Algum dia havia de concordar com um texto do Corta-fitas

e concordo com este. Os livreiros e editores estão-me a dever largas horas perdidas a chafurdar, por falta de uma expressão mais adequada, nas secções infantis até encontrar alguma coisa que valha a pena ler aos miúdos, nem sempre com sucesso. O que me vale são os escritores e ilustradores estrangeiros. Portugueses, contam-se pelos dedos de uma mão. E com dedos amputados. Para um suposto país de escritores e poetas, não está mal. Por isso, alguns conselhos não-solicitados:

– os miúdos não são estúpidos. Ou pelo menos não tanto como tu. Esta é a regra de ouro.

– a tua amiga ilustradora/pintora/artista é uma merda. Se os desenhos podiam estar expostos numa galeria qualquer em S. João do Estoril, não servem nem para papel de embrulho, quanto mais para um livro infantil. Segunda regra de ouro.

– És suposto contar uma história. Conta-a, se a tiveres, e deixa-te de literatices baratas. História, enredo, lembras-te do que é?

– Longas descrições pseudo-poéticas com folhas douradas e ventos gélidos da fada do inverno fazem-nos adormecer. Ou pedir outro livro. Avança com a porra da história e deixa-te de coisas. Isto, claro, partindo do pressuposto que tens uma história e não estás a engonhar para encher páginas.

– Sim, é perfeitamente possível que eu seja um imbecil ignorante. Mas adivinha lá quem é que compra o livro?

21 thoughts on “Algum dia havia de concordar com um texto do Corta-fitas”

  1. é verdade isso que dizes, sim. é muito difícil a produção. estou a pensar concorrer a um prémio com um conto infantil mas precisamente por ser algo tão frágil e especial ainda não me decidi. mas quando li isto tive uma ideia: se resolver avançar, envio-te e tu lês aos teus meninos e depois reproduzes-me fielmente a sua, deles, franqueza. que dizes? :-)

  2. Considerares a coisa “frágil e especial” é um mau começo, na minha humilde opinião. Os miúdos, em muitos aspecto, são piores que os cães: sentem o medo a milhas. Não infantilizes a coisa, não te preocupes por aí além com os “sentimentos” dos miúdos, e diverte-te a escrever, é o que te posso dizer. E esquece o prémio. Estás a trabalhar para quem, para o público infantil ou para os adultos que o atribuem?
    De resto, combinado ;)

  3. Aqui em casa resultava bem a Luisa Ducla Soares e o livro “Conto estrelas em ti”, com poemas dela, do Mário Castim, da Teresa Dacosta e mais uns tantos, coordenado por José António Gomes e ilustrado por João Caetano foi livro de mesa de cabeceira durante muitos anos e, ainda hoje, continua sem ir para o sotão.
    Quanto ao resto assino por baixo.

  4. A Luísa Ducla Soares é minha vizinha de baixo, curiosamente. Tem algumas coisas interessantes, mas não muito populares cá por casa. E raramente vejo os livros dela nas livrarias.

  5. Se as minhas filhas morassem por cima da Luisa Ducla Soares não saíam de casa dela… :)
    Estes dois poemas, da Ducla Soares, eram um sucesso por aqui, elas adoravam o nonsense:

    É tão bom não ter juízo!

    Ser um rapaz com juízo?
    Ah, isso não é preciso!
    É tão bom ser diabrete,
    Pintar de verde o tapete.
    É tão bom ser um mauzão,
    Deitar pimenta no pão.
    É tão bom ser um pirata,
    Puxar o rabo da gata.
    É tão bom ser um traquinas,
    Despentear as meninas.
    É tão bom ser um travesso,
    Vestir tudo do avesso.
    É tão bom ser um marau,
    Pôr no lixo o bacalhau.
    É tão bom ser desastrado,
    Cair no lago calçado.
    É tão bom ser malandrão,
    Roer os ossos do cão.
    É tão bom ser um maroto,
    Pôr no prato um gafanhoto.
    Tão bom ser insuportável,
    Pisar um senhor notável.
    Ser sempre inconveniente,
    Ao careca dar um pente.
    É tão bom ser mau, mau, mau,
    Soltar na aula um lacrau.
    O pior é quando a mãe
    Resolve ser má também.

    Onde está o Gato?

    Os burros tocam viola,
    Os ratos varrem a rua,
    As meninas usam barba,
    Eu vivo sempre na lua.

    Os carapaus têm lã,
    As galinhas têm espinhas,
    As vacas dão Coca-Cola,
    E chocolates as vinhas.

    Os gatos calçam sapatos,
    Olha a trança das serpentes,
    As moscas falam francês,
    Os galos lavam os dentes.

    As casas voam no ar,
    As nuvens dormem no chão,
    Os olhos fazem chichi
    E crescem rosas na mão.

    Miúdo que estás a ouvir-me,
    Pois tens orelhas de rã,
    Diz lá o que está errado
    Ou faço queixa à mamã.

    Luísa Ducla Soares
    in Conto estrelas em ti, Campo das Letras

  6. Ola,

    Tenho a mesma experiência, provavelmente menos significativa porque estou menos tempo em Portugal. Dois reparos.

    1. Escrever para crianças é das coisas mais dificeis que ha. Tenta ler em voz alta para crianças (eu fiz isso todos os dias durante mais de 10 anos para as minhas filhas) e vais ver que percebes muito melhor a diferença entre um classico e um livrito qualquer. Não ha prova mais terrivel. Dito isto, tenho memoria de escritores portugueses que escrevem muito bons textos para crianças (o Antonio Torrado por exemplo). Ja ilustradores, que eu visse, ha muito menos (bons, digo).

    2. Nos nossos dias de competição desenfriada entre a vida (em geral) e o ecrã de computador pespegado no teu telemovel, um dos fenomenos mais caricatos é a evolução das secções infantis nas livrarias, que passaram a funcionar como as secções de brinquedos nos hipermercados. Não servem para atrair os miudos (esses, coitados, preferem de longe ir ao jardim), mas como desculpa para os pais não terem a desfeita de constatar que 100 % do capital que despendem com papel impresso é aplicado no Recorde ! As relações entre esse negocio e a leitura – tal como tu e eu a praticamos, obedecendo a um padrão de que ha memoria pelo menos desde Santo Ambrosio – são meramente acidentais. Portanto, e é com muita pena minha que digo isto, esquecendo deliberadamente muitos livreiros que exercem correctamente o seu oficio, mas se queres objectos legiveis mesmo, vai antes à biblioteca ! E despacha-te, ja agora, porque mais uns anitos e teras de ir ao museu…

    Boas

  7. Ler é reler.

    Se os livreiros que digo estar a esquecer deliberadamente fossem “muitos”, a minha frase não faria muito sentido. São “poucos”, como é obvio.

    Vocês ja tinham corrigido mentalmente, claro…

    Boas

  8. concordo em nada contigo, Vega. em primeiro lugar a escrita para crianças não é nem frágil nem especial mas fragilíssima e especialíssima – importa, antes de mais, ter a real noção que elas não usam coadores sociais: são impulsivas e espontâneas e vivem, não a cores, a preto e branco. são, por isso, como os cães, quase ao mesmo nível deles não fosse possuirem a maldade que eles não têm. em segundo lugar, não tenho – nem quero – por que esquecer o prémio se é ele, se têm sido eles, que me permite fazer a mensagem – que quero passar – chegar e neste caso chegar ao público infantil. em terceiro lugar escrevo sempre comigo dentro que passa a ser para quem escrevo e escrever é sempre um prazer, uma diversão e também uma necessidade. agradeço-te, de qualquer forma, a tua opinião que é tudo menos humilde. esse piscar de olho, se foi frágil, gostei. :-)

  9. O problema é que os livros infantis começaram a querer competir com todas as outras actividades lúdicas, como se essa fosse a única forma de as crianças virem um dia a gostar de ler, e é claro que é impossível convencer um miúdo de 4 ou 5 anos que um livro é tão divertido como os Hungry Birds jogados no tablet dos pais. No entanto, enquanto os autores infantis quiserem convencer a criançada que o livro deles é um eficaz substituto do vídeo preferido ou do jogo da consola levarão como resposta um longo bocejo porque eles podem ser pequenos mas não são estúpidos.
    Nunca tentei convencer as minhas filhas a comerem bróculos dizendo-lhes que eram tão deliciosos como gelado de morango mas o certo é que elas os comem e gostam.
    Não me lembro de ter livros antes de ter começado a ler. Lembro-me de o meu pai me contar histórias na cama, lembro-me de ter aprendido as letras no Primeiro de Janeiro e lembro-me, perfeitamente, do primeiro livro a sério que li, tinha uns 6 anos, comprei-o também para as minhas filhas, A Floresta, da Sofia de Mello Breyner. Lembro-me de ler o Hobbit, Ben-Hur, Tom Sawyer, a Enid Blyton toda, O Último Moicano e por aí fora e foram exactamente estes livros que passei para as minhas filhas, vindos directamente das estantes da casa dos meus pais, quando começaram a ler livros. As pilhas de revistas do Tintin já tinham vindo antes.
    No entanto sempre comprei livros infantis para as minhas filhas, daqueles muito tontos e muito coloridos, habituei-as a viverem no meio deles, mas poucas vezes recorri às estantes para lhes contar uma história à noite. Primeiro porque não sou masoquista e depois porque é inútil, os miúdos pequenos, e as miúdas também, se gostam de uma história querem sempre a mesma história e se estiver a ser contada de um livro exigem as mesmas palavras, a mesma pontuação, as mesmas pausas. É cansativo, é chato e o facto de ser mãe não faz de mim uma mártir nem exige que me imole no altar da escrita. Contei-lhes muitas histórias, li muito poucas. Queriam saber onde as aprendi? Li-as em livros quando era pequena.
    Os livros que lhes comprava? Andavam por ali. Peguem neles, brinquem com eles, habituem-se a eles, que se vos aguce a curiosidade para decifrarem o que dizem as letras, que história eles contam e até saberem como se faz podem usá-los para construírem casas ou brincarem como vos der na real pinha. Quando começarem a ler irão perceber o que lá está dentro e descobrir histórias diferentes. Começaram, descobriram e tanto uma como a outra se não são leitoras compulsivas lêem mais livros num ano que alguns miúdos da idade delas já leram em toda a vida. Que a maior parte dos livros infantis que lhes enchiam o quarto nunca foram lidos por elas? Não, não foram, a serventia deles foi outra, marcar território, e só serviram para isso mesmo. Eram maus? Deviam ser, nunca foram lidos, quando lhes pegaram perceberam isso mesmo e passaram ao outro a seguir. Também jogavam nas consolas e papavam filmes atrás de filmes mas lá está, também gostam de bróculos e de gelados de morango, sabem que uns não são substitutos dos outros e nunca os legumes lhes foram servidos com smarties coloridos à volta porque tenho a certeza que, no dia em que o fizesse, nunca mais me perdoariam o ter tentado enganá-las.
    Sim, chateia-me esta coisa de se querer impingir um livro a um miúdo como se disso dependesse o futuro dele. Eles não sabem ler, eles só querem uma história e, de preferência, que seja contada e não lida.

  10. os livros para as crianças que não sabem ler existem, teresa, porque os pais dessas crianças são fanados de criatividade e de vontade e de paciência. vai daí, todos os que dão uma mãozinha nisso são de louvar – são adendas, pais postiços de histórias, que achocolatam a imaginação das gentes pequenas. :-)

  11. Esses livros não são para as crianças, são para os pais.
    A minha filha acabou de chegar, perguntei-lhe se se lembrava de eu lhe ler livros. Para além da Ducla Soares, e porque os poemas acabavam sempre em parvoíce com toda a gente aos saltos nas camas, diz que não se lembra de eu lhe ler histórias mas confirmou o que eu pensava – diz que para ela os livros são como o fogo, por mais que lhe dissessem o que era só aprendeu quando lá pôs a mão. Com os livros foi a mesma coisa, andavam ali, sempre tinham andado ali, despertavam-lhe a curiosidade e assim que conseguiu foi ver como eram.
    (agora, do alto dos seus 14 anos, diz-me que anda a reler os livros que leu aos 8 e 9 anos porque acha graça a diferença de perspectiva….. :))

  12. Teresa, esses poemas são deliciosos. Tenho que explorar mais esses livros. Se os encontrar, isto é.
    A minha experiência não é essa – os meus sempre gostaram que eu lesse, e de variar os livros. Sempre os mesmos, mas em rotação. O mais velho, aliás, do alto dos seus 11 anos, ainda hoje me pede que lhe leia eu um pouco do livro que está a ler quando acabo de ler à irmã. Rituais, suponho. É bom que existam à volta dos livros, e sempre existiram desde muito pequenos.
    Já quanto à teoria sobre as fracas ofertas disponíveis, e não tendo nenhum contacto com o mercado da edição, acho que a maioria do que se oferece por aí segue uma lógica da compra por impulso: o livro com capa gira, as cores garridas, o livro com cheiros, com ofertas, o livro que promete aos miúdos qualquer tipo de satisfação imediata. Não sei se é reflexo da fraca literacia em geral do país, mas desconfio que sim, que em muitos casos serão os miúdos que escolhem e não os pais, que não estão para isso. E sendo assim, a lógica é a mesma do que a compra de outro brinquedo qualquer. O que brilhar mais, ganha. Tendo em conta a fraca condição financeira da maioria das editoras, quase que percebo a estratégia. É feia e predatória, mas é uma estratégia.
    Esses são um grupo. O outro, das pseudo-histórias poético-literárias, é simplesmente o reflexo de um mal bem maior que atinge os nossos autores, e essa é outra história.
    ___

    João Távora, vou ver isso. Mas só o logótipo do teu irmão a desenhar furiosamente já é muito bom sinal.
    ___
    João Viegas, concordo que a diferença é notória. Discordo que seja particularmente difícil. É que para além de ler regularmente, já houve muitas ocasiões – sobretudo em viagem – em que me pediram para inventar uma história. Nunca me pareceu particularmente difícil, sobretudo se respeitares certos cânones e padrões. E não me acho nada de especial. É preciso sobretudo, e essa é a ideia central do post, desligar o complicómetro.
    ___
    Olinda, longe de mim estar a dizer-te como é que tens de escrever ou viver a tua escrita. Se foi essa a mensagem que passou, não era intenção. Dito isto, não compliques. São miúdos. o que esperam de ti é que pegues na realidade e a simplifiques, não que a filtres.

  13. dk,

    também acho que as crianças se atraem por alguma perversidade nas histórias, falo por mim, com o capuchinho vermelho, por exemplo. E também pelo fascínio que vi em crianças que viam quadros da Paula Rego na exposição do CCB… O politicamente correcto em história infantil é coisa de adulto perverso no mau sentido, adulto que já não consegue ser criança.
    http://www.youtube.com/watch?v=LgkAhj89IGA

  14. Caro Vega,

    Acredito perfeitamente que os teus filhos fiquem presos aos teus labios quando lhes contas uma historia. Assim acontece com as minhas filhas e com toda a gente.

    Onde ja não te sigo é quando te autorizas desta constatação para concluir que é facil escrever para crianças… Não é, acredita. Escrever para crianças implica escrever textos que, lidos, soarão para toda a criança como uma historia contada pelo pai (mãe, avô, avo) dela.

    Tenta escrever um, lê-o em voz alta e compara com o capuchinho vermelho (por exemplo), e depois da noticias !

    Os adultos compram qualquer banhada desde que venha bem embrulhada. As crianças não vão em cantigas. Nem sequer as crianças que, com esforço e abnegação, ainda conseguimos ser por vezes.

    Boas

  15. edie,
    Também me parece. A parte final do seu comentário me lembrou isso aqui: conta-se que, já então famoso, Picasso pintava em alguma parte de Paris quando uma passante que conhecia a sua obra, ao examinar a tela, exclamou que seu neto também sabia fazer ‘aquilo’; ao que Picasso teria respondido: -Seu neto, sim, a Sra., jamais.
    very special sisters :) e Lemonade é estonteante- ta’ aqui no repeteco.

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