Um livro por semana 281

«Portugal Luz e Sombra – O País depois de Orlando Ribeiro» de Duarte Belo

O geógrafo Orlando Ribeiro (1911-1997), autor do célebre estudo geográfico «Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico», comprou a sua Leica em 1937 e durante 48 anos viajou e fotografou um Portugal diferente daquele que o Poder (Salazar) julgava vislumbrar quando autorizou Keil do Amaral a fazer o levantamento da arquitectura portuguesa . O facto é que não há uma casa portuguesa, não existe a casa típica do Portugal.

Segundo Duarte Belo (n.1968) que revisitou 252 fotografias de Orlando Ribeiro, do Norte ao Sul de Portugal Continental, elas «são o relato de um olhar inebriado e fascinado por um país, por si calcorreado, nas suas dimensões mais desconcertantes e de uma extraordinária multiplicidade de formas civilizacionais».

De Alcácer do Sal e Alferrarede a Tourém e Vila Nova de Milfontes, há nestas 318 páginas sucessivos encontros de fotos a cores com as fotos a preto e branco mas Duarte Belo juntou às fotos em confronto as palavras originais de Orlando Ribeiro. Como no caso das Salinas da Fonte da Bica em Rio Maior: «As massas de sal-gema, ou mais provavelmente os leitos intercalados com outros de gesso, dão origem a uma exploração artesanal desde o século XII por meio de fontes e bombagens, no Verão, com uma curiosa paisagem de talhos de água saturada e brancos montículos ao ar livre».

(Editora: Temas e Debates/Círculo de Leitores, Capa: Duarte Belo, Apoio: INATEL e Turismo de Portugal)

O melhor argumento a favor da IVG ou do CPMS é o João César das Neves

Que bom que ele existe. Agora mesmo na TVI mentiu e usou de 2 em 2 minutos adjetivos sonantes para qualificar quem não concorda com ele.
É impossível não sorrir com a argumentação em torno da petição para acabar com aquilo de que “ninguém fala”.
– O PS “aproveitou” a crise e à pressa e sem falar com ninguém (à socapa) aprovou o CPMS. JCN esqueceu-se que o CPMS estava no programa de governo do PS e..ups..foi a votos (não que precisasse) e o PS ganhou. É tão chata a democracia…Como, mas como é que não estamos a discutir isto??? E como tudo o que estamos a passar é culpa desses “modernaços”, vejam bem: temos de nos concentrar nas finanças e ninguém fala no que os modernaços fizeram à família. Foi tudo pensado, é grotesco!
– JCN está preocupado com muitos assuntos, mas ninguém fala da IVG!! Petrificou, o raio da lei! E os modernaços estão é a voltar à idade das cavernas, esses iluminados! Até porque nos EUA e num país nórdico que citou estão a…a…voltar para trás em muita coisa e discute-se!
Depois desta barrigada de riso, vou dormir, mas só por uma noite, ao contrário de quem finge ter estado a dormir há décadas.

Álvaro ao ataque, queixando-se

Então foi assim:

O ministro Álvaro foi ao Parlamento para ser confrontado com a atribuição das verbas do QREN e, não tendo resposta para as acusações de diminuição de poderes e de falta de políticas económicas, passou ao ataque, um ataque algo bizarro, encheu o peito de instruções políticas, voltou-se para o Partido Socialista e acusou o seu líder de não ter mão na bancada. Em resumo, indireta e desajeitadamente, queixou-se, no fundo, como quem diz: “Ó Seguro, vê lá se controlas estes gajos, se não estou tramado!”

Ideia a reter: Seguro é amigo do Álvaro se souber impor-se aos deputados mais incómodos. Força, Seguro!

“Após uma discussão que oscilou entre a questão puramente política (quem manda nos fundos europeus? Santos Pereira ou o ministro das Finanças?), alimentada sobretudo pelo PS, e explicações técnicas sobre a aplicação dos fundos europeus, o ministro decidiu questionar a própria tutela dos socialistas. E fê-lo na intervenção de encerramento. Acusou o PS de criar “números políticos” e “cortinas de fumo” com a gestão dos fundos comunitários e perguntou, dirigindo-se a Seguro: “Será que o PS não deveria estar preocupado com um líder que não tem peso político para disciplinar a sua bancada?”

Fonte: Público

 

Circularidade do quadrado

Notas impressionistas tiradas da última edição da Quadratura do Circulo:

– Pacheco continua a prometer toda a verdade a respeito do satânico Sócrates para um futuro indefinido. Até lá, ele suporta sozinho o peso dessas revelações que um dia deixarão os portugueses horrorizados e abalarão os pilares da História. Pelo meio, sempre que lhe falam na “Inventona das Escutas” entra em modo Octávio Machado, ri-se nervosamente enquanto abana a cabeça e deixa no ar a certeza de que também aí há segredos por revelar que, um dia, um dia, mostrarão como foi o desleal Sócrates quem convenceu o Lima dos lanches na Av. de Roma a entregar ao Zé Manel o servicinho estival e que o pobre do Cavaco, mais uma vez, não foi informado dessas démarches pelo ex-primeiro-ministro, tal como era sua obrigação constitucional.

– Lobo Xavier conseguiu aumentar a lista de celebridades criminosas com que a direita adora comparar Sócrates. Já tínhamos tido direito ao Saddam, ao Hitler e até ao Drácula. A partir da noite passada temos também Bashar al-Assad à disposição. Quem se seguirá? Lex Luthor? O Anticristo?

– António Costa lembrou que Cavaco usou a Imprensa Nacional Casa da Moeda para deixar um documento da Presidência da República onde se faz um ataque ad hominem e se podem ler inconfidências a respeito dos encontros entre um Presidente da República ainda em funções e um primeiro-ministro agora retirado da actividade política. A este facto devemos juntar aquele lembrado por Augusto Santos Silva relativo à situação, na passada segunda-feira, em que Cavaco justificou as acusações a Sócrates: estava a bordo de um navio da Marinha e tinha militares fardados ao seu lado. Juntando as peças, podemos concluir que ao falarmos da decadência da direita, de quem Cavaco é a sua mais importante e representativa figura, não estamos no campo da metáfora, estamos é a usar um educadíssimo eufemismo.

Vinte Linhas 747

«O pedreiro cheira a cal / o carpinteiro a madeira…»

Nasci em Fevereiro de 1951, dois meses antes da Maria Judite, temos quase a mesma idade mas eu fui para o Montijo em 1957 com toda a família e só nos reencontrámos no ano lectivo de 1960/1961. Eu vinha já com a ideia de fazer o exame da terceira classe em Abril e, pouco depois, o exame da quarta classe em Julho de 1961. Ambos na Delegação Escolar das Caldas da Rainha. Tenho uma memória dos nossos números : julgo que éramos 8 alunos (3 rapazes e 5 raparigas) no exame da quarta classe porque o exame da terceira classe foi só para mim que andava um ano atrasado por causa de uma birra da Delegação Escolar do Montijo. Adiante.

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Sê rei de ti próprio – II

Maquiavel, pese a distância temporal e nos costumes, disse algo que continuará válido pelos séculos fora: a enorme maioria das pessoas não quer exercer o poder político – o que elas querem é que as deixem literalmente em paz. O grosso da população, não importando a sua classe, pretende que o Estado garanta a sua segurança e a sua liberdade, mas de modo a que uma não comprometa a outra. Se o governante, alegando ter de evitar um qualquer perigo, diminui a liberdade, seja com leis e/ou impostos, entramos numa tirania. Se o governante, incapaz de reconhecer ou combater os perigos, descuida a segurança, entramos numa revolução ou dissolução social. O que os cidadãos querem, detalha Maquiavel com exemplos coevos e antigos, é o poder da iniciativa individual que promove os negócios e o enriquecimento colectivo através de longos períodos sem conflitos entre Estados nem abusos das autoridades locais. Esta descrição do modelo social ideal colhe o favor da totalidade das democracias ocidentais contemporâneas que, com inevitáveis variações ideológicas relativas à geografia e à História, não propõem outra coisa.

Maquiavel igualmente analisou à lupa o papel das paixões – as emoções, afectos e sentimentos – na lógica e dinâmica do comportamento político. A primeira constatação, na sequência do ponto anterior, é a de existir um conjunto de características psicológicas imprescindíveis para o exercício do poder. Sem capacidade para liderar, sem coragem e ambição, não há quem aceite ser liderado, logo não há poder político. A segunda constatação é a de que inúmeros acontecimentos históricos tiveram como principal causa a força avassaladora das paixões. Da inveja ao ódio, do orgulho à vingança, da vaidade à traição, a matéria bruta da natureza humana condiciona decisivamente os episódios políticos. Estar no topo da hierarquia social não corresponde a um acréscimo de racionalidade e justiça, pelo contrário, leva a uma libertinagem violenta que nasce do sentimento de segurança e impunidade. Daí serem tão valorizados por Maquiavel os exemplos dos governantes que exerceram o poder com honra, vencendo pela qualidade benfazeja das suas medidas e pela integridade do seu carácter. A estes, e só a estes, o povo pede que nunca abandonem o poder até ao fim dos seus dias.

Sejamos maquiavélicos, então, nisso de começarmos por medir a nossa disponibilidade para o exercício do poder. Se não for essa a nossa via, agradeçamos àqueles que nesse caminho se expõem a perigos tão grandes – sendo o maior deles todos o de acabarem por se envergonhar do que fizeram e, com ainda maior gravidade, do que não fizeram ou do que deixaram fazer. E continuemos maquiavélicos, cada vez mais e melhor, nesse discernimento da influência das paixões nos raciocínios e nos actos. O primeiro alvo dessa lucidez somos nós e a nossa assembleia interior, tão barulhenta e mal-frequentada.

Uma explicação do outro mundo

Há três semanas, o PSD recusou na Assembleia uma comissão de inquérito ao BPN, proposta pelo Bloco e apoiada pelos restantes partidos da oposição (o CDS absteve-se). O PS reagiu à recusa e, usando de um direito potestativo, anunciou que apresentaria o seu próprio requerimento, pensando fazê-lo hoje mesmo, para que a dita comissão comece a trabalhar rapidamente, centrada principalmente na reprivatização recente do banco, mas não excluindo a sua nacionalização (apesar de já ter sido objeto de uma comissão de inquérito durante a legislatura anterior) e posterior gestão. O PSD, vendo aqui uma oportunidade para chicana política e um meio de distração dos lamentáveis episódios governativos, reviu subitamente a sua posição, recuou e resolveu apresentar o seu próprio requerimento, antecipando-se ao PS.

Não vou tecer considerações sobre a utilidade desta comissão e o foco que cada partido pretende que ela tenha. A história mais recente da venda do banco ao BIC é, porém, muito pouco transparente e precisa de ser esclarecida. Não posso é deixar de assinalar a extraordinária teoria de Luís Campos Ferreira, possante deputado do PSD, exposta, em nome pessoal, num debate ontem na RTP Informação. Segundo ele, a razão pela qual o PS pediu a comissão de inquérito ao BPN é interna, ou seja, a fação Seguro quer encostar à parede os “socráticos” confrontando-os com o processo de nacionalização do BPN (para acreditar, ouvindo a teoria e vendo o seu inventor a cores, ir aqui ao Grande Jornal de 4ª feira, parte 2, a partir do minuto 14 – estou com problemas técnicos em pôr aqui o vídeo).

Comprova-se: no PSD há uma concentração de cérebros por metro quadrado 50 vezes superior à de Silicon Valley.

Até tu, Crato?

A facilidade com que a direita chama de mentirosos aqueles que pensem diferentemente só é ultrapassada pela facilidade com que a direita mente indiferentemente como se à sua volta ninguém pensasse. Mesmo assim, causou surpresa ver Crato a despedir-se da sua imagem de intelectual honesto para vestir a fatiota do reles hipócrita manipulador.

O atraso de Portugal, o falhanço da esperança de Abril no que ao desenvolvimento económico diz respeito, nasce desta confluência de uma direita caluniadora e decadente com uma esquerda racista e burra. Os ataques à política da educação do primeiro Governo Sócrates revelaram a força das inércias instaladas e protegidas ferozmente por uma organização que supera a Igreja Católica em conservadorismo: o PCP. Por razões de estratégia desalmada, a direita aliou-se aos comunistas e bloquistas para fazer do Ministério da Educação um alvo preferencial do desgaste do Governo socialista. Foi um escabroso espectáculo esse em que aqueles que pretendiam manter os seus privilégios corporativos intactos andavam de braço dado com aqueles que pretendiam a ruína das escolas públicas. Quanto aos reais interesses dos alunos? Puta que os pariu.

Maria de Lurdes Rodrigues conta a sua versão da inventada derrapagem colossal da Parque Escolar. Importa ouvir o que diz se quisermos tomar contacto com os factos. Mas também é obrigatório ouvi-la para se tomar consciência da complexidade, e enraizamento no concreto das situações governativas, das decisões cujo objectivo é o bem comum. Um bem rejeitado e boicotado pela esquerda, primeiro, e pela direita, depois. Absoluta irresponsabilidade em elites que, apesar de se dizerem ideologicamente antagónicas, comungam da mesmíssima falta de patriotismo.

Um livro por semana 280

«Caderno de Milfontes» de Rui Almeida

Autor de «Lábio cortado» (Editora Livro do Dia -Prémio Manuel Alegre 2008 da Câmara de Águeda) Rui Almeida celebra 40 anos (n. 1972) e viaja até Milfontes a ler um livro da mesma idade («Sob Sobre Voz» de João Miguel Fernandes Jorge) escrito na Praia da Consolação para ver hoje o seu livro de poemas publicado por uma editora da Nazaré.

Dito de outra maneira – a Costa Atlântica é o lugar, o ponto de partida: «Daqui, noite clara, se avista / A pequena enseada, / Nem sempre a falésia / Ou o quase silêncio / Da ondulação. / Aqui o chão de onde se vê longe / É firme. / A cadência do mar /Amplia o golpe na sombra / Sobreleva o reflexo».

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Nada de novo: Carrilho a mentir em diálogo concordante com Mário Crespo

Estou a ouvir. Carriilho, o pensador, é convidado por Mário Crespo para fingir que vai falar sobre os assuntos do dia, como as declarações vagas de Vitor Gaspar acerca de um futuro qualquer de alterações fiscais.
Carrilho, o pensador, diz três palavras vulgares sobre a “desorientação” do atual Governo e começa a dar três exemplos de áreas em que não se está a atuar, casos herdados – começa – em que não se pensou a médio prazo.
Exlicou a MC – que estava encantado – que o anterior governo era minoritário, pelo que só pensava em si próprio, e há tanta, tanta coisa mal feita pelo governo anterior que Carrilho, o ex-candidato à CML, o ex-embaixador em Paris pela mão desses loucos, entende esta austeridade necessária por culpa do Sócrates, mas que não está a ser “justa” (portanto, não dá prioridade aos erros de Sócrates).
Carrilho dá exemplos, porque Carrilho estuda: “veja, Mário Crespo a falta de tranquilidade com que o PS discute a parque escolar! Nós socialistas – e eu sou! – temos de assumir que levámos o país a este buraco. E temos de o fazer, não com um sentimento de socialistas, mas com um sentido patrótico!” Mais ou menos assim Carrilho fez saber que tem essa “dor” de o PS ter destruído o país e de haver uns socráticos que se agarram ao passado.
A parque escolar, pois. Sabemos que foram mais de 400% de derrapagem e o PS não assume, afirmou.
E por aí fora, quando já toda a gente já sabe que o Ministro mentiu, quando toda a gente já sabe que a parque escolar está de parabéns, quando toda a gente já sabe que quem o diz é a IGF, quando toda a gente pode ir ler o relatório. Está disponível para quem quiser: não para a redação da SICN.
Carrilho esteve melhor do que nunca, sempre que disse país ouvia-se “eu”, esse deus que foi avisando que foi bom Seguro ter falado em “novo ciclo” e que ele próprio já lhe tinha explicado que a gentalha que não cospe no anterior governo (socráticos) terá de ir à vida para que Seguro triunfe.
Carrilho ama o Partido, une o Partido, pensa no interesse nacional antes do seu, Carrilho não conspira, Carrilho não trai, Carrilho não mente, não…ele até vai falar das coisas e tal ao Mário Crespo..

Cineterapia


War Horse_Steven Spielberg

Quando comecei a andar a cavalo cometi o mesmo erro de quando comecei a dar aulas, tentar ser amigo dos animais. O resultado foi igual em ambos os casos: estatelei-me no chão muito rapidamente. Desconhecia que os animais não querem a nossa amizade, que amigos é o que não lhes falta e que nós, bisonhos e líricos, não temos pinta para merecer a sua amizade. Colhe registar, para aviso de terceiros, que o chão arenoso de um picadeiro é muito mais suave do que o olhar de 30 catraios embevecidos com o espectáculo de um professor completamente à nora. Depois a vida fez o grande favor de me proteger das quedas dentro de uma sala de aula, enquanto me vai ensinando com muita paciência a manter-me em equilíbrio em cima de uma sela. Os cavalos também me têm dado variadas lições em diferentes disciplinas humanas, uma delas relativa à essência do trabalho e do ócio.

Desaparelhar um cavalo, para quem estiver atento, é ser testemunha da inconfundível expressão de alívio daquele magnífico ser. O bicho sabe que não nasceu para carregar pesos às costas, ter a boca sequestrada e correr numa direcção que não escolheria se estivesse em liberdade. Por isso, a contida impaciência é transmitida pelas subtilezas do olhar e dos sons enquanto vamos desapertando as correias e retirando os arreios. O que ele mais quer é comer depois do esforço, beber água e ficar na conversa com outros cavalos. O animal tem consciência de ter trabalhado e manifesta o seu direito ao ócio. De repente, o trabalho ganha uma dimensão cósmica, aparece como mais uma modalidade de organização da matéria inscrita no destino biológico.

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Correio da Manhã, órgão oficial do laranjal

Não existe nenhum órgão de comunicação social que defenda os interesses do PS – o que não tem mal algum em si. Nos melhores ambientes, como na RTP e na TSF, reina uma imparcialidade flutuante, sujeita às individualidades. Nos restantes, reina a parcialidade descarada ao serviço dos interesses da direita. É muito director de informação, muito jornalista, muito alinhamento editorial, muito publicista junto. Que tem feito a direita com tanto poder de influência, cobrindo revistas, jornais, rádios e televisões?

Os exemplos são diários: a direita usa a logística mediática ao seu dispor para denegrir moralmente políticos socialistas, os seus principais adversários. Mais nada. Rigorosamente mais nada. Não existe qualquer produção teórica, qualquer criação cultural, qualquer acrescento cívico. A pulsão é apenas destrutiva, concretizada no expresso desejo de criminalizar as figuras que exerceram o poder nos dois anteriores Governos. A definição mesma da barbárie disfarçada de justiça.

Nesse sentido, o Correio da Manhã representa o mais genuíno ethos da elite da direita partidária. E não adianta lançar-lhes à cara a suprema hipocrisia, mentira, canalhice que ficam coladas às suas pessoas públicas por aplaudirem a violação da privacidade e as calúnias sistemáticas, porque isso apenas lhes provoca o riso. Eles acham-se no direito de atacar por todos os meios aqueles que consideram inimigos, por isso precisam de os diabolizar constantemente. Quão mais vil pintarem o xuxa, mais vilanias lhe irão fazer. É uma dinâmica antiquíssima, tem vastíssima literatura. E é uma fonte de crimes.

No auge da sua perseguição a Sócrates, o Pacheco andava a contar os segundos dos blocos do Jornal da Tarde, na RTP, rejubilando de alegria sempre que apanhava um segundo ou dois a mais para o PS. Era a prova de que o luciferino Gabinete estava a comer o cérebro dos eleitores. Logo depois, o Pacheco passava o resto da semana a espalhar nos múltiplos órgãos de comunicação social onde tem a banca montada as descobertas sensacionais que tinha feito. Chegava literalmente a toda a gente. E pagavam-lhe. Muito. O Pacheco é um dos melhores profissionais desta indústria da política-espectáculo que a oligarquia inventou para entregar a democracia ao cuidado da gente séria.

Fez mal?


[…]

Sócrates não se alongou em comentários à revelação do DN, pois a interpretar à letra a notícia do DN e a tirar dela todas as ilacções, teria de entrar de imediato em choque frontal com o PR, em vésperas de eleições. Fez mal? Acho que fez bem. O DN tinha prestado um serviço ao país, as pessoas poderiam fazer livremente os seus juízos sobre o caso. E fizeram-no, sem que Sócrates tivesse que lhes preparar a papinha. De que adiantaria ao PM abrir naquele momento, finais de Setembro, um conflito com o PR? Encostando Cavaco à parede, Sócrates iria ser acusado (como de costume) de estar a fabricar um caso para dele tirar proventos eleitorais. A estúpida legião de comentadores com lugar cativo nos meios de comunicação continuaria, apesar das evidências, a pôr as culpas no PM. O inestimável Pacheco Pereira falaria mesmo de um “golpe” do PM. Marcelo acusaria Sócrates de exploração política de uma simples notícia de jornal e de “abrir fogo” sobre o PR. Desarmadilhando a carrapata, Sócrates apenas fez votos de que o PR se mantivesse acima da disputa eleitoral que estava à porta. Actuou como um senhor e como uma pessoa prudente e inteligente. Não deixou, porém, de afirmar a 19 de Setembro que José Manuel Fernandes tinha que apresentar provas sobre a sua nova acusação de que os serviços de informação tinham acedido ao sistema informático do jornal da Sonae.

[…]

Oferta do nosso amigo Júlio

Vinte Linhas 746

Em Santa Catarina, ao domingo à tarde, as mulheres não lavavam roupa no Rio da Pedra. Havia os jogos de futebol e a bola podia sujar as roupas ao sol a corar. Maria Judite assistia do lado de cima da loja (mercearia e fazendas) à confusão organizada do lado de baixo (taberna) onde os rapazes do Grupo Desportivo Catarinense se fardavam para o jogo. Às vezes era complicado arranjar os onze e por isso o desafio começava mais tarde. A táctica era desenhada numa folha de papel pardo em cima do balcão e as quatro camisolas mais complicadas de atribuir eram sempre as mesmas – 4, 6, 8 e 10. O chamado quadrado mágico.

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Do sentido de oportunidade de Seguro

Enquanto assistimos a sucessivos episódios que demonstram a total inépcia, a técnica da mentira e o embuste de quem nos governa e aos golpes baixos de Cavaco ao estilo agressivo e trapaceiro do Correio da Manhã, assim desviando as atenções das suas próprias misérias e das do governo na tentativa de as centrar no eterno Sócrates, Seguro, o líder da oposição, anda afastado na província em mais um roteiro, desta vez dedicado ao Serviço Nacional de Saúde, um tema que, embora importante, eternamente importante, está muito longe de estar no olho do furacão neste momento. Já não é a primeira vez que Seguro anda a “tratar de assuntos” à margem das grandes polémicas. Já não é a primeira vez que Seguro perde oportunidades políticas. Que outros aproveitam.

Como era de prever, não tardaria muito a que os Relvas e Coelhos impreparados que ganharam as eleições com base em mentiras começassem a perder o Norte, tendo, mesmo assim, demorado alguns meses. Valeu-lhes que uma Troika lhes definiu um programa de cortes e vendas. Não fossem os cortes e as vendas da Troika e não teriam outra política, exceção feita à que consiste em colocar os amigos e apoiantes em cargos importantes do Estado.
Ora, se algum efeito positivo as manobras de Cavaco poderão ter será o de agitar as águas no PS, demasiado espartilhado pelo timorato Seguro (e não estou a falar do Memorando). Seguro não está à altura do combate. Seguro não assume e muito menos defende as políticas do governo anterior, nas quais se centra o ímpeto demolidor do governo atual. Seguro transforma o PS num alvo facílimo para a maioria, que se sente perfeitamente à vontade para mandar para os jornais e para o ar todas as falsidades de que se lembre. Seguro é incapaz de as desmontar, Seguro está pronto a aceitá-las como verdades, Seguro não gostava de Sócrates. As sondagens não mostram Seguro a capitalizar grande coisa.

É absolutamente intolerável que, perante as mentiras de Nuno Crato sobre a Parque Escolar, perante o desfecho do episódio da Lusoponte, as trapalhadas com os dividendos da EDP, os salários da TAP e CGD, e perante os ataques velhacos de Cavaco, Seguro entregue a oposição ao Bloco de Esquerda e não diga nada ou diga palavras de circunstância, como as de não compreender a utilidade das acusações de Cavaco. Não compreende e o problema está aí: devia compreender, porque são extremamente úteis para alimentar o ódio a Sócrates que é o único combustível desta direita.

Houve quem dissesse que o caso “Prefácio do ajuste de contas” contribuiu para unir o partido socialista. Aparentemente, numa primeira fase, sim. Mas só aparentemente. Vistas bem as coisas, a atual direção saiu muito pouco a terreiro para corroborar e apoiar os que não demoraram a repor a verdade e a decência. Positivo seria, pois, que o caso servisse para agitar as águas a sério lá no Rato no sentido de dar uma liderança capaz ao partido.

É impossível Seguro unir o partido e a razão é muito simples: os seus melhores elementos, que estão bem cientes do que valem, não se identificam com ele. Nem poderiam: o desnível é demasiado. Do lado de Sócrates estavam e estão os melhores.

Cavaco, a quanto obrigas: então andaste a ler o artigo 201º da Constituição a ver se te safavas?

É claro a este ponto que Cavaco, o homem que jurou defender a Constituição, não ouve ninguém. Está numa deriva qual balão flutuando para terras de ninguém e, por isso mesmo, insisto, não ouve, não pode ouvir ninguém. Conheço pelo menos uma das peças fortes que o aconselha, é público que o faz, chama-se Professor Blanco de Morais, e apesar de politicamente sermos água e vinho, fui sua assistente de direito constitucional e de direito internacional durante 11 anos. Isso: 11 anos.
Com ele ou sob a sua égide, durante 11 anos, dei aulas sobre a lei fundamental, sobre o funcionamento do sistema político, sobre os poderes de cada órgão de soberania, e por aí fora. Sei, sei de 11 anos a trabalhar com Blanco de Morais, que este nunca aconselharia Cavaco, após verificada a asneira do campeão da delealdade (e PR em funções) com a popularidade no lixo chamar (por escrito) desleal a Sócrates aquando do momento da negociação do PECIV, a agarrar-se à literalidade de um preceito que qualquer jurista sabe que enterra Cavaco e não Sócrates.
Mas Cavaco já devia estar na caminha, cheio de frio, dos nervos e da gripe, que o ar anda seco, a ver televisão, a ver pessoas a dizerem mal dele, por acaso menos do que deviam, mas ele ali a bater o dente e vai e dá-lhe uma de ler a Constituição como quem lê a bula de um medicamento.
Vai ao índice, claro, não ia ler tudo até ao 201º, calma, e quando lá chega lê: “compete ao PM informar o PR acerca dos assuntos respeitantes à condução da política interna e externa do país” (201/1/c). Ficou maluco. Cá estava a doutrina – notem, doutrina – para espetar na cara dos jornalistas, não precisava de mais nada, nem lhe ocorreu, tenho a certeza, pedir um conselho, uma palavrita, vá, a um constitucionalista de serviço, ao Progessor Blanco de Morais, por exemplo.
O patético presidente não sabe que se qualquer pessoa pudesse ler a Constituição e retirar de uma leitura imediata tudo o que entendese, mais valia extinguir gente da minha espécie, e por isso o homem espalhou-se ao comprido.
O mentiroso do regime, que já tinha falado deste assunto aquando do PEC IV, ao contrário do que agora vem dizer, não sabe, porque não perguntou, que a condução da política externa (e interna) é da exclusivíssima competência do Governo. Sim, este vai informando o PR quanto à “condução da política externa”, mas quem define como informar, o modo de fazer chegar essa informação ao PR, o tempo certo para informar Belém, etc, é quem detém a competência quanto à matéria: o Governo. E só podia ser assim. É o Governo que tem o domínio total da política em causa, logo é o mesmo que sabe avaliar da pertinência do modo de execução do dever de informação em causa.
Cavaco: e que tal ler o artigo 131º, preceito que dá ao PR outa faculdade?
Chama-se renunciar ao mandato.

Sextas-feiras sombrias

14% é o nível mais recente de desemprego que se conhece. É um número que nos parece brutal, embora na realidade não o seja. Porque é intermédio. Porque sabemos perfeitamente que que algures no futuro, algum responsável político o vai brandir num debate no parlamento, triunfante , com o argumento “já conseguimos reduzir o desemprego para 14%, o que prova que estamos no bom caminho”. Não são os 14% que me interessam. Interessa-me um outro número. E esse número é 12. Não doze por cento, mas doze pessoas. As doze que, uma de cada vez,  entraram no gabinete na ultima Sexta-feira, e saíram pouco depois sabendo que fariam em breve parte dessa percentagem. Pequena, quase invisível, mas parte.

Todos eles já o sabiam, claro, não houve surpresas ou choque. A empresa já tinha anunciado a redução, e antes disso toda a gente já tinha adivinhado a diminuição de encomendas. Era apenas uma questão de tempo.  E eles sabiam, esses doze, que na condição de temporários seriam os primeiros a sair. O que tornou a minha tarefa um pouco mais expedita. Resumida, essencialmente, a um  “entra, senta-te” logo seguido de um curto “já sabes, não é?” – “Sei”, passando então à tarefa prática de explicar as condições oferecidas, ao modo como se iria processar a coisa – “recebes uma carta, depois…” – e o acesso ao fundo de desemprego, para quem tinha direito. Nem todos tinham. Não valia a pena massacrá-los com discursos ensaiados sobre “condições de mercado”, percentagens ou números de encomendas, e muito menos o “temos muita pena de ter de te deixar ir, fazias um bom trabalho”. Apesar de esta última ser rigorosamente verdade. Faziam, os temporários normalmente esforçam-se mais que os outros, compensando largamente em vontade o que lhes falta em experiência, e temos realmente muita pena. Mas é o que é, a economia não perdoa. Eu sei, e eles também sabem.

Esta Sexta-feira foi, então, o momento em que qualquer réstia de esperança foi deitada por terra. E existia mesmo, essa vaga esperança, porque quando as reduções foram anunciadas não foram logo referidos nomes. E uma meia-dúzia deles realmente ficaram, num universo de muita gente. Há sempre um “pode ser que seja eu”, perfeitamente patente nas perguntas ansiosas, quase diárias, sobre “quando é que  nos diziam”, e “já sabe alguma coisa?”. Saber sabia, quase desde o início, e o cuidado foi extremo em evitar qualquer expressão, qualquer atitude que pudesse ser interpretada como um sinal de esperança. Que no caso daqueles doze, os doze pelos quais sou responsável, era inexistente.

E por isso, após a breve passagem pelo gabinete, regressaram ao trabalho, desiludidos mas conformados. Era oficial, pelo menos, e não havia mais ilusões. Ainda empregados, muito em breve estatísticas. Dos milhares e milhares que estão neste momento nas mesmas condições por esse país fora, estes doze foram os que me coube a mim olhar nos olhos e, um por um, despedir. Boa merda de Sexta.