Arquivo da Categoria: VISITAS ANTIGAS:

Viradeira

O facto é que depressa nos cansámos. De fazer andar as fábricas de panos, de plantar vinhas novas, de aprender alguma coisa nas escolas, de blasfemar contra a fatalidade. E de ver a espirrar o sangue azul dos Távoras, que nos enterneceu o manso coração. De modo que, morto el-rei, voltámos aos marialvas, às procissões, à fadistagem e aos pátios das cantigas.

Ele havia umas estradas, no reino, por fazer. E logo se mandou que uns alvenéis lavrassem, numa serra, uns marcos monumentais, para assinalar cada légua aos viandantes. Dispunha cada marco dum relógio de sol. Porém algumas léguas terminavam à sombra, como é frequente acontecer, quando o sol se lembra de acordar. E ou bem que se ofendia o rigor das medições, ou se esbanjavam as custas do relógio.

Não chegou o desempate a ir a cortes, nem se lhe alcançou resolução. E as estradas ficaram por fazer.
Veio-me à lembrança um tal aperto, a propósito dum aeroporto que também anda aí nas mãos da viradeira.

Jorge Carvalheira

São Pedro de Alcântara

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São Pedro de Alcântara (Estaleiro)

No limite da luz do horizonte dos telhados
Fica à esquerda a Sé do nosso São Vicente
Ali a cidade pede perdão dos seus pecados
E vai rezar a Santo António quase em frente

Logo à direita fica um arco de conquistas
Louvando o poder da espada e da guerra
Cá em baixo passam os bandos de turistas
Sem tempo para ver o que o arco encerra

Ao centro está o Tejo sempre igual e eterno
O som da voz dos calafates chega à janela
O vento neste porta-contentores moderno
É o mesmo que empurrou naus e caravelas

Daqui deste meu jardim onde um estaleiro
Me impede de ver Lisboa como um espelho
Salva-me um tempo lisboeta tão verdadeiro
Num quadro cheio de luz de Carlos Botelho

José do Carmo Francisco

p z u s e l z

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A semana passada estive na FNAC do Colombo e qual não foi o meu espanto quando vejo à venda dezenas de exemplares de The Jigsaw Puzzle de Anne D. Williams. O livro, pelos vistos, não terá sido um grande sucesso de vendas naquela loja, na medida em que os mesmos estavam à venda por €5,95. Repito: cinco euros e noventa e cinco cêntimos, menos de metade do preço original. Comprei de imediato um exemplar e devorei-o no último fim-de-semana. Anne D. Williams é uma das maiores especialistas do mundo em puzzles. Para além de possuir uma colecção privada com mais de 8.000 puzzles acumulados nos últimos 25 anos, ela tem sido das autores mais prolíferas sobre a matéria, tendo já escrito meia-centena de artigos científicos sobre a história, o mercado e as técnicas de fabrico de puzzles. Este livro é assim uma espécie de corolário de trinta anos de amor e dedicação à causa. Que conheça, esta é a primeira obra de fôlego sobre a história do puzzle, fruto daquilo que apenas posso supor ter sido um tremendo trabalho de investigação. O subtítulo Piecing Together A History faz, de resto, jus à dimensão da obra. Anne D. Williams não se limita a inventariar os momentos mais marcantes da história do jogo, como consegue articulá-los com uma escrita simples e sedutora, que nos transporta para o universo por vezes maníaco-compulsivo das pessoas que jogam, coleccionam e criam puzzles. Neste livro, pude não apenas confirmar uma série de informações que tenho acumulado nos sítios mais duvidosos (Internet) e diversos (romances, revistas e artigos), como descobrir pormenores absolutamente fascinantes como o facto desta história com mais de 300 anos ser dominada por figuras femininas. A obra está ainda profusamente ilustrada e inclui uma secção com fotografias de meia centena de exemplares, criteriosamente escolhidos, referenciados e contextualizados. Até como simples objecto, The Jigsaw Puzzle vale bem o preço.

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Camilo contra as chapas

Volto sempre a Camilo. Problemas de saúde, hemoglobina a disparar, problemas de trabalho, dois desempregados em cinco pessoas, problemas de dinheiro, frequentes saldos negativos na conta, enfim, o diabo a quatro, mas volto a Camilo e a disposição melhora logo. Reparem neste divertido texto de 1858 sobre o trivial que ameaça os cronistas a todo o momento:

«Obriga-se o cronista a manter invariáveis os seguintes adjectivos quando vierem usados para os seguintes substantivos: Prelado será sempre virtuoso; cantora será sempre mimosa; jornalista será sempre consciencioso; jovem escritor será sempre esperançoso; patriota será sempre exímio; negociante será sempre honrado; caluniador será sempre infame. As maneiras de quem dá um baile serão sempre amáveis; os convidados sairão sempre penhorados. O folhetinista será sempre espirituoso: o poeta será sempre inspirado. Os irmãos terceiros serão sempre veneráveis. Os sócios de qualquer coisa mercantil serão sempre acreditados. Os meninos recém-nascidos serão sempre robustos. As viúvas serão sempre inconsoláveis. Se o ricaço der doze vinténs aos inválidos, este feito será sempre um rasgo filantrópico e a fortuna dele será sempre abençoada. Não haverá baile que não seja animado, nem jantar que não seja lauto, nem serviço que não seja abundante ou profuso, para variar. Nenhum homem rico terá amigos que não sejam numerosos. Todo o casamento será próspero. Ninguém poderá morrer que não fique sendo bom cidadão, bom pai, bom marido e terá tudo de bom.»

Hoje, tal como em 1858, as chapas continuam a ser uma rasteira para os cronistas – que somos todos nós. Ontem nos periódicos feitos a chumbo; hoje nos blogs da Internet.

José do Carmo Francisco

Uma memória de luz ou pequena dissertação sobre a Primavera

Uma tarde estava eu na Ilha de Murano
A ver o esplendor do fogo das forjas
De onde saem peixes, relógios e cavalos
Quando me lembrei da força da terra
Não da terra propriamente dita, o planeta
Mas a terra de onde viemos e nos espera

Terá sido porque tinha estado em Burano
E no caminho vi o cemitério de Veneza
Cruzando a força das rendas das mulheres
E das redes dos pescadores dessa laguna
Com a fragilidade das flores mais secas
Sobre as pedras com as datas e os nomes

José do Carmo Francisco

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Sport Lisboa e Berardo

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Será que o hipotético SLB que se começou a desenhar hoje (chamemos-lhe Sport Lisboa e Berardo) também vai ser glorioso?

[O empresário madeirense, a poucos dias de inaugurar o seu Museu no CCB, nas circunstâncias que se conhecem e com o Estado a financiar uma colecção que pode perder ao fim de dez anos, se não a pagar a peso de ouro, teve o desplante de chamar à bizarra OPA um “investimento cultural”. Assim mesmo, presumo que sem ironia. Depois admirem-se.]

Favores activos

PÚBLICO, 13 Jun Edição Porto

Pinto da Costa foi acusado de corrupção activa desportiva no caso dos alegados favores sexuais aos árbitros Jacinto Paixão, Manuel Quadrado e José Chilrito, que estão acusados de corrupção passiva.

Tudo bem, à superfície! Mas no caso de os papéis estarem invertidos, mantinha-se a acusação?
E o jornalista continuava a escrever?

Jorge Carvalheira

Linha vermelha

– Nem mais um soldado para as colónias!
– O povo libertou o grande educador da classe operária!
– Em frente pela destruição da escola capitalista!
– Passagens administrativas já!
– O proletariado revolucionário fuzilará a linha negra!

Nenhuma destas consignas está no editorial do PÚBLICO de hoje, 15 de Junho. Mas bem podia lá estar.
Mutatis mutandis, claro. E até suspeito de que os trinta dinheiros saem da mesma bolsa.

Jorge Carvalheira

Aspirina Box #4

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Mais coisas na Box (desta vez, em dose cavalar para chegar aos 50 temas). Em primeiro lugar, há as obsessões do costume: The Field com mais uma bomba (a sério: ninguém sampla vozes como este caramelo) e os Of Montreal com mais dois belos exemplos do calibre do último disco da banda. A Box abre de uma forma absolutamente pornográfica com essa obra-prima que é «Just A Bit» de Robert Wyatt (vale bem a pena, como sempre, estar atento à letra), o meu tema favorito dos Swell e a muito pertinente reinvenção de «Star Spangled Banner», o hino dos Estados Unidos, em «(Baby, Baby) Can I Invade Your Country?» dos Sparks. Depois, há o grande «Southend On Sea» do inevitável Mark Eitzel (e com Mark Isham nos sopros), a boa-onda super-cool de «Up On The Hill» dos Fun Lovin’ Criminals e «Buttons & Zips» dos subvalorizados Elbow, tudo material de finíssima qualidade. Aproveitei o facto de ter inserido «Live With Me» dos Massive Attack, que conta com a voz do imenso Terry Callier (rapaz que não fica a dever nada a eminências como Curtis Mayfield ou Marvin Gaye), para vos dar a ouvir uma pérola gravada ao vivo em quatro pistas há mais de 30 anos chamada «Lean On Me». Também há música instrumental: o groovy «14th St. Break» do novo e absolutamente viciante álbum dos Beastie Boys, o clássico «Everyting Is Alright» de Four Tet e esse autêntico pêndulo hipnótico que é «Hunted By A Freak» dos Mogwai. As vozes femininas ficam ao cargo de Stina Nordenstam, Múm e Blonde Redhead, estes últimos com o tema «Top Ranking» (o tal com o magnífico vídeo com a Miranda July). Para terminar, permitam-me que destaque «City Of Motors» dos Soul Coughing: deve haver poucas canções que tenha ouvido mais vezes na minha vida. E traz-me sempre recordações dos aúreos tempos da xfm, o que não é mau. Snif.

O baú

Deu-lhe muito trabalho. Mas ao fim de cinco semanas tinha metido tout Leiria no computador. Descarnara-lhe as histórias uma a uma e apertara-as em fórmulas algébricas que até faziam dores à vista. Mas detectava-se já um princípio de movimento.

Passou uma noite ajustando os códigos, e quando a cabeça lhe tombava saiu a primeira frase. Num vago português, sugeria universos paralelos. Inabitáveis todos.

Decidiu então educar o programa. Não tinha Mário-Henrique querido educar o Mundo? Naquele quarto sem luz do dia, levou nisso mais uma semana, se é que o tempo lá fora passava. As latas de refrigerante rolavam pelo chão, as pizzas começaram a escassear.

Estava ele, caído de borco, no melhor dum sono, pôs-se a impressora a ronronar. Ergueu a fronte e olhou. Linhas, e mais linhas, e mais linhas. E parou. Retomou a marcha, encheu mais uma página. E prosseguiu. Sempre. Até o papel faltar.

Ele ia percorrendo, febril, as folhas. Em todas se narravam coisas com cabeça e pés, aí perpassando, ventura das venturas, um sopro de desvario. Estava inventada a máquina dos contos. A guerra das editoras não demoraria a estalar. E ele poderia, finalmente, aumentar a casa e trocar o carro.

Ninguém acreditou que ele não andara remexendo o baú do Mestre.

Jong Portugal vs. Jong Oranje

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Imagem de arquivo…

Lá vai ter de ser. Mais noventa minutos de coração despedaçado. A desejar que um ganhe,
receando que o outro perca.

Sei que a íntima festa será um pouco maior se a velha pátria vencer. Mas ir passar as próximas semanas rodeado de tristeza também não é para festas.

«Jong Oranje» é a designação habitual para tudo o que seja de ‘esperanças’ holandesas. A alusão à laranja tem a ver com a cor habitual da camisola, que por sua vez remete para a Casa de Orange, a dinastia que, de há séculos, governa o país.

O surradíssimo cliché «Laranja Mecânica» dos locutores, lá voltaremos a gramá-lo. Pobre Burgess!
A tradução «Laranja de Corda» – no limite, «Laranja-Relógio» – era bem mais exacta.

10 de Junho e cortesias

Passo o dia em Montesinho, onde dormita um Portugal cansado. Não há contrabandistas no rio Pingadeiro, nem já se passa nele a raia a salto, que a fronteira é uma porta escancarada. Vim ver o Parque Natural, desobrigar-me, talvez, de multidões. E embora seja isto uma lonjura, daqui mando cortesias à tribuna do 10 de Junho, que as distâncias de agora não são nada.
A primeira, segundo a ordem canónica, a Sua Excelência o Presidente da República. Quando falou do passado, o seu discurso trouxe-me lembranças caras, que eu já tinha por perdidas. Era uma redacção da 4ª classe, puseram-me a lê-la na festa da paróquia, haverá cinquenta anos. E o tema era a Gesta Lusa. Eu tinha sobre o assunto uma ideia muito vaga, e mais ainda seria a do povo todo que me ouvia. Mas a professora garantira-me sucesso, e assim foi. Falei dos nossos heróis, que na altura tinham marca registada, falei do orgulho nas conquistas do mar, arrisquei mesmo que Deus nos estava agradecido por causa da fé cristã, e acabei a enaltecer o comprimento da Pátria, que chegava de Lisboa à Sibéria, ou coisa assim.
No final não se calavam os aplausos, foi um dia triunfal. Para dizer tudo, foi a minha bebedeira de glória. Falo da euforia dela, porque a ressaca só chegaria mais tarde. Voltei agora a vivê-la, a bebedeira de glória, a euforia.
A segunda cortesia é a João Benard da Costa, se ma aceita. Com o jeito que ele tem, acendeu bóias na rota sobre as águas. Sempre ajudam quem quiser a atravessar o canal. Melhor só terá feito Jesus Cristo, quando acautelou a Pedro, a gritar que se afundava:
– Vê bem onde estão as pedras, minha besta!

Jorge Carvalheira

A TRADIÇÃO DA FESTA

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Das festividades em honra de Santo António, realizadas em Lisboa no século XVII, as touradas e o teatro eram considerados os divertimentos de maior agrado popular, com “verdadeiras multidões a deslocarem-se ao Rossio e ao Terreiro do Paço”, onde decorria o arraial e a feira e se armavam os palanques de madeira para a Tourada de Santo António, efectuada, ao que parece, desde os finais do século XVI, primeiro no Terreiro do Paço e depois no Rossio.

Anteriormente, as celebrações restringiam-se aos importantes actos litúrgicos, passando depois a comportar manifestações como a tourada e outros divertimentos: cavalhadas, música, danças, pantominas e fogo-de-artifício – festejos que contavam com grande adesão popular e que cessaram após o terramoto de 1755.

Soledade Martinho Costa
Festas e Tradições Portuguesas

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Midas Filmes, Hal Hartley e euforia

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Esta é, para mim, a notícia da semana: a Midas Filmes vai editar os primeiros filmes de Hal Hartley no próximo mês de Setembro. A empresa, fundada por Luís Apolinário e Pedro Borges (ambos trabalharam na Atalanta), já tem, de resto, um impressionante catálago e um plano de futuras edições que irá deixar qualquer cinéfilo com água na boca. Para além dos belíssimos documentários de Scorsese sobre o cinema americano e italiano, há ainda os primeiros filmes de Kusturica, Nanni Moretti, André Téchiné e Takeshi Kitano. Mas o destaque vai sem dúvida para os primeiros filmes de Hal Hartley: The Unbelievable Truth (1989), Trust (1990), Simple Men (1992) e Amateur (1994). Depois destes filmes, o rapaz nunca mais foi o mesmo, apesar de ainda ter achado alguma piada a The Book Of Life (1998), onde a PJ Harvey fazia uma fantástica Maria Madalena. Agora só me resta desejar duas coisas: que Fay Grim (2006) entre no circuito comercial português e que a Midas Filmes inclua no seu catálogo as três curtas-metragens que o rapaz realizou em 1991 – Theory of Achievement, Ambition e Surviving Desire. Entretanto, os mais impacientes, podem ir ao sítio do costume ver, na íntegra, duas obras-primas chamadas Trust e Amateur. Olé.