Sê rei de ti próprio – II

Maquiavel, pese a distância temporal e nos costumes, disse algo que continuará válido pelos séculos fora: a enorme maioria das pessoas não quer exercer o poder político – o que elas querem é que as deixem literalmente em paz. O grosso da população, não importando a sua classe, pretende que o Estado garanta a sua segurança e a sua liberdade, mas de modo a que uma não comprometa a outra. Se o governante, alegando ter de evitar um qualquer perigo, diminui a liberdade, seja com leis e/ou impostos, entramos numa tirania. Se o governante, incapaz de reconhecer ou combater os perigos, descuida a segurança, entramos numa revolução ou dissolução social. O que os cidadãos querem, detalha Maquiavel com exemplos coevos e antigos, é o poder da iniciativa individual que promove os negócios e o enriquecimento colectivo através de longos períodos sem conflitos entre Estados nem abusos das autoridades locais. Esta descrição do modelo social ideal colhe o favor da totalidade das democracias ocidentais contemporâneas que, com inevitáveis variações ideológicas relativas à geografia e à História, não propõem outra coisa.

Maquiavel igualmente analisou à lupa o papel das paixões – as emoções, afectos e sentimentos – na lógica e dinâmica do comportamento político. A primeira constatação, na sequência do ponto anterior, é a de existir um conjunto de características psicológicas imprescindíveis para o exercício do poder. Sem capacidade para liderar, sem coragem e ambição, não há quem aceite ser liderado, logo não há poder político. A segunda constatação é a de que inúmeros acontecimentos históricos tiveram como principal causa a força avassaladora das paixões. Da inveja ao ódio, do orgulho à vingança, da vaidade à traição, a matéria bruta da natureza humana condiciona decisivamente os episódios políticos. Estar no topo da hierarquia social não corresponde a um acréscimo de racionalidade e justiça, pelo contrário, leva a uma libertinagem violenta que nasce do sentimento de segurança e impunidade. Daí serem tão valorizados por Maquiavel os exemplos dos governantes que exerceram o poder com honra, vencendo pela qualidade benfazeja das suas medidas e pela integridade do seu carácter. A estes, e só a estes, o povo pede que nunca abandonem o poder até ao fim dos seus dias.

Sejamos maquiavélicos, então, nisso de começarmos por medir a nossa disponibilidade para o exercício do poder. Se não for essa a nossa via, agradeçamos àqueles que nesse caminho se expõem a perigos tão grandes – sendo o maior deles todos o de acabarem por se envergonhar do que fizeram e, com ainda maior gravidade, do que não fizeram ou do que deixaram fazer. E continuemos maquiavélicos, cada vez mais e melhor, nesse discernimento da influência das paixões nos raciocínios e nos actos. O primeiro alvo dessa lucidez somos nós e a nossa assembleia interior, tão barulhenta e mal-frequentada.

28 thoughts on “Sê rei de ti próprio – II”

  1. até que enfim que alguém lê maquiavel como deve ser !! o melhor analista político de sempre. esqueceste foi uma coisa importante : a variável independente que determina todas as outras é a natureza humana cuja principal caracteristica é a avidez de bens honrarias e tal , sendo que um bom príncipe é aquele que consegue controlar a avidez dos seus subditos.. o salazar lá nisso era maquiavélico , açaimou a dele e a dos outros. o caos de agora maquiável também o explica muito bem , avidez sem controle que levou a altos níveis de corrupção , anomia , muitos pobres , muitos ricos , poucos remediados , péssima governação.

  2. Val,

    que confronto tão duro…ou tão simples. Um dos mais brilhantes textos que li aqui, de ti. Agora vou pensar…mais.

  3. Diz :)) que “a variável independente que determina todas as outras é a natureza humana cuja principal caracteristica é a avidez de bens honrarias e tal”. O lugar comum dos lugares comuns que deixa o Val de rastos. Gandas cómicos.

  4. e fui ali à net e já vim e para verem que não estou a mentir aqui vos deixo uma introdução , bem simples , a maquiavel :

    destaco de início : “Niccolo’s theories are based on the premise that a ruler must base policies on people’s true nature”

    e depois podem ler o resto , se quiserem , de como ele caracteriza a “true nature” que lhe serve de partida..

    http://www.rodneyohebsion.com/machiavelli.htm

  5. olha a paixão, pela coragem e ambição, que gerou e acelerou a crise no portugal com todos. maquiavélica a tua análise – certeira e carregada de impressão viva e actual. :-)

  6. e o que é mais engraçado é que houve periodos em que o Leonardo (o da Vinci) teve de emprestar dinheiro ao Maquiavel, que andava sempre falido, que a Senhoria não lhe pagava atempada e devidamente…

  7. “Sê rei de ti proprio” ou “sê escravo de ti proprio” ?

    Como se vê no post, andamos aos circulos. O paradigma moderno (com Maquiavel, mas também com Hobbes etc) não ajuda muito a esclarecer. E’ defensavel que tenha precisamente como proposito impedir que pensemos no assunto.

    Uma forma de pensar a politica que eu qualificaria de… barroca !

    Boas

  8. «Sê rei de ti próprio II»? Pelos vistos o Valupetas está com saudades minhas, e quer conversa, o maluquinho…
    Depois de ter escrito um post (o «sê rei de ti próprio» 1.0) que remetia para os meus últimos comentários, agora volta à carga para corrigir determinadas ideias que defendeu aquando da sua explanação daquilo que entendia ser (ou dever ser) a politica. Por que é que eu digo isto? Porque, como eu mostrei no meu comentário, tais ideias escondiam, ou revelavam, um facto novo: o facto do Valupetas ser um «amigo do Estaline». Nesse post o valupetas defendia a ideia de que o poder político se começou a alterar na Grécia Antiga à medida que uma classe de mercadores ganhava importância social, e saíu vencedora do confronto com os latifundiários e os senhores das armas. Como eu disse, esta ideia mais não é do que uma especificação da tese «arcaica» marxista da luta de classes. Para além disto, o Valupetas ainda defendeu a tese marxista segundo a qual a infra-estrutura económica determina a super-estrutura cultural ou ideológica, na medida em que fez depender o surgimento da filosofia, assim como surgimento do novo ambiente politico, do desenvolvimento de novas relações económicas e sociais. E a concluir o seu post defendeu a ideia de que a politica devia consistir no compromisso em sermos autónomos, pois só assim seriamos «reis de nós próprios». A defesa de tal ideia é uma vez mais a defesa de uma ideia marxista, pois quando Marx fala na emancipação social dos homens só está a defender a aplicação desse principio de autonomia a toda a realidade social (e não apenas ao domínio politico).
    Portanto, é porque o valupetas se deu conta de que as suas ideias tinham um fundo marxista, ou materialista histórico, que decidiu escrever este segundo post, procurando assim corrigir o que escreveu então. E que grande correcção que ele fez! È que este post já não tem nada de marxista, mas é apenas uma explanação da cartilha liberal. Porque, sem mencionar o Locke ou o Adam Smith, o conteúdo do post consiste numa defesa dos princípios ideológicos liberais. Para o Valupetas a população em geral, afinal, já não pretende ser autónoma, mas só quer viver em paz, e aquilo que espera do Estado é apenas que garanta a sua segurança e liberdade. Daqui decorre, como qualquer liberal ou neoliberal que se preze sabe e defende, que as funções do Estado devem estar limitadas às funções de soberania, às funções judiciais e às funções de defesa. Quaisquer funções sociais, como a educação ou a saúde, não dizem respeito ao Estado, e devem ser «satisfeitas» pelo mercado, já que nada têm que ver com a «liberdade» ou com a «segurança». A isto o valupetas acrescenta que o que os cidadãos querem é exercer a sua livre iniciativa individual no sentido de promoverem e desenvolverem os seus negócios. Um neoliberal não diria melhor! O que valupetas nos apresenta como «modelo social ideal» é o «Laissez faire, laissez passer»! Como isto está, de facto, longe do conteúdo primeiro post!
    Mas a rejeição que o Valupetas faz do príncipio de autonomia, que antes defendeu, não se fica por aqui. Agora diz que nem todos têm capacidade para exercer o poder político, e que por isso existirão sempre tipos a liderar e tipos que aceitam ser liderados; existirão sempre senhores ou reis (de si próprios) e escravos ou servos (dos primeiros), mas voluntários, claro! Porque como nos ensina a cartilha liberal, aqui ninguém é coagido a fazer nada. Se no seu outro post o Valupetas tinha dito que o poder político era exercido por aqueles que conquistaram importância e poder económico, agora considera que quem tem o poder politico, exerce-o por consentimento dos «liderados», que deviam agradecer a disponibilidade e o sacrificio dos senhores. Isto é para rir!
    Enfim, se este post pretendia ser uma correcção do primeiro, tem que se reconhecer que o conseguiu. A visão marxista inconsciente presente no outro post desapareceu por completo, e impôs-se a visão liberal da realidade. Só falta saber se também esta é uma visão inconsciente, ou se o Valupetas está simplesmente a fazer a cabeça aos socretinos, ou ambas as coisas. Porque como é costume dizer-se, «em terra de cegos que tem um olho é rei», o que faz dos socretinos uns ceguinhos facilmente manipuláveis por um «rei» que não passa de um tipo com uma visão limitada…

  9. Bom dia a todos,

    quem acredita que esta peça é do Valupi não percebe nada da orta.

    Um abraço ao Valupi, e como ele deve gozar como um louco em especial com o sabido do ds.

    passem bem

  10. Talvez fosse boa ideia dedicarmos boa parte do nosso tempo/espaço a sossegar a
    “nossa assembleia interior, tão barulhenta e mal-frequentada”, convidando o silêncio e outros bons-amigos (as)… :)

  11. Sim… Concordo. Quem acredita que este texto é do Valupetas, não percebe nada da «orta». E o contrário também é válido: Quem percebe da «orta», não acredita que este texto é do Valupetas. Tanto a afirmação do antecedente como a negação do consequente consistem em argumentos válidos.
    Porque o que está em causa é mesmo a língua portuguesa. Se o Valupetas considera que o que o Maquiavel disse «continuará válido pelos séculos fora», é evidente que está de acordo com as suas ideias, nomeadamente aquelas que afirmam que a população só espera que «o Estado garanta a sua liberdade e a sua segurança», que o que as pessoas querem é «o poder da iniciativa individual que promove os negócios», e que é nisto mesmo que consiste o «modelo social ideal». Em resumo: não o assumindo, o Valupetas está a defender o modelo social neoliberal.
    A não ser… A não ser que o Valupetas esteja, uma vez mais, a fazer o papel de «amigo do Estaline», e a querer dizer que o que o Maquiavel disse «continuará válido pelos séculos fora» porque a população continuará a viver num estado de alienação ideológica e política, e que por isso só quer e espera aquilo que a ideologia dominante determina e define como «natural» ou «ideal». Duvido desta segunda interpretação, pois o tipo escreveu este post para, precisamente, corrigir a imagem marxista e de «imbecil de esquerda» que deixou ficar (ou melhor, que eu revelei) no outro post.
    Mas, «prontos», aguardemos pelo post «sê rei de ti próprio III», para um «melhor» esclarecimento. Acredito que no seu gozo de louco o tipo vai continuar a meter os pé pelas mãos…

  12. Caro e ilustre ds a “orta” a que me refiro é à cabecinha genuína do “valupetas” como lhe chama depreciativamente. Esta peça só é do original Val se por artes e manhas ele tivesse um retrocesso mental. Ainda não atinou que isto se transformou num sitio ao serviço de quem muito bem sabe. Detectar um genuíno val é como um jogo dado que há quem lhe apanhe o jeito. De qualquer forma é um divertimento de fino gosto achar um, é cada vez mais raro.

    Quanto ao Maquiavel só lhe posso confirmar que é um personagem digno de ser estudado pois o género humano como ele o refere ainda anda muito na moda.

    Pode dedicar com o engenho e a arte que lhe reconheço tentar analisar o que é val ou uma imitação e há vários no engenho. Só entra na dança quem quer, e isto é tão verdade para si como para mim o “antecedente”.

    Cumprimentos

  13. Uma vez mais concordo. Detectar um Valupetas genuíno é quase impossivel, e é por isso mesmo que eu o chamo (realisticamente e não depreciativamente) de «Valupetas». Também já o apelidei de «prostituta intelectual», de «hermafrodita» e de «esquizofrénico», tudo classificações que pretendem expressar uma única coisa: que o tipo é um impostor. Portanto, o que é genuíno nele é a impostura. E sendo um impostor segue-se, logicamente, que aqueles a quem todos os dias anda a fazer a cabeça não passem de socretinos facilmente manipuláveis.

  14. Caro ds

    Está quase lá. Não há impostor nenhum, são só uns tipos pagos para fazer de conta que são o que nunca serão o genuíno “valupetas”.

    Os adjectivos com que os vai mimando devem ser justos, é a imagem que dão ao tentarem imitarem o grande val das “nobres” causas que com inteligência as resolve lindamente.

    Como este não aceita ser pago para tal “besogne”, há uns artistas de serviço.

    É com acerto que conclui “socretinos manipuláveis” e se me permite um reparo a maior ofensa que lhes poderia fazer seria de os considerar “segurinhos cretinos”, dão para tudo.

    Divirta-se.

  15. Essa teoria é realmente muito engraçada e divertida e começa a assemelhar-se ao «mistério da multindade»! Valupetas, um só nome, mas que é aplicável a múltiplas entidades, ou imitações. ehehheheheheheh
    Pois… Mas isso não altera o essencial. Sendo os múltiplos valupetas a «palavra encarnada» do Valupetas-Pai, ou imitações criadas à imagem e semelhança do Pai, isso quer dizer que «Aquele que é» – o «genuíno» que se desconhece quem seja (ou o que é) -vai-se revelando nas suas múltiplas manifestações, pois essa é antes de mais a sua vontade. O que os «filhos», ou encarnações, do Valupetas dizem e fazem, dizem e fazem em nome do Pai, e nem o Pai permitiria que se invocasse ou usasse o seu nome em vão. Como diz o livro sagrado, «quem vê o(s) Filho(s), vê o Pai» e , e portanto as múltiplas «imitações» do Valupetas permitem-nos saber algo de si próprio, e isso é, como eu já disse, a sua impostura.

  16. Porventura não percebo nada da horta, mas não esqueçamos o Garcia da Orta – à conta dos seus dotes de médico lá salvou um rajá de um mal qualquer e levou Bombaim de presente (possivelmente era só um lugarejo) que depois foi no dote de Catarina de Bragança, porta de entrada para o que veio a ser a jóia do Império Britânico. Os seus ossos foram queimados pela inquisição.

  17. ds

    É de facto um exagero essa do pai… mas a ver pelos gemidos deve estar a doer.

    Ponha a coisa mais terra a terra, o rei val não se vende isso é lá para a marabunta.

    O mais simples é imaginar a cena do bêbado a cair de quatro, repisa a sina até ao enjoou.

    A ideia do que é o “socras” ou foi…é o maior venha quem vier, quanto ao mais, o dono da

    loja já não está nem ai, não confirma nem desmente. Está ausente.

    Boa vida é o mais importante.

    E bom vinho.

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