Arquivo da Categoria: VISITAS ANTIGAS:

Marchas e Tronos

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Corria o ano de 1932 quando foram incluídas nas festividades em louvor de Santo António as “marchas populares”, com desfiles colectivos dos moradores de cada bairro da capital, ao som de músicas alegres, a obedecer, tal como as letras, os trajos dos marchantes e a própria ornamentação dos arcos enfeitados com balões, a um tema alusivo – histórico ou referente às características de cada bairro.

Poder-se-á dizer que a ideia foi apenas retomada em novos moldes, ou seja, (re)criada e (re)construída como criação lúdica de um espectáculo de rua, adoptado depois pelo povo reunido nas colectividades de recreio dos bairros da capital, que torna as marchas num símbolo festivo, popular e urbano e um dos pontos altos das festividades lisboetas, tal como então foram concebidas e hoje as conhecemos.

Soledade Martinho Costa
Festas e Tradições Portuguesas

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Cuidado: isto começa com gritos

Os Tilly And The Wall são um dos segredos mais bem guardados da música do novo continente. Entre as inúmeras virtudes destes meninos, conta-se a curiosidade de a percussionista da banda, Jamie Williams, ser uma bailarina, isto é, ela substitui a bateria pelo som amplificado do seus sapateados e palminhas (o que, convenhamos, faz todo o sentido e apenas fico surpreso por ninguém se ter lembrado disto antes). Mas o que realmente faz dos Tilly And The Wall uma das minhas bandas favoritas é o facto de produzirem a música mais boa-onda e bem-disposta do planeta. Agora, quando um rapaz chamado Kinga Burza (Ungashaka! Ungashaka!) se junta a esta malta para realizar o vídeo de «Sing Songs Along», o resultado não é apenas uma desbunda de som, imagens e euforia, mas um dos objectos mais belos e rejuvenescedores que já vi na minha vida (e vocês sabem que não sou gajo para exagerar nestas merdas). A sério: da próxima vez que se sentirem em baixo ou tristitos, esqueçam lá o Red Bull (que é um beneno) e afinem os sentidos para esta pequena maravilha.

Uma versão do vídeo com maior resolução (Quick Time) pode ser vista aqui.

«Carta a mim mesmo no dia dos meus anos»

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José Luís Tavares (Santiago, Cabo Verde, 10 de Junho de 1967) faz hoje 40 anos.
O Aspirina deseja muitos. Anos, poemas. E felicita-se por poder publicar, hoje, esta

CARTA A MIM MESMO
NO DIA DOS MEUS ANOS

Como poeta nasci já quase canónico
(vede se isto não tem seu quê de cómico),
fazem-me quase um preto gentio camões —
não ligueis, que amanhã príncipe dos anões

serei. É certo que não errei o fio à vida,
seus corsos e naufrágios — fui mais fundo
que os demais? — em modo assaz rotundo
percorri-lhe as voltas, os sustos, a recaída.

Saberão vez alguma que nesta escura feira
tudo é sombra e deriva? Que nem as agudas
razões do pranto desvanecem esta surdina?

Não te iludas com os louros na cabeleira:
mais depressa se rirão das tuas agruras
dizendo «outro que não escapou à sina».

José Luís Tavares

Dia da Raça

Falam-nos dum passado de marinheiros audazes, em que nos fomos ao mar,
a descobrir novos mundos que demos ao mundo velho.

Do mar trouxemos por junto uma epopeia de mitos, feita de deusas carnudas,
e uns tantos heróis pintados, e adamastores de papel.

Arrenego um tal passado. Que ou não somos, agora, o que já fomos, ou
nunca fomos o que nos dizem que somos.

Levaram-nos, é o mais certo, a fingir o que não fomos. Se assim for,
nunca seremos o que nos dizem que somos.

Jorge Carvalheira

Bah!

A Ministra reconduz. O Primeiro consente. O Presidente cala.

É cá uma fezada que o Ministério da Educação está atafulhadinho destas prepotências. Com uma cultura muito local. Quanto menos capazes, mais espezinham, e mais sobem. E com um PS tão rosadamente clientelar…

Por onde pegar, então? Pela primeira ponta que se veja. E esta é cá uma!

«Casal». E que casal!

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Isto de a gente ser portador dum segredo é tramado. Dá à vida um ar de irrealidade, mas não nos faz feliz. Trata-se de quê, desta vez?

Bom. Você já terá andado de metro em Lisboa. Talvez até tenha saído, ou entrado, na estação Cidade Universitária. Possivelmente, reparou que tem azulejaria de luxo e perguntou-se pelo artista. Já menos provável é que certo conjunto, onde figuram dois seres de aparência humana, lhe tenha embargado o passo. E é já da ordem do conto de fadas supor você identificando as figuras. Concedo: não é nada, nada fácil.

Dou-lhe conta duma primeira tentativa. Na edição de luxo de Lisboa, Livro de bordo, de José Cardoso Pires (Dom Quixote, 1997), aparecia a tal figuração, com a legenda: «Estação Cidade Universitária. Painel do Cais, com retrato de casal». E vinha o nome do, neste caso, «da» artista: Vieira da Silva. Pois já então eu soube que carregava um pesado segredo.

O «casal» é formado por Vergílio Ferreira, à direita, e Alexandre Pinheiro Torres. Se há ali um casal, é de discórdia. A autora quis decorar a estação ‘universitária’ com a recordação de uma polémica. Uma polémica intelectual, o que só fica bem.

Os dois escritores degladiaram-se em inícios dos anos 60, a pretexto (sim, puro pretexto, depressa esquecido) da publicação de Rumor Branco, de Almeida Faria, que Vergílio apadrinhara. Uma luta surda fazia ali erupção. Pinheiro Torres batia-se pelo Neo-realismo, Vergílio execrava-o, e Faria, com um romance experimental (a sua extraordinária, e ainda hoje obrigatória, Paixão demoraria ainda uns anos), constituía a bem-vinda pedra de escândalo. Meses a fio, tout Portugal conteve a respiração.

Quando, pois, você de novo por lá passar, lembre-se de que, discretamente, o debate intelectual português tem ali o seu monumento.

Para a petite histoire

Isto, sendo uma revelação, não é a primeira que é feita. Quis o destino que, na mesma exacta hora, dum fim de tarde de 1997, em que, na Câmara de Lisboa, era apresentado o livro de José Cardoso Pires, moderasse eu, na sede da SPA, um debate sobre Alexandre Pinheiro Torres, que vivia há muitos anos fora do País, e que eu achara dever ser homenageado pela passagem de 50 anos de vida literária. Estavam na mesa, e na conversa, Mário de Carvalho, João Aguiar, Inês Pedrosa e Regina Louro, que me pareceram comparsas do bom-gosto e da ironia de Torres. Recordo-me de ter, então, revelado o segredo do Metro de Lisboa. Mas, ainda agora, nenhum motor de busca dá conta dele. Depreendo que o black-out foi, até hoje, geral.

Sobre Alexandre Pinheiro Torres veja a excelente página de Carlos Ceia.

Duas opiniões

«A história que hoje podemos fazer dos últimos trinta anos dá-te [a APT] razão, pois Almeida Faria não se tornou o grande escritor que Vergílio Ferreira augurara» (Carlos Ceia, no site acima)

«Entre 1965 e 1983, Almeida Faria publicou a sua «tetralogia lusitana» (Paixão, Cortes, Lusitânia e Cavaleiro Andante), que confirmou o vaticínio de Vergílio Ferreira: o de que estávamos perante um ‘futuro grande escritor’» (António Guerreiro, hoje no «Expresso»)

Qual é a sua?

Aspirina Box #3

boxas.jpg Mais coisas na box. Para celebrar a notícia que vai haver este ano um novo disco do grande Robert Wyatt, acrescentei mais três temas do rapaz: o clássico «Shipbuilding», a versão revisited de «Left Of Man» e o fabuloso docu-drama que é «Pigs… (In There)» (a sério: vale mesmo a pena espreitar a letra). Depois, há mais uma obra-prima de The Field (que sampla com grande pinta a guitarra do inarrável Hello de Lionel Ritchie), a melhor faixa que os Idaho gravaram até hoje e uma pérola dos Of Montreal, cujo último disco tem sido, para mim, uma das grandes surpesas do ano. Fui ainda repescar um tema dos Faultline que prova que a voz do Chris Martin é ainda a única coisa que se aproveita dos Coldplay, um belo exemplo de shoegazzing sacado do último disco das saudosas The Raincoats (sabiam que a Ana Silva é prima da nossa Ministra da Educação?) e ainda uma das canções mais emblemáticas da década de 90: «78 Stone Wobble» dos Gomez (que andam agora muito estragadinhos, ‘taditos). Para finalizar, há uma bomba chamada «Silent Shout» dos The Knife (incrível como, com tanto concerto, ninguém se tenha lembrado de os trazer a Portugal) e um clássico de Django Reinhardt que ouvi pela primeira vez há muitos anos no belíssimo Stardust Memories de Woody Allen. Um dia, juro-vos, hei-de saber tocar essa cena.

Luís Amaro – Um poeta discreto

A revista Alentejo – Terra Mãe publica-se em Évora e, no seu recente número 6, relativo ao primeiro trimestre de 2007, inclui três páginas de homenagem a Luís Amaro. Até aqui tudo bem.

A primeira página inclui um perfil biográfico: «Nascido em Aljustrel em 1923, Francisco Luís Amaro começou a escrever aos 12 anos em jornais alentejanos, veio para Lisboa no Outono de 1941 e nunca mais de lá saiu. A sua obra poética é breve mas intensa.». A segunda página reproduz a capa do volume Diário Íntimo de Luís Amaro na recente edição da Editora «& etc», além de da bibliografia total: livros, revistas e trabalhos desenvolvidos na revista Colóquio Letras. A terceira página tem uma foto de Urbano Tavares Rodrigues e o seu depoimento que começa assim: «Sou amigo do Luís Amaro desde sempre. Sempre foi um homem muito cordial, sempre disposto a ajudar alguém, de uma grande generosidade e, ao ler este livro, fiquei comovido e muito feliz.» Até aqui tudo bem, mas a partir daqui tudo mal.

É que a fotografia que acompanha este trabalho assinado por Emília Freire tem a ilustrá-lo uma fotografia de Manuel Poppe. Demorei algum tempo a descobrir de quem era a foto trocada. Tinha uma ideia, mas não tinha a certeza. Foi num exemplar do Jornal de Notícias que vi a mesma foto ao lado da coluna de opinião «O outro lado», assinada por Manuel Poppe.

Será caso para dizer: Luís Amaro é discreto, mas não ao ponto de se diluir na sombra das páginas de uma revista…

José do Carmo Francisco

Os Dois Onésimos

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Na mais recente festa de formatura da Brown University, de Providence (costa leste dos Estados Unidos), coube a Onésimo Teotónio Almeida ser – nas suas venerandas palavras – «o portador oficial do símbolo do poder da universidade, à frente da reitora nas procissões». E recorda o seu estatuto de ex-seminarista (acontece aos melhores), suspirando: «Para o que havia de estar guardado quem há muito despiu a batina!»

Julga você que se trata do mesmo Onésimo Teotónio Almeida, autor das descontraídas crónicas de Que Nome É Esse, ó Nézimo, e Outros Advérbios de Dúvida, 1994, de Rio Atlântico, 1997, de Viagens na Minha Era, 2001, e de Livro-me do Desassossego, 2006?

Esfregue os olhos. Pode estar a sonhar.

Coisas de muito espantar – 2

PRAZERES RÁPIDOS

– Sabias que não precisas de ser gay para escrever uma bela história do género?
– Que género?
– Género gay. Arre, és lento de percepção.
– Tu é que complicas. Mas então estavas a dizer…?
– Que não é preciso seres…
– Yá. E é porreiro. Assim, ainda guardo as minhas chances.
– Exacto. Agora, já só te falta escreveres bem.
– Filho da…
– Mas há mais.
– Mais?
– É que, para escreveres uma linda história lésbica, também não precisas de ser mulher.
– Essa… essa é do catano. E como é que sabes?
– Li.
– E quem é que disse?
– Ninguém. Eu li. Li a história. Chama-se Sedução. É dum português.
– Título basto comercial.
– Tás a gozar. Mas hás-de ler. Já ouviste falar do José Marmelo e Silva?
– Marmelo… conheço.
– Esse ainda é um gajo novo. O Marmelo e Silva morreu há anos largos. E o livro, esse é
dos anos 30. Uma pequena pérola, vai por mim. Há edições recentes.
– Hei-de ler. E a outra coisa… Essa do straight. Também é português?
– Era. O Alexandre Pinheiro Torres. O nome diz-te alguma coisa?
– Vagamente.
– Não diz nada, portanto. E é um fabuloso romancista. É, não duvides.
– E escreveu um romance gay.
– Uma novela… O título, aviso-te, é foleiro à brava.Segura-te. Amor, Tudo Amor, Só Amor.
– Ui!
– E disse-me um gajo, amigo dele, que o convenceu a encurtar. Mas o que interessa: a história
é de partir o coco.
– Vou ler também.
– Lê. Mas devagarinho. São prazeres muito rápidos.
– … Espera. E… e malta gay com grandes livros straight?
– Essa é aos montes.

Saber antigo

A menina era gentil. E bonita, santo Deus! Da ementa que me trouxe constava xôpa grelhada.
Pareceu-me estranho. Pedi explicações.
– É um peixe do mar, sei lá!
Fiquei na mesma. E logo ela harmonizou. Abriu-me o menu da véspera, paspada no carvão.
– Come e cala-te! – disse eu, a rosnar com os meus botões.

Jorge Carvalheira

De Cardoso Pires a Fernando Mendes – Um Peso certo, uma palavra errada

Para quem possa parecer insólita esta associação entre o escritor José Cardoso Pires e o actor Fernando Mendes esclareço já que se trata de ligação legítima. O autor de Balada da Praia dos Cães nasceu no Peso (Vila de Rei) e o apresentador do «Preço certo» esteve no Peso (Santa Catarina) numa festa com a finalidade de angariar fundos para o piso sintético do campo de futebol local. Tenho aqui o livro A república dos corvos de José Cardoso Pires com uma dedicatória amável datada de Maio de 1991 que conclui deste modo: «José do Carmo Francisco oxalá encontre o mesmo prazer que eu encontrei nos seus Jogos Olímpicos. Um abraço de parabéns José Cardoso Pires». Na contracapa lá está o erro crasso: «José Cardoso Pires nasceu no Peso, Covilhã, a 2 de Outubro de 1925.» Na página 5535 da Nova Enciclopédia Larousse vem de novo o mesmo erro: «Pires (José Cardoso) escritor português (n. Peso, Covilhã, 1925)» Nós sabemos que Vila de Rei é cá para baixo e Covilhã é lá para cima. O Fernando Mendes aparece no Diário de Notícias de 3-6-2007 a dar um pontapé de saída para um jogo no Peso (Santa Catarina), mas a notícia assinada por João Fonseca de Coimbra refere outra coisa: «As centenas de pessoas que assistiram ao jogo, ontem à tarde no Peso, Caldas da Rainha, não tiram os olhos do pelado mas no final não se entendem quanto ao resultado.» O Peso onde Fernando Mendes esteve fica na freguesia de Santa Catarina e não na freguesia de Caldas da Rainha. Isso era se o Peso ficasse no Avenal ou na Lagoa Parceira. Mas não. Fica em Santa Catarina, a mais de 18 quilómetros das Caldas. O Peso do Cardoso Pires é ainda mais longe: de Vila de Rei à Covilhã é um esticão. Mas ambos estão errados.

José do Carmo Francisco

É pa rir?

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Uma sessão de autógrafos de ANTÓNIO MANUEL VENDA , na Feira do Livro de Lisboa, foi cena de perturbação. Mais publicidade para O Que Entra Nos Livros? Por aí, não haverá queixa. Mas a ordem pública parece, com isto, desafiada.

Está tudo contado no blogue do autor.