Noite dos Prodígios

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Enquanto nos centros urbanos as celebrações a São João desde sempre se limitaram aos festejos ornamentais e à diversão, nos meios rurais as festividades cíclicas em honra do Santo Precursor – por ter vindo anunciar a chegada do Messias – assentavam, predominantemente, em práticas divinatórias e propiciatórias relacionadas com rituais mágico-profilácticos associados ao Sol, às plantas, ao fogo, ao orvalho e à água das fontes, dos rios e do mar, invariavelmente em benefício do amor, do casamento, da felicidade, da beleza, da saúde ou da prevenção da doença.

Soledade Martinho Costa
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No conhecimento e continuidade das crenças e consumação de velhos rituais apoiados nas virtudes e poderes benéficos desses elementos, vamos encontrar as fogueiras festivas cíclicas (comparadas ao fogo sagrado dos povos remotos), a simbolizar a grande fonte de luz e de calor – o Sol –, actuando na noite de São João como purificadoras, ou seja, anulando, segundo a crença popular, os factores nocivos, materiais ou espirituais, ligados ao mal, à doença ou à morte, prejudiciais às pessoas, aos animais, às casas e mesmo às plantas.
Entre os Fenícios São João era chamado Baalseiman (deus solar) e entre os Babilónios Belsamen (senhor do Céu). Com efeito, as celebrações a São João reflectem a sobreposição de uma festa cristã a festas gentílicas preexistentes em que eram efectuados rituais associados ao Sol, como o acender de fogueiras (o «fogo do Céu»), na intenção de projectar na escuridão da noite essa fonte de luz indispensável à vida, e o lançamento de discos a arder, à semelhança do percurso do Sol, simbolizados hoje pelos balões iluminados.
Por outro lado, é de admitir que as fogueiras e os festejos de São João representem resquícios das Vestais, festividades em louvor de Vesta, deusa romana do lume familiar e personificação da terra e do fogo, realizadas em Roma no mês de Junho, em que se abriam, excepcionalmente, as portas do seu templo e o povo celebrava nas ruas com repastos colectivos.
Provável ainda é que o nome João derive de Janus (à semelhança de Janeiro), deus romano das duas faces: uma a olhar para o passado, a outra a desvendar o futuro.
Inserido, embora, no grupo dos «santos casamenteiros», São João, pela razão bíblica de trazer consigo o Cordeiro Divino (Jesus Cristo), é considerado também um «santo pastor» e «protector das searas». Daí, que a largada dos grandes rebanhos existentes outrora na serra da Estrela para a serra de Montemuro fosse feita na manhã do dia de São João. A sua consagração com oferendas vegetais acontece no Minho e nas Beiras, onde se espetam nos campos os «codessos» (troncos floridos de giesta ou haste de sabugueiro) para «livrar das pragas do milho». Noutros casos, leva-se uma espiga de trigo à capela do santo.
As «cabeleiras», ou «searinhas», criadas em recipientes onde foi semeado cereal (trigo, cevada, centeio), que germinou em casa ao abrigo da luz, representam, igualmente, as oferendas que se colocam nas capelas e nas igrejas no dia de São João – a indigitar uma vez mais o santo como protector das searas.
Quanto às virtudes do Sol e da água, encontram-se associadas a diversos rituais, quer à meia-noite, quer na madrugada do dia de São João, sempre antes de nascer o Sol. Ainda hoje se visitam as fontes (que surgem em variadíssimas localidades enfeitadas com verdura e flores), para se beber «da sua água virtuosa, lavar nelas os olhos ou a cara e pentear o cabelo», porque, como diz o povo, «a água nesta noite é santa». Por isso no Barroso, continuam a deixar ao relento uma bacia com água, para de manhã, antes de romper o Sol, lavarem o rosto com a água sagrada.
O mesmo sucede com o antigo costume de «tomar as orvalhadas», isto é, de humedecer a cara e o próprio corpo com o orvalho, que possui, ainda segundo a crença popular, «grandes poderes na noite ou madrugada de São João».
As virtudes das ervas e das plantas encontram-se, também elas, associadas a São João. Desse grupo, destacam-se o rosmaninho, o alho-porro, o alecrim, o funcho, o trevo, a macela, a cidreira, o poejo, a sálvia, a dedaleira, a erva-pinheira, a arruda, o loureiro, o manjerico e a alcachofra – algumas a juntarem-se às fogueiras para servir de defumadouros «com fins de esconjuro ou profilácticos».
A fava, a amêndoa, a cereja e certas flores, como as rosas, os cravos e os malmequeres eram (ou são) de igual modo utilizados nesta data para «sortes e adivinhações».
Deve dizer-se que o culto das flores e das plantas se reporta à Antiguidade, quando se coroavam com flores ou folhas de loureiro, carvalho ou oliveira, as estátuas dos deuses, os poetas, os heróis e também os mortos. Nas festas e nos banquetes as pessoas apresentavam-se coroadas, conferindo os Romanos, a título de recompensa, coroas de folhagem (as coroas de louro) para simbolizar o poder, a sabedoria e a coragem.
Denominada «noite dos prodígios» (designação das noites sagradas, como a noite de Natal, de Ano Novo, de Reis, de São Martinho e outras), a noite de São João é considerada uma das noites «em que tudo pode acontecer» – até a aparição de moiras encantadas, em que se quebra o seu encanto ou se prolonga o seu encantamento…
Por tudo isto, em Nisa, antigamente, era costume as raparigas esconderem à noite, nos buracos dos muros e das paredes velhas das casas, ovos de galinhas pretas (postos na sexta-feira anterior), na esperança de encontrarem no seu lugar um belo diamante, quando os fossem buscar na manhã de São João.

Soledade Martinho Costa
Festas e Tradições Portuguesas, vol. V
Círculo de Leitores

14 thoughts on “Noite dos Prodígios”

  1. Minha cara Quitéria Barbuda:
    Por vezes você até diz coisas acertadas. Mas já viu se fossem só as fogueiras dos santos do mês de Junho a arder por aí, não tínhamos o aquecimento global. Tínhamos, isso sim, um planeta ideal! O pior é que temos por cá os incendiários à solta no Verão. E interesses sérios. E uma Justiça que não é justa e não se ajusta a coisíssima nenhuma. Sabia? É claro que não sabia! Se soubesse teria falado nestes assuntos há muitíssimo tempo, e não fala. É tão espertinha e cala o mais importante!? Será da barba? Será que a barba está a dificultar-lhe o raciocínio? Se assim for, já pensou em candidatar-se a atracção num circo? Qualquer um serve. Dizem que as mulheres-barbudas têm muita saída…Aproveite!
    Já agora, veja se sabe quando “vão dentro”, durante os próximos meses, os incendiários, como foi anunciado. Será que o Governo se arrependeu da medida a tomar exactamente por ser uma medida acertada?

  2. susana: há muito que não tinha o prazer de comentar contigo!
    Não me digas que não sabias!? Embora eu não saiba muito bem o que gostaste de ficar a saber…

  3. bom, soledade, dado que todo o post é informativo e que a informação é um conjunto de detalhes, teria que fazer copy/paste para lhe responder com rigor, não é? gostei de conhecer a história, os ritos, os mitos.

  4. susana,julguei que estavas a referir-te ao meu próprio comentário. Daí, a confusão…Já agora, tenho reparado que não me tratas por tu, como no início. Queres explicar, ou nem por isso? Por mim, é só curiosidade…

  5. Reparo que são duas cunfusões muito perto uma da outra…E logo as duas consigo, susana! Estranho…

  6. E mais uma gralha muito pouco oportuna e marota, que não faz o meu género…Isto, está mau!

  7. bom, mas por isso não tem que deixar de me tratar por tu… não a trato por tu tal como não trato o fernando e outras pessoas com quem começo por fazer alguma cerimónia, podendo a qualquer altura alterar-se o tratamento. mas não percebi a que gralha se refere…

  8. Mas não deve fazer cerimónias comigo, pode tratar-me por tu! Por mim, talvez continue a tratá-la como até aqui, uma vez que não se importa. Acho bem mais simpático. A gralha está na quinta palavra do comentário da 01:33 PM…

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