A voz do cidadão

A distorção institucional e política que o actual PR está a introduzir em Portugal é tal que há o direito de nos interrogarmos, com grande preocupação, sobre o que estará subjacente. E o que se perfila é: o PR assumir-se, a breve prazo, como chefe da oposição, designadamente do PSD, fazendo tudo, como a sua despudorada parcialidade mostra à evidência, para que este partido ganhe as próximas eleições. E tanto fará que com maioria absoluta como não: com um amigo destes é irrelevante.

No médio prazo está em causa o ataque para o reforço de poderes do PR, passando Portugal a ter um sistema constitucional presidencialista. Como? Não parece ser previsível a obtenção de maioria qualificada na AR, não que os dois partidos da oposição que se assumem como de esquerda não tenham demonstrado a sua vocação para a tudo estarem dispostos desde que seja derrubar Sócrates. Mas parece mais crível qualquer tentativa, inconstitucional, de recurso a qualquer acção do tipo referendário ou plebiscitário. O recurso ao mito do desejado para resolver os problemas que nós próprios não queremos resolver, não implica necessariamente o sair das brumas de Alcacer Quibir. Mas se for alguém musculado tanto melhor (recomenda-se de novo a leitura da edição recente da Tinta da China do Antero das Causas da Decadência dos Povos Peninsulares…).

Enumerar de novo as incongruências institucionais e políticas do actual PR vai-se tornando tarefa demorada. Cada sachadela, cada minhoca, e já tresandam bastos anelídeos para os lados de Belém. Dois exemplos apenas: Madoff, autor da maior fraude financeira de todos os tempos nos EUA, foi condenado a 150 anos de prisão em apenas 6 meses. O nosso PR não considera motivo suficiente para intervenção no caso Freeport, em lume brando no Ministério Público há mais de quatro anos e sem fim à vista. Com isto, de um modo canhestro, o primeiro-ministro de um País da União Europeia anda a ser objecto do mais despudorado e desavergonhado ataque de que temos memória. É culpado? Provem-no. Não é culpado? Encerrem este hediondo processo de não funcionamento regular das instituições. Mas trata-se talvez de um PR muito legalista relativamente à separação de poderes, zeloso do legado de Montesquieu. No entanto ainda a semana passada (um entre N exemplos) lançou insinuações sobre alegada falta de transparência no caso PT/Média Capital. Que atingem, obviamente, o Executivo.

Segundo exemplo: o inacreditável caso Dias Loureiro/BPN/SLN. Aqui não é o regular funcionamento das instituições que está em causa. Não é o direito que um cidadão tem de ganhar dinheiro através da valorização de acções numa taxa muito pouco usual. Não. É muito mais que isso: a credibilidade das declarações do primeiro magistrado do País num processo em que meias verdades e ensurdecedores silêncios se tornam verdadeiramente ensurdecedores.
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9 thoughts on “A voz do cidadão”

  1. Ora nem mais, a classe politica carece de uma renovação emergente . O problema é que tal qual Camões refere mudar mentalidades a “velhos do Restelo” é um árdua tarefa e os jovens serão sempre jovens !

  2. PARA ALÉM DO LADRÕES DE BANCOS QUE NADA MOTIVAM INDIGNAÇÃO A CAVACO SILVA (porque será!?) IMPORTA TAMBÉM PEDIR EXPLICAÇÕES AO PROFESSOR DESTAS “GAFES” ..(insultos só os outros é que fazem, os nossos são impolutos):

    José Eduardo Martins insulta na Assembleia da República Candal e entre ameaças físicas diz-lhe “vai pó c…”
    http://www.youtube.com/watch?v=7r20hynHOBU

    Minuto 4:28, mais outra de José Eduardo Martins, desta vez insulta o 1º Ministro de um país chamando-o de “palhaço” dentro da Assembleia da República, a mesma que indignou o mundo político e Cavaco Silva pelo gesto de Manuel Pinho. Mas quanto a este José Eduardo Martins, Cavaco Silva não parece ter ficado indignado. O que faríam se o protagonista fosse do Ps?
    http://www.youtube.com/watch?v=YxxtspetR8A

    E que faríam imediatamente os jornais, tvs e partidos da oposição, e até Cavaco Silva, se o seguinte vídeo fosse proferido por Sócrates?

    http://www.youtube.com/watch?v=bEa92GDyZOQ

    pois..nós sabemos…

    A JUNTAR AO RESSABIAMENTO TEMOS AGORA EM FORÇA….A HIPOCRISIA.

    É caso para dizer.. e certamente Cavaco Silva não fica indignado nem ofendido.. VAI PRÓ CARALHO..PALHAÇO”

  3. De facto, vai longa a lista de indignidades, do próprio Presidente da República, que, tendo um dever de isenção, o viola todos os dias sem pudor. Eu que fui cavaquista durante algum tempo confesso-me muito preocupado. Por este andar, quando cairmos no impasse institucional que se prepara, com um governo de iniciativa presidencial de Manuela Ferreira Leite, estaremos maduros, a cair de podres, para um referendo populista ilegal que dê a Cavaco o naco de poder que ainda lhe falta, apesar dos apoios conjugados da generalidade das televisões e jornais. À maneira de Chavez, de Evo ou de Zelaya. O mais tardar daqui a um ano.

  4. O que é mais chocante no geral é o papel de comentador político a que o PR se presta mas de modo tão canhestro e parvo que só critica os «outros» deixando os «seus» na protecção do silêncio sobre as suas macacadas. E ganhou muito dinheiro com aquele banco fantasma. Sobre isso «no comments»

  5. Há dias ouvi, atónito, o dr. Arnaud falar abundantemenet da imparcialidade do presidente da república, na SIC-Notícias.
    Ocorreu-me, naquele momento, a nomeação dos conselheiros de Estado por parte do PR, na qual verifiquei a preocupação de nomear um conselheiro do PCP. Podia ter nomeado Anacoreta Correia, João Lobo Antunes, Dias Loureiro e outros, mas não, nomeou Jerónimo.
    Nomeadamente, sem qualquer reparo do PS e do PSD, que viram na atitude o PR uma forma de respeitar a pluralidade de opiniões na sociedade portuguesa. Pluralidade que é muito cara àquela gente toda.

  6. Cavaco lucrou à grande, como foi publicitado, com o BPN da roubalheira histórica. O seu nome está ligado “àquilo”, não por invencionices como as que a todo o custo pretendem ligar Sócrates ao Freeport, mas por acções realissimas negociadas fora da bolsa com o seu ex-secretário de estado, aliás presidente do BPN; ou com o seu ex-ministro, aliás, presidente executivo da SLN. Ficou tudo entre amigos. Só espero que a viragem de 180 graus na sua relaçÃO com o governo, há um ano atrás, não tenha sido ditada por este negóciozinho em tão má hora pensado e executado. Se for verdade, quem está a pagar é o País. Salve-se o presidente, lixe-se o País! Será isto que se está a passar? Nunca fui cavaquista. Agora começo a detestar este politico.

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