Arquivo da Categoria: VISITAS ANTIGAS:

Miranda July x 205

23br.jpg Ora aqui está um objecto que junta três das melhores coisas que o mundo tem para nos oferecer hoje em dia: os Blonde Redhead, o Mike Mills e a Miranda July. Sobre a autora desta autêntica obra-prima que é Me And You And Everyone You Know, confesso aqui (rendido) que não consigo falar nela sem me subir desalmadamente os níveis dessa vaca que se chama glicemia (vejam, por exemplo, a forma super-original que ela arranjou para apresentar no vil HTML o seu novo livro de contos No One Else Belongs Here More Than You). Quando aos Blonde Redhead, apenas vos digo que são responsáveis por um dos grandes discos deste ano (chamado 23, reparem no mimo da capinha) e que lhes gabo o bom gosto de terem recorrido a Mike Mills para realizar o vídeo do single «Top Ranking». O rapaz, que deve partilhar algumas das minhas profundas fantasias, resolveu fazer o teledisco recorrendo apenas a essa musa do bom-gosto que é a minha menina July. Reparem bem como só ela é que conseguiria resgatar do fracasso uma ideia tão bela, simples e preguiçosa que é filmar (pormenor fundamental, nada disto funcionaria com fotografias) um ser humano em 205 poses diferentes. Agora, se me permitirem, vou mudar o Post Status para «Published», clicar em «Save», tirar a insulina do frigorífico e sucumbir a esta repentina vontade que me deu de suspirar.

Uma versão com maior qualidade (Quick Time) pode ser vista aqui.

Aspirina Box #1

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Não sei se já repararam mas, na coluna da direita, logo por baixo do elenco dos enfermeiros, o blogue tem agora uma nova secção intitulada Aspirina Box. A ideia é criar uma jukebox virtual para cada um dos aspirínicos que será actualizada todas as semanas com sete temas escolhidos pelos mesmos (isto partindo do princípio que os meus estimados colegas estejam com pachorra para isso). Quanto à minha box, resolvi escolher coisas relativamente recentes, exceptuando «La Ahada Yalam», a versão de Robert Wyatt do original do compositor iraquiano Nizar Zreik que fecha o sublime CUCKOOLAND (2003), e uma raridade dos Boards of Canada chamada «Macquarie Ridge» e que apenas pode ser encontrada na edição japonesa de THE CAMPFIRE HEADPHASE (2005). Quanto ao resto, há a techno minimaltista de «Over The Ice» de The Field (desde KID A dos Radiohead que não ouvia a voz humana ser integrada de forma tão original na textura da música electrónica), um momento trovadoresco de M. Ward (por quem nutro uma admiração muito pouco sadia), mais uma prova da desbunda que é o último disco dos The Bees, e ainda duas faixas muito progressivas intituladas «Breaker» dos Low e «Kidz are so small» dos Deerhoff, que é para dar um ar ainda mais esquizofrénico à coisa.

«Enfim, só!»

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Os largos ombros do Público que me desculpem, mas este texto, de António Barreto, é histórico. Um dia será ‘nosso’. Seja nosso já hoje.

ENFIM, SÓ!

Público, 27.05.2007
António Barreto
Retrato da Semana

A saída de António Costa para a Câmara de Lisboa pode ser interpretada de muitas maneiras. Mas, se as intenções podem ser interessantes, os resultados é que contam. Entre estes, está o facto de o candidato à autarquia se ter afastado do governo e do partido, o que deixa Sócrates praticamente sozinho à frente de um e de outro. Único senhor a bordo tem um mestre e uma inspiração. Com Guterres, o primeiro-ministro aprendeu a ambição pessoal, mas, contra ele, percebeu que a indecisão pode ser fatal. A ponto de, com zelo, se exceder: prefere decidir mal, mas rapidamente, do que adiar para estudar. Em Cavaco, colheu o desdém pelo seu partido. Com os dois e com a sua própria intuição autoritária, compreendeu que se pode governar sem políticos.

Onde estão os políticos socialistas? Aqueles que conhecemos, cujas ideias pesaram alguma coisa e que são responsáveis pelo seu passado? Uns saneados, outros afastados. Uns reformaram-se da política, outros foram encostados. Uns foram promovidos ao céu, outros mudaram de profissão. Uns foram viajar, outros ganhar dinheiro. Uns desapareceram sem deixar vestígios, outros estão empregados nas empresas que dependem do Governo. Manuel Alegre resiste, mas já não conta. Medeiros Ferreira ensina e escreve. Jaime Gama preside sem poderes. João Cravinho emigrou. Jorge Coelho está a milhas de distância e vai dizendo, sem convicção, que o socialismo ainda existe. António Vitorino, eterno desejado, exerce a sua profissão. Almeida Santos justifica tudo. Freitas do Amaral reformou-se. Alberto Martins apagou-se. Mário Soares ocupa-se da globalização. Carlos César limitou-se definitivamente aos Açores. João Soares espera. Helena Roseta foi à sua vida independente. Os grandes autarcas do partido estão reduzidos à insignificância. O Grupo Parlamentar parece um jardim-escola sedado. Os sindicalistas quase não existem. O actual pensamento dos socialistas resume-se a uma lengalenga pragmática, justificativa e repetitiva sobre a inevitabilidade do governo e da luta contra o défice. O ideário contemporâneo dos socialistas portugueses é mais silencioso do que a meditação budista. Ainda por cima, Sócrates percebeu depressa que nunca o sentimento público esteve, como hoje, tão adverso e tão farto da política e dos políticos. Sem hesitar, apanhou a onda.

Desengane-se quem pensa que as gafes dos ministros incomodam Sócrates. Não mais do que picadas de mosquito. As gafes entretêm a opinião, mobilizam a imprensa, distraem a oposição e ocupam o Parlamento. Mas nada de essencial está em causa. Os disparates de Manuel Pinho fazem rir toda a gente. As tontarias e a prestidigitação estatística de Mário Lino são pura diversão. E não se pense que a irrelevância da maior parte dos ministros, que nada têm a dizer para além dos seus assuntos técnicos, perturba o primeiro-ministro. É assim que ele os quer, como se fossem directores-gerais. Só o problema da Universidade Independente e dos seus diplomas o incomodou realmente. Mas tratava-se, politicamente, de questão menor. Percebeu que as suas fragilidades podiam ser expostas e que nem tudo estava sob controlo. Mas nada de semelhante se repetirá.

Oestilo de Sócrates consolida-se. Autoritário. Crispado. Despótico. Irritado. Enervado. Detesta ser contrariado. Não admite perguntas que não estavam previstas. Pretende saber, sobre as pessoas, o que há para saber. Deseja ter tudo quanto vive sob controlo. Tem os seus sermões preparados todos os dias. Só ele faz política, ajudado por uma máquina poderosa de recolha de informações, de manipulação da imprensa, de propaganda e de encenação. O verdadeiro Sócrates está presente nos novos bilhetes de identidade, nas tentativas de Augusto Santos Silva de tutelar a imprensa livre, na teimosia descabelada de Mário Lino, na concentração das polícias sob seu mando e no processo que o Ministério da Educação abriu contra um funcionário que se exprimiu em privado. O estilo de Sócrates está vivo, por inteiro, no ambiente que se vive, feito já de medo e apreensão. A austeridade administrativa e orçamental ameaça a tranquilidade de cidadãos que sentem que a sua liberdade de expressão pode ser onerosa. A imprensa sabe o que tem de pagar para aceder à informação. As empresas conhecem as iras do Governo e fazem as contas ao que têm de fazer para ter acesso aos fundos e às autorizações.

Sem partido que o incomode, sem ministros politicamente competentes e sem oposição à altura, Sócrates trata de si. Rodeado de adjuntos dispostos a tudo e com a benevolência de alguns interesses económicos, Sócrates governa. Com uma maioria dócil, uma oposição desorientada e um rol de secretários de Estado zelosos, ocupa eficientemente, como nunca nas últimas décadas, a Administração Pública e os cargos dirigentes do Estado. Nomeia e saneia a bel-prazer. Há quem diga que o vamos ter durante mais uns anos. É possível. Mas não é boa notícia. É sinal da impotência da oposição. De incompetência da sociedade. De fraqueza das organizações. E da falta de carinho dos portugueses pela liberdade.

I am a DJ, I am how I say

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Abram alas, que o Daniel Jonas tem um novo livro de poesia. Após a edição do belíssimo Os Fantasmas Inquilinos (Cotovia, 2005) e da sua magnífica tradução de Paradise Lost de John Milton (Cotovia, 2006), o Daniel está de regresso com um livro que promete surpreender até os seus leitores mais suspeitos, categoria na qual me incluo com grande euforia. Se uma das características mais notáveis do autor de Moça Formosa, Lençóis de Veludo (Cadernos do Campo Alegre, 2002) era o seu perturbador domínio do poema na sua forma extensa, Sonótono (Cotovia, 2007) surpreende por ser integralmente constituído por 50 sonetos (todos originais, exceptuando a tradução do soneto 17 de Milton). Menos surpreendente, para o leitor assíduo de Daniel, será a componente auto-refencial ou metapoética de quase todos estes poemas. Ao lê-los, fiquei com uma visão do formato dos quatorze versos em tudo comparável com a que Jonas deve ter tido do corpo da baleia. Até os elementos mais intrínsecos da escrita do soneto (como a métrica, a rima, a pontuação, a cesura ou o encavalgamento) surgem nestes poemas sobretudo como mecanismos de análise ou dissecação das potencialidades do formato: não é a escrita que se traveste de soneto, é o próprio soneto que surge despido pela acção da escrita. Num autor que sempre se caracterizou por uma ímpar inventividade lexical e por uma fala árida (não é por acaso que, a páginas tantas, surge o nome de Luís Miguel Nava), Sonótono consegue, ainda assim, ser o seu livro mais difícil e fascinante. Mas apenas será feliz o leitor que, a este livro, aplicar todos os princípios necessários à da visão dos estereogramas.

BENGALEIRO OU HORACIANAS

Físico o tractor quente arremessou
Contra as colheitas de ouro o breu de corvos
Trazendo a noite em ondas de onde andou
De foice afoita, a luz sugando a sorvos.
Modorrento, o vapor da chaminé,
Máquina de fazer nuvens, levando
Ondinas ao empíreo mar, rapé
Da paz entre titãs que ordenhando
Alheias colinas se houvessem mais
Desavindo. Van Gogh ou Fabergé:
Ovos de palha, gemas siderais
Chocados em estrelado canapé.
      Entrar nesta pintura eu queria
      Se à entrada não pedissem a poesia.

(in Daniel Jonas, Sonótono, Cotovia, 2007)

Duas lágrimas e uma chaga

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Ninguém me consola de ver o Esplanar parado. Supõe-se (bom, suponho) que tanto Carlos Leone como João Pedro George andam em parte incerta.

Aliás (uma confissãozinha, num blogue anti-confessional, como é este), se eu alguma vez – quod Deus avertat – começasse um blogue sozinho, haveria de chamar-lhe assim: Em Parte Incerta. Não tenho planos. Estou muito bem aqui. Mas, pelo sim pelo não, ponho o pezinho em cima do lindo nome. Até porque há quem tenha um blogue pessoal e um Aspirina… Mas não falem disto ao Zé Mário.

Ninguém me consola, também, de dar com o Não li nem quero ler de rodas no lamaçal. Ele que era tão parvo, tão divertido e, aqui e ali, tão indispensável.

Mas nem tudo são desconsolos. As Ligações perigosas – essas, de cabo a rabo indispensáveis – continuam ligadas ao mundo.

Actualização

Uma busca sobre Casais Monteiro leva-me ao blogue A Vez do Peão b. Carlos Leone mora aqui.

Tudo pela Pátria

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Manuel Passos é homem para sessenta. – Mais um pouco! – concede ele, a silvar a dentadura. Há trinta anos regressou de Angola e deixou passar o tempo. Logo que o génio lhe deu algum sossego, arranjou a caixa dos apretrechos. E quando está de maré vem abancar no Rossio, os olhos cheios de paisagens africanas. Toma o lugar do cliente, encosta-se à parede da farmácia, e fica-se a olhar os restos do império, que ainda passam.
Traz no braço dois obuses tatuados, pequeno espólio do serviço militar.
GAC 2 – Tudo pela Pátria – 1968
E ao mesmo tempo que vai puxando o lustro, olha de lado um africano enorme, que lá vai, de braço dado, com a sua matrona branca.
– Cada um com o seu é que estaria bem! Branco a branco, preto a preto! Mas cada um sabe da sua vida!
A matrona e o africano pararam no passeio, a quezilar com um patrício inconformado.
– A cabeça é o ponto fraco deles, vê-se na porrada e nos estudos. Não são dados a inventar, ficam-se pelo que ouviram. E nunca se atiram de cabeça!
As lembranças que me sobraram da guerra desmentem-lhe a teoria. Mas alimento a conversa e tomo notas.
– Isso é para quê, diga lá?!
– Para nada! É tudo pela Pátria!
O Passos põe-se a olhar os canhões que traz no braço. E sorri-me, displicente, já andava esquecido deles.

Jorge Carvalheira

«Os Dias na Noite»

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Pedro Chagas Freitas

Tive o prazer de apresentar, na Fnac do Chiado, o novo romance de Pedro Chagas Freitas. Como escreveu este vosso servidor no prefácio à obra, Os Dias na Noite é um livro «duro», «mais um», do jovem jornalista de Guimarães. «Para ler com algum contrapeso de esperança no mundo.»

E mais escreveu o prefaciador: «Pedro Chagas Freitas é um modelo de crueldade literária. Não há miséria humana que o comova, e que por isso se adoce a nossos olhos. Não existem suficientemente boas disposições no bicho humano que o convidem ao lirismo. O sangue corre, as almas dilaceram-se. Cedendo a alguma pirosice, diríamos que a bolinha vermelha é, no que ele escreve, constante».

Sr. Ministro, leia aqui no Aspirina

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O ministro, a Ota ou como o autismo só pode criar suspeições

Público, 25.05.2007
José Manuel Fernandes

O ministro das Obras Públicas passou da teimosia ao autismo e deste a uma tão desastrada cegueira que, com toda a frontalidade, é preciso perguntar: a quem interessa este ministro? A quem interessa mesmo que o aeroporto se construa na Ota? Por que motivos a insensatez de tal opção não é explicada numa altura em que já se percebeu que os motivos que levaram a escolher a Ota já não são válidos? É que se não há um argumento racional a favor da Ota, só outras fidelidades, ou interesses desconhecidos, podem explicar uma tal teimosia. Por isso, ou o ministro e o Governo explicam a bondade da Ota, ou a dúvida instalar-se-á na opinião pública. É que se Mário Lino estivesse limitado à capacidade de raciocínio de quem tem um único neurónio, algo que por certo não sucede num engenheiro “a sério” que até está inscrito na Ordem, o que disse seria desculpável. Tendo mais neurónios, por que fez do discurso uma sucessão de atoardas, inverdades, mistificações e disparates?
Como é que um ministro diz que a Margem Sul do Tejo é um “deserto para onde seria necessário deslocar milhões de pessoas”? E como foi possível tentar corrigir agravando o disparate, dizendo que não se referia à Margem Sul, apenas às localizações alternativas propostas para o novo aeroporto?

Para assim falar, ou Mário Lino nunca olhou para um mapa de Portugal, ou vive em Marte. Qualquer das alternativas fica mais perto de Lisboa do que a Ota; qualquer delas é hoje servida por duas ou três auto-estradas já construídas. Há uma linha férrea que passa por lá. Um hospital central mais perto do que haveria na Ota. Indústria por todo o lado. Há portos perto, enquanto para a Ota só se poderia contar com o “famoso” porto de águas profundas de Peniche, hipótese que alguns lunáticos já colocaram. Em suma: qualquer das novas localizações está mais próxima dos milhões de pessoas que deveria servir do que a Ota. Mesmo para quem mora em concelhos a norte do Tejo como Cascais, Sintra ou Oeiras. De resto, se para ter um aeroporto fosse necessário deslocar para as suas proximidades “milhões de pessoas”, então o melhor é deixá-lo onde está, no centro de Lisboa. Mário Lino falou também de um deserto e de sítios “sem gente, sem turismo, sem comércio” quando lhe bastaria, de novo, olhar para o mapa ou abrir o Google Earth para perceber que estava a dizer um disparate. Ou não existissem estudos a defender que, excluindo o impacto ambiental, Rio Frio seria melhor do que a Ota, estudos que estão na Internet mas que Lino disse não existirem…

Não contente, interrogou-se sobre se a engenharia portuguesa teria alguma dificuldade em resolver o problema de “um aterrozinho num mundo onde se constroem aeroportos no mar”. Sucede que o tal aterrozito implicará a movimentação do equivalente a uma coluna de terra com as dimensões de um campo de futebol e 10 quilómetros de altura. Faz-se, mas só com muito dinheiro. Ou, por outras palavras, dando muito dinheiro a ganhar a muita gente. Em Portugal sabe-se o que isto costuma significar.

Mário Lino quer ainda construir uma nova central ferroviária em Chelas. Caríssima, como está bem de ver. E quer levar o TGV por viadutos e túneis até à Ota, outra obra faraónica e propícia a megaconcursos e monumentais derrapagens financeiras.

A pérola final foi considerar que escolher aquelas localizações seria como construir “uma Brasília no Norte do Alentejo”. Norte do Alentejo? O nosso engenheiro “a sério” já esqueceu a instrução primária, pois lá terá aprendido que os lugares em discussão ainda ficam na Estremadura, e nunca deve ter olhado para os mapas das regiões-plano, pois situam-se na que é conhecida por “Lisboa e Vale do Tejo”.

É caso para perguntar se o ministro sequer leu os dossiers…

José Manuel Fernandes

Já cá canta

O novo vídeo de Paul McCartney realizado pelo grande Michel Gondry. Com Natalie Portman, Mackenzie Crook (o impagável Gareth Keenan de The Office) e o próprio Gondry na bateria. Para já, ainda não encontrei um link em Quick Time (o que é grave), mas já dá para ter uma ideia desta verdadeira desbunda.

«Não sabia que a noite podia incendiar-se nos meus olhos»

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Graça Pires, neste seu nono livro de poemas, organiza o texto poético em dois registos bem diferentes: Cultura e Natureza. Os primeiros onze são poemas em prosa, numa recriação muito pessoal do célebre episódio de Marta e Maria no Evangelho de São Lucas. Entre Marta (atarefada) e Maria (contemplativa), o poema inscreve-se em duas memórias. Uma real («Olho pela janela à procura da minha infância e reparo que já esqueci a paisagem e os rostos desse tempo»); outra imaginada: «E perdoou à adúltera a quem queriam apedrejar por saber que só é culpado quem não procura ser feliz.» Desse cruzamento de memórias surge a escolha: «Por isso escrevo. Escrevo desesperadamente. Escrevo para não esquecer.» O segundo núcleo de 22 poemas não trata já da Cultura mas da Natureza, o mesmo é dizer a Geografia: «Pelo lado interior do tempo / assinalo, com traços de luz, / a cidade litoral onde nasci / rente à fragilidade do Outono. / Era Novembro / e uma estranha sede / pairava sobre a terra / ávida de líquidas paisagens / quando minha mãe me tomou nos braços / e disse: esta é a minha filha / O seu corpo doía de tanta comoção. / Agora, que uma luz difusa me fascina / retenho a idade em que não ousava / fazer do coração um lugar de conflito. / Escoa-se de meus lábios / sem aviso prévio / um excessivo odor a maresia / como se o Verão atasse ao meu pescoço / a sombra das dunas e todos os ventos / afugentassem a inevitabilidade da morte. / É de musgo, a vertigem / onde demoro as mãos, / para tornar legível a emoção.» Tornar legível a emoção é o grande projecto de qualquer poeta. Graça Pires já o consegue desde 1990 quando se estreou com «Poemas».

Capa – Katarina Rodrigues
Foto – Manuel Fazenda Lourenço

José do Carmo Francisco

Uma história feliz com um final assim-assim

Uma das mais recentes modas no universo dos vídeos musicais é as editoras utilizarem o potencial da web 2.0 para organizar concursos em que os fãs são desafiados a realizar um teledisco para os seus artistas. Desde que haja massa crítica (isto é, desde que a banda tenha uma assinalável legião de fãs e tenha ao seu dispor os meios para divulgar o concurso pela rede), esta é uma forma bem económica das editoras poderem vir a obter um vídeo enxuto quase de borla, pois uma simples pesquisa no YouTube demonstra que não falta por aí muita gente com talento disposta a pôr as mãos à obra.

Os Incubus (banda que não me faz abanar o coreto) resolveram enveredar por esse caminho e organizar um concurso para a criação de um vídeo para o single «Dig». O vencedor acabou por ser Carlos Oliveira, um jovem designer português residente em Esmoriz, que concebeu uma animação em Flash para a banda norte-americana. O Carlos lá ganhou alguma notoriedade e levou para casa o material informático da praxe, enquanto o guitarista da banda não se continha nos elogios: «O vídeo é todo feito com animação. A banda não aparece, o que é fantástico. O realizador fez um trabalho surpreendente: animou diversas ilustrações do nosso álbum e através delas contou uma história».

O problema nesta história é que a banda acaba de lançar oficialmente uma versão editada do teledisco original, alternando as imagens da animação original com (pasme-se) filmagens absolutamente dispensáveis dos músicos a tocarem o tema em playback. Comparar os dois vídeos acaba por ser um exercício penoso, mas sempre possui a virtude de nos mostrar a diferença entre o trabalho genuíno de um artista e um produto confeccionado pelos ditames (muito contestáveis) do que a banda e a editora devem apodar de «marketing comercial» (como dizia um amigo meu, a carinha laroca de Brandon Boyd sempre deve dar para vender mais uns milhares de discos).

A web 2.0 é uma cena bonita, não é?

UM OLHAR SOBRE A PAISAGEM: AS CASAS

Nas planícies, socalcos e outeiros, desabrocham as orvalhinhas cor-de-rosa e brancas; as ervilhacas roxas e amarelas; as corriolas lilases, em forma de sino; o cebolo bravo, de espigões de um roxo esmaecido; as calcinhas de cuco, indecisas entre o cor-de-rosa e o lilás e os pregos de ouro, amarelos, como o metal precioso.
E o vento, gira que gira, numa roda-viva, de repente, vai esmorecendo, vai esmorecendo, vai calando a fala. Até que deixa de se ouvir. O vento está a meditar. E a seara de trigo, lá em baixo, torna-se então plana como uma estrada aberta.
Tanta beleza por esses campos a perder de vista… E um perfume raro a respirar na aragem. São ramos das mais belas flores. Mas as casas… Ah, as casas, são as flores mais bonitas da paisagem!
Aqui e além, repousam na paisagem verde. Que verde é a paisagem e o aroma. Umas, meninas traquinas empoleiradas no cimo dos montes. Menos destemida, outras, aconchegadas nas várzeas que as viram nascer.
Velhas de pedras de muitos anos. Tantos, que se perdem na memória dos olhos. Na lembrança daqueles que as habitam e que por elas sentem um amor que vem da lonjura do tempo.
Casas baixas, caiadas de branco. Gratas por terem vivido tanto e por tanta coisa terem visto. É por isso que as casas sabem sempre muitas histórias. Que guardam dentro de si como um livro.
Alegres umas, tristes outras. Histórias que fazem com que as casas possuam vida própria. E mágica. Construída de muitas vidas e de muitas histórias.
Mas a vida das casas também é feita de esperança. Assente no desejo de se manterem intactas e amadas.
Em troca, oferecem a dedicação de serem o abrigo, o tecto daqueles que por si são amados. Nada mais pedem. A não ser, ainda, que a saudade, um dia, venha morar no coração dos homens.

Soledade Martinho Costa

A pianista que me possa perdoar

Estávamos na Casa dos Açores em Lisboa. A sala estava mais que cheia. Era uma sexta-feira à noite. A pianista que me possa perdoar, mas eu só dava atenção à violinista Isabel Dutra Rafael, uma menina-mulher de treze anos, lançando de forma serena, decidida e firme para a nossa atmosfera carregada de emoção, os sons magníficos das peças musicais de Kreisler, Pugnani e Bériot.

Saída da escuridão da sala ao lado, surge Eduardina, com um sorriso de mulher-menina e trazendo nas mãos dois belos ramos de flores. Os aplausos continuavam e as flores nas mãos de Eduardina surgiam como pequenas e coloridas vírgulas da nossa festa.

De repente era como se estivéssemos numa sala do Teatro União Faialense, não em 2007 mas no ano de 1897. Aqueles aplausos quentes para a jovem violinista aconteciam no século XIX e não no XXI. Esta ilusão era fácil de explicar. Tinha acabado momentos antes a apresentação do livro «A Horta Antiga» de Carlos Silveira. Uma espécie de fotobiografia da mais bela pequena cidade do Mundo.

De repente era como se estivéssemos dentro do romance «Mau tempo no canal» de Vitorino Nemésio com João Garcia em recruta no quartel da Junqueira e com quarto alugado no Bairro Alto por cima da capelista da Rua da Rosa, esperando carta de Margarida e Margarida a conversar na amurada do Lima com um dos Serpas sobre a famosa linha de backs do Fayal Sport Club que passava as tardes de domingo jogando intermináveis partidas de futebol com o Angústias ou com o Sporting Club da Horta no Relvão da Doca.

A pianista que me possa perdoar, mas eu só dava atenção à menina-mulher do violino e à mulher-menina dos ramos de flores.

José do Carmo Francisco

Liberais

No princípio eram a guarda avançada das ideias mais ilustres das Luzes e da Razão. Tomavam como bandeira a constituição dos direitos, a liberdade dos espíritos e a emancipação dos homens. Contra a cerração do dogma, a injúria do privilégio, o esmagamento do poder absolutista. Antepunham o direito natural ao pedigree.
– Deixai passar, deixai fazer quem faz! – E alguns desembarcaram no Mindelo.
Hoje afadigam-se a virar às avessas este mundo e o outro. Às bestas da natureza, recambiam-nas ao criacionismo, que o mundo todo está na mão de Deus. Porém aos homens reservam a dura selecção darwinista, porque o mundo é uma coutada dos audazes.
Idolatram o dividendo, cultuam bezerros de ouro. Aos que já não derem lucro, facilitam o antigo logradouro da superstição, e da crença no milagre. Dizem que é isso o progresso. E dão como garantido um favorzinho da fome, para nos meter na cabeça o conto do vigário.

Jorge Carvalheira

Primeiros amores

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O primeiro grande romance gay da nossa literatura, acabou por escrevê-lo Eduardo Pitta.

Poderíamos tê-lo desejado de Guilherme de Melo, autor de Ainda havia sol (1984) e O que houver de morrer (1989). Ou esperado de João Aguiar, que com Navegador solitário (1996) pareceu aproximar-se da proeza. Ou aguardado de Frederico Lourenço, cuja trilogia iniciada com Pode um desejo imenso (2002) veio pôr a razoável nível a fasquia.

Poderiam tê-lo ousado grandes contistas como Mário Cláudio, que escreveu «Il Signore Inglese», em Itinerários (1993). Ou José Lourido, autor do fabuloso e desconhecido «A absurda eficácia da matemática», em O príncipe que se transformou em sapo (1993). Ou Possidónio Cachapa, autor do não menos fabuloso e felizmente algo mais conhecido O nylon da minha aldeia (1997). Ou Miguel Vale de Almeida, com as excelentes narrativas de Quebrar em caso de emergência (2001).

Mas não. Haveria de ser Eduardo Pitta, com esta Cidade proibida, acabada de sair na Quid Novi. Do contista de Persona (2000, agora reeditado na mesma casa) poderia já esperar-se a façanha. Mas as grandes obras são sempre uma surpresa.

O livro é um must. E não só pela temática (sempre curiosa, mas nunca garantia de qualidade), como sobretudo pela valente respiração de que o relato se toma. Os lugares, as épocas, os ambientes, tudo rodopia com nitidez, com embalo, com vertigem (só aqui e ali excessiva para a concentração comum, como a deste leitor), criando sabiamente expectativas, conferindo colorido a personagens e brilho a episódios.

Assinale-se a crua limpidez do vocabulário erótico. Assinale-se, também, a abrupta e bem gerida inclusão, em existências queque, do elemento bas fonds.

Lamente-se, sim, a frívola atracção das etiquetas, a obsessiva pose dos livros, da música, dos vinhos, das iguarias, da hotelaria, dos diplomas, que roça a obscenidade na descrição dum jantar volante, quase a meio do livro. O leitor verá. E tentará perceber porque é que – banal exemplo – haverão uns sneakers de ser tão fatalmente Louis Vuitton.

Ninguém morre. Ninguém fica com ninguém. E os primeiros amores, mesmo se proletários, revelam-se, embora definitivamente perdidos, os verdadeiros.

Definitivamente perdidos? A estas alturas do campeonato (perdoe-se o registo), a malta cheira as sequelas. De momento, basta esta Cidade proibida para encher as medidas.

A paranóia das Ligas voltou a atacar

Com a última jornada do campeonato, hoje, e na possibilidade de qualquer dos três chamados «grandes» poder ser campeão, lá voltou a paranóia das Ligas. Não há jornal nem jornalista que não venha com a «história» das Ligas. Qual história? – perguntarão os leitores. Trata-se de uma doença: uma febre vermelha. A situação é a seguinte.

Nas épocas de 1934/5, 1935/6, 1936/7 e 1937/8 foram organizados quatro torneios particulares, experimentais e sem atribuição de qualquer título nos quais entraram por convite 8 clubes portugueses. Ao mesmo tempo que decorria essa experiência, continuou a ser disputado o Campeonato de Portugal, esse sim, o torneio desportivo que atribuía o título de campeão de Portugal. Ora acontece que nos Campeonatos de Portugal entre 1934 e 1938 o Benfica ganhou 1, o F.C.Porto venceu outro e o Sporting ganhou dois. Mas, ao mesmo tempo, os torneios particulares e experimentais chamados Ligas tiveram como vencedores o F.C.Porto (1 vez) e o Benfica (3 vezes). Como lhes convinha para efeitos de estatística, muitos jornalistas simpatizantes do Benfica começaram a apagar os Campeonatos de Portugal de 1934 a 1938 (Benfica ganhou 1) dando relevo às Ligas (Benfica ganhou 3) como se de campeonatos se tratassem.

Ora, o campeonato da I Divisão só começou em 1938/9 tendo sido vencedor o F.C.Porto. Se as Ligas fossem campeonatos (e não torneios experimentais), não teria havido Campeonato de Portugal entre 1934 e 1938 e a Académica, o último classificado da Liga de 1934/5, tinha descido de divisão. Mas não desceu até porque não havia ainda II Divisão. A Académica voltou a jogar na Liga em 1935/6 sendo de novo o último classificado. Depois foi 5º em 1936/37 e 6º em 1937/8. Tal como o da I, o campeonato da II Divisão só começou em 1938/9, depois de 4 anos de experiências com 4 vencedores deste torneio experimental: Carcavelinhos, Olhanense, Boavista e Leixões.

Esta é a verdade. Já chega de paranóia das Ligas. Basta!

José do Carmo Francisco

Confissões, VI, 3

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Contrariamente ao que dizia Ruy Belo (e ao que ainda hoje afirmam alguns autarcas), o verdadeiro problema não é o da habitação, mas o de saber respirar. Se Santo Agostinho gabava Santo Ambrósio por este conseguir ler como quem respira («Quando ele lia, os seus olhos esquadrinhavam a página e o coração procurava o sentido, mas a sua voz mantinha-se em silêncio e os lábios e a língua não se moviam»), eu gabo os que respiram como quem lê, isto é, todos aqueles cujo coração jamais se cansa de procurar. O problema da respiração é uma inquietação que herdei do meu pai, que teve de aprender a respirar uma língua nova, quando emigrou para França, aos 48 anos. Foi aprendendo aos poucos, com a necessária dificuldade, a entender de forma pragmática a maioria dos enunciados. De vez em quando, sobretudo quando estava a ver televisão, perguntava a mim ou aos meus irmãos o significado de uma palavra desconhecida. Ele não queria traduções ou perífrases aborrecidas, mas a palavra portuguesa exacta que, na sua ingenuidade, correspondesse à do idioma proibido. Depois, pedia-me para escrever pequenos lembretes que ia acumulando nos bolsos no meio das moedas e dos maços de tabaco. Ele nunca se preocupava em repetir em voz alta as palavras novas que aprendia e há já alguns anos que me assombro com o facto de nunca o ter ouvido dizer uma única palavra em Francês. Quando eu tinha dez anos, chegou a minha vez de aprender a respirar esse «infinito que nos acena de além do mar», de que falava Vergílio Ferreira. Com a minha língua materna, adquiri uma respiração tensa e sôfrega com a qual, malgré moi, ainda hoje me identifico. Com o Português, aprendi a compreender melhor o pudor do meu pai: não é impunemente que se aprende a inspirar a vossa língua e a sentir nos pulmões, em plano suavemente inclinado, a vertigem do mar. Se gosto tanto do Português, não é apenas por essa língua não ser minha, mas por nessa distância lá caber toda a tristeza de me saber de nenhum lugar. O meu corpo é uma desgraça: inspiro frases de um Português límpido e cheio de maresia para depois expirar uma língua tosca na qual nem sequer me será permitido um dia naufragar. Sonho muito com isso, sabem. Respirar água, para depois, finalmente, abrir os braços os pulmões a boca. E conseguir falar.