Primeiros amores

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O primeiro grande romance gay da nossa literatura, acabou por escrevê-lo Eduardo Pitta.

Poderíamos tê-lo desejado de Guilherme de Melo, autor de Ainda havia sol (1984) e O que houver de morrer (1989). Ou esperado de João Aguiar, que com Navegador solitário (1996) pareceu aproximar-se da proeza. Ou aguardado de Frederico Lourenço, cuja trilogia iniciada com Pode um desejo imenso (2002) veio pôr a razoável nível a fasquia.

Poderiam tê-lo ousado grandes contistas como Mário Cláudio, que escreveu «Il Signore Inglese», em Itinerários (1993). Ou José Lourido, autor do fabuloso e desconhecido «A absurda eficácia da matemática», em O príncipe que se transformou em sapo (1993). Ou Possidónio Cachapa, autor do não menos fabuloso e felizmente algo mais conhecido O nylon da minha aldeia (1997). Ou Miguel Vale de Almeida, com as excelentes narrativas de Quebrar em caso de emergência (2001).

Mas não. Haveria de ser Eduardo Pitta, com esta Cidade proibida, acabada de sair na Quid Novi. Do contista de Persona (2000, agora reeditado na mesma casa) poderia já esperar-se a façanha. Mas as grandes obras são sempre uma surpresa.

O livro é um must. E não só pela temática (sempre curiosa, mas nunca garantia de qualidade), como sobretudo pela valente respiração de que o relato se toma. Os lugares, as épocas, os ambientes, tudo rodopia com nitidez, com embalo, com vertigem (só aqui e ali excessiva para a concentração comum, como a deste leitor), criando sabiamente expectativas, conferindo colorido a personagens e brilho a episódios.

Assinale-se a crua limpidez do vocabulário erótico. Assinale-se, também, a abrupta e bem gerida inclusão, em existências queque, do elemento bas fonds.

Lamente-se, sim, a frívola atracção das etiquetas, a obsessiva pose dos livros, da música, dos vinhos, das iguarias, da hotelaria, dos diplomas, que roça a obscenidade na descrição dum jantar volante, quase a meio do livro. O leitor verá. E tentará perceber porque é que – banal exemplo – haverão uns sneakers de ser tão fatalmente Louis Vuitton.

Ninguém morre. Ninguém fica com ninguém. E os primeiros amores, mesmo se proletários, revelam-se, embora definitivamente perdidos, os verdadeiros.

Definitivamente perdidos? A estas alturas do campeonato (perdoe-se o registo), a malta cheira as sequelas. De momento, basta esta Cidade proibida para encher as medidas.

23 thoughts on “Primeiros amores”

  1. esperemos que o romance gay consiga fugir ao género. O Jim Grimsley, por exemplo, é muito bom e não é por ser gay

  2. Mas quem foi “raptado” desta vez para promover este livro? Ou melhor, no caso, atado com algemas cor-de-rosa a uma cama de um hotel cinco estrelas, com água Evian na mesinha de cabeceira…

  3. Outro exemplo regionalíssimo do orgasmo crítico muito prolongado (deve ser da idade, boa ensinadora) com as fantasias do costume alargadas unicamente aos homens da literatura lusitana dos músculos flácidos mas malcriados.

    Porque não sou glutona, deixo o véu da misogenia que se entrevê (estou a ser pesada, discriminação ficaria mais bonito) para ser levantado muito cuidadosamente e sem nervosismos ou precipitações pela amiga Soledade tal e tal, no seu apreciado estilo de pôr as bandejas em pratos limpos, por vezes conducente a excessos de zelo.

    Fosse eu a Sol, exploraria o aspecto da confluência dos planetas e influência das temperaturas dos Maios quentes nos Paises Baixos para explicar o grande bailado, as curvas, contracurvas e usos de atalhos e desvios por carambola que o Crítico foi obrigado a fazer para agradar a tanta e tanta gente escribomaníaca …. do mesmo sexo. Que é o sexo dele, o do nosso Fero Nando..

  4. py:
    Foi bom trazer aqui esse grande senhor e grande nome da Literatura Portuguesa para a Infância e Juventude (e também poeta), Adolfo Simões Muller.
    Recebi dele muita amizade e estímulo ao dar os meus primeiros passos na escrita. Ouvi, de viva voz, muitas das suas “memórias”. Mas não esta, tão pormenorizada, da sua luta pelo seu adorado Tintim.
    Simões Muller um nome injustamente caluniado por anos idos, mas muito premiado – mesmo depois do 25 de Abril…A minha saudade.

  5. Delícia das delícias! O JCF, mesmo com falta de cabelo e em mangas de camisa, lá conseguiu equilibrar-se nas recoveiras para vir largar um parguito do alto muito vivo nas nossas bicas! Mas não disse nada sobre a posta do nosso Fernando.

    Olha que malandreco de poucas palavras que só gosta é que falem dele!

  6. Delícia das delícias! O JCF, mesmo com falta de cabelo e em mangas de camisa, lá conseguiu equilibrar-se nas recoveiras para vir largar um parguito do alto muito vivo nas nossas bicas! Mas não disse nada sobre a posta do nosso Fernando.

    Olha que malandreco de poucas palavras que só gosta é que falem dele!

  7. Era o que faltava… Escrevo em jornais e revistas desde 1978 e nunca escrevi nada sobre livros que ainda não li. Não sou dos que copiam as coisas das badanas. Ora essa…

  8. Tem graça…
    Dos romances gay citados, para mim, o que gostei mais foi o Pode um desejo imenso do Frederico Lourenço. Só lamento por aqueles que agora só têm acesso ao romance compilado e na ordem que saiu na compilação. Acho que faz mais sentido ler na ordem em que foram lançados.
    O que me motivou ler o Pode um desejo Imenso foi justamente um crítica que deveria ser negativa, mas não o foi (ao menos para mim), e nem me lembro de quem foi: “é um romance gay que não parece gay”. Acabou me deixando interessadíssima.
    Fui ler e adorei.
    O tema foi tratado com elegância e, acima de tudo, naturalidade.
    Coisa que não vemos noutras literaturas gay, ao contrário de outros autores que parecem que só nos faltam esfregarnas nossas caras até nos arrancar sangue do nariz, páginas do livro onde nas entrelinhas se lê “sou gay, sou gay, sou gay”.

    E o fim do Pode um desejo Imenso deixou-me mesmo em estado de graça, leve e feliz.
    Aquela beleza de se estar em paz apesar dos pesares.
    E a homossexualidade é para ser tratada assim: com naturalidade.

    Também gosto do Pitta, acho-o muito bom.
    Mas a elegância da escrita do Lourenço emociona-me mais.

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