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Uma imensa Fox News

Sobre o caso do momento. O Frederico Pinheiro não podia levar o computador. Ponto. A partir daqui, o que interessa a hora das chamadas (feitas como se impunha que fossem), os membros do governo informados (como deviam ter sido), a entidade policial alertada (e foram alertadas várias) e outras questões ainda mais laterais totalmente irrelevantes para o caso, que mais ridículas se tornam na boca prolongada, e na desboca, dos deputados inquisidores?

A situação ocorrida no ministério foi insólita e inesperada, mas penso que muito clara para todos. O homem despedido quis levar o computador com ele (ainda não explicou porquê) e, encontrando resistência, forçou-o recorrendo à violência. As restantes assessoras e as funcionárias apenas podiam fazer uma de duas coisas: ficar a olhar para ele passivamente enquanto cometia o ilícito (tornando-se nesse caso cúmplices, pelo que também já estariam no olho da rua); ou impedi-lo de levar o computador: com as próprias mãos ou pedindo que as saídas do edifício fossem bloqueadas. Feito tudo isso, não é de esperar, obviamente, que o assessor corrido venha tecer elogios às ex-colegas ou ao ministro, muito pelo contrário, faz-se de vítima, e pouco mais haverá a dizer a não ser que se aguardem as conclusões do processo, sobretudo se houve interferências indevidas em documentos classificados, que tipo de informação não autorizada estava no computador e o tipo de sanção que será aplicada ao ex-assessor infractor. O ministro apenas o despediu, coisa que tinha todo o direito de fazer. Aliás, se me permitem um aparte, finda a geringonça, o que fazia ainda um militante bloquista no governo?

Por isso, a comunicação social já acabava com as suas inqualificáveis figuras, até porque já ninguém aguenta. Sobretudo ver jornalistas, praticamente todos (os mesmos que nos dão diariamente as notícias mais diversas), a tomarem os espectadores por acéfalos, a assumirem descaradamente o papel de opositores ao Governo, recorrendo, como disfarce e apoio, a todos os comentadores de direita ou de extrema-esquerda que puderem arrebanhar para a sua “causa”. A que propósito é que se põem a defender directa ou indirectamente através de insinuações várias o ex-assessor? Que tipo de imprensa e de comunicação social existe em Portugal? É tudo a Fox, a que na América está ao serviço do Trump, essa criatura deplorável? Uma, aliás várias “news network” em campanha permanente, escamoteando o óbvio ? A nossa comunicação social é, na Europa, uma vergonha. Jornalistas sem consciência profissional, uma ERC que não existe, ninguém que assegure um mínimo de pluralismo e isenção. Um circo, e de má qualidade.

A asfixia mediática a sério e o Presidente

Já aqui falei nisto, já outros falaram, mas, francamente, os canais televisivos andam a bater no fundo há tempo demais no que respeita aos comentadores de política nacional para que os cidadãos fiquem calados. Não pode valer tudo para ganhar audiência ou para os senhores jornalistas se sentirem poderosos. Os jornalistas não são políticos (a menos que queiram copiar a Fox News, o que seria francamente mau e, no final, dispendioso para os patrões, como se viu na América, onde as mentiras e o excesso de trumpismo saíram caro). Também o comentário político não devia ser um espectáculo, em que, quanto mais malévolo ou maluco o comentador, mais palmas recebe. Nem tão pouco devia ser uma campanha de recrutamento de tropas da direita, com recurso aos reservistas e tudo, para o objectivo comum de deitar abaixo o Governo eleito não há muito tempo com maioria absoluta, ou justamente por causa disso. Não pode. As direções de informação não podem servir para subverter a democracia. Descaradamente. Não aqui na Europa.

 

Mas vamos a um exemplo de extrema maluqueira que pude observar ainda ontem, na CNN. No meio minuto que por lá me detive, por volta das dez e tal da noite, vi a Joana Amaral Dias a afirmar, cheia de si como sempre, da sua maquilhagem e do pau de vassoura que parece ter engolido, que o acordo que pôs fim às greves na CP, negociado pelo ministro João Galamba, tinha constituído uma “afronta ao Presidente da República” (!!!). É demais, não? Ainda ouvi de fugida o Bugalho a questionar, para meu espanto, “Como assim, uma afronta?”. E mais não vi. Se calhar, acabaram a concordar. Mas para mim bastou. Doida varrida. É verdade que o próprio Presidente também não anda lá muito bem. E isso, sim, devia ser comentado. Perdeu a noção dos seus deveres e das suas competências. É até penoso ver os que tentam tirar proveito desse triste facto. O Paulo Magalhães ainda ontem se mostrava ansiosíssimo, porque achava que Marcelo tinha que fazer alguma coisa mal viesse de Espanha, mais uns dias de espera estavam a matá-lo…

 

Voltando à informação. Poder-se-ia invocar a preocupação dos OCS, perante uma crise institucional, com o pluralismo de opiniões, dando voz a diferentes tipos de pessoas, das mais ajuizadas às mais disparatadas, das mais marcelistas às mais constitucionalistas. Mas não é isso. Tirando uma ou duas excepções, o que vemos é um desfile de pessoas de direita, ou ex-PS, ou ex-governantes PS, azedos,, a fazerem críticas e ataques de sentido único e, como se já não bastassem as habituais picaretas falantes como o Marques Mendes, o Portas, a Ferreira Leite, etc., ainda vão desenterrar criaturas como o Relvas, o Luís Filipe Menezes, o Matos Correia e sabe-se lá quem mais para engrossar as hostes (poupei-me ao desfile completo, pelo que admito existirem outros desenterrados).

 

Também nesta matéria do assessor, juntam-se ao rol os bloquistas em peso a acusar o ministro Galamba e a pedir a sua demissão, não com qualquer argumento credível, mas porque sim. Embora todos saibamos que a verdadeira razão é o assessor despedido ser bloquista. E então temos um coro.

 

Claro que, se eu não quiser ver, não vejo. Parece que o público também não vê muito ou não é assim tão manipulável como muitos gostariam, a avaliar pelas sondagens. Mas esta bolha desestabiliza. A começar pelo Presidente da República que, com o seu historial de comentador, atribui uma importância desmesurada ao ruído desta espécie de galinheiro. E, como se está a ver, isso leva-o a atitudes preocupantes – ameaças de dissolução por tudo e por nada, propostas públicas de medidas governativas, matéria que não é da sua competência, birras por não governar nem escolher os governantes, crispação inevitável com o primeiro-ministro, enfim, um certo desnorte. Desnorte, porque não tem saída: abrir caminho a outra maioria absoluta do PS ou a um possível governo de coligação com o André Ventura, o “quarto pastorinho de Fátima”, que adora a saudação nazi, não lhe vai garantir um lugar feliz na História. De todo. Deve, por isso, esquecer os comentadores, esquecer que foi comentador, deixar de ver televisão para regularizar a respiração, e atinar.

Eis o que Marcelo devia fazer – garantir o bom funcionamento de uma instituição fundamental

Pôr ordem na capoeira da comunicação social com um apelo público à calma, ao profissionalismo e até ao silêncio, se não é, devia ser uma função do Presidente da República. O cacarejar constante de comentadores e jornalistas-comentadores em todos os canais informativos, 90% dos quais aldrabões, demagogos, putas ou ignorantes, ou tudo junto, está a fazer, isso sim, um mal terrível ao país. É uma bolha que funciona em total alheamento do que verdadeiramente importa, uma espécie de clube da algazarra, da alcoviteirice, em que impera a disputa pela interpretação mais brilhante (!), pela pedra filosofal do comentariado, que só serve para instalar um ambiente de caos totalmente artificial e que, de tão barulhenta e persistente, não permite a quem tem responsabilidades governativas governar, nomeadamente por falta de tempo, dada a exigência de respostas constantes a inanidades ou provocações e de esclarecimentos sobre dramas que não o são.

Que ingenuidade, dona Pautéria! – ouço já alguns dizer. Então não vê que é esse mesmo o objectivo de jornais e televisões, todos sem excepção pertencentes à direita, aos compinchas do Marcelo, que arrebanham para a tarefa os sempre aliados esquerdistas do Bloco nestas ocasiões? Criar ruído por tudo e por nada, criar confusão, para depois passarem à conversa de que estamos no pântano e de que o que o país precisa é de uma mudança de governo. Não vê que o Presidente é parte activa desse esquema, como se tem visto nos últimos tempos e se confirmou ainda ontem com a sua insistência em interferir em áreas para as quais não tem competência?

 

Vejo, vejo. Mas neste meu espaço de opinião ainda posso dizer o que um presidente da República sério devia fazer para garantir o bom funcionamento de uma instituição fundamental das democracias como é a comunicação social. Se Marcelo quer mesmo que o país funcione e que haja estabilidade, um apelo à ordem nessa instituição seria uma das poucas atitudes que lhe ficaria bem neste momento. O barulho pode sempre fazer-se na comissão de inquérito, ou seja, na Assembleia. Em sede própria. Jornalistas informam. Não são deputados. E os deputados, já agora, têm a Assembleia para se exprimirem.

 

Dito isto, em busca de isenção, o canal 24 Kitchen deve estar a registar picos de audiência. É tranquilo, um tacho ou outro a assentar no fogão, e aprende-se muito. Problema é que engorda.

A navegar na maionese

A intuição política e a qualidade discursiva do Montenegro estão ao nível de uma doninha.

Passadas mais de 12 horas sobre as declarações de António Costa em resposta à crise governativa inventada pela tresloucada dupla oposição/comentadores, o que conclui Montenegro? Que o que António Costa quer com a manutenção de João Galamba no Governo é provocar eleições antecipadas.

 

O quê? Perguntarão os mais atentos. Exactamente. Um primeiro-ministro com maioria absoluta só pode, no entender dele, querer eleições … Como se for para perder será estúpido, deduz-se que será para ver se consegue a maioria absoluta. Ai, espera. Chama-se a isto argúcia! Inteligência.

Ao mesmo tempo, o que quer ele? Ele, Montenegro. Quer eleições? Não se sabe. Nem sim nem não. Diz que está pronto (para governar – céus, espero que nunca!), mas que não vai apresentar moção de censura. Também diz que não vai pedir eleições antecipadas. Mas suplica a Marcelo que fale, quer dizer, que o ajude de alguma maneira, “que faça diligências”, na formulação melhor que conseguiu. Anda claramente perdido. A navegar na maionese. Ele as arapongas que poluem os espaços informativos.

Para o anedotário nacional:

Portugal precisa de uma liderança arrojada, de esperança, de futuro e de valores. Portugal não precisa desta ligeireza nem desta falta de princípios nem deste jogo que o primeiro-ministro joga com um prazer egoísta. Este perfil de primeiro-ministro não interessa a Portugal. Comigo e com o PSD terá um Governo e um primeiro-ministro diferentes”[…]

 

[…] De seguida, Montenegro acusou o primeiro-ministro de querer eleições antecipadas: “Ensaiou uma fuga para a frente a ver se provoca eleições antecipadas. Vê como saída para o caos em que mergulhou o executivo tentar provocar eleições antecipadas sem ter coragem de o dizer.”

Lula não é ingénuo. Se calhar nem está confuso. Quer é negócios com a Rússia e com a China…

… enquanto acusa Trump e Bolsonaro e as extremas-direitas populistas de quererem impor regimes fascistas, sem liberdade de imprensa, sem sindicatos, sem democracia. Regimes precisamente iguais aos da mesma Rússia e China, que no fundo elogia (diz que todos os países têm os seus problemas, mas que o que é certo é que a China está a conseguir ser a maior potência comercial do mundo – comentários para quê?).

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“Na mais recente campanha de recrutamento para a guerra na Ucrânia, a Rússia pede “homens a sério”. De acordo com o Ministério da Defesa britânico, os anúncios apelam ao orgulho masculino dos soldados. O grupo Wagner também disputa o número limitado de homens russos com idade para se alistar no Exército.

A campanha tem o objectivo de angariar 400 mil voluntários, dizem os britânicos. O Ministério da Defesa considera, contudo, que será difícil para os russos conseguirem atingir esse objectivo. Estes anúncios podem ser vistos na televisão, nas redes sociais e em cartazes espalhados pelas ruas russas.

Esta mais recente campanha de recruta tem como objectivo atrasar ao máximo uma nova campanha de mobilizações forçadas, medida que iria levantar os níveis de descontentamento no país. “

 

(In Público de hoje)

 

Não acredito na ingenuidade de Lula da Silva. Ser ingénuo seria não perceber o interesse de Vladimir Putin em dominar a Ucrânia, razão pela qual a invadiu. Já na sua hipocrisia, sim, acredito. Reconhecendo que a Rússia invadiu um país soberano, e que essa decisão foi um erro, nas suas próprias palavras, nunca exige o que seria o mais óbvio: que se retirem. Tal como o PCP e os putinistas confortavelmente instalados no Ocidente, enche a boca com a palavra paz, como se não fosse precisamente isso que os ucranianos e os seus vizinhos mais querem.

E a que paz se estará a referir, quando se leem notícias como a lá de cima? Como aceitar as suas acusações de que a Europa e os Estados Unidos estão a incentivar a guerra ao apoiarem militarmente a Ucrânia na sua defesa, enquanto omite por completo a mobilização russa?

 

Lula quer negócios com todos. Por isso, acha que encontrou a palavra milagrosa para não se comprometer – a famosa “paz”. Claro que, com saída tão pouco original, mete os pés pelas mãos quando lhe pedem que esmiúce os passos para lá chegar (quando perguntam). Convencer o Putin? A sentar-se a uma mesa? Sem retirar as tropas do país que invadiu? Pelos vistos sim, abelha. Convencer o Zelensky? A quê? A aceitar conversar sobre a perda de território? A aceitar perguntar ao Putin “Ora então diga lá que partes do meu país mais lhe convêm?”.

Lula da Silva pensa que pode brincar com a nossa inteligência. Ainda se dissesse simplesmente: “Tenho negócios com a Rússia, com a China e quero tê-los também com os Estados Unidos e a Europa. Não me pronuncio sobre a guerra.” Ah, esperem. Isso seria não condenar uma violação do direito de soberania dos Estados. Isso seria pactuar com uma ilegalidade. Seria fechar os olhos às atrocidades em nome dos interesses comerciais. Seria permitir que lhe roubassem parte do Brasil! Melhor mesmo é então falar em querer a paz. Que diferença e que lufada de ar fresco, não é?

O Montenegro devia acalmar-se, até porque… enfim

Anda a oposição à direita do PS numa completa fona. De indignação em indignação, chegámos agora ao momento “E o escândalo da TAP?” (mas não o do Sr. Neeleman). A CPI não lhes está a correr bem. Que o Governo não lhes dá isto, alegam, que não lhes diz aquilo, que esconde da comissão de inquérito uma informação qualquer importantíssima e com que obscuros fins, meu deus. Esta paranoica oposição fantasia narrativas, inventa dramas sinistros, conclui desmioladamente, acha que o seu patear sem sentido manda a casa abaixo. Se o Governo titubeia, um pouco atónito com o galinheiro, ai que se contradiz, ai que não há coordenação, ai que anda à deriva. Se não fala, se não responde a uma súbita urgência tirada da cartola, ai que leva com um processo por desobediência e sonegação de informação. Deviam ir presos!  Têm que ir presos.

Montenegro anda, digamos, demasiado excitado e divertido com o seu próprio espectáculo para que haja paciência para o aturar, quanto mais levá-lo a sério. O Chega disputa-lhe o “show” carregando nas mentiras e nas ameaças e a Iniciativa Liberal diverte-se a encontrar frases assassinas, ainda que sem objecto a que se apliquem. O BE aproveita o barulho, como sempre. Os jornais e as televisões alinham neste ambiente carnavalesco-apocalíptico. Foi só ver o anúncio do passado programa «É ou não é», na RTP 1, para perceber até que ponto toda esta malta anda exaltada, empanturrada das tiradas catastrofistas da direita e a ferver ainda antes do pleno Verão. Marcelo ajuda à festa. Ou porque invoca mais do que devia, ou a total despropósito, os seus poderes de dissolução do Parlamento, ou porque espicaça (orienta?) o Montenegro a falar mais para provar que tem a mínima credibilidade. O ambiente é deplorável, nele não faltando a múmia Cavaco Silva a bolçar o seu veneno.

 

Calma, meu senhores. Vai-se a ver e não se passa nada. Nada de mais, pelo menos após a queda em desgraça do ministro Pedro Nuno Santos, que se dedicou demasiado aos comboios e deixou a TAP um bocado em roda livre. Havia conflitos na administração dos quais se alheou ou sobre os quais despachou com demasiada superficialidade. Pagou um preço por isso, demitindo-se, como não podia deixar de ser, ele e o seu secretário de Estado, e arruinando talvez para todo o sempre as suas ambições políticas. Mas esse acontecimento importante já foi há algum tempo. Tirando isso, há simplesmente o relatório da IGF, a deliberação da DGTF e há a decisão de demitir a CEO da TAP. Uma coisa ligada às outras. Demissão, aliás, que toda a oposição já previa e a comunicação social sua amiga pedia, convém lembrar. Se o Governo consultou os juristas de serviço para esta decisão? Evidentemente que sim. A IGF, inclusivamente, deve dispor de juristas. Não há mentira nenhuma no que disse Mariana Vieira da Silva nem contradição com o que disse Medina. Se o Governo dispõe de um documento oficial com um parecer jurídico sobre o despedimento? Sim e não. Não tem que dispor. Por milagre, hoje, no Público, vem a deliberação da DGTF. Num artigo intitulado “As três violações e as cinco razões para despedir administradores da TAP” ficamos a saber a fundamentação para os despedimentos.

https://www.publico.pt/2023/04/21/politica/noticia/tres-violacoes-cinco-razoes-inequivoca-gravidade-destituir-exlideres-tap-2046944

 

Chegará para calar as galinhas? Ou vão continuar a brincar e a jogar com a TAP?

Marcelo, o eterno comentador televisivo, esquecido das suas funções

Não é novidade a maneira de estar do PR, mas convém fazer umas perguntinhas:

A que propósito dá Marcelo uma entrevista a uma televisão para fazer a sua apreciação do governo em funções? Será essa a sua função institucional pública, apesar de serem os jornalistas a fazer as perguntas? Não tem oportunidade de dizer tudo o que pensa ao Governo nas reuniões semanais? E o exercício do seu cargo, que deveria ser o que importa em entrevistas anuais, não lhe merece qualquer autocrítica? Não deveria ser esse o objecto das perguntas dos jornalistas?

 

E a que propósito dá dicas para a governação do país em público (caso dos professores)? Terá sido eleito para isso? As consequências da aplicação dessas dicas acaso recairão sobre ele? Não há um governo eleito para governar? E não há já comentadores que cheguem e sobrem por esses jornais e televisões fora a mandarem bocas sobre toda e qualquer tossidela do António Costa? Porquê colocar-se em pé de igualdade com essa gente?

 

E as ameaças constantes de que pode dissolver o Parlamento em qualquer altura, se lhe apetecer? Sim, se lhe apetecer, pois apesar de esclarecer que o fará se vir isto e aquilo e sabe Zeus que mais, parece que adora brincar com esse poder que tem e de o exibir sempre que lhe apetece (para os jornais e seus títulos, claro). São totalmente deslocadas e inaceitáveis tais ameaças. Imagino a vontade que o Costa tem de lhe passar a batata quente da passagem à prática dessas ameaças. Seria giro. Além de que, o facto de, na opinião dele, a oposição não constituir ainda uma alternativa, jamais deveria ser invocado. Significa que, se houvesse uma alternativa que lhe agradasse mais, dissolveria o Parlamento. Mas o que é isto? O resultado de umas eleições legislativas é para ele um “nem penses que vais durar quatro anos, meu menino”?

 

E começar a entrevista a dizer que este governo entrou em funções já desgastado e que teve um primeiro ano perdido? Não é um soundbite de imediato aproveitado por toda a oposição e que nem sequer corresponde à verdade, como ele próprio depois admite ao reconhecer o eclodir de uma guerra que tudo absorveu da acção política (para além da questão dos prazos para a aprovação do orçamento)? Isto foi mesquinho.

 

E por que razão ele, que anda sempre a comentar tudo e tudo e tudo a todo o momento, esperou por esta entrevista para se pronunciar sobre a atitude inqualificável dos senhores bispos e cardeais perante as conclusões do relatório sobre abusos sexuais na ICAR? Ficou à espera das reacções dos outros protagonistas públicos (e da própria opinião pública) sobre este assunto para responder em sintonia e ficar assim bem visto? Que hipocrisia.

 

Alguém devia pôr este senhor no seu lugar. Anda a abusar da nossa paciência. Todos vimos os seus elogios ao palco do Papa, que nos custaria e ainda custa milhões.

“Ser o centro do mundo?” Ó Moedas, não acertas uma

Moedas assume que vai gastar rios de dinheiro com a Jornada Mundial da Juventude católica. Tudo bem, ou tudo mal, porque o que é certo é que o evento já fora agendado antes do início do seu mandato e, com a pressão e o entusiasmo do Presidente da República, já se tinham previsto gastos de milhões desta forma incompreensível. Mas esses rios de dinheiro, sabemos agora, deverão muito do seu caudal, seguramente aumentado, a um palco-altar cravejado de diamantes (ou assim parece), este sim, da exclusiva responsabilidade do Moedas, que, apertado, diz agora que é o preço a pagar para sermos “o centro do mundo” numa semana de Agosto.

 

Alto lá! O centro do mundo? – pergunto eu e perguntar-se-iam, se ouvissem, os atónitos asiáticos, indianos e africanos que nem sabem do que se trata.

Convém esclarecer este autarca por acidente que dos milhares de milhões de habitantes deste planeta Terra (7.667.136.000 de pessoas no final de 2020), apenas 1.359.612.000 são considerados católicos, isto segundo contas da própria ICAR, que deve tomar por base o número de baptizados. A este número há naturalmente que subtrair os que, apesar de baptizados (numa idade em que não tinham escolha) nada têm que ver com a Igreja ou o catolicismo ou sequer qualquer religião.  Suponhamos então que serão, com uma boa dose de generosidade, um milhar de milhão de almas. Se considerarmos que neste número se inclui toda a hierarquia da Igreja, os “pastores” e equiparados, ou seja, os funcionários da máquina, não há qualquer hipótese de as Jornadas da Juventude católica fazerem da cidade onde se realizam “o centro do mundo”. Apenas entusiasmarão e interessarão, eventualmente, a menos de 15% da população mundial. Eu, baptizada em bebé, nunca jamais em tempo algum ouvira falar destas jornadas, estou zero entusiasmada com elas, a bem dizer estou indignada com o desconhecido contributo da Igreja portuguesa para as despesas, e, se possível, estarei longe daqui nessa altura.

 

Tomemo-las, pois, pelo que são: eventos da Igreja (em todos os casos chamados “celebrações”) para angariação de adeptos jovens (como Fátima é para angariação de fundos e propaganda), dada a escassez de sacerdotes e também de fiéis, estes sobretudo na Europa civilizada (a par de embrionariamente islamizada, dirão alguns). Não há, pois, razão para serem todos os cidadãos contribuintes a pagar isto, nem centro do mundo nenhum que justifique tal coisa carérrima em forma de rampas a que chamam altar e palco.

Ficará para a cidade? Como? As Misses Mundo, uma possibilidade em tudo profana e talvez escandalosa para se rentabilizar de futuro o investimento de 5 000 000 € num altar religioso, não costumam desfilar em planos inclinados. Não há uma boa justificação para este gasto. Só pode haver uma má, portanto.

A Mota-Engil não é católica, pelos vistos

Um palco/altar de diamantes. Assunto por excelência para o Marcelo comentar. Vou estar atenta:

O altar-palco onde o papa irá celebrar uma missa este Verão vai custar mais de 4.2 milhões de euros à Câmara Municipal de Lisboa (a nós, portanto) e não há ingressos nesse evento (de católicos) que o paguem, nem contribuições de empresários católicos. Ao mesmo tempo, lembramo-nos de como o Presidente da República ficou ufano com a realização da chamada Jornada Mundial da Juventude em Lisboa, que obrigaria a gastar milhões. Agora, só com o palco é que nunca imaginaríamos.

 

A Câmara Municipal de Lisboa já se comprometeu a gastar até 35 milhões de euros em vários custos associados à organização da JMJ 2023.

O valor pago pelo altar-palco é muito superior ao que foi pago em 2010 para a instalação do palco para a missa do então Papa Bento XVI. Na altura, a obra custou entre 200 e 300 mil euros, tendo sido paga através de uma angariação de fundos entre empresários amigos da Igreja.

 

Mais adiante na notícia dizem que o palco ficará para a cidade. Mesmo assim, um novo palco que ninguém pediu por 4.2 milhões? E por ajuste directo?   Onde anda a PJ quando é precisa?

Saberão aquelas pessoas que lá irão estar que não vão para céu nenhum quando morrerem a não ser o dos pardais?

Laurinda e Marcelo entram um bar…

Nós vemo-los e queremos demiti-los. Não sabemos é como fazê-lo.

Não sendo nem um nem outro estreantes na asneira, hoje foi um dia particularmente falhado para estas duas pessoas. Um desastre total.

Uma quer um desfile de pobrezinhos no centro de Lisboa e, depois da votação (imagino eu) sobre quem mais parecia mesmo mesmo pobre,  um piquenique no parque Eduardo VII, provavelmente com direito a champanhe para os vencedores. E mais não me ocorre dizer.

O outro diz que até foram poucas as crianças abusadas pelos padres, apenas quatrocentas, isto depois de ter telefonado, uns dias antes, ao bispo Ornelas avisando-o de que estava a ser investigado por encobrimento, uma atitude que pode configurar um crime.

Laurinda Alves não tem a noção de muitas coisas fundamentais, como a dignidade das pessoas, e Marcelo fala e viaja de mais, não lhe estando a fazer bem nenhum, nem a nós, e muito menos aos objectos das suas tiradas, estas duas actividades, particularmente intensas nos últimos tempos.

Esperar alguma seriedade do Montenegro é tempo perdido, senhores

Luís Montenegro não governa e possivelmente nunca governará, mas exigir-se-ia alguma seriedade do líder da oposição, não importa que sorria muito, quando se trata de assegurar a continuidade de projectos de grande impacto e grande importância para uma boa parte do país e para a sua imagem internacional.

Um dia o PSD governará. No entretanto, o seu actual líder não quer discutir, muito menos acordar com o Governo nenhuma localização para o novo aeroporto. Não é difícil perceber porquê. Primeiro, porque não tem a mínima ideia nem quer arriscar uma (e para disfarçar diz que o Governo é que tem que decidir; é verdade e espero que seja o que fará se Montenegro assim o preferir) e, segundo, porque, deste modo, pode dizer mal de qualquer solução adoptada (para todos os efeitos, o homem candidatou-se a líder do PSD para dizer mal, mais mal do que Rio, recordemos). Embora seja visível que o fará (dizer mal da solução) com grande lata. E risco.

Posto isto, que já se sabia à partida, penso que não adianta perder mais tempo.

A oportunidade foi dada, como devia ser, mas claramente está a ser rejeitada. Depois destas palavras de Montenegro, parece-me inútil qualquer reunião para discutir, ainda que minimamente, o assunto. Ora vejam:

“Eu quero ser muito claro: O PSD é um partido responsável, é um partido que entende que estas obras estratégicas, estruturantes, devem merecer um consenso tão alargado quanto possível, mas não vamos inverter os papéis”, declarou, esclarecendo: “Quem tem de governar é o Governo, nós cá vamos fazer oposição responsável, como digo, mas oposição”.

“Não vamos decidir na vez do Governo. Quando nós estivermos na posição de decidir é porque somos Governo, não é porque somos oposição”, afirmou o líder social-democrata, à margem da visita às barracas que representam as 54 freguesias da Região Autónoma da Madeira.

Montenegro disse que o novo aeroporto de Lisboa é uma obra que, em sete anos, “o Partido Socialista não conseguiu colocar no terreno”, mas que “nos últimos tempos tem sido alvo de uma tentativa de encostar a responsabilidade de decidir para o PSD”.

 

Fonte: Público

Então “devem merecer um consenso alargado” ou não? Que troca-tintas são estas?

O aeroporto

Para tornar Lisboa uma cidade agradável para se respirar, trabalhar, viver, dormir e conversar, o aeroporto que a serve (e ao resto do país) não pode sujeitá-la à tortura sonora que diariamente sofre, por muito prático que seja para os lisboetas aterrarem a dois passos de casa. Quem já tenha estado na  Biblioteca Nacional, por exemplo, esperando estudar com algum sossego, sabe do que falo. Mas não é apenas a zona do Campo Grande a afectada. Eu diria que 70% da cidade não sabe o que é viver sem ruído aéreo constante e muito próximo. A pandemia, embora por motivos dramáticos e com imagens de ir às lágrimas, deu-nos um cheirinho do quão agradável a vida na cidade poderia ser com mais silêncio e menos perigo.

Mas enfim, os aviões levantaram voo outra vez, felizmente para quem precisa e para quem gosta de mais mundo, e o esgotamento da capacidade do aeroporto Humberto Delgado tornou-se aflitivo. Agora, das duas uma: ou se contrói um aeroporto complementar de média dimensão (ideia do Montijo) para aliviar o congestionamento em Lisboa, e nesse caso nada muda a nível do ruído e dos riscos, já que a diminuição do movimento na capital será insignificante; ou se constrói um novo aeroporto de raiz, fora da capital, com o objectivo de libertar de vez a cidade dos malefícios de um aeroporto ultra movimentado localizado no seu centro.

 

Sou uma perfeita leiga em matérias de engenharia, mas basta-me espreitar pelo Google para perceber que o Montijo apenas poderá ser um aeroporto de recurso e até provisório. Porque a área disponível fica comprimida entre a terra do Montijo e o rio Tejo (nenhum deles jamais sairá dali) e porque a subida do nível das águas poderá a médio prazo inviabilizar a pista (já de si irremediavelmente limitada). Portanto, se se quer mesmo libertar a capital, aproveitando para dar uma utilidade ecológica aos terrenos do actual aeroporto, e construir um aeroporto grande, moderno e definitivo, não me parece que haja outra solução que não Alcochete.

A questão de utilizar ainda o Montijo durante algum tempo parece-me não fazer muito sentido quando o objectivo maior já está definido, a menos que haja compromissos com a Vinci, assumidos no tempo do Passos, que a isso obriguem. Seria lamentável e outra perda de tempo. A juntar à do Montenegro.