Camilo Pessanha

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A propósito do último post do meu primo Valupi (e de um comentário muito pertinente da sininho), veio-me à memória uma boleia que apanhei há muitos anos de um colega de trabalho. Eu tinha entrado para a empresa há muito pouco tempo com apenas dezassete anitos: era um jovem muito tímido que, para além de apenas vir a perder a virgindade na semana seguinte, possuía gostos muito duvidosos em matéria tão diversa e essencial como a música, a literatura, o cinema e o vestuário. O Engenheiro que me deu a boleia chamava-se Eurico e estava particularmente bem-disposto, porque aquele era o seu último dia de trabalho nesse antro que era (será que ainda é?) a EFACEC. O Eurico tinha sido seleccionado num concurso internacional para trabalhar no Parlamento Europeu, onde ia ganhar o triplo e trabalhar muito menos – ou, pelo menos, eram estas as expectativas do seu ego inchado. Ao longo da viagem, ele foi-me dizendo essas coisas sempre com uma mão no volante e a outra a tentar tirar um macaco do nariz. Era uma visão que me provocava um misto de repulsa, riso e angústia. Isso durante uns bons vinte minutos, enquanto seguíamos para Gaia: Ah, que engraçado a gente se conhecer logo hoje no meu último dia (dedo no nariz), em Bruxelas parece que as gajas são umas doidas (dedo no nariz), tens um sotaque mesmo esquisito (dedo no nariz). Quando já estávamos a chegar à minha casa, oiço um

– Ai ai!

e uma explosão de sangue salpica o pára-brisas. De tanto furar o dedo no nariz, o Eurico tinha rompido uma veia e estava a sangrar que nem um desalmado. Ele lá encostou o carro a muito custo, sempre com uma das mãos a fazer pressão no nariz (Ó puto! Não tens um lenço, caralho?!), a camisa cheia de sangue, a Rádio Cidade aos berros, aquilo era tudo uma coisa muito aflitiva para mim. Entramos num café, o Eurico foi à casa de banho e de imediato a clientela se interessou pelo caso, devido à quantidade de sangue que tinha nas calças. Lá fui explicando que o meu colega tinha começado a sangrar do nariz quando ia a conduzir e começaram logo a chover os conselhos da praxe (Ele que ponha água, Que vire a cabeça para trás) mais um que jamais irei esquecer até ao fim da minha vida (Ele que coma uma banana). Passado cinco minutos, o Eurico voltou muito pálido com o nariz vermelho e inchado: continuava a esvair-se em sangue numa gloriosa hemoptise de poema final. O dono do café (Que pena não ter aqui uma banana, caramba) lá ligou para as emergências, que tratava dessa merda e que uma ambulância já vinha a caminho. Quando os moços do INEM chegaram, o Eurico já tinha desmaiado e levado bofetadas duas vezes (cada vez que lhe batiam nas bochechas, saía ainda mais sangue do nariz). Os paramédicos perguntaram-me se era familiar (Não? Então não pode ser) e o tipo lá foi sozinho para o Hospital perante o olhar solidário da pequena multidão que se tinha juntado em frente ao café (Ouçam o que vos digo: aquele gajo ainda vai morrer). Nunca mais o vi. Não sei se chegou a fazer um trabalho meritório ou a comer gajas doidas em Bruxelas: apenas vos posso dizer que no outro dia o Fiat já não estava lá. Tinha deixado no café um papel manuscrito dentro de um envelope com o meu nome. Pedia imensas desculpas pela ocorrência da véspera, que agora já estava bem e que agradecia do fundo do coração a minha paciência. Em baixo, havia um boneco com uma banana enfiada no nariz. O desenho era muito giro.

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