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«Todos nascemos benfiquistas, mas depois alguns crescem»

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O aparente absurdo do título do livro de Joel Neto (Editora A Esfera dos Livros) é mesmo aparente. Nascemos no país do delírio das «papoilas saltitantes» que envolve quase tudo e paralisa quase todos. Fundado em 1908, o Sport Lisboa e Benfica festejou o «centenário» em 2004 e quase toda a gente se calou…

Joel Neto pega no assunto pelo lado da ironia: «Era muito mais bonita a vida se todos pudéssemos viver juntos esse permanente sonho de crianças. Vamos vender o Simão por 20 milhões! Vamos ter 300 mil sócios! O Rui Costa ainda só tem 25 anos! Vamos fazer um dream team Os textos deste livro oscilam entre a memória e a crítica: «Quando hoje folheio velhos álbuns de fotografias e vejo as centenas de automóveis que nos anos 80 estacionavam na cabeceira do Municipal de Angra do Heroísmo para apitarem os golos de um Lusitânia-Angrense, não posso deixar de lamentar que essa emblemática instituição da minha cidade tenha desaparecido. O derby. Entretanto vieram os construtores civis e os empreiteiros – e nós acendemos o televisor. A seguir vieram os empresários das águas e dos pneus – e nós instalámos a televisão por cabo. Agora estão aí os investidores e os líderes dos fundos de investimento – e nós já comprámos descodificadores para os canais de acesso condicionado.» A paixão tem como alicerce os relatos: «A bola ainda mal passara o meio-campo e já o relator se punha aos gritos. Ninguém o levava a sério. O relato era diferente do jogo.»

Para o autor gostar de futebol é um contexto – uma história de vida: «abro o almanaque do centenário do Sporting e aquilo quase parece a minha biografia, contada domingo a domingo.» O futebol confunde-se com a vida: «recuperamos a infância. Uma vez por semana. É isto o futebol. Para mim. Às vezes dizem que o futebol é uma metáfora da vida. Metáfora é a pomba branca – futebol é vida.» Mas também a morte está na crónica sobre Fernando Valadão, o dirigente que levava os miúdos da Terra Chã num Volkswagen pão-de-forma encarnado, ilha fora, à chuva e ao vento: «morreu com leptospirose, doença propagada através da urina dos ratos (…) E sei que o Valentim Loureiro e o Pinto da Costa e o João Bartolomeu jamais morreriam de uma doença propagada por ratos. Eles sãos os ratos.»

José do Carmo Francisco

Primícias

Os viajantes chegaram à fronteira quando a noite caía. E só João interrompeu o mutismo geral para recolher os passaportes, saiu devagar da viatura e dirigiu-se à casa dos guardas. O silêncio tornou-se mais espesso e constrangido, e Gaspar não pôde evitar um sobressalto no peito, fruto só da pouca habituação a estes andamentos, um carabineiro veio espreitar os passageiros que vêm em turismo, dobrou-se para a minúscula janela, cotejou as caras com os retratos e mandou avançar.

Nada é mais contraditório do que os homens. Passámos a fronteira de França, e sendo isto motivo de particular alívio e geral distensão, a tristeza nos peitos é maior. Estes viajantes deixaram de ter razões de insegurança, ninguém aqui virá saber quem são e ao que vêm, indagar dos falsos passaportes, esmiuçar-lhes um dente irregular no selo branco. Há longos anos tem sido esta terra um local de refúgio de portugueses, dos clandestinos da fome, dos refractários duma comprida guerra, não vai deixar de sê-lo agora para os que doutra guerra escapam. E no entanto cresce a melancolia nestes olhos, passámos a vida a pensar que a liberdade é tudo e enganámo-nos, estamos finalmente soltos e preferíamos não estar, temos o mundo todo à mão e o nosso a ficar-nos cada vez mais longe.

João é que não esconde o seu contentamento, quando chega a Baiona. Procura um restaurante aprimorado, esmera a selecção das vitualhas, pede para nós um beaujolais. O jantar é um consolo para o corpo, a gentileza de França faz o resto. Leva-nos ao comboio, falamos de João que fortemente nos envolve nos braços compridos, antes de dobrar ao fundo a esquina da calçada, uma chuva angustiada cai.

Na vida é como no cinema, conclui Gaspar, preso ainda no relance final do carro branco, insistentemente chove quando alguém se vai embora para sempre. Nos filmes entendemos porquê, na vida não.

Jorge Carvalheira

«A mulher que prendeu a chuva»

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«Se o amor acabasse, todas as cidades se tornariam ilegíveis» – esta é, se não estou em erro, a ideia-chave deste livro de Teolinda Gersão, que junta 14 contos nos quais o amor e a morte são a paisagem e o povoamento das cidades.

As cidades deste livro são Nova Iorque, Lisboa e Berlim; mas podem ser também Roma ou Viena, e nestas histórias a morte de alguém é sentida como a da cidade onde esse alguém vive: «No Caneiro de Alcântara abriu-se uma cratera com dez metros de profundidade. Até que se abriu um buraco no chão e te engoliu. Pouco importa que o tenham tapado depois com terra e deitado flores.» A cidade é o lugar do ciúme: o viúvo procura sinais de infidelidade, mas só encontra bilhetes simples como Senhora Rosa lave por favor as janelas da marquise. Ou o lugar da vingança: a do homem que se vinga da ingratidão da mulher e da sogra, deixando a mulher cega no meio de uma rua onde um carro irá travar mas tarde demais.

Noutro conto é a angústia que surge quando a personagem perde os óculos e, com eles, perde o horizonte visual do neto na praia, acendendo de novo as memórias dolorosas duma morte na família: uma outra criança, muitos anos antes, a arder em febre no corredor sem fim dum hospital.

O conto que dá título ao conjunto acontece num hotel de luxo quando o viajante surpreende duas empregadas da limpeza a contarem uma história de África: numa terra onde uma mulher era acusada de ter «prendido a chuva», veio um homem novo que a visitou na cabana, dormiu e «fez amor com ela», mas, depois, matou-a. E só «então começou a chover». Entre o divórcio e a morte, entre a solidão e o ciúme, só o amor pode salvar as personagens destas histórias que habitam o outro lado das cidades.

Edições Sudoeste
Capa de Henrique Cayatte e Susana Cruz

José do Carmo Francisco

O QUINTAL DA FESTA

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As festas populares em louvor de São Pedro obedecem às mesmas características das festas de Santo António e de São João: marchas, fogueiras, ruas enfeitadas, sardinha assada, etc. Festividades a servir de remate aos festejos em louvor dos santos populares, que se prolongam, em alguns lugares, por todo o mês de Junho.

Dos rituais que lhe são dedicados, refira-se a festiva e popular «Coroação de São Pedro», em Viana do Castelo, consumada na imagem de granito que ladeia a porta da fachada da Igreja de São Domingos. Consiste o antigo cerimonial em florir o arco do nicho onde se encontra a imagem com um outro de madeira revestido de hortênsias, colocar uma coroa das mesmas flores na cabeça do santo e um ramo na mão que segura a chave.

Soledade Martinho Costa

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A espantosa história do mancebo Darius King

Os utentes do Metro de Lisboa, para além de receberem diversos jornais gratuitos, podem também assistir àquilo a que o meu amigo Ruben Coelho chama o «telejornal dos pobres». Trata-se de uma mistura manhosa de vídeo clips, de notícias e de publicidade, pura e dura. Pois hoje a manchete desse telejornal do Metro era o facto de haver uma pessoa em Portugal, um chamado servidor do Estado, a receber uma pensão de apenas 26 euros. Custa a perceber como é possível nos dias de hoje alguém receber uma pensão de 26 euros mensais.

Lembrei-me logo da espantosa história do mancebo Darius King, um americano que nasceu em 1797. Em 1814, depois de ter participado na chamada «guerra de 1812», foi desmobilizado e saiu das fileiras. Passou à disponibilidade, como nós dizemos. Começou então a receber uma pensão. Tinha 17 anos. Em 1869, já com 72 anos, casou com uma jovem senhora que tinha nascido em 1849. Morreu 18 dias depois de ter casado. A viúva, a senhora King, recebeu do Exército americano uma pensão de viuvez até ao ano de 1938, ano em que morreu com 89 anos de idade.

A grande curiosidade desta história espantosa está em que o mancebo Darius King esteve alistado no Exército americano apenas 54 dias mas a pensão que lhe foi paga a ele (primeiro) e à viúva (depois) prolongou-se por 124 anos ou seja desde 1814 até 1938. Aqui fica a espantosa história do mancebo Darius King que serviu o Exército americano durante apenas 54 dias.

José do Carmo Francisco

«Não sei o que é», 12.ª repetição

[1] «Não sei o que é rapidamente esclarecido na opinião do Presidente da República [sobre o caso Charrua]. O que sei é que estas palavras foram proferidas a 23 de Maio», referiu Paulo Gorjão sobre as declarações de Aníbal Cavaco Silva.
Não sei o que é não saber na perspectiva do autor do Bloguítica. O que sei é que estas palavras já foram lá publicadas 12 vezes desde o dia 12 de Junho. Já deveria ter dado para aprender alguma coisita, caramba.

Sorte dum ladrão!

Não é preciso recuar à Lenda Negra, para encontrar o vezo predador dos espanhóis. Basta ver a lufa-lufa das traineiras chuponas. Ou pensar nas sequelas duma agricultura suicida, que abastece meia Europa e nos encurta o caminho para o deserto.
Começaram há quinze anos na raia do Côa, a comprar aos aldeãos os muros rústicos desenhados na paisagem. Alguns eram do tempo de Alcanices. Atiravam-nos ao chão, escolhiam as lascas mais afeiçoadas, e levavam-nas em camiões para forrar as casas deles. À sorrelfa e apalpando o terreno, salariando adelantados, foram alastrando à Lapa, ao Leomil, hoje ninguém sabe onde já vão. E aconselhados pela pequena pobreza, pela muita ignorância ou a desmesurada insensatez, os aldeãos foram trocando a alma por dez reis de mel coado.
Ultimamente tocou a sorte aos zimbros do planalto de Miranda, lá onde forem parte da flora natural. Têm a desgraça, os zimbros, de produzir um óleo usado na cosmética e na farmacologia. Já destroçados em Espanha, são agora uma espécie protegida. De forma que os predadores atravessam a fronteira e vêm dizimar os portugueses. Levam raízes, troncos e ramagens, que é serviço mais completo. E guiados pela pequena pobreza, pela muita ignorância ou a desmesurada insensatez, os aldeãos vendem por cinco euros um produto que em Espanha vale à vontade cem.
E não há nisto um autarca, um magistrado, um polícia, um deputado, um ministro, um regedor, a pôr ordem no desmando! Bem sei que chamam a isto a lei do livre mercado. Mas se não for a miséria a indultá-los a todos, não sou eu quem o fará.

Jorge Carvalheira

Solstício

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do site espacos.blogs.sapo.pt

A estrada serpenteia pela encosta e a aldeia é surpreendente, assim arejada e branca, no cimo da subida. Tem casitas das antigas, onde só dobrado entrava um homem. E vivendas do minério, feitas no tempo da guerra, de cantaria rude. E as casas da emigração, airosas como caixotes de marçano, e tão omnipresentes como os deuses.
A gente é pouca, mas ainda assim compõe a procissão que já vai a sair para o arrabalde, a caminho do monte. Vê-se um pombal em ruínas, hortas com almendras desgarradas, campos que já deram pão. E fraguedos e matos.
Há milhares de anos que é assim. Coloca-se a vestal num côncavo da pedra, a olhar por cima do rochedo. Ao longe o sol mergulha sobre um monte. E a multidão assiste, com ramos de oliveira na cabeça, e capelas de flores na mão. O celebrante veio da cidade, a cumprir o ritual. É ele o mais pagão de todos, e tem cabelos compridos, como os cristos. Entoa poemas da Bretanha, escuta as gaitas de foles que vieram de Miranda, os bombos de pele de cabra, e pede compostura à multidão. Há uns noviços que vêm de moto-quatro, e tratam o sol por tu, e não ligam patavina.
Alinhado com a vestal e o rochedo, no monte para lá do vale, o sol morre lentamente, no solstício do verão.
– Agora só para o ano! – alvitra um homem careca, ali ao lado.
– E daí, quem sabe lá! – arrisco, numa descrença.
E olhando as vinhas do vale, não sei o que me é mais comovente. Se o sol que foi dormir atrás do monte, e amanhã se vai embora, se os homens debaixo dele.

Jorge Carvalheira

Cascatas e alhos-porros

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Cascata de São João
do site portodailyphoto.blogspot.com

Em tempos idos, tal como hoje, os moradores dos bairros populares do Porto organizavam-se em comissões, para angariarem donativos, que revertiam para as despesas destinadas a enfeitar as ruas do seu bairro em homenagem ao Santo Precursor.
Festejou-se, entretanto, o São João da Corujeira, de Cedofeita, da Lapa (inicialmente o mais burguês), do Bonfim e do Palácio de Cristal (o eleito dos namorados) – supostamente, sendo em Cedofeita que o povo se reunia primitivamente para festejar o santo, com actos religiosos e pagãos (bailaricos, descantes, bombos e violas).
Já referenciados no século XIV, os festejos mudaram-se depois unicamente para a Lapa e o Bonfim, locais onde o São João, por volta de 1834, era festejado com a maior animação popular.
Nas Fontainhas, por esses anos, começou por se fazer uma «cascata», que criou fama, dando origem a que se deslocassem ali diversos grupos – as rusgas – com roupas festivas, cantos e balões dependurados em ramos, numa afluência de gente ida de todos os cantos do Porto para se divertir e comemorar o santo.
Havia também o hábito de servir café quente, aguardente e aletria. Tanto bastou para que o povo (ainda por isso) acorresse às Fontainhas, aproveitando igualmente para lavar o rosto numa fonte existente no local, antes de nascer o Sol no dia 24, a manter a tradição da água benta, propiciatória e purificadora.
Nos mercados do Anjo (hoje Praça de Lisboa) e do Bulhão era grande a procura das plantas e ervas sagradas e profilácticas (procura que se mantém), principalmente do indispensável «alho-porro» ou «alho de São João», para com ele bater na cabeça de quem passa, num desejo ritual de boa sorte e de fortuna – desde os anos sessenta com o martelinho de plástico colorido a substituir a tradição da planta sagrada, que muitos, felizmente, teimam em levar à festa, no desejo de conservar a antiga praxe (atitude que o santo não deixará, por certo, de ter em conta).
Actualmente (recuperado que foi o São João em 1924, após vários anos em que não se realizou), diz-se que “tudo começa e acaba na Ribeira”, estendendo-se às praias da Foz e à Boavista. Todavia, parece ser no Bonfim que se concentra a maior parte do povo e se faz a grande festa são-joanina portuense, embora os pequenos arraiais dos bairros se espalhem por toda a cidade: Massarelos, Vilar, Miragaia, Entre-Quintas, São Pedro de Azevedo, Cantareira, Terreiro da Catedral, São Nicolau, Bairro da Sé, Cais da Estiva, etc., com ornamentações e iluminações festivas, tasquinhas de comes e bebes, fogueiras e bailaricos, num São João popular, folião, de convívio e alegria.
Por épocas mais antigas o São João no Porto contava já com iluminações e ornamentações nas ruas, música, descantes e danças, barracas de petiscos, diversões de todo o género, marchas dos bairros populares, colchas nas janelas, grandes ramos de carvalho encostados às casas ao longo das ruas, o chão coberto de juncos, espadanas, alecrim, rosmaninho e outras plantas aromáticas (que perfumavam a cidade, como acontece actualmente, ao juntarem-se às fogueiras) e o fogo-de-artifício, ou «fogo-de-São João», lançado da serra do Pilar (Cova da Onça), agora visto da Ribeira, lançado à meia-noite de 23 para 24 nas margens do rio Douro, junto da Ponte D. Luís.
Dos costumes antigos, nenhum se perdeu. Ganhou-se, isso sim, em 1911 o feriado municipal do Porto, instituído no dia de São João.
Quanto aos altares ao Santo Precursor, continuam também a armar-se dentro das igrejas, constituindo as imagens de São João Baptista, espalhadas em número considerável pelas igrejas do Porto, algumas de grande qualidade artística, assim como as preciosas pinturas onde ressalta a figura do santo, um património de valor inestimável.
As pequenas «cascatas» são-joaneiras, que povoam a cidade (com origem provável nos presépios), são erguidas num qualquer recanto, junto de uma parede, no passeio público ou nas soleiras das portas, geralmente pelas crianças. Embora surjam as «cascatas» mecânicas ou de grandes dimensões (por vezes monumentais), como a do Lordelo do Ouro, entre outras. Todavia, a mais importante, conhecida e tradicional é, sem dúvida, a da Alameda das Fontainhas, erguida, anualmente, há perto de setenta anos na fonte ali existente.
Outra alegoria a merecer a atenção dos Portuenses e de quem visita o Porto no São João, é a que se ergue ao cimo da Avenida dos Aliados, por deliberação da Câmara Municipal, frente aos Paços do Concelho, com São João a baptizar Jesus Cristo.
As tradicionais «cascatas» – sinónimo de água, alusiva ao rio Jordão – com a figura do santo em lugar de destaque, incluem uma imensidade de enfeites e de figurinhas de barro, fabricadas outrora (como hoje), principalmente, em Avintes e Barcelos, pelos artistas oleiros dessas localidades.
Os manjares cerimoniais desta data continuam a ser o caldo-verde com broa e o carneiro ou anho assado. Se bem que a sardinha assada acompanhada com broa e salada de pimentos constitua o prato mais popular da noite da festa. A sobremesa recai no leite-creme queimado.
Depois disso, manda a tradição que se beba o café com leite (a lembrar o antigo café servido nas Fontainhas) e saboreie o pão com manteiga – sem esquecer as «orvalhadas», que obrigam a que ninguém se deite antes de apanhar o orvalho bento «para ser feliz e ter saúde o resto do ano».
Devoção popular feita de alegria contagiante, a Festa de São João no Porto há quem a considere única no Mundo.

Soledade Martinho Costa
Festas e Tradições Portuguesas, vol. V
Ed. Círculo de Leitores

Lamentação e pranto de Jill McBain em Sweetwater

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Lamentação e pranto de Jill McBain em Sweetwater
para Cláudia Cardinale em ‘Aconteceu no Oeste’

Não tive tempo para nada.

A trompete ajudou com as suas notas sincopadas a simular os meus soluços que ninguém ouviu. Nunca tinha visto um banquete de morte. Lá longe, em New Orleans, as mesas servem sempre para as refeições e para a alegria dos encontros. Aqui de nada serviu a recomendação de Brett à filha para cortar as fatias do pão muito maiores que o habitual.

Não tive tempo para nada.

Nem para as lágrimas que são a água salgada da revolta perante a injustiça da morte. Nem para perceber quem mandou matar uma família inteira. Nem para perceber porquê. Ainda era cedo. Sei agora a diferença entre a água doce do meu poço e o sal da água azul do Oceano Pacífico que está num quadro da parede da carruagem de luxo de Mr. Morton.

Não tive tempo para nada.

Afinal ainda é cedo para saber de um homem, moreno e triste, capaz de, como quem cumpre uma sentença, matar a vários assassinos depois de tocar uma melodia vagarosa numa harmónica velha, presa ao pescoço por uma corda muito mais pequena e estreita do que a outra, a utilizada para enforcar o seu irmão mais velho numa infância já distante.

Não tive tempo para nada.

Aos poucos percebi como é possível construir um sonho em miniatura. A madeira está paga, os barris cheios de pregos estão à espera. É só contar os passos e marcar o perímetro das primeiras casas de Sweetwater. A Estação e a Igreja, o Banco e o Hotel, as primeiras lojas. O sonho de Brett McBain não pode ficar adiado. A roldana do poço espera por mim. Os primeiros operários do caminho-de-ferro acabam de chegar e estão mortos de sede.

José do Carmo Francisco

O verde da pupila

Era no fundo do quintal que afinávamos
as cores para evitar confusões. Embora
eu fosse azul e o meu pai amarelo,
a verdade é que a luz nos ourava até

ao imo da pupila e não era assim fácil
esquecer que habitávamos um mesmo nome.
Como os melros, recuperávamos o silêncio
sob os castanheiros, porque era apenas

lá, naquela sombra delicada, que as coisas
se vingavam de opacidade. Sobra-me
ainda hoje um pouco desta claridade na

memória e, embora a minha mãe me jure o
contrário, acredito que se um dia me conseguir
subtrair à relva, quem sabe, o meu pai.

Noite dos Prodígios

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Enquanto nos centros urbanos as celebrações a São João desde sempre se limitaram aos festejos ornamentais e à diversão, nos meios rurais as festividades cíclicas em honra do Santo Precursor – por ter vindo anunciar a chegada do Messias – assentavam, predominantemente, em práticas divinatórias e propiciatórias relacionadas com rituais mágico-profilácticos associados ao Sol, às plantas, ao fogo, ao orvalho e à água das fontes, dos rios e do mar, invariavelmente em benefício do amor, do casamento, da felicidade, da beleza, da saúde ou da prevenção da doença.

Soledade Martinho Costa
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Aspirina Box #5

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Confesso que esta Aspirina Box, para além de dar cá uma grande trabalheira, é um exercício altamente viciante e que eu, é bom de ver, ando-me a passar dos cornos. Começo, como sempre, a jogar pelo seguro: «Dry The Rain» dos The Beta Band é uma das melhores músicas de todos tempos e o mundo, que diabos, precisa de sabê-lo (estejam atentos ao minuto 3:19 que é quando entra a melhor linha de baixo do planeta). Depois, há coisas que ando ouvir intensamente nos últimos dias: Blonde Redhead (aqui com mais dois temas maravilhosos), os Of Montreal com «Suffer For Fashion» (que é o single do ano) e, como não podia deixar de ser, The Field, desta vez com o seu magnum opus intitulado «The Deal». Há também um tema dedicado ao meu primito Valupi chamado «Dick Is A Killer», em que um rapaz chamado rx sampla e manipula sobre uma batida cheia de colesterol partes de um discurso do grande George W. Bush. Aquilo começa assim:

Mr. Speaker, members of Congress, Mom and Dad,
Last month a girl in Lincoln, Rhode Island, sent me a letter.
It began, «Dear George W. Bush, if there’s anything you know, please send me a letter.
PS: Kiss my ass. Dick Dick Dick Dick Dick is a killer.»

e depois ainda melhora: um mimo. Há igualmente temas que foram absolutamente vitais para a formação do desastre do meu ser como «No Hurry» dos The Apartments, «Don’t Have To Be So Sad» dos Yo La Tengo, «Peacock Tail» dos Boards of Canada e «I Broke My Promise» dos American Music Club. Depois há coisas menos consensuais como o muito piroso «Justaposed With U» dos Super Furry Animals (o you’ve to tolerate all the people that you hate: i’m not in love with but i won’t hold that against you é zeníssimo), «Long Distance Call» dos Phoenix e o muito etéreo «Colchão d’Água» dos Três Tristes Tigres. Como não consigo ainda gostar (o problema só pode ser meu) do último disco dos The Chemical Brothers, resolvi fechar a coisa com o magnífico «Surface To Air». O destaque vai para «Home» de Lou Barlow, que é uma canção que quando mais se ouve, mais se fica a gostar (e olhem que ando nesta lenga-lenga há dois anos). Era também para pôr Underworld, mas, pelos vistos, esqueci-me. Paciência, fica para a próxima vez.

«O caso Fernando Charrua»

Do artigo de A. Marinho e Pinto hoje no Público:

«O primeiro-ministro certamente não ignorará o que dele se dirá no quartéis, nas salas de professores das escolas, nos hospitais e, em geral, nas repartições públicas do país. E, nem por isso, daí vem nenhum mal especial para o funcionamento dos órgãos do Estado e da administração.

«Em contrapartida, o procedimento disciplinar instaurado ao professor Fernando Charrua será (sobretudo se acarretar qualquer sanção) um convite à generalização da delação entre os funcionários públicos.

«Há no aparelho de Estado, sobretudo na administração pública, pulsões liberticidas e de delação que urge combater. Essas pulsões têm as suas raízes na cultura dominante no Estado Novo. O que havia de pior nesses tempos de tirania não era a actuação repressiva das polícias ou de outros organismos de vigilância e protecção do regime. O que havia de pior era, precisamente, a existência dos “informadores”, dos “bufos”, ou seja, de pessoas aparentemente normais, que se sentavam à nossa mesa, que entravam nos nossos gabinetes e até nas nossas casas, com quem por vezes se tinha conversas reservadas e até íntimas, mas que, depois, traiçoeiramente, pela calada, iam comunicar essas conversas à polícia ou aos superiores hierárquicos.

«É essa actuação ignóbil, é, em suma, essa imensa ignomínia, que urge banir definitivamente da sociedade portuguesa e da administração pública.»

O garfo

Era um restaurante com alguma distinção, mas ele insistia em dizê-lo ‘de bairro’.
Limpou o garfo ao guardanapo, gesto muito seu, e disse:
– Não é, já vês, o tipo de relação que nos convém.
Eu esperava algo assim, após dias sem um telefonema.
Vínhamos naquilo há meses. Era o divórcio deles, era o reatamento deles, eram os sogros deles, tudo a atrapalhar.
– Lá por isso… – fiz eu, quase tão ténue como o som do guardanapo.
Olhou-me desconsolado. O garfo estava mais que limpo. Vi-o tomar balanço e cravá-lo com convicção no lado mais palpitante do peito.
A carteira, essa, é que não esteve para tragédias.