A TRADIÇÃO DA FESTA

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Das festividades em honra de Santo António, realizadas em Lisboa no século XVII, as touradas e o teatro eram considerados os divertimentos de maior agrado popular, com “verdadeiras multidões a deslocarem-se ao Rossio e ao Terreiro do Paço”, onde decorria o arraial e a feira e se armavam os palanques de madeira para a Tourada de Santo António, efectuada, ao que parece, desde os finais do século XVI, primeiro no Terreiro do Paço e depois no Rossio.

Anteriormente, as celebrações restringiam-se aos importantes actos litúrgicos, passando depois a comportar manifestações como a tourada e outros divertimentos: cavalhadas, música, danças, pantominas e fogo-de-artifício – festejos que contavam com grande adesão popular e que cessaram após o terramoto de 1755.

Soledade Martinho Costa
Festas e Tradições Portuguesas


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No século XIX a tourada passou a ter lugar na Praça de Touros do Campo Pequeno, inaugurada em 18 de Agosto de 1892 (que veio substituir a Arena do Campo de Santana, demolida em 1889), enquanto os espectáculos de teatro, também eles a constituir um ponto alto das celebrações, eram efectuadas no adro da Sé de Lisboa.

Por essa época as festas realizavam-se duas vezes no ano: em Abril – data da trasladação do corpo de Santo António para a Catedral de Pádua, que se foram resumindo aos actos litúrgicos – e a 12 e 13 de Junho, a comportar cerimónias religiosas em todas as igrejas, capelas ou ermidas sob a sua invocação ou onde existisse um altar dedicado ao santo, se bem que as grandes homenagens oficiais fossem as que se efectuavam na igreja e Casa de Santo António, à Sé, com a presença da realeza e da edilidade

As cerimónias tinham início treze dias antes, com a trezena a Santo António, realizadas à tarde na Sé de Lisboa, e a distribuição de um bodo aos pobres, que se repetia no dia 12, constituído por oferendas: “fogaças, caracoladas, “condessas” e doces”. Nesse dia era tradição contemplar a família real, que recebia ainda um ramo de cravos: o “ramalhete de Santo António”.

Reconhecido como o protector das raparigas solteiras, muitas eram, segundo a crença do povo, as fórmulas usadas para granjear os favores do santo: deitar a imagem de Santo António a um poço, mergulhar a imagem de cabeça para baixo nas águas do mar, amarrar a imagem à perna de uma mesa, deixá-la ao relento ou com o rosto voltado para a parede.

Faziam-se, mesmo, petições por escrito, copiadas de vários opúsculos populares, que continham os pedidos já redigidos, conforme os casos e a preferência de cada um. Havia, até, quem fizesse dessa prática um verdadeiro ofício, copiando para o respectivo papel os pedidos dos crentes, que passavam do ”escrivão” directamente para o santo – sendo em maior número aqueles que provinham das mulheres solteiras…

O povo, além de se associar aos actos religiosos, rendia a sua homenagem ao santo nas ruas, largos, pátios e mercados, com bailaricos improvisados e demais folguedos, que se foram alargando a outras zonas da capital e enriquecendo em termos de animação popular, até a efeméride ser aproveitada, em 1922, para a realização das Festas da Cidade.

Por esses anos, organizavam-se pequenos arraiais por toda a cidade de Lisboa, onde se tocava e dançava, comia e bebia pela noite dentro, com o lume sempre ateado das fogueiras, o estrelejar de foguetes e morteiros, as iluminações de rua, os ranchos, as tômbolas, as quermesses e bazares com os respectivos sorteios (a que se juntava a Lotaria de Santo António, até hoje mantida), e os vendedores de alcachofras e manjericos a dar à cidade um aspecto diferente e festivo, embora tipicamente urbano na forma de fazer a sua festa.

Além dos mercados de São Bento e 24 de Julho, o local mais concorrido, característico e barulhento era o antigo Mercado da Praça da Figueira (demolido em finais da década de quarenta), ponto de reunião dos ranchos e das marchas dos bairros populares e também lugar dos bailaricos, dos petiscos rituais e da venda dos frutos da época e das plantas aromáticas propiciatórias.

Os chafarizes públicos espalhados pela cidade eram igualmente procurados por quem se concentrava ali em arraial, a tornar as fontes num elemento ao mesmo tempo mágico, profiláctico e simbólico-sagrado.

Em 1934 Santo António é proclamado pelo papa Pio XI patrono da cidade de Lisboa.

Soledade Martinho Costa
Festas e Tradições Portuguesas
Vol. V, Ed. Círculo de Leitores

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