O bandalho do Santana fica-se?
Arquivo mensal: Outubro 2013
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A organização pede-nos para divulgar a seguinte informação:
Um colectivo de realizadores anónimos sírios, os confrontos do verão passado no Egipto, os movimentos sociais na Turquia e no Brasil e a lei contra a propaganda gay na Rússia são algumas das realidades abordadas na secção que o Doclisboa estreou no ano passado – “Cinema de Urgência”.
A entrevista que faltava, sem excluir as futuras
Ufa! Com prazer o digo. Finalmente uma entrevista séria, com interesse e informativa. A mediocridade da nossa atual liderança política laranja e dos economistas que os apoiam faz-nos ter saudades de um homem político com conteúdo e interesse. A conversa de José Sócrates com Clara Ferreira Alves hoje transcrita no Expresso é esclarecedora e, já agora, muito boa para esfregar na cara de centenas de ranhosos. É um Sócrates descontraído e liberto dos constrangimentos de um cargo político, que, umas vezes indiretamente pelas palavras da própria entrevistadora, outras em discurso direto e frontal, levanta mais algumas pontas do véu sobre o mais repugnante combate político da nossa história contemporânea, protagonizado por um bando de assaltantes enraivecidos e atiradores sem escrúpulos contra um primeiro-ministro. A reposição de alguns factos através da televisão foi importante, mas não teve o detalhe de uma entrevista a um jornal. São de facto abordados, e com extrema simplicidade desmontados, os mais duros momentos do seu percurso pessoal como primeiro-ministro. Terá alguma vez justificação tamanha agressividade? Pela mão da direita mais abjeta e muitas vezes com a cumplicidade ou o silêncio da esquerda radical, o país alucinou.
A dureza daquele período decorreu de uma situação externa inédita – uma crise financeira que nos apanhou no clube da moeda única -, mas sobretudo dos ataques internos e ad hominem contra Sócrates. Mas o entrevistado não assume o papel de vítima nem é por considerá-lo como tal que aqui exprimo o meu agrado pelas considerações político-filosóficas por ele tecidas e pelos seus esclarecimentos. Evidentemente que tem razões de queixa e, a propósito, chama nomes a algumas criaturas, porque legitimamente o enfurecem. Mas basta ver o estado do país. São totalmente merecidos. De resto, lucidez, convicções, intransigência de princípios e vontade de agir continuam a não lhe faltar. Não compreenderei, cem anos que viva, como pôde o país dar-se ao luxo de dispensar este homem.
Diz-nos que foi um erro ter decidido governar sem maioria naqueles agitados anos que se seguiram ao eclodir da crise financeira internacional. Visto à distância, parece claro. Mas a questão é se poderia não o ter feito. Depois de campanhas e campanhas contra a sua pessoa (incluindo conspirações urdidas em Belém), das quais aliás, passados estes anos, ainda perduram fortes ecos, poderia ter ignorado e desbaratado uma vitória eleitoral? Foi apenas humano não o ter feito. Entretanto revela que a crise das transferências de verbas para a Madeira esteve muito perto de provocar a demissão do Governo (a meu ver, já antes a discussão sobre a carreira docente poderia ter sido um bom motivo para bater com a porta). Não o fez e as circunstâncias inéditas a nível europeu devem tê-lo justificado. Mas se o tivesse feito, ficaria provado para todo o sempre como mentem os aldrabões que a toda a hora o acusam de não ter querido cortar a despesa, de ter mesmo entrado num desvario despesista (dando a entender que eles, sim, queriam cortes, o que é uma rotunda mentira). E ficariam com isso impedidos de mentir como fazem agora apostando na curta memória dos portugueses e concentrando os ofuscantes focos no dramático pedido de ajuda externa. Foi essa a pena. Mas, homem, o combate para evitar esta tragédia em infinitos atos que é a Troika foi teu.
900 anos de maluqueira
A pressão sobre o Tribunal Constitucional, depois de Barroso ter dado fogo à peça, é agora à outrance. Mas caso os juízes cedam, e saberemos se cederam, essa cobardia transformará por completo a situação política em Portugal para alguma coisa que só conhecemos de ler nos livros de História. É que não é possível saber quem é que Passos, Portas e Cavaco representam neste momento, dado que todos traíram radicalmente os seus eleitorados, mas sabemos que aqueles malucos ibéricos que são o sonho da Galiza e a inveja da Catalunha têm perto de 900 anos de irredutível independência.
Se os juízes não cederem, essa valentia será em nosso nome e devemos festejar com quem nos enche o peito de orgulho. No fundo, na política como no amor, o que está em causa é conseguir andar de cabeça erguida e olhar franco por entre iguais.
Grande intervenção de Pedro Marques sobre o OE, ou a “cara do Governo”
Declaração Política OE2014
Pedro Marques, Deputado do PS
Este Orçamento de Estado nasce ferido de morte, porque ferida de morte está a credibilidade da política orçamental deste Governo.
Prometeram consolidação orçamental. Prometeram menos défice e menos dívida. Mas ao contrário do prometido, quais são os resultados que têm para apresentar?
Mais de 5.000 milhões de Euros de sacrifícios perdidos para a recessão! Toda a austeridade de 2013, todo o enorme aumento de impostos, deitado para o caixote do lixo. A depressão provocada pelo choque de expetativas e o corte de rendimentos, anulou , para efeitos orçamentais, todo o resultado dos sacrifícios que o governo pediu aos portugueses.
O défice com que iniciaram o ano de 2013, é assim, nas contas do próprio Governo, exatamente o mesmo que transitará para 2014. Um fortíssimo e repetido desvio de todas as promessas do Governo. 5.000 milhões de austeridade, de aumento de impostos, perdidos para a recessão. Uma dívida pública que não para de subir, com um desvio de 5.000 milhões de Euros e mais 54.000 desempregados, do que nos prometiam há um ano.
Prometeram consolidação, tivemos dor e desilusão!
Mas também ao contrário do que repetiram, aí está um novo e enorme pacote de austeridade para 2014. Quase 4.000 milhões de Euros de novas medidas de austeridade, ao contrário do que foram repetindo aos portugueses. Sempre estes 4.000 milhões de Euros que nos perseguem, que este Governo propôs à Troika inscrever no Memorando na longínqua quinta avaliação. Lembram.se, sras e srs. Deputados?
E qual a via que escolheram? Os cortes de rendimentos de funcionários públicos e de pensionistas. Que como se sabe, para as famílias, é o mesmo que aumentar impostos. Na vida das pessoas, cortar retroativamente os rendimentos é o mesmo que aumentar impostos. Portanto, ao enorme aumento de impostos, acrescentam, sob outra forma, outro enorme aumento de impostos, agora impostos de classe.
E nem a demagogia do Governo que ia fazendo o seu caminho, de que medidas anunciadas à Troika em Maio não são medidas novas nos bolsos dos portugueses, nem essa demagogia encontra respaldo nesta proposta de Orçamento.
Ao contrário do que disseram repetidamente aos portugueses, aí está um impressionante alargamento dos cortes de vencimentos aos funcionários públicos. Não há novas medidas de austeridade? Perguntem às centenas de milhares de funcionários públicos com salários mais baixos, a partir dos 600 Euros, se a sua expetativa era verem agora cortado o seu salário. Perguntem às dezenas e dezenas de milhares de funcionários públicos a quem vão mais do que duplicar o corte de vencimentos, se estavam à espera deste corte?
Perguntem às dezenas de milhares de pensionistas de sobrevivência se esperavam um corte nas suas pensões, para as quais descontaram uma vida inteira os seus falecidos cônjuges. Perguntem aos pensionistas da Caixa Geral de Aposentações se esperavam a diminuição das suas pensões, quando ouviram Passos Coelho dizer em 2011 que cortar o valor das pensões já atribuídas seria o Estado a apropriar-se de algo que não lhe pertence.
Perguntem a estes pensionistas se estão chocados. Se estão chocados com o facto de a palavra do Primeiro-Ministro não ter nenhum valor. Se estão chocados por a linha vermelha de Paulo Portas se ter afinal transformado numa enorme burla grisalha.
Ou se os choca mais, afinal, o corte retroativo das suas pensões, ao fim de uma vida de trabalho e de descontos, julgando que o Estado de Direito lá estaria para os proteger. Ao menos a estes, que tendo chegado ao fim da idade ativa, nada mais podem fazer para mudar a sua situação. Não podem , com 70 ou mais anos, ir à procura de trabalho para compensar os rendimentos que o Governo agora lhes quer tirar. Choque de expetativas? Não, é mais um país a chocar com a parede!
Qual é, em suma, a credibilidade de uma política orçamental de um Governo que faz repetidamente o contrário do que prometeu, e que ainda por cima falha repetidamente todos os seus resultados? Que perde toda a austeridade para a recessão, e que de seguida, não retira nenhuma ilação, e continua no mesmo caminho?
Alguém pode acreditar nos objetivos deste Orçamento? Como pode o Governo achar que o aumento do desemprego e o profundo corte de salários e pensões vai benignamente garantir uma estabilização do consumo privado? Como pode o Governo considerar que o Investimento vai agora crescer, se os empresários, quando inquiridos, sempre referem que não investem, porque não há procura para os seus produtos? Mas alguém pode investir quando as classes médias e os pensionistas continuam esmagados pelo aumento de impostos, e vão ter ainda mais cortes de rendimentos?
Não, a única saída desta situação é parar com a adoção de novas medidas de austeridade recessiva. Dito de forma muito clara, se uma terapia de choque provoca tantos efeitos secundários, que o paciente está a morrer da cura, a solução é dar ainda mais uma dose, ou mudar a terapia?
E não se desculpem com a Troika. Se o Governo propôs à Troika a inclusão no Memorando dos 4.000 milhões de Euros de austeridade para 2014. Se, como ficou bem evidente na reunião da Comissão Parlamentar de Acompanhamento do Memorando, o Governo iniciou esta nova ronda de avaliação trimestral sem se entender quanto ao objetivo do défice para 2014. Como queriam que a Troika aceitasse alguma alteração de trajetória?
Não! O que se exigia do Governo nesta situação tão difícil, era clareza, coesão e liderança. Para mobilizar os portugueses e para convencer os credores de que outra estratégia era possível e necessária.
Mas este é um capital de que já não dispõe o Governo de Portugal.
Porque este Governo não é claro, é dissimulado, piorou aliás muito na nova formação governativa, com os rodriguinhos do Vice Primeiro-Ministro e os problemas com a verdade da Ministra das Finanças.
Coesão, essa degradou-se severamente no episódio da TSU há um ano, e perdeu-se em definitivo na crise política deste Verão.
Liderança, nunca teve, nem um líder dentro do Governo, nem capacidade de liderar e mobilizar o país.
É imperiosa outra estratégia orçamental, mas para tanto seria necessária outra capacidade de mobilizar o país, e até outros parceiros europeus, para lutar na Europa pela mudança de políticas.
Mas para isso o país teria que acreditar no Governo, mas para isso as políticas do Governo teriam que estar do lado do país. Já nada disso se verifica, e essa é a tragédia deste Orçamento.
Este Orçamento é assim a cara do Governo, pouco credível e muito deprimido. Afunda o Governo num mar de contradição, mas, pior, afunda ainda mais o país na recessão.
Anarquia do mais forte
Num blogue cujo elenco reunia actuais assessores do Governo e demais figuras dos aparelhos partidários do PSD e CDS, à mistura com arraia-miúda, podiam encontrar-se exercícios de ódio alucinado como este:
Migo! Migo!!
Há qualquer coisa de insuportavelmente repugnante naquele esganiçamento histérico com que Sócrates se vira para os congressistas berrando: ‘Está comigo todo o Partido Socialista? Vocês estão comigo??’
Livra, até o outro tarado, lá nos Parteitage de Nuremberga, berrava ‘Hinter uns kommt Deutschland!’ – e não hinter mich…
Carlos Botelho às 02:13 | comentar | partilhar | favorito
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12 comentários:
Anónimo a 9 de Abril de 2011 às 09:02
Tal como nos tempos do outro “tarado”, Portugal está a viver a sua própria fase “República de Weimar”, falido e com um Kaiser sem poderes e sem vontade. Os portugueses, tal como os antigos Weimarenses, criaram o seu próprio “tarado” e, ponho a cabeça no cepo, torná-lo-ão, ao tarado, Primeiro Ministro pela terceira vez.
Depois … depois a nossa Weimar cairá de vez e a Nazificação do regime será irremediável.
O que é inquietante é que se fazem comparações com a verdadeira Weimar, de uma forma ligeira, sem verdadeiramente acreditar que é essa situação que realmente vivemos. Expressões como “tiranete” implicam um cinismo por parte daqueles que se julgam superiores a tudo isto. Pois é altura de termos consciência de que o “tarado” não é um tiranete, mas um tirano, perigoso para Portugal e para os Portugueses … os que ainda cá moram, claro está.
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O blogue em causa, o extinto Cachimbo de Magritte, era política e sociologicamente relevante por ser um desses espaços de acesso público onde se deixam a nu as entranhas putrefactas da actual direita partidária. O que lá se mostrava era a versão pública do que diziam uns aos outros nos almoços e na copofonia. E, certamente entre muitas caralhadas e calúnias febris, também podiam cuspir o que se lê acima: Sócrates é igual a Hitler – ou, no caso deste infeliz que assina Carlos Botelho, Sócrates consegue ser ainda pior. Para que não se pense estarmos apenas perante o espasmo canalha de um maluquinho a quem se acabaram os comprimidos, recorde-se que Catroga fez a mesma associação. Outros passarões laranja lembraram-se do Drácula e de Saddam. No fundo, estavam todos a espalhar esta sublime elucubração, uns por deboche e outros por demência: Sócrates é o Diabo.
Entretanto, o que importa reter é o comentário que por sorte ficou registado no Google. Nele se evidencia que as referências à República de Weimar, o período que antecede a instauração do nazismo, já vinham a ser feitas há muito tempo em Portugal. Apareciam como reacção espontânea ao período de crise política e económica começado em 2008, e agravado a seguir às eleições de 2009 e à queda da Grécia e Irlanda em 2010, ou como parte da retórica catastrofista de uma direita sem projecto e, por isso, decadente. Mas essa associação não é fatalmente irracional ou espúria, também pode ser legítima e frutuosa.
De facto, há diversos aspectos que parecem similares entre a situação alemã após a I Guerra Mundial e a actual situação portuguesa no contexto europeu. Os mais referidos têm sido a crise económica, o bloqueio político e a crise de valores. Sem surpresa, o discurso sobre a alteração profunda do regime, de modo a se abandonar o parlamentarismo por troca com o presidencialismo, começou a ser espalhado no espaço público por personalidades mais ou menos, e assim ou assado, ligadas a Cavaco Silva. A invocação de Weimar surgia como tentação irresistível para esses populistas encartados. Isto logo a partir de 2008, resultando da crença de que a oligarquia não conseguiria comprar ou assustar Sócrates e de que ninguém no PSD o conseguiria derrotar em eleições. Os acontecimentos de 2009, onde nem com golpadas escabrosas e inauditas que envolveram magistrados, polícias, jornalistas e a Casa Civil o conseguiram derrubar, provou à saciedade o diagnóstico. Tratava-se de um discurso que reunia fogosos artilheiros da brigada do reumático com celerados e acelerados arrivistas para quem valia tudo por ser tudo ganho para a sua deslumbrada gula, mas não passava de entretenimento despachado na indústria da política-espectáculo.
Patriotas
O Esplendor de Portugal, onde Ronaldo Bonacchi, Virgínia López e Jair Rattner falam de nós como muitos de nós não são capazes.
A concertina das «medidas difíceis»
Passos Coelho deu o mote e os seus ministros e secretários de Estado, assim como os papagaios de serviço (era ver só ontem Frasquilho, Marco António, T. Leal Coelho), repetem até à exaustão que o Governo tem consciência de que tomou “medidas difíceis” com o mais recente orçamento de Estado. Mas afinal o que se entende por medidas difíceis?
Serão difíceis de tomar, no sentido de ser difícil decidir tomá-las? Não, alegremente as decidem, como já vimos em momentos anteriores, que registaram para a posteridade imagens de uma ida descontraída e animada de um tal primeiro-ministro a um espetáculo musical depois de anúncio semelhante. O espírito não mudou, provavelmente só a vergonha.
Terão então as medidas sido difíceis de elaborar? Não, claro que não. É só cortar! Parece-me francamente fácil com uma folha Excel, sobretudo para quem acha que o Estado, o funcionalismo público e os reformados só estorvam.
Talvez sejam difíceis de implementar? Também não. Surpreendentemente não são. Os futuros pobres são dóceis, já estão por tudo, possivelmente já se preparam para ir pedir esmola e mandar as filhas servir. Convém não esquecer que a maioria escolheu votar democraticamente por esta espécie de ditadura dupla sem perceber que, na economia de mercado em que vivem, não poderiam jamais ser culpados de níveis de vida imerecidos, pelo que o castigo devia ser inaceitável. Mas não se podem queixar. E o facto é que se queixam pouco. Além disso, há o segundo nível da ditadura – supostamente a Troika – uma espécie de divindade da qual os atuais governantes são o oráculo, que também os cala. Implementação fácil, portanto.
Então, o mais provável é serem difíceis de suportar? Ah isso são, mas não é a isso que o Governo se refere nem é isso que quer dizer quando fala em medidas difíceis, caso contrário teria acabado a frase e encorajado a revolta, coisa que não faz. O «difícil» fica melhor assim a pairar sem nunca verdadeiramente cair sobre uma vítima definida. Suspeito, porém, que se pretende que seja o próprio Governo.
Não sendo, pois, difíceis de tomar nem de elaborar nem de implementar, então as medidas são difíceis porquê? Na realidade, avançar com a palavra «difícil» é uma forma de suscitar um sentimento de compreensão e dó junto de quem sofrerá as consequências de tais medidas em relação a quem não teve alternativa senão impô-las. O pobre do Governo terá, nesta perspetiva, sofrido horrores para se decidir por todos estes cortes. Sem um líder veemente na oposição, possivelmente esta estratégia terá grande êxito. Combinada com a atribuição de culpas ao anterior governo, até pode funcionar. Mas a verdade verdadinha é que o à-vontade com que se tem vindo a empobrecer e a destruir um país porque se foi eleito com maioria absoluta aponta mais e decididamente para o epíteto de «fácil». É tudo fácil. Mais fácil até do que pensavam. As medidas, embora duras para os portugueses, são fáceis de tomar (são tidas como corretas para os neoliberais), de elaborar e de impor. São fáceis do ponto de vista do impositor, mais fitas menos fitas de Paulo Portas (até isso as torna mais fáceis). Embora há mais de dois anos a fazerem asneiras, a primeira das quais foi empurrar o país para o abismo porque já era hora de subirem ao poder, e a não resolverem problema algum, os atuais governantes divertem-se com as palavras e estão convencidos que dão música.
Encore un effort
Infelizmente, Cristina Esteves interrompeu Sócrates quanto este já ia lançado para continuar a malhar na expressão “regresso a mercado”, a qual é bem capaz de ser o que de melhor ficará da devastadora herança política de Passos, pelo que ficámos privados de saboroso entretenimento.
Mas o actual primeiro-ministro não tem só um discurso macarrónico para português não entender, ele também exibe uma pulsional vocação para ser a esponja do que não domina. Obviamente, nada pesca de Finanças, pelo que teve em Vítor Gaspar o mestre que lhe abria os olhos para o mundo e a fonte onde bebeu os tiques tecnocráticos que decoram a cultura do Banco Central e demais corredores alcatifados onde um gajo dá por si a pensar que chegou lá, que é mesmo ali. Foi também assim que Passos se encheu das suas bojardas ditas liberais, avançando à doida para qualquer medida que lhe digam ser boa para meter na ordem o maligno socialismo que nos levou à bancarrota por causa do rico dinheirinho dado a tanto malandro que nada mais fez do que trabalhar e envelhecer.
No fundo, o problema não está com ele, porque o homem limita-se a fazer o que lhe mandam. O problema está com os outros, esses que o rodeiam e lhe garantem que está quase, que é desta que nos vamos livrar do socialismo e dos seus dois tenebrosos braços: a Constituição e o Estado social.
A traição ou o caos, dizem eles
Assim, o presidente do CDS e vice-primeiro-ministro, que tem conduzido as negociações com a troika e que negociou as oitava e nova avaliações do cumprimento do acordo do memorando, deixou claro aos seus pares de direcção que, depois dos chumbos que têm sido feitos pelo Tribunal Constitucional, ficou explícito para os credores que há uma incompatibilidade entre a leitura que o Tribunal Constitucional faz da Constituição portuguesa, mesmo em estado de emergência financeira, e aquilo que é a transformação do modelo do Estado português que essas mesmas instituições credoras exigem ao país.
Daí que Portas tenha a percepção de que qualquer novo resgate financeiro a Portugal, adquira ou não este nome, irá ser feito com exigências que passam pela explicitação de que os partidos portugueses que podem ocupar o governo aceitam a transformação do perfil constitucional do Estado português. Uma exigência que o líder do CDS considera que nunca será aceite pelo PS. Temendo assim que, perante tal cenário, a governabilidade possa ser substituída pelo caos.
Direcção do CDS teme que segundo resgate imponha um “pacto constitucional”
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Ainda alguém se lembra do berreiro que a direita fez desde 2010 onde jurava que o FMI devia ter sido chamado mais cedo, e muito mais cedo, talvez logo em 12 de Março de 2005, porque só com os estrangeiros a pôr e dispor é que Portugal teria salvação? Foi muita gente junta, gente muito importante, a dizer que Sócrates era um louco por teimar em resistir à capitulação.
Dois anos e meio depois, ficamos agora a saber (fazendo fé nesta notícia) que a salvação consiste na destruição económica e social do País e ainda na “transformação do perfil constitucional do Estado português”. E que será isso ou o caos.
Paulo Portas é uma figura querida na sociedade, o Pedro é bom rapaz, Cavaco é seríssimo. Mas o que estamos a presenciar sob a desorientação e apatia da oposição só tem um nome: traição à Pátria.
Para quem não saiba, a pátria é aquela consciência colectiva de uma unidade onde radica a memória e a justiça. Quem a atraiçoa, atraiçoa-nos a todos, vivos e mortos.
Pires de Lima, muita parra e nenhuma uva
A entrada de Pires de Lima no Governo, aliada à promoção de Portas, levou a que muitos acreditassem que a remodelação ocorrida no Governo iria, de facto, mudar o rumo das políticas seguidas até aí. Seriam eles os principais obreiros do novo ciclo. Portas a coordenar as negociações com a troika e Pires de Lima a impulsionar o crescimento económico. Era o triunfo do CDS dentro da coligação. Um triunfo que durou pouco. Portas não teve argumentos e não alterou uma vírgula na forma de actuar da troika, tendo sido derrotado na sua pretensão de alterar a meta do défice. E quanto a Pires de Lima, tem sido uma nulidade, a única coisa que o vimos fazer desde que tomou posse foi aparecer durante a campanha para as autárquicas a alimentar a esperança dos empresários da restauração de que o IVA desceria para aquele sector, nem que fosse só a partir do segundo semestre de 2014. Tirando isso, e umas visitas a umas empresas, não se dá por ele. Ou seja, o ministério da Economia que antes estava entregue a um ministro cujas ideias mais pareciam anedotas, está agora entregue a um ministro sem ideias absolutamente nenhumas. Se as tem, não teve argumentos para as passar para o Orçamento. Será que a sua simples presença, talvez menos apatetada do que a do seu antecessor, é suficiente para se dizer que a pasta da Economia está em boas mãos? Duvido. Mas não duvido que a conversa da descida do IVA, em plena campanha eleitoral, naquilo que parece ter sido uma útil e oportuna “fuga de informação”, contribuiu para o “penta” que tanta alegria deu a Portas e ao CDS. Para os restantes portugueses, fica a tristeza de não se aproveitar um único ministro deste Governo.
A hecatombe das alternativas
Aquando da discussão do PEC IV, o Governo socialista e o PS também perguntaram à oposição qual era a alternativa. Mais: declararam que estavam dispostos a discutir e acolher alternativas. A oposição não queria discutir alternativas, mas foram rápidos a agitar as suas preferências. Que convergiam todas nesta sublime ideia consagrada pelo Presidente da República na solenidade da sua tomada de posse: já chega de sacrifícios. E depois o País foi para eleições, como toda a oposição entusiasticamente queria.
Hoje, o Governo do empobrecimento e a maioria da vergonha perguntam pelas alternativas. E gozam, arrotam, peidam-se alarvemente em público porque não há ninguém que se chegue à frente com alternativas. Nem sequer as eleições são agora uma alternativa, como as sondagens indicam monotonamente e Belém confirma impavidamente.
Mas há uma alternativa à falta de alternativas. Consiste em pensar. Cada um a pensar por si e a pensar para todos.
Dissimulação ou simulação?
Ministra das finanças
– Chegou-se aqui por causa do que se passou antes de nós chegarmos aqui.
– Governamos para os técnicos da troica.
– Medida louca para reequilibrar a economia: imposto sobre o gasóleo.
– A economia vai crescer mais dos que desceu (o ano passado?).
– Desemprego é para 17%. Vai descer 17, 4%. Acertamos sempre.
– A dívida pública vai aumentar em termos absolutos e diminuir em termos relativos. Acertamos sempre.
– 2013: o défice de 2014 seria sempre o mesmo: 5, 8% do PIB.
– Coisas que o governo não controla: medidas de outros governos (está tudo explicado).
– Temos mais pensionistas, o que é uma “pressão orçamental” (eliminar os velhos?).
– Cortes: vamos também a outros que os velhos não deram para o gasto. A política estava certa, mas aquele buraco rapado não deu para tudo.
– 2014: redução da despesa pública (sempre previsto no memorando, sempre, salários dos funcionários públicos, cortes atuais e retroativos de pensões. Diz que estava no memorando). Deve haver por ali uma cópia do memorando original adulterado.
– Os 70% da despesa que são prestações sociais devem ser vistos como um ato isolado apresentado para desatar ao tiro.
– 3200 milhões de euros: chatices sociais.
– Funcionários públicos: redução entre 2, 5 e 14% a partir de 600 euros. Bem melhor do que em 2011, hum?
– Acalma-te: 600 euros é onde começam os ricos.
– Tribunal Constitucional: ainda não deu para ultrapassar o obstáculo.
– Subsídio de natal em duodécimos: é porque o governo sabe governar o dinheiro melhor do que aqueles que têm direito a ele. Não é por mais nada. Nadinha.
– Convergência, revisão das pensões de sobrevivência, cortes retroativos: tudo justo, equilibrado e motor do prometido crescimento económico.
– 300 milhões de euros na educação e outros na saúde.
Está tudo certo. Não havia mais austeridade.
É que é no plural: austeridades.
As taxas de IRS mais as novas é o quê? Os FP vão perder os dois salários com a conjugação de tudo.
Este OE é indigno: atacar FP que auferem 600 euros é querer uma declaração de inconstitucionalidade.
Vítor Gaspar não podia continuar a ser MF depois de 2 chumbos, certo?
Pelo menos foi o que ele escreveu.
Uma coisa explica a outra
Se PSD e CDS tivessem dito na campanha eleitoral o que realmente pretendiam fazer quando fossem Governo, provavelmente nem teriam elegido um único deputado. Disseram, prometeram, garantiram exactamente o contrário.
Esta evidência não provoca um clamor nacional. E assim também se explica a mansidão cúmplice com que os portugueses aceitaram que uma cultura de calúnias e golpadas tivesse dirigido a luta política de 2008 a 2011. Gostamos de ser toureados, é uma coisa cá nossa.
Afinal, foi o Governo que levou com um choque de expectativas
Depois de Passos Coelho se ter mostrado muito preocupado com o choque de expectativas que o Orçamento poderia provocar nos portugueses, como se os portugueses tivessem alguma expectativa positiva. E de ontem a ministra das Finanças ter dito que, afinal, não vê razões para choque de expectativas, mostrando mais uma vez a extraordinária sintonia destes governantes, eis que, a poucas horas da entrega do Orçamento no Parlamento, é o Presidente angolano que desempata a coisa deixando as expectativas do Governo português em estado de choque.
Lá se vão as expectativas do Governo em relação aos negócios com Angola e respectivo impacto na nossa economia. Provavelmente, significa que o Orçamento, mesmo antes de ter dado entrada no Parlamento, já tem um buraco nas expectativas.
Ajoelhaste? Então, reza
O professor de Economia na Universidade Católica de Luanda, Justino Pinto de Andrade, diz que as declarações de Rui Machete deram “uma má imagem de Portugal” em Angola.
No quadro das relações entre Portugal e Angola, presente e futuro não podem ser encarados da mesma forma. Se, no presente, Portugal pode ganhar com uma cumplicidade com Angola, no futuro o mais certo é vir a “perder”. Quem o diz é Justino Pinto de Andrade, professor de Economia da Universidade Católica de Luanda e líder do Bloco Democrático, para quem a forma como “as elites políticas” de Lisboa se relacionam com o poder em Luanda passou a linha da cumplicidade para o campo da “subserviência”.
O académico e político da oposição diz que as declarações do ministro dos Negócios Estrangeiros português Rui Machete à Rádio Nacional de Angola (RNA) dão “uma má imagem” de Portugal em Angola. Algo que vem na sequência de comportamentos anteriores e que, ao contrário do que podem pensar os políticos portugueses, “não ajuda a fomentar as relações entre os dois países”.
A cumplicidade entre Portugal e Angola pode trazer “um maior fluxo” de comércio e investimentos, mas “só no curto prazo”, considerou o analista ao PÚBLICO. “Se olhar para o futuro, Portugal vai perder muito. As autoridades angolanas não respeitam quem se põe de joelhos. É uma forma muito negativa de relacionamento.”
Sinal disso é a forma violenta e depreciativa como o Jornal de Angola reage a notícias que comprometem o poder de Luanda.
Público, 8 de Outubro
Também de viva voz
Inteligência digital, procura-se
Consta que jornalistas e publicitários, a que ainda podemos juntar os profissionais de meios, são dos mais inteligentes mariolas que andam por aí à solta. Consumindo constantemente abundante informação, alguns até sendo cultos (dizem, os próprios), e exibindo uma pulsão para a conversa de merda que rivaliza com a dos advogados e a dos deputados do PSD e CDS, dir-se-ia que estavam em condições de compreender sem esforço este fenómeno singelo: quando se coloca um rectângulo, ou uma página inteira, à nossa frente só porque nos apanharam a querer ver outra coisa, tal experiência resulta numa irritada e muito rápida fuga do obstáculo em causa, gerando quase sempre uma amnésia e, quanto muito, dando origem a uma antipatia pelo produto ou marca responsável por mais um aumento de frustração no nosso quotidiano.
O que (não) se faz com a publicidade digital é a prova provada de que a inteligência, regra geral, continua a ser uma actividade analógica.
Não há dinheiro
A justificação para o empobrecimento desmiolado e rapace consiste nesta monolítica ideia de que não há dinheiro. Se não há dinheiro, dizem-nos a rir, então a democracia está suspensa, a Constituição fica obsoleta, a comunidade tem de abdicar do contrato social que é seu fundamento. Não há dinheiro, declara o primário primeiro-ministro na sua voz de barítono, porque ele foi gasto ao longo de muitos anos por gente muito má, muito tonta. Gente que andou por aí a espalhar escolas, hospitais, estradas, transportes, serviços públicos os mais variados em vez de ter guardado o dinheiro, assim reza a lógica do actual poder. Uma lógica para fanáticos e broncos.
E era mesmo isso que uma oposição opositora estaria agora a perguntar aos portugueses. Se estes também preferem viver sem escolas, hospitais, estradas, transportes, serviços públicos os mais variados, mas num país com dinheiro.
Comunismo com sabor a laranja
José Cesário, um paradigmático representante do PSD profundo, actualmente na função de secretário de Estado das Comunidades, fez um rasgado elogio ao deputado comunista João Ramos por este, em vez de lavrar a sua indignação e pedir a demissão de Machete olhando-o nos olhos, ter preferido fazer perguntas sobre o ensino de português no estrangeiro.
Este Ramos ou se enganou na ideologia ou na sala do Parlamento.
Revolution through evolution
Kissing Helps Us Find the Right Partner – And Keep Them
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Women’s Desire for a “Thigh Gap” May Fuel Eating Disorders
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Delayed Aging Is Better Investment Than Cancer, Heart Disease
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Innovation in Renewable-Energy Technologies Is Booming
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