Primícias

Os viajantes chegaram à fronteira quando a noite caía. E só João interrompeu o mutismo geral para recolher os passaportes, saiu devagar da viatura e dirigiu-se à casa dos guardas. O silêncio tornou-se mais espesso e constrangido, e Gaspar não pôde evitar um sobressalto no peito, fruto só da pouca habituação a estes andamentos, um carabineiro veio espreitar os passageiros que vêm em turismo, dobrou-se para a minúscula janela, cotejou as caras com os retratos e mandou avançar.

Nada é mais contraditório do que os homens. Passámos a fronteira de França, e sendo isto motivo de particular alívio e geral distensão, a tristeza nos peitos é maior. Estes viajantes deixaram de ter razões de insegurança, ninguém aqui virá saber quem são e ao que vêm, indagar dos falsos passaportes, esmiuçar-lhes um dente irregular no selo branco. Há longos anos tem sido esta terra um local de refúgio de portugueses, dos clandestinos da fome, dos refractários duma comprida guerra, não vai deixar de sê-lo agora para os que doutra guerra escapam. E no entanto cresce a melancolia nestes olhos, passámos a vida a pensar que a liberdade é tudo e enganámo-nos, estamos finalmente soltos e preferíamos não estar, temos o mundo todo à mão e o nosso a ficar-nos cada vez mais longe.

João é que não esconde o seu contentamento, quando chega a Baiona. Procura um restaurante aprimorado, esmera a selecção das vitualhas, pede para nós um beaujolais. O jantar é um consolo para o corpo, a gentileza de França faz o resto. Leva-nos ao comboio, falamos de João que fortemente nos envolve nos braços compridos, antes de dobrar ao fundo a esquina da calçada, uma chuva angustiada cai.

Na vida é como no cinema, conclui Gaspar, preso ainda no relance final do carro branco, insistentemente chove quando alguém se vai embora para sempre. Nos filmes entendemos porquê, na vida não.

Jorge Carvalheira

3 thoughts on “Primícias”

  1. As histórias que se escrevem têm, regra garal, alguma particularidade que as liga a quem as escreve.
    Porque têm alma. Sentimos isso.
    E esta trouxe-me à lembrança alguém muito querido que tive.
    Foi há muito. No antigo regime.
    Mas ele não foi de carro. Passou a fronteira a “salto”. Sabia que partia, das mãos dos devoradores, das Àfricas e tambem sabia que não sabia quando voltaria.
    E caíu o silêncio. Novas, nenhumas.
    E veio a liberdade. E ele não. As terras de França tinham-no tragado, fruto de solidão, de saudade e quiçá de fome.
    O “puto” tinha 19 anos e não era culpado de nada.

  2. Fiquei com as ‘Primícias’ aqui às voltas. De tal modo que tive que regressar.
    Das duas uma: ou V. perdeu qualidades em escolher um título para os seus textos (o que me parece de todo inverosímel) ou nos anda a esconder qualquer coisa…

  3. É esse o único modo de fazer jogar a bota com a perdigota.
    Mas realmente é demais, exigir aqui ao leitor dotes de pitonisa.
    As minhas desculpas!

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