Dia da Raça

Falam-nos dum passado de marinheiros audazes, em que nos fomos ao mar,
a descobrir novos mundos que demos ao mundo velho.

Do mar trouxemos por junto uma epopeia de mitos, feita de deusas carnudas,
e uns tantos heróis pintados, e adamastores de papel.

Arrenego um tal passado. Que ou não somos, agora, o que já fomos, ou
nunca fomos o que nos dizem que somos.

Levaram-nos, é o mais certo, a fingir o que não fomos. Se assim for,
nunca seremos o que nos dizem que somos.

Jorge Carvalheira

25 thoughts on “Dia da Raça”

  1. Ah, Valupi, a menos que as tuas perguntas sejam retóricas, terás de esperar que o Jorge volte (disse-me ele) de vilegiatura.

    Entretanto, direi que o passado (até o nosso heróico) é uma construção (um constructo – aqui os pós-modernos do have a point), por cima uma ainda muito recente: data de Herculano, de Teófilo, de António Ferro.

    Às vezes penso: os fulanos de 1415 em diante mexeram-se, e possivelmente mexeram-se bem, mas o progresso pátrio subsequente não o prova.

    E deixo-te um pensamento kotteriano:

    «Os portugueses de hoje não são os descendentes dos que foram à Índia. São descendentes dos que cá ficaram: dos marrecas, dos ceguetas, dos cobardes, dos bananas, dos que tinham que sustentar a mãe…»

  2. Mas eu sei que se pode inverter o cenário e dizer:

    Quem partiu à aventura foram os marginais, os gatunos, os inadaptados, os tarados sexuais, os sádicos, os que nunca foram nada na vida….

    Mas tiraremos, dum cenário ou do outro, alguma consolação?

  3. As perguntas não eram necessariamente para o Jorge, mas inspiradas pelo sugestivo escrito que nos ofereceu, caro Fernando. E cá está já um fruto, com o teu excelente contributo.

    No entanto, e precisamente pelo que apontas – o passado como constructo (ou seja, como literatura) – é que me parece que a História continua cada vez mais por fazer.

    Assim, não sabemos que tipo de portugueses foram à Índia ou ficaram a ver navios. Aliás, nem sabemos se alguma vez existiram portugueses.

  4. Tal como o Jorge arrenego tal passado.
    Não o repudiando seria tornarmos a violar os direitos daqueles a quem lhos tirámos, daqueles a quem sem qualquer pudor deixámos para trás.
    Seria tão tranquilizante termos a certeza de que merecemos, no mínimo, ser o que somos…
    Sininho, sem pretender usar de indelicadeza, a sensação que deixa é que teria acabado de ler um livro de fadas

  5. Valupi

    Que dizem?
    -que somos um povo de marinheiros audazes, com uma história gloriosa. É mentira. Ninguém pode alterar a história. Mas não se deve re-escrevê-la. E nós vivemos há séculos com uma história re-escrita. Ainda não tivemos coragem colectiva para a escrever. Como ela foi, e não como convém que tenha sido.

    E quem?
    Todos os papagaios que se consideram de ‘serviço à Pátria’.

    E quando?
    Sempre que abrem a boca.

    E onde?
    No púlpito, na sala de aula, na crónica dominical, no ensaio, no comício, no parlamento, na tribuna do 10 de Junho. Até no langor do travesseiro.

    Fernando

    O ‘pensamento kotteriano’ é um exemplo agressivo de re-escrita da história. Porque a Índia, a dos ‘audazes’, em menos de 50 anos arruinou Portugal e corroeu-lhe a raça. Lançou-o numa espiral de decadência de que ainda não saiu. Nem com o ouro do Brasil. Nem com o funambulismo das províncias ultramarinas africanas. Nem com a cornucópia dos fundos europeus. (Diga-se a esse propósito que a ‘sorte grande’ espanhola, nossa parceira, foi a expulsão do Caribe e das Filipinas, há um século).

    O ‘pensamento kotteriano’ é, além disso, provocatório. Os portugueses nunca se dividiram entre os audazes que foram, e os cobardes que ficaram. Uns e outros perderam o mesmo, foram, por igual, vítimas do mesmo logro. Um dia voltaram dele, e encontraram o quintal no estado em que está. Ao abandono.

    Consolação, Fernando, não é o que se procura. Para isso contam os portugueses com o seio generoso da Senhora de Fátima, inesgotável fonte.

    Do que precisamos é duma solução. E essa não virá, enquanto não soubermos, e assumirmos, o que temos sido. Um país de cabrestos, a marrar há cinco séculos numa capa. E uns quantos figurões a ganhar com a faena, e a transpirar trapio, claro!

    A nossa história é um eclipse da razão. Um dia li esta frase, e ainda hei-de saber quem a escreveu. Mas quem se importa com isso, a não ser tipos marados? Viver,antes que a morte chegue, é o importante!

    Jorge Carvalheira

  6. Jorge

    Muito obrigado pelas respostas.

    Contudo, as tuas respostas não respondem. Na verdade, obrigam a mais perguntas. Por exemplo, como é que se vai escrever a História “como ela foi”? Aliás, que quer essa expressão dizer?…

    Também confirmas a minha suspeita: ninguém nos conta essa tal lenda do passado heróico na gesta marítima. Tu dizes que sim, mas tens a obrigação de saber que não. Na escola? Último lugar para tal, sendo local onde Portugal não existe como representação. Na tribuna do 10 de Junho e no parlamento? Não brinquemos. No púlpito e no ensaio? Sejamos sérios.

    Se há característica que marca a patologia cívica do português é, precisamente, a amnésia. Temos 800 anos de esquecimento.

    Afinal, que se passou em Portugal nos séculos dos descobrimentos e da colonização que esteja por contar? Qualquer que seja a nova resposta, implicará sempre uma qualquer concepção do que seja Portugal – e é nessa ideia (e possível ideal) que está o nosso Império.

  7. Quarenta,

    O V. apresentou um cenário alheio, e apôs-lhe, como exercício mental, o cenário oposto. Não contou, propriamente, histórias…

    Mas ele suspeita que somos, ao mesmo tempo, o oito e o oitenta.

  8. Valupi

    Abandonando já o terreno, porque à minha pouca ciência interessam mais as coisas que a metafísica delas, respondo à tua dúvida perplexa.
    “A história como ela foi, que quer essa expressão dizer”?
    Exactamente o seguinte:

    Passei o fim de semana num casino clandestino, onde me esmifraram o último tostão.
    Mas eu cheguei a casa e contei à mulher que tinha ido passear aos montes. Cheirei as flores, ouvi os passarinhos, e até ajudei um sapo aflito a atravessar a estrada.
    – Não me vês tu esta alma renovada?!

    A história do meu fim de semana foi, e é, (apesar das tuas dúvidas!) e muito antes de eu fazer dela um constructo. Que por acaso me salvou de levar no focinho.

    Olha cá! A invasão do Iraque é história, ou não?
    A ‘tomada’ de Ceuta teve lugar, ou não teve?
    Ambas foram acontecimentos catastróficos, que podiam não ter acontecido.
    O constructo é a tal coisa, é como conversa de puta, põe-se lá o que der mais jeito.

    Nos descobrimentos e na colonização está (quase) tudo por contar, Valupi. E a amnésia de que falas, essa ronha que é instintiva, é a arma natural de quem não possui outra.
    O que é que pensas que fazem as mulheres há milénios, com todo o direito?

    Jorge Carvalheira

  9. De vez em quando dou uma leitura pelos postes do Aspirina e também pelos comentários. Quando li o poste do Jorge Carvalheira, «Dia da Raça», pareceu-me ter lido algo parecido em qualquer canto por aqui. E descobri. É o comentário ao soneto de Camilo Pessanha assinado por Musa no dia 7 de Junho às 07:33!
    O Carvalheira inspirou-se nele e escreveu, passados três dias, no mesmo estilo parte do poste que assina. Os verbos são outros, mas trata-se de uma apropriação de ideias. É assim que se diz. Quem quiser que compare. Fiquei desiludido, ó Carvalheira…

  10. Este Aspirina D é um génio. Confira-se. «Os verbos são outros, mas trata-se de uma apropriação de ideias.»

    Depois de ter lido uma crítica sobre um trabalho poético seu, o autor em causa dirigiu estas palavras ao crítico. «O poema é meu, mas não me lembro de o ter escrito. Aquilo que você escreveu, só você é que leu. Não eu, porque não escrevi aquilo que você diz que leu. Não tive intenção de dizer o que você diz que eu digo. Isto é, as coisas que digo e que não quis dizer, porque nem sabia que as havia dito antes de você mas dizer. Mesmo assim, obrigado. Fiquei a saber que não devo escrever aquilo que penso, porque posso ser mal interpretado…»

    Comentário de: Musa | junho 7, 2007 07:33 PM

    Um génio lúdico. Sim, como eles são bons.

  11. Olhe lá, ASPIRINA D!

    O seu mal é aparecer só de vez em quando. Venha mais vezes, que depois habitua-se e é mais fácil.

    E desilusões temo-las todos. Fosse V. capaz de perceber em que me “inspiro” eu, quando saio à procura do “estilo”… e não me deixaria, a mim, desiludido.

  12. (Hum. Eu bem me parecia que isto do dia da raça ia dar uma peixeirada das antigas; tenho de ver onde andam os romanos e avisar o Pano para fazer poção…)

  13. Do poste de Jorge Carvalheira:«…Que ou não somos, agora, o que já fomos, ou nunca fomos o que nos dizem que somos.
    Levaram-nos, é certo, a fingir o que não fomos. Se assim for, nunca seremos o que nos dizem que somos.»
    Não me digam que não há parecenças no estilo, no género, na inspiração, chamem-lhe lá o que quiserem. Mas assim, com os dois textos mais juntos, parece-me mais leal para fazermos a comparação…
    E olhe lá, Jorge Carvalheira, não se amofine, “no melhor pano cai a nódoa”! Não é por isto que vou deixar de ler os seus trabalhos, que quase sempre me agradam. Vou começar a aparecer mais vezes para “animar” as hostes.
    Quanto a FV, grato por me ter chamado génio. E logo por duas vezes!

  14. VITAMINA

    Fique sabendo que lhe não agradeço a nota positiva!
    Agradeço, isso sim, que vá ler os meus textos a outro lado. Dá-me menos trabalho.

  15. pessoal: o césar está mesmo por debaixo do Camões! Bem, vou para a minha árvore tocar cítara, que bem bastava estar a caminho de techno-gato (prymos: o equipamento começa a chegar amanhã) como ainda por cima ser bardo multi-funções. Off

  16. Jorge

    Não.

    E depois, não e não.

    Temia que fosses por aí. A abstracção. O espelho. A tangente. Iraque e Ceuta? Os coitadinhos mortos, não é? Coitadinhos dos coitadinhos.

    Mas não. O que se vê não é a História. Esta só acontece no invisível dos acontecimentos. Na metafísica.

    Que vês nas obras dos homens? Os homens ou o tempo? O que escolheres, será falso.

    Talvez preferisses um Mundo sem Napoleão – não te importando que, assim e por tão boa intenção, também perdêssemos Josefina. Talvez preferisses um Mundo sem o Coliseu de Roma, sem o Pártenon, sem as Pirâmides. Sim? Talvez, bem esmifrado, vejas razão de queixa em Stonehenge. Talvez. E fiquemos por acontecimentos recentes, onde a miséria humana foi criativa.

    É absurdo ler o passado a partir do presente. Porque teríamos de processar todos os nossos antepassados, e depois mandar prender os descendentes. Não há culpados no passado, nem inocentes. Só se pode falar do passado a partir do futuro, da imaginação.

    Iraque e Ceuta? Podiam não ter acontecido? Mal de nós.

  17. Quando chegamos aqui, separamo-nos sempre, Valupi!
    É que, alheia ao nosso fraseado sobre ela, a história vai sempre acontecendo. Há gente que se endivida ao banco, há porta-aviões que entram no golfo pérsico, há quem tenha ficado sem almoço, há um novo romance no mercado, há uma OPA que falhou, há quem faça um estudo sobre Alcochete. A história são as acções dos homens. Que se vêem, e devem ser vistas. E os caminhos que escolhem ou recusam. E o que criam ou destroem. E os modos como organizam a vida. Ou a morte. Como resolvem os problemas que têm. Como tornam o mundo um lugar mais, ou menos, habitável. E são os resultados a que tais acções conduzem.
    As obras de pedra dos homens são apenas marcas que ficaram dela, não são a história. Se lá não estivessem, não me faziam falta. Auschwitz não é a insânia, é um sinal dela. O Partenon não é a civilização grega, é uma manifestação. A parede do forte do Bom Sucesso não é a nossa demência imperial, são os mortos dela.
    Em Ceuta e no Iraque não são desgraçadinhos que lamento. Embora tenha razões para lamentar todas as vítimas. Em Ceuta e no Iraque, o que lamento é o caos que geram. É o erro que são. É a destruição a que abrem caminho. É o absurdo a que conduzem. Que eu só posso ver a partir do presente, que é onde estou. E não abdico disso. O resto são palas de mula, que os donos lhes aplicam, mas não usam.
    Ao tentar acompanhar o teu pensamento, melhor entendo o plano inclinado, por onde não nos cansamos de resvalar há séculos, inundados de metafísica. É por isso que há sociedades que vivem. E há outras que apenas agonizam.
    Digo eu isto deste modo, porque tenho liberdade para o fazer. O que nem sempre acontece, não sei se me entendes.

  18. São aquelas, Valupi, que, enquanto não morrem, procuram matar a fome aos filhos. Em vez de os enjeitarem, como a nossa.

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