Jornalistas by Nik

Eu acho que os jornalistas que andam a molhar a sopa no “caso Freeport” e a armar manigâncias contra determinados políticos deveriam também ser submetidos ao mesmo “inevitável escrutínio” (expressão de Vasco Pulido Valente, há dias, no Púbico) a que o PM tem vindo a ser sujeito. Ou há moralidade ou comem todos, diz o povo.

O “quarto poder”, justamente porque é um poder, e cada vez mais reconhecido como tal, não se pode furtar à devassa a que se julga no direito de submeter os governantes. Os leitores e telespectadores esperam e julgam ter no jornalista um intermediário, uma espécie de representante ou procurador, através do qual as perguntas dos cidadãos ao poder político são respondidas. O jornalista não pode nem deve, pelo seu comportamento como profissional, quebrar essa relação de confiança que há entre ele e o público anónimo. Ninguém em seu perfeito juízo confia a função de seu intermediário, procurador ou representante ao primeiro imbecil que aparecer. Ninguém, devidamente informado, quer comprar um carro em segunda mão a um burlão.

Assim, deveríamos ter direito a conhecer mais sobre a classe jornalística — sobretudo sobre os directores de informação e outros tenores da imprensa, rádio e televisão — do que aquilo que geralmente conhecemos, que é zero, ou perto disso.


Quem manda na informação em Portugal? Nunca leram nem viram uma reportagem com este título, pois não? Pudera! Nenhum jornalista se candidata a inquirir sobre a própria classe ou sobre os seus patrões. Quem o fizer, está feito: é posto na prateleira, despedido, ostracizado. Nem é preciso invocar a “quebra de confiança”: há outras fórmulas, aparentemente inocentes, de dar um chuto num colaborador incómodo.

Aqueles organigramas que os jornalistas tão bem sabem fazer sobre as redes de ligações e influência do político X ou do empresário Y — algum dia viram algo de semelhante sobre as altas esferas da informação ou sobre os grupos que dominam a comunicação social portuguesa? Pudera. Que tolice! Isso não se faz.

Que sabemos, por exemplo, sobre este fulano, Mário Crespo de sua graça? De onde vem esta voz autoritária (no sentido de authoritative) da comunicação social portuguesa? Qual o seu passado, desde Moçambique até Carnaxide? Em que águas políticas tem navegado? Em que conluios e moscambilhas terá andado metido? Que golpes baixos terá dado a colegas ou a fontes de informação? Que eventuais histórias escuras ou jocosas sabemos dele? De quem recebe dinheiro? Paga os impostos até ao último cêntimo? Que números de telefone usa mais? Com quem almoça e janta? As cuecas dele estarão alvas? Era giro pôr este Crespo nu debaixo dum foco e duma lupa, porque há decerto coisas interessantes a conhecer.

O porteiro de serviço do programa 60 Minutes da CBS — agora pomposo apresentador do Larry Crespo Show da SIC-Notícias — é mais ouvido em Portugal do que a maioria dos políticos e governantes. Não foi eleito por ninguém (nem tinha que ser), só presta contas ao patrão dele (prestará?) e alega constantemente a sua venerável e respeitabilíssima condição de jornalista para dizer, deturpar e insinuar o que lhe dá na real gana. Quando é posto em causa, alega a sacrossanta liberdade de informar, que não distingue do verbo deformar, e faz-se de vítima da tirania. Tem o poder, diversas vezes comprovado, de transformar uma entrevista televisiva com um político qualquer num feio ataque ad hominem ou em tempo de antena oferecido ao entrevistado. Bajula os seus amigos políticos e provoca soezmente os seus adversários. Não tem isenção nem credibilidade absolutamente nenhumas. É caricato.

Até quando iremos continuar a acreditar bestamente que este e outros poderosos instrumentos dos monopólios informativos que temos em Portugal são profissionais de folha de serviço limpa e acima de qualquer suspeita? Até quando aceitaremos o mito do jornalista probo, íntegro, livre e independente — só porque é detentor de um cheque em branco chamado carteira profissional?

__

Daqui

17 thoughts on “Jornalistas by Nik”

  1. Como consumidor de letras, faladas e escritas, portanto autoridade de bancada na matéria, penso que actualmente certos jornalistas, glutões de uma papinha que já chega pronta, quente algumas vezes, fria ou requentada outras, transbordam de felicidade por saberem que existem como peças insubstituiveis na maquineta da manipulação. Obediência incondicional. O 4º poder tanto é capaz de oxigenar como de esganar um político. Cada cor seu paladar…
    De Gaulle, o franciú, era especialista no uso do microfone e deixou escola. No outro lado da realidade, país das oportunidades e do “agora é que isto vai!”, Roosevelt tinha ganas para utilizar a rádio como arma política. L. H. Mencken, jornalista, escreveu num dia mais introspectivo que “a verdade é uma mercadoria que as massas não podem ser induzidas a comprar”. Será que estava a pensar no nosso Portugal europeu?

  2. Ola Nik,

    Abstraindo do caso Freeport (eu sei que é dificil) e respondendo à questão geral, o problema é que, numa sociedade pluralista com liberdade de informação, quem manda nos jornalistas é o publico, que é quem lhes da maior ou menor crédito, e quem viabiliza que se façam investigações sobre este ou outro assunto (incluindo a sua propria deontologia).

    Isto não quer dizer que não devamos estar atentos. Por exemplo é perigoso existir concentração, até pela tentação que isso cria em termos de controle por forças politicas, e penso que existem regras (perfectiveis claro) para evitar derivas problematicas (pelo menos enquanto não aparece um Berlusconi para as modificar mas, la esta, o Berlusoni so esta la porque os Italianos o puseram la…). Acho muito bem que se procurem estabelecer regras, e garantir o seu cumprimento. Mas, em ultima analise, sera sempre o publico a fazer a diferença.

    Por isso a resposta à tua pergunta (também) passa por não darmos relevância ao que não merece. Existirem jornais como o Correio da Manhã, ou o Jornal do incrivel, é inevitavel e é vão tentar lutar contra isso.

    O que é problematico é deixarmo-nos levar na espiral do sencacionalismo, mas isso passa por recusarmos dar relevância ao que não tem, e que não devia ter. Nenhuma instância centralizada, corporativa, ou outra, conseguira lutar contra o sensacionalismo enquanto o publico o procura e o encoraja. Em contrapartida, os jornais sérios serão obrigados a respeitar regras e padrões éticos se isso fôr uma exigência do seu publico, ou seja se o publico mostrar que sabe distinguir entre informação séria e espectaculo.

    Bom, não digo que esta posição seja confortavel, mas não vejo outra, pelo menos que salvaguarde a liberdade e o pluralismo. E, apesar de tudo, acho que precisamos de uma informação livre e penso que ainda não são os Marios Crespos que têm o poder politico (bom, o Berlusconi talvez seja um contra-exemplo).

  3. A virose de crespúnculos que prolifera nos media é, actualmente, uma verdadeira maleita social da atendendo à velocidade a que se tem propagado. Estes crespúnculos infectam já uma boa parte da credibilidade da comunicação social e podem pôr em risco a liberdade de expressão quando um qualquer político sufragado e menos escrupuloso decidir substituir os tribunais pelo poder legislativo para resolver as contendas. Nessa altura, os jornalistas vão recolher muito menos unanimidade entre a população porque serão muitos os cidadãos fartos destas promiscuidades e do deboche informativo e formativo que reina.

    O cenário torna-se mais assustador porque o facto de se ouvirem muito poucas vozes de jornalistas isentos e sérios insurgirem-se contra este estado de coisas é a prova de quanto o sistema está inquinado. Porque os há e, eles sim, poderiam contribuir para elevar a comunicação social a um patamar de prestígio e credibilidade recomendável.

    Não é necessário recorrer a exemplos estrangeiros para avaliar a promiscuidade dos poderes. Afinal, onde se formou o político Paulo Portas? E quantos mais não pululam entre jornalismo e política?

    A comunicação social é um negócio, promove negócio, faz política, promove políticos, promove processos de intenção, condiciona a justiça, faz juízo e sabe-se lá até onde vão os seus tentáculos.

    A sua bandeira maior é ser a voz da população anónima, porta-voz de uma opinião pública que ela própria condiciona e de que se serve para promover interesses não declarados. Mas quantas são, por exemplo, as investigações jornalísticas sobre a pornografia dos interesses das farmacêuticas? Ou sobre os diabólicos interesses da indústria do armamento? Ou das corrosivas compras de votos de países em instituições internacionais como a ONU? Ou será que nada isso interessa à opinião pública?

    Não! Não me lixem. É mais fácil supor que a jurisprudência comunitária sobrevaloriza o direito de liberdade de expressão relativamente ao direito de honra e o bom-nome dos governantes para defender interesses económicos e o poder dos grupos de comunicação social do que para defender as democracias. E ao fazê-lo está a sujeitar-nos ao risco da política ficar entregue a vendilhões de interesses que, por falta de outras capacidades, não se importarão nunca de vender a alma por um quinhão. Nessa altura, onde irá a jurisprudência comunitária encontrar a democracia? Restarão placas indicativas? Ou será que nos fornecerão um gps media democracia, onde só nos resta seguir os percursos apresentados?

    Contudo, na base do problema estão culpas políticas porque os governantes privilegiaram um sistema educativo que prepara o ser humano para ser sobretudo mais um instrumento/equipamento de produção, descurando e desvalorizando por inteiro a promoção da consciência social, da capacidade de ponderação, da análise crítica e, já agora, da criatividade. Se essas ferramentas fossem do domínio comum não havia comunicação social que nos metesse medo e o seu poder seria muito mais equilibrado.

    Como sempre o circulo fecha-se. Quem está dentro está e está, de alguma forma, protegido. E quem está fora da roda… que se amanhe.

  4. Traquinas,

    Não é a jurisprudência comunitaria, mas a do Tribunal europeu de Estrasburgo, criado no âmbito do Conselho da Europa. Isto faz uma grande diferença (embora o Tribunal das comunidades se refira também à CEDH como a um standart aceite entre os paises da União, o que é obviamente uma boa coisa).

    Eu percebo esse tipo de discurso, e simpatizo com a filipica dirigida aos jornalistas mediocres, mas assusta-me.

    Devemos confiar nas pessoas, e devemos confiar em nos proprios. Os Crespos so têm o poder que nos lhes damos. Nenhum politico teme o Jornal do incrivel…

    Mudem de canal…

  5. João Viegas,

    obrigado pelo rigor da sua correcção. A área de jurisdição do TEDH ultrapassa a dos países que compõem a UE.

    Também eu prefiro ler um bom editorial, ouvir uma opinião credível e bem sustentada ou ver uma peça de bom jornalismo de investigação a assistir a qualquer folhetim disfarçado de notícia ou entrevista que utiliza suposições como factos e critérios dúbios perante situações idênticas. Mas atendendo às cotas de mercado na comunicação social fica evidente que não são esses os critérios da maioria.

    Em tese, até posso concordar com alguns dos seus argumentos mas parece-me idealismo acreditar que nesta matéria o mercado determina a qualidade (tendo em conta o poder de persuasão da comunicação social) e não reconhecer que esta condiciona a opinião pública de acordo com interesses não explícitos.

    (desta vez sem erro de autoria. tomara, à terceira sou expulso de vez deste fórum :)

  6. Caro Traquinas,

    Percebo. Dois pequenos reparos :

    A diferença TJCE/TEDH não é so uma questão de area de jurisdição, é também uma questão de competência material. Enquanto o primeiro vela pelo cumprimento dos tratados e do direito derivado comunitario, o segundo controla o cumprimento da Convenção europeia dos direitos do homem. Existem muito menos reservas politicas quanto a esta ultima convenção (e ao seu artigo 10, que é o que interessa nessa questão) do que em relação aos tratados comunitarios.

    Também percebo (e aceito) a critica apontando o idealismo da minha posição. Mas sera assim tão certo ? Se fôrmos a ver, os paises onde ha mais procura de informação (mais mercado) não são necessariamente aqueles em que ha menos rigor jornalistico…

  7. João Viegas,

    deve saber melhor do que eu que a Convenção não é estanque e definitiva. Palavras recentes do juiz conselheiro Noronha do Nascimento relativas a esta polémica, mostram isso mesmo: «Esta tensão existe noutros países europeus e pode levar a uma alteração da Convenção com a consagração de outros direitos fundamentais».

    Na questão dos mercados, está a dar-me razão, não?. Não está em causa a dimensão do mercado e muito menos a relação quantidade/qualidade. Por isso, a ideia de que a mediocridade de alguma comunicação social tem pouco significado e, como tal, não deve servir para os políticos defenderem a sua honra é difícil de sustentar. Antes pelo contrário. A não ser que prevaleçam as regras estreitas de seriedade e credibilidade, o jornalismo não é porta-voz da opinião pública, como muitos pretendem fazer crer, porque é ele que a condiciona.

    Se a comunicação social se assumir como parte interessada, ou for evidente o seu envolvimento com interesses não explícitos, não pode depois reclamar isenção e estatuto de voz da sociedade ou defensor da verdade.

    E ficamos todos a perder.

  8. Caro traquinas,

    Não discordo do que você diz.

    Quanto ao que disse o juiz NN, também li essas declarações no artigo linkado no Arrastão, mas não percebi bem o sentido, e temo que tenha havido alguma “simplificação” por parte do jornalista. E’ que a convenção apenas exige que as restrições aos direitos e liberdades consagrados (entre os quais a liberdade de expressão) tenham base legal e sejam proporcionadas, ou seja adequadas e razoaveis, numa sociedade democratica, para proteger outros bens juridicamente protegidos (tais como o direito à honra e ao bom nome).

    Vejo por sinal, no mesmo artigo, que Vital Moreira diz a mesma coisa que eu afirmei aqui sobre o sentido da jurisprudência do TEDH. Não concordo com as criticas que ele faz a esta jurisprudência. Como defendi, sem convencer muita gente entre os leitores deste blogue, esta jurisprudência esta longe de ser irracional. Inspira-se na ideia de que a livre discussão e a liberdade de imprensa criam beneficios que permitem corrigir grande parte dos excessos. Isto não quer dizer que não haja limites. Apenas que ha mais razões para nos preocuparmos com concepções extensivas desses limites, do que com concepções demasiado restritivas, uma vez que os danos para a democracia são maiores no primeiro caso do que no segundo.

    Isto é o reverso de uma antiga discussão que tive com o Valupi (acho que era sobre o papa). Reprimir o insulto tem sentido, quando estamos perante uma agressão (afinal ele tera de concordar que existem casos…). Agora em termos de discussão de ideias – e mais ainda de discussão politica – o insulto não deve ser banido por ser uma agressão, mas antes refutado por ser uma parvoice. De alguma forma, o politico que leva o problema para tribunal, esta ja a aceitar que foi vencido no essencial : o inimigo conseguiu sair do âmbito da discussão de ideias.

    Mas não estou a procurar convencer ninguém, pois sei muito bem que vocês acham que esta minha posição é ingénua e idealista…

  9. Não acho não, João Viegas, acho correcta no essencial e estou em crer que essa será sempre a virtude, a força, principal.

    Nunca se pode é suspender a democracia como queria (e quer) a fleite e apaniguados.

    No entanto a esta hora sou muito parco em comentários e meio bronco, confesso, vou ali ao presunto com massa e já chega, mas amanhã venho cá ver se consigo acrescentar algo de jeito, ou apenas aprender mais um pouco.

    De qualquer modo dá gosto ver a v. conversa.

  10. João Viegas,

    Eh pá, você agora descalçou-me. Tirou-me completamente o tapete. É que não me revejo, de todo, no seu último parágrafo e só fiquei a ganhar com a nossa troca de opiniões sobretudo no que diz respeito a aspectos de direito, que está longe de ser a minha área.

    Muito mais do que as qualidades do jornalista A ou B, ou de que lado está a razão em processos recentes contra jornalistas, interessa-me perceber os caminhos que a comunicação social decidiu trilhar. É possível até que a nossa conversa fosse irrelevante ou de menor importância se quem tem por dever verificar a ética e deontologia dos jornalistas exercesse devidamente as suas funções. Digo eu…

  11. Eu não sei , mas como o Crespo não vomita leis para cima de mim , eu estou-me cagando para o que ele é ou foi , e agradeço que se junte a mim no coro contra leis de caracaca de quem nunca trabalhou a não ser no seio da mãmã partido. E mais ,agradeço que se junte a mim no coro de protestos contra quem nunca mais fez que chular o estado e ainda tem a lata de meter as coroas em off shore para não pagar imposto.

  12. Mas portanto, eu também acho que a liberdade é o bem maior porque, pelo menos teoricamente, permite-nos aceder mais rapidamente, ou facilmente, à verdade. Isto não é meu, é Heidegger e outros.

    Mas também é verdade que se monta uma mentira nas calmas, com dez manfios a dispará-la de rajada, e durante uns tempos torna-se verdade e faz danos, quer no plano pessoal dos visados (por exemplo, creio que Ferro Rodrigues no caso Casa Pia) ou mesmo das conjuras internacionais: caso das armas de destruição maciça no Iraque como mentira justificativa da invasão.

    A morosidade da Justiça converte-se numa injustiça.

    Em relação aos abusos do 4º poder felizmente há um 5º poder que tem a grande potência do gratuito e que se lhe pode contrapôr: a blogosfera.

    Quanto ao fundo da questão: o Nik tem toda a razão, numa esmagadora maioria dos casos os jornalistas aguerridos são pagos pelo patrão para disparar de acordo com as conveniências do grupo, ou então são despedidos, e é mesmo assim. Haverá patrões excepcionais que zelam por valores extrínsecos aos seus interesses imediatos? Se houver serão excepções.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.