Arquivo da Categoria: VISITAS ANTIGAS:

Post escrito no final de um árduo dia de trabalho em dó maior.

A Kate Nash é a artista mais sublimemente irrelevante da pop britânica. A rapariga move-se em territórios já amplamente explorados nos últimos (vá lá) 40 anos e, por isso, não é de estranhar que não traga absolutamente nada de novo ao planeta pop. Se ainda não me mandaram dar uma volta ao bilhar grande devido à utilização abusiva de advérbios de modo nesta entrada, então posso-vos dizer com um tom voz que gostaria que imaginassem idêntico ao do Eládio Clímaco que «Foundation», o seu mais recente single, é a música que mais tenho ouvido nas últimas semanas. Cheguei a esta canção devido ao vídeo (bela cacofonia) de Kinga Burza (Ungashaka! Ungashaka!), que tece uma delicada filigrana (que querem? estou cansado, preciso de me deitar) em torno dos objectos que denunciam essa bela e gloriosa estupidez que é uma vida a dois. Como dizia o meu pai, a felicidade é um estado de alma sobrevalorizado: existem estados intermédios muito mais recomendáveis.

O contador está maluco

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Acontece. Aos melhores, claro. Confia-se na técnica, e ela emperra. Não que seja decisivo. Com dez leitores por dia, o Aspirina esmerar-se-ia na mesma. Mas acontece que recebemos bem 1000 visitantes por dia (e mais 1000 caem aqui trazidos pelo vento). Isto em média.

Até há poucos dias. Porque o contador entrou em crise. Emocional, suponhamos. E hoje, está vendo, ainda ninguém nos veio ver. Não, querida leitora, querido leitor. Você… não conta.

Para o contador. Connosco é outra história.

Bem-vindos, pois. Entrem e sentem-se.

Balada nocturna para Eduardina

Viola-da-terra, menina
Nas mãos de Hélio Beirão
Cria na voz de Eduardina
O rumor duma canção

Na Rua dos Navegantes
Como na Horta, cidade
São as coisas importantes
Que criam maior saudade

Entre igrejas e conventos
Entre ermidas e mercados
Ficam no pó dos momentos
Os teus passos registados

Nas janelas dos solares
Na Ribeira da Conceição
Nos mais diversos lugares
Angústias em construção

Viola-da-terra, menina
Mas mãos de Hélio Beirão
Cria na voz de Eduardina
O rumor duma canção

Das Angústias, freguesia
Pode nascer um compasso
Com palavras de alegria
É esta canção que faço

Jardim Florêncio Terra
Num coreto silenciado
Uma voz em pé de guerra
Procura por todo o lado

Qual é o exacto lugar
Onde fica a sua canção
Será na Rua do Mar
Ou na Rua de S. João

Viola-da-terra, menina
Nas mãos de Hélio Beirão
Cria na voz de Eduardina
O rumor duma canção

José do Carmo Francisco

Escrito depois de um concerto de viola-da-terra
na Casa dos Açores

Casa de Papel

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Gostaria muito que começassem a ler este livro no mesmo estado em que iniciei a sua leitura: na mais pura das ignorâncias. O que me seduziu, quando o vi numa livraria há cerca de um mês, foi o seu aspecto. A Remastered Full-Color Edition de House of Leaves de Mark Z. Danielewski é um objecto que irradia magnetismo: como se a invenção de Gutemberg tivesse esperado mais de cinco séculos para cumprir finalmente nesta obra todas as possibilidades da arte da tipografia. Adquiri assim o livro num impulso de bibliófilo que, até aquele dia, não sabia existir em mim: mesmo que as suas páginas estivessem escritas numa língua que não me fosse inteligível, o livro, enquanto objecto, justificaria a compra. Deve-se olhar primeiro para as páginas desse romance como a mesma inquietação que olhamos para uma pintura. Numa era em que o papel tende a perder a sua importância, o livro de Danielewski é a mais violenta demonstração que conheço do quanto o seu suporte é insubstituível. E foi assim que olhei para as suas páginas, uma a uma, durante uma tarde inteira sem nunca me passar pela cabeça iniciar a leitura. Acabei de o ler hoje de manhã e mais não digo. Porque estou certo que haverão de querer relê-lo um dia no mesmo estado em que finalizei essa primeira e inesquecível leitura.

Iniciação

Os pais deixaram Gonçalo à porta de Gina, a caminho do aeroporto, para umas férias de sendeirismo nos Cárpatos.

Gina acolheu encantada o seu ‘menino’, agora de dezasseis anos. Tinha sido ama do pai
e só saíra para casar. O casamento durara um fósforo, mas agora via-se com casa.
Quartos de criada nunca mais.

Os oito dias das férias paternas, passou-os Gonçalo na cama com Gina. Aquilo havia sido fulminante, diria o moço com mais preparação. A novidade, as estatísticas hormonais e um começo de viciação, também ela de foro científico, facilitaram o débito.

Quando os pais vieram buscá-lo, Gina não pôde conter-se: ‘Está um homenzinho’.

A mãe, no lugar do passageiro, sorriu. O pai, ao volante, compreendeu, e sorriu também.

A Gina continuava impecável.

fv
Amsterdão, 3.6.2007

Aspirina Box #2

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Coisinhas novas na box. Em primeiro lugar, há rock norte-americano: «Icky Thump» dos The White Stripes (uma bomba) e «Fake Empire» dos sempre indispensáveis The National. Como ainda não ouvi o novo disco dos Wilco (dizem que é fraquito, mas não acredito), resolvi colocar essa absoluta maravilha de contenção, sobriedade e bom-gosto que é «Kamera» do superlativo YANKEE HOTEL FOXTROT. Para além de ir buscar o velhinho «I Dreamt I Saw St. Augustine» de Bob Dylan (composto na ressaca das sessões com os The Band que viriam a dar origem às THE BASEMENT TAPES), volto a insistir com The Field, desta vez com a faixa «Everyday» (reparem sobretudo o que acontece a partir do minuto 2:27). Como não tenho vergonha na cara, não hesitei em colocar um dos meus temas favoritos de todos os tempos: o quase tântrico «Banshee Beat» dos Animal Collective (não se esqueçam que amanhã há Panda Bear em Serralves). Para terminar, fui buscar «The Bleeding Heart Show» dos The New Pornographers, «Sky Starts Falling» dos Doves (uma das bandas mais subvalorizadas da pop britânica) e «The Hard One» dos saudosos The Beta Band que aqui recriam o refrão do clássico «Total Eclipse of The Heart» da demoníaca Bonnie Tyler. Os temas da semana passada também continuam disponíveis.

A terceira solidão de Miguel Garcia

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O herói de Alkmaar foi desterrado para Reggio Calabria. Houve quem lhe chamasse o leão de Alkmaar. Para outros, Miguel Garcia foi o herói de Alkmaar. Foi ele que no minuto 120 do jogo entre o AZ Alkmar e o Sporting marcou um golo inesperado, insólito e mágico e colocou a sua equipa na final de Taça UEFA. Por esse golo morreu o jornalista Jorge Perestrelo, com o coração despedaçado pela alegria multiplicada nas ondas da TSF.

Nunca uma derrota tinha sabido tão bem. Perder por 3-2 fora suficiente para festejar a passagem à final de uma Taça Europeia. Soube hoje que este alentejano discreto acabou desterrado para a ponta da bota italiana – Reggio Calabria. Depois da solidão no Entroncamento em 1999, depois da solidão de 2006 na selecção de esperanças, esta é a terceira solidão de Miguel Garcia. Foi como se uma borracha gigante apagasse um percurso límpido desde os primeiros tempos do Atlético de Moura, quando o tímido Iniciado do Sporting estranhava a vida turbulenta de Lisboa e só andava de Metro na companhia segura do colega Valdir.

De repente Miguel Garcia aparece substituído por um obscuro suplente no Sporting de Braga. Até Pinto da Costa (honra lhe seja feita) se referiu ao modo miserável como a imprensa desportiva fez o branqueamento da grande penalidade cometida por Simão Sabrosa sobre Miguel Garcia no recente Sporting-Benfica. Foi castigado como se a culpa fosse dele. Sofreu uma falta grave que o árbitro não assinalou e foi afastado como se fosse sua a culpa da derrota.

O herói de Alkmar leva nos olhos para o Sul de Itália a música triste da sua campina, onde as máquinas substituem os ceifeiros e quem passa nas estradas vê nas casas dos cantoneiros a apoteose da solidão.

José do Carmo Francisco

Coisas de muito espantar – 1

FORTE DOS TEIXOS

– Sabes o que têm Évora e York em comum?
– Não. Uma universidade?
– Também. Mas mais importante.
– Eh pá, não sei. Serem cidades bonitas?
– Outra coisa. Bom, dou-te uma ajuda. O nome.
– O nome?
– O nome.
– Agora está a querer gozar.
– Pode-te parecer, mas é como eu digo. York e Évora têm o mesmo nome. Bom, tiveram.
– E qual? Pode saber-se?
Eboracum. Tinham uma fortaleza.
– Ah!
– E havia por lá uma data de teixos.
– Teixos?
– É um tipo de árvores. Coníferas, nunca ouvistes falar? Têm frutos em forma de cone.
Como o pinheiro. É também uma conífera.
– O que tu sabes! E então…
– Então, os celtas, porque foram eles, chamaram eboracum, a essa fortificação que ficava
ao pé dos teixos.
– E isso foi em Évora?
– Exacto.
– E em York?
– Nem mais.
– Mas então…?
– Então, de eboracum formou-se «York», como se formou «Évora». As leis da derivação não
são universais.
– Eu fico espantado.
– Não fiques. Daqui a dias, conto-te outra.

Peripécia com cadela e bispo

Peço desculpas ao Aspirina inteiro, pela vastidão da postagem. Mas encontrei esta história ali num disco velho. E hoje é o dia de eu me divertir.

Nesse tempo o Largo João de Almeida era para nós um sítio onde paravam táxis. Só muito mais tarde havíamos de saber que, por trás do topónimo, se escondia um herói de bigodes, um guerreiro do império que passara o melhor da vida a espingardear bacongos nas matas dos Dembos, e a enxotar os cuamatos das savanas da Huíla.
Ninguém levava as glórias nacionais mais a sério que nós, que resistíamos com tenacidade às provas de fogo das aulas de história. Apenas se sentava, o velho mestre surdo, logo chamava em seu auxílio um lente
– tu! traz o compêndio!
E lá ficava a ler páginas e páginas do livro do Matoso. Às vezes morria um rei, achava-se no mar uma ilha deserta, casava-se a princesa, havia um terramoto. Um dia alguém matou o Miguel de Vasconcelos, amigo da duquesa. E logo a voz do mestre, com aquela autoridade que nasce do saber
– sublinhai!
E era na perturbação desses momentos que eu esticava o olho à carta de marear do adversário, e lhe dava o tiro de misericórdia no último submarino.

Jorge Carvalheira

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Camilo Pessanha

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A propósito do último post do meu primo Valupi (e de um comentário muito pertinente da sininho), veio-me à memória uma boleia que apanhei há muitos anos de um colega de trabalho. Eu tinha entrado para a empresa há muito pouco tempo com apenas dezassete anitos: era um jovem muito tímido que, para além de apenas vir a perder a virgindade na semana seguinte, possuía gostos muito duvidosos em matéria tão diversa e essencial como a música, a literatura, o cinema e o vestuário. O Engenheiro que me deu a boleia chamava-se Eurico e estava particularmente bem-disposto, porque aquele era o seu último dia de trabalho nesse antro que era (será que ainda é?) a EFACEC. O Eurico tinha sido seleccionado num concurso internacional para trabalhar no Parlamento Europeu, onde ia ganhar o triplo e trabalhar muito menos – ou, pelo menos, eram estas as expectativas do seu ego inchado. Ao longo da viagem, ele foi-me dizendo essas coisas sempre com uma mão no volante e a outra a tentar tirar um macaco do nariz. Era uma visão que me provocava um misto de repulsa, riso e angústia. Isso durante uns bons vinte minutos, enquanto seguíamos para Gaia: Ah, que engraçado a gente se conhecer logo hoje no meu último dia (dedo no nariz), em Bruxelas parece que as gajas são umas doidas (dedo no nariz), tens um sotaque mesmo esquisito (dedo no nariz). Quando já estávamos a chegar à minha casa, oiço um

– Ai ai!

e uma explosão de sangue salpica o pára-brisas. De tanto furar o dedo no nariz, o Eurico tinha rompido uma veia e estava a sangrar que nem um desalmado. Ele lá encostou o carro a muito custo, sempre com uma das mãos a fazer pressão no nariz (Ó puto! Não tens um lenço, caralho?!), a camisa cheia de sangue, a Rádio Cidade aos berros, aquilo era tudo uma coisa muito aflitiva para mim. Entramos num café, o Eurico foi à casa de banho e de imediato a clientela se interessou pelo caso, devido à quantidade de sangue que tinha nas calças. Lá fui explicando que o meu colega tinha começado a sangrar do nariz quando ia a conduzir e começaram logo a chover os conselhos da praxe (Ele que ponha água, Que vire a cabeça para trás) mais um que jamais irei esquecer até ao fim da minha vida (Ele que coma uma banana). Passado cinco minutos, o Eurico voltou muito pálido com o nariz vermelho e inchado: continuava a esvair-se em sangue numa gloriosa hemoptise de poema final. O dono do café (Que pena não ter aqui uma banana, caramba) lá ligou para as emergências, que tratava dessa merda e que uma ambulância já vinha a caminho. Quando os moços do INEM chegaram, o Eurico já tinha desmaiado e levado bofetadas duas vezes (cada vez que lhe batiam nas bochechas, saía ainda mais sangue do nariz). Os paramédicos perguntaram-me se era familiar (Não? Então não pode ser) e o tipo lá foi sozinho para o Hospital perante o olhar solidário da pequena multidão que se tinha juntado em frente ao café (Ouçam o que vos digo: aquele gajo ainda vai morrer). Nunca mais o vi. Não sei se chegou a fazer um trabalho meritório ou a comer gajas doidas em Bruxelas: apenas vos posso dizer que no outro dia o Fiat já não estava lá. Tinha deixado no café um papel manuscrito dentro de um envelope com o meu nome. Pedia imensas desculpas pela ocorrência da véspera, que agora já estava bem e que agradecia do fundo do coração a minha paciência. Em baixo, havia um boneco com uma banana enfiada no nariz. O desenho era muito giro.

Rendimento mínimo

Nestes prados da quinta dos cavalos não há cavalos nenhuns. Só João vai caminhando pela berma da estrada e o viajante pára ao lado dele. Não sendo velho é uma figura antiga, delida pelo tempo, ou pela vida. E há nele a servitude primitiva que este viajante já julgava extinta.
De manhã tirou-se de cuidados e foi à vila ao médico espanhol, à boleia dum vizinho. Em breve se despachou e agora não há transportes, não tem remédio senão voltar a pé. Tem a mãe à espera em casa, já muito velha, e ainda mais achacada do que ele. Há mais irmãos mas desgarraram todos, depois que voltaram de Angola. Foram para lá quando eram pequenos, cresceram nos colonatos do Cunene. Havia o gado, e aquelas terras grandes… Agora o que lhe vale é o rendimento mínimo.
Quando o carro estaca no largo, João ainda não se convenceu de que o viajante parou na estrada e o trouxe para casa. O que lhe vale é o rendimento mínimo. E ao vê-lo assim, a afastar-se cabisbaixo, fica a pensar o viajante que deu boleia a um símbolo de alguma coisa maior.

Jorge Carvalheira

«Rua do Arsenal» de José Ferreira Marques

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Se o espaço deste romance é a Rua do Arsenal, o tempo é o tempo português dos anos 60 do século XX: «Aos novos, levava-os a guerra. Outros fugiam a salto para França. Os menos afoitos não resistiam ao encanto das luzes da capital.». Luís chega da sua terra a Lisboa olhando para os títulos de uma vitória do Benfica à porta de Santa Apolónia. Começa por descobrir os cafés: «juntou-se a uma tertúlia que abancava no Café Império, mistura de marialvas, amantes do fado, alguns estudantes e até forcados.» Cansado de ouvir na televisão a preto e branco «Adeus até ao meu regresso», participa na campanha eleitoral de 1969, mas acaba preso pela PIDE como se lê no bilhete entregue a Cecília: «O Luís foi preso. Deve estar em Caxias. Não me procure. PS – Consta que foi um Silveira do Técnico que o acusou.» Trata-se de Fernando António, o primeiro marido de Cecília. Ele simboliza o Portugal «velho» enquanto Luís surge como o Portugal «novo» ao lado de quem Cecília vai ouvir a célebre frase «Aqui Posto de Comando do Movimento das Forças Armadas!». Entre dois mundos opostos, Cecília rejeita Fernando e corre para Luís na Rua do Arsenal, a rua onde se começaram a amar. A mesma rua onde foi assassinado o rei D. Carlos e o príncipe Luís Filipe em 1908 e mesmo ao lado da Câmara onde foi proclamada a República em 1910. Depois de Bichos do Mato com o olhar da guerra colonial, este Rua do Arsenal desenha em páginas vibrantes o mundo cinzento dos escritórios, dos cafés, dos estudantes e dos polícias que povoaram a Lisboa dos anos 60. Quando os homens «enchiam os bolsos de esperança» e fugiam a salto, que o medo «não matava a fome».

Editora – Palimage

José do Carmo Francisco

Aproximação a Modem Talking II

conceptronic2.jpg Se existe uma banda capaz de trazer para o mainstream a glitch music, essa banda são os Conceptronic. Oriundos da Holanda (where else?), há vários anos que esses rapazes têm tentado conquistar ouvintes, ignorando a incapacidade da crítica especializada em perceber o alcance da sua música – ficou famoso um artigo de Matt Broad no NME (infelizmente não disponível on-line), em que este classificava a música da banda como «pure bullshit». Chegou ontem às lojas de discos dignas desse nome o segundo álbum dos Conceptronic, sagazmente intitulado MODEM TALKING II. O disco, para além de finalmente cumprir 14 anos depois as promessas da música concreta que se podia ouvir em Wohnton dos Oval, possui características tão universais que aposto que haverá poucos leitores deste blogue que não irão sentir uma estranha familiaridade ao ouvir os seus temas. Exemplo paradigmático disso mesmo é a faixa «KBPS: Fifty Six» que deixo aqui de seguida: nunca ouvi música que, de forma tão revolucionária e sublime, consiga cumprir todos os parâmetros para comunicar com os seus potenciais ouvintes. Ou servidores.

Podem comprar a música dos Conceptronic, por apenas €11,26, aqui.

A CAMA GRANDE

À memória, escusado lembrar, de Mestre Leiria

Martim amava Sílvia. Amava-a muito. Por assim dizer, todas as noites. Para o irmão Paulo, na cama ao lado, era um tormento que ninguém merecia.

Chegou a Martim o primeiro ataque cardíaco. Iria ser também o último. Numa tarde, saíra Sílvia a fazer compras, disse ele a Paulo:

– Chavalo, eu sei como vai ser, quando eu lerpar.

Paulo fez-se desentendido, e até podia está-lo. Martim, mano como poucos, explanou.

– Quando eu for desta, tu hás-de, malandro… Se até se lê nos olhos!

Paulo, olhando agora o chão, rendia-se. Martim prosseguiu:

– E já que é isso, mais vale ires aprendendo. Eu nunca a tratei mal.

A partir dessa noite, dormiram todos três na cama grande. Anos, anos largos.

Morreram sem dar por isso, uma noite de Inverno em que o calorífero lhes queimou o ar.

fv
Amsterdão, 27-V-2007

«Lugares Comuns»

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Conhecia eu, de JOÃO LUÍS BARRETO GUIMARÃES, os malandros sonetos de Este Lado Para Cima, de 1994, mais as esplêndidas crónicas que, no ano seguinte, escreveu no JL. Depois perdi-o de vista. Ou outros, alguns bem menos interessantes do que ele, ma toldaram.

Só recentemente soube que, nesses dois exactos anos, estava ele trabalhando numa série de curtos textos, que em 2000 (ed. de Mariposa Azual, Lisboa) apareceram, e a que chamou Lugares Comuns. Todos concebidos e redigidos num café do Porto. Como esta minúscula obra-prima:

26 DE SETEMBRO

Há muito tempo não me calha um café pela chávena esquinada. Por ela me apercebi que o ciclo de rotação das chávenas pelos clientes é, em média, de uma vez por mês.
Setembro inteiro passou sem que me tivesse calhado uma curta vez que fosse, a familiar chávena esquinada. Dia após dia rodei a pequena asa branca, na pressa de conhecer no perímetro da cerâmica, aquela ferida antiga. Na última vez que a usara, uns lábios tinham-na beijado com tanto afago pela manhã que pelo final do dia trazia ainda, indeléveis, as marcas daquele afecto. Não é fácil lavar um beijo.
De quando em vez o acaso rasga o espaço do Café, e chega-nos desde o balcão a inconfundível voz de cacos espalhando-se em descuido contra o mosaico do chão.
Desconfio seriamente que a chávena tenha morrido.

Há mais aqui. João Luís Barreto Guimarães (1967, na vida diária médico-cirurgião) tem ainda, junto com Jorge Sousa Braga, um blogue sobre poesia.

O esplendor da ignorância numa página da «Sábado»

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Estive no Castelo de São Jorge numa feira «alternativa» e deram-me a revista Sábado, edição de 10-5-2007, depois de ter votado num concurso para apurar a melhor fotografia do seu «stand». Até aqui tudo bem.

Depois a coisa azedou. Descobri na página 14 do caderno «Primeira escolha» um artigo de divulgação com o sugestivo título de «Um bar de poetas». Segundo a jornalista Catarina Serra Lopes, a «livraria-bar» fica junto ao elevador da Bica. Passo a citar: «Daí a criação de A Da Mariquinhas, inaugurada, com ironia, a 1 de Novembro, Dia de Finados, um dia apropriado para abrir uma livraria de poesia visto que a maioria dos poetas já morreu». Mas não se trata de ironia; é apenas ignorância. Ignorância esplendorosa, pois se atreve a vestir a capa da ironia.

O que os proprietários não sabem (nem a jornalista) é que a «comemoração de todos os fiéis defuntos» ocorre de facto em 2 de Novembro e não a 1 de Novembro. Nessa data surge outra festa, de conteúdo muito diferente – a festa de todos os santos. Trata-se de uma das festas maiores da Igreja. Chamar-lhe «Dia de Finados» é um erro crasso. No estado actual das coisas não se pode esperar que um agente cultural (ou o jornalista que o entrevista) conheçam a história da Igreja, mas aqui trata-se de uma questão de calendário civil. Qualquer agenda lhe dirá que o dia 1 de Novembro é o de Todos os Santos e não o Dia de Finados.

Que não saibam o que é o amicto, a alva, o cordão, o manípulo, a estola, a casula, o cálice, a patena, o corporal, o sanguinho, o véu, o turíbulo ou a naveta – vá que não vá. Passa. Agora chamar Dia de Finados ao Dia de Todos os Santos é mesmo o esplendor da ignorância. Ou, como dizia o Jô Soares – Esta juventude é um espanto!

José do Carmo Francisco