir dessa altura, julgo eu, que passei a perfilhar a opinião de que “idade e saber não andam necessariamente de mãos dadas”. Infelizmente não podemos fugir a essa verdade: a ignorância, aqui no bom sentido de ninguém ter culpa de nunca ter sido ensinado, não é especifica de nenhum sector etário. Talvez por isso, sempre achei boa norma utilizar o máximo de tino e cuidado quando um conselheiro desses tempos me convidava ou aliciava a tomar a postura passiva do ouvinte atencioso e agradecido. Não acreditar completamente em tudo o que me contavam era, e continua a ser (seja qual for a moralidade da historia, o arcaboiço ou credenciais do historiador) a maneira mais segura de aprender e talvez a única forma de combater a tendência ou vocação natural do homem/animal/robot para morrer no mesmo estado em que nasceu: o estado da ignorância.

Muitos dos conselhos não pagos dum dos meus consultos predilectos dessa idade de catraio tinham também a particularidade de terem de ser frequentemente murmurados perto das minhas orelhas mal lavadas e curiosas. E quando, como precaução, o espírito conspirativo se impunha — dada a natureza de histórias que não convinha deixar andar na boca deste e daquele — dizia-me ele, baixinho e a olhar de lado com medo das bruxas e alcoviteiras, dos bufos e dos informadores e doutros beleguins sem rótulo: “Há coisas que não devemos contar a ninguém, filho”. E por ai se ficava, à espera que eu reagisse, piscando o olho esquerdo já a ganhar a cor de mostarda velha. Quando não era ele a dizer que não podia ou não devia, era a mulher, magra de corpo e fina de espírito, muito cosida e misteriosa, a dizer que não sabia. Duas almas boas, entradas na idade e cheias de saber condicionado e relativo, mas incapazes de me explicarem se os espermatozóides eram ou não viajantes bem intencionados doutros planetas. Contudo, prémios de consolação nunca faltavam — quer na forma de sorrisos desmaiados e desdentados que me atiravam, quer na de rebuçados e línguas-da-sogra e, quando calhava, cobres — capital mínimo para assistir à projecção duma fita ridícula dos irmãos Marx. Mutismos avisados de gente simples como essa nunca se esvanecerão da memória de malta desconfiada como eu.

Com o tempo fui aprendendo à minha custa e finalmente decidi perfilhar como natural e necessária a ideia de que há, na verdade, coisas sem importância que não devemos ou não podemos contar a ninguém. Absolutamente a ninguém — nem à família, nem aos de fora, nem aos meninos, nem aos idosos. Papagaios e outras aves palradoras também não são de fiar. Uns mais, outros menos, pretos, brancos e amarelos, analfabetos e letrados, quase toda a gente exprime esta opinião dos timanéis e timarias deste mundo com graus variáveis de inocência ou maldades planeadas. Mas os grandes beneficiadores da utilização maldosa e conjurante dessa sentença — ocasional e normalmente inofensiva entre mortais simples como eu e o resto da grande maioria — são os poderes encapados de certas INTRIGAS ancestrais, politicamente não cadastradas, que aspiram ao uso exclusivo das magias e das sapiências encobertas, da imortalidade, dos códigos e das chaves que revelam o segredo de onde viemos, por onde andamos e para onde nos levam…

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