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“Ser o centro do mundo?” Ó Moedas, não acertas uma

Moedas assume que vai gastar rios de dinheiro com a Jornada Mundial da Juventude católica. Tudo bem, ou tudo mal, porque o que é certo é que o evento já fora agendado antes do início do seu mandato e, com a pressão e o entusiasmo do Presidente da República, já se tinham previsto gastos de milhões desta forma incompreensível. Mas esses rios de dinheiro, sabemos agora, deverão muito do seu caudal, seguramente aumentado, a um palco-altar cravejado de diamantes (ou assim parece), este sim, da exclusiva responsabilidade do Moedas, que, apertado, diz agora que é o preço a pagar para sermos “o centro do mundo” numa semana de Agosto.

 

Alto lá! O centro do mundo? – pergunto eu e perguntar-se-iam, se ouvissem, os atónitos asiáticos, indianos e africanos que nem sabem do que se trata.

Convém esclarecer este autarca por acidente que dos milhares de milhões de habitantes deste planeta Terra (7.667.136.000 de pessoas no final de 2020), apenas 1.359.612.000 são considerados católicos, isto segundo contas da própria ICAR, que deve tomar por base o número de baptizados. A este número há naturalmente que subtrair os que, apesar de baptizados (numa idade em que não tinham escolha) nada têm que ver com a Igreja ou o catolicismo ou sequer qualquer religião.  Suponhamos então que serão, com uma boa dose de generosidade, um milhar de milhão de almas. Se considerarmos que neste número se inclui toda a hierarquia da Igreja, os “pastores” e equiparados, ou seja, os funcionários da máquina, não há qualquer hipótese de as Jornadas da Juventude católica fazerem da cidade onde se realizam “o centro do mundo”. Apenas entusiasmarão e interessarão, eventualmente, a menos de 15% da população mundial. Eu, baptizada em bebé, nunca jamais em tempo algum ouvira falar destas jornadas, estou zero entusiasmada com elas, a bem dizer estou indignada com o desconhecido contributo da Igreja portuguesa para as despesas, e, se possível, estarei longe daqui nessa altura.

 

Tomemo-las, pois, pelo que são: eventos da Igreja (em todos os casos chamados “celebrações”) para angariação de adeptos jovens (como Fátima é para angariação de fundos e propaganda), dada a escassez de sacerdotes e também de fiéis, estes sobretudo na Europa civilizada (a par de embrionariamente islamizada, dirão alguns). Não há, pois, razão para serem todos os cidadãos contribuintes a pagar isto, nem centro do mundo nenhum que justifique tal coisa carérrima em forma de rampas a que chamam altar e palco.

Ficará para a cidade? Como? As Misses Mundo, uma possibilidade em tudo profana e talvez escandalosa para se rentabilizar de futuro o investimento de 5 000 000 € num altar religioso, não costumam desfilar em planos inclinados. Não há uma boa justificação para este gasto. Só pode haver uma má, portanto.

A Mota-Engil não é católica, pelos vistos

Um palco/altar de diamantes. Assunto por excelência para o Marcelo comentar. Vou estar atenta:

O altar-palco onde o papa irá celebrar uma missa este Verão vai custar mais de 4.2 milhões de euros à Câmara Municipal de Lisboa (a nós, portanto) e não há ingressos nesse evento (de católicos) que o paguem, nem contribuições de empresários católicos. Ao mesmo tempo, lembramo-nos de como o Presidente da República ficou ufano com a realização da chamada Jornada Mundial da Juventude em Lisboa, que obrigaria a gastar milhões. Agora, só com o palco é que nunca imaginaríamos.

 

A Câmara Municipal de Lisboa já se comprometeu a gastar até 35 milhões de euros em vários custos associados à organização da JMJ 2023.

O valor pago pelo altar-palco é muito superior ao que foi pago em 2010 para a instalação do palco para a missa do então Papa Bento XVI. Na altura, a obra custou entre 200 e 300 mil euros, tendo sido paga através de uma angariação de fundos entre empresários amigos da Igreja.

 

Mais adiante na notícia dizem que o palco ficará para a cidade. Mesmo assim, um novo palco que ninguém pediu por 4.2 milhões? E por ajuste directo?   Onde anda a PJ quando é precisa?

Saberão aquelas pessoas que lá irão estar que não vão para céu nenhum quando morrerem a não ser o dos pardais?

Laurinda e Marcelo entram um bar…

Nós vemo-los e queremos demiti-los. Não sabemos é como fazê-lo.

Não sendo nem um nem outro estreantes na asneira, hoje foi um dia particularmente falhado para estas duas pessoas. Um desastre total.

Uma quer um desfile de pobrezinhos no centro de Lisboa e, depois da votação (imagino eu) sobre quem mais parecia mesmo mesmo pobre,  um piquenique no parque Eduardo VII, provavelmente com direito a champanhe para os vencedores. E mais não me ocorre dizer.

O outro diz que até foram poucas as crianças abusadas pelos padres, apenas quatrocentas, isto depois de ter telefonado, uns dias antes, ao bispo Ornelas avisando-o de que estava a ser investigado por encobrimento, uma atitude que pode configurar um crime.

Laurinda Alves não tem a noção de muitas coisas fundamentais, como a dignidade das pessoas, e Marcelo fala e viaja de mais, não lhe estando a fazer bem nenhum, nem a nós, e muito menos aos objectos das suas tiradas, estas duas actividades, particularmente intensas nos últimos tempos.

Esperar alguma seriedade do Montenegro é tempo perdido, senhores

Luís Montenegro não governa e possivelmente nunca governará, mas exigir-se-ia alguma seriedade do líder da oposição, não importa que sorria muito, quando se trata de assegurar a continuidade de projectos de grande impacto e grande importância para uma boa parte do país e para a sua imagem internacional.

Um dia o PSD governará. No entretanto, o seu actual líder não quer discutir, muito menos acordar com o Governo nenhuma localização para o novo aeroporto. Não é difícil perceber porquê. Primeiro, porque não tem a mínima ideia nem quer arriscar uma (e para disfarçar diz que o Governo é que tem que decidir; é verdade e espero que seja o que fará se Montenegro assim o preferir) e, segundo, porque, deste modo, pode dizer mal de qualquer solução adoptada (para todos os efeitos, o homem candidatou-se a líder do PSD para dizer mal, mais mal do que Rio, recordemos). Embora seja visível que o fará (dizer mal da solução) com grande lata. E risco.

Posto isto, que já se sabia à partida, penso que não adianta perder mais tempo.

A oportunidade foi dada, como devia ser, mas claramente está a ser rejeitada. Depois destas palavras de Montenegro, parece-me inútil qualquer reunião para discutir, ainda que minimamente, o assunto. Ora vejam:

“Eu quero ser muito claro: O PSD é um partido responsável, é um partido que entende que estas obras estratégicas, estruturantes, devem merecer um consenso tão alargado quanto possível, mas não vamos inverter os papéis”, declarou, esclarecendo: “Quem tem de governar é o Governo, nós cá vamos fazer oposição responsável, como digo, mas oposição”.

“Não vamos decidir na vez do Governo. Quando nós estivermos na posição de decidir é porque somos Governo, não é porque somos oposição”, afirmou o líder social-democrata, à margem da visita às barracas que representam as 54 freguesias da Região Autónoma da Madeira.

Montenegro disse que o novo aeroporto de Lisboa é uma obra que, em sete anos, “o Partido Socialista não conseguiu colocar no terreno”, mas que “nos últimos tempos tem sido alvo de uma tentativa de encostar a responsabilidade de decidir para o PSD”.

 

Fonte: Público

Então “devem merecer um consenso alargado” ou não? Que troca-tintas são estas?

O aeroporto

Para tornar Lisboa uma cidade agradável para se respirar, trabalhar, viver, dormir e conversar, o aeroporto que a serve (e ao resto do país) não pode sujeitá-la à tortura sonora que diariamente sofre, por muito prático que seja para os lisboetas aterrarem a dois passos de casa. Quem já tenha estado na  Biblioteca Nacional, por exemplo, esperando estudar com algum sossego, sabe do que falo. Mas não é apenas a zona do Campo Grande a afectada. Eu diria que 70% da cidade não sabe o que é viver sem ruído aéreo constante e muito próximo. A pandemia, embora por motivos dramáticos e com imagens de ir às lágrimas, deu-nos um cheirinho do quão agradável a vida na cidade poderia ser com mais silêncio e menos perigo.

Mas enfim, os aviões levantaram voo outra vez, felizmente para quem precisa e para quem gosta de mais mundo, e o esgotamento da capacidade do aeroporto Humberto Delgado tornou-se aflitivo. Agora, das duas uma: ou se contrói um aeroporto complementar de média dimensão (ideia do Montijo) para aliviar o congestionamento em Lisboa, e nesse caso nada muda a nível do ruído e dos riscos, já que a diminuição do movimento na capital será insignificante; ou se constrói um novo aeroporto de raiz, fora da capital, com o objectivo de libertar de vez a cidade dos malefícios de um aeroporto ultra movimentado localizado no seu centro.

 

Sou uma perfeita leiga em matérias de engenharia, mas basta-me espreitar pelo Google para perceber que o Montijo apenas poderá ser um aeroporto de recurso e até provisório. Porque a área disponível fica comprimida entre a terra do Montijo e o rio Tejo (nenhum deles jamais sairá dali) e porque a subida do nível das águas poderá a médio prazo inviabilizar a pista (já de si irremediavelmente limitada). Portanto, se se quer mesmo libertar a capital, aproveitando para dar uma utilidade ecológica aos terrenos do actual aeroporto, e construir um aeroporto grande, moderno e definitivo, não me parece que haja outra solução que não Alcochete.

A questão de utilizar ainda o Montijo durante algum tempo parece-me não fazer muito sentido quando o objectivo maior já está definido, a menos que haja compromissos com a Vinci, assumidos no tempo do Passos, que a isso obriguem. Seria lamentável e outra perda de tempo. A juntar à do Montenegro.

Agora a sério: Montenegro vai dizer o quê sobre o novo aeroporto?

Depois de, não há muitos dias, ter afirmado que o Governo era incompetente por não tomar uma decisão nesta matéria e, em vez disso, esperar que seja o PSD a dar-lhe a solução (ver aqui), vejo muito difícil o cenário de Montenegro se sentar a conversar seriamente com vista a um acordo de longo prazo, mesmo que Marcelo aparentemente o exija.

Neste momento, e atendendo a que o objetivo mais urgente do novo líder do PSD (declarado na campanha) é fazer uma oposição “como deve ser”, estridente, demolidora, certamente superficial e trauliteira, e em tudo diferente (na sua cabeça) da de Rui Rio, o mais provável seria continuar a chamar o Governo de incompetente por não decidir o aeroporto e recusar qualquer conversação. É que começar o mandato a ter que se sentar à mesa para definir um acordo duradouro com o Governo não favorece de todo os seus propósitos. Penso que o Montenegro ainda mal começou e já está “entalado”. Se se sentar à mesa, estará a engolir o que disse e a assumir uma postura adulta, vá. Se não se sentar e mantiver a atitude de “não ter que dar a solução” (que o mesmo é dizer que não faz a mínima ideia), estará a dar imensa razão a Pedro Nuno Santos, que o levou a sério quando o ouviu alhear-se do problema e avançou com uma decisão, e a dar carta branca a António Costa para decidir (o que já decidiu, claro). Aguardemos, que vai ser giro.

Mais um papa, não, obrigada

António Guterres, antes da reunião com dirigentes russos:

There are “different interpretations about what is happening in Ukraine” but that does “not limit the possibility to have a very serious dialogue to minimise the suffering of people“.

 

UN Secretary-General Antonio Guterres called for a ceasefire “as soon as possible“.

 

Se era para ir à Rússia dizer que se deve minimizar o sofrimento das pessoas, que o cessar-fogo deve ocorrer “logo que possível” e que aceita duas interpretações da guerra, teria vantagem em não ter saído de Nova Iorque. Porque o facto de não ter ainda dito nada de útil até hoje e de nada ter feito justifica-se, percebe-se agora, pelo seu mais do que lamentável pensamento sobre o que se passa. Calado, se calhar, estava melhor.

Têm razão os ucranianos quando dizem que Guterres devia ter começado por ir visitar os locais dos morticínios.

Franceses, atinem!

O que acontece quando as alternativas democráticas à esquerda e à direita desaparecem? Olhando para a França, a resposta parece-me clara: os extremos políticos ganham força. Tem sido por essa razão, aliás, que, em Portugal, se tem evitado a todo o custo a constituição de governos “centrão”, ou seja, com PS e PSD coligados.

Nunca Mélanchon, um esquerdista, cuja opinião em relação a Putin* é ambivalente, esteve tão perto de passar à segunda volta e nunca Marine le Pen, uma populista de extrema-direita, amiga e devedora de Putin*, conseguiu tantos votos na segunda volta das presidenciais.

(*Mas o que vem aqui fazer o Putin, perguntarão de imediato alguns; senhores, o homem e a sua máfia têm tentáculos em todo o lado hoje em dia e, sobretudo desde o caso Trump, passaram a ser um importante dado a ter em conta em qualquer eleição no Ocidente)

 

Emmanuel Macron soube tirar proveito, em 2017, do descrédito dos dois grandes partidos tradicionais, o Republicano, por culpa de Sarkozy e outros, como Fillon, e depois o Partido Socialista, de François Hollande, um político medíocre. Ambos estes partidos se afundaram quase completamente desde então, obtendo um número risível de votos. Como se percebe, a responsabilidade directa deste descalabro não é de Macron, a quem muitos acusam de forma simplista de “eucalipto”, como se um eucalipto se plantasse a si próprio. Mas é um facto que Macron governa naquela espécie de centro pragmático supra-partidário que pouco se preocupa com classificações de centro-direita, centro apenas ou ainda ultra-liberalismo, o que nada ajuda ao reerguer dos dois antigos maiores partidos. E, objectivamente, os resultados da governação Macron não são maus: a França cresce a bom ritmo, apesar da pandemia e das agitações e intenções dos coletes amarelos, o desemprego está muito baixo e até a subida recente do custo de vida, cuja responsabilidade a oposição lhe atribui, é exclusivamente devida a factores externos e comuns a quase todo o mundo, como a crise energética ou os problemas na China, além de, previsivelmente, a guerra. Lembremos que os franceses se atrevem a protestar contra o fim da idade da reforma aos 60 anos. Vivem num país de luxo, portanto. O descontentamento de que se fala (excepto com a imigração muçulmana) ultrapassa muito a nossa compreensão.

 

Mas enfim, e continuando, não sei se será possível reconstituir os dois partidos tradicionais alternantes em França até Emmanuel Macron terminar o mandato, em 2027, ou se haverá na calha algum sucessor do mesmo tipo capaz de cativar os franceses, ou ainda se, na conjuntura actual, partidos como os Republicanos e os Socialistas têm sequer cabimento, mesmo que tivessem líderes competentes e carismáticos. Penso que ninguém sabe. Sabemos, e isso foi uma descoberta assustadora desde Trump, que a Rússia apoia e financia todo e qualquer partido que, no Ocidente, possa provocar o caos, enfraquecer as democracias e destruir a União Europeia, e que dispõe de “hackers” muito activos que invadem as redes sociais de lixo influente. E sabemos que, enquanto o complexado Putin e muitos dos seus generais forem vivos, essa ingerência continuará.

A França tem, pois, cinco anos para se informar e pensar no que quer, e os partidos democráticos têm exactamente o mesmo tempo para combater a onda gigante de populismo e descredibilização que surge do Leste. Pode ser que não seja assim tão difícil. Talvez a guerra na Ucrânia seja bastante decisiva.

Com que olhar veremos o PCP neste 25 de Abril?

Perante as posições assumidas pelo PCP sobre o conflito na Ucrânia, para sintetizar, completamente cruéis, é ou não legítimo pensarmos que a luta dos comunistas durante a ditadura salazarista mais não visava do que a substituição de uma ditadura por outra, ao estilo soviético, e de modo algum, em tempo algum, a instauração de uma democracia livre e aberta, de tipo ocidental?

 

Caiu-lhes finalmente a máscara com que jogavam o jogo democrático. Não aos meus olhos, claro, como saberá quem me tem lido. Mas, a partir de agora, muito poucos olharão para os dirigentes e os militantes do PCP como genuínos defensores dos “direitos dos trabalhadores e do povo” (apesar de estes pouco lhes ligarem) e sinceros democratas. Não passam de agitadores, a soldo agora da Rússia. E, ironia ou não, ridículo ou não, o único ponto em comum entre a doutrina comunista e o regime oligárquico-capitalista-militarista de Vladimir Putin (que nunca denunciam) é mesmo o seu carácter repressivo e ditatorial. Totalmente repressivo e totalmente ditatorial. Além de assumidamente imperialista. Penso que estamos conversados e que o destino do PCP não será finalmente diferente do dos partidos comunistas da restante Europa – uma irrelevância total, quando não uma inexistência. Ao mesmo tempo, será um alívio, que aqui chega tarde.

 

Não me admiraria, pois, que, se tiverem a lata de desfilar no 25 de Abril (e vão ter), fossem apupados e bem apupados. Ainda mais quando a actual líder da bancada parlamentar dos comunistas, Paula Santos, se vem arvorar, indignada com Zelensky, em proprietária da nossa famosa e querida efeméride. Com que cara se apresentarão em defesa “das liberdades” conquistadas em 74?

Madraças por todo o lado, mas este é que não limpa a cabeça

Em artigo publicado hoje no Público, João Miguel Tavares acusa o ISCTE de ser uma “madraça do PS” e, apesar de classificar essa afirmação como uma provocação, subscreve-a com base na estatística. Ora, poderia aqui responder-se de várias maneiras, a primeira das quais, mais imediata, seria apontar como este indivíduo não desiste, nem desistirá jamais, da perseguição ao PS (razão pela qual lhe foi oferecido este espaço no jornal da SONAE, suspeita-se), ainda que com argumentos absurdos, com base apenas no ódio, como se fosse um escândalo a existência de escolas de pensamento democrático variadas – que não são madraças nenhumas – ou como se apenas fossem legítimos os reitores conotados com a direita. Mas há um comentador do artigo, no próprio jornal, que faz o trabalho por mim. Por isso, é só ler.

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Experiente

E agora espera-se que JMT aplique a mesma grelha analítica à Universidade Católica a fim de desvendar em que percentagem se divide a influência do PSD e da Opus Dei, para além da da hierarquia católica. E que repita o exercício com a Faculdade de Direito de Lisboa e com outras destacadas escolas do E. Superior mais conhecidas por formarem uma fatia substancial do pessoal político. Só assim será sério e escapará à suspeita de troll anti-PS (já não é só anti-Sócrates). De caminho poderá alargar o âmbito geográfico desta preciosa contribuição e avaliar as ligações das Universidades de Oxford e de Cambridge aos Conservadores e aos Liberais britânicos! Isto se quiser ser sério… e deixar de se mostrar uma criança que descobre, escandalizada, as realidades deste mundo.

A última página do Público foi de meia má a muito pior

Não defendo a censura às opiniões alheias. E não, não introduzo aqui um “mas”. Digo apenas que qualquer pessoa que escreve publicamente deve saber que pode ser criticada (e já agora o jornal que a contrata). Cada um fará das críticas o que entender, evidentemente. Por mim, aqui e agora, e à minha reduzidíssima escala, não posso deixar de ser crítica.

A senhora Carmo Afonso, recentemente contratada para fazer alternância com o João Miguel Tavares na ultima página do jornal em substituição do Rui Tavares, tem provado ser um bocadinho confusa, na minha opinião, claro está, e mais ainda quando decidiu pronunciar-se sobre a guerra na Ucrânia. Já antes lhe notara falta de noção (pensei que fosse bloquista), embora ostentando um estilo blasé a que se podia achar graça. Agora, tudo indica que o estilo foi o suficiente, isso e talvez o ser mulher, para passar ao destaque. O que ninguém, sobretudo nem ela, estava à espera era que entretanto o senhor Putin decidisse invadir o país vizinho, e vizinho da Europa, e bombardeá-lo sem dó nem piedade, alegando que a Ucrânia é a Rússia, e portanto é dele, e com isso obrigasse todo o comentariado, Carmo incluída, a abordar o tema. Hélas. Um desastre. E pouco original, já agora. O PCP debita os mesmos pontos de vista incompreensíveis (e o Putin acusa o Ocidente nos mesmos termos). Diz-se pela paz, mas não diz como. Com algum esforço, lá condena a invasão, mas ah e tal o Ocidente e o seu passado, ou  então “será que é um delito querer pensar”? Em suma, para a  resolução desta tragédia, o contributo é zero, abaixo de zero e, na prática, só favorece e desculpabiliza o tirano.

 

Ainda hoje, por exemplo, insistindo, a senhora disserta a propósito indo buscar a guerra do Iraque, cumprindo de rigor o “whataboutismo”, e invoca a votação da ONU sobre a condenação do Putin para concluir que os cento e quarenta e tal países que condenaram expressamente a invasão não são nada de mais, se olharmos aos que se abstiveram, como foi o caso da maior parte dos países africanos (em muito menor número, mas, segundo ela, significativamente populosos, e que raio de apontamento). E diz mais, exagerando claramente. Diz que isso prova que há quem no mundo prefira o Putin e a sua autocracia com capitalismo selvagem à “proposta democrática ocidental”. Pois bem, nem sei que diga. Ao escrever isto, quer dizer o quê? Que há que venerar os africanos que se abstiveram, esses grandes democratas (que compram e querem continuar a comprar armas à Rússia ou que querem manter os seus regimes autocráticos?) Que esse dado sobre a votação na ONU a faz pensar e relativizar a violência do regime do Putin e o seu imperialismo, já que tem tantos apoiantes? Que para o Putin ter tantos apoiantes (não sei como chega a tal conclusão) é porque alguma coisa de muito mau o Ocidente tem? Não sei. Haja quem saiba, sinceramente. E eles nem sequer votaram contra. Limitaram-se a abster-se. Enfim.

Mas fiquem-se com este maravilhoso excerto da prosa de hoje:

«Perdemos a credibilidade quando decidimos não ser íntegros e inteiros.

É fundamental sermos melhores do que isto. A democracia em que vivemos, cheia de falhas, é mesmo a melhor alternativa para quem nos observa e toma partido. A proposta ocidental, e sobretudo a europeia, é melhor do que a russa ou a chinesa. De tanto a querermos exacerbar, damos de nós mesmo a pior imagem possível. Os verdadeiros defensores das democracias ocidentais são os que estão dispostos a assumir as suas falhas do passado e não as repetir no presente. Quem apoiou a invasão do Iraque não defendeu, como apregoava, as democracias ocidentais; foi apenas o cangalheiro do seu bom nome. Fizeram mais por essas democracias os que se opuseram e denunciaram o embuste.»

 

Meu deus. Porque fala esta mulher da guerra do Iraque e das falhas das nossas democracias? No caso em apreço, terá sido por acaso o Ocidente a invadir a Ucrânia? Dir-se-ia que sim. E o caso do Iraque? O enquadramento de que ela tanto gosta prescinde do 11 de setembro de 2001 porquê? Um acontecimento que deixou muitos países ocidentais desorientados, sem saberem bem o que fazer ou onde encontrar o ninho das víboras.  No entanto, a maioria dos países ocidentais e também a sua população (que, nas democracias, conta) foi contra a invasão do Iraque. A tal ponto que os governantes responsáveis na altura não mais tiveram lugar em cargos políticos. Não havia armas de destruição maciça. Esse argumento foi um embuste. Agora o embuste é a alegada nazificação da Ucrânia. O facto de a esmagadora maioria do Ocidente, populações e governantes, se opor e denunciar este embuste passou imediatamente a ser irrelevante. Estranho. Por uma vez, todo o Ocidente é contra! Contra o facto de um ditador usar esse argumento para invadir. Somos contra! E somos tão contra que somos capazes de ajudar o país invadido, a seu pedido – implorado alto e bom som para toda a gente ouvir, a livrar-se do agressor. Porque não há uma palavra contra o agressor? Contra o regime que dirige e quer impor nem que seja à bomba? Um regime que ela própria reconhece ser muito pior do que o democrático.

Que culpa tem o mundo ocidental nesta infame invasão? Será culpado de ter ouvido o que os ucranianos gostariam de ser?

Ninguém no Ocidente nem na Ucrânia quis esta guerra, mas os ucranianos querem o seu país e querem que seja democrático. Têm esse direito. O que pessoas como a nova colunista do Público lhes dizem é que não podem nem sequer deviam querer.

Uma grave contradição + quem quer sair da NATO?

  1. Vladimir Putin apoia, por princípio e com tropas, a maioria russa na bacia do Don que quer autonomia e independência em relação à Ucrânia. Em contraste, a maioria ucraniana que quer independência em relação à Rússia é brindada com uma invasão, mortes e ameaça de extinção. Isto é muito lindo.
  2. Com tanto país a querer aderir à NATO, desde a Finlândia até à Geórgia, prolongando-se ao Azerbaijão e ao Cazaquistão, um dia destes quem quererá sair serão os Estados Unidos. É uma responsabilidade com a qual não estariam a contar. Digo eu. É mentira, espero que não, pois seria sinal de que um chalupa como o Trump voltou, mas a ideia é divertida.

O que ganha Putin com a invasão da Ucrânia?

Começa por ganhar a Ucrânia propriamente dita, e não apenas a região do Donbass, pelo menos por uns tempos, que podem abranger, pelo menos, os anos que restam de vida ao ditador. Com enorme repressão, é certo, assassinatos, mas nada que ele já não tenha imposto e não pratique noutros lados, para não falar na própria Rússia.

Estabelece um exemplo para outras repúblicas que ainda controla e que ousem sonhar com outras alianças e outra forma de vida.

Alarga a sua área de influência militar, instalando mais armamento mais perto da Europa e da Turquia.

Ocupa as empresas russas com a reconstrução da Ucrânia.

Tudo isto o homem ganha, caso viva. Não é pouco. Irá, pois, até ao fim, não tenhamos ilusões.

Quanto ao que perde: perde rublos, perde mercados, perde homens, mas que interessa?, eventualmente perde estabilidade interna (difícil, porque trata de garantir que a população russa nem saiba o que se passa). Se controlar estas perdas, sobrevive. Se puder manter o poderio militar, sobrevive. Ele e o seu regime.

No meio disto, ficam os ucranianos, que resistirão, como não podem deixar de resistir, mas que acabarão vencidos. Nós sabemos que eles sabem que estão a lutar para uma derrota. Uma que vale a pena para eles, mas uma derrota, que só não o seria, ou não os deixaria tão sós, se a guerra se internacionalizasse ou se o governo russo mudasse (e mesmo assim).

 

Nota: Tudo isto é suficientemente triste, trágico e angustiante para se poder gastar um minuto que seja a ouvir ou ler os “relativistas”, “comparativistas”, anti-natistas, sonhadores irrealistas, vulgo empatas, e demais agentes nem sei bem de quê que por aqui pululam. Por mim, ficarão a falar sozinhos. Cortar-lhes o pio é também uma hipótese, à boa maneira do russo, cujas políticas censórias  nem um lamento lhes arranca, quanto mais uma discordância.

Sim, abelha (2)

Ai a vontade oculta de ilegalizar o PCP. Só faltava esta, ó Tadeu.

Se o Putin invadisse Portugal, o PCP seria o primeiro a combatê-lo. E combatê-lo-ia como mais ninguém aqui em Portugal. É o que diz o Pedro Tadeu, hoje, no Diário de Notícias. Queiram, por favor, passar um bom momento. Como o Putin invadiu a Ucrânia, o PCP vota contra moções de apoio aos ucranianos e de condenação da invasão no Parlamento Europeu e emite comunicados contra a NATO em que mal condena a Rússia! E o Pedro indigna-se ao longo de sucessivos parágrafos com o ódio que estas atitudes suscitam. Boa, Pedro!

 

Para rir a bom rir é o parágrafo em que diz que esta guerra é uma “guerra entre facções do capitalismo” e que são os seus (dele) críticos a confundir a Rússia com a extinta União Soviética! Quão formatadas, mas retorcidas, podem estar as cabeças dos comunistas? Jesus.

Sim, abelhas

O Kremlin acusa os Estados Unidos e a NATO de serem os instigadores da insubordinação “separatista” ucraniana ao acenarem (com a ajuda da CIA) com uma possível adesão da Ucrânia àquela organização. Verdade ou não (e quem começou o quê?), facto é que os ucranianos (representados pela maioria que os governa) não são entusiastas das condições que vêm associadas à garantia de segurança que lhes é dada pelos russos, como a falta de liberdade e independência, e, sim, desejam imenso pertencer à NATO (e à UE). Desejam.

Sucede que os ucranianos vivem há anos numa relação de violência doméstica psicológica e física crescente com a Rússia. Governos fantoches, governos não fantoches, respeito de fronteiras, que fronteiras, respeito de minorias ou acantonamento de minorias, etc. Num desfecho trágico, acabam a levar com bombas para aprenderem a controlar os desejos. Suspeito que o desejo morra com quem morre, fatalmente, mas não morra com quem vive. E muitos vão viver.

Mas o Governo russo não só não quer a Ucrânia na NATO (não estava nas perspectivas mais próximas desta) como também quer que os países europeus vizinhos da Rússia saiam da NATO, anulando o que chama a “expansão para leste” ocorrida nos últimos anos, que ameaça (segundo o Kremlin) a sua segurança. Ora, é difícil alterar a geografia. A Europa é, e sempre será, vizinha da Rússia. Durante muitos séculos, pouca ou nenhuma animosidade mútua existiu, pelo contrário. Hoje, e depois de peripécias históricas várias, dramas e experiências políticas radicais e muita miséria, a Rússia encontra-se demasiado bem armada e nuclearizada, considera o Ocidente e a Europa um inimigo, uma ameaça e… infelizmente não mudou de sítio. Vista de cá, continua a ser nossa vizinha. Os vizinhos, por definição, habitam dos dois lados de uma fronteira. Pode a Estónia, por exemplo, exigir que a Rússia desloque o seu arsenal bélico para a Sibéria? Não pode, sem provocar um ataque de riso junto ao Moskva. E, no entanto, a Estónia, a Letónia e a Finlândia ali estão, esta à mercê.

Desproteger estes países europeus militarmente é nem mais nem menos do que colocá-los numa situação de vulnerabilidade semelhante à da Ucrânia. Jamais o aceitarão, muito menos agora.

Por isso, o Sergei Lavrov faria melhor em ir dar banho ao cão em vez de se pôr com exigências patéticas de recuo da NATO enquanto ameaça usar os “nukes”. Sei que é absurdo dizer isto, mas, se a Ucrânia já pertencesse à NATO, não teria sido invadida. Simples. Quão mau teria sido esse facto? Nada mau. Nem para a Rússia, que pouparia milhares de homens e rublos e continuaria a poder usufruir do Mar Negro, pois não deixa de ter costa para ele, e, se tivesse juízo, a fazer bom comércio e bons negócios com a Ucrânia.

Quanto à “ameaça que a NATO representa”, trata-se de pura estratégia de propaganda e dominação. A NATO não tem qualquer interesse em atacar a Rússia. Nem interesse nem veleidade. Já o contrário não se pode de todo afirmar. Ao recuo da NATO seguir-se-ia a exigência de extinção da NATO, isto sempre sob a ameaça da guerra nuclear. Diria que temos um problema.

Ucrânia: porque quererão os ucranianos desvincular-se da Rússia?

Estão tão bem assim! Tontos.

 

O PCP e outros alucinados que tais fariam melhor se deixassem de vez o extraordinário argumento de que o pobre e injustiçado Putin viu a NATO aproximar-se (perigosamente) das suas fronteiras nos últimos anos e não teve outro remédio se não ocupar a Ucrânia (quão ridículo) e, em vez disso, respondessem à pergunta lá em cima, no título.

 

O vínculo com a Rússia e a submissão aos seus ditames garante alguma espécie de prosperidade aos países seus vizinhos? Não muita e sempre condicionada por maus motivos. Têm esses países uma alternativa melhor e igualmente próxima? Economicamente mais promissora, além de mais livre, pacífica e democrática? Têm e eles sabem que têm. Então, que tal calarem-se, gente?

 

Dizer, como também dizem, que toda a instabilidade na Ucrânia se deve tão só e apenas à ingerência dos ocidentais, que visam minar o poderio da Rússia, como se tudo se passasse bem no reino dos governos fantoches e da russificação persistente de territórios, é uma tentativa de pôr uma venda nos olhos de milhões de ucranianos e passarem-lhes um atestado de demência. Ora, é evidente que os ucranianos não são cegos nem dementes. Também não são nazis (como pretende Putin, valendo-se do facto de, em 1942, muitos ucranianos terem saudado a chegada dos nazis, tal era a raiva a Stalin, que, uma década antes, matara à fome milhões de camponeses). Também os nazis não levaram nada de bom à Ucrânia, nem deixaram boas recordações. A maioria dos ucranianos, e do mundo, sabe disso. Não esquece.

 

E, por falar em “ver”, olhando para os países do antigo Pacto de Varsóvia que entretanto aderiram à União Europeia, o desenvolvimento tem sido notório. Têm paz, bem-estar, liberdade e democracia. Podendo haver um ou outro caso de governantes com sérios tiques de ditadores, possivelmente ainda não libertos das ideias e maneiras totalitárias e controladoras dos comunistas que os subjugaram, o panorama geral é de modernidade e prosperidade. No mínimo, de melhoria, não de retrocesso. Aliás, os próprios, na sua esmagadora maioria, execram a Rússia, a do Putin, e sentiram necessidade de se proteger pedindo a adesão à NATO.

 

Por que razão não quereria a Ucrânia fazer parte deste clube? E, já agora, será mau fazer parte do clube? Honestamente, não.