O triunfal símbolo da nossa cobardia

Tal como a Penélope já comentou, vermos Cavaco a comparar a negociação do Orçamento para 2011 com a apresentação das medidas do PEC IV a levar a Bruxelas para aprovação europeia raia o grotesco tão debochadamente falaciosa é a ligação. O seu papel em 2010 não foi o de facilitar fosse o que fosse nas negociações mas apenas o de continuar a desgastar o Governo e a ficar bem na fotografia. Jamais o PSD abriria uma crise política em cima das eleições presidenciais, a qual levaria o País para a bancarrota imediata e para a mundial gargalhada. A direita seria responsabilizada por tamanha insanidade perdendo todos os actos eleitorais seguintes. Donde, a aprovação do Orçamento estava garantida, tratava-se apenas de um jogo hipócrita para preparar o passo seguinte: derrubar Sócrates após a reeleição de Cavaco usando um qualquer dos inúmeros argumentos à disposição na situação em que um Governo minoritário – alvo dos ataques mais soezes na história da democracia portuguesa – tinha de enfrentar uma desvairada crise europeia; tanto económica, como financeira, como política. O PSD aproveitaria o Orçamento para fingir que tinha aliviado a impopular e inevitável austeridade e Cavaco fingiria que era o pater familias que salvava a Nação de cair no abismo.

Recordemos as palavras do Presidente da República em cima da agora alegada violação do artigo 201 da Constituição:

“Esta questão passou muito rapidamente para o plano dos partidos e da Assembleia da República. Pela forma como o programa foi apresentado, pela falta de informação, pelas declarações que foram feitas quase nas primeiras horas ou até nos primeiros dias, tudo isso reduziu substancialmente a margem de manobra de um Presidente da República actuar preventivamente”, afirmou.

Em declarações aos jornalistas à saída da Universidade do Porto, o Presidente da República lembrou que está agendado um debate no Parlamento e, como tal, ele, “como último garante das instituições”, deve “actuar com muita ponderação, medindo as palavras com serenidade”.

Fonte

Que não se duvide do que diz: Cavaco actua com muita ponderação. Ao ter feito da tomada de posse uma manobra de boicote ao poder eleito, sabendo das circunstâncias de crescente degradação dos mercados da dívida e da preparação de um acordo com Merkel, qualquer resposta do Governo seria ganho. Se pedisse a demissão, o PS seria responsabilizado pela abertura da crise política. Se continuasse em funções, seria derrubado por não ter conseguido evitar mais medidas de austeridade. Por essa razão se ouviu a 9 de Março, do púlpito na Assembleia da República, que havia limites para os sacrifícios que se podiam pedir ao comum dos portugueses. Essa foi a senha equivalente ao Grândola, Vila Morena para os deputados do PSD e CDS que largavam urros de felicidade. Cavaco anunciava que o Governo ia cair, posto que estava obrigado pela Europa a continuar a austeridade. A campanha eleitoral, então, só teria de ser feita prometendo o fim dessa mesma austeridade. Era, e foi, limpinho.

A colossal desonestidade do Aníbal não começou no primeiro dia do seu segundo mandato. Na verdade, ele até tem uma excelente desculpa para nos tratar como trastes. É que este é o país que permite uma “Inventona das Escutas” e não há sequer um jornalista que o confronte com essa infâmia, que lhe peça uma explicação ou um juízo moral.

Somos todos cúmplices, Cavaco é o triunfal símbolo da nossa cobardia.

Vinte Linhas 745

José Águas não é Rui Águas e, já agora, também não é Raul Águas

Quando em Novembro de 2006 fui despedido do Jornal «Sporting» onde colaborei desde Agosto de 1988 e onde fui redactor efectivo desde Janeiro de 1997, alguém (Artur Agostinho) que sabia muito de jornalismo e entretanto faleceu, me explicou duas coisas importantes: Primeiro – foram despedidos vários jornalistas, um grupo, todos com mais de 50 anos de idade, não fui só eu. Segundo – as redacções dos jornais estão a ficar cada vez mais sem memória. Não por acaso um jornalista meu amigo foi convidado a voltar de novo à sua redacção para colaborar mesmo depois de reformado: é que há jovens jornalistas que não sabem muitas coisas sobre o Eusébio e uma delas é que o famoso jogador alinhou no Beira Mar e no União de Tomar. Eles não sabem.

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Lendo nas entrelinhas

A principal queixa de Cavaco no famoso prefácio é a suposta deslealdade institucional de Sócrates, mas será que Cavaco está satisfeito com a lealdade de Passos, aquela devida a quem o levou ao colo até ao pote? O primeiro ano do segundo mandato não correu propriamente bem a Cavaco, e Passos vai dando umas no cravo e outras na ferradura. Mas os elogios pontuais que faz ao papel do Presidente não devem ser suficientes para que Cavaco esqueça episódios como aquele em que Passos, numa atitude para lá de provocadora, decidiu enfrentar uma manifestação imediatamente a seguir a Cavaco ter evitado cruzar-se com uma outra. Isso e respostas como aquela em que Passos diz que não joga pingue-pongue com o Presidente. Mas com quem é que Passos julga que está a falar? São afrontas que Cavaco não tolera nem esquece, e numa altura em que a sua popularidade anda pelas ruas da amargura deve ser coisa para o deixar a espumar de raiva. Ora, lendo nas entrelinhas, algo que sempre ouvi dizer que tem de ser feito sempre que Cavaco abre a boca, não é de descartar a hipótese de que este seja um ataque do tipo dois em um. O objectivo principal é vingar-se de Sócrates, claro, mas é também um sério aviso a Passos. Se tudo correr normalmente, ainda têm pela frente uns anos de convivência e é bom que o sucessor de Sócrates não esqueça que, por vários motivos, lhe é exigida lealdade a dobrar, ou a triplicar, e que se continuar a armar-se em engraçadinho, como tem feito, Cavaco não lhe perdoará, importando-se pouco ou nada com as consequências para o País de uma guerra entre Belém e S. Bento. Bem vistas as coisas, se calhar, não foi uma coincidência o envio para o Tribunal Constitucional da lei do enriquecimento ilícito no dia seguinte ao do conhecimento do prefácio.

Entretanto, quando confrontado pelos jornalistas, Passos respondeu que não havia a tradição de comentar no exterior questões de política interna. Uma resposta algo atabalhoada que me fez lembrar aqueles futebolistas que, indiferentes às perguntas, respondem sempre da mesma forma. Ou será que Passos, se for questionado em território nacional, tenciona comentar este assunto?

Faz hoje 1 ano que

Faz hoje um ano que uma iniciativa nascida no âmbito dos movimentos políticos espontâneos e independentes, ou assim querendo parecer, foi aproveitada para se inscrever no processo de derrube do Governo. O tremendo sucesso que alcançou não teria sido possível sem a entrada em cena da comunicação social profissional e engajada, a qual divulgou militantemente o evento. O Presidente da República benzeu as tropas e toda a oposição aproveitou para reclamar vitória graças às calorias gastas pelos milhares e milhares que foram em romaria celebrar não se sabia o quê. Só se sabia o para quê: mudar. E, três meses depois, conseguiram mesmo mudar.

Para além da bondade cívica inerente à participação em festa de tanta gente que nunca tinha ido a uma manifestação, tendo o seu baptismo numa espécie de Woodstock ideológico, o episódio assinala a falência da estratégia daquela esquerda que glorifica a pornografia política, satisfazendo-se com a ocupação dos telejornais pelas imagens do niilismo urbano – o culto da rua, e quanto mais suja e degradada melhor. Trabalhar para o voto não é com eles, até porque não é na democracia que estão interessados.

Sorte a dele que a Constituição diz umas coisas e não diz outras

Cavaco vem invocar hoje o artigo 201.º da Constituição para justificar algumas das declarações/revelações/acusações do seu prefácio. Ora, o artigo 201.º já existia na Constituição em 2011. Invocá-lo, retrospetivamente, em 2012, um ano depois de não o ter usado como fundamento para a demissão do governo em 2011 é de uma estupidez a toda a prova (apesar de sabermos a razão porque não o usou, se recordarmos a impressão deixada pela violência e a intenção dos seus discursos de vitória e de tomada de posse). Tanto mais que considerou a atitude do governo como a mais grave deslealdade dos últimos 30 anos. O homem é burro e tem conselheiros igualmente burros.
Já para o caso de um presidente que conspira com a comunicação social para descredibilizar um governo e dar a vitória nas eleições a uma amiga sua, ou que apela a manifestações de rua para dificultar a ação de um governo, será a Constituição omissa?
Pelos vistos, é. Trata-se de casos não previstos. Pensou-se não ser possível. Ingenuidade do legislador.
Por isso, esta criatura hipócrita e amoral sente-se perfeitamente à vontade para escrever o que lhe apetece, incluindo falsidades e idiotices, escamoteando todo o seu comportamento lamentavelmente inconstitucionável. E com o alvo da sua raiva longe e/mas com demasiado nível para responder a idiotas (como ele bem sabe e aproveita).

Cavaquismo, o epílogo

O quase nada que resta da credibilidade da Presidência da República está neste momento nas mãos de Sócrates, que a protege com o seu silêncio e o seu sentido de Estado. Cavaco entregou ao arqui-inimigo o maior poder que se pode dar a alguém: o poder de ser misericordioso.

Impressionar sem roteiros, brilhar sem prefácios, seduzir sem deslealdades

Couples Troubles Often Cause Female Sexual Dysfunction
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Happiness: It’s Not in the Jeans
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Chimpanzees Have Police Officers, Too
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Exercise Instantly Affects DNA
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Sexist remarks and wolf-whistles could become criminal offences
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I Really Like You
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Nasty People in the Media Prime the Brain for Aggression
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Women Prize Men Who Try to Understand Their Emotions
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Consuming Berries Benefits The Brain
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Homeless youth: the next battle for gay equality
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QWERTY Keyboard Leads To Feelings About Words
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Bioethicist Calls Jon Stewart “Our Greatest Public Intellectual”

Quando o telefone não toca

Pedro Silva Pereira foi convidado para ir à SIC comentar o último número circense da figura que com maior aparato e simbolismo representa a decadência da direita em Portugal. O jornalista não estava interessado nas explicações que o caso suscitasse ao seu interlocutor mas em sacar uma assunção de culpa: Sócrates tinha mesmo sido desleal com Cavaco porque este não foi avisado do PEC IV. Logo no ano passado, depois de uns dias a ser sovado à direita e à esquerda face à ofensiva do Presidente de se dizer ferido na honra, o Governo agarrou-se ao aspecto supostamente informal da reunião em Bruxelas, onde apenas estaria em causa a apresentação das linhas gerais do novo programa de ajustamento ainda a precisar de ser finalizado e aprovado no Parlamento. Claro que o paleio não convenceu ninguém, até porque não tinha essa finalidade. Pura e simplesmente não era possível então, nem agora, contar a verdade: o Governo estava a lidar com um filha-da-puta que os queria comer vivos, o ambiente era de guerra aberta por Cavaco sem direito a prisioneiros. Qualquer tentativa de envolvimento do Presidente da República numa decisão governamental estratégica, depois do comício da tomada de posse que tinha correspondido a uma oficiosa e inusitada moção de censura, seria um exercício de supina hipocrisia e absoluta inutilidade. Cavaco usaria qualquer outro pretexto para levar ao derrube de Sócrates pela simples razão de ser aquele o preciso calendário para o fazer – depois da reeleição e antes que se vissem mais resultados positivos da austeridade nas contas públicas sem FMI a aterrar na Portela. Todavia, estas ilações não pedem mais do que dois neurónios para serem obtidas espontaneamente por quem passe os olhos pelos factos. Silva Pereira esforçou-se por relatar os acontecimentos sem recurso ao vernáculo, detalhando o contexto da situação. Até que o exasperado jornalista da Fox de Carnaxide aproveitou para dar um responso ao xuxa e saiu-se com esta maravilha:

Isso não teria sido tudo evitado com um telefonema, por exemplo?

Minuto 6:10

É sabido que as pessoas fazem qualquer coisa por dinheiro, e nem é preciso muito na enorme maioria dos casos. Podemos admitir, portanto, que o autor da pergunta recebeu uma encomenda e a despachou, ou que veste com tanto amor a camisola da SIC que se imagina um cruzado a combater os infiéis socialistas com as suas perguntas assassinas. Nestas hipóteses, ainda se manteria algum tipo de consciência a respeito do sentido psicadélico do que tinha acabado de ser dito. É que a pergunta estabelece que a falta de um singelo telefonema de S. Bento para Belém está na origem da crise política e subsequente queda do Governo, descalabro dos ratings da República, subida drástica e imparável das taxas de juro, perda da soberania, novo Governo apostado em ir mais longe do que a troika, corte de subsídios, aumento de taxas, diminuição de salários, desmantelamento do Estado social, destruição da herança positiva do anterior Governo, apelos à emigração, aumento descontrolado do desemprego, empobrecimento generalizado e ruína da economia por opção ideológica. Fazer de Sócrates o eterno e exclusivo responsável por qualquer mal que desça sobre esta terra teria aqui apenas mais um capítulo.

Há uma outra possibilidade, e é nessa que aposto. É a de o jornalista acreditar piamente que a tragédia com que se enche quotidianamente os ecrãs televisivos se deve à arrogância dos que foram antipáticos com o senhor Presidente da República, magoando-o tanto com o seu silêncio que Cavaco não teve outro caminho que não fosse este que nos trouxe aqui. Como ninguém se deu ao trabalho de fazer a chamada, como não quiseram gastar 1 minuto a falar com o choné no telelé, o homem amuou e resolveu foder esta merda toda de vez, mas os culpados são os cabrões que não fizeram o caralho do telefonema. Eis o que o pronome demonstrativo na sua abstrusa pergunta transporta com desolada angústia.

Sim, Portugal já esteve bem mais longe de se tornar num imenso Correio da Manhã.

Esteve um lindo sábado

1. Aguardo com impaciência o aparecimento de Mário Crespo na SIC-N com uma nova T-shirt. É que acaba de ser corrido do Expresso, tendo o jornal publicado hoje a sua última crónica (sim, escrevia lá), da qual consta o parágrafo que deu origem à rescisão. Perdão, censura. (*Adenda: Nele, Crespo sai em defesa ardente de Luis Marinho e acusa o jornal de apenas publicar a resposta deste a Miguel Sousa Tavares na página das cartas à redação, sugerindo que o jornal favorece a “maledicência e a arruaça”). Uma nota explicativa da Direção, na página 17, e… adeus.

2. O Correio da Manhã, não aguentando as saudades da sua galinha dos ovos de ouro, assentou arraiais em Paris e anda pelas ruas da cidade atrás de Sócrates a escutar-lhe as conversas. Talvez até tenha contratado um detetive. Tudo indica que os métodos do News of the World vêm já a seguir.

Não deixa de ser uma qualidade, mas Sócrates continua um romântico ingénuo. Man, assim que sais de casa, ’tás a ver?!

3. É impressão minha ou este Governo está a aproximar-se a passos largos da fase Santana Lopes? Quem devia ser político não tem manifestamente preparação e quem é técnico e não político não pode ser político porque não sabe. E assim começa a ser impossível acompanhar as trapalhadas – Lusoponte, exceções (nos cortes salariais) que afinal são adaptações (Relvas), os fundos do QREN, as preces a São Pedro, os lares de enlatados para velhinhos, etc. Help. E o Seguro é tudo o que temos como alternativa.

Faz hoje 1 ano que

Faz hoje um ano que o grande líder da esquerda grande considerou ser melhor para os interesses dos explorados, dos miseráveis, dos pobres, dos trabalhadores, dos professores alérgicos à avaliação e da direita que o Governo fosse derrubado sem alternativa outra que não fosse irmos para eleições. Louçã não o conseguiu à primeira com a moção de censura mas, após acertar uns pormenores com os aliados PSD, CDS e PCP, lá atingiu o desiderato poucos dias depois.

Faz hoje também um ano que Passos foi a S. Bento pela calada da noite falar com Sócrates a respeito do PEC IV. Saiu de lá com a decisão de viabilizar as medidas na defesa do interesse nacional, mas foi obrigado a mudar de opinião logo de seguida com a ameaça de ser a sua cabeça a rolar. O cocktail de “política de verdade” com “transparência com sabor a laranja” meteu Relvas a espalhar que Sócrates tinha apenas feito um lacónico telefonema para Passos e que nada tinha sido apresentado ao PSD e muito menos discutido previamente ao anúncio das medidas que se iam levar a Bruxelas para recolher aprovação europeia. Só em meados de Abril, depois do Governo ter caído e a maior operação de engano do eleitorado em Portugal estar em curso, é que Passos admitiu que o encontro aconteceu. De Sócrates, nunca se ouviu uma palavra sobre o episódio até hoje.

Uma conclusão impressionista de alguém inexpressivo

No editorial de hoje do DN, João Marcelino lá vai fazendo uma súmula daquilo a que a qualquer pessoa atenta ocorreria dizer acerca do caso do momento – o espírito vingativo de Cavaco e uma lista de razões óbvias ou abstrusas para mais uma argolada presidencial – até que, cansado de ser sensato e temendo ser acusado de socratista, ou de desleal (adjetivo da moda) ao patrão, avança para a seguinte afirmação, com a qual remata o tema:
Sobra o País que, talvez agoniado, pensa seguramente que Sócrates seria muito bem capaz de fazer aquilo que Cavaco ontem fez. Ou seja, estão bem um para o outro.”

Extraordinária conclusão. João Marcelino acha que o país (metonímia para ele próprio) “seguramente” vê Sócrates, em funções, a escrever um prefácio de um livro seu a acusar diretamente Cavaco, ou outro político qualquer com quem se tenha relacionado institucionalmente, de deslealdade e outras ofensas políticas extremas. Chatice que, podendo-o fazer, não o esteja a fazer, não é?
Pois, a quem interessar possa, este “País” do Marcelino que sou eu está muito longe de achar tal coisa e já viu o suficiente para saber do que são capazes uns e outros no nosso panorama político. De tudo o que se constata nuns e não é investigado, sendo, pelo contrário, disfarçado, abafado ou desvalorizado, e do nada que se prova nos outros, por mais aturadas e dispendiosas as investigações, nada esse que, no entanto, é constantemente servido no altar sacrificial da imprensa com condimentos os mais variados e agressivos, de tal forma que a narrativa já prossegue autónoma dos factos e dos protagonistas, que não deixam de ser pessoas e estar vivas.

A paciência e cortesia públicas de que Sócrates sempre deu mostras no que toca à figura do PR não têm qualquer paralelo com a falta de contenção e de vergonha de Cavaco, que conspirou, e de que maneira, a partir de Belém, com a colaboração de um jornal, lançando suspeitas de espionagem sobre o alvo da sua raiva. Sabemos que não esteve nem está só nestes e noutros métodos semelhantes de abate de adversários. Outras personalidades da direita que nos governam os utilizarem e utilizam sem hesitar. Os comentadores políticos idem. Ainda ontem, o capcioso Pedro Lomba se lembrou de invocar, na SICN, o Freeport e as escutas do Face Oculta/”a tentativa de controlo da comunicação social” por Sócrates, também chamado mais pomposamente «o atentado contra o Estado de direito», para tentar justificar o desagrado crescente de Cavaco com o ex-primeiro-ministro e um possível desejo (para Lomba compreensível) de o demitir (!). Pobre do Sócrates. Perante estes abutres da direita, não passou de um anjinho. Os grupos de comunicação social em Portugal pertencem todos, sem exceção, a figuras da direita – Balsemão, Joaquim Oliveira, Belmiro de Azevedo… Nem se percebe como ainda temos notícia de certas coisas que se passam. Vale-nos a Rede e as traições/rivalidades internas que, desde tempos imemoriais, muito põem a descoberto. Mas enfim, nada disto pode ver nem dizer Marcelino. Marcelino acha que colocando Sócrates ao nível de Cavaco pode ir dormir descansado, cumprida, segundo ele, a regra da imparcialidade, ainda que com uma afirmação sem nexo.

Marcelino, que por uma reviravolta alinha agora com o atual governo, é, na televisão, um comentador inexpressivo e hirto. Não ri nem chora, não se entusiasma nem se indigna, não gesticula, não se mexe na cadeira, não ajeita o cabelo. Ao menos que se deixasse de impressões e de conclusões insustentadas.

Cavaco, a laranja mecânica

Cavaco não é Presidente da República (PR). É bom dizer isto com todas as letras. A forma não chega para qualificar o que seja, e é só isso que Cavaco tem, o formalismo de ter sido eleito.
Materialmente, Cavaco não é PR. É um corrupto moral, inquilino do Palácio de Belém, que desde o início exerceu os poderes que a Constituição lhe confere em manifesto desvio de poder.
O desvairado que formalmente é PR, com a consequência de poder mentir (PECIV), de usar de vetos ou mensagens para gritar, às 20h, uivos contra o funcionamento normal da democracia (estatuto dos açores ou CPMS), de conspirar contra o Governo num processo sem fim de um patético e criminoso laranja mecânica (escutas, discurso da tomada de posse), não pode ser demitido.
Gosta, porém, de ajudar os laranjas a espatifar um Governo rosa e de ajudar o novo e desastrado governo laranja a passar as culpas, por escrito, como que em memórias, para o homem que a realidade insiste em mostrar que era o homem certo. E honesto.
O laranja mecânica não pode ser demitido mas é cobarde. Não vai à escola onde jovens o esperam com cartazes, vê-se confrontado com as consequências da sua mentira acerca dos seus pobres rendimentos, ele que mente tão bem dá com a notícia de uma petição na AR com milhares de assinaturas pedindo a sua demissão e que faz?
Recorda ao povo as aflições que Sócrates o fez passar, a ele e ao país.
A definição de um amoral.

Há muita cena gira que vai ficar para a História

Recordemos este momento histórico, onde um histórico do PS aparece a proteger Cavaco e outro histórico do PS aparece a atacar o próprio PS. Absolutamente histórica a situação:

O presidente do PS e conselheiro de Estado manifestou o seu apoio à decisão do Presidente da República de não se pronunciar sobre as alegadas vigilâncias do Governo aos seus assessores.

“O Presidente está em férias e, com certeza, não as vai interromper para falar de coisas sem fundamento”, disse Almeida Santos ao “Diário de Notícias”.

O presidente socialista acrescentou ao periódico que não devem ser lançadas suspeitas sem estas serem melhor explicadas, sendo que toda a controvérsia entre São Bento e Belém é explicada porque “em período eleitoral tudo é expectável, mesmo que não seja razoável”.

O antigo presidente da Assembleia da República precisou que uma intervenção de Cavaco Silva e do Procurador-Geral da República só se justificariam se as suspeitas veiculadas nos media fossem provadas verdadeiras.

Nesse caso, nota, “era um caso muito sério”.

Já o histórico socialista Manuel Alegre, citado pelo ‘SOL’, considerou como “um erro grande” as tentativas de colagem do Presidente da República ao PSD por parte do PS, uma vez que o “combate” dos socialistas “é com Ferreira Leite e não com o Presidente”.

Fonte

Que fazem um presidente calculista e um governo de incompetentes?

Ou um presidente pulha (destaco o caso das escutas ou o discurso da tomada de posse) a armar-se em engraçadinho e um governo de mentirosos (a lista de mentiras já vai demasiado longa desde a queda do anterior governo para caber aqui)?

O que fazem, pois, estes laranjas sem qualidade, sobretudo quando cada vez é mais difícil disfarçar o rancor e a vergonha de si próprio, um, e a impreparação e a incompetência, outros? Evidentemente lançam calúnias sobre terceiros e tudo fazem para não deixar morrer a imagem do “diabo” perante a opinião pública. O governo, está visto, conta com o Correio da Manhã e o Cavaco, para dissipar o halo malcheiroso que ele próprio criou em torno da sua figura, antecipa a publicação de uma espécie de memórias, totalmente a despropósito, disparando sobre o anterior governo.

Leia-se o que diz o ainda presidente, com grande cinismo, sobre o ano de 2010: “Logo a seguir às férias do verão, o Primeiro-Ministro [Sócrates] começou a informar-me, com algum detalhe, sobre as intenções do Governo e sobre as dificuldades que poderiam surgir nas negociações com os partidos da oposição, em particular com o PSD. Foi-me assim possível, durante cerca de dois meses, acompanhar de perto as questões políticas e financeiras relacionadas com a aprovação do Orçamento, desenvolver contactos com dirigentes partidários, apoiar as negociações e favorecer os entendimentos”, lembra.

Assim, diz, “conseguiu evitar-se a ocorrência de uma crise política que, a precipitar-se naquela altura, seria particularmente grave, uma vez que, nos termos da Constituição, me encontrava impedido de dissolver a Assembleia da República e convocar novas eleições”.
(in Público)

Evidentemente, não somos parvos. Aqui está um engraçadinho que não faz rir. Cavaco o conciliador, o genuíno defensor do interesse do país é coisa que não existe. As eleições para a Presidência eram em Janeiro. Cavaco tudo fez para evitar uma crise política ANTES por um único motivo: queria ser reeleito. Depois de reeleito, tratou de mandar abaixo o Governo e sem perder tempo. E a crise política já era oportuníssima. Como se viu e vê. Este presidente causa repulsa.

Faz hoje 1 ano que

Faz hoje 1 ano que o Presidente da República escolheu a solenidade da sua tomada de posse para iniciar o processo que levaria à queda do Governo em poucas semanas. Fê-lo com um discurso comicieiro onde ofendeu toda a classe política e apelou à revolta popular nas ruas. Fê-lo nunca se referindo à problemática europeia e colocando no Governo o exclusivo ónus pelos constrangimentos financeiros. Fê-lo de modo tão desvairadamente rancoroso que nem lhe ocorreu naquele institucional e simbólico momento fazer uma mínima referência às Forças Armadas de que é Comandante Supremo, sequer aos militares que representam Portugal no exterior arriscando a vida em diversos conflitos internacionais. Fê-lo depois de ter consultado os principais responsáveis pela situação política e económica portuguesa, incluindo Durão Barroso, ao longo do mês de Fevereiro. Fê-lo na posse de todas informações de que precisava para decidir de acordo com os melhores interesses do País. Fê-lo do alto da sua propalada excelência em economia e finanças. Fê-lo sabendo que a abertura de uma crise política levaria a eleições, e que a ida para eleições arrastaria Portugal para um empréstimo de emergência em condições ruinosas. Fê-lo depois de ter prometido na campanha eleitoral vir a colaborar com o Governo para ajudar Portugal a sair da situação de pressão dos mercados. Fê-lo apesar de ter garantido aos portugueses que só ele poderia dar estabilidade ao País nos tempos mais próximos.

Eis o que 1 ano depois sabemos:

– Cavaco mentiu com a intenção de enganar o eleitorado. Caso tivesse anunciado que pretendia correr com Sócrates na primeira oportunidade, provavelmente não teria ganhado as eleições ou, no mínimo, teria ido à segunda volta.

– Cavaco mentiu ao dizer-se apanhado de surpresa pelo PEC IV, o qual era assunto corrente na Europa, logo em Belém.

– Cavaco mentiu ao dizer-se incapaz de promover uma solução política que levasse à aprovação do PEC IV, posto que não deu qualquer sinal de a querer, antes pelo contrário.

– Cavaco sacrificou o interesse nacional com o único fito de afastar Sócrates e PS do poder.

Resultado? É perguntar aos portugueses que viram a sua vida a empobrecer abrupta e avassaladoramente logo a partir de Abril de 2011, ainda antes da troika e de Passos-Relvas, quando a economia fez aquilo que a Manela tinha inscrito como único objectivo no seu programa: parar tudo, meter travões a fundo no investimento e no consumo e o dinheiro desaparecer de circulação.

Para cúmulo da humilhação, os senhores responsáveis pela degradação irreversível da situação política e económica em 2011 dizem-se os salvadores da Pátria e continuam a despejar as responsabilidades pelas suas decisões para cima daqueles que estavam a fazer os possíveis, e até alguns impossíveis, para evitar este sofrimento absurdo e vil. Todavia, como se vê pelas sondagens, pelo comportamento da oposição e pela atitude das figuras públicas, temos o que merecemos. Temos precisamente aquilo que queríamos: um bode expiatório e milhões de borregos absolvidos de qualquer culpa.

Para quando o fim dos debates quinzenais?

Só da cabeça do maluco do Sócrates é que poderia ter saído a ideia de os debates passarem a ser quinzenais. E o melhor é o primeiro-ministro, não digo acabar com eles, mas passar a fazê-los, no mínimo, de três em três meses. Chega muito bem. Afinal, tendo em conta a quantidade de ideias e soluções para resolver os problemas do País que o Governo tem para apresentar até um debate por ano chega e sobra. De certeza que os assessores estão fartinhos de lhe dizer o mesmo. É que, como se viu ontem com a trapalhada da Lusoponte, por exemplo, um simples debate pode estragar tudo, ou seja, revelar o grau de impreparação do primeiro-ministro e do Governo. Ainda por cima numa altura em que se tem feito um esforço colossal para disfarçar a sua incompetência num Governo onde cada vez manda menos. Pois, o tal Governo de sonho que andava na sua cabeça durante a campanha, em menos de um ano, está a transformar-se em mais uma promessa eleitoral falhada. Além disso, aposto que os líderes da oposição não se opõem ao fim dos debates quinzenais. Seguro prefere debates na televisão. Louçã e Gerónimo são uma sombra do que eram no tempo de Sócrates. Já o líder da bancada do CDS ficaria tristíssimo, o homem adora ouvir-se e por ele os debates com o primeiro-ministro até podiam ser diários. Mas deve ser o único.

Parque Escolar, que jeito que me dás

Mais uma vez a esquerda assiste com digna indignação a um outro “custe o que custar” desta direita que nos calhou. A direita ideologicamente mais coesa num liberalismo fanático, mas estranhamente consciente desse fanatismo, precisa de bengalas para destruir o trabalho de uma democracia assente no Estado Social construída e aperfeiçoada ao logo de quase quarenta anos.
A direita amoral tem neste “custe o que custar” um método para enganar o povo: cada vez que dá uma cacetada no ensino público, na saúde pública, no que quer que seja que caracteriza o Estado social, parte da explicação causal de uma pretensa descoberta de um buraco cavernoso nos seis anos passados. Então, é por isso que os nossos Governantes não têm outra hipótese.
A direita mais repugnante na história da democracia portuguesa vive um sonho: entre o slogan publicitário para burros estamos onde estamos por causa dos últimos seis anos e o memorando com o qual nada têm a ver, a direita Passos-Portas(?), que condicionou todo o memorando, que jurou em campanha conhecer todos os números e que jamais usaria da cartola do passado, a direita que só analisa os efeitos da crise internacional nos outros países ou no nosso, mas só a partir do dia em que ganhou as eleições, essa direita usa do dito slogan e do memorando para cumprir um sonho: dar cabo do Estado, abraçar o assistencialismo, aumentar o apoio à escola privada em detrimento da pública, etc.
Quando prevê cortar com desígnios nacionais como o Parque Escolar, essa política pública que mudou a face das escolas públicas em Portugal, a par de medidas como a introdução do inglês, do alargamento da carga horária, da educação cívica, o que faz a direita? Manda o Ministro Crato ao espaço público dizer umas coisas. O Sr. Ministro fala em derrapagens alucinadas na gestão da Parque Escolar. Tinha um papel? Mostrou um relatório? Explicou-o? Nada. E é indiferente. Numa penada, quebrou-se o consenso nacional em torno desta política.
O PS chamou à AR o Presidente da Parque Escolar. Eu conheço a forma como as contas foram feitas pelo Sr. Ministro e sei que uma das políticas mais emblemáticas iniciadas pelo PS está a ser usada para matar escolas e portanto alunos. Como dizia uma Deputada do PSD animadíssima a falar da Parque Escolar como do Diabo, sem um papel que a sustentasse, não é preciso luxos, se calhar…
Disse tudo. É que o que se conquistou como direitos para alguns chama-se luxo.