Coisas de muito espantar – 2

PRAZERES RÁPIDOS

– Sabias que não precisas de ser gay para escrever uma bela história do género?
– Que género?
– Género gay. Arre, és lento de percepção.
– Tu é que complicas. Mas então estavas a dizer…?
– Que não é preciso seres…
– Yá. E é porreiro. Assim, ainda guardo as minhas chances.
– Exacto. Agora, já só te falta escreveres bem.
– Filho da…
– Mas há mais.
– Mais?
– É que, para escreveres uma linda história lésbica, também não precisas de ser mulher.
– Essa… essa é do catano. E como é que sabes?
– Li.
– E quem é que disse?
– Ninguém. Eu li. Li a história. Chama-se Sedução. É dum português.
– Título basto comercial.
– Tás a gozar. Mas hás-de ler. Já ouviste falar do José Marmelo e Silva?
– Marmelo… conheço.
– Esse ainda é um gajo novo. O Marmelo e Silva morreu há anos largos. E o livro, esse é
dos anos 30. Uma pequena pérola, vai por mim. Há edições recentes.
– Hei-de ler. E a outra coisa… Essa do straight. Também é português?
– Era. O Alexandre Pinheiro Torres. O nome diz-te alguma coisa?
– Vagamente.
– Não diz nada, portanto. E é um fabuloso romancista. É, não duvides.
– E escreveu um romance gay.
– Uma novela… O título, aviso-te, é foleiro à brava.Segura-te. Amor, Tudo Amor, Só Amor.
– Ui!
– E disse-me um gajo, amigo dele, que o convenceu a encurtar. Mas o que interessa: a história
é de partir o coco.
– Vou ler também.
– Lê. Mas devagarinho. São prazeres muito rápidos.
– … Espera. E… e malta gay com grandes livros straight?
– Essa é aos montes.

14 thoughts on “Coisas de muito espantar – 2”

  1. a troca de vozes tem o seu quê, na verosimilhança. nos blogues há aos montes, também. sei de um homem, heterossexual, que fez de mulher, por uns tempos. curioso é que não me convenceu, continha imagens de erotismo que não podiam ser femininas. mas tinha a caixa de e-mail cheia de outros homens, muito interessados “nela”. e também um blog feito por mulheres, na voz de um homem, que convenceu toda a gente. essa do romance lésbico escrito por um homem deixa-me de pé atrás; será que, para uma mulher, ele é convincente, verosímil…?

  2. Susana,

    Interessantíssimo. Só não mandaste o link.

    Ardo em curiosidade – intelectual, claro, puramente intelectual.

  3. Muito engraçado. Ou deverei dizer “muito gay”?…

    Tem graça o destino de certas palavras, como se “travestem”.

  4. Valupi,

    Não sei porque «gai», que deu «gay», chegou ao significado gay. Mas há-de andar por aí explicado.

    Cheira-me, todavia, à presunção de serem os gays gente superficial. O que me parece, não discriminatório, mas singela mostra de superficialidade.

  5. Fernando,

    Sim, tudo explicado por aí. E vale bem a pena conhecer a história.

    Não creio que ‘gay’ se constitua na semântica da superficialidade, antes na da licenciosidade e extroversão (correlatos).

  6. O Fernando Venâncio é um espécie de bobo da corte literária. Bem haja!

    Em 1937, Sedução, «título basto comercial»?
    …«uma linda história lésbica»…Ah,Ah…

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