Abram alas, que o Daniel Jonas tem um novo livro de poesia. Após a edição do belíssimo Os Fantasmas Inquilinos (Cotovia, 2005) e da sua magnífica tradução de Paradise Lost de John Milton (Cotovia, 2006), o Daniel está de regresso com um livro que promete surpreender até os seus leitores mais suspeitos, categoria na qual me incluo com grande euforia. Se uma das características mais notáveis do autor de Moça Formosa, Lençóis de Veludo (Cadernos do Campo Alegre, 2002) era o seu perturbador domínio do poema na sua forma extensa, Sonótono (Cotovia, 2007) surpreende por ser integralmente constituído por 50 sonetos (todos originais, exceptuando a tradução do soneto 17 de Milton). Menos surpreendente, para o leitor assíduo de Daniel, será a componente auto-refencial ou metapoética de quase todos estes poemas. Ao lê-los, fiquei com uma visão do formato dos quatorze versos em tudo comparável com a que Jonas deve ter tido do corpo da baleia. Até os elementos mais intrínsecos da escrita do soneto (como a métrica, a rima, a pontuação, a cesura ou o encavalgamento) surgem nestes poemas sobretudo como mecanismos de análise ou dissecação das potencialidades do formato: não é a escrita que se traveste de soneto, é o próprio soneto que surge despido pela acção da escrita. Num autor que sempre se caracterizou por uma ímpar inventividade lexical e por uma fala árida (não é por acaso que, a páginas tantas, surge o nome de Luís Miguel Nava), Sonótono consegue, ainda assim, ser o seu livro mais difícil e fascinante. Mas apenas será feliz o leitor que, a este livro, aplicar todos os princípios necessários à da visão dos estereogramas.
BENGALEIRO OU HORACIANAS
Físico o tractor quente arremessou
Contra as colheitas de ouro o breu de corvos
Trazendo a noite em ondas de onde andou
De foice afoita, a luz sugando a sorvos.
Modorrento, o vapor da chaminé,
Máquina de fazer nuvens, levando
Ondinas ao empíreo mar, rapé
Da paz entre titãs que ordenhando
Alheias colinas se houvessem mais
Desavindo. Van Gogh ou Fabergé:
Ovos de palha, gemas siderais
Chocados em estrelado canapé.
Entrar nesta pintura eu queria
Se à entrada não pedissem a poesia.
(in Daniel Jonas, Sonótono, Cotovia, 2007)
este jonas sempre foi um bocado dadaísta, não é? o gajo é bom. convenceste-me: vou-te pedir emprestados os livros dele! :D
Escrevi um texto com base num ensaio dele: “John Ashbery: O Papel Convexo”.
Excelente sugestão para o meu cabaz da Feira.
quando começa a feira?
(já começou)
(tch, ando tão fora do mundo…)
Mas é um grande poeta ou é apenas alto ? :-)
Esses gajos do Pen andam sempre de dúvidas a tiracolo …