Sê rei de ti próprio

MEP decide extinguir-se devido a resultados eleitorais mas mantém-se como movimento cívico

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Máquinas montadas e afinadas para eleger os representantes das maiorias em sociedades verticalizadas, os partidos funcionam deficientemente em sociedades reticulares.

[…]

Tal como existem, os partidos deixaram de fazer sentido. Não falo das causas e da ideologia, apenas da estrutura. A desilusão das pessoas com os partidos e “os políticos” não tem a ver com as causas e as ideologias, que abundam na sociedade reticular. Tem a ver com práticas e rigidez de processos.

Paulo Querido

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Como se inicia um projecto político? Sou completamente leiga na matéria, mas alinho. By the way, é possível projecto político sem líder político?

edie

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O que é a política? 12 anos seguidos de ensino de acordo com um programa estatal deviam chegar para que se iniciasse a vida adulta na posse de uma definição universal. Contudo, esse mínimo denominador comum ou não existe ou, a existir, é decadente. A política não é aquilo que fazem os políticos que ganham a vida na política. Antes, é a realidade da política que permite a sua profissionalização por um fragmento dos seres políticos. Saber o que é a política para os restantes, os amadores, é uma das presentes urgências cívicas.

O nosso actual regime político, europeu e ocidental como ele é, tem as suas raízes numa geografia, numa cultura e numa época precisas. A facilidade com que os fenícios estabeleciam acordos comerciais com diferentes povos ao longo das margens do Mediterrâneo levou ao aparecimento das primeiras experiências de comunitarismo político, as quais viriam a consolidar-se na fórmula grega das cidades-Estado: a polis. O poder político, ao deixar de se fundamentar na arma e na terra, foi tomado pelos que estavam a criar riqueza. Os mercadores e os artesãos iam engrossando a sua importância como geradores de cidades, e o espaço urbano atraia populações e recursos em quantidades imparavelmente crescentes. Até que os latifundiários e a nobreza perderam o braço-de-ferro com uma nova tipologia de povo: os cidadãos. O que viriam a ser as sociedades modernas, com o triunfo das formas republicana e democrata, nasceu há 2 700 anos numa cultura que, em simultâneo, inventava a filosofia e a ciência. Não se trata de uma coincidência.

Podemos ler a história da filosofia, desde Tales, como a prática da autonomia. O filósofo, partindo de uma consciência de perda, de falta, mas também de excesso e de deslumbramento, assume a responsabilidade de preencher esse vazio e dar sentido a essa presença. E a linguagem torna-se o instrumento da refundação do mundo. Por isso, os blocos textuais que o cercam passam a ser objecto de transformação. Os mitos revelam-se alegorias naturalistas ou morais, os deuses são metáforas, os costumes são escolhas. A confusão entre filósofos e sofistas – que a fortuna conservou intacta nas obras que nos chegaram de Platão, em especial – ilustrava a nova paisagem política: havia um espaço onde o saber, ou a sua aparência, ou a sua manipulação, dava acesso ao topo da hierarquia social, o poder pelo poder, ou à mais alta realização do potencial humano, o saber para poder. Esses dois caminhos eram ambos políticos, estando o primeiro omnipresente na concepção actual do que seja a actividade política e o segundo completamente esquecido – aliás, mais do que esquecido, é perseguido pelos cínicos, hoje como ontem e amanhã.

A política que podemos ser, porque é do que somos que se trata, nascerá da recuperação deste radical compromisso: sermos autónomos. A capacidade para exercer as nossas faculdades intelectuais e volitivas no seio de um grupo que partilha um problema em comum é a essência mesma da acção política. O cinismo, o tribalismo e o egoísmo são incompatíveis com este exercício do poder máximo que nos habita, essa experiência de nos sabermos reis de nós próprios.

Como seria uma organização com este princípio fundador? Seria algo ainda nunca visto.

O maior resgate bancário de sempre

«A Grécia É Uma Fachada para Esconder o Maior Resgate Bancário de Sempre

FEVEREIRO 27, 2012 – 1:33AM | POR NICK DEARDEN (original inglês aqui. A tradução não é minha)

Os ministros da zona euro que se encontraram em Bruxelas na noite passada para decidir o futuro da Grécia deviam ter assistido à oportuna conferência da Universidade de Londres sobre aprender lições com a América Latina. A lição principal é de uma importância premente: as políticas económicas impingidas à América Latina no início dos anos 1980 foram uma excelente forma de ajudar os bancos dos EUA a recuperar da crise, mas uma maneira terrível de resolver a crise da dívida da América Latina, criando em vez disso duas décadas de mais dívida, pobreza e desigualdade. Sem qualquer dúvida, foi precisamente este o objetivo dessas políticas — mudar o fardo da crise financeira do sistema financeiro para as nações em desenvolvimento. O Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial emprestaram dinheiro a dezenas de países que de outra forma teriam entrado em incumprimento, por forma a manter os reembolsos da dívida a fluir de volta para os bancos do mundo rico que tinham dado origem à crise através das suas estratégias temerárias. De seguida, esses países, que não beneficiaram de todo destes fundos “de resgate”, foram compelidos a implementar políticas de ajustamento estrutural que levaram à privatização da indústria, à libertação de dinheiro do controlo governamental e à abertura dos mercados à competição selvagem com empresas norte-americanas e europeias convenientemente subsidiadas. A pobreza multiplicou-se, a desigualdade proliferou e a finança foi proclamada rainha. A mesma lógica jaz mal disfarçada por detrás do “resgate” à Grécia que os ministros das finanças europeus estão hoje a concertar. Não há sequer uma tentativa de fingir que o povo grego vai beneficiar com estes fundos. É reconhecido que as medidas adicionais de austeridade que a Grécia tem que implementar para receber estes fundos, a que os sindicatos gregos apelidam de “atrozes”, vão causar estagnação e desemprego prejudiciais ao reembolso da dívida. Em 2020 a dívida da Grécia vai ainda representar uns insustentáveis 120% do PIB do país — e isso é se as coisas correrem mesmo muito bem.
O golpe adicional nas pensões de mais 13% e do salário mínimo em 22% e a grande redução da despesa com a concomitante perda de empregos no setor público, apenas pode ter como resultado uma depressão mais longa e profunda. Até as agências de rating já reconheceram a futilidade de forçar os países a uma estagnação contínua. Portanto, qual é o objetivo do “resgate”? Manter dinheiro a entrar no sistema financeiro europeu. De facto, a provável criação de uma conta
escrow ou de caução significará que o povo grego vai ser completamente contornado — o dinheiro vai ser emprestado por instituições europeias, sendo no fundo dinheiro dos contribuintes — e entrar nos cofres dos bancos europeus. É um resgate bancário numa escala gigantesca.
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Contre les femmes

Monsieur,

Je l’ai dit, je le dis, et je le répète: les femmes, je suis contre… tout contre. Pourquoi? Parce qu’il faut garder ses amis près de soi et ses ennemis encore plus. Les femmes ont été mes meilleures ennemies, les plus implacables et les plus adorables. Je ne peux m’en passer car la femme est une drogue des plus violentes et des plus coûteuses. Mais elles sont tellement adorables, charmantes et désirables, du moins celles qui vous les font regretter après, que l’homme, ce grand enfant malhabile et faible, je parle pour l’homme en général, il existe heureusement des exceptions, ne peut être que contre elles, tout contre elles, et prier le ciel d’y rester toujours.

Je vous prie néanmoins de noter que je ne crois pas faire preuve de bons sens, car celui-ci est proche du sens commun et que le mot commun m’a toujours laissé un goût désagréable sous la plume.

En espérant avoir éclairé votre lanterne par mon sens qui n’a jamais, malheureusement, été le bon avec ces dames.

Sacha Guitry

Vermeer na sua casa de Groote Markt em 1655

(a José Manuel Capelo)

A morte de meu pai, mais conhecido em Delft do que eu /leva-me a transformar o rés-do-chão em taberna.

Catharina toma-me conta das crianças enquanto pinto / e vou passando por este desgosto recente, inesperado / uma sombra mais neste horizonte escuro da cidade / tal como o pintei no meu quadro UMA RUA DE DELFT: / uma casa, um acesso a um pátio, três mulheres e / um céu carregado de cinzento escuro e de nuvens.

Não faço paisagens nem retratos de encomenda / apenas paisagens interiores e retratos sentimentais / com excepção da minha cidade que pintei uma vez.

Interessa-me muito mais a temperatura sentimental / duma casa – a mulher que lê a carta do marido / na guerra, a rapariga que adormeceu à mesa a bordar / uma toalha, a criada que prepara o leite na cozinha / o olhar da mulher preso no olhar do soldado, tudo enfim.

Tudo ou apenas aquilo que pude recolher e para mim é tudo…

Marques Mendes tem exemplos para dar e vender

Como não existe imprensa em Portugal, Marques Mendes nunca terá de justificar o que escreveu aqui. Contudo, o currículo e protagonismo deste paradigma ambulante do modus faciendi como o PSD reduz a política ao moralismo merecia uns minutos de serviço público. Bastaria que algum jornalista, mesmo que estagiário daqueles sem remuneração, lhe pedisse a sua pessoal definição do que é a deontologia jornalística, do que é a moral pública, do que é a ética privada e em que consistirá, afinal, um Estado de direito. Só depois poderíamos voltar ao texto para aferir da sua honestidade intelectual – ou seja, da sua completa ausência de honestidade, intelectual ou outra, pois estamos perante mais uma pulhice.

Marques Mendes diz que as escutas foram divulgadas mas em momento algum se questiona a respeito da legalidade da sua divulgação, anterior conservação, anterior transcrição e anterior captação. Quer isso dizer que ele está na posse das razões judiciais que tornam lícito todo este longo e complexo processo, concordando com o argumentário e consequente violação da privacidade de um concidadão? Ou não quererá saber disso para nada, aproveitando o facto consumado para o explorar no seu interesse, qual ávido receptador que nem precisa de se esconder? Obviamente, na ausência da primeira, trata-se da segunda hipótese.

Marques Mendes diz que as escutas vêm dar-lhe razão porque, finalmente e graças ao Correio da Manhã, estamos agora na posse de detalhes inqualificáveis sobre o caso. Vamos esquecer a parte em que os detalhes inqualificáveis ficam literalmente sem qualificação por nem sequer aparecerem identificados, não sendo possível saber do que se fala. O autor está a ordenar-nos para acreditarmos na sua condenação, sem precisar de provar seja o que for. Muito bem, sigamos para bingo. Se as escutas validam as suas suspeitas passadas, premiando a sua perspicácia e coragem auto-elogiadas, então as escutas são benéficas para o exercício da política. São elas que permitem acabar com todas as dúvidas a respeito daqueles que arrastam indícios, sinais, vestígios de algum mal. No caso em apreço, as escutas correspondem a um julgamento sumário e inapelável: eis a documentação do que é um mau exemplo para a sociedade, tal como tinha sido antecipado pela gente séria, a gente dos bons exemplos.

Marques Mendes, portanto, se for coerente com esta lógica passará a promover a captação de escutas nos casos que entrem dentro da utilitária categoria Trapalhada, Contradição e Falta de Transparência. Tendo em conta que o enquadramento legal e constitucional da sua captação e divulgação é para ele irrelevante, e que os materiais obtidos nem precisam de ser explicitados ou defendidos pois basta a sua publicação para se obterem os efeitos pretendidos, temos aqui o paladino de uma próspera indústria de espionagem política para fins de higiene e decoro, a profilaxia e terapêutica das doenças que contaminam a sociedade.

No julgamento de Sócrates, não o de Paris mas o de Atenas, igualmente as acusações o denunciavam como um mau exemplo para os jovens e para o modo de vida da gente séria. Nem mais, nem menos. Anito, um dos três acusadores e aquele que ficou como o principal instigador do processo, tinha razões pessoais e políticas para querer a morte desse agente infeccioso que o desafiava com a sua liberdade. Tendo ele próprio um público historial de trapalhadas, contradições e faltas de transparência, foi o seu espírito que guiou a mão de Marques Mendes ao selar a filha-de-putice com este hino à suprema hipocrisia:

Cumpre-nos contribuir para os reintroduzir na vida colectiva obrigando, desde logo, a construir uma cultura do exemplo. O bom exemplo tem mais força do que as melhores leis que se aprovam e do que os discursos mais brilhantes que se fazem. Ao contrário, os maus exemplos envenenam a sociedade, contaminam a política e ameaçam a democracia. Afinal, a política não pode ser a arte do vale-tudo e palco de actuação de gente mesquinha e sem escrúpulos.

Casamento entre Pessoas do Mesmo Sexo – e venha o oitavo Estado dos EUA: Washington

The Washington state Senate approved Senate Bill 6239 [materials] to legalize same-sex marriage by a vote of 28–21 late Wednesday evening. Washington currently grants expanded domestic partnership rights rather than full marriage or civil union rights to same-sex couples. Several amendments affording protection of religious objection to same-sex marriage were added to the bill in debate. Others, that would have triggered a referendum on the issue, and would have allowed marriage-related business owners’ ability to discriminate against same-sex couples, were rejected.

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Direitos de duas mães: parabéns, Israel.

Israel’s Ramat Gan Family Court ruled Sunday that a lesbian couple can both be recognized as mothers of a child they had together. The women received permission from the Health Ministry [official website] in 2006 to conceive the child by fertilizing one woman’s egg with the sperm of an anonymous donor and implanting the embryo in the other woman’s uterus. When the child was born in 2007, the Interior Ministry [official website, in Hebrew] would only recognize the woman who had given birth as the child’s legal mother and advised the other woman to initiate adoption proceedings. The women instead opted to challenge that decision in court. Judge Alyssa Miller granted [Haaretz report] the couple’s motion Sunday, finding that it would defy logic and common sense to deny parental rights to both women. The couple’s lawyer welcomed the ruling [Ynet News report], noting that there are several similar cases currently pending before Israeli courts. However, the precedential effect of the ruling may be limited, as the Health Ministry banned the transfer of eggs last year.
Courts throughout the US and across the globe have struggled to define parental rights for same-sex couples. Last month a Massachusetts court ruled that same-sex couples who marry and have a baby via artificial insemination are bound by the same child custody laws [JURIST report] as heterosexual couples. In January an Iowa court ordered that the Department of Public Health must include both names [JURIST report] of married same-sex parents on children’s birth certificates, causing one expert to opine that the arguments made in the public debate surrounding the case demonstrate a break from the goals of the early gay rights movement and could be used to justify discrimination [JURIST op-ed] against other forms of non-traditional families. In October the US Supreme Court [official website] denied certiorari [JURIST report] in Adar v. Smith [backgrounder], in which a same-sex couple asked Louisiana to include both of their names on the birth certificate of their adopted child. That same month, a Canadian court granted legal rights to a non-biological father of a child—the ex-partner of the biological father—over the biological father in a child custody case.

O pecado da modernização das escolas

Não havendo qualquer notícia de fraude ou desvio de fundos, há algo de muito errado, rasteiro e revoltante na maneira como esta direita ataca a Parque Escolar (o mesmo já acontecera com o Magalhães): em vez de se regozijarem com a ideia louvável que alguém teve de melhorar, e com urgência, a qualidade das escolas públicas, a maior parte delas degradadas e com falta de, por exemplo, instalações desportivas, e em vez de se orgulharem e de quererem, eles também, aproveitar ao máximo os fundos da UE para prossecução de tão nobre causa, não perdem uma oportunidade para denegrir o empreendimento, mesmo que transpareça para a opinião pública, nela incluída a dos próprios jovens beneficiários, a ideia de que a atitude acertada teria sido deixar ruir as escolas ou torná-las infrequentáveis.

Este caso, que merecia toda a solidariedade nacional, quanto mais não seja porque a quase totalidade dos fundos provém da União, transforma-se assim em mais um triste exemplo de como o combate político protagonizado por esta direita estúpida atropela com total indiferença as mais legítimas aspirações da população (uma delas, a qualidade de vida, também passa pela qualidade das instalações onde se trabalha ou estuda).

A notícia do jornal i aqui “linkada” deixa, além disso, muito pouco espaço para explicações das partes acusadas pelo ministro.

««Nuno Crato revelou também no parlamento que a auditoria à Parque Escolar feita pela Inspecção-Geral das Finanças está concluída. E enunciou dois factos que põem em causa os procedimentos com uma das paixões de Sócrates: que a Parque Escolar deveria ter estabelecido tectos para o investimento em cada obra e deveria ter feito uma apreciação crítica da arquitectura antes de avançar com as obras.

“Não o fez”, acrescentou o ministro, “e houve uma subida de custos muito elevada.” Crato disse ainda que a auditoria do Tribunal de Contas continua na fase de contraditório e fiscaliza cinco obras, devendo o resultado ser conhecido em breve.

Quanto à situação financeira da empresa, o investimento continua a ser fortemente apoiado pelo QREN, estando em curso diligências que visam reforçar o co-financiamento comunitário e, desta forma, “contribuir positivamente para a consolidação orçamental”, diz fonte oficial da Parque Escolar. A empresa está a pagar aos fornecedores a 90 dias, em vez dos 60 anteriores, devido a atrasos nas transferências dos fundos comunitários.»

Vinte Linhas 744

O tal medicamento é tão maluco como o outro

«Pois eu aqui na aldeia continuo a ler o Aspirina B mas não tenho pachorra para deitar comentários. Agora ler, leio sempre. Acho bem que você não responda mais ao maluco mas este agora, o profeno de qualquer coisa, não lhe fica atrás e é tão maluco como o outro.

Aquela de lhe tentarem chamar benfiquista é mesmo uma alucinação. Ainda me lembro de trabalhar no Pinto de Magalhães, vivia na Calçada de Carriche e muitas vezes nos encontrámos na Alameda das Linhas de Torres, vinha você no autocarro 36 do Rossio para os jogos do seu Sporting no velho peão do Estádio José Alvalade. A sua paixão pelo Sporting, sei bem amigo Zé, é coisa de criança pois já em miúdo em Santa Catarina lia o Jornal do seu Clube na casa dos amigos do seu avô – Josué e Teresa – que eram assinantes. Portanto o tal profeno de qualquer coisa tentar dizer que você é da Benedita é, no mínimo, um delírio.

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Quo vadis, PS?

O PS vai sobreviver a Seguro. E depois virá António Costa, o qual terá condições para voltar a reunir as melhores inteligências no partido. O que fará com esse capital vai depender da sua vontade e das circunstâncias políticas na altura, absolutamente imprevistas agora. O PS é o único partido que aguenta o regime, infelizmente, cercado como está pelo niilismo da esquerda e pela infantilidade da direita. Mas o PS não vive a sua melhor hora, por exclusiva responsabilidade do actual secretário-geral.

Militantes e simpatizantes conformam-se às lógicas tribais inerentes à vivência partidária, sacrificando eventuais dúvidas e reprovações no altar da unidade. Tanto é assim que nem sequer há uma oposição a Seguro. Não tem mal. Mas igualmente não tem bem. Já o cidadão independente pode ser implacável. Deve. Deve denunciar a estratégia do silêncio que Seguro assumiu antes e depois de ter chegado ao poder máximo no partido. Antes, contribuiu para o desgaste do Governo PS à custa da sua promoção pessoal. Depois, diminuiu drasticamente o escopo da oposição ao Governo PSD-CDS e validou as campanhas difamatórias que tinham sido e continuaram a ser feitas contra a governação passada e seus responsáveis. Há algo de inconcebível nisto de um partido mudar de líder e, concomitantemente, mudar de história por um apagamento sem direito a explicação. É que Seguro, o profeta da transparência, é radicalmente opaco quanto às razões pelas quais se opôs a Sócrates e abomina o seu legado. Ao calar a crítica, defende-se do contraditório e foge às responsabilidades. Pior, a sua negatividade é transferida e prolongada em actos.

Foi assim que passámos por um episódio que revela à saciedade o psicologismo anal que rege Seguro. Ao convidar Carrilho para a direcção do Laboratório de Ideias fez uma ostensiva provocação a Sócrates e a todos os que com Sócrates serviram o PS e Portugal. Foi a forma de utilizar um terceiro para expressar o rancor que lhe vai na alma. Isto porque Carrilho, para além da inépcia política e vulgaridade intelectual, é um animal corroído pelo ódio. Promovê-lo a mentor ideológico foi a forma asquerosamente sonsa que Seguro encontrou para repetir estas ideias:

Sócrates era um homem profundamente impreparado para a função.

Sócrates negou a crise com uma orientação completamente suicida.

Sócrates retomou no essencial mais uma inspiração cavaquista do que guterrista.

Sócrates foi determinado na asneira.

Sócrates nunca teve convicções socialistas.

Sócrates fez aldrabices na licenciatura na Universidade Independente.

Sócrates vive deslumbrado com o capitalismo financeiro, as novas tecnologias e os malabarismos da comunicação.

Sócrates deixou um longo rasto de oportunidades perdidas, de casos estranhos, de histórias mal contadas e de encenações inúteis.

Carrilho não está apenas a despejar o seu ilimitado fel para cima de um homem que persegue obsessivamente, igualmente pretende atingir os seus próximos, os militantes que o reelegeram secretário-geral com 93% de votos em 2011 e o milhão e meio de eleitores que votou PS em Junho. Foi a esta alucinada figura que Seguro enviou um convite para vir doutrinar as bases e aparecer nas televisões a botar sentenças em seu nome. Inacreditável.

No dia da demissão de Sócrates era tal o frenesim de cobiça que Seguro chegou a enganar os jornalistas no tempo que demorou a subir e descer num elevador. E acabou a noite a lembrar que tinha 31 anos de serviços ao partido – ou seja, que já tinha esperado tempo mais do que o suficiente.

Que move este ser? Talvez rigorosamente nada, e o seu comportamento não passe do enésimo caso em que o narcisismo e o ressabiamento são a fonte da vitalidade no organismo. O modo iníquo como o grande amigo de Passos e Relvas foi conivente com o actual poder, e chegou ele próprio ao poder dentro do PS, inscreve-se numa forma de fazer política que ofende o cidadão apaixonado pela Cidade.

Insúa, para além do milagre

O City é muito forte, como podemos constatar pela excelente época que está a fazer. Têm vários grandes jogadores, muitos deles internacionais, várias figuras de nome internacional, especialmente no ataque. Ainda assim, sabemos que não são invencíveis. Já perderam esta época por isso teremos as nossas possibilidades.

Insúa

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Por regra, é sempre inútil entrevistar jogadores de futebol. Eles não têm nada para dizer; e não têm que ter, obviamente. O mesmo com os treinadores, a maior parte proporcionando longos momentos penosos por exclusiva culpa dos jornalistas que insistem em fazer-lhes perguntas. Contudo, o Sporting está numa situação onde qualquer declaração dos seus jogadores e técnicos, por mais banal ou tonta que saia, desperta o maior interesse. É que vindos de perder com um dos últimos classificados do campeonato português e indo defrontar o primeiro classificado do campeonato inglês, equipa que deu 2+4 secos ao Porto, os leões poderão sentir-se felizes se levarem menos de 20 golos na soma das duas mãos.

Eis que Insúa deposita a sua fé nas equipas que já venceram o City esta época. Como é que tal vai ajudar o paupérrimo futebol do Sporting é algo que ninguém sabe nem faz assim muito mal não saber. Apenas uma coisa é certa: se os bifes forem eliminados, será imediatamente feita uma estátua do Sá Pinto para ser colocada no lugar da do Eusébio, e isto a pedido dos sócios do Benfica. Seria o único gesto simbólico capaz de representar aquilo que nem o carimbo de milagre chegaria para descrever.

Um livro por semana 279

«Poesia reunida 1956-2011» de Liberto Cruz

São dez livros reeditados mais três poemas inéditos de Liberto Cruz (n. 1935) num volume compacto de 556 páginas com novo prefácio de Eugénio Lisboa e anteriores prefácios de Haroldo de Campos, João Fernandes, Fernando J.B. Martinho e do mesmo Eugénio Lisboa.

Numa nota breve focamos apenas dois aspectos. Primeiro: o autor esteve na guerra de Angola entre 1962 e 1964. Os poemas são contra a retórica do Poder. Seja na fala de um primeiro- cabo enfermeiro: «Em Portugal andam a pedir dinheiro para ambulâncias em Angola./ Então eles não sabem que aqui não há estradas?» Seja uma fala do poeta/militar: «Uma coisa é fazer a guerra como quem vive / E outra é fazer a guerra como quem morre». Segundo: ao assinar o livro «Gramática Histórica» em 1971 como Álvaro Neto, Liberto Cruz integrou-se na Poesia Experimental Portuguesa pois os poemas deste livro são inseparáveis da sua visualidade. E também da irreverência como em «Plebeísmos vulgares»: «Um gajo sem cunhas pediu uma Bolsa. Nicles, claro! Dizem que ficou com uma grande cachola. Que artolas

Como nota final registemos um soneto do livro «Caderno de encargos» de 1994:«Passamos todos depressa / Pela vida galopante / E é mesmo por um triz / Que de repente a deixamos. / Alguns fazem maratona: / São corredores de fundo. / Outros na velocidade / Encontram a sua via. / Outros há andando lentos / Em silêncio sem alarde / Como se a vida ganhasse / Quem só é para morrer. / E sem sermos campeões / Chegamos todos à meta.» Mais conhecido como especialista nas obras de Blaise Cendrars, Sade, Júlio Dinis, António José da Silva, Ruben A. e Cardoso Pires, neste livro se revela a total dimensão do Poeta.

(Editora: Palimage, Capa: António Viana/Rita Neves, Foto: Raul Cruz, Prefácio Eugénio Lisboa)

Um micro-Estado policial para usufruto da direita e gozo da esquerda

A publicação e exploração – tanto para fins comerciais como para agendas políticas, simultaneamente – de escutas onde Sócrates é apanhado a tratar de assuntos privados sem qualquer ilicitude que justifique o registo permite tirar uma TAC ao País. Os raios emanados da pulhice atravessam todos os protagonistas políticos e todas as camadas sociais. O que revelam é aviltante: Portugal é uma terra de cobardes.

Que a direita da sarjeta, actualmente triunfante, use a calúnia como arma política preferencial não surpreende. Há razões históricas, culturais, psicológicas, sociológicas e até antropológicas para tal ser assim. Que a direita se cale perante o colossal roubo e ilegalidades no BPN, BCP e BPP porque é obra da sua elite, ou perante conspirações para perverter actos eleitorais vindas da própria Presidência da República porque está lá um dos seus, e que ainda pretenda criminalizar adversários políticos por causa das suas políticas, é a obscena normalidade. Pacheco Pereira e Helena Matos, dois caluniadores profissionais, tiveram o desplante de antecipar que o PS iria lançar uma campanha de assassinato de carácter contra Passos durante o período eleitoral, a qual chegaria para que o PSD perdesse as eleições. Estávamos no princípio de 2011 e estas duas lástimas, que emporcalhavam o espaço público com fervor fanático desde 2007, projectavam em Sócrates as práticas dilectas do PSD e CDS. Acima de tudo, davam como garantida a existência de material privado para explorar pelo exército satânico, parecendo-lhes impossível que não viesse a ser aproveitado como eles o aproveitariam. Ora, do PS nunca apareceu qualquer ataque fosse contra o cidadão Passos Coelho, fosse contra o Presidente da República. Houve um estoicismo que raiou o destino sacrificial – ou, como prefiro imaginar, houve uma nobreza, um escrúpulo, que respeitou a mais alta vocação política dos responsáveis ao tempo e a intemporal natureza democrática do PS.

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Um texto exemplar

Em 2007, quando o País começou a conhecer o imbróglio da licenciatura de José Sócrates, fiz questão – era então líder do PSD – de fazer uma declaração pública sobre o assunto, recriminando tamanha trapalhada, contradição e falta de transparência.

Recordo-me bem de que foram poucos os que, nessa ocasião, falaram sobre o assunto. No que me diz respeito, cheguei mesmo a ser criticado por algumas pessoas do meu próprio partido que optaram por se vergar ao poder de Sócrates e sancionar o seu obsceno comportamento. Agora que o Correio da Manhã deu a conhecer detalhes inqualificáveis sobre o caso, através das escutas divulgadas, já praticamente ninguém deve ter uma discordância em relação ao que então afirmei: este homem é um mau exemplo, e os maus exemplos contaminam a sociedade. Denunciá-lo não é uma questão política ou partidária. É um imperativo de higiene e decoro.

No que à educação diz respeito, em vez de dar aos jovens o exemplo de que tirar um curso superior é uma questão séria, que exige rigor, disciplina, esforço e mérito, a imagem que o ex-primeiro-ministro passou para a juventude foi o da habilidade, do truque, do chico-espertismo, da mera preocupação com o título académico. Em relação à vida política, o exemplo que irradiou para a sociedade foi ainda pior: foi o exemplo de quem usa o poder para pressionar, enganar, ocultar e manipular, através de métodos que são indignos de quem dirige um país e de quem serve o interesse público.

Não gosto de ser alarmista e de cultivar falsos moralismos. A verdade, porém, é que começa a ser tempo de sermos mais exigentes em relação à democracia que temos e aos políticos que elegemos. A crise que vivemos não é apenas económica, financeira e social. É também uma crise de valores. Cumpre-nos contribuir para os reintroduzir na vida colectiva obrigando, desde logo, a construir uma cultura do exemplo. O bom exemplo tem mais força do que as melhores leis que se aprovam e do que os discursos mais brilhantes que se fazem. Ao contrário, os maus exemplos envenenam a sociedade, contaminam a política e ameaçam a democracia. Afinal, a política não pode ser a arte do vale-tudo e palco de actuação de gente mesquinha e sem escrúpulos.

Marques Mendes

Vinte Linhas 743

Uma nova leitura de «Os pescadores» de Raul Brandão

É sempre uma festa reler Raul Brandão (1867-1930). Por exemplo «Os pescadores» que dedicou à memória de seu avô, morto no mar. O título acaba por ser enganador pois Raul Brandão em «Os pescadores» de 1922 também fala dos homens da terra no Alentejo: «Os homens não se podem ver: um abismo separa o trabalhador do proprietário, que goza em Lisboa e que lhe deixa, de quando em quando, uma folha para desbravar. Desbravada, tira-lha. E esta solidão redu-lo a atroz realidade. Fica só o ódio, sob a abóbada de pedra que encerra o extenso panorama, entregue ao tempo que não passa, à morte que não vem, à secura das almas, pior que a secura da terra. Resta-lhe o ódio: com o ódio enche o deserto e enche a própria vida…»

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