Sr. Ministro, leia aqui no Aspirina

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O ministro, a Ota ou como o autismo só pode criar suspeições

Público, 25.05.2007
José Manuel Fernandes

O ministro das Obras Públicas passou da teimosia ao autismo e deste a uma tão desastrada cegueira que, com toda a frontalidade, é preciso perguntar: a quem interessa este ministro? A quem interessa mesmo que o aeroporto se construa na Ota? Por que motivos a insensatez de tal opção não é explicada numa altura em que já se percebeu que os motivos que levaram a escolher a Ota já não são válidos? É que se não há um argumento racional a favor da Ota, só outras fidelidades, ou interesses desconhecidos, podem explicar uma tal teimosia. Por isso, ou o ministro e o Governo explicam a bondade da Ota, ou a dúvida instalar-se-á na opinião pública. É que se Mário Lino estivesse limitado à capacidade de raciocínio de quem tem um único neurónio, algo que por certo não sucede num engenheiro “a sério” que até está inscrito na Ordem, o que disse seria desculpável. Tendo mais neurónios, por que fez do discurso uma sucessão de atoardas, inverdades, mistificações e disparates?
Como é que um ministro diz que a Margem Sul do Tejo é um “deserto para onde seria necessário deslocar milhões de pessoas”? E como foi possível tentar corrigir agravando o disparate, dizendo que não se referia à Margem Sul, apenas às localizações alternativas propostas para o novo aeroporto?

Para assim falar, ou Mário Lino nunca olhou para um mapa de Portugal, ou vive em Marte. Qualquer das alternativas fica mais perto de Lisboa do que a Ota; qualquer delas é hoje servida por duas ou três auto-estradas já construídas. Há uma linha férrea que passa por lá. Um hospital central mais perto do que haveria na Ota. Indústria por todo o lado. Há portos perto, enquanto para a Ota só se poderia contar com o “famoso” porto de águas profundas de Peniche, hipótese que alguns lunáticos já colocaram. Em suma: qualquer das novas localizações está mais próxima dos milhões de pessoas que deveria servir do que a Ota. Mesmo para quem mora em concelhos a norte do Tejo como Cascais, Sintra ou Oeiras. De resto, se para ter um aeroporto fosse necessário deslocar para as suas proximidades “milhões de pessoas”, então o melhor é deixá-lo onde está, no centro de Lisboa. Mário Lino falou também de um deserto e de sítios “sem gente, sem turismo, sem comércio” quando lhe bastaria, de novo, olhar para o mapa ou abrir o Google Earth para perceber que estava a dizer um disparate. Ou não existissem estudos a defender que, excluindo o impacto ambiental, Rio Frio seria melhor do que a Ota, estudos que estão na Internet mas que Lino disse não existirem…

Não contente, interrogou-se sobre se a engenharia portuguesa teria alguma dificuldade em resolver o problema de “um aterrozinho num mundo onde se constroem aeroportos no mar”. Sucede que o tal aterrozito implicará a movimentação do equivalente a uma coluna de terra com as dimensões de um campo de futebol e 10 quilómetros de altura. Faz-se, mas só com muito dinheiro. Ou, por outras palavras, dando muito dinheiro a ganhar a muita gente. Em Portugal sabe-se o que isto costuma significar.

Mário Lino quer ainda construir uma nova central ferroviária em Chelas. Caríssima, como está bem de ver. E quer levar o TGV por viadutos e túneis até à Ota, outra obra faraónica e propícia a megaconcursos e monumentais derrapagens financeiras.

A pérola final foi considerar que escolher aquelas localizações seria como construir “uma Brasília no Norte do Alentejo”. Norte do Alentejo? O nosso engenheiro “a sério” já esqueceu a instrução primária, pois lá terá aprendido que os lugares em discussão ainda ficam na Estremadura, e nunca deve ter olhado para os mapas das regiões-plano, pois situam-se na que é conhecida por “Lisboa e Vale do Tejo”.

É caso para perguntar se o ministro sequer leu os dossiers…

José Manuel Fernandes

11 thoughts on “Sr. Ministro, leia aqui no Aspirina”

  1. O Almeida Santos a falar do perigo das pontes sobre o Tejo serem alvo de atentados terroristas também esteve bem…
    nada disto é sério

  2. Título e correspondente artigo em GRANDE destaque no portal do SAPO, hoje, 25, às 9h30 da manhã

    PS recupera maioria confortável (retirado do DN)
    quem sabe, sabe

  3. O projecto da Ota pode ser uma burrice. Ou não.
    O ministro pode ter ultrapassado o prazo de validade. Talvez.
    Mas o JMF acorda todos os dias com o espectro do DN no espelho. É que o Belmiro não brinca em serviço, e os tempos do alegre maoísmo já lá vão.
    Tento na bola e bons editoriais, pois.

  4. Vai aqui o essencial da posição da Sininho, no link acima:

    Podemos ser OTÁrios?

    Pensava eu que fazer uns comentários num blogue não me obrigaria a pensar. Enganei-me! Sou uma preguiçosa e prefiro ter a papinha feita. Neste caso acho que vou ter que me esforçar um bocadinho (mas só um bocadinho…).
    Primeiro e antes de mais, (peço desculpa…) confundi Rio Tinto com Rio Frio (não era, portanto, tinto mas branco) o que me induziu em erro num comentário que fiz: “Para Rio Tinto não vou! Porque não é uma alternativa. É um outro aeroporto necessário para responder às necessidades da zona centro.”
    Assim e voltando à melhor localização sobre um aeroporto para Lisboa.

    O avião é, por excelência, o melhor meio de transporte físico para vencer longas distâncias. Aquilo que, há um século a trás, era um fenómeno de elite – viajar de avião – tornou-se aos poucos acessível a todos. A todos os Zé Povinhos do mundo! Cada vez mais, não vão faltar Concorde’s a todos os preços. Por sinal vem aí um a caminho – o AIRBUS A350.

    Portugal, o país mais a ocidente da Europa, tem uma localização que lhe pode conferir a função de “última escala” em voos intercontinentais entre Europa e a América. Pessoalmente, prefiro que essa escala aconteça aqui e não nas Lajes, Açores.
    E porquê?
    Somos um país de vertente turística, por excelência. Neste tema, em que temos muito para andar, evoluir, é do nosso maior interesse termos, no Continente, um aeroporto internacional com plataforma e dimensão fuTURÍSTICA!

    Assim a localização deste aeroporto não trata só de resolver e facilitar este meio de viação aos lisboetas. Actualmente temos 3 aeroportos internacionais que servem o Norte, o Centro e o Sul, a saber que o da Portela está mais para Sul do que, propriamente ao centro do país. E quanto mais para Sul for pior, porque menos serve o centro (Py, não sei se isto já explica o Nascente ou se ainda precisa de mais argumentação?).

    A localização de um aeroporto tem ainda que responder com a melhor das acessibilidades: metro, comboio (TGV), estradas… vias de comunicação, muitas e boas!
    O Tejo, o nosso querido mar da palha, é uma barreira complicada. Implica uma ponte, mais uma!
    Ora, nós conseguimos, a muito custo uma segunda ponte que não escoa todo o movimento existente entre as duas margens deste braço de água.

    Que fazer? Podemos ser OTÁrios?
    Porque não!?
    Porque será que temos que ser sempre pessimistas?
    Porque há vento, porque o cone de aterragem, porque os prédios, blá, blá, blá…
    Com tanto Aeroporto espalhado por este mundo fora, em climas muito mais agrestes do que o nosso, próximos de cidades cuja a volumetria ultrapassa a de Lisboa em 10 vezes mais (quanto mais as cidades e lugarejos que envolvem a OTA…)

    É muito caro!? Ah! Qualquer um será, mas tem que acontecer se queremos andar para a frente!

  5. Independentemente da direcção dos ventos, e de não ser aceitável Lisboa ter um aeroporto dentro da cidade, gostaria de deixar duas perguntas.
    A quem pertencem os terrenos em torno da OTA? Primeira pergunta.
    Segunda pergunta, com introdução retirada de um boletim do ICEP:
    “Área do aeroporto de Lisboa vale 965 milhões de euros. Dos 640 hectares de terrenos da Portela, cerca de 60 por cento serão comercializáveis quando a infraestrutura encerrar, em 2017, calcula o departamento de “research” do BES.”
    Quem está na corrida? O António Costa para criar ali um pulmão verde?!
    Alguém que investigue, porra!

  6. Ana
    Primeira pergunta: Não sei, assim como não sei a quem pertencem os terrenos em Rio Frio. Quando souberes escreve aqui, sim? Catita.
    Segunda pergunta: São tantos hectares que a corrida deve chegar para muitos. Também deve chegar para ser pulmão verde…aliás ‘multicolor’ com muito cimento à mistura.
    O António Costa!? Já ganhou, foi? Ena..!
    Se, por acaso, investigares, escreve aqui porra!

  7. Porque nunca mais se falou na opinião dos pilotos…tanto quanto me recordo a opinião é desfavoravel…será que só ministro e o autista (será que vou preso??) do primeiro ainda não perceberam que não vai ter aeroporto na ota??? Senhor Presidente está na hora de colocar na ordem este desgoverno por menos o Sampaio mandou o outro embora.

  8. Ó Anónimo, esse apelo ao Senhor Presidente faz-me lembrar os desgraçados do Titanic.
    E se me não engano já encontrei este mesmo relambório militante noutras caixas de comentários.
    É preciso não ter vergonha na cara, para vir aqui comparar o ‘governo’ do Santana Lopes com o actual.
    Em que eu, sublinho, não votei.

  9. Querido Anónimo das 10:09 PM,
    Querido Anónimo das 11:57 PM,

    Tocante, de fazer aflorar as lágrimas, essa vossa conversa. Só há um contra. Falta-vos, a um e a outro, um rostozinho, um esfumado perfil, que digo eu, uma pontinha de nariz.

    Sois fantasmas. Com fantasmas falais. Enternece, insisto. Mas que fazer com uma parva ternura?

  10. Mas então Sininho, já estou baralhado: não tínhamos concluído que o melhor era a Norte do Tejo, para evitar outra ponte, e ainda facilitar o acesso a Coimbra? E portanto Rio Frio ou por aí, era o melhor….

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