Confissões, VI, 3

lembrete.jpg

Contrariamente ao que dizia Ruy Belo (e ao que ainda hoje afirmam alguns autarcas), o verdadeiro problema não é o da habitação, mas o de saber respirar. Se Santo Agostinho gabava Santo Ambrósio por este conseguir ler como quem respira («Quando ele lia, os seus olhos esquadrinhavam a página e o coração procurava o sentido, mas a sua voz mantinha-se em silêncio e os lábios e a língua não se moviam»), eu gabo os que respiram como quem lê, isto é, todos aqueles cujo coração jamais se cansa de procurar. O problema da respiração é uma inquietação que herdei do meu pai, que teve de aprender a respirar uma língua nova, quando emigrou para França, aos 48 anos. Foi aprendendo aos poucos, com a necessária dificuldade, a entender de forma pragmática a maioria dos enunciados. De vez em quando, sobretudo quando estava a ver televisão, perguntava a mim ou aos meus irmãos o significado de uma palavra desconhecida. Ele não queria traduções ou perífrases aborrecidas, mas a palavra portuguesa exacta que, na sua ingenuidade, correspondesse à do idioma proibido. Depois, pedia-me para escrever pequenos lembretes que ia acumulando nos bolsos no meio das moedas e dos maços de tabaco. Ele nunca se preocupava em repetir em voz alta as palavras novas que aprendia e há já alguns anos que me assombro com o facto de nunca o ter ouvido dizer uma única palavra em Francês. Quando eu tinha dez anos, chegou a minha vez de aprender a respirar esse «infinito que nos acena de além do mar», de que falava Vergílio Ferreira. Com a minha língua materna, adquiri uma respiração tensa e sôfrega com a qual, malgré moi, ainda hoje me identifico. Com o Português, aprendi a compreender melhor o pudor do meu pai: não é impunemente que se aprende a inspirar a vossa língua e a sentir nos pulmões, em plano suavemente inclinado, a vertigem do mar. Se gosto tanto do Português, não é apenas por essa língua não ser minha, mas por nessa distância lá caber toda a tristeza de me saber de nenhum lugar. O meu corpo é uma desgraça: inspiro frases de um Português límpido e cheio de maresia para depois expirar uma língua tosca na qual nem sequer me será permitido um dia naufragar. Sonho muito com isso, sabem. Respirar água, para depois, finalmente, abrir os braços os pulmões a boca. E conseguir falar.

35 thoughts on “Confissões, VI, 3”

  1. Belíssimo naufrágio. Vou já atirar-me ao mar. Hei-de dar, também, um grande escritor. Em sardo. Em berbere. Em francês. Logo se vê.

  2. Está muito bonito, sim, parabéns. Deixa estar, se és de nenhum lugar, também és de todos, ou dos que escolheres, o que dá muito jeito em tempos de globalização.

    O Valupi tem lá um celacanto, donde se vê umas protopatas a sair das guelras, então fiquei a saber que os nossos braços são extensões dos pulmões imagina, até fiquei a nadar melhor

  3. Outro como esse, e lá vai a Susasna entrar em orgasmo. Eu tive três, um agarrada à gatinha e dois à gaivota.

  4. …”conseguir falar” e conseguir escrever, acrescento eu. “Pedaços da Vida de João Pedro da Costa” ? A realidade e a poesia, mais uma vez, deram as mãos. Gostei de o ler.

  5. Desculpem lá meter-me onde não sou chamada (ou talvez não). Mas a troca de comentários entre a Nina e a Susana (que iniciou a sua apreciação tão bem!), demonstram a existência de problemas de ordem sexual muito, mas muitíssimo graves e mal resolvidos! Já experimentaram consultar um sexólogo?
    Essa de que “a expressão é livre”, de que “quem não quiser, não leia”, de que “quem não quiser, não veja”, “democracia” e mais “liberdade”, nestes casos, escapa-me completamente…
    Sobre um belo texto é só isso que La Tosca tem a dizer!? É preciso ser muito tosca, realmente…
    O pior, é que nas parafílias, Susana, entra a pedofilia…Um desvio socialmente aberrante, por horrível, asqueroso, nojento.
    É claro que não sei se se conhecem…Mas quem se esconde atrás de um pseudónimo e atira sem pudor comentários assim, não pensa que pode incomodar os menos habituados a este género de palavriado. Aliás, esta “modernidade na liberdade de expressão”, não é a primeira vez que dou por ela em comentários, aqui, no “Aspirina B”.
    Lembro-me de FV escrever uma vez mais ou menos isto (perdão, se as palavras não são as mesmas): “Nesta casa todos podem deixar os seus comentários livremente escritos sobre a mesa”.
    Para mim, todavia, uma coisa é a sátira, a brejeirice, o humor malicioso, uma palavra mais “pesada”. Outra coisa são as “directas”, como estas, que me obrigam (passe a obrigação) a fazer este comentário.

  6. Acrescento que FV escreveu
    ainda: “Só são retirados comentários considerados ofensivos”. Aqui fica o resto do escrito…

  7. J(f)CP
    Dia magistral, para ti: depois de soltares uma posta destas levas o campeonato!
    O azul está na ordem do dia ; )

  8. soledade, não conheço o/a tosca nina. não vejo como a minha resposta ao comentário da criatura possa ser considerado ofensivo. obviamente, ironizei, e referi-me especificamente às parafilias passíveis de serem extrapoladas do seu comentário. evidentemente, também, estava a reagir a uma ofensa. ninguém meu amigo me dirigiria um comentário jocoso daquele calibre, pode ter a certeza.

  9. (entretanto fui interrompida naquilo que ia escrever a seguir e a minha irmã já respondeu à Soledade, mas de qualquer forma aqui fica:)

    Soledade, pode ter sido apenas impressão minha – pelos vistos a minha irmã ficou com a mesma impressão – que estaria a meter no mesmo saco a Susana e a “tosca nina”, aliás isso é visível quando diz “já experimentaram consultar um psicólogo”, uma pergunta dirigida a um plural.

    Ora a Susana é tudo menos anónima, ou então anónimos somos todos. Para além de comentadora aqui no Aspirina, foi durante muito tempo blogger no Afixe e, juntamente comigo, está à frente de um dos melhores blogs colectivos portugueses.

    A minha irmã limitou-se a responder a um insulto de muito mau gosto e não me parece que mereça ser tratada assim tudo ao molho. Se a insultassem a si, Soledade e a Soledade respondesse, acharia justo que a seguir alguém a mandasse a si também para o psicólogo?

    Melhores cumprimentos e desculpa, João, mas tu sabes que eu se atacam a minha mana vejo tudo vermelho à frente…:)

  10. Pois é, Catarina, e com toda a razão… mas hoje vais ter que gramar 360º de azul . E eu também! Que sempre é melhor que vermelho, diga-se.
    (e agora reparei… La Tosca Ninfa estava a falar de uma Sus-asna e não da Susana. Boa!)

  11. Acabo agora de regressar da Avenida dos Aliados onde a festa continua muito rija e bonita. O Porto campeão: quem diria?

    Sobre o comentário da La Tosca Ninfa, este é um daqueles casos em que o comentário fala por si. A Susana esteve muito bem e até respondeu com o sentido de humor que gostaria de ter encontrado antes – mas volto a dizer: o comentário fala por si. Nem vale a pena perder tempo com isto. A não ser dar a liberdade à essa Tosca de mostrar com grande eloquência a dimensão subterrânea do seu nível.

    Catarina: :)

  12. Tu és pelo menos de um lugar. E não me refiro à mercearia. É o objecto da cardiologia. É por aí que a gente respira.

  13. “Não vale a pena perder tempo com isto”, comenta o João Pedro da Costa. Pois não. Mas às vezes é preciso.
    Releiam o meu comentário. Nele não aparece a palavra “ofensivo” no que se refere à resposta da Susana dada à “tosca”. Dizes tu, Susana: “…estava a reagir a uma ofensa, ninguém meu amigo me dirigiria um comentário jocoso daquele calibre, pode ter a certeza.”. Acredito. Mas repara na primeira parte do teu comentário: “la tosca, agradeço o teu bom agoiro…”. Brando, muito brando. E terminas parecendo, até, pactuar com a “brincadeira”: “…mas não te invejo as parafílias”. Por isso é que julguei que se conheciam. Lamento.
    Logo após a “ofensa” de que falas é que tu e a Catarina deviam ter reagido. Afinal, quem reagiu fui eu e passo por má da fita!?
    Há uns tempos atrás o José do Carmo Francisco pôs um comentarista “na ordem” por muito menos e apenas com uma linha na resposta que deu.
    Diz a Catarina: “A minha irmã limitou-se a responder a um insulto de muito mau gosto”. De que maneira, pergunto eu? Com as palavras que cito acima? Não me parece…
    Também não ponho em dúvida o vosso valor como bloguistas. Já tive a oportunidade de escrever por aqui que “a Susana era inteligente”. Quem me dera ter uma irmã assim! Sou (fui) filha única.

    sininho: escreves: “…e com toda a razão…”. Achas, então? Fico desiludida.

  14. Isto é apenas HTML!? Caramba, não sabia!
    Não te pedi para meteres ninguém na ordem, ou pedi? (E não te sabia tão crente…).Ponto final, oky?

  15. O.K.
    Não fiques desiludida.
    O eventual problema dos “diálogos comentados” é nem sempre interpretarmos o que cada um quis dizer com a intenção que foi escrita. Tal como acontece no quotidiano.
    E há atalhos que tomamos convencidos de serem os melhores e eficazes, no fim, zás! Não somos bem sucedidos. Pelo menos, na mente de alguns!
    Mas o que importa? Importa que aquilo que fazemos, dizemos, pensamos, escrevemos, seja feito de coração.
    E, por aqui, vamos aprendendo a respirar a nossa língua com sabor a mar.

  16. Oky III
    sininho, quase me arrependo de ter chamado inteligente à Susana e de gostar tanto do texto do João Pedro da Costa. Além de lhe ter oferecido papoilas, searas e cerejas…Quanto a ti, a simpatia sensata das tuas palavras fizeram dissipar a minha desilusão…

  17. O.K. novamente, Soledade.
    Não te arrependas.
    Para além de inteligente (já tiveste provas noutras postas e terás outras tantas, com o passar dos comentários) ela é a minha primeira cyberamiga.
    Quando se oferecem papoilas, searas e cerejas tem que ser à borla, ou seja, de coração.

  18. soledade, ainda bem que é só quase. :)

    quanto a isto, com o tempo vai ver que a melhor resposta para a desfaçatez e o impropério é, ainda assim, o registo lúdico. não vale a pena chatearmo-nos com a falta de educação de quem não tem mais com que se entreter, senão um lugar de recreio e partilha pode tornar-se um verdadeiro inferno. a falta de respeito com desprezo se retribui.

  19. Cá está um bom exemplo, Soledade, da fluidez de escrita da Susana. Claro e límpido como a água do mar ; )
    Entretanto, não te agradeci as iguarias que me deixaste no “Desarrolhar o mês que já veio e ainda não se foi”. Obrigada.
    (Py, cá está ela à tua espera! Por favor, não falhes, que esta também entra na nossa linguística)

  20. … pois, já estava à coca Sininho! é irresistível, confesso, 33 cerejas à espera.

    Bem, ainda bem que já ficaram todas amigas outra vez.

    Amanhã vou bazar uns diazitos. Quando é assim tento esquecer-me da internet para fazer férias.

  21. “Há uns tempos atrás o José do Carmo Francisco pôs um comentarista “na ordem” por muito menos e apenas com uma linha na resposta que deu”.

    Deve ter sido o respeito que todos temos aos árbitros que acodem pelo Sporting!

    Sol, do me a favour: Shut up!

    Py,

    Não te esqueça de levares as obras completas do Hergé para dares algum descanso aos interruptores dos neurónios confusos!

  22. Tu simpático, La Tosca, pensava que ias dizer ‘fundidos’ o que trazia o sabor a mirtilo da irreversibilidade. Gosto muito de cerejas mas também de myrtilos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.