Vinte Linhas 743

Uma nova leitura de «Os pescadores» de Raul Brandão

É sempre uma festa reler Raul Brandão (1867-1930). Por exemplo «Os pescadores» que dedicou à memória de seu avô, morto no mar. O título acaba por ser enganador pois Raul Brandão em «Os pescadores» de 1922 também fala dos homens da terra no Alentejo: «Os homens não se podem ver: um abismo separa o trabalhador do proprietário, que goza em Lisboa e que lhe deixa, de quando em quando, uma folha para desbravar. Desbravada, tira-lha. E esta solidão redu-lo a atroz realidade. Fica só o ódio, sob a abóbada de pedra que encerra o extenso panorama, entregue ao tempo que não passa, à morte que não vem, à secura das almas, pior que a secura da terra. Resta-lhe o ódio: com o ódio enche o deserto e enche a própria vida…»

Mas vamos a um texto marítimo sobre o Sítio da Nazaré: «Antes de me ir embora vou lá acima ao Sítio. É uma aldeia branca e deserta, com o templo, a capela e o penedo onde se deu o milagre. Do alto deste grande morro descobre-se de aeroplano um largo panorama – o mar infinito, a ampla baía formada pelos montes, a branca Nazaré ao pé da areia, a toalha líquida do riozinho que se espraia e detém ao chegar à costa e, do lado da terra, os eternos pinheirais, donde emerge o cone mais agudo de S. Bento , com a ermida e a guarida do vigia. Percorro as ruas e a praça. O silêncio duma povoação abandonada. Só encontro o padre, duas mulheres e uma criança. Os homens foram todos (mais de trezentos) para a longínqua pesca do bacalhau que dura de Maio até Dezembro. Durante essa longa ausência a mulher não muda de roupa nem de vestido e nunca mais se deita na cama onde dormia com o homem, que lhe leva a enxerga para bordo: fica no chão com os filhos sobre esteiras».

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