Indignidades electivas

Se a crise da democracia portuguesa tem a sua origem na crise da representação e vivência partidária, gerando crescente alheamento cívico e abstenção eleitoral, então o local do crime é a Assembleia da República. E um dos maiores crimes ali ocorridos teve o seu epílogo em Novembro de 2003, quando Mota Amaral, então presidente da Assembleia, decidiu com Souto Moura o arquivamento do Caso das Viagens-fantasma dos deputados. Este período relativo aos Governos Barroso-Santana, aliás, é particularmente fértil em epifanias da decadência nacional, com exemplos desesperantes de falência do sistema. Na rua, estávamos na selva onde cada um já tinha desistido de contar com a autoridade do Estado. A corrupção tinha atingido a glória, era alardeada à boca-cheia por aqueles que contavam a quem os quisesse ouvir dos 8% inevitáveis de Norte a Sul do País para conseguir fazer obras sem fiscais a atrapalharem, passando por agentes policiais organizados para extorquir multas e luvas, até aos esquemas individuais ou em bando para fugir aos impostos, burlar a TV Cabo, a PT, a EDP, os seguros, os consumidores, o vizinho. Em perfeita sintonia com a derrocada ética generalizada, o que os braços legislativo e judicial do regime celebraram num caso com mais de 10 anos de investigações inúteis, prescrições, arquivamentos e documentação declarada perdida ou destruída, fica como monumento do que acontece às comunidades quando a política é deixada só nas mãos dos políticos.


Já no consulado de Cavaco, os deputados voltaram à exibição do que valem, e do que pensam que nós valemos, em matérias de respeito pela casa da democracia. Em Abril de 2006, 120 deputados faltaram a uma sessão com votações agendadas. A maioria dos faltosos, porém, tinha a sua assinatura na folha de presenças. Esta era uma prática comum no Parlamento desde sempre, a instituição da falcatrua com recurso à assinatura do próprio. O azar, desta vez, resultou apenas da falta de quórum para as votações, o que deu azo a notícia. O modo como os partidos e o Presidente da República trataram o episódio não merece menção, porque não há nada para recordar. Ninguém consegue lembrar uma atitude, ou declaração, ou consequência, que associemos ao caso. E por esta simples razão: não houve. Às palavras de circunstância, alguns ainda ensaiaram o protesto contra o populismo de que se sentiam vítimas. Afinal, ser deputado é uma trabalheira, obriga a muitas deslocações, muito trabalho por esse mundão fora, e as saudades da família são quase insuportáveis. Haveria algo mais natural do que picar o ponto, para garantir o pão à mesa, e ala que se faz tarde pois estamos na véspera de um fim-de-semana prolongado?

E assim chegamos ao Manuel Pinho, que fez uma careta na direcção de um deputado, ou grupo de deputados. A semiótica do gesto não é consensual, podendo remeter para animais chifrudos ou orelhudos. A sua mensagem idem aspas. O que não oferece dúvidas, embora ninguém o refira, é que em matéria de infantilidades não é o ex-ministro a levar a taça. O que ele fez é extraordinariamente caricato, mas, em simultâneo, é só risível e ridículo; fica como afectuosa tonteira, motivo de compaixão pois exibe uma personalidade com traços vincados de inusitada imaturidade. Não passa da continuação de outras situações onde apareceu desbocado, heterodoxo, excêntrico ou ultra-descontraído. Compare-se, pois, com Paulo Rangel, por exemplo, que no mesmo local, e com uma solenidade acrescida na ocasião, aproveita as comemorações do 25 de Abril para fazer comícios de acintosa propaganda partidária. Cada um que se defina na escolha do que é ofensivo para a Assembleia da República: se um descontrolo emocional, se um oportunismo cínico.

O caso do deputado José Eduardo Martins, que manda para o caralho um outro deputado, e ainda lhe oferece porrada, é igual ao de Manuel Pinho. O valente Martins não merece especial castigo pelo que disse ao franganote Afonso Candal, pois qualquer cobardolas tem direito a ser bronco e refugiar-se na primeira desculpa que lhe ocorrer. O que há de notável é o que vem a seguir. O PSD manifestou apoio tácito à exibição e o seu deputado ganhou prestígio, subiu na cotação partidária, até passou a ir para a porqueira do Crespo ufano e olímpico. Aposto que recebeu centenas de mensagens de parabéns. Num ambiente de caserna e balneário como é o dos partidos em geral, e o do PSD em especial, ter um deputado armado em arruaceiro, com a graça de ter traços matarruanos, exalta a virilidade de alterne daquela gentinha. Por isso, o desfecho da exuberante careta de Pinho ganha um sentido que se destaca contra este fundo. Porque talvez a situação se resolvesse com um pedido de desculpas do ministro, e todos acalmariam, felizes por o poderem continuar a gozar até às eleições. Ao forçar a demissão, Sócrates poderá estar a iniciar jurisprudência.

O Presidente da República juntou-se à indignação contra o psiquismo de um ex-ministro. Considerou muito grave o que aconteceu. Quer dizer que as quotidianas acusações trocadas entre deputados, e as ditas contra os membros do Governo naquela casa — momentos de exaltação democrática em que se põe em causa a honorabilidade de outrem, ou se denunciam autênticos casos de traição à Pátria —, não atingem a gravidade, a extrema importância, o decisivo significado de dois dedos em riste junto das orelhas.

De facto, o teu gesto é tudo, Cavaco.

14 thoughts on “Indignidades electivas”

  1. 1. Excelente artigo sobre nossos deputados, politicos,

    erguidos, corporativamente, quais vestais,

    acabando, como quase tudo neste momento,

    já que Ele está em todas,

    em S. Exa. O Venerandu…

    2. Penso que, neste momento,

    temos antes que começar a esboçar um movimento forte

    que faça Venerando regressar

    com, ou sem, dignidade a Boliqueime…

    Dependerá dele, da conduta que SExa quiser adoptar

    sendo certo que foi Venerando quem se pôs em jogo

    3. Construa-se um imenso movimento

    pró presidenciais,

    qualquer que seja o resultado das legislativas!!!

    4. Sem Alegres, nem Soares

    que agora terá de ser a doer…

    5. Mais que mil comentarios bem intencionados

    há que agir e desde já…

    Ele que trema na sua transparencia e ética tão proclamadas…

    6. As presidenciais tem de começar já em Setembro

    até se calhar com,

    porque não?,

    com Socrates

    independente e em prolongamento das legislativas

    já que actual PR

    é efectivamente um elemento de distorsão

    do normal funcionamento das instituições

    e dos próprios resultados das legislativas

    Abraço

  2. Só tenho um “adjectivo”: gostei!!!
    É um consolo aceder diariamente a este blog onde se denunciam as manobras que a direita está a preparar para abocanhar nova/ o poder.
    Parabéns e que a mão não vos doa a malhar nessa gentinha sem escrúpulos.

  3. Certeiro, Valupi. Eu só vou votar PS por causa de Sócrates, que abanou este País de parlamentares a fazer de tudo: empresarios, magistrados, arruaceiros, investigadores e, sobretudo, a fazer do local de trabalho, quando lá vão para assinar o ponto, uma casa de alterne, onde cada um prostitui a alma e a língua sem pudor nenhum.
    Quanto ao pr (com letra pequena) vi hoje o vídeo em que o presidente do governo regional da Madeira chama com todas as letras «filhos da puta» aos jornalistas do continente. Isto não mereceu a indignação do pr que temos.
    Vai sendo tempo de desmascarar este inquilino de Belém.
    Quanto aos parlamentares, todos, que Deus nos ajude. Esses senhores alinharam nas falcatruas que o Valupi acaba de enumerar. Ainda pensei, durante algum tempo, que o Louçã era alguém. Puro engano: tem todos os tiques dos outros e ganha em refinamento. Acintosamente confunde «objectivo» de 150 mil empregos com «promessa» e esquece, em perfeita pulhice, que esse objectivo se estava preste a tornar realidade, não fora a catástrofe economica mundial. É esta gente que nos representa!!! Vão pró raio que os parta.

  4. não era mal pensado fazermos umas excursões à assembleia e dizermos-lhe na cara o que pensamos de uma série de coisas e que se pensam que somos parvos , estão muito enganados. vemos clarinho onde circulam e em que bolsos desaparecem os impostos que pagamos. cada vez pagamos mais , cada vez temos menos : mistério sem mistério nenhum. não precisa vir o Poirot.

  5. Um bom exemplo da técnica de branqueamento. Se já se passaram coisas parecidas ou piores porque é que nos estamos a ralar com esta? Até porque afinal o gesto do Pinho parece que não era a fazer cornos, mas apenas “dois dedos em riste junto das orelhas”. E se calhar o Martins afinal também não teria dito caralho, talvez tenha dito, sei lá: alho? malho? carvalho?

  6. A falta de isenção partidária que tem caracterizado grande parte das intervenções do PR não augura nada de positivo para a nossa democracia. Seria muito mais honesto que o cidadão Cavaco Silva protagonizasse um qualquer programa de aconselhamento eleitoral sobre a sua visão do que recomenda para o desenvolvimento do país. A seguir ao do Pacheco Pereira na SIC Notícias, por exemplo. E antes de uma qualquer bajulação ao BE do Louçã. Agora utilizar o cargo que ocupa para exprimir as suas preferências é que não. É pérfido. Até porque a generalidade dos portugueses já sabiam muito bem e há muito o que pensava o Presidente Cavaco Silva da democracia da Madeira, do prestígio da Assembleia da República, dos grandes investimentos públicos, da honestidade da banca ou da memória do seu conselheiro Dias Loureiro. E essas suas convicções não jogavam muito a seu favor. Tinha-se evitado tê-las repetido.

  7. O gesto do Pinho, está ao nível do que nos habituou a Assembleia da Républica na sua actuação normal, com a atenuante de ter estado pressionado, de um modo inconcebível por alguém que só queria tirar dividendos políticos e não resolver problema algum, numa matéria em que o ex ministro se empenhou, conseguindo levar a bom porto um problema, que dado as dificuldades com que se apresentava, parecia à partida condenado a não ter sucesso.
    A paciência tem limites, especialmente para alguém que tentou dar o seu contributo pessoal, e que o fez de maneira bastante aceitável, como foi de imediato reconhecido por parte de analistas políticos e e intervenção social.
    A sua reacção, após à sua demissão, é de alguém que se sente aliviado de se ter libertado da imbecilidade do parasitismo de alguma oposição teórica, que na prática sempre se tem mostrado um desastre,apesar da justiça aparente das suas posições.

  8. realmente os dois últimos secretários-gerais do PS estão exilados fora do país, com uns títulos institucionais, mas exilados. Estranha dupla face da lusofonia que obriga os filhos a partir,

  9. Traquinhas.

    “A falta de isenção partidária que tem caracterizado grande parte das intervenções do PR não augura nada de positivo para a nossa democracia. ”

    LOL, eh lá, isto ainda não é a Venezuela

    ainda te lembras das saudosas presidências abertas? Eu lembro-me e olha que fizeram muito bem ao país e muita mal ao psd. E não me parece que a democracia, então, tenha estado em risco, será que esteve?

  10. Alberto Santos, parece que faz questão de não querer entender o sentido do comentário.
    Não está em questão a Presidência da República ter opinião, é aliás isso que se espera de um bom mandato. O que está em causa é a falta de imparcialidade em relação às tomadas de posição. Não tenho de memória que tenha havido presidências abertas para dar conselhos sobre os negócios das empresas privadas. Nem por exemplo, para pedir explicações sobre a venda pelo estado da rede fixa à PT por tuta e meia. Ou sobre a venda de créditos fiscais para mascarar o défice do estado. Ou sobre a concessão de benefícios fiscais a determinado grupo económico por ministras das finanças que depois de deixarem o lugar são contratadas por esse mesmo grupo para cargos não executivos. Também não me lembro de presidências abertas para promover a moralidade dos negócios da banca e em simultâneo o Presidente defender a honra da palavra dada por um conselheiro envolvido em negócios adjacentes.
    Aliás, está a querer confundir opiniões pessoais do Presidente com auscultação das populações? Deixe-me rir um bocado. Talvez me refresque a memória…
    Diz que isto ainda não é a Venezuela. E eu acrescento, pelo menos por enquanto e ainda bem. lol. Deve ser o resultado daquela velha máxima do “nunca me engano e raramente tenho dúvidas” então para quê ouvir as populações?

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