Solstício

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do site espacos.blogs.sapo.pt

A estrada serpenteia pela encosta e a aldeia é surpreendente, assim arejada e branca, no cimo da subida. Tem casitas das antigas, onde só dobrado entrava um homem. E vivendas do minério, feitas no tempo da guerra, de cantaria rude. E as casas da emigração, airosas como caixotes de marçano, e tão omnipresentes como os deuses.
A gente é pouca, mas ainda assim compõe a procissão que já vai a sair para o arrabalde, a caminho do monte. Vê-se um pombal em ruínas, hortas com almendras desgarradas, campos que já deram pão. E fraguedos e matos.
Há milhares de anos que é assim. Coloca-se a vestal num côncavo da pedra, a olhar por cima do rochedo. Ao longe o sol mergulha sobre um monte. E a multidão assiste, com ramos de oliveira na cabeça, e capelas de flores na mão. O celebrante veio da cidade, a cumprir o ritual. É ele o mais pagão de todos, e tem cabelos compridos, como os cristos. Entoa poemas da Bretanha, escuta as gaitas de foles que vieram de Miranda, os bombos de pele de cabra, e pede compostura à multidão. Há uns noviços que vêm de moto-quatro, e tratam o sol por tu, e não ligam patavina.
Alinhado com a vestal e o rochedo, no monte para lá do vale, o sol morre lentamente, no solstício do verão.
– Agora só para o ano! – alvitra um homem careca, ali ao lado.
– E daí, quem sabe lá! – arrisco, numa descrença.
E olhando as vinhas do vale, não sei o que me é mais comovente. Se o sol que foi dormir atrás do monte, e amanhã se vai embora, se os homens debaixo dele.

Jorge Carvalheira

5 thoughts on “Solstício”

  1. Creio que esta é uma história baseada num facto real.
    Lembro-me de já ter ouvido falar deste acontecimento, mas não sei se o que conta terá que ver com as minhas memórias.
    Importa-se que se saiba onde fica a dita aldeia e o seu nome?

  2. Quem vem do norte, vai ver a igreja das três naves, e das colunas que nos vão cair em cima, mas não caem. O padre garantiu-mo e sabe do que fala. Depois vê, num retábulo, o rei a arder nas chamas do inferno, e um bispo, e um tonsurado, e monjas. Blasfêmias de entalhador sabido, que já os houve, não é como os de agora.
    Depois deixa Foz-Côa para trás, que não tem mais interesse, e o céu que lá ficou não nos cabe no bolso.
    Vindo do sul, já passou por Marialva, que é uma história de Portugal em três quadros.
    Já viu a Cidadela, dentro da muralha, onde estão gravadas numa pedra as lágrimas dum viajante, o mestre deles, que também por lá passou e se deixou comover. Aqui se vivia há mil anos, em casas que ainda hoje se podem ver, se não é imaginar. Em ruelas empedradas, em hortas com oliveiras, que emocionaram o mestre já falado.
    Já viu a Vila, que saltou cá para fora. Tem quinhentos anos, e assistiu cá de longe às campanhas de Marrocos e à partida das naus. Ficaram-lhe uns brasões, uns alpendres e umas frontarias, que os fundos da Europa andam agora a salvar da ruína.
    E já viu a Devesa, que desceu ao vale há um século e meio, e tem fachadas burguesas, e grandes portões de armazéns comerciais. De quando havia comércio.
    E, visto o que havia a ver, que não foi pouco, segue para norte pela estrada real, o chamado IP2. Deixa para trás a estalagem da Rosalina, no Vale Talhado, cujo drama não vem à mão contar agora, que está à nossa espera o vale da Veiga e da Canameira. Este vale não se conta, que só vendo-o.
    Depois é esperar que apareça uma placa, à direita, a levar-nos às Chãs, às Tomadias, a Santa Comba. A aldeia dos pagãos do solstício é a primeira, logo ao cimo da encosta.

  3. Vou ter que pegar no mapa a ver se me entendo e o entendo a si. Vou do Norte e lá hei-de chegar, pois a pegar no que diziam os «antigos» – quem tem boca vai a roma – Obg

  4. Vem do norte, e muito bem, que é donde vem a aragem quando há bom tempo.
    Passa Foz-Côa, e não querendo deter-se na tal igreja das três naves (não vão cair as colunas!), ruma a sul, a Marialva, onde não chegará.
    Porque depois de passar a Muxagata, um bom bocado, há-de encontrar à esquerda a tabuleta das Chãs, a orientar os pagãos.
    O sol já foi embora, mas com sorte ainda anda perto.
    Pergunte pela fraga da cabeleira, a do equinócio da primavera. A do solstício de verão é um pouco mais longe.
    Depois disso, havendo tempo, vá a Castelo Melhor, que a levam de jipe a ver os cavalinhos do Côa, os tais que nos vão custar o vale inteiro do Sabor. Mas isso é outra questão.

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