Democracia, cresce com o uso

Desde os anos 80 que se regista um aumento da abstenção em todas as democracias europeias. E o grupo etário que cada vez vota menos é o do eleitorado mais jovem. Causas? As que têm sido repetidas à exaustão: aumento da desconfiança nos Governos e descredibilização dos políticos, aumento da complexidade dos problemas políticos e diminuição da soberania pelo crescimento da globalização e da integração europeia numa entidade supranacional, violência e irresponsabilidade da imprensa na exploração mediática dos escândalos com políticos cujo sensacionalismo ofusca e anula a discussão das questões da governação e impõe a tirania das alienantes lógicas do consumo da imagem e do voyeurismo sobre a privacidade das figuras públicas. Os políticos são dados como incompetentes e corruptos pelo simples facto de estarem na política, eis o que se cristaliza nesta cultura populista alimentada pela indústria da política-espectáculo e pelos grupos e ideologias extremistas para quem o centro político, a comunidade e a racionalidade são os alvos a abater.

As consequências são vastas. Por um lado, as populações tendem a ficar apáticas à medida que se vão sentindo enganadas pela discrepância entre as retóricas eleitoralistas e a realidade da prática governativa. O valor psicológico do voto diminui perante a percepção de ter cada vez menos influência na decisão dos Executivos, podendo até gerar um cálculo em que é mais compensador para o indivíduo abandonar por completo o esforço de entender o mundo à sua volta e mergulhar numa ignorância voluntária. Por outro lado, as crises económicas e sociais são o combustível perfeito para a erupção dos populismos e seu cardápio de violação dos direitos humanos, ódio às Constituições democráticas e desprezo pelo Estado de direito.

É a democracia que está ameaçada, pois, como sempre esteve e estará. E se não conhecemos ninguém que tenha qualquer solução pronta a aplicar para este tempo histórico e seus desafios onde nos calhou a vez de ser, há pelo menos algo que permanece imutável desde que as pedras começaram a ser lascadas por mãos iguais às nossas: no que venha a acontecer neste ponto ridículo e glorioso do Universo, uma parte será aquela que quisermos que seja. Mas qual?

14 thoughts on “Democracia, cresce com o uso”

  1. aquela parte, na qual somos emissores e receptores, da cultura emergente onde interessa manter, o que há a ser mantido, acrescentar e melhorar. essa parte tem tanto de individual como de colectivo, é uma espécie de transfusão com dois sentidos em que do confronto entre o velho e o novo sai o viço.

  2. Eh la o sr. Valupi ta ca um doutor! Temos sociilogo! O barreto q se cuide, fonix! Eu imagino se o val tivesse acesso ao core do pordata, ui jesus, tinhamos fornadas de teses de doutoramento todos os dias. Val dava-nos a aspirina da sua verdade absoluta e unica perspetiva possivel da realidade em 3 tomas diarias. Val, estamos tao fartos do passos do cavaco e do socrates dos comunas e dos bloqistas como de ti. Pá, punhetas a grilos, é esse o teu papel no meio disto tudo, como um dia vais entender.

  3. Também posso dar um palpite. Olhando à nossa volta, jovens e não jovens atiram-se de cabeça para uma luta sem tréguas contra as ditaduras onde elas ainda persistem (algumas vão passando despercebidas). Foi assim na am’erica latina está a ser assim na “primavera árabe”. Então porque se aquietam os jovens e ouros menos jovens nas chamadas democracias “consolidadas”? Talvez seja por isso mesmo, porque estão “consolidadas” , com todos os diteitos e mais alguns inscritos nas constituições, mas, na prática, para “democrata ver”. Centenas de milhões apodrecem na pobreza da democracia que lhes serviram como salvaguarda de direitos e garantias. A causa do desalento e do desencanto com a democracia pode estar no convencimento de que a democracia era um objectivo em si mesmo. Alcançado esse objectivo, era só entrar em velocidade de cruzeiro. Se esta democracia não dá mais e esta era o melhor que havia para as sociedades, então que se foda isto tudo. Qual “aprofundar” a democracia, quando o problema real é a miséria mais degradante paredes-meias com o fausto cuspido na cara de multidões famintas. As democracias produziram, alegremente, “os mercados”, com a mesma dsenvoltura com fizeram a democracia que agora se ajoelha diante dessa máfia poderosa. Vija-se a triste figura de Hollande que chegou ao poder com ailusão de que ia governar uma democracia abocanhada pelos mercados.

  4. nesse tempo detergente que abraçaste como teu também, enapa, não falta espaço para o outro, aquele que serve o propósito destes textos, o do infinito poético da palavra.

  5. Ola,

    Como dizes se a democracia esta ameaçada isso é, em parte, porque ela não cumpre. Porque ela não consegue ter efectividade significativa para muitas pessoas.

    Ha para isso razões externas, que são as que apontas. Como é evidente, ha que combatê-las. Isso é indiscutivel. Ha mesmo que lhes fazer uma guerra implacavel.

    Mas não podemos esquecer as razões internas, até porque essas são, em principio, aquelas sobre as quais temos um poder mais imediato. Com pedagogia, com seriedade, com ética, com responsabilidade, devemos todos velar pelo respeito do jogo democratico. Isso passa também por saber ter medida quando procuramos esclarecer, tacto quando tentamos convencer, sensibilidade quando queremos vencer.

    A democracia não se alcança em estrondosas epifanias. Conquista-se, e merece-se, quotidianamente.

    Boas
    Mas

  6. olinda, ao ver essa foto, veio-me à memoria a sonia braga nos bons velhos! essa praia,cheira a norte de viana do castelo.

  7. tou-ta ver, tu és o calhau ao fundo e a gaja que aparece na foto andava a fazer a limpeza da areia branca. deve ter sido um dia divertido a derreter banha au soleil.

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