Um micro-Estado policial para usufruto da direita e gozo da esquerda

A publicação e exploração – tanto para fins comerciais como para agendas políticas, simultaneamente – de escutas onde Sócrates é apanhado a tratar de assuntos privados sem qualquer ilicitude que justifique o registo permite tirar uma TAC ao País. Os raios emanados da pulhice atravessam todos os protagonistas políticos e todas as camadas sociais. O que revelam é aviltante: Portugal é uma terra de cobardes.

Que a direita da sarjeta, actualmente triunfante, use a calúnia como arma política preferencial não surpreende. Há razões históricas, culturais, psicológicas, sociológicas e até antropológicas para tal ser assim. Que a direita se cale perante o colossal roubo e ilegalidades no BPN, BCP e BPP porque é obra da sua elite, ou perante conspirações para perverter actos eleitorais vindas da própria Presidência da República porque está lá um dos seus, e que ainda pretenda criminalizar adversários políticos por causa das suas políticas, é a obscena normalidade. Pacheco Pereira e Helena Matos, dois caluniadores profissionais, tiveram o desplante de antecipar que o PS iria lançar uma campanha de assassinato de carácter contra Passos durante o período eleitoral, a qual chegaria para que o PSD perdesse as eleições. Estávamos no princípio de 2011 e estas duas lástimas, que emporcalhavam o espaço público com fervor fanático desde 2007, projectavam em Sócrates as práticas dilectas do PSD e CDS. Acima de tudo, davam como garantida a existência de material privado para explorar pelo exército satânico, parecendo-lhes impossível que não viesse a ser aproveitado como eles o aproveitariam. Ora, do PS nunca apareceu qualquer ataque fosse contra o cidadão Passos Coelho, fosse contra o Presidente da República. Houve um estoicismo que raiou o destino sacrificial – ou, como prefiro imaginar, houve uma nobreza, um escrúpulo, que respeitou a mais alta vocação política dos responsáveis ao tempo e a intemporal natureza democrática do PS.

Que a esquerda se cale, nuns casos, e rejubile e alinhe, noutros, com as calúnias é que espanta (mas só se estivermos para aí virados). Espanta especialmente, e imperdoavelmente, quando as calúnias são feitas com base em escutas realizadas pelo Estado. Sempre que um agente da PSP dá um safanão num manifestante vermelho mais atlético no seu protesto ou se alguém tentar impedir os bravos artistas da revolução de sarapintar muros e paredes de propriedades privadas com as suas imutáveis verdades, chovem logo acusações contra a máquina de repressão policial ao serviço do capitalismo internacional e do imperialismo americano. Contudo, o espectáculo de ver a privacidade de concidadãos ser exposta com a finalidade de os fragilizar e difamar politicamente recorrendo ao aparelho policial e judicial do Estado supostamente de direito deixa impávidos e sorridentes os santos do PCP e BE porque, lá está, os alvos são do PS. É só ganho, pensam eles. Que importa a estes racistas ideológicos que se esteja a permitir à direita a posse de um mini-Estado policial onde se conluiam operacionais, magistrados e jornalistas para abater adversários? A política faz estranhos companheiros de cama.

Ainda mais estranho, se possível for, é o que acontece dentro do próprio PS. Oiça-se o esplendoroso silêncio de Ana Gomes, por exemplo e relevantíssimo exemplo, personalidade que ficou rouca de tanto gritar a sua furiosa indignação contra o que se passou no caso Casa Pia onde também se fizeram escutas à cúpula partidária que foram prontamente divulgadas, não tendo ela o mínimo rebuço em falar de conspiração para abater a liderança de Ferro Rodrigues. Agora, não abre a boca. Em vez disso, entra no cortejo das insinuações que envenenam o espaço público:

Em boa hora (finalmente…) o PS entendeu determinar um inquérito parlamentar ao descalabro BPN.
O PSD estrebucha: lá sabe do que tem medo que se descubra sobre o opacíssimo processo de privatização.
Mas porque carga de água é que o PS, pelo seu lado, procuraria confinar o inquérito ao processo de privatização e isentaria de investigação o duvidoso processo da nacionalização?
Quem tal defende, de que tem medo?

2 de Março

Ana Gomes está a desautorizar a explicação dada por Sócrates e Teixeira dos Santos, sugerindo que algo de errado, imoral ou mesmo ilegal terá estado na origem do duvidoso processo de nacionalização. Não sabemos o que vai na cabeça desta animada senhora mas terá de ser algo de arrebimbomalho, onde Sócrates se teria predisposto a fazer o jeito, quiçá sacando mais uns envelopes castanhos, aos amigos, amiguinhos e amigalhaços de Cavaco. Isso faz de Ana Gomes, para além de uma futura escritora de policiais de sucesso garantido, uma leitora interessada em eventuais escutas que possam confirmar as suas intuições. O Correio da Manhã deve ter algum material desse na gaveta, mas um óbvio conflito de interesses estará a atrasar a sua publicação.

A esquerda que se cala, ou goza, com o que tem sido feito a políticos do PS através de escutas devia apagar toda e qualquer referência ao 25 de Abril nos seus discursos. E o maior insulto que lhe podemos fazer é este: nem que nos pagassem quereríamos saber o que dizem uns aos outros na privacidade.

5 thoughts on “Um micro-Estado policial para usufruto da direita e gozo da esquerda”

  1. A direita e os estarolas que estão a lambuzar-se no Pote, têm um medo de morte de
    José Sócrates, razão para continuarem com a campanha de intoxicação há muito co-
    meçada no laboratório da Marmeleira!
    Os pasquins de serviço CM e Sol aproveitam para irem vendendo papel, sabem que a
    “marca” Sócrates é dinheiro em caixa! Baseam-se em “escutas” feitas não se sabe por
    quem, do Ministério Público não deve ser, a polícia por si só não as faz…adiante, insi-
    nuam o que não está nas “transcrições”, com uns ses e mas, poderia ter sido etc.!
    Do PCP e do BE, está mais que demonstrado, nada se pode esperar, lamentável é o
    que se passa no PS, a falta de coerência e os instalados, os acomodados com a sua
    vidinha, que preferem ir abraçando o lider (fraco) com o poder de nomear e, alguns
    com o rabo preso…por borradas feitas!
    A partidocracia cada vez está mais desacreditada, grande parte dos portugueses há
    muito que deixaram de votar, para se salvar a democracia deve mudar-se o regime
    para presidencialista, abrir a A.R. a deputados eleitos directamente em circulos unino-
    minais, reduzir o número de deputados para 150 sendo 80 para os partidos e os res-
    tantes eleitos directamente! Com a partidocracia isto está a bater no fundo!!!

  2. A senhora Ana Gomes, que como diz e bem, de tanto gritar fica rouca mas não pára, sofre da psicose da perseguição. Acha sempre que há maldade em tudo e em toda a política, principalmente das facções que ela não integra. foi, juntamente com o PCP, BE, CDS e PSD mais uma oposição a José Sócrates. Porquê, talvez porque não saiba o que é em economia, a noção de “sistémico”. É bom que haja quem denuncie isso. Bem haja, portanto.

  3. Excelente texto, Val.
    Pena que tenhamos chegado a um tal ponto em que muito poucos se detêm a pensar e reflectir no que leem, dando todo o espaço aos que reagem instantanea e compulsivamente à simples menção do nome Sócrates.
    Com os meus sessenta e algumas maleitas, não temo muito por mim, mas arrepia-me o que aí se vai preparando para sofrimento da minha neta, com o silêncio complacente e cúmplice de tantos, quiçá futuras vítimas de primeira linha. E não há quem ilumine o Seguro e quejandos, se não pelos princípios e convicções, ao menos pelo medo?

  4. Admiro-me que esse ds que por aí anda a chamar “prostitutas intelectuais” a quem não pensa como ele (e ainda bem) não tenha escrevinhado por aqui. Será que é algum prostituto a sério e anda a fazer pela vidinha?

  5. Não há volta a dar, Val. Com a intoxicação feita pelos dois “ilustres comentadores” e outros mais nos pasquins da imprensa escrita e – sobretudo em TODOS OS CANAIS DE TV NACIONAIS, o povo – que é sereno, não é? – vai continuar a preferir “engulir” tudo o que estes estarolas/vampiros lhes impuserem, enquanto tiverem um naco de pão para comer. Depois, será novamente tempo de revolução social à séria E aí, lamentavelmente, surgirá a outra facete do povo: a arruaça e a violência diária. Será um remake do fim da 2ª República. Portugal não consegue sair destes ciclos.

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