A terceira solidão de Miguel Garcia

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O herói de Alkmaar foi desterrado para Reggio Calabria. Houve quem lhe chamasse o leão de Alkmaar. Para outros, Miguel Garcia foi o herói de Alkmaar. Foi ele que no minuto 120 do jogo entre o AZ Alkmar e o Sporting marcou um golo inesperado, insólito e mágico e colocou a sua equipa na final de Taça UEFA. Por esse golo morreu o jornalista Jorge Perestrelo, com o coração despedaçado pela alegria multiplicada nas ondas da TSF.

Nunca uma derrota tinha sabido tão bem. Perder por 3-2 fora suficiente para festejar a passagem à final de uma Taça Europeia. Soube hoje que este alentejano discreto acabou desterrado para a ponta da bota italiana – Reggio Calabria. Depois da solidão no Entroncamento em 1999, depois da solidão de 2006 na selecção de esperanças, esta é a terceira solidão de Miguel Garcia. Foi como se uma borracha gigante apagasse um percurso límpido desde os primeiros tempos do Atlético de Moura, quando o tímido Iniciado do Sporting estranhava a vida turbulenta de Lisboa e só andava de Metro na companhia segura do colega Valdir.

De repente Miguel Garcia aparece substituído por um obscuro suplente no Sporting de Braga. Até Pinto da Costa (honra lhe seja feita) se referiu ao modo miserável como a imprensa desportiva fez o branqueamento da grande penalidade cometida por Simão Sabrosa sobre Miguel Garcia no recente Sporting-Benfica. Foi castigado como se a culpa fosse dele. Sofreu uma falta grave que o árbitro não assinalou e foi afastado como se fosse sua a culpa da derrota.

O herói de Alkmar leva nos olhos para o Sul de Itália a música triste da sua campina, onde as máquinas substituem os ceifeiros e quem passa nas estradas vê nas casas dos cantoneiros a apoteose da solidão.

José do Carmo Francisco

16 thoughts on “A terceira solidão de Miguel Garcia”

  1. “Por esse golo morreu o jornalista Jorge Perestrelo, com o coração despedaçado pela alegria multiplicada nas ondas da TSF”.

    Lembro-me do relato desse golo, mas nem por isso deixa de ser absurda a frase supra citada.

  2. Eu dantas julgava – inocente que sou – que os radialistas desportivos eram imparciais. Hoje sei que o universo não é perfeito. Mas concedo que a maioria disfarça bem.

    Agora chegarem ao ponto de morrer de alegria por um golo do clube de que, civilmente, são adeptos! E contar-se-nos isso, aqui, com este transporte sentimental!

    É lirismo a mais.

  3. O Jorge Perestrelo era um notório e notável benfiquista. Contudo, isso não se fazia sentir (muito, ou só lateralmente) nos relatos. Acima de tudo, ele era um apaixonado pela festa (e pela festa da comida, a festa das mulheres, a festa dos amigos).

    Claro que, ligar a sua morte com o relato desse último jogo, é exercício no fio da navalha, ou mesmo tendo já a navalha espetada. Mas terá alguma legitimidade, como hipótese relativa às circunstâncias, nunca à causa – como é óbvio.

  4. Compreendo, Valupi. E isto só abona a recordação do homem.

    Resta um pormenor, esse, teu. Chamas «óbvio» a não poder ter ele, como benfiquista, morrido de um entusiasmo sportinguista?

    Não é questão alçapoada. Eu só desejo perceber essas coisas da paixão clubística, que me são de todo alheias.

  5. Caro Fernando, o óbvio diz apenas respeito à dimensão clínica, medicinal. Isso de se pretender estabelecer uma causalidade entre o golo e a morte. Não se pode.

    Quanto à paixão clubística, é fenómeno de fácil explicação, se o virmos do ponto de vista antropológico. Somos os seres da identidade, passamos o tempo ocupados connosco, estamos na intendência da memória. Logo, o clube permite uma actualização do eterno em nós: a nossa origem. Não é coisa diferente de qualquer outro simbolismo fundador da identidade, como o da pátria ou das filiações intelectuais, etc.

  6. Não é preciso perceber de Medicina; basta conhecer a Cronologia. Para mim há uma relação causa-efeito entre os dois factos: o golo e a morte. Mas aceito que outros pensem de modo diferente. Quem foi a Alkmaar sabe isso e disse-me; eu fiquei em Lisboa. Os outros viram; eu senti.

  7. A cronologia? Qual? A de uma vida de excessos emocionais, de saúde maltratada, de acaso fatídico?

    Haja mais pudor.

  8. afinal de quem se fala? do jogador o do comentador? do jogador nao é preciso, basta ver de onde vem,dum Pais chamado Alentejo,que até os Deuses esqueceram,e que um ministro acaba de confirmar que nao passa de um deserto,se esse jogador estive-se na margem norte do tejo!!!!!!mas na margem sul!!!que miséria,que tristesa……

  9. Miguel Garcia carrega consigo a herança da terra de onde vem. É do Alentejo. É de Moura e isso nota-se. Sai do Sporting da mesma forma como entrou – sem se dar por ele, quase de “pantufas”, como se pedisse desculpa por existir. Ficou à espera que alguém lhe propusesse continuar, mesmo salvaguardando o seu futuro em Itália. E recebeu em troca aquilo que os alentejanos sempre recebem do nosso país – indiferença.

    Neste dia 5 de Maio de 2005, em que fiz 32 anos, Miguel Garcia foi o herói acidental ao marcar, num último estertor, o golo…da derrota. Da tangencial derrota que permitiu-me festejar algo que nunca pensei – uma derrota do meu clube.
    Logo após a euforia do momento, a vida continuou para Miguel Garcia como sempre. Com trabalho, esforço, honestidade e muita humildade. Com simplicidade.
    Com a mesma simplicidade com que se faz uma sopa ou uma açorda lá do sítio de onde ele veio. Mas também com o mesmo sabor, o sabor da autenticidade, e a quem eu apenas posso retribuir de uma forma (aquela que eu gostaria que tivesse sido a do meu clube) – com o sentimento profundo da gratidão!

  10. O Miguel Garcia é um jogador mediano; e até, como sói dizer-se, muito mediano. Para um Sporting campeão e europeu, faltava-lhe brilho e eficácia. Não deixa saudades profissionais, só algumas boas recordações.

  11. Caro Valupi,
    Concordo que o Miguel Garcia seja um jogador mediano, mas só o firmamento se pode gabar de contar só com estrelas e a história do futebol também é feita por jogadores medianos. Basta repararmos que o jogador que lhe ganhou o lugar pouco menos mediano será que o Miguel Garcia…
    Saudades profissionais deixam-me todos aqueles que cumprem a sua função, com pouco brilho talvez, mas com seriedade e honestidade, com esforço, dedicação e devoção e que se vão embora sem alaridos, mesmo querendo ficar.
    Parece-me ser o caso do Miguel Garcia.

  12. Caro Nuno,

    Cumprir a função com seriedade e honestidade, com esforço, dedicação e devoção, é ser-se profissional – decorre de se assumir a responsabilidade, de se aceitar o dinheirinho. Não devia ser visto como a excepção.

    É um facto que os jogadores medianos são inevitáveis, não vem daí mal ao mundo. Mas então, e por isso mesmo, eles não são decisivos. O problema de quase todos os laterais do Sporting tem sido a irregularidade – isto é, a falta de talento.

  13. Caro Valupi,
    Pois por serem profissionais, deixam-me saudades…profissionais.

    Concordo que não deviam ser vistos como excepções, mas a dura verdade é que o são. Já não concordo é que se misture a irregularidade com a falta de talento, pois nem sempre é verdade.

    E grande parte dos medianos tem como grande trunfo a sua regularidade. Alguns ainda acabam vendidos para o estrangeiro por uns milhões…

    Além disso, o Miguel Garcia, pelo menos uma vez, foi decisivo. No jogo da foto foi também muito importante. Já não é pouco…

  14. A saida do Miguel, vêm confirmar (mais uma vez) os jogos por detras do jogo, quando o Rogerio se foi para o brasil (jogador incrivelmente empurrado para cima pelos jornais e tv´s) o Miguel ficou sozinho na defensiva direita, pouco depois vêm de Braga, Abel que até antes de ter chegado aos balnearios do SCP, já os diarios desportivos o davam como titular indiscutivel, o resto da epoca continou a ser empurrado para o “estrelato”, para no fim da epoca ser comprado em defenitivo ao Braga só por 120 mil contos….ups, só não, mais a cedencia em defenitivo do wender, que tinha custado cerca de 500mil contos, o que é preciso, é não esquecer que estamos a falar do Abel, defesa direito com 28 anos (na altura), não-internacional, suplente do luis felipe (jogado que na sua passagem pelo SCP tinha perdido a titulariadade para o Miguel) ora contas feitas o braga ganhou cerca de 620 mil contos, dinheiro mais que sufeciente para dar uma ajudinha a subida ao “estrelado” do Abel e permitir todo esse negocio.
    Outros exemplos desse negocios podem ser vistos e acompanhados durante todos os campeonados como é o caso do Caneira-Ronny (reparem na força que todos fazem (SCP e imprensa) para a compra de um jogador pouco melhor que o mediano, ma que tem tido sempre grandes comptractos) como foi os casos do Carlos martins, do Beto ou do Custodio, há sempre umas forças mais poderosas com interesses bem defenidos.
    Enfim….

  15. Quando faltava o lateral direito, lá estava o Miguel Garcia; quando era o central, lá estava o Miguel Garcia. Pois é serviu para tapar os buracos e depois fizeram-he isto. Continuo a achar que o Miguel Garcia é um grande jogador e espero que tenha muito sucesso profissional.

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