Valerá a pena perder tempo com António Barreto? Como presidente de uma fundação que faz estudos sobre Portugal, de vez em quando sim, convém que se perca algum tempo. Até porque irrita (e a tentativa é de que a irritação acabe) constatar a falta de qualidade dos nossos supostos intelectuais. Não se aprende nada e isso é quando sequer se percebe o que dizem e porquê. Lê-los é de facto uma perda de tempo. Mas talvez se ganhe alguma coisa em criticá-los. É uma questão de higiene. Hoje dá uma entrevista ao jornal i. Exceção feita a três ou quatro observações pertinentes e do senso comum (CGTP, Merkel), aproveita o ensejo para dar largas às suas habituais contradições, enviesamentos, omissões ou superficialidades. Não há espaço, nem paciência dos leitores, para as comentar uma a uma. Remeto, pois, para o jornal e passo a sintetizar, na medida do possível, a minha crítica.
A novilíngua do Governo, nomeadamente a recente expressão “choque de expectativas”, é ocasião para falar em falta de sentimentos (mas numa formulação confusa) e de passar imediatamente à linguagem do líder da oposição (e lembrem-se como eu não o defendo) e da sua “linguagem construída”, desviando a meio da resposta a questão para esse outro campo ao lado e aí a concluindo. Mas o pior é que, neste domínio, ele próprio não se revela diferente. Quando questionado sobre a insistência de Coelho na palavra “verdade”, revela-se totalmente incapaz de abandonar os eufemismos, como o de dizer que Coelho tem “um problema com a verdade”, recusando-se a chamar os bois pelos nomes. Abundam ou não abundam as provas de que o homem Coelho ainda não fez outra coisa que não mentir desde que foi eleito líder do PSD, já lá vão três anos? Abundam. Jornais, vídeos, é só consultar. Para um sociólogo, deveria ser material bastante e a ter em primeiríssima conta. Porém, para Barreto, «mentir» é capaz de ser um termo com “sentimento” a mais (“não quero acusá-lo de nada”, diz).
Considera que as pessoas foram alertadas tarde demais para os efeitos da austeridade e só o foram pelas manifestações. Acreditará ele no que está a dizer? A maior parte das pessoas foi enganada. No entanto, houve pelo menos um político que alertou, e de que maneira, para o que aí vinha e tentou evitá-lo. Porém, quanto a isso, silêncio absoluto. Até porque Barreto foi daqueles que achavam que, correndo com o “diabo”, cortando umas gorduras impessoais ao Estado e chamando o FMI, a coisa se endireitava. Continua a dizer que não há alternativa se não pagar as dívidas, ignorando as causas e as responsabilidades europeias do seu agravamento e as nuances que tal problemática ganha num contexto de moeda única e embarcando assim na linguagem mais básica utilizada pela direita, como se os Estados não tivessem que contrair eternamente dívida.
Sobre a legitimidade do Governo, arranja uma explicação confusa, mas que desemboca em acusações contra quem considera o Governo ilegítimo, defendendo que tais pessoas não podem ficar impunes (“É muito grave dizer uma coisa destas. Não se pode dizer coisas muito graves e ficar impune.”). Tribunal, castigo, cadeia, portanto. E indigna-se com os que pedem que Cavaco seja julgado. Barreto deve achar que o egotismo do presidente e o jogo de mentiras, golpes rasteiros e total irresponsabilidade que conduziram o país à penúria não são suficientemente graves para que alguém expluda na praça pública.
Generaliza a aversão portuguesa a coligações, não se percebendo se está a criticar o PSD por não ter querido coligar-se em 2009, ou se propositadamente ignora os convites feitos na altura por Sócrates aos outros partidos e, em 2010, a Passos Coelho. É que há quem tenha aversão e há quem não tenha. Mas a generalização, claro, é sociologicamente mais interessante.
Diz que a UE foi conivente com “os nossos disparates”. Aqui, ignora que não se tratou apenas de conivência, mas antes do “core business” da formação da zona euro (o crédito barato, os swaps que não foram só vendidos aqui, etc.), que deu muito e bom dinheiro a ganhar a muita gente.
Quanto às perdas para os trabalhadores decorrentes de uma eventual saída do euro, finge ignorar quanto poder de compra e empregos já perderam os portugueses desde o começo da crise e sobretudo deste o pedido de resgate por permanecerem no euro e a falta de perspetivas que tal situação nos impõe. A resposta é, pois, superficial. São todas.
Passa alegremente por cima dos 10%, 20% , que na realidade chegaram quase a 50%, de austeridade que o Governo somou ao estabelecido no primeiro Memorando de Entendimento, como se tivessem tido pouca importância e poucas consequências.
Mas o que o jornal destaca em título são as suas declarações sobre a necessidade de se rever a Constituição. Barreto entende que cada governo deve poder fazer o que muito bem entende, mesmo acabar com o SNS, (mais uma vez fazendo-nos crer que este Governo, por exemplo, declarou claramente no seu programa eleitoral que acabaria com o Serviço Nacional de Saúde e que os portugueses sufragaram essa proposta), desde que a Constituição não impeça um sucessor de inverter a situação. No caso do SNS, de o reinstaurar. Assim, sem mais. Acaba-se com o SNS e, passados quatro anos, cria-se outro de raiz. Possivelmente, para Barreto, o ideal seria uma Constituição de um artigo só – “Considerando que há diferentes maneiras de ver o mundo, consagra-se a liberdade total de o poder político legislar segundo as suas convicções”. É isto um pensador?