Sextas-feiras sombrias

14% é o nível mais recente de desemprego que se conhece. É um número que nos parece brutal, embora na realidade não o seja. Porque é intermédio. Porque sabemos perfeitamente que que algures no futuro, algum responsável político o vai brandir num debate no parlamento, triunfante , com o argumento “já conseguimos reduzir o desemprego para 14%, o que prova que estamos no bom caminho”. Não são os 14% que me interessam. Interessa-me um outro número. E esse número é 12. Não doze por cento, mas doze pessoas. As doze que, uma de cada vez,  entraram no gabinete na ultima Sexta-feira, e saíram pouco depois sabendo que fariam em breve parte dessa percentagem. Pequena, quase invisível, mas parte.

Todos eles já o sabiam, claro, não houve surpresas ou choque. A empresa já tinha anunciado a redução, e antes disso toda a gente já tinha adivinhado a diminuição de encomendas. Era apenas uma questão de tempo.  E eles sabiam, esses doze, que na condição de temporários seriam os primeiros a sair. O que tornou a minha tarefa um pouco mais expedita. Resumida, essencialmente, a um  “entra, senta-te” logo seguido de um curto “já sabes, não é?” – “Sei”, passando então à tarefa prática de explicar as condições oferecidas, ao modo como se iria processar a coisa – “recebes uma carta, depois…” – e o acesso ao fundo de desemprego, para quem tinha direito. Nem todos tinham. Não valia a pena massacrá-los com discursos ensaiados sobre “condições de mercado”, percentagens ou números de encomendas, e muito menos o “temos muita pena de ter de te deixar ir, fazias um bom trabalho”. Apesar de esta última ser rigorosamente verdade. Faziam, os temporários normalmente esforçam-se mais que os outros, compensando largamente em vontade o que lhes falta em experiência, e temos realmente muita pena. Mas é o que é, a economia não perdoa. Eu sei, e eles também sabem.

Esta Sexta-feira foi, então, o momento em que qualquer réstia de esperança foi deitada por terra. E existia mesmo, essa vaga esperança, porque quando as reduções foram anunciadas não foram logo referidos nomes. E uma meia-dúzia deles realmente ficaram, num universo de muita gente. Há sempre um “pode ser que seja eu”, perfeitamente patente nas perguntas ansiosas, quase diárias, sobre “quando é que  nos diziam”, e “já sabe alguma coisa?”. Saber sabia, quase desde o início, e o cuidado foi extremo em evitar qualquer expressão, qualquer atitude que pudesse ser interpretada como um sinal de esperança. Que no caso daqueles doze, os doze pelos quais sou responsável, era inexistente.

E por isso, após a breve passagem pelo gabinete, regressaram ao trabalho, desiludidos mas conformados. Era oficial, pelo menos, e não havia mais ilusões. Ainda empregados, muito em breve estatísticas. Dos milhares e milhares que estão neste momento nas mesmas condições por esse país fora, estes doze foram os que me coube a mim olhar nos olhos e, um por um, despedir. Boa merda de Sexta.

5 thoughts on “Sextas-feiras sombrias”

  1. Alguém me passou a informação de que o Hotel Avenida Palace está à procura de recepcionistas fluentes em Alemão. Passem esta mensagem a quem ela puder ser útil. Um por todos…

  2. para quem já teve de fazer o papel que o Vega teve de desempenhar, como eu, digo-te, Val, que beleza é o último conceito que nos passa pela cabeça,nem o de compaixão:è mais de tirar o sono, um pesadelo, uma culpa que não é tua, mas também é, pela impotência, o que sentes é a dor (confesso que também um certo conforto: “por enquanto não sou eu”, mas isso só agrava a culpa que assumimos). E mais a revolta de estares a cumprir a pulhice alheia, lá longe, nos mercados, e nas políticas que os cumprem. Felizmente, agora tem sido mais ver os sorrisos de quem se vê aceite para entrar nesse mundo maravilhoso do trabalho (coisa excepcional, e por isso mais celebrada).

    Mas não é belo, é feio, muito, muito feio. Até cheguei a desejar ter o George Clooney a fazer esse trabalho por mim.

  3. Pois não, edie, despedir não é belo, antes será uma das piores experiências que se podem desejar a quem não seja psicopata. Mas é belo partilhar essa experiência, porque nos liga uns aos outros. E é por aí. Sempre.

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