Tal como a Penélope já comentou, vermos Cavaco a comparar a negociação do Orçamento para 2011 com a apresentação das medidas do PEC IV a levar a Bruxelas para aprovação europeia raia o grotesco tão debochadamente falaciosa é a ligação. O seu papel em 2010 não foi o de facilitar fosse o que fosse nas negociações mas apenas o de continuar a desgastar o Governo e a ficar bem na fotografia. Jamais o PSD abriria uma crise política em cima das eleições presidenciais, a qual levaria o País para a bancarrota imediata e para a mundial gargalhada. A direita seria responsabilizada por tamanha insanidade perdendo todos os actos eleitorais seguintes. Donde, a aprovação do Orçamento estava garantida, tratava-se apenas de um jogo hipócrita para preparar o passo seguinte: derrubar Sócrates após a reeleição de Cavaco usando um qualquer dos inúmeros argumentos à disposição na situação em que um Governo minoritário – alvo dos ataques mais soezes na história da democracia portuguesa – tinha de enfrentar uma desvairada crise europeia; tanto económica, como financeira, como política. O PSD aproveitaria o Orçamento para fingir que tinha aliviado a impopular e inevitável austeridade e Cavaco fingiria que era o pater familias que salvava a Nação de cair no abismo.
Recordemos as palavras do Presidente da República em cima da agora alegada violação do artigo 201 da Constituição:
“Esta questão passou muito rapidamente para o plano dos partidos e da Assembleia da República. Pela forma como o programa foi apresentado, pela falta de informação, pelas declarações que foram feitas quase nas primeiras horas ou até nos primeiros dias, tudo isso reduziu substancialmente a margem de manobra de um Presidente da República actuar preventivamente”, afirmou.
Em declarações aos jornalistas à saída da Universidade do Porto, o Presidente da República lembrou que está agendado um debate no Parlamento e, como tal, ele, “como último garante das instituições”, deve “actuar com muita ponderação, medindo as palavras com serenidade”.
Que não se duvide do que diz: Cavaco actua com muita ponderação. Ao ter feito da tomada de posse uma manobra de boicote ao poder eleito, sabendo das circunstâncias de crescente degradação dos mercados da dívida e da preparação de um acordo com Merkel, qualquer resposta do Governo seria ganho. Se pedisse a demissão, o PS seria responsabilizado pela abertura da crise política. Se continuasse em funções, seria derrubado por não ter conseguido evitar mais medidas de austeridade. Por essa razão se ouviu a 9 de Março, do púlpito na Assembleia da República, que havia limites para os sacrifícios que se podiam pedir ao comum dos portugueses. Essa foi a senha equivalente ao Grândola, Vila Morena para os deputados do PSD e CDS que largavam urros de felicidade. Cavaco anunciava que o Governo ia cair, posto que estava obrigado pela Europa a continuar a austeridade. A campanha eleitoral, então, só teria de ser feita prometendo o fim dessa mesma austeridade. Era, e foi, limpinho.
A colossal desonestidade do Aníbal não começou no primeiro dia do seu segundo mandato. Na verdade, ele até tem uma excelente desculpa para nos tratar como trastes. É que este é o país que permite uma “Inventona das Escutas” e não há sequer um jornalista que o confronte com essa infâmia, que lhe peça uma explicação ou um juízo moral.
Somos todos cúmplices, Cavaco é o triunfal símbolo da nossa cobardia.

