A pianista que me possa perdoar

Estávamos na Casa dos Açores em Lisboa. A sala estava mais que cheia. Era uma sexta-feira à noite. A pianista que me possa perdoar, mas eu só dava atenção à violinista Isabel Dutra Rafael, uma menina-mulher de treze anos, lançando de forma serena, decidida e firme para a nossa atmosfera carregada de emoção, os sons magníficos das peças musicais de Kreisler, Pugnani e Bériot.

Saída da escuridão da sala ao lado, surge Eduardina, com um sorriso de mulher-menina e trazendo nas mãos dois belos ramos de flores. Os aplausos continuavam e as flores nas mãos de Eduardina surgiam como pequenas e coloridas vírgulas da nossa festa.

De repente era como se estivéssemos numa sala do Teatro União Faialense, não em 2007 mas no ano de 1897. Aqueles aplausos quentes para a jovem violinista aconteciam no século XIX e não no XXI. Esta ilusão era fácil de explicar. Tinha acabado momentos antes a apresentação do livro «A Horta Antiga» de Carlos Silveira. Uma espécie de fotobiografia da mais bela pequena cidade do Mundo.

De repente era como se estivéssemos dentro do romance «Mau tempo no canal» de Vitorino Nemésio com João Garcia em recruta no quartel da Junqueira e com quarto alugado no Bairro Alto por cima da capelista da Rua da Rosa, esperando carta de Margarida e Margarida a conversar na amurada do Lima com um dos Serpas sobre a famosa linha de backs do Fayal Sport Club que passava as tardes de domingo jogando intermináveis partidas de futebol com o Angústias ou com o Sporting Club da Horta no Relvão da Doca.

A pianista que me possa perdoar, mas eu só dava atenção à menina-mulher do violino e à mulher-menina dos ramos de flores.

José do Carmo Francisco

7 thoughts on “A pianista que me possa perdoar”

  1. Ignorância atrevida… João Garcia é o herói do romance «Mau tempo no canal». Não brinque com coisas sérias, não confunda literatuta com peixe podre de Sesimbra.

  2. Zé do Carmo,

    Eu não moralizaria. E sobretudo rejubilaria por brincar-se com coisas sérias.

    De resto, o que será… sério, aqui? «Mau Tempo no Canal» é um romance bastante modesto, embora célebre.

  3. Bom conselho do Fernando, como sempre.

    Não sei porquê, ando há já algum tempo com a impressão de que o Sr. Francisco crê do fundo do seu coração que da Literatura fazem parte todos os livros que se escrevem, mesmo os de ficção.

    Se estiver certo na minha suspeita, então não será só em Sesimbra que teremos esse problema de peixe estragado…

  4. Um gajo já não se pode chamar João Garcia?

    Quanto preconceito, até vão buscar peixe podre e ciganos. Porque será?

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