Lendo nas entrelinhas

A principal queixa de Cavaco no famoso prefácio é a suposta deslealdade institucional de Sócrates, mas será que Cavaco está satisfeito com a lealdade de Passos, aquela devida a quem o levou ao colo até ao pote? O primeiro ano do segundo mandato não correu propriamente bem a Cavaco, e Passos vai dando umas no cravo e outras na ferradura. Mas os elogios pontuais que faz ao papel do Presidente não devem ser suficientes para que Cavaco esqueça episódios como aquele em que Passos, numa atitude para lá de provocadora, decidiu enfrentar uma manifestação imediatamente a seguir a Cavaco ter evitado cruzar-se com uma outra. Isso e respostas como aquela em que Passos diz que não joga pingue-pongue com o Presidente. Mas com quem é que Passos julga que está a falar? São afrontas que Cavaco não tolera nem esquece, e numa altura em que a sua popularidade anda pelas ruas da amargura deve ser coisa para o deixar a espumar de raiva. Ora, lendo nas entrelinhas, algo que sempre ouvi dizer que tem de ser feito sempre que Cavaco abre a boca, não é de descartar a hipótese de que este seja um ataque do tipo dois em um. O objectivo principal é vingar-se de Sócrates, claro, mas é também um sério aviso a Passos. Se tudo correr normalmente, ainda têm pela frente uns anos de convivência e é bom que o sucessor de Sócrates não esqueça que, por vários motivos, lhe é exigida lealdade a dobrar, ou a triplicar, e que se continuar a armar-se em engraçadinho, como tem feito, Cavaco não lhe perdoará, importando-se pouco ou nada com as consequências para o País de uma guerra entre Belém e S. Bento. Bem vistas as coisas, se calhar, não foi uma coincidência o envio para o Tribunal Constitucional da lei do enriquecimento ilícito no dia seguinte ao do conhecimento do prefácio.

Entretanto, quando confrontado pelos jornalistas, Passos respondeu que não havia a tradição de comentar no exterior questões de política interna. Uma resposta algo atabalhoada que me fez lembrar aqueles futebolistas que, indiferentes às perguntas, respondem sempre da mesma forma. Ou será que Passos, se for questionado em território nacional, tenciona comentar este assunto?

5 thoughts on “Lendo nas entrelinhas”

  1. guida,

    como disse, atenção aos sintomas, a memória de médio/longo prazo não falha. Espera pela pancada. Não é que nos adiante muito. Já percebi que estamos destinados a ir a uma velocidade vertiginosa para o buraco…the big hole. Mas por isso mesmo…

  2. Guida, estás a delirar. Esses dois pintas estão feitos um com o outro até ao mais ínfimo pormenor. Unha com carne. O único problemazinho, nada de aborrecido, é que um deles está a mais,um deles é supérfluo, por redundante.

  3. edie, não digo que não tenhas razão, mas hás-de concordar comigo que a maioria dos sintomas são velhos de décadas. A mesquinhez e espírito vingativo de Cavaco acompanham-no desde que me lembro, e foram sempre evidentes até dentro do seu próprio partido. Nos dez anos de primeiro-ministro sempre padeceu do mal de julgar que a culpa de todo e qualquer problema era de terceiros. Os problemas na governação eram, obviamente, dos seus ministros, que a única coisa boa que tinham é que eram descartáveis. De igual modo, os problemas entre Governo e Presidência eram culpa do PR da altura. Infelizmente, edie, já somos vítimas da ‘doença’ de Cavaco há demasiado tempo.

  4. Sapo, se calhar estou. Mas não me esqueço dos velhos ódios entre a ala cavaquista e aquela a que agora chamamos passista, nomeadamente a recente falta de lealdade partidária destes últimos para com Ferreira Leite, a última líder cavaquista do PSD. Não me esqueço eu, nem se esquecem eles. Cavaco teve de engolir muitos sapos para os ajudar a chegar ao Poder, provavelmente só o fez porque o ódio a Sócrates falou mais alto. Mas não acredito que tenha esquecido, e muito menos perdoado, o que disseram dele e dos seus durante anos. Além disso, o desporto favorito no partido deles é atacarem-se uns aos outros. Achas que se curaram disso?

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