UM OLHAR SOBRE A PAISAGEM: AS CASAS

Nas planícies, socalcos e outeiros, desabrocham as orvalhinhas cor-de-rosa e brancas; as ervilhacas roxas e amarelas; as corriolas lilases, em forma de sino; o cebolo bravo, de espigões de um roxo esmaecido; as calcinhas de cuco, indecisas entre o cor-de-rosa e o lilás e os pregos de ouro, amarelos, como o metal precioso.
E o vento, gira que gira, numa roda-viva, de repente, vai esmorecendo, vai esmorecendo, vai calando a fala. Até que deixa de se ouvir. O vento está a meditar. E a seara de trigo, lá em baixo, torna-se então plana como uma estrada aberta.
Tanta beleza por esses campos a perder de vista… E um perfume raro a respirar na aragem. São ramos das mais belas flores. Mas as casas… Ah, as casas, são as flores mais bonitas da paisagem!
Aqui e além, repousam na paisagem verde. Que verde é a paisagem e o aroma. Umas, meninas traquinas empoleiradas no cimo dos montes. Menos destemida, outras, aconchegadas nas várzeas que as viram nascer.
Velhas de pedras de muitos anos. Tantos, que se perdem na memória dos olhos. Na lembrança daqueles que as habitam e que por elas sentem um amor que vem da lonjura do tempo.
Casas baixas, caiadas de branco. Gratas por terem vivido tanto e por tanta coisa terem visto. É por isso que as casas sabem sempre muitas histórias. Que guardam dentro de si como um livro.
Alegres umas, tristes outras. Histórias que fazem com que as casas possuam vida própria. E mágica. Construída de muitas vidas e de muitas histórias.
Mas a vida das casas também é feita de esperança. Assente no desejo de se manterem intactas e amadas.
Em troca, oferecem a dedicação de serem o abrigo, o tecto daqueles que por si são amados. Nada mais pedem. A não ser, ainda, que a saudade, um dia, venha morar no coração dos homens.

Soledade Martinho Costa

7 thoughts on “UM OLHAR SOBRE A PAISAGEM: AS CASAS”

  1. Esta ingenuidade pede mais engenho. Ou seja, o que é frágil só se mantém incólume de duas maneiras: com couraça ou descarnando-se até ao sangue vivo.

    Aqui, temos adjectivos a mais, substância a menos. E, dito isto, acrescento que gostei de ler. Mas não me alimentei.

  2. Eu não diria “ingenuidade”, mas simplicidade. Na prosa os adjectivos não me incomodam se forem escassos. Na poesia, sim. Evito-os.
    Adjectivos tão defendidos pelo meu amigo Baptista-Bastos…
    Mas se, mesmo assim, gostou de ler, já me dou por feliz. O que não sou, propriamente, é o Banco Alimentar contra a Fome…
    Um abraço.

  3. Lamento. A ingenuidade é mil vezes preferível à simplicidade. Porque a ingenuidade será sempre, mesmo que há muito esquecidos, um milagre.

    O problema, no entanto, é meu. Um problema de dietas, pois.

  4. Soledade
    Obrigada pelo teu campo. Pelas cores e pelo movimento com que nos brindas.
    As casas… Gosto de as ver em mutação, do tempo, dos gostos, da história, da evolução, de cada um que por lá passa. As casas são um festim! No campo ou na cidade.
    O que elas me oferecem é o mote para um rabisco, fonte de inspiração.
    Ou seja, para além de paisagem de campo são-no do meu coração.


    Será que alguém já te sugeriu uma casa de campo? Serve-te. Aqui, tens por onde escolher.

  5. o texto do post é uma charopada.
    Este que transcrevo vale para as casas, guardo outro para o campo

    “As casas respiram. Podemos ouvi-las durante a noite. Têm um movimento soturno e imperceptível sob a secura da noite. Breves ruídos que despistam, o estalar das madeiras, as horas num relógio escondido. Mas não se trata disso. É a respiração das casas que nos suportam, a nós homens, mas possuem uma vida independente, muito densa. Acendi a luz e pus-me a ler. Um capítulo sobre as estátuas gigantes da Ilha da Páscoa que têm uma pedra vermelha sobre a cabeça. Estas pedras vermelhas parecem significar a cor amarela dos cabelos… Merda. Vou fumar para a janela. Passo a noite assim. Até que a madrugada começa a vir do rio. Sobe devagar pelas coisas como uma grande língua fria. Aparecem as casas, o miradoiro, a torre. Vejo então, muito vivo na palidez da madrugada, o bloco junto à igreja, com as suas escadas incompletas que se interrompem uns três metros abaixo da soleira da porta descolorida, entre os umbrais suspensos no espaço. Que é isto? A escada fica a meio percurso entre uma espécie de pátio, com montículos de arbustos rasteiros, e a porta que não dá entrada para sítio nenhum. E ei-lo, a esse último degrau, insólito, parado no ar: pura alucinação. Não era possível chegar à porta trepando pelas escadas. Mas se lá chegássemos, se nela batêssemos um dia inteiro, ninguém a abriria. Ou se a forçássemos, ficaríamos sob os velhos umbrais de pedra, com a vista para o rio, as casas, a cidade. As mesmas coisas que se vêem daqui, da janela. As mesmas que se veriam de qualquer parte. E o mais perturbante é que nem à porta chegaríamos, pois os degraus ficam muito abaixo da soleira. E, reparo, nem às escadas é possível ter acesso. Não se vê como alcançar o pátio de onde arrancam. Só o vento cego traz para ali a poeira invisível, ao longo dos meses, ano após ano, e nascem então esses arbustos inúteis. Os arbustos que parecem sofrer como um pensamento, sob a luz feroz, entre as cruéis linhas de pedra. Não sei nada. Atrevo-me a acender um novo cigarro. E o terror entra silenciosamente na minha vida.”

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