O défice do subsetor Estado atingiu os 799 milhões de euros em fevereiro, 191,1% mais do que no mesmo mês de 2011, segundo o boletim de execução orçamental da Direção-Geral do Orçamento. A despesa cresceu 3,5% face ao mesmo período do ano anterior, enquanto a receita diminuiu 4,3%, essencialmente devido à redução nas receitas fiscais, que caíram 5,3 %.
Tudo isto foi previsto.
Atrás dos números estão pessoas que não podem usar transportes públicos, para se movimentarem ou para irem ao hospital encontrar taxas moderadoras que não podem pagar, ou exames médicos que deixaram de ser um bem de todos, é melhor voltar para trás.
Pessoas, sim, pessoas que não consomem bens essencias, pessoas desempregadas e tantas outras empregadas sem dignidade, enterradas numa política laboral que esmaga os fracos sem dó nem piedade, promovendo uma corrida aos baixos salários, antes que passado o novo prazo para o “privilégo” (direito) ao subsídio de desemprego. As pessoas cada vez menos pessoas fazem estes números, cá dentro ou emigradas, tantas a dormir na rua ou em outros locais de abandono, as pessoas com menos liberdade, com menos saúde pública, com menos escola pública, com menos voz, são estas pessoas que fazem os números que animam Vítor Gaspar (e o seu sempre-em-todo-o-lado Miguel Relvas): diz ele que vamos a meio da ponte.
Não me atrevo a dizer uma só palavra sobre esta metáfora.
Arquivo mensal: Março 2012
Madeira: a quanto desobrigas
Os partidos da coligação governamental rejeitaram hoje uma proposta do PS de ouvir na Assembleia da República o governo regional da Madeira sobre o programa de ajustamento para a região.
Durante uma sessão da comissão parlamentar do Orçamento, o deputado socialista João Galamba pediu audiências para ouvir o secretário de Estado dos Assuntos Fiscais e um membro do governo regional da Madeira.
O pedido do PS foi feito no âmbito da discussão na especialidade das alterações ao IVA e a outros impostos sobre o consumo na região autónoma.
“Não nos podemos pronunciar sobre parte do programa de ajustamento sem nos pronunciarmos sobre o todo. O IVA e os impostos sobre o consumo surgem num pacote”, disse Galamba. “O programa transcende em muito a pequeníssima parte que nos é dada a aprovar. Valorizava o Parlamento e o programa de ajustamento para a Madeira fazer um debate.”
A maioria PSD/CDS-PP rejeitou contudo a convocação das audições, argumentando com a urgência de enviar o diploma para promulgação pelo Presidente da República.
“Compreendo [o pedido do PS], mas esta matéria é um diploma simples, as alterações são claras”, disse o social-democrata Duarte Pacheco. “Não haverá possibilidade para proceder ainda a audiências.”
Pelo CDS-PP, Michael Seufert notou que havia uma necessidade “de urgência”, e que o programa de ajustamento “foi negociado e certamente que houve cedências de parte a parte” entre o governo central e as autoridades regionais.
Rejeitadas as audiências, as alterações ao código do IVA e ao dos impostos especiais sobre o consumo para a Madeira acabaram por ser votadas e aprovadas na especialidade com os votos a favor do PSD e do CDS-PP.
Impressionar com desemprego, brilhar sem receitas, seduzir com défice
More Women Having Children Before Marriage
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Recent Generations Focus More on Fame, Money Than Giving Back
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“Unconscious” Racial Bias Among Doctors Linked to Poor Communication with Patients, Dissatisfaction with Care
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Hydrogen Power in Real Life: Clean and Energy Efficient
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Cyborg Snails Power Up
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Why Interacting with a Woman Can Leave Men “Cognitively Impaired”
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Sharing the Wealth (of Knowledge): Cumulative Cultural Development May Be Exclusively Human
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Helping Children To Succeed By Reducing Academic Pressure And Fear Of Failure
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Cool Hands May Be the Key to Increasing Exercise Capacity
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Losing Belly Fat, Whether from a Low-Carb or a Low-Fat Diet, Helps Improve Blood Vessel Function
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Rats Match Humans in Decision-Making That Involves Combining Different Sensory Cues
Vinte Linhas 750
Duas exposições na Praça das Amoreiras – até 7 e 15 de Abril
Num espaço relativamente próximo, apenas com o arvoredo e a esplanada do jardim a separar os dois eventos, temos uma exposição de António Carmo na Mãe d´Água das Amoreiras até 7-4-2012 e uma colectiva (Amigos de Paris) na Fundação Arpad Szenes – Vieira da Silva até 15-4-2012. A primeira exposição funciona de 2ª feira a Sábado das 10 às 18 horas e a segunda de 2ª feira a Domingo também das 10 às 18 horas.
António Carmo (n.1949) em «Encontros Musicais» festeja o 25 aniversário do Museu da Água com uma série de retratos de compositores (Mozart, Bach, Liszt, Wagner, Stravinsky, entre outros) e nesses retratos quem fica em homenagem é a própria música – como arte universal.
Quanto aos «Amigos de Paris» que são 4 – Lourdes Castro, René Bertholo, José Esacda e Jorge Martins – todos foram amigos do casal Arpad Szenes – Vieira da Silva e beneficiaram da sua generosidade – o casal convidava-os com frequência para sua casa, oferecendo desenhos ou guaches que poderiam vender quando as necessidades materiais eram mais prementes. Lourdes Castro (n.1930), René Bertholo (1935-2005), Costa Pinheiro, Gonçalo Duarte, João Vieira, José Escada (1932-1980), Jan Voss e Christo fundaram a revista «KWY» da qual foram publicados doze números. Por seu lado Jorge Martins (n.1940) foi para Paris em 1961 não integrou o grupo «KWY» tendo, no entanto, colaborado na revista homónima.
São duas exposições absolutamente a não perder.
Estudos socráticos
Nove meses depois de ter apresentado a demissão de secretário-geral do PS, e de ter abandonado o País para um recolhimento privado só interrompido pela obsessiva perseguição dos caluniadores, Sócrates continua a ser a principal personalidade na política portuguesa. As manchetes são diárias, os publicistas direitolas carimbam como socrático qualquer sinal de pensamento próprio no PS, os tribunais fervilham com processos que directa e indirectamente afectam o seu bom nome e futuro político e o Presidente da República declarou-o persona non grata do regime em mais um inédito ataque ao prestígio da soberania que lhe foi confiada unipessoalmente. Seja qual for o ponto de vista da análise, é indiscutível que estamos a testemunhar algo completamente novo em quase 40 anos de democracia. Soares, Cavaco, Santana, nomes que podemos associar a períodos de grave austeridade, prepotência e desvario, respectivamente, foram deixados em paz com a sua honra intacta assim que abandonaram o poder. E nenhum deles foi alvo das escabrosas golpadas a que assistimos com os casos “Freeport”, “Licenciatura”, “Casas da Guarda”, “Face Oculta” e “Inventona de Belém”, os quais exibiram um assustador conluio entre magistrados e jornalistas na violação da deontologia e da lei para fins de derrube político através de escutas e campanhas negras. O resultado lateral deste vale-tudo é quantitativamente aferível: nunca houve, depois do 25 de Abril, um político tão devassado policial e jornalisticamente como Sócrates.
A que se deve esta fúria que não conhece distinções ideológicas e de classe, reunindo manipuladores profissionais com fanáticos, membros das elites sociais e intelectuais com analfabrutos, ranhosos com imbecis, e que até conta na sua legião odiosa com figuras gradas do PS? Antes de todas as variadíssimas respostas, uma aparece em primeiríssimo lugar: só a quem se reconhece poder para alterar factores culturais que estruturem a vivência dos grupos se fazem maldades de tipo, duração e logística como estas a que assistimos desde 2004. Caso Sócrates fosse apenas mais um, banal na sua idiossincrasia, não se perderia tempo com ele. Acontece que são os seus declarados inimigos que não o largam, sugerindo algo mais do que oportunismo táctico dada a intensidade das paixões expressas: tudo indica estarmos perante uma resposta do foro traumático. Algo se terá passado neste últimos 6 anos que até levou a referência máxima da direita, Cavaco Silva, a perder por completo o sentido das responsabilidades e a conspurcar a Presidência da República no seu afã de ostracizar Sócrates. Que terá sido?
Sporting místico
O Sporting de Sá Pinto exibe os sinais da verdadeira mística: ser forte com os fortes e fraco com os fracos. Não há nada de errado com isso e vai dar-nos um taça europeia, mas alguém devia dizer-lhe que retirar o Matías ao intervalo é uma pulsão sacrificial que pode ser guardada para os jogos particulares.
Algum dia havia de concordar com um texto do Corta-fitas
e concordo com este. Os livreiros e editores estão-me a dever largas horas perdidas a chafurdar, por falta de uma expressão mais adequada, nas secções infantis até encontrar alguma coisa que valha a pena ler aos miúdos, nem sempre com sucesso. O que me vale são os escritores e ilustradores estrangeiros. Portugueses, contam-se pelos dedos de uma mão. E com dedos amputados. Para um suposto país de escritores e poetas, não está mal. Por isso, alguns conselhos não-solicitados:
– os miúdos não são estúpidos. Ou pelo menos não tanto como tu. Esta é a regra de ouro.
– a tua amiga ilustradora/pintora/artista é uma merda. Se os desenhos podiam estar expostos numa galeria qualquer em S. João do Estoril, não servem nem para papel de embrulho, quanto mais para um livro infantil. Segunda regra de ouro.
– És suposto contar uma história. Conta-a, se a tiveres, e deixa-te de literatices baratas. História, enredo, lembras-te do que é?
– Longas descrições pseudo-poéticas com folhas douradas e ventos gélidos da fada do inverno fazem-nos adormecer. Ou pedir outro livro. Avança com a porra da história e deixa-te de coisas. Isto, claro, partindo do pressuposto que tens uma história e não estás a engonhar para encher páginas.
– Sim, é perfeitamente possível que eu seja um imbecil ignorante. Mas adivinha lá quem é que compra o livro?
Servir a dois senhores continua a ser uma péssima ideia
Quando dois “comunicadores pró-governamentais” saem à liça para intervir num debate de ideias, para mais com a mesma estratégia de intervenção, é natural que se desconfie das intenções. E quando o seu argumento-chave repete aquele que já havia sido utilizado pelo jornalista criticado – argumento esse que já estava refutado e que os spin doctors repescaram -, acabam por lhe prestar uma má ajuda, cumpliciando-o, decerto contra a vontade dele, em intenções que não tinham sido imputadas.
Que argumento foi esse? O de que eu teria utilizado “fontes anónimas” para elaborar a crítica àquela notícia. Na verdade, na análise que elaborei há duas semanas, referi três testemunhos que me chegaram de trabalhadores dos transportes que refutavam a veracidade das afirmações produzidas na notícia. Na resposta, o jornalista insurgiu-se contra “cartas anónimas” de “leitores anónimos”. Esclareci que não se tratava de ninguém anónimo, estavam identificados perante mim e eu havia decidido resumir a sua identificação a duas iniciais, por razões que cada vez mais se me afiguram ajustadas.
Nas presentes circunstâncias – que, diga-se, em boa verdade, são apenas a continuidade de uma estratégia deplorável iniciada pela anterior governação de fomentar ódios e invejas entre portugueses – […]
Óscar Mascarenhas leva 62 anos de uma vida dedicada ao jornalismo. O seu currículo é altamente prestigiante, acumulando prémios e cargos de responsabilidade sindical e deontológica. Do alto dessa autoridade, e adentro da sua filiação ao DN, não se atrapalhou nada para denunciar o sectarismo passista do jornal de que é Provedor. Nesta continuação da polémica por causa dos ataques que sofreu, Mascarenhas deixa uma nota de grave inquietação para todos nós, ao frisar que a protecção das suas fontes lhe parece cada vez mais justificada. Cada vez mais, em relação directa com a virulência dos que perseguem anónimos…
E depois, caída de pára-quedas, estabelece uma ligação entre as práticas populistas e persecutórias que são apanágio da direita triunfal e decadente e o anterior Governo que teria criado ódios e invejas entre os portugueses por razões estratégicas. Esta técnica de duche escocês talvez tenha méritos que me estão por ora a escapar, mas surgem bizarros num texto, e numa função, que não consta ter como meta o comentário político. Particularmente quando ele se esgota numa boçal insinuação. Que o tema é interessante, não está em causa. Mas, então, que o Óscar aproveite o espaço à sua disposição e apresente os seus factos e argumentos. Terá aqui um leitor muito atento e agradecido. Se não o fizer, vamos ter de pensar em arranjar um Procurador do Leitor para lidar com as manigâncias e/ou tonteiras do Provedor.
Vinte Linhas 749
Aconteceu no Oeste, aconteceu na Beira Baixa
Chego à estação de Abrantes duas horas depois de sair de Lisboa. Viagem agradável mas palavras tristes do factor da CP: «Querem acabar com isto!». Percebi que não é apenas a minha linha do Oeste que eles querem destruir; é também a linha da Beira Baixa. Ligo à minha filha mais velha dando os parabéns ao meu neto Tomás; nasceu em 2006 mas o dia foi domingo, hoje é sábado. A minha filha mais nova veio esperar-me com o namorado mas ainda não chegaram. O meu filho do meio ficou a preparar o churrasco. A luz de Julho no Rossio ao Sul do Tejo entra num forte contraste com a massa líquida do Rio.
Ando desde 1998 a tentar convencer os meus sucessivos patrões desta grande verdade
Exactissimamente
Sobre Lisboa Menina e Moça de Lisa
Quando Elza foi embora
De volta ao Algarve natal
Falámos mais de uma hora
Naquele átrio principal.
Como não tinha postais
Dos seus quadros antigos
Ofereceu quatro iguais
De pintores seus amigos.
Primitivos modernos
Faltava uma designação
Nos jornais e nos cadernos
NAIFS não estava à mão.
Desenho numa gaveta
Este quadro de Lisboa
Canteiros de uma praceta
Por cima a gaivota voa.
Entre pedras do Mosteiro
E as ameias do Castelo
Olhamos um cacilheiro
E um eléctrico amarelo.
Santa Engrácia, panteão
Autocarro para Belém
Cristo Rei em oração
Reza por nós também.
Que fazemos da cidade
Trajecto de teimosia
Nas praças a liberdade
Nas casas uma alegria.
E quando o dia se cala
Das cantigas e pregões
O artista fecha a mala
Amanhã há mais razões.
Esta é a receita que a direita portuguesa continua a repetir dever ter sido aplicada há muito mais tempo
A prova de que a Europa cometeu uma estupidez colossal, trágica:
Juncker e Thomsen admitem erros no programa de ajustamento grego
Dando origem a absurdos como este, reveladores da insanidade da ideologia da austeridade:
Os turistas alemães geraram menos 30% de receitas do que no ano anterior e os ingleses menos 10%. “Este ano, vamos ter um problema com a Alemanha”, reconhece Pavlos Geroulanos, ministro da Cultura e do Turismo, que diz que alguns mercados menos tradicionais, como a Europa do Leste, estão a ajudar a compensar parte destas perdas.
Mesmo assim, o ministério que dirige já solicitou às Finanças que libertem fundos para que se lance uma campanha promocional da imagem da Grécia na Alemanha e no Reino Unido. As limitações orçamentais, contudo, tornam difícil a concretização deste plano.
Good food for good thought
Is intelligence innate, or can you boost it with effort? The way you answer that question may determine how well you learn. Those who think smarts are malleable are more likely to bounce back from their mistakes and make fewer errors in the future, according to a study published last October in Psychological Science.
Researchers at Michigan State University asked 25 undergraduate students to participate in a simple, repetitive computer task: they had to press a button whenever the letters that appeared on the screen conformed to a particular pattern. When they made a mistake, which happened about 9 percent of the time, the subjects realized it almost immediately—at which point their brain produced two tiny electrical responses that the researchers recorded using electrodes. The first reaction indicates awareness that a mistake was made, whereas the second, called error positivity, is believed to represent the desire to fix that slipup. Later, the researchers asked the students whether they believed intelligence was fixed or could be learned.
Although everyone slowed down after erring, those who were “growth-minded”—that is, people who considered intelligence to be pliable—elicited stronger error-positivity responses than the other subjects. They subsequently made fewer mistakes, too. “Everybody says, ‘Oh, I did something wrong, I should slow down,’ but it was only the growth-minded individuals who actually did something with that information and made it better,” explains lead author Jason Moser, a clinical psychologist at Michigan State.
People who are not so inclined, however, can change their approach, Moser adds. “A growth mind-set is about focusing on the process—as in the experience—rather than only on the outcome,” he says. “Setbacks are opportunities to gain information and learn for the next time, so pay attention to what went wrong and get the information you need to improve.”
Boost Intelligence by Focusing on Growth
Why some people learn more from their mistakes
Democracias desiguais
Lê-se no Der Spiegel (versão inglesa) que o pacto orçamental proposto pela Alemanha aos 27 Estados-Membros e recentemente assinado por 25 (com exceção do Reino Unido e da República Checa) carece, para ser aplicável na Alemanha, da aprovação de, pelo menos, dois terços dos membros do Bundesrat, a câmara alta da Alemanha, onde têm assento os representantes dos diversos Estados (Länder) e onde a CDU de Merkel não tem maioria. Acontece que, por exemplo, no Estado de Baden-Württemberg, governado por uma coligação de Sociais-Democratas (SPD) e Verdes, são exigidas contrapartidas em matéria fiscal para essa aprovação. Isto porque, dizem eles, a satisfação das exigências do Pacto exige-lhes uma aceleração da consolidação orçamental, impossível de concretizar no curtíssimo prazo previsto (como em todo o lado na Europa, as dívidas “locais” são elevadas). A coligação que dirige o referido Land exige, pois, liberdade tributária, nomeadamente para aumentar os impostos sobre os mais ricos. A política tributária é decidida a nível federal. Há, portanto, a probabilidade de o Pacto não passar na própria Alemanha, o que não é muito importante a nível nacional, dado que já existe na legislação alemã um travão à dívida. Mas, a nível europeu, haverá decerto grande impacto.
Perante isto, que mais não é do que a democracia a funcionar, mas que também prova que não estamos desligados uns dos outros, nós perguntamo-nos, olhando para o nosso caso, se não haverá algo de muito errado no funcionamento da Europa. Se não deveríamos nós ter também uma palavra a dizer antes de aceitarmos que nos matem a economia e nos “enxotem” e depois nos “roubem” os nossos melhores quadros. Se a democracia, na Alemanha, condiciona a política da chanceler que por lá é eleita, incluindo a sua política europeia, como aceitar o regime de ditadura sem apelo que é imposta por quem tem o poder do dinheiro a quem não tem sequer o direito de votar no ou na chefe do executivo alemão? Porque razão hão de os problemas do Estado de Baden-Württemberg ser mais importantes do que os da Lusitânia?
Estás quase lá, Rui
Para além disso, Rio adicionou também questões como o sistema judicial que “funciona tão mal” ou as “perseguições” feitas pela comunicação social e, por último: “Quando tantas notícias surgem que sociedades secretas ou semi-secretas têm uma influência dominante na nomeação de pessoas convenhamos que não tem a ver com a democracia.”
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Encontrar alguém na direita, mas também na esquerda santa e pura e verdadeira, que denuncie os assassinatos de carácter e difamações sistemáticas feitos pela comunicação social é experiência mais improvável do que encontrar trabalho depois dos 50 anos não tendo habilitações. Rui Rio está de parabéns, assim, pela simples e superficial menção ao fenómeno. Contudo, ele utilizou o plural, falou em “perseguições”. Tendo em conta que apenas um português, que nem sequer vive em Portugal neste momento, é perseguido pela comunicação social ano após ano, mês após mês, semana após semana e dia após dia, a pluralidade referida tem de remeter para a multiplicidade dos órgãos de comunicação que se envolvem nessa perseguição.
Rio está quase lá. Qualquer dia até dá nomes aos bois e tudo.
Vinte Linhas 748
No Verão desse tempo havia tempo para tudo (foto da velha igreja de S. Catarina)
Todos se lembram mas poucos recordam – esta adversativa do poeta Carlos Garcia de Castro vem mesmo a calhar para o início de uma memória. Algures no tempo entre 1961 e 1966, nas férias grandes da escola, havia tempo para tudo. Descansava-se na parte final de Junho, todo o Julho, todo o Agosto e todo o Setembro. É que as aulas só começavam a 6 porque 5 de Outubro era feriado nacional. As minhas idas à loja do senhor Ernesto e da menina Judite tinham deixado de ser para trocar ovos por arroz, açúcar e sabão e passaram a ser por causa do correio. Não havia ao tempo estação dos CTT e era ali pelas duas da tarde que a loja se enchia de gente para ouvir cantar em voz alta os nomes nos endereços dos envelopes. Com o arranque da guerra em África (não se podia dizer guerra) começaram a circular os aerogramas e aumentaram muito os objectos postais em circulação.
Perguntas complicadas
No uso do direito de resposta, com enorme elevação, ILGA põe Pedro Picoito no lugar
Ao abrigo do direito de resposta e de retificação da Lei da Rádio, e em relação à crónica de Pedro Picoito emitida no programa de informação “O principio e o fim” do passado dia 11 de março, a Associação ILGA Portugal solicitou a leitura e emissão do seguinte texto:
“Para ganhar o argumento da verdade científica, Pedro Picoito foi buscar estudos: mas não uns estudos quaisquer. Apoiou-se em investigações feitas há dezenas de anos, quando há investigação bem mais recente; ou conduzidas por pessoas que pela sua conduta foram desacreditadas cientificamente pelos pares, quando há investigadores de renome e unanimemente respeitados nos seus métodos científicos; e, claro, não fez qualquer cerimónia em descontextualizar informação, pervertendo-a totalmente, nem em retirar conclusões abusivas que os próprios estudos não permitem.
Acontece que o consenso científico é absolutamente claro e transversal às áreas do saber no que toca às capacidades parentais de pessoas LGBT; e tanto assim é, que os maiores e mais respeitados colégios ou ordens profissionais do mundo são muitos claros na sua posição: é a qualidade das relações parentais e não o formato da família ou a orientação sexual dos pais ou mães que determinam o bem-estar das crianças. National Association of Social Workers, de assistentes sociais; American Academy of Child and Adolescent Psychiatry, de psiquiatras infantis e da adolescência; American Academy of Pediatrics, de pediatras; American Psychiatry Association, de psiquiatras; American Psychological Association, de psicólogos são apenas algumas das instituições que reúnem milhares dos mais respeitados profissionais, que têm acesso a toda a investigação científica que é feita e não têm qualquer hesitação em aconselhar os Estados a legislar no sentido de proteger estas famílias. Foi também, aliás, este o consenso largamente partilhado na conferência internacional “Famílias no Plural: alargar o conceito, largar o preconceito” pelos vários investigadores, portugueses e estrangeiros, presentes no ISCTE em outubro passado.
As preocupações expressadas por Pedro Picoito em relação ao ambiente familiar não deixam de ser importantes – é fundamental de facto o Estado conseguir apurar a que tipo de ambiente familiar está a entregar uma criança quando esta é adotada. Mas, mais uma vez, é de má fé que usa argumentos violentos e insultuosos para as muitas pessoas gays e lésbicas, grande parte das quais são, aliás, já hoje bons pais e boas mães. É que os serviços oficiais responsáveis por avaliar uma família candidata a adotante devem – têm que ser – capazes de aferir se aquela família é adequada para aquela criança, e se possui as características necessárias para garantir um ambiente equilibrado. É, portanto, absolutamente relevante que esta avaliação seja bem feita, sempre, sejam os candidatos hetero ou homossexuais. É perigoso, além de obviamente preconceituoso e ofensivo, determinar apriori que um casal de pessoas de sexo diferente constitui uma boa família e um casal de pessoas do mesmo sexo será uma má. Não, os profissionais têm que saber avaliar sem margens para dúvidas – e sem preconceitos – as motivações e capacidades parentais de todas as famílias, da mesma forma.
Na ânsia de provar o seu argumento, Pedro Picoito – e a rádio renascença, ao veicular a sua mensagem – não fazem qualquer cerimónia em insultar violentamente milhares de famílias portuguesas. É que as famílias com pais ou mães que são lésbicas e gays estão cá, em Portugal também, há anos e anos. É também as nossas crianças que atingem quando veiculam preconceitos e não têm qualquer pudor ético em tentar manipular informações. Acontece que as nossas famílias são baseadas no amor, não no ódio. E por amor aos nossos filhos e filhas, não permitimos que sejam insultadas desta forma.”
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