Arquivo da Categoria: Penélope

Estes americanos MAGA querem mesmo discutir teologia a propósito do conflito com o Irão?

A actual guerra desencadeada por Trump e Israel anda comicamente ou não a roçar o conceito de guerra religiosa. Cristãos contra muçulmanos, muçulmanos contra judeus, judeus e cristãos contra muçulmanos, e persas (zoroastristas e outros) à espreita da oportunidade para correrem com os muçulmanos, enquanto os “arreligiosos” e “iluminados” europeus assistem incrédulos e os herdeiros russos dos mongóis preparam o próximo saque. Há muitos séculos que não ouvíamos falar de guerras nestes termos. Para os europeus, é uma surpresa, um “déjà vu” que ninguém deseja, um anacronismo.  Mas os muçulmanos foram os primeiros a lembrar-nos que o tema não está morto, pois, com eficaz manipulação desde a infância, ainda há, entre eles, quem mate em nome de um deus e de uma religião e isso em terras europeias. Outros em nome de uma promessa de terra feita por um outro deus. Algo vai muito mal na cabeça de metade da humanidade, vítima de chalupas fanáticos e manipuladores.

Embora todos suspeitemos que Trump não tem religião nenhuma a não ser a do culto da (sua) personalidade e do dólar, resolveu dessacralizar o Papa e auto eleger-se o seu melhor substituto (se não do próprio Cristo), alegadamente dada a falta de músculo e de mísseis do Vaticano. Tudo porque o patriarca ortodoxo russo abençoa e apoia Putin e o Papa abstem-se de fazer tal coisa em relação a Trump. J. D. Vance, por seu lado, aconselha o Papa a ter cuidado quando se pronuncia sobre questões teológicas e diz que o catolicismo passou a ser tudo para ele (claro, também não gosta do Papa). Escreveu até um livro sobre a sua conversão. Portanto, uns metem-se em navios de guerra e vão até ao golfo pérsico atirar bíblias e Torahs aos ayatollahs e de lá recebem a mensagem de que serão mártires com muito orgulho, mal podendo esperar pelas 70 virgens do além, enquanto também vão matando uns tantos. Estão bem uns para os outros? Completamente. Por mim, podem-se eliminar mutuamente para finalmente respirarmos, encontrarmos meios de dispensar o petróleo e observarmos as galáxias.

Antes disso, porém, talvez esta discussão sobre quem percebe mais de teologia, e a discussão da teologia em si, traga à baila e defina de uma vez o lugar dos deuses. Se Vance acha que deus está do lado dele quando deporta estrangeiros, porque está a defender o seu povo contra os bandidos, e os papas Francisco e Leão entendem que deus quer que vivamos todos em harmonia e que acudamos aos mais necessitados, não seria melhor perguntar ao tal deus o que acha? E perguntar ao deus Allah o que acha do financiamento do Hezbollah pelo Irão e da morte de milhares de jovens manifestantes (embora tenhamos a certeza de que o Allah do ayatollahs concorda inteiramente), também não seria interessante? Que regressem os oráculos! Eh pá, a sério.

Mas então, se chegarmos à conclusão de que não há qualquer resposta de nenhum dos lados do firmamento, apenas interpretações humanas de teorias de humanos atribuídas a deuses há séculos e milénios, talvez as conversas se possam fazer noutros termos menos emocionais e estupidificantes e se deixem as instituições que aliviam as dores e as angústias existenciais de muita gente exactamente onde estão e em paz. As igrejas tratam do etéreo e abstracto, não do terreno. Nem sempre foi assim infelizmente e, com os seguidores de Maomé parece ainda não ser assim. Mas adiante. O catolicismo é deste lado.

É que, se o Vance quer aprofundar o tema teológico, ainda acaba agnóstico ou mesmo ateu e isso não é bom para as suas ambições políticas, que passam por conquistar a América profunda e burra, que sempre soubemos existir, mas que não víamos.

Boa patranha essa de que o Orbán era afinal muito democrático porque reconheceu a derrota e felicitou o adversário

Orbán esteve dezasseis anos consecutivos no poder na Hungria. Durante esse tempo perverteu tanto quanto pôde o jogo democrático: quer mudando a lei eleitoral para seu benefício, quer acabando com a separação de poderes, ou seja, corrompendo os tribunais, pondo a Justiça ao seu serviço, quer controlando a comunicação social e condicionando a liberdade de expressão, quer desrespeitando as minorias, quer, finalmente, assumindo o papel de Estado espião ao serviço da potência que nos ameaça, traindo a organização a que voluntariamente aderiu (a UE). Passaram dezasseis anos, mas podiam só ter passado quatro ou oito, não fosse este o quadro pouco democrático em que decidiu governar e perdurar. Os longos dezasseis anos foram fruto da falta de democracia, não exclusivamente da sua oratória ou do seu mérito aos olhos dos húngaros.

Surpreendeu muita gente o modo aparentemente cordial como aceitou a derrota. Mas não tenhamos ilusões: isso só aconteceu porque se tratou de uma derrota estrondosa, sem margem para contestação e porque, enfim, ninguém teve margem para fugir com as actas dos resultados eleitorais, como no caso de Maduro. Eu diria que nada mais lhe restava do que sair educadamente de cena. Sair a espernear não lhe valeria de muito e prejudicaria o seu quadro de amigos que ambicionam chegar ao poder noutros países.

Eventualmente, se quisermos ser pessimistas, a sua cordialidade pode justificar-se com a sua convicção de que o vencedor é de certa forma um dos seus e não vai alterar grandemente a situação. Esperemos para ver. O indefectível respeito pelas regras democráticas é que não foi de certeza a razão para a saída pacífica de cena.

O “show” continua e o louco diverte-se planeando arcos de triunfo para a Columbia Island, Washington DC

E um salão de baile de grandiosidade nunca vista.

Para mim, e para 80% da humanidade, ainda só passou um ano e já vomitamos Trump. Fartos. Fartinhos. Mas o homem minou todo o sistema democrático americano em pouco tempo e os que, na América, o deviam afastar parecem incapazes e com medo de o fazer. Aliás, são os mesmos que deviam tê-lo mandado para a prisão depois da invasão do Capitólio e de conhecidos os ficheiros Epstein e não o fizeram. Estamos estarrecidos com o que se passa, sim, e, quer queiramos quer não, constantemente em sobressalto. Afinal, sem acordo, a guerra continua? Sim ou não? Trump acaba de escrever que a marinha americana vai ela própria bloquear o estreito. Ah! Brilhante. Suspense mais uma vez. Como o farão?

Não tendo sido devolvidos à Idade da Pedra, onde, se virmos bem quem os dirige e se tal não implicasse tantos mortos, seriam muito mais livres e felizes, os iranianos perceberam que as ameaças do rei laranja não valem um caracol. Apenas meio caracol que exige só um pouco de perspicácia e habilidade. Depois de destruir alguns equipamentos e instalações militares sem que os esgotasse e de levar ao encerramento do estreito de Ormuz paralisando o trânsito de petróleo, Trump ficou sem saber como sair do imbróglio em que se meteu e, preso nas suas próprias ameaças, inventou à última hora uma proposta iraniana de negociação que alegadamente teria pernas para andar, e travou a fundo. Mas quais pernas para andar?  (Como era de prever, Vance e os dois bonecos animados que o acompanharam nas negociações acabam de deixar Islamabad sem nada) Os iranianos perceberam que, à semelhança dos dois C-130, o adversário ficou atolado. Além disso, parece que têm ayatollahs e guardas revolucionários que cheguem para substituir os abatidos e um aparelho repressivo sólido e ilimitado; o Trump não sabe nem saberá nos próximos tempos onde está o urânio nem tem uma estratégia credível e eficaz para reabrir o estreito de Ormuz (a ver vamos agora que se propõe tomar o estreito e eliminar as minas). Os iranianos, obviamente, vendo-o desnorteado, começam a exigir coisas. Se satisfeitas as exigências, todo o esforço de guerra de 30 000 milhões de dólares já gastos pela defesa americana terá sido em vão. Se confirmado o recuo, grande humilhação. Será a próxima cena do permanente show suficiente para fazer esquecer o descalabro? Não percamos os próximos capítulos. E andamos nisto.

Posso estar enganada e toda esta operação desembocar num belo de um apaziguamento do Médio Oriente, mas, fazendo um flash da situação neste momento, apesar da destruição, nada aponta para um futuro melhor, nem para Israel, nem para o mundo ocidental. O Irão sente-se superior por ter obrigado Trump a “fugir” (deixando-o gritar “vitória”, enquanto se riem). E pior ainda, para mal dos pecados de Israel: o Hamas diz que não desarma e continua a controlar a faixa e, dos países que prometeram juntar-se ao clube, perdão, ao Conselho da Paz para Gaza, apenas três pagaram a joia, pelo que, não tarda nada, desandam e o órgão extingue-se; o Hezbollah recuou e perdeu militantes, mas, com a permanência dos Ayatollahs no Irão, vai sobreviver e continuar a ser a frente avançada do xiismo no Líbano. Para mal do próprio Líbano e da segurança de Israel. Portanto, voltará tudo ao mesmo, em pior, se o Irão mantiver o regime e os seus protagonistas. O curioso é que o objectivo de Israel era bem claro e, desta vez, não era apenas “cortar a relva”. Sem o fim do regime anacrónico do Irão, nada muda em seu redor. Mas, com um parceiro tão desmiolado como Trump, ainda por cima vassalo do Putin, temo que não tenha sido a melhor aposta para conseguir sossego.

Sabemos que tudo o que vem da Casa Branca desde que o palhaço tomou posse é uma espécie de cena de “reality show” para cativar audiências. A própria guerra, e o seu pára ou não pára, está transformada num show mediático. E até a Melania, vinda do nada, contribuiu para o espectáculo com um número digno de registo: chama os jornalistas para lhes lembrar que, “sabem do Epstein? Pois se pensam que eu era uma acompanhante, sim, posso ter sido, e olhem aqui estou para provar ao mundo que não sei nem ler nem ouvir o que leio pois troco “circulating” por “calculating” e tudo bem”, ao mesmo tempo que deixa no ar a hipótese de se divorciar. No horizonte já se perfila também o Marco Rubio e a previsão de Cuba “next”. Enfim, é um non-stop de cenas verdadeiramente “espectaculares”. E aqueles republicanos anormais do congresso não fazem nada.

Dou a palavra ao Gary Kasparov:

Congress continues to become the Russian Duma, a willingly powerless peanut gallery deferring to the president in every way.

Pergunta do dia seguinte ao da “morte da civilização iraniana”: o homem quer é dinheiro e os iranianos pagaram, para já dividindo os proventos da cobrança ilegal?

O novo Eixo do Mal parece precisar desta guerra para acabar de se construir, ganhando um novo membro (membros actuais: Rússia, Irão, Coreia do Norte, quem sabe a China?). A “civilização iraniana” afinal não morreu hoje e parece que o estreito de Ormuz vai reabrir, agora com cobrança de portagens. Mas eis o modo como o “showman” resolveu o assunto: “Ai vocês agora fazem-se pagar pela passagem do estreito (recorde-se, uma via internacional natural)? “Clever guys”. Pois eu não vos arraso e a gente partilha o dinheiro da cobrança.” Nas suas palavras “Vamos gerir o escoamento dos navios “em conjunto””. É ilegal? É. Mas a corrupção e a ilegalidade nunca atrapalharam o Donald. Sabe que ninguém vai fazer nada contra isso, como ninguém tem feito nada quanto aos seus restantes crimes a nível interno, alguns bem mais graves e que o confinariam à prisão até ao fim dos seus dias. Prevejo mais: que ou o regime do Irão aceita partilhar as receitas da venda de petróleo e gás ou a guerra continua. O homem nem disfarça:

Take the oil because it’s there for the taking,” Trump said. “There’s not a thing they can do about it. Unfortunately, the American people would like to see us come home. If it were up to me, I’d take the oil. I’d keep the oil. I would make plenty of money.” Quer isto dizer que talvez não fique com o petróleo todo, apenas com parte dele.

Como também disse na inenarrável conferência de imprensa de segunda-feira, “I’m a business man”. Leia-se, está na Casa Branca para lucrar. Tudo o que vá além disso não sabe o que é nem lhe interessa. Acrescentou ainda que quem ganha as guerras tem direito a ficar com tudo.

O Netanyahu puxa-lhe a manga e lembra-lhe que, no acordo, tem que ficar escrito que não haverá mais financiamento dos “proxies”, Hamas, Hezbollah e Houthis. Vamos ver.

A paz no mundo está, pois, nas mãos desta criatura sórdida, sem moral, sem princípios, sem respeito, sem conhecimentos básicos de História e de política, sem nada a não ser a vontade de enriquecimento pessoal e dos amigos. Pode ter sido levado a esta guerra por pressão de Netanyahu, mas, agora que ali está e com dificuldades em sair, não se importa nada de se juntar aos sinistros ayatollahs e guardas revolucionários e fazer dinheiro. Afinal já fez o mesmo com a Rússia (O assassino Putin? Um amigo para a vida, enquanto vende armamento aos europeus e, na prática, lhe vai entregando a Ucrânia). A verdade é que, se os ditos ayatollahs decidirem fazer-lhe uns elogios, até passará a chamar-lhes gajos porreiros como o Kim Jong Un.

“Vão a Ormuz buscar o petróleo”*. Obsceno

O estreito de Ormuz estava aberto há um par de meses. Agora está fechado. Antes o petróleo circulava e agora não circula. Falta flagrante de previsão/conhecimento/objectivo? Ou acção deliberada do americano laranja para obrigar os países a comprarem americano (e russo)? Não sabemos, as decisões erráticas parecem ser a norma, mas ambas as hipóteses são possíveis. Muita arrogância e vontade de abuso de força não faltam (não fosse o homem um abusador, desprovido de empatia, obcecado com a riqueza, além de um completo ignorante e Hegseth um belicoso, possivelmente fanático de videojogos).

Caramba, eu não sou dos que acham que antes dos ataques ao Irão estava tudo bem. Não estava. O Irão é, de facto, o grande financiador do terrorismo islâmico a nível internacional, os seus líderes são fanáticos perigosos e facínoras para com a própria população iraniana que deles discorda, em nome da religião poderão usar o nuclear para fins extremos e, actor determinante neste conflito, Israel não pode viver eternamente sob disparos de mísseis e sujeito a bombistas suicidas nem desistir de si próprio. E não, no que toca a Israel, está mais do que visto que nada se pacificaria se os israelitas decidissem fazer a sua vida dentro das fronteiras de 1967 e deixassem de controlar Gaza. Pelo menos não enquanto no Irão e em Gaza (e no Líbano) se gritar “morte a Israel” e se gastar o dinheiro todo a escavar túneis para atacar o vizinho. O objectivo é o extermínio, não é a convivência pacífica nem a aceitação de um estado de confissão não muçulmana, bem comportado, ali na zona.

Dito isto, uma vez começadas as hostilidades, bem planeadas ou mal planeadas, se Israel e os EUA não conseguirem instalar em Teerão um governo mais moderado que abdique do terrorismo, estabeleça relações civilizadas (como, enfim, os Estados do Golfo) com um Israel definitivamente contido no que toca à Cisjordânia (por negociações) e abra o estreito, a situação ficará mil vezes pior, não só para Israel, mas também para o resto do mundo, agora sem acesso ao petróleo ou com um acesso futuro muito mais caro. E a teocracia iraniana declarar-se-á vitoriosa. Só piora as coisas ouvir Trump dizer que quer ficar com o petróleo iraniano. Penso que nem os revoltados jovens que protestavam nas ruas do Irão aceitarão o declarado confisco.

Atoleiro, portanto. O Estado de Israel não ficará nada satisfeito se os americanos se retirarem, como já equacionam, agora que não sabem o que fazer e começam a disparar verbalmente para todos os lados contra o Ocidente e os países da NATO, que não foram nem tidos nem achados para esta operação.

Completamente nas mãos dos russos (é ver a bonomia com que o petroleiro russo é autorizado em Cuba), Trump pode até ter tido o aval de Putin para esta intervenção, uma vez que a Rússia está a beneficiar com o conflito. E não nos deve surpreender que os americanos se mostrem indiferentes à ajuda que os russos estão a dar ao Irão nesta guerra, nomeadamente na definição dos alvos. Americanos. Tudo encaixa. Manipulação mais escandalosa não há.

*https://www.bbc.com/news/live/c8jke9v9xv9t


 

Eu não diria mal da Europa

A propósito do recente ataque ao Irão (e de outros acontecimentos), ouve-se muitas vezes “E a Europa? Não diz nada, não faz nada, não condena, não defende o direito internacional?” A essas pessoas eu digo “E o que querem que diga, que faça?”. Que é inadmissível alguém querer acabar com o regime do país do mundo que mais desestabiliza o Médio Oriente e mais além e não respeita ele próprio, nem de perto nem de longe o direito internacional nem os direitos humanos? Que discorda do método utilizado (quando não parece haver outro), depois das dezenas de milhares de mortos nas ruas das cidades persas por decisão do tal regime?

Como saberão os que aqui vêm dar uma vista de olhos, Donald Trump provoca-me asco e revolta. Narcisista nojento, ignorante e má rês. É uma besta a nível interno, corrupto até dizer basta, mentiroso e inqualificável na sua amizade com o assassino Putin. No entanto, eventualmente disruptor a outros níveis. Por exemplo, a Faixa de Gaza: a minha visão para a paz naquele canto do mundo seria transformá-lo num parque temático sobre as religiões “do Livro”, com hotéis de apoio, financiado por milhões de visitantes como os que visitam as pirâmides do Egipto ou os sítios arqueológicos mexicanos, vestígios de um passado ou glorioso ou cruel, mas passado e História. Claro que ainda não estamos aí, infelizmente. Talvez quando nos visitarem alguns extraterrestres. Mas a “Riviera de Gaza” do Trump e dos promotores imobiliários que o apoiam não anda muito longe disso. Seria bem mais útil que as pessoas de Gaza, permanecendo ali em casas novas e decentes, começassem a trabalhar no turismo do que passarem a vida a queixar-se dos judeus, a escavarem túneis para prepararem ataques e esperarem ajuda eterna da comunidade internacional. É evidente que, para isso, o Hamas, os Houthis e o Hezbollah terão que mudar de vida. Coisa que só pode acontecer se a torneira do financiamento se fechar e o sectarismo/fanatismo religioso violento secar em consequência.

Mas no que toca à Europa: é ou não é do seu interesse que o regime teocrático de Teerão mude e deixe de financiar os movimentos terroristas que pululam não só pelo Médio Oriente, mas também em células na Europa? E que deixe também de apoiar o regime russo? Se é do seu interesse, não seria de uma suprema hipocrisia, como parecem querer muitos, cortar relações com Washington ou levantar-se em peso, indignada com o que está a acontecer, como se isso não fosse sinónimo de solidariedade com o regime de Teerão e como se o ataque fosse também uma declaração de guerra à Europa? E os milhões de iranianos que anseiam e morrem pela queda do regime? Não merecem solidariedade?

Alguns dirão: Ah se assim é, então por que razão a Europa não se junta à causa americano-israelita e participa no ataque? Ora, porque não pode. Em primeiro lugar, ninguém lhe pediu ajuda e, segundo consta, nem conhecimento lhe deram. As relações Europa-EUA andam azedas, como sabemos, e com boas razões. Por outro lado, não possui forças militares e financeiras suficientes para se meter em mais outra guerra. Já basta a da Ucrânia. Em terceiro lugar, a rua árabe presente na Europa (culpa própria, eu sei) incendiar-se-ia num ápice. Sem força, por enquanto, resta à Europa o tempo. O que não interessa nem a Israel nem ao Trump (que não tarda morre). Pode correr muito mal esta operação “Fúria épica”? Não sabemos, mas compreendo que para Israel esta é uma oportunidade quiçá única.

Para concluir, é um facto que alguns conflitos recentes foram incentivados pelos Estados Unidos e que a União Europeia acaba a pagar as favas. Mas eu não diria mal. A Europa é um “work in progress”. E o belicismo há anos que está afastado da sua agenda, para nosso grande bem-estar.

Passos pode ser o que quiser?! Esta agora

Rodrigo Moita de Deus, RTP Notícias, ontem, dia 26. Passos Coelho é o mais popular político português. Quando fala, provoca uma onda de enfeitiçamento, um homem extraordinário, o melhor dos primeiros-ministros, um portento, uma sumidade e, no entanto, mas dito numa forma ternurenta, “um mau político”, um tigre (ou será elefante?) à solta numa savana africana. Mais: se ele liderasse o PSD, o Chega não existiria! Rodrigo, ó Rodrigo, e porquê?

Se não acreditam em tanto entusiasmo, vejam aqui:

https://www.rtp.pt/play/p16207/e911811/estado-da-arte

Sinceramente, não percebo a direita portuguesa e a excitação com o Passos Coelho. Nem a cegueira que os leva a dizer que é muito popular e admirado e que, bastaria querer, para ser de novo primeiro-ministro. Devem ser chalupas. Para mim, a única coisa positiva que o homem tem nada tem que ver com capacidades intelectuais ou políticas, simplesmente nasceu com uma bela voz. E para aí. Tudo o resto é muito mau. Mentiu que nem um perdido na campanha eleitoral para 2011, achou giro “ir além da Troica” na austeridade, sem dó nem piedade, usou bastas vezes linguagem boçal para se referir aos portugueses como se ele próprio fosse um exemplo de empreendedor independente e incansável, mostrou zero empatia pelas pessoas que governava, provocou a manifestação mais sentida e abrangente da história da nossa democracia quando pretendeu aumentar a TSU para os trabalhadores e baixar a das empresas, enfim. Tudo isto no activo enquanto chefe do governo, fora o resto dos seus tempos de moinante, de líder da juventude social-democrata, de “empresário”: nada fez digno de louvor até decidir ir tirar um curso à Lusíada (ligada ao PSD) já perto dos 40, inventou uma empresa ligada a técnicos de aeroportos inexistentes para sacar dinheiro europeu (Tecnoforma), investigada pela Comissão, afirmou desconhecer o que eram contribuições para a S Social, era o amigalhaço de pândega política do Miguel Relvas, o homem das equivalências dadas pela escola da vida, e escreveu um livrinho básico neoliberal com a ajuda do António Borges para mostrar que tinha ideias e assim poder ganhar algum crédito junto de quem o poderia eleger para líder.

Na secção “regresso e polémicas” da Wikipedia pode ler-se em relação ao tempo actual:

Mais tarde, Passos Coelho, pouco tempo depois da tomada de posse de Montenegro como primeiro-ministro, aceitou apresentar um livro ultraconservador com ligações ao Salazarismo e à Opus Dei e com apoio de figuras públicas conservadoras tais como Manuel MonteiroDiogo Pacheco de AmorimAndré VenturaRita MatiasMaria João AvillezAntónio Bagão FélixFrancisco Rodrigues dos Santos e Nuno Melo. Nessa apresentação, Passos atacou os imigrantes muçulmanos, as ex-colónias, a eutanásia, o aborto, o feminismo de esquerda e as bases disciplinares atuais da escola pública, que este considera “sovietizada e esdrúxula”.

Que cartões de visita mais luxuosos. Péssimos. Não passará.

Portanto, Rodrigo, filho, o Passos é um tipo com bom timbre vocal mas medíocre, com uma evolução recente muito pouco recomendável, e que, além de gostar de regressar ao século passado, gostaria também de regressar ao poder mas não se enxerga: não tem noção da memória que a esmagadora maioria das pessoas guarda dele (nem ele nem tu), nem de quão fácil é demoli-lo pelo que fez, nem tem noção de que a sua simpatia e afinidade com o Ventura afugenta até grande parte do PSD, quanto mais os restantes votantes. A direita faria melhor em mudar de mito.

Mas, ó Ventura, seu aldrabão, a direita não votou em ti! E o que é isso do socialismo ter ganhado e precisar de ser derrotado?

Longe de mim estar a assumir a defesa da nossa direita democrática (muitas vezes tão inculta, mentirosa e agressiva), mas só o facto de ela, maioritariamente, ter rejeitado o Ventura merece o meu elogio. Não faz, por isso, qualquer sentido que o “taberneiro” papa-hóstias que é líder do Chega se autointitule o novo líder da direita. É que, por lá, pelos vistos ninguém o atura nem aturará. Mesmo alguns eleitores de direita que votaram agora nele fizeram-no (segundo disseram) para não dar demasiado “ufanismo” ao candidato de esquerda. Nem esses gramam o Ventura por aí além, muito menos votarão nele em próximas legislativas.

Também, ao contrário do que diz o vendedor de banha da cobra, não foi o “socialismo” que ganhou, sendo que “socialismo”, pela insistência e o tom com que profere a palavra, soa a uma espécie de comunismo, igualitarismo esquerdista e corrupto. Ora, não. Também não. A direita que votou no Seguro não lhe atribui de todo esse perfil (nem os socialistas). Além disso, o partido socialista é, desde sempre, social-democrata. Correu com os comunistas na altura devida. Contribuiu de forma decisiva para a consolidação da democracia em Portugal e não tem de certeza, proporcionalmente, mais gente corrupta do que o Chega (que ainda nem chegou ao poder e os compadrios autárquicos e conflitos com a Justiça já vão longos). Democracia, ó Ventura, que é o sistema através do qual o poder vai alternando. Há regras de direito, há controlo político através do Parlamento e da liberdade de associação, expressão e opinião e há entidades independentes para evitar abusos. É o contrário do que parece ser o sistema favorito do Ventura, que é a ditadura – uma pessoa a mandar, de preferência para sempre, e todos a obedecer, sob pena de irem presos ou serem mortos. Impensável para a maioria dos portugueses.

A propósito da apregoada “mudança do sistema” de que o vendedor de banha da cobra fala a toda a hora, os senhores jornalistas importam-se de lhe perguntar um dia destes para que sistema é que ele quer mudar? E não vale aceitar a resposta de que será “um sistema sem corrupção e que defenda a honra de Portugal e de quem cá nasceu”. Não vale, porque o salazarismo ao triplo que o Ventura defende era supostamente isso e não deixava de ser o sistema mais corrupto de todos, em que apenas alguma famílias lambe-botas tinham acesso à riqueza, o que implicava uma máquina repressiva gigantesca para as restantes classes sociais e a fuga em massa de quem não aguentava a pobreza. Por isso, é imperativo que a pergunta aprofunde o tema.

O Ventura deve, pois, baixar a bolinha e a direita clássica tem que ir para a sala de estudo gizar uma estratégia. Que as democracias não são perfeitas, já o sabemos. Basta ver a facilidade com que permitem o surgimento e a popularização de demagogos como o Ventura. Só que o que o ex-seminarista com alucinações e gestos nazis promete é mil vezes pior do que o que temos. O exemplo da América, com a eleição de um criminoso e o pavão mais corrupto que o mundo já alguma vez viu em tal cargo, deve bastar para lhe cortar as vazas. Serás um episódio, ó Ventura.

Entre o FSB e a Mossad, Trump patina face ao Irão? Considerações minhas, também elas mirabolantes como certas revelações nos States.

Ataca? Não ataca? Mudança de regime? Destruição do programa nuclear? Pois é. Por que razão se mandam os maiores porta-aviões para as imediações do Irão, se mobilizam as bases militares, se chegam a fechar aeroportos de vários países do Médio Oriente e depois… nada?

Tenho que chamar para a conversa o depravado Epstein. As suas ligações e de muitos do seu círculo de “amigos” à Rússia de Putin são agora mais do que evidentes. Diz-se que era um agente, pago a peso de outro. As fotos e os vídeos chocantes, os e-mails e os telefonemas mais do que comprometedores constantes dos ficheiros, apesar de todas as ocultações, tornam tudo bem claro. O FSB, através de Epstein, gizou um plano mirabolante de controlo dos políticos e empresários americanos (e não só) que vai ficar nos anais da História. Para já, pelo silêncio que suscita, mais tarde se verá se os efeitos da chantagem perduram e o mundo se torna num lugar sinistro e aterrador, controlado por uma seita de criaturas malévolas e dementes.

Penso que ninguém a não ser uns milhares de alheados ou fanáticos americanos duvida das ligações de Donald Trump a Epstein e deste, e dos dois, ao Kremlin. Todos os sinais estavam lá. Agora apenas se confirma. Portanto, o presidente dos EUA está nas mãos do presidente russo e foi eleito duas vezes graças à sua ajuda, no culminar de um plano urdido a longo prazo.

Falemos agora no Irão. Grande aliado da Rússia. Para a guerra na Ucrânia, os Ayatollahs fornecem milhares de drones e mísseis. O eixo Rússia-Irão-China-Coreia do Norte está sólido. Dir-se-ia que a Rússia jamais permitiria que Trump tentasse depor os Ayatollahs com o fim de instalar no poder um governo pró-ocidental (e sobretudo anti-russo). Não é? É… mas pode não ser. A conjuntura é mais complicada do que parece: neste momento, não podemos afirmar que os Estados Unidos façam parte do chamado “mundo ocidental”, que inclui democracias como o Japão, a Austrália ou a Coreia do Sul. Para Trump e o seu bando de poderosos malfeitores, tal não existe. É um conceito que não lhes diz nada, se é que entendem sequer a palavra “conceito”. O mundo ocidental, democrático, versus os regimes ditatoriais (chinês, russo, etc.) do resto do planeta é uma divisão sem sentido para os mentores do movimento MAGA e adeptos de ditaduras. Sendo assim, tal como na Venezuela se manteve o regime pró-russo do Maduro, agora sem Maduro, com certeza depois de negociações com o Kremlin, também no Irão talvez se possa fazer algum negócio com os russos de modo a tirar de lá os sinistros líderes para aliviar as tensões sociais. Como Trump hesita… quem sabe as negociações estão difíceis? É melhor talvez tratar da ameaça nuclear e o regime fica para um dia, quem sabe. No final de contas, também não deve interessar aos russos um Irão com armas nucleares e esse é um ponto comum. Tudo patina quanto à mudança de regime, portanto.

Mas e os israelitas? Não se livram do Hamas, do Hezbollah, dos Houthis?

Israel tem todo o interesse em que os Ayatollahs sejam corridos e que o regime respectivo deixe de financiar os movimentos islamistas terroristas seus vizinhos e inimigos. Israel tem todo o interesse em que os Estados Unidos ataquem o Irão com eficácia. Entretanto, corre a teoria também de que o Epstein agiria a soldo da Mossad (afinal o seu “sogro” e iniciador Robert Maxwell está sepultado no cemitério do Monte das Oliveiras em Jerusalém) e que o material comprometedor de que esta organização dispunha por via do Epstein implicava uma defesa incondicional do Estado de Israel por parte de Trump. Daí os recentes avanços da tropa. Depois da carnificina de civis aquando dos protestos no Irão, Trump declara que vai atacar. Monta o cenário para tal. Apesar disso, até agora, nada. Dá vontade de perguntar “qual é a dele afinal”?

Podem dizer que não é fácil, porque o regime iraniano está bem armado e pode causar danos graves em Israel. É verdade. Mas os trumpistas não sabem disso? Não sabem que não há alternativa viável para já aos Ayatollahs e que, da última vez que ripostaram, não foram meigos? Então porquê as movimentações? É só pela questão nuclear? E os milhares de iranianos assassinados? E o Nobel da Paz? (não vale rir)

Os interesses da Rússia e de Israel são neste momento incompatíveis no que toca ao Irão, actualmente um aliado da Rússia. Se Epstein trabalhava para o FSB e ao mesmo tempo para a Mossad e estas duas organizações têm Trump e a sua pandilha na mão, temos aqui um imbróglio. Aqui e no mar de Oman.

Faço conjecturas, sim, mas avisei que ia fazer. As relações internacionais estão a modos que caóticas desde que um desvairado ignorante e em declínio mental chegou ao poder nos States, sendo irresistíveis as especulações.

O Seguro já ganhou?

Ventura não tem hipóteses nem como PR nem como primeiro-ministro e, com o exemplo do Trump, o Chega só se desvanece

Se considerarmos o número significativo de notáveis e não notáveis que votaram em candidatos da direita democrática nas eleições presidenciais e o número de notáveis e simples votantes que vão mais uma vez rejeitar André Ventura (antigo comentador de futebol) liminarmente na segunda volta, é lógico apostar em que, numas legislativas, nem que os líderes dos partidos de direita sejam o equivalente à Miss Piggy os eleitores de direita irão votar no Ventura. Estas eleições presidenciais foram, bem vistas as coisas, uma espécie de armadilha em que Ventura se quis meter. Não presta para as instituições e demasiada gente vê, e viu, que não presta. E expressa-o nas urnas. Ventura vai para o palco e para todos os palcos para onde puder ir. No entanto, apenas mostra que o que quer é ludibriar, insultar, desestabilizar e utilizar a violência. E, pessoalmente, tornar-se ditador como o Salazar, esse indefectível das missas e da tortura aos contestatários. Voltar aos tempos do cardeal Cerejeira. Benzeduras por um lado e repressão e prisões por outro. Será isto um transtorno? Não sei. Ventura é um charlatão. Mas não vai ter sorte nenhuma.

Ao contrário do que se lê de vez em quando em escritos de pessoas muito sérias que acham que há razões políticas e sociais ponderáveis para muitos cidadãos apoiarem um aldrabão daquele calibre e que, se forem corrigidas as desigualdades o problema do populismo desaparece, os eleitores do Chega não são os ressentidos do sistema. Ressentimentos toda a gente mais ou menos tem e não é por isso que se olha para o autointitulado “quarto pastorinho” e se vê nele um personagem promissor enquanto primeiro-ministro, capaz de melhorar a vida de quem quer que seja. O mais provável é que, quem olha para ele com interesse, ache que ele é um justiceiro a puxar para o carniceiro e isso é bom (há muito sádico), ou que terá um emprego garantido ou lucros chorudos (ver o que se passa com Trump e os seus financiadores) ao apoiar a criatura e ao ser visto a berrar ao lado dele. Ventura e os seus equivalentes noutros países dedicam-se à venda de banha da cobra e encontraram na questão da imigração (que tem algo que se lhe diga, na verdade, tendo sido levianamente tratada em muitos países) e nos casos de transgressões de alguns políticos uma oportunidade para dizerem que são diferentes para melhor (mas na verdade para pior) da chamada “corja que nos governa desde o 25 de Abril”, prometerem o paraíso (militarizado), suscitarem raivas e ódios, despertarem o pior de cada um, e conquistarem votos entre os mais desinformados. Isto apesar de um olhar atento ao séquito do grande chefe não poder tranquilizar ninguém quanto à lisura dos respectivos comportamentos nem quanto às suas qualidades intelectuais e humanas. São maus e qual deles o pior. As redes sociais ajudam estes populistas por serem as plataformas de excelência para o escárnio e maldizer e por terem trazido à tona, e dado voz, a todo o lixo humano e ignorância que sabíamos existir.

Quanto lixo existe em Portugal além de 23% não sabemos ainda, mas diria que não haverá muito mais. A tal Miss Piggy da direita portuguesa coligada ganhará sempre ao Ventura. Como a possibilidade de aparecer na direita tradicional um Ventura dissimulado e com boas maneiras é remota (para já porque não teria a sua audiência, que gosta da má-criação) e, mesmo que surgisse, seria muito mal recebido pelo já declarado candidato a ditador, o Ventura estará condenado a liderar o Chega e a sonhar com a ditadura enquanto o problema da imigração se vai resolvendo. Os “ressentidos”, já agora, incluem muitos bolsonaristas brasileiros, como a advogada do grupo 1143.

O novo líder da direita? Não, não és, André Ventura (à atenção dos 39% que, não tendo votado Seguro, não votaram no Ventura)

Com a ida à segunda volta, André Ventura, o demagogo, rodeado de gente boçal que não se recomenda, vai apelar a que a restante direita vote nele para, se isso acontecer, poder dizer que é o grande líder e que Montenegro já era*. A verdade, porém, é que os votos somados do Marques Mendes, do Cotrim e do Gouveia e Melo dão 39% do eleitorado. Ventura não foi além dos 24%/25% (se tomarmos em consideração os votos da emigração, ainda não conhecidos). É certo que nem toda a gente que votou no almirante, como eu, ou no Cotrim pertence à chamada “direita”, mas, para efeitos deste post e do que Ventura deseja, chamemos-lhe assim.

Sem grandes simpatias pelos votantes no Marques Mendes e no Cotrim, penso, no entanto, que a afinidade deles com Ventura será pouca e, se alguma há, não será suficiente para os levar a votar nele massivamente. António José Seguro deverá, pois, ter a Presidência ganha.

Ora, olhando para a actuação do grande ídolo dos populistas aldrabões de hoje em dia e ídolo confesso do Ventura, Donald Trump, olhando para a violência, as injustiças, a corrupção (sobretudo a corrupção desbragada), o fascismo que instaura na América e que saltam à vista de todos, espero sinceramente que os votantes naqueles três candidatos tenham juízo e não alimentem, na segunda volta, as ambições e o ego perturbado do Ventura. Um tipo que mistura idas fiéis à missa e a imitação/inveja de “videntes” de aparições do outro mundo com saudações nazis e apelos a intervenções musculadas das polícias, com uso facilitado de armas, insultos soezes e convites a decapitações de adversários políticos, sem freios na linguagem, sem problemas em apelar ao que de pior existe no ser humano. Um demagogo perturbado. Não alimentem o Ventura, por favor. Também eu votarei em Seguro na segunda volta sem motivos de monta para o admirar (a não ser, para já, a sua incontestável coragem). Qualquer candidato que, ganhando, evite a chegada a um cargo de poder da aberração Ventura tem que merecer o nosso voto. Mesmo que o motivo seja apenas esse.


*Não lamentarei nada o dia em que Montenegro “se vá”. É um incompetente e, com o que se conhece da Spinumviva, um vigarista sem perfil para o cargo. Mas estará sempre vários pontos acima do Ventura, enquanto for democrata.

Com Cotrim, tudo é ligeiro e superficial; não admira que se tenha precipitado

Não excluo qualquer candidato, mas teria de fazer uma reflexão profunda”, admitiu o também eurodeputado, no final de uma visita ao Mercado Municipal do Fundão onde teve, a seu lado, o vice-presidente da Assembleia da República Rodrigo Saraiva, a ex-deputada do PSD Liliana Reis e o vereador na Câmara Municipal da Covilhã, que concorreu como independente eleito pelo CDS-PP, Eduardo Cavaco. Questionado sobre se apoiaria o adversário André Ventura na corrida a Belém, o antigo líder da IL reafirmou que, nesta altura, não exclui ninguém.

O André Ventura dos últimos quatro dias eu ainda não conheci. Moderou o discurso e parece um político diferente”, considerou.

/////////////////////

Em declarações aos jornalistas depois de uma visita à adega Vila Real, o líder do Chega reagiu ao facto de João Cotrim Figueiredo não excluir apoia-lo numa possível segunda volta. André Ventura disse ter ouvido as declarações do ex-líder da Iniciativa Liberal com “naturalidade”.

 

Que queridos.

Cotrim de Figueiredo pode ter dado um tiro no pé ao declarar que votaria em Ventura em caso de confronto deste com Seguro na segunda volta das presidenciais. Pois bem, foi dito, está dito, o Ventura não o choca (não desconfiávamos já? Cotrim tem como apoiante um fundador do Chega, Nuno Afonso, ex-braço direito de Ventura). Se os seus adversários da área democrática (Gouveia e Melo, Seguro e …cof cof … Marques Mendes) forem habilidosos, atacá-lo-ão sem dó nem piedade nestes sete dias que restam. Basta lembrarem ao eleitorado que Ventura não é mais do que um candidato a ditador, à laia de Trump, que tanto admira e a cuja tomada de posse nem pôde faltar (mesmo ficando à porta). Se puder, e quando puder, acaba com a democracia e põe-se a perseguir tudo o que seja cigano, paquistanês e preto, pondo o país em pé de guerra, para logo de seguida calar os seus adversários políticos, de raça branca, com recurso à polícia. É isto que Cotrim quer ou não se importa de ver na Presidência da República?

Cotrim ou não pensa antes de falar e é um tipo superficial, no fundo um vaidoso – pouco talhado para a Presidência, ou acha mesmo que o Ventura tem mais qualidades do que o Seguro – e pouco apreço tem pelos regimes democráticos. Um dandy sem cabeça. Saiu da liderança da Iniciativa Liberal porque queria ir até Bruxelas e Estrasburgo ver as modas e agora o melhor a fazer é rua com ele.

E o prémio Nobel da falta de noção e de espinha vai para…

Maria Corina Machado

Não percebeu que Trump não quer saber da democracia para nada. Não percebeu que toda a máquina repressoara de Maduro continua instalada e que  a mudança de governo (que pouco interessa a Trump se puder corromper o actual) só se faria provocando uma guerra civil. Não percebeu que não é intenção dos MAGA pôr americanos a combater pela democracia na Venezuela, eventualmente nem pelo petróleo. Não percebeu que, neste momento, a proposta de partilha do Nobel da Paz é completamente deslocada e absurda. Não percebeu que já deve haver quem ache que o seu prémio não foi merecido.

Rapto na Venezuela: a pessoa errada a apear um ditador corrupto com a finalidade errada

Maduro já devia ter ido embora há muito. Perdeu claramente as últimas eleições, escondeu os resultados e manteve-se no poder. Com o apoio do Kremlin e seus amigos.

Agora, irónico e decepcionante é ser Trump, um ditador com aversão à democracia e às suas regras, corrupto, prepotente, debochado e megalómano (muito igual a Maduro – menos o deboche -, só mais rico e poderoso), a depô-lo. Trump não pretende restaurar a legalidade e a democracia na Venezuela. Nem sequer pretende que sejam os vencedores das últimas eleições a governar. Pretende apropriar-se das riquezas do país e, verdade seja dita, não esconde esse objectivo. Calhou bem que Maduro fosse um ditador e odiado por grande parte dos venezuelanos, que agora festejam. Mas a intervenção e a intenção não são de todo de aplaudir, à luz do direito internacional.

Teve piada Zelensky ao lembrar que, se Trump abriu a caça aos ditadores, então saberá o que fazer a seguir. Não é porém essa a política da actual Casa Branca, infelizmente para a Ucrânia. Na verdade, Trump quer lá saber se o Maduro era um ditador corrupto e ilegítimo (ele é igual, apenas legítimo, por enquanto). Só quer saber que a Venezuela tem riquezas que lhe interessam e não tem o seu poderio militar, ao contrário da Rússia. Baiden dizia que Trump até admirava Maduro. Não tenho dúvidas de que, pelo menos o invejava. Aconteceu que, provavelmente após acordo/negociata com a Rússia, teve luz verde para se apropriar do país e das suas riquezas. A ver vamos o que Trump faz com a Gonelândia, onde não existe qualquer ditador corrupto, nem narcotraficantes, nem influência russa, existindo em vez disso disponibilidade para negociar por parte de um histórico e agora suposto aliado.

E a União Europeia? Reagiu bem? Seria impossível reagir de outra maneira. Toda a comunidade venezuelana exilada festejou o derrube do ditador Maduro. Condenar apenas veementemente a ingerência num país estrangeiro seria interpretado como dando legitimidade a Maduro, o que seria muito errado. Dizer claramente que Trump fez muito bem, legitimaria o acto como um precedente aceitável para todas as interferências que se seguem. Assim sendo, resta constatar o acto consumado, ficar na expectativa e desejar que se instaure um governo que tenha o apoio da população. Os tempos são desafiantes, quando a política internacional se torna num “reality show”, onde todos os dias acontece alguma coisa escandalosa.

Ainda há dúvidas de que a PGR está nas mãos do PSD?

Algum dia a Justiça, quando se trata de políticos, será verdadeiramente eficaz, isenta e imparcial neste país?

É inevitável pensar que Marques Mendes, “apertado” pelas acusações de Gouveia e Melo em directo na TV de que é opaco em relação à sua actividade profissional passada, decidiu contra-atacar usando os contactos que tem na PGR para prontamente desenterrar e mandar para as redacções um caso de inquérito aberto há oito anos sobre ajustes directos na Marinha. Verificamos, mais uma vez, que o caso tem estado a marinar até melhores dias (oito anos!), sem que o principal visado tenha sequer sido ouvido ou tenha sabido das acusações. Os “melhores dias” chegaram, pelos vistos, agora. Este PGR não falha. Sempre a favor dos mesmos.

Tudo isto me parece escandaloso, quando o caso Spinumviva, que implica um conflito de interesses mais do que evidente (o primeiro-ministro esteve a ser pago por privados durante o exercício da sua função, e continua, tendo os pagamentos sido transferidos para os filhos; privados esses, como a Solverde, que acabam de ver as suas concessões renovadas), nem um inquérito suscitou, ficando-se por uma averiguação entretanto arquivada sem que os fundamentos das respectivas conclusões nos tenham sido dados a conhecer, num secretismo totalmente suspeito e inaceitável.

Dito isto, eu escandalizo-me e indigno-me e voto contra, mas tenho perfeita noção de que, tal como com Trump, é certo a um nível muito mais grave, se os eleitores, por uma margem determinante como indicam as sondagens, preferem a AD no governo a qualquer das alternativas, esta espécie de corrupção é ignorada e tolerada, se não mesmo incompreendida. Nem mesmo o Ventura, que elegeu a palavra corrupção como a palavra do ano e de todos os anos até chegar ao poder, fala nesta promiscuidade clara,  muito menos a denuncia.

Em suma, está tudo bem com esta direita, tudo sob controlo, maioria relativa dos eleitores contentes, uma Justiça amiga, um candidato a PR com fortes apoios na PGR. Quem se importa? Espero que o tiro saia pela culatra ao Marques Mendes. A este propósito, ler o professor Vital Moreira.

A grande confirmação de 2025: Putin, conselheiro da Casa Branca

Cabrão, pá, tu insiste na Gronelândia”. Eventual sugestão dos russos ao compincha Trump no Alaska e na Florida.

Com um megalómano narcisista, ignorante, corrupto e chanfrado na presidência dos EUA, rodeado de gente racista e belicosa, o mundo está muito mais perto de explodir em conflitos que conduzam a uma guerra mundial do que de eleger um prémio Nobel da paz.

Já se percebeu que a Venezuela está a ser trocada pela Ucrânia como zona de influência russa no quadro das “negociações para a paz na Ucrânia”. Entretanto, interessa a Putin que a Europa se distraia mais para Oeste, se apoiar a Dinamarca e a Gronelândia na sua defesa após a declaração de intenção de conquista deste território autónomo da Dinamarca pelos MAGA admiradores e cúmplices de Putin que tomaram de assalto a Casa Branca. Com isso, a frente Leste europeia pode bem desguarnecer-se com este desvio de atenções, tornando tudo mais fácil para o ex-KGB candidato a imperador e as suas ambições de conquista. Uma teoria que, assim de repente, considero não estapafúrdia.

Nem as razões do arquivamento nem o apurado nas “averiguações” são para o povo conhecer?

Imagem

Começa a haver vários imitadores de Trump um pouco por todo o lado. Fazem o que querem e entendem que não têm que prestar contas a ninguém. Não sei , nesta fase, se isto é escandaloso ou não. Os juristas que se pronunciem. Diria que sim e que esta decisão do PGR é tomada expressamente para resolver o berbicacho que é a Spinumviva para um PGR escolhido pela dupla Montenegro/Marcelo. Não querem claramente que se saiba o que se apurou. Ou porque se apurou demasiada ilegalidade e isso seria um problema político sério, ou porque não se apurou nada mas, neste caso, ainda menos se compreende que não saibamos por que razão foi tudo uma invenção. Uma invenção ou tudo perfeitamente legal. Mas o que é que foi legal, não podemos saber?

Pergunto-me se o PGR pode tomar decisões desta natureza. A lei não obriga à transparência? O Ministério Público funciona sem qualquer tipo de controlo. São uns reis.

Feministas legalistas e anti-feministas

Ronaldo, Khamenei e o ferro de engomar

Tudo certo neste artigo, excepto a posição da própria jornalista sobre o uso da burqa. Sobre isto, ver um artigo anterior, onde as considerações jurídicas elencadas apenas visam complicar o que, na realidade, é bem mais simples e fundamentar as suas dúvidas incompreensíveis em raciocínios de homens de direito à nora com a política. Na prática, entende que as mulheres devem ser livres de usar ou não usar, pois ninguém tem o direito de proibir o teu direito a não ser visto. E fala em totalitarismo. (“É, na verdade, de um peculiar e paradoxal totalitarismo que se trata: o de, a pretexto de salvar as mulheres da imposição da invisibilidade, determinar que não têm direito (ninguém tem) a não ser vistas/identificadas.”). Esta posição parece-me indefensável perante as críticas que faz às debatentes, pois nessa perspectiva as mulheres (críticas do feminismo, mas não vi o debate) que escolherem ficar em casa a tratar dos filhos e do marido e na total dependência deste, também devem poder fazê-lo, sem julgamentos. Portanto, estaria tudo bem. Nada a criticar. Nota-se, porém, que a jornalista critica muito mais do que a incongruência.

É verdade que elas, as mulheres antifeministas, estão erradas ao manifestarem-se contra a burqa, pois, para serem congruentes, deviam defender que uma mulher ser dependente economicamente do homem e, devido a isso, submissa e de contemplação exclusiva, não devia ser problema, mais trapo menos trapo, seria lá com elas. Mas a jornalista está igualmente errada ao criticá-las pela incongruência, quando ela própria, apesar de considerar a submissão das fêmeas ao macho inaceitável e a separação de funções muito criticável, no que respeita ao uso da burqa, uma fatiota que é o paradigma da submissão e do machismo, já considera totalmente aceitável, alegando que pode ser uma escolha e um direito. Bullshit, não?

Não vou ao ponto de dizer que estão bem umas para a outra, até porque o meu lado é o do feminismo (não atormentado). Mas quase. De facto, do lado das tradicionalistas há assuntos que se podem discutir sobre o acompanhamento das crianças. Pode uma mulher ser paga (pelo marido ou pelo Estado) para ficar em casa, quando existem creches para as crianças? Em princípio não, e deveria ser proibido em nome da igualdade e da dignidade. Mas se a mulher que fica em casa, sem outro emprego que não o de tratar da casa e dos filhos, tem bens próprios, pode considerar isso uma profissão, remunerada por ela própria, portanto um investimento. Ou então a relação contratual com o marido poderá, por lei, ficar plasmada num acordo nupcial (ou equivalente, para quem não for casado). Ou poderá haver um contrato com o Estado, no caso de não haver creches. Claro que nunca estas pessoas põem a hipótese de ser o homem a ficar em casa, o que é de lamentar. Mas, lá está, são antifeministas. São anti-igualdade e anti-equiparação. Umas tontas. De certo modo, são como as mulheres mais velhas do Irão, que pertencem às brigadas dos costumes contra as “liberdades” das mais jovens de mostrarem o cabelo.

As ditas feministas, por seu lado, como a jornalista, são incapazes de condenar a burqa apesar da luta e da repressão por vezes brutal das jovens mulheres do Irão por causa do mero hijab. Exigir-se-ia, digo eu, no mínimo mais solidariedade. Toda a solidariedade. Nem todas as proibições são más. Nem sempre deve ser proibido proibir. A proibição da excisão genital feminina é mais do que bem-vinda e urgente, pouco importando se as miúdas a querem fazer para não desafiarem a família, ou se são poucas a fazê-lo. As vinganças de honra familiares também são proibidas. Se for proibido, essa proibição acaba por ser absorvida e as coisas mudam. Para melhor. Se não for proibido, mantêm-se. Assim é com a burqa no Ocidente. Se for proibida, as pessoas adaptam-se. E não, as mulheres não vão deixar de sair à rua por não poderem fazê-lo com burqa. Isso é uma tolice. Aos poucos, ou no imediato, tirarão a burqa e circularão sem que ninguém lhes ligue. Deixam apenas de ser bichos, e os homens ficarão um pouco ou bastante menos trogloditas. Ou então, se fizerem muita questão, regressam às origens para se sentirem melhor. Não haverá problema nenhum com isso. Nenhum mesmo. Pode é acontecer que “as origens” também já tenham evoluído mais do que as feministas da liberdade de ocultação do corpo debaixo de trapos para os outros machos não as verem e cobiçarem. Seria bom e far-me-ia rir.