Uma história feliz com um final assim-assim

Uma das mais recentes modas no universo dos vídeos musicais é as editoras utilizarem o potencial da web 2.0 para organizar concursos em que os fãs são desafiados a realizar um teledisco para os seus artistas. Desde que haja massa crítica (isto é, desde que a banda tenha uma assinalável legião de fãs e tenha ao seu dispor os meios para divulgar o concurso pela rede), esta é uma forma bem económica das editoras poderem vir a obter um vídeo enxuto quase de borla, pois uma simples pesquisa no YouTube demonstra que não falta por aí muita gente com talento disposta a pôr as mãos à obra.

Os Incubus (banda que não me faz abanar o coreto) resolveram enveredar por esse caminho e organizar um concurso para a criação de um vídeo para o single «Dig». O vencedor acabou por ser Carlos Oliveira, um jovem designer português residente em Esmoriz, que concebeu uma animação em Flash para a banda norte-americana. O Carlos lá ganhou alguma notoriedade e levou para casa o material informático da praxe, enquanto o guitarista da banda não se continha nos elogios: «O vídeo é todo feito com animação. A banda não aparece, o que é fantástico. O realizador fez um trabalho surpreendente: animou diversas ilustrações do nosso álbum e através delas contou uma história».

O problema nesta história é que a banda acaba de lançar oficialmente uma versão editada do teledisco original, alternando as imagens da animação original com (pasme-se) filmagens absolutamente dispensáveis dos músicos a tocarem o tema em playback. Comparar os dois vídeos acaba por ser um exercício penoso, mas sempre possui a virtude de nos mostrar a diferença entre o trabalho genuíno de um artista e um produto confeccionado pelos ditames (muito contestáveis) do que a banda e a editora devem apodar de «marketing comercial» (como dizia um amigo meu, a carinha laroca de Brandon Boyd sempre deve dar para vender mais uns milhares de discos).

A web 2.0 é uma cena bonita, não é?

8 thoughts on “Uma história feliz com um final assim-assim”

  1. E não admites que tenha sida por opção artística, criativa? Por exemplo, há quem considere o trabalho do Carlos “muito lento”.

  2. Admito um bocadinho, mas sobretudo não acredito. Até porque o «muito lento» é uma opção artística tão válida como o «lento» ou o «rápido». Quando a banda/editora recorre a um concurso desse género sabe que está a apostar mais no lado artístico do vídeo, visto que o lado comercial está garantido pelo próprio processo de divulgação do concurso. Mais: foi este o vídeo vencedor e o próprio guitarrista achou «fantástico» o facto de a banda não aparecer no vídeo. Interessa-me sobretudo a questão da legitimação desta nova versão. A mim, parece-me óbvio que o Carlos não foi consultado sobre esse processo.

  3. Sim, claro. Mas eu estava a tentar levar-te para a questão do gosto, a desvairada questão do gosto. Tendo feito o concurso, esse evento cumpriu-se na sua lógica própria: recolha de visões artísticas avulsas. E o trabalho do Carlos, na sua integridade artística, estaria cumprido no acto de ter sido declarado vencedor e assim divulgado na sua originalidade. Depois, a banda (que, como qualquer banda, é um projecto comercial adentro de uma indústria) aproveitou esse material para produzir uma nova peça, quiçá mais do agrado da maioria dos elementos da banda, do projecto, da empresa (whatever you want to call it). Se calhar, mais do agrado do seu público, eis onde eu queria chegar.

    E pensemos neste cenário: o Carlos tinha sido contratado para fazer o vídeo, e alguém o teria influenciado para que incluísse as partes agora aqui em discussão. Neste hipotético caso, não teríamos uma versão para comparar, e talvez disséssemos que tinha ficado tudo muito bom, nessa mistura…

  4. Sobre a questão do gosto, concordo plenamente contigo: toda a informação é relevante para a formação do (pelo menos, meu) gosto.

    E já que estamos a falar de gostos: qual é a versão que preferes?

  5. sem ter ouvido a música, que será certamente um “detalhe” essencial (o youtube anda caprichoso no meu pc), gosto mais da versão original, mas a adaptada parece-me mais ao gosto do freguês.

  6. Claro que prefiro a versão do Carlos! Só que os dois objectos são incomparáveis. Isto é, não faço ideia do que levou a esta versão híbrida, e sem saber não posso criticar a decisão.

    No plano meramente pessoal, penso como tu: não estraguem o material. No plano da estratégia da banda, se calhar é algo inócuo, normal. Para todos os efeitos, e para a “geração web 2.0”, o original está aí à disposição…

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.