Vinte Linhas 748

No Verão desse tempo havia tempo para tudo (foto da velha igreja de S. Catarina)

Todos se lembram mas poucos recordam – esta adversativa do poeta Carlos Garcia de Castro vem mesmo a calhar para o início de uma memória. Algures no tempo entre 1961 e 1966, nas férias grandes da escola, havia tempo para tudo. Descansava-se na parte final de Junho, todo o Julho, todo o Agosto e todo o Setembro. É que as aulas só começavam a 6 porque 5 de Outubro era feriado nacional. As minhas idas à loja do senhor Ernesto e da menina Judite tinham deixado de ser para trocar ovos por arroz, açúcar e sabão e passaram a ser por causa do correio. Não havia ao tempo estação dos CTT e era ali pelas duas da tarde que a loja se enchia de gente para ouvir cantar em voz alta os nomes nos endereços dos envelopes. Com o arranque da guerra em África (não se podia dizer guerra) começaram a circular os aerogramas e aumentaram muito os objectos postais em circulação.

Eu procurava cartas da minha mãe em Vila Franca de Xira sempre com bons conselhos para me portar bem com a minha avó e o meu avô sem esquecer os tios Joaquim e Rosa; Rosa a quem eu chamava tia velha com carinho. Ela achava graça e incorporou essa alcunha quando se referia a ela mesma. Muita gente ia lá à loja só para saber quem tinha recebido carta.

A Maria Judite estava na loja do lado de dentro do balcão ao lado da mãe, do pai e do Almerindo, o caixeiro que também jogava à bola no nosso Catarinense embora fosse natural de Chãos de Baixo (Figueiró dos Vinhos) tendo chegado ali com a experiência de trabalhar no Paião com um feirante que batia os mercados todos naquela zona do País. Foi ele que trouxe por 500 escudos uma coreografia em papel vegetal do «vira dos moinhos» dos Esticadinhos de Cantanhede. A Maria Judite estava lá quando mandaram chamar o nosso ensaiador.

9 thoughts on “Vinte Linhas 748”

  1. Bom dia poeta.
    Não é muito diferente a talha da igreja da minha terra, tão barroca e tão dourada como a da sua, a missa ainda era coisa entre Deus e o padre, de costas para os seus fiéis.
    Os meus aerogramas eram distribuídos no “soto” da Natália, você na escola eu na guerra, SPM 1614, e o “almirante” que nunca mais deu notícias, aqui no Sul.
    Um abraço
    Jnascimento

  2. Obrigado amigo Joaquim. Que pena o Almirante nunca mais ter dado notícias. Ele já era mais que uma personagem, era uma figura, uma pessoa.

  3. agora todos recebemos correio, o vosso daqui do aspirina, e cada um – quem quer – vem dizer em voz alta que quer ser ouvido sem poder exigir, apenas reclamar, ser ouvido. como a mudança pode ser filha da serpente.

  4. Ora aí está mais um exemplo da redacção que se fazia naqueles tempos. O ca bresto sabe aparenta saber o que é uma adversativa, e elege-se como figura de tomo, num composto simplório de saudades que, de facto, não interessa. Porém, que se comente, já que o seu redactor – o gajo da rebista «lere», bem mais uma bez azucrinaru de cabessa de nós em jeito de formataçãoe cerábrica que nãoe pega. ò pazinho, oube, cuntinuase a falare da Maria Judite. Ela era a belha lá do sítio, e tu andabas cum bontade de saltar á corda. Oube, tu num lestes as cartas de conselho da pata que te pôze, pois tu xamas nomes muito feiose ás peçoas. Dize-me lá cum é que te atrebes a por uma cruze de cristu crussificadu, cumo se tu creçes. ò pazinho, um cristãoe não xama cabrestos aos oitros, pá, tu ése uma cuntradissãoe. Oube, e depois qui é quacontece pur a maria judite lá estare quando mandaram xamar o insaiadore, pá? foi decretadu feriado nassionale ou será que a Benedita lanssoue fuguetes e tu nesse dia cumestes entrecosto assadinho lá nu meio da cuzinha, limpastes a boca à manga, ajuntastes-lhe o ranho berde, engulistes tudo e fostes a alargare o calhaue no meio do milheiral? hein?
    um tipo cum as tuas caracteristicase nunca pudia sere do sportem, pá e mesmo açim do benfica, tô em crere que logo te correm á pantufada, pá.

  5. Alguns nunca escreveram aerogramas de Angola, porque foram para a frança lavar pratos.

    Mandavam as remessas para o Salazar encher os cofres e fazerem casas com telhados verdes e pretos.

    Agora foi para Angola o Mira Amaral e o Coelhone com a Mota-Engil, é só pagar o visto não custa nada.

    Nem é preciso levar G3 mas parece que não querem os doutores que nos sobram, já lá têm muitos, agora que já há telemóvel nem era preciso aerogramas.

    É pena.

  6. ó BENFIQUISTA e numa habia pur lá uma casa onde todos iam a bere a telebisãoe? Oube se queres cuntare a bida na altura conta-a bem, purque senão ficase iguale ao Salazare, que mandava retratare o que num existia, pá.dizes tu. E prá cousa ficare melhore debes acriscentare que tamém habia lá uma peçoa que lia as cartas prós que num saviam ler. essa peçoa num eras tue, purque andabas em litigio cum a gaja que te lixoue na terceira classe e te feze atrasare esse vrilhante curricolum académico de bila franca. se tu na altura subeçes do cesário, lá na benedita já te tinham feito uma istátua, pá.mas sempre podes pore que alguém muito importante, teue amigue savia ler, era dôtore, e prontose, fica a história mais melhore cumpleta.

  7. Isto não são recordações, é conversa da treta. Dizes tu:
    “Muita gente ia lá à loja só para saber quem tinha recebido carta.”
    Grandes filhos da puta, era assim que te devias referir a essa gente que não tinha nada que fazer e ia coscuvilhar a vida dos outros. Essa era a verdade e deixa-te de fantasias. Se contares as coisas como elas se passaram talvez tenhas futuro, agora dourar a pírola é que não vais a lado nenhum.
    Vou-te dar um exemplo para perceberes como se escreve e se contam as memórias. Se o ti Alfredo deu um peido tens que dizer que ele se peidou e não vires rodear a questão dizendo que ele sofria de gases. Os escritores contam a realidade. Se um trabalhador do Alfeite der uma martelada num dedo não vai dizer: Ai Jesus que já me aleijei. Dirá quando muito: porra! que já fodi o dedo.
    Percebes a diferença?

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