A CAMA GRANDE

À memória, escusado lembrar, de Mestre Leiria

Martim amava Sílvia. Amava-a muito. Por assim dizer, todas as noites. Para o irmão Paulo, na cama ao lado, era um tormento que ninguém merecia.

Chegou a Martim o primeiro ataque cardíaco. Iria ser também o último. Numa tarde, saíra Sílvia a fazer compras, disse ele a Paulo:

– Chavalo, eu sei como vai ser, quando eu lerpar.

Paulo fez-se desentendido, e até podia está-lo. Martim, mano como poucos, explanou.

– Quando eu for desta, tu hás-de, malandro… Se até se lê nos olhos!

Paulo, olhando agora o chão, rendia-se. Martim prosseguiu:

– E já que é isso, mais vale ires aprendendo. Eu nunca a tratei mal.

A partir dessa noite, dormiram todos três na cama grande. Anos, anos largos.

Morreram sem dar por isso, uma noite de Inverno em que o calorífero lhes queimou o ar.

fv
Amsterdão, 27-V-2007

17 thoughts on “A CAMA GRANDE

  1. O Mestre é Mário-Henrique Leiria (1923-1980), que escreveu os magníficos Contos do Gin-Tonic (1973) e Novos Contos do Gin (1978).

    O conto acima ‘respira’ o ar de Mário-Henrique, e poderia – para alguém desatento, mbora informado – passar por um dele. Qualquer conto assim é uma homenagem ao grande exemplo.

    Mas Leiria não estava só. Também ele aprendera de mestres brasileiros, com Drummond à frente.

  2. ao Leiria conheço, ao Borges também, não percebi era quem era o mestre do João Pedro da Costa. Porque comparar o texto deste post com “A Intrusa” isso, sim, parece-me de mestre… Está tudo maluco!!!

  3. Sininho,

    Eu nunca supus os alcapões de malícia, os negrumes de humor, que há em ti.

    Mas repara. Quem deu anos de gozo a tanta gente não andou fazendo camas.

  4. Invariavelmente, tens razão. Parece-me que fiquei em maus lençóis… o que me faz rir, com gosto.
    (…pior, seria ficar acamada, o que não aconteceu :))

  5. Fernando

    Repara, tu também. Ao reler a última frase do teu post, a dimensão da “tua grande cama” estava um tudo ou nada fria ;-)

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