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Afeganistão: muito pouco a acrescentar a isto

 

Não foi aqui referido, mas ouvi também que os Talibans souberam infiltrar-se lentamente no exército afegão, conseguindo assim mais facilmente a tal desistência de lutar, de que está a ser acusado agora. Deve ser verdade. Mas, tenho para mim que isto ainda não acabou. Até porque não é preciso ocupar países para lhes financiar as taras ou para os utilizar para guerras indirectas.

 

Nota: Quanto ao vídeo, recomendo que seja visto até ao fim. Nos primeiros minutos, o homem cede ao escândalo barato.

Esclareçam-me, que esta polémica dos dados parece-me um bocado estúpida

Numa interpretação benigna, talvez por ter uma importância relativa, a questão da comunicação de informações sobre os promotores de uma manifestação à embaixada da Rússia em Portugal não foi notícia quando chegou ao conhecimento dos jornalistas em Janeiro. Talvez. De facto, como considerar grave que uma lei obrigue à comunicação dessas informações ao Estado visado (através da sua embaixada), quando no dia seguinte essas mesmas pessoas se vão apresentar em público, de cara destapada e prontas a serem filmadas, fotografadas, identificadas, e a gritarem ao que vêm? Qual a diferença em termos práticos? Essas pessoas constam com certeza dos registos do consulado da Rússia.

 

Claro que do que acabo de dizer não se deve deduzir que eu concordo com a transmissão de dados sobre a morada e o nome das pessoas que promovem uma manifestação à embaixada do país contra cujo governo as mesmas protestam. Acho que não deve fazer-se nem é necessário fazer-se, mas também acho que de certo modo é irrelevante. Possivelmente, a ideia inicial da lei era informar o alvo do protesto sobre quem o organiza e por que motivo, quando e aonde, até por uma questão de prevenção e de “preparedness”. Não sei. Parece-me também que uma forma de comunicação é uma questão de cortesia diplomática mínima. Se alguém se quisesse manifestar em Amesterdão ou Haia contra o governo português, eu agradecia, enquanto embaixadora, que me informassem de quem são e o que querem (além do local e da hora), não? Sem necessariamente exigir que a Câmara local me desse os nomes e moradas dos organizadores, claro, mas enfim, se se tratasse de uma organização não clandestina ou ilegal, porque não?

É ou não verdade que, hoje em dia, a partir de qualquer fotografia ou imagem é possível saber quem é a pessoa e onde mora, principalmente se essa pessoa provier de um país com registos, com embaixadas com registo dos cidadãos cá residentes, etc.? Ora, que se saiba, os russos que agora se queixam não vivem cá ilegalmente. A sua identificação não é difícil, se as autoridades russas assim o pretenderem. E todos sabemos de como são competentes nessa matéria. Mas, mais uma vez, nada disto obsta a que seja um erro transmitir informações pessoais só porque sim. Mas consta que, depois de um protesto da activista russa que continua a viver pacificamente em Portugal e não se incomodou nada de falar ao Expresso, isso foi corrigido. Agora, que estejamos perante um crime da maior gravidade, não. Poupem-nos aos vossos calores.

 

Por isso, as ou os activistas que agora dizem que vão para tribunal e mais não sei o quê por causa de uma grave violação dos dados pessoais estão claramente a exagerar e a aproveitar a suposta indignação dos opositores a Medina para ganharem dinheiro. É pena, porque eu até acho que se deve protestar contra o regime de Putin e que é preciso alguma coragem para o fazer. Mais lá na Rússia do que neste cantinho soalheiro à beira-mar, diga-se. Passaram-se cinco meses e ninguém foi envenenado nem levado à força para a Rússia. E podemos ter a certeza de que, se tal tragédia acontecesse, não seria porque os serviços da Câmara de Lisboa comunicaram os nomes dos promotores da manifestação à embaixada da Rússia em Lisboa. Sejamos realistas. Uma manifestação é o contrário de uma descida à clandestinidade.

 

Voltando lá acima. Disse “talvez” no primeiro parágrafo, porque pode dar-se o caso de os jornalistas em causa, ao serviço da direita, terem achado que tinham em mãos um enorme furo jornalístico-político e terem decidido deixar a questão de pousio até melhor altura, digamos que mais próximo das eleições autárquicas, para, aí sim, a apresentarem como grande bomba, ajudando a pobre campanha do Moedas a dinamitar a do Medina. Afinal, os jornais que lançaram a notícia pseudo-escandalosa são declaradamente da direita – o Expresso e o blogue noticioso Observador. Se foi isso, não lhes correu lá muito bem, quanto mais não seja porque, um dia volvido apenas, e o próprio Moedas já se encarregava de mostrar a sua falta de nível, de jeito e de pruridos ao querer fazer-se passar por convidado no fórum TSF quando fora ele próprio a inscrever-se, como outros, para falar, qual “troll”. Ridículo. Se a ideia era promoverem esta coisa, melhor abortarem qualquer plano. Já. O ridículo do homem arrasta todos os seus promotores.

 

Mariana e o filme “Caros camaradas!”

O filme passa-se na URSS, na era Khrushchev, anos 60 do século passado, e é um desfile de “camaradas” e seus comportamentos em situação de crise (uma crise verídica e ocultada durante décadas) de tal maneira realista e bem interpretado que parece uma reportagem. Não, nele não aparece, como personagem feminina, nenhuma inquisidora com que a Mariana se possa comparar, apenas uma muito fiel militante comunista local à qual é dado provar do próprio veneno. Mas uma Mariana como a Mortágua não destoaria ali. De todo. E como elemento do KGB. Ai!

A Mariana, nas comissões de inquérito, encarna na perfeição a imagem da revolucionária fanática, fria e cruel para com os seus inimigos – neste caso todos os “capitalistas” que lhe apareçam para interrogatório. Aqueles momentos são um susto para mim. Só de imaginar o que faria esta mulher se algum dia assumisse o poder neste país dá-me vontade de implorar ao eleitorado que “extermine” o Bloco já, arriscando a que me comparassem com a mui populista e desbocada Suzana Garcia, candidata à presidência da autarquia da Amadora, que formulou o mesmo desejo em contexto diferente e de cujas maneiras e de cujo pensamento me encontro muito longe. Ainda por cima, quem pensa a Mariana que é? Quer dizer, o antigo patrão da Ongoing, como muitos dos que têm passado por aquelas CPI, não é, obviamente, flor que se cheire e conhece expedientes, mas a Mariana é uma deputada, logo, com um cargo político. Não judicial. O objectivo, à falta de poderes para mais, parece ser apenas enxovalhar e matar com as perguntas e o olhar e, assim sendo, como não compreender que muitos deles ali vão com uma atitude displicente, renitente e por vezes de gozo? Não são as instituições judiciais que devem investigar, interrogar, acusar e condenar (se for caso disso) as pessoas que cometem crimes? Será perante a camarada Mariana do Bloco que estes indivíduos vão confessar os seus crimes ou discutir o sistema capitalista e os seus buracos, que os favorecem pelos vistos, ou o Estado de direito democrático, que a Mariana nunca implementaria, mas que é a razão do seu protagonismo? Admito que seja o que mais apetece a alguns (sobretudo este último aspecto), embora não possam, porque aquilo é um interrogatório cujas regras determinam quem interroga e quem responde e eles cumprem.

 

Ai! e Ui!, já vejo o tropel de insultos que se aproxima face ao que acabo de dizer. Calma, eu apenas vi um filme sobre uma época tristemente experimental da História e, logo a seguir, aparece a Mariana inquisidora que, se calhar, escutou um pai e fez umas leituras na adolescência que a levaram a identificar-se com essa experiência, na qual não vê tristeza alguma, atendendo ao que ainda hoje defende. Deixei aqui a minha sensação de susto e ao mesmo tempo as minhas dúvidas quanto às comissões parlamentares de inquérito nestes moldes. Bom dia e obrigada. O filme está em exibição.

A entrevista e o caso bicudo

Se me é permitido pronunciar-me, a entrevista a Sócrates não foi má. Não só o jornalista não enveredou por um tom agressivo ou irónico/trocista, a que muitos não resistem, como fez a Sócrates as perguntas que qualquer um de nós também faria. Enfim, todas excepto uma: se a mãe tinha fortuna, porque precisou do dinheiro do amigo? Digo isto porque essa pergunta viria a talhe de foice na sequência das justificações de Sócrates, que invocaram a fortuna da família, mas penso que já em entrevista anterior ele respondera que entretanto o dinheiro se foi gastando devido a infortúnios também familiares, nomeadamente a doença do irmão. A repetição da pergunta teria, porém, sido útil, a meu ver. De resto, o José Alberto Carvalho manteve uma postura totalmente profissional. O meu aplauso para ele.

A entrevista também não foi má da parte do entrevistado, ao contrário do que eu esperava, confesso. Defendeu-se bem sobre as alegadas fantasias de que trabalhava para o Ricardo Salgado no que toca à PT e sobre todos os abusos do Ministério Público e ilegalidades processuais. O problema do Sócrates não é a falta de capacidade para repudiar os métodos vergonhosos do MP nem para contra-argumentar à acusação de que a sua vida folgada era financiada pelo Ricardo Salgado e por luvas provenientes de outros negócios. Não há provas, obviamente, apenas deduções ou suposições do MP, e de facto nada, absolutamente nada na sua governação aponta para a concessão de vantagem a nenhuma empresa ou banco em particular. Por isso, poderá ser acolhido o seu clamor de inocência. Poderá, mas não será fácil.

Em certas matérias, demonstra falta de noção. A sua argumentação é mais fraca na justificação para as entregas de dinheiro vivo já depois de terminado o mandato e para o pagamento de viagens ainda durante o mandato. Não há justificação que lhe valha. O amigo até lhe podia emprestar dinheiro, mas porquê por aquele processo oculto? OK. Se Carlos S Silva lhe fizesse um empréstimo oficial, logo choveriam insultos e acusações de o ter beneficiado enquanto primeiro-ministro. E uma investigação. Mas os pagamentos já aconteciam antes de 2011.

Pode-se dizer que não temos nada com isso, é lá com eles. E é, sobretudo porque não houve benefício, ou “demonstração de objecto”, como diz Ivo Rosa, durante o exercício do seu mandato. Mas resta sempre a história das entregas em dinheiro vivo para sustentar a vida em Paris. Não foi bonito de saber para quem o admirava como eu. E, graças a isso, há muita ideia que se desmorona na minha cabeça. Continuo a achar, e esta opinião não vai mudar nunca, que foi um excelente primeiro-ministro, o melhor que o país já tinha tido desde há muitas décadas, um indivíduo que tinha uma visão moderna e desempoeirada para o país e a começou a pôr em prática e bem, até vir a crise do sub-prime. Governando ao centro e com grande determinação, ele era a raiva e a inveja da direita. E da extrema-esquerda. O orgulho do PS.

Agora, parece-me bastante abusivo da parte dele concentrar todas as origens deste processo no ódio e na perseguição política. Uma parte é com certeza, sem sombra de dúvida. A escolha do juiz C Alexandre é totalmente suspeita. Mas a sua relação com o dinheiro parece-me um caso de estudo e um caso bicudo. Ou porque gosta demasiado e não tem, desgraçando-se e criando o caos entre familiares e amigos, suscitando processos destes, ou porque tem e não o adquiriu nem o guarda de forma legítima. Penso que o tribunal deve decidir, sinceramente.

O juiz Ivo Rosa arranjou-lhe uma acusação algo estapafúrdia no final. A ver vamos. Entretanto, em matéria de defesa mediática, penso que esta entrevista basta. Os tribunais que julguem.

Eleições em Lisboa

Não gosto de fazer futurologia, mas, com os candidatos anunciados para a Câmara de Lisboa, a campanha eleitoral autárquica induz-me às seguintes previsões e considerações:

A candidata do Bloco, uma senhora de origem guineense, que já foi autarca em Juntas de Freguesia de Lisboa, deputada municipal e deputada nacional, é uma boa aposta (digo isto, mas nunca a ouvi falar). Ficará, em princípio, na Câmara e isso é bom, é sinal de que pessoas imigrantes e naturalizadas e que se sentem parte de uma minoria discriminada já acedem a lugares onde não têm sido vistas. São dela estas palavras: “Acredito que é possível construir uma outra Lisboa: uma cidade mais habitável, mais inclusiva, mais solidária, menos desigual e com mais memória. Uma Lisboa com coragem e determinação para enfrentar a crise social que vivemos, a emergência climática, o racismo e todas as discriminações“. Não é difícil ver onde colocará a tónica na sua campanha, ao falar em memória, racismo e discriminação. Precisamente na campanha eleitoral, porém, com a presença do também candidato Nuno Graciano, do Chega, que se apresentou a Lisboa de mão ao peito em frente ao monumento aos Descobrimentos, receio bem que os temas não venham a ser os que interessam mais à cidade, nem que a cidade seja o principal foco. Receio que os temas sejam os que apenas interessam marginalmente, como a manutenção ou não da estatuária, do ajardinado e do edificado evocativo da nossa história, com as provocações sempre ao virar da esquina, dadas as escaramuças recentes. Em suma, a discussão pode descambar para a nossa história e para o orgulho nela e para o nosso maior ou menor racismo. Interessante, mas potencialmente incitadora de ódios e paralisadora. E Lisboa e o seu futuro, nomeadamente o ruído aéreo, a vê-los passar.

Só espero que, por um lado, a derrota ou um mau resultado da candidata do Bloco não conduza a interpretações que os atribuam ao racismo, assim como a uma vitimização (o que não é de excluir, dada a presença habitualmente agressiva do Chega) e, por outro, que, à custa dos jardins e monumentos de Belém, o Chega não possa cantar vitória. Veremos. A campanha será diferente mas não necessariamente louvável.

De fora desse confronto, mas obrigados a pronunciarem-se caso ocorra, estarão Fernando Medina e Carlos Moedas, nenhum deles racista nem adepto de autoflagelações a propósito da nossa história, pelo que os dois poderão assistir à novidade e participar com o máximo juízo de que forem capazes. Medina tem obra feita e muito bem feita, apesar da ciclovia da Avenida Defensores de Chaves, que não tem pés nem cabeça. (Ainda gostaria de falar com o engenheiro que achou uma boa ideia pôr uma pista ciclável a tocar nas portas dos carros estacionados…) Mas a cidade está linda, muito propícia à utilização de meios de transporte saudáveis, muito usufruível e menos poluída. Também no domínio do acesso à habitação e da melhoria do parque habitacional, Medina tem feito trabalho considerável e tem novos projectos já na calha. A localização e a volumetria do novo hospital da CUF em Alcântara foram decisões muito discutíveis, embora não da sua exclusiva responsabilidade.

Carlos Moedas vai dizer que saberá melhor do que ninguém aplicar os fundos europeus, porque foi comissário europeu … da Ciência – e pouco mais terá a dizer, também dados os seus fracos dotes de oratória, a não ser defender-se da sua participação no governo passista e mandar farpas contra os socialistas em geral, em campanha política contra o actual Governo, numa tentativa de conseguir mais tarde a liderança do PSD. A jogada é tão clara e flagrante que não lhe prevejo um brilhante resultado na autarquia.

O Medina tem, portanto, todas as condições para ganhar, mas vai ter que saber defender a cidade dos provocadores, tergiversadores e oportunistas de vários quadrantes, sem deixar de responder às reclamações das minorias. Com coragem e bom senso.

Fátima Bonifácio é, não uma, mas várias anedotas

Empertigada, catastrofista e grandiloquente, esta mulher subiu à tribuna e aí vai disto – tudo raso e viva o Chega! (Hoje, no Público)

Isto (Portugal) é uma choldra. Os comunistas dominam os socialistas. A direita não tem mensagem. Só o Chega nos pode salvar. Só o Ventura, que não está cá com boas maneiras nem falinhas mansas, pode levar a direita clássica e democrática ao poder. Repito – a direita clássica e democrática. Em geral, o Ocidente está estagnado. Em França, não há reformas. Onde estão os grandes pensadores e filósofos europeus? Olhemos para a China. A China, sim! Começamos a ter coisas que copiar desse grande, grande país. (Presumo que não sejam só patentes)

 

Bom, este é o resumo muito resumido da indignação de hoje. Como citações do dia, deixo aqui esta amostra, a que juntei os meu sucintos comentários, que poderão desenvolver ao vosso gosto. Em maiúsculas, apenas para se diferenciarem, porque na verdade estou a rir-me.

 

Quase toda a comunicação social continua dominada pela esquerda, na oposição ou no poder.”[…] “ATÃO” NÃO É???

 

Em 45 anos de democracia, a direita não se conseguiu impor com boas maneiras e falinhas mansas. Vejo no Chega, precisamente pelo alarme que causa, um possível pelotão da frente para abrir caminho a uma direita clássica, democrática e — sobretudo — liberal.”[…] BEM VISTO, PORQUE O VENTURA ATÉ NEM QUER O PODER PARA ELE. AHH OHH!

 

“Grande parte da Europa tornou-se ingovernável. Desde o final da II Grande Guerra até à crise financeira e bancária de 2007-8, os povos têm-se tornado cada vez mais difíceis de contentar. Porém, não se vislumbra nenhum modelo político-social alternativo, nenhuma ideologia de substituição. O que a direita ou a esquerda (salvo o Chega) têm para oferecer é sempre mais do mesmo.”[…] DI-TA-DU-RA! DI-TA-DU-RA! VIVA O VENTURA

 

O “nosso modo de vida” ocidental, de que com toda a razão nos orgulhávamos, está esgotado, mas nós não estamos preparados para abdicar de direitos e privilégios acumulados ao longo de décadas. Mas mais tarde ou mais cedo, e mais cedo do que tarde, teremos de renunciar a alguns deles,”[…] AUS-TE—RI-DA-DE! AUS-TE-RI-DA-DE! VIVA O PASSOS!  E O VENTURA, CLARO!

 

No que muita gente distraída não repara é na flagrante coincidência entre o declínio económico e social da Europa com o afundamento da sua criatividade intelectual e imaginação política. Desaparecidos Bloom, Steiner, Strauss ou Scruton, onde estão os grandes pensadores, os grandes intelectuais do século XXI?”  NA CHINA, FÁTIMA. NA CHINA.

 

O esquerdismo de Pedro Nuno Santos pode não o levar a mais lado nenhum e é pena

Gosto do Pedro Nuno Santos: é transparente, assertivo e combativo. O artigo que hoje escreve no Público a propósito das eleições presidenciais, porém, tem a meu ver tanto que criticar que nem sei por onde começar.

Mas cá vai. Começo por uma consideração geral sobre a opção do PS – nenhum candidato próprio (preferência de Costa) versus apoio a Ana Gomes (preferência de Pedro Nuno). António Costa é um governante pragmático. Há quem atribua ao termo “pragmático” uma carga negativa, por causa de uma hipotética cedência nos ideais, mas esse “quem” não sou eu de modo nenhum. O pragmatismo tem dados bons frutos.

Marcelo Rebelo de Sousa não constituiu uma força de bloqueio à governação durante o seu primeiro mandato. É um facto que, muito pelo contrário (e exceptuando o péssimo, cruel, demagógico, quase imperdoável comportamento do PR na altura dos incêndios de 2017 e a sua excessiva e quase permanente sede de protagonismo), Marcelo respeitou as decisões do Governo e muitas vezes formou equipa com ele para fins de bem maior. Foi um garante de estabilidade, passe o chavão. Marcelo é popular e Costa é bem visto pela maioria dos cidadãos. Eu diria que é uma dupla que não tem qualquer interesse em hostilizar-se mutuamente. O PS não tinha, por conseguinte, nem razões nem nenhuma figura que pudesse apresentar contra Marcelo com base em putativas divergências insanáveis com ele. Salta à vista que Marcelo reconhece valor a António Costa e é sensível aos seus argumentos e ao seu peso eleitoral. Além disso, por muito que Pedro Nuno fale em ideologia (campo onde um hipotético conflito em relação a Marcelo pouco se notou nos últimos cinco anos e resta saber quem cedeu), a verdade é que, para as eleições presidenciais, a pessoa do candidato importa muitíssimo. Ana Gomes tem demonstrado ser uma pessoa demasiado emotiva, precipitada nos seus julgamentos, justiceira popular e defensora convicta (sem a mínima reticência) de piratas informáticos que actuam à margem das leis do Estado de direito para se poder ver nela uma futura zelosa cumpridora da lei e da Constituição. É completamente tendenciosa, incapaz de neutralidade. Além de que sempre foi crítica de António Costa e do seu governo. A que propósito a apoiaria ele, como lamenta Pedro Nuno? Aproveito aqui para perguntar aos socialistas que pensam que se devia votar contra Marcelo devido à tradição de conflito nos segundos mandatos com vista ao regresso da direita ao poder se honestamente acham que algum dos outros candidatos, incluindo a Ana Gomes, iria facilitar a vida ao Governo mais do que o professor. Pois. Por aí não adianta argumentar. Mas adiante.

 

Pedro Nuno acha que é mau o PS estar a ocupar o centro, porque, alegadamente, isso fortalece os movimentos de extrema-direita ao fazer definhar a direita social-democrata, vista como hipotético tampão. Ou seja, o PS devia encostar-se à esquerda, cuja ideologia colectivista e anti-lucro deixou de ter qualquer nexo ou atractividade enquanto houver memória e exemplos vivos desse tipo de socialismo, para deixar margem a que o PSD ocupe o centro e reduza assim as possibilidades de crescimento da corja do André Ventura e quejandos. Convenhamos que esta visão das coisas é bastante absurda. E uma ilusão. O surgimento de movimentos nacionalistas, xenófobos, demagógicos e frequentemente delirantes como o Chega, o Front National ou o MAGA de Trump tem mais a ver com a democratização da ignorância e da grunhice permitida pela Internet e as redes sociais do que com “descontentamentos” com o sistema e a ausência de uma direita decente. Nenhum dos votantes no Ventura acha que os problemas económicos dos portugueses vão ser resolvidos por ele.  Ou então são ainda mais burros do que parecem. Mais deploráveis, digamos. Os movimentos de extrema-direita usam a manipulação tal como as seitas. São projectos de poder pessoais e de uma camarilha encabeçados por gente que sabe aproveitar o acesso à informação de uma imensa massa de anónimos pouco conhecedores da História, da ciência, da política, etc. para lhes apregoar uma condução a uma terra prometida (de ódio, de racismo, de testosterona e outras características pouco racionais e pacifistas).

Em Portugal, ao contrário de França, sim, tem sido o PS a ocupar o lugar da social-democracia. Começou com Sócrates e, depois disso, o PSD nunca mais foi o mesmo. Passos Coelho era já um André Ventura mais acanhado ou com menos verve. Era ainda outro tempo. Pois bem, segundo PNS, o PS devia abandonar esse espaço moderado que é a social-democracia e recuar em diagonal, para a esquerda. Teria cá um futuro, ó Pedro Nuno.

 

Diz ainda PNS que “o nosso partido não foi criado nem existe apenas para estar no poder, mas para transformar Portugal num país onde se vive bem em comunidade”. Ó Pedro Nuno, mas não é para isso que convém estar no poder? Como é que esse desígnio se consegue fora do poder?

 

Enfim, não me vou alongar mais, apesar de as minhas críticas poderem ser mais desenvolvidas. O artigo encontra-se no Público para quem o quiser ler. Este ataque de questionamento ideológico de que foi acometido PNS quando o PS e o Governo estão bem e continuam em alta no meio desta tormenta da pandemia e do alarido do comentariado invejoso é um pouco, para não dizer totalmente, despropositado. Talvez  o Pedro Nuno quisesse apenas justificar o apoio que deu a Ana Gomes, mas… já agora, a Ana Gomes? Porquê?

 

 

Chocante, ó Tavares: eu, por exemplo, só espero que continue a haver “um eleitorado profundamente insatisfeito”

Sem noção de que está a imitar os trumpistas, o Tavares João Miguel prossegue hoje a sua caminhada rumo à normalização do Chega. Diz ele:

[…] Continuarmos com esta conversa [de que os potenciais 10% de votantes no Ventura são deploráveis] é não perceber nada do que está em jogo, nem a insatisfação profunda do eleitorado, como António Barreto explicou admiravelmente no artigo “Perceber”. O nosso regime democrático e a nossa cultura política estão a deixar demasiada gente para  trás. Ventura não é o bólide dos fascistas — é o carro-vassoura dos abandonados pelo sistema.

A ideia de que essa insatisfação se combate com cercas sanitárias, ilegalizações partidárias ou caras de ai-que-nojo é de uma ingenuidade absurda. Ventura combate-se com melhores ideias — como Marcelo ou Tiago Mayan provaram nos debates — e com melhores políticas do que aquelas que temos visto em Portugal. Quem vota em Ventura não está a dizer que gosta do Chega. Está a dizer que não gosta do estado a que a política portuguesa chegou.

É fulcral perceber a diferença entre uma coisa e outra.

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Se virem bem, é todo um rol de “déjà-entendus”, estribilhos hoje na moda entre os neo-populistas, proto-fascistas, fascistas assumidos, oportunistas e gente sem escrúpulos em geral em alguns países ocidentais, entre os quais a América. Ele é os “abandonados pelo sistema” – que alegadamente votam no Ventura (também no Trump. É igual. Coitadinhos dos abandonados); ele é “a profunda insatisfação do eleitorado” – razão do sucesso do Ventura (olhe-se para aquele eleitorado do Trump que invadiu o Capitólio “profundamente insatisfeito com o sistema”, não é? Há que lhes dar voz, então não é?); ele é a “gente que fica para trás” devido ao regime democrático (mas quem? Os saudosistas do Salazar e das ditaduras? Os vigaristas vários que acolitam o Ventura? Os alucinados da QAnon? Os racistas? O regime democrático deixa-os para trás e isso é uma pena?); ele é ainda “o estado a que a política portuguesa chegou” (cá está, os direitolas passistas do Observador adoram esta frase, os trumpistas dizem o mesmo dos democratas).

Mas qual estado, senhores? Estamos assim tão mal? Sentem-se asfixiados? Porquê? Têm jornais, dizem o que querem, têm total liberdade económica, o que é que vos falta? O poder? Claro, isso não têm neste momento, mas é honesto falar, por causa disso, “no estado a que a politica portuguesa chegou”? Qual seria esse estado com esses vossos crânios? Hem? Com os do Rio, do Ventura ou do Passos.

Sim, sim, estou a achar-me parecida com o rapaz do vídeo que ontem publiquei. E estou a gritar. Mas eu avisei. É que não há pachorra para esta conversa. O Tavares está insatisfeito porque os seus amigos da direita não estão no poder e ama o Ventura porque ele diz estar descontente com o mesmo. Só que esta confraria de descontentes não deixa de ser uma amálgama perigosa, como se está a ver nos States, com a triste figura da maioria dos republicanos.

A “fraude” de Trump afinal de onde vem?

Trevor Noah tem uma rubrica a que chama “If you don’t know, now you know“, em que, sempre com piada, esclarece certos assuntos que muita gente pode desconhecer. Aqui, é sobre o QANON:

Com a mesma intenção, mas desprovido de qualquer piada, aqui deixo um artigo da BBC sobre a estratégia muito contemporânea, da alt-right, há muito montada por Trump para ganhar e/ou desacreditar uma possível vitória do seu adversário.

The deep roots of Trump’s ‘voter fraud’ strategy

Está em inglês, claro. Peço desculpa a quem não percebe, mas hoje em dia pode-se pedir uma tradução rápida ao Google.

 

E competência para entrevistas?

 

Deve haver uma explicação para o facto de Miguel Sousa Tavares fazer entrevistas a políticos, apesar dos excelentes jornalistas e pivôs que asseguram os jornais da TVI. Desconheço qual seja. Mas o facto é que não resulta. Na semana passada, na entrevista a António Costa, o Miguel optou por um tom agressivo de confronto pessoal completamente deslocado, mais parecendo um juiz a censurar um qualquer meliante em sala de audiências. No final, pensei que o que esta espécie de jornalistas está a pedir são políticos do tipo Bolsonaro, Trump ou André Ventura, ou seja, basófias, aldrabões, malcriados e fala-baratos, para se porem em sentido e deixarem a arrogância. Está visto que, com seriedade, condescendência e boas maneiras, não se vai lá, não se dignifica nenhuma função de soberania ao responder a entrevistas destas, porque o que prevalece no fim é o tom acusatório. E se havia esclarecimentos, informações úteis e planos a obter do entrevistado, que por acaso era o primeiro-ministro!

 

Nem de propósito, ontem seguiu-se o Ventura (parece que é o primeiro da série de candidatos à Presidência da República a entrevistar). Miguel, subitamente o cordeirinho (por comparação), nervoso até, por vezes, não só não se tinha preparado devidamente para a tarefa, já que nem o lindo programa do Chega! se dignou trazer para a mesa, como deixou que o basófias-mor debitasse as maiores mentiras e o maior palavreado superficial praticamente sem qualquer objecção, mero questionamento ou aprofundamento. Achar que é boa ideia, para confrontar o entrevistado com o seu racismo e sobretudo o dos seus adeptos, perguntar-lhe se tinha amigos pretos é de um ridículo sem medida, um presente oferecido de bandeja. Teria sido melhor questioná-lo sobre os amigos brancos, não acham?

O tema dos ciganos foi uma mera oportunidade para o dito cujo explanar toda a sua demagogia, apenas se tendo ouvido muito de passagem, lá pelo meio da algaraviada do Ventura, o Miguel a dizer que os esquemas dos ciganos são igualmente os esquemas de muitos não ciganos. Mas mal se ouviu. E será que a população prisional é maioritariamente cigana em percentagem de membros desta etnia na população em geral, como disse o Ventura? O tema do aborto, por exemplo, foi deixado cair mal fora mencionado. A questão dos propósitos ditos “antissistema” do partido ficaram-se pelo Parlamento e pela redução do número de deputados. É isso o “antissistema” do Ventura?? O entrevistador ficou satisfeito com essa redução ao mínimo risível do antissistema? O “antissistema” devia ser uma coisa em grande! E o que está o Ventura a dizer quando diz que “os políticos nos andam a roubar há 40 anos”? Saberá o Miguel qual era a profissão do Ventura?

E os partidos no quadro europeu e internacional com que o Ventura se identifica? Foi discutida essa problemática? Claro que não. E a semelhança do discurso deste homem com o do Trump, por exemplo? Que teria ele, o Ventura, a dizer? Podia ou não o Miguel ter preparado um vídeo com declarações e proclamações do Trump exactamente iguais às do Ventura (ver última parte da entrevista)? Claro que podia, porque era evidente que ele viria com a conversa de que não tem medo de dizer tudo o que lhe vem à cabeça, insultos incluídos, “cara a cara”, como “o povo”, ou seja, os comentadores de café, num desbocamento totalmente igual ao desbocado americano. Mas não. Por isso, achei o entrevistador muito censurável.

 

Com o Ventura, meus caros, um caderninho com questões muito precisas para ele responder, nenhum afastamento desse guião e vídeos para o confrontar com as próprias tergiversações e contradições e fica o ambiente mais limpo no final. De nada. Da minha parte, é tudo.

O charlatão e o próximo golpe

 

Trump acaba de demitir o ministro da Defesa (numa altura destas, que devia ser de transição pacífica do poder) e de politizar completamente a Justiça, através de ordens dadas (e aceites) ao Procurador-Geral. Está, portanto, a desenhar-se um golpe. Qual? Esperemos para ver a qualquer momento. É isto a que conduz o charlatanismo, o populismo e a vigarice nos mais altos cargos políticos.

 

Eis o que escreveu certeiramente no Twitter o antigo ministro do Trabalho dos Estados Unidos.

 

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Chega vs. PCP/BE – vamos lá sem filtro

Anda muito acesa a discussão sobre o acordo celebrado entre o PSD e o Chega com vista à formação de um governo nos Açores. A resposta de quem apoia esse acordo às críticas do PS e de alguns militantes do PSD consiste em fazer equivaler o PCP e o BE – considerados a “extrema-esquerda, mas comprometidos com um governo do PS – ao Chega – considerado a “extrema-direita”, assim justificando e desdramatizando esta nova aliança.

Se querem saber a minha opinião, eu acho que os regimes defendidos pelo PCP foram e são efectivamente ditaduras, historicamente repressoras das liberdades, niveladoras por baixo (ou seja, sistemas em que toda a gente é remediada ou um pouco pobre, sem hipóteses de ambições individuais, com uma consequente estagnação económica e científica e pouca inovação), excepto para a camarilha que ocupe o poder e os seus lambe-botas, que vivem invariavelmente bem – ver a ex-URSS, a Rússia actual, não comunista, mas sua herdeira, a actual Coreia do Norte e Cuba. A brutalidade de Stalin veio pelo meio coroar de violência um regime já de si ditatorial à partida e por natureza – chamassem-lhe ou não “ditadura do proletariado”. Entretanto, essa violência ficou para sempre registada e a História avançou.

Hoje em dia, será o PCP uma ameaça real à democracia? Com a maioria dos partidos comunistas praticamente extintos na Europa ou transfigurados, ou passados para ideologias de direita, as teorias que os poderiam levar ao poder estão totalmente desacreditadas. É uma impossibilidade, à hora actual, um partido comunista ou alguém que se intitule comunista assumir o poder, chegar ao poder por meio de alianças e muito menos tomar o poder por alguma qualquer revolução. Não há simpatia, não há apoios. Só por isso, que já é muito, o PCP não representa qualquer perigo para a democracia. Neste momento, em Portugal, e lembro que é praticamente o seu último reduto, limita-se a controlar alguns sindicatos, sobretudo na função pública. E também por isso, qualquer acordo de governo com estes 6% do eleitorado mais não incidirá do que em “direitos laborais”, dinheiro para a função pública e no acautelamento da relação de força em alguma autarquia. Os comunistas não representam hoje em dia mais nada. Servem ainda e porém para nos lembrar do obscurantismo e da violência do regime de Salazar, a última ditadura que nos foi servida. Mas nisso não são os únicos.

 

Já o mesmo não se pode dizer do Chega e dos seus aliados a nível internacional. Sem espaço nem tempo para escrever aqui um compêndio sobre o ressurgimento da extrema-direita na Europa e na América, digo apenas que os discursos populistas são hoje em dia bem deglutidos por uma boa parte da população. Nuns sítios mais por uns motivos (imigração muçulmana), noutros mais por outros (racismo histórico latente, excessos dos esquerdistas e do politicamente correcto, ocupação do “centro” político democrático e do centro-direita pela esquerda dita “socialista”), a verdade é que a incultura generalizada trazida à tona de água pelas redes sociais, nelas orgulhosamente verbalizada e explorada por oportunistas encartados contribui para a formação de hordas de energúmenos que se mostram dispostos a seguir a conversa de qualquer badameco bem falante (e às vezes nem precisa de o ser – é só ver o Trump) que se proponha “mudar o regime”, “acabar com os corruptos”, “defender os nossos valores cristãos”, ou fazer a “America great again”, etc., etc. Por isso sim, o Chega e os seus amigos, como o Front National da Marine Le Pen, são uma ameaça à democracia e à paz interna. Ancorados na tal horda de ignorantes e de puritanos e falsos puritanos incomodados com os “excessos de liberdades”, eles visam tomar o poder e, uma vez lá chegados, perverter as instituições democráticas, passando a controlá-las em seu favor. Olhemos o Trump, senhores! Os seus apoiantes são o Orban da Hungria, o Erdogan, da Turquia, o Bolsonaro e quejandos. Todos no poder. É perigoso dar a mão e palco a esta gente? Claro que é. Pois é isso que o Rui Rio acaba de fazer.

Repararam com certeza que não mencionei o Bloco. Resolvi omiti-lo desta equação, porque o Bloco para mim não é nada de enquadrável ideologicamente e está muito longe de ser uma ameaça para o regime democrático. São uma súmula e uma amálgama dos antigos grupúsculos de extrema-esquerda entretanto irrelevantes, transformados numa espécie de comunistas mais fofinhos e libertários, sem o histórico sério e pesado do PCP. Na Grécia, chegados ao poder através do Syriza, depois do desmoronamento do PASOK, governaram como qualquer bom europeu depois de terem percebido que quase nenhum dos seus governados queria abandonar a União Europeia. Portanto, o Bloco é mais conversa. Conversa que pode ser útil para o PS português, por exemplo, se os tiver como aliados, nos ataques à direita decadente. Calma, pode parecer que lhes estou a chamar idiotas úteis. Então, mas não chegaram ao poder na Grécia? Sim, chegaram. Por isso, vai daqui um “piqueno” elogio: direi que podem ser um “PS sobresselente” e, mesmo assim, são precisas circunstâncias.

Os comentadores e a TAP – comentário aos comentadores

Disse o ministro Pedro Nuno Santos, em entrevista à SIC (Jornal das Oito, ontem), visivelmente sentido com alguns comentadores e jornalistas (o homem é bastante genuíno) que o acusaram de dar uma imagem da situação financeira da TAP às instituições europeias pior do que as boas negociações aconselhariam (os resultados operacionais, diz uma comentadora, olha, os resultados operacionais),  que não basta exigir-se rigor aos políticos, que os jornalistas e comentadores também estão obrigados a informarem-se antes de emitirem opiniões. E tem toda a razão. Provavelmente aborrecidos com a monotemática e omnipresente Covid-19 e a quase unanimidade que convoca, a ânsia de agarrarem um tema, finalmente, de grande potencial político leva-os a um chorrilho de críticas sem nexo, incongruentes e levianas, que só o entusiasmo com o desconfinamento temático e a ideia de luta explicam. Toda a noite televisiva de sexta no cabo foi isto. A Ana Lourenço também estava nessa. Nada que lhe custe, diga-se.

 

De repente, não só muitos deles passaram a achar que a situação da TAP pré-pandemia não era tão má assim (Helena Garrido e outros), como chegam ao ponto de dizer que o David Neeleman devia ter ficado porque era o único que percebia de aviação (se não me engano, o Conraria, sempre em busca da originalidade – estranhamente a substituir o comentador do Bloco no duo da RTP3, “em confronto” com o Pedro Norton). O Neeleman, pasme-se, esse que andava já há tempos a ver se se ia embora. Espera, possivelmente queriam que o empréstimo do Estado fosse dado graciosamente ao Neeleman. God help me. Isto ao mesmo tempo que dizem que bom, bom era deixar falir a companhia e depois criar uma outra de outra dimensão, etc. e tal. Tudo fácil. Como se essas operações não demorassem anos e anos nos tribunais (ver a Sabena e a Swiss Air), e entretanto não fossem empregos e empresas dependentes da TAP à vida, uma fatia da economia à vida numa altura como esta, e como se o sector da aviação não estivesse no charco neste momento em todo o mundo como nunca antes na sua história (se mais nada houvesse, que fariam aos aviões?).

 

Apesar do que dizem, eu gostaria muito de saber o que fariam se estivessem no governo e qual o governo que decidiria numa crise como a que se vive hoje extinguir pura e simplesmente a TAP. É verdade que ninguém obriga ninguém a escolher a vida política e que o próprio ministro Pedro Nuno declarou ter perfeita consciência de que governar é decidir e estar preparado para a luta – contra interesses vários, contra o mau jornalismo, contra os maus comentadores, contra a manipulação dos incautos, contra os jogos políticos. Mas estes arautos da desgraça, que dizem que a partir de agora vai ser tudo péssimo – desde o CEO transitório (um “boy” pela certa) até à nova administração profissional, que “não terá sensibilidade quanto ao que a TAP representa” (ouvido ontem do mesmo que queria que a TAP caísse), passando pelas negociações com os sindicatos (é o fim do Costa) e pela possibilidade de um novo Novo Banco – igualmente criticariam a extinção da TAP e a intensa litigância jurídica que se seguiria, caso tivesse sido essa a decisão e, nessa eventualidade, seriam eles a dizer o que o ministro agora diz em defesa do papel da companhia em várias vertentes da vida nacional. Ah, alguns continuariam a defender o Neeleman. Haja paciência. Tive que mudar de canal, sempre.

 

Enfim, o mercado dos pontos de vista de quem não tem que governar é sempre florescente e bem pago quando há problemas difíceis de resolver. Penso que a ideia deste governo é aguentar a TAP nesta crise generalizada, reduzindo temporariamente a sua dimensão, preservando os postos de trabalho necessários e a manutenção das empresas dos vários ramos que dependem da TAP e, mais tarde, eventualmente, associá-la a um consórcio europeu já sem o Estado nos seus órgãos sociais. Penso eu, comentadora que sou. Mas há que ser forte. Pedro Nuno, vamos a isso!

Pedro Nuno Santos, ele mesmo, ontem:

Exactamente (racismo)

Deixem as estátuas em paz

(artigo de Lourenço Pereira Coutinho, no Expresso)

E ainda:

Notas sobre racismo (eu)

 

No meio de toda a agitação que para aí vai a propósito da violência exercida sobre um negro norte-americano à vista de toda a gente, e que acabou por matá-lo, e sem questionar sequer que possa existir em muitas pessoas (incluindo polícias) um preconceito em relação aos africanos ou seus descendentes, várias perguntas me vêm à baila à boleia do questionamento da história da relação do Ocidente com África que se seguiu e sempre se segue às manifestações anti-racistas:

 

  1. Os afro-descendentes que aliam a justíssima reivindicação de um tratamento justo, igualitário e digno nas sociedades ocidentais onde vivem ao propósito de condenarem e quererem apagar o passado histórico dos “brancos”, gostariam do quê? Que o tráfico negreiro nunca tivesse acontecido e os seus antepassados tivessem permanecido escravos nos seus locais de origem? É que, se vamos analisar a história do tráfico de escravos pelo Atlântico, então será preciso reconhecer que nem os portugueses nem os ingleses, nem nenhum outro povo que se tenha dedicado ao comércio de escravos naquela altura, se aventuravam pelo interior de África em busca de pessoas para capturar, escravizar e transportar (pelo menos inicialmente e durante muitas décadas), nem foi esse o objectivo da expansão marítima portuguesa. Essas pessoas, já feitas escravas segundo as leis da sobrevivência e da guerra vigentes na altura em quase todo o continente africano, eram-lhes trazidas à costa por africanos em troca de outras mercadorias. No entanto, não vejo qualquer revolta contra os dirigentes africanos de então nem tentativas de identificação dos mesmos. Não será isso um pouco o reconhecimento da superioridade dos brancos, que por isso teriam obrigações que os chefes africanos não teriam? Não é isso aberrante?

Não, não estou a dizer com isto que até foi uma bênção os africanos terem sido levados dali para fora e que deviam estar agradecidos por isso. Seria estúpido, sobretudo atendendo ao carácter  nada voluntário das viagens e às condições desumanas de transporte. Possivelmente, o que os agora revoltados gostariam é que os seus antepassados pura e simplesmente passassem a homens livres mal entrassem no barco e lhes tivesse sido oferecido um contrato de trabalho justo e habitação condigna no destino – segundo os padrões actuais. Sabemos que não foi isso que aconteceu. Porém, sabemos também que não teria sido possível que as coisas se passassem assim naquele tempo. E porquê? Se mais nenhuma razão houvera, nomeadamente os valores bem diferentes da época, basta a de que nem entre “brancos” as relações laborais eram justas! Muito pelo contrário. Quantos miseráveis embarcavam nos nossos navios de então? Não eram escravos, mas muitos dos que ficavam em terra a labutar nos campos era como se fossem. Além de que também os antepassados dos “brancos” foram escravos e durante muitos séculos, antes, durante e depois do império romano. Vamos derrubar o templo romano de Évora?

 

  1. Embora tenha todas as reservas quanto ao questionamento do passado colonialista de alguns países à luz das condições e dos valores e conhecimentos de hoje (e não esquecer que os EUA brancos começaram por ser uma colónia britânica), apoio 100% a luta contra as discriminações raciais na sociedade. A cor da pele não pode de maneira alguma ser motivo para considerar um outro ser humano inferior, prejudicando-o. Mas eu pergunto se, na América, a polícia só é violenta para os negros. E sei a resposta: não é. Basta lá ter vivido uns tempos. A polícia é violenta em geral e a esse facto não pode ser alheia a liberdade de porte de armas pelos civis. Está tudo de acordo, diria eu. Os negros são apenas os mais pobres, mais vigiados e mais facilmente apanhados. Mas, por outro lado, há milhares de polícias negros nos Estados Unidos. Serão todos brandos? Será que nenhum homem branco morreu devido a maus tratos de polícias também brancos descontrolados e cruéis? Já aconteceu com certeza. E é péssimo. É inaceitável. O polícia que assassinou George Floyd deve ir preso e, de preferência, não sair mais da cadeia. Mas mantenho as minhas perguntas.

 

  1. Interrogam-se alguns comentadores da nossa praça, escandalizados, por que razão não vemos afro-descendentes nas nossas televisões, no Parlamento, etc. Também penso que devia haver e tenho pena que não haja. Mas não vou tão longe ao ponto de considerar que essas pessoas não estão lá porque alguma força social as impede, como uma discriminação na hora das entrevistas de emprego ou nas inscrições em partidos políticos, como parecem sugerir os que assim se indignam. É evidente que os imigrantes das ex-colónias não vieram para Portugal por serem ricos. Demora muitos anos e algumas gerações até que a melhoria das condições de vida e a educação produzam frutos. O que não quer dizer que já não tenham produzido. Há em Portugal excelentes músicos e, seguramente, excelentes técnicos noutras áreas, de origem africana. A discriminação tem muitíssimo a ver com a pobreza e essa é a razão pela qual há mais negros nas nossas prisões. Nas lojas da Avenida da Liberdade não consta que haja racismo.

 

  1. Em suma, as discriminações em função da cor da pele devem acabar e a luta deve ser permanente nesse sentido. Mas aproveitar a luta para uma minoria ajustar contas com o passado dos chamados “brancos” (viemos todos de África, senhores) em jeito de punição, como se os chamados “negros” tivessem tido antepassados imaculados e fossem apenas vítimas dos que lá aportaram, isso é que já não. O Rui Rio não terá razão quando diz que não há racismo em Portugal, mas tem razão quando sugere que os exageros da turbamulta, nomeadamente a destruição selvagem de monumentos, farão muita gente olhar para os afro-descendentes com olhos pouco amigáveis e até com alguma revolta, a que alguns chamarão “racismo”. É pensar nisso.

No fundo, marcelices

Quanto ao que ontem se passou com Mário Centeno, António Costa e, “who else?”, Marcelo, a análise do Anselmo Crespo (ver abaixo) é a que, para mim, faz mais sentido e a que defendi cá por casa. Centeno esteve bem sempre, excepto quando e se não lembrou a Costa a tranche para o Novo Banco antes do debate no Parlamento; Costa não esteve, em bom rigor, bem, mas isso foi muito antes da resposta a Catarina Martins no Parlamento agravada com o pedido de desculpas (política “oblige”), pois sabia bem o que está no contrato de venda do NB (mas enfim, os tempos são complicados e exigentes e compreende-se a distracção); e Marcelo esteve mal, como quase sempre quando não controla a vontade de intervenção nem pensa nas consequências. Neste caso também porque se sentiu vaidoso com o apoio inesperado do Costa.

É ler:

Como Marcelo ia provocando a demissão de Centeno mas depois ligou a falar num “equívoco”

Dupla de coisas que se passam

  1. Não é uma coisa má as criancinhas não irem já todas para as creches

 

Ao contrário do que insinuam alguns títulos de jornais, que será precipitado abrir as creches já na próxima segunda-feira, porque a maioria dos pais não tem confiança suficiente para lá deixar as criancinhas, o facto de irem menos crianças só ajudará a que a segurança seja maior e mais fácil de assegurar para as que forem e, consequentemente, a que a confiança para daí a quinze dias aumente. Um processo previsível e naturalmente previsto e que se autorregula, sendo também por isso que os salários de quem fica em casa devido aos filhos pequenos é pago até ao final de Maio, mas já não a partir de Junho. Por isso, não vão? Ainda bem. Era o que se esperava.

 

2. O Ventura  é um charlatão com ideias nazis

 

Que o André Ventura é um facho que vê uma oportunidade no ar do tempo, que é o dos energúmenos ao poder, não tenho muitas dúvidas, tanto mais se atendermos às pessoas de quem se rodeia. Só ainda não percebi se é um total ignorante e inculto que polui o discurso público com comentários e propostas supostamente diferentes e chocantes de tão ignorantes, ou apenas um farsante que se aproveita da ignorância e do obscurantismo de muita gente para ganhar votos e poder. Também é verdade que as duas coisas não são incompatíveis. O que ele publicou hoje no Twitter sobre Fátima é de antologia – antologia do populismo mais nojento e primário. Disse isto (com imagem e tudo):

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Ou de como a religião é invariavelmente aproveitada (e explorada e até criada) para satisfazer interesses de poder. Sim, porque todos nós acreditamos na profundíssima religiosidade, no profundíssimo mundo espiritual do André Ventura.